A roupa estendida é prova de quem ali vive. Quase toda de cor preta, macacos de cor azul de trabalho em obras, toalhas de diversas cores que já fizeram conjunto, um dia, no enchoval feito à pressa para a filha a quem se desejou melhor sorte.
Flores não faltam, são várias, a querer fugir pela janela, quase tombando pelo parapeito que as suporta.Deixam-se ficar, e assistem à tristeza de quem ali espreita. São muitas vezes o cinzeiro do cigarro que ali termina, e a comida do passarito, empoleirado numa gaiola suja, que vai penicando as suas folhas.
Os carros passam, as pesssoas olham-na, indiferentes, fuma na janela do 5º andar, num prédio já sem cor, sem vida própria, onde todas as janelas são como as dela.
Engordou sabe-se lá porquê... A comida é pouca, o trabalho é muito, talvez pelos filhos, pelos partos que teve, foram muitos e com dor. Com dor de quem dá vida a mais vidas sem felicidade.
O marido chegará, mais tarde, muito mais tarde, os filhos, não sabe se chegarão. Deu-lhes o melhor, deu-lhes a vida, eles não querem espreitar por aquela janela, pensam que já viram tudo, fazia-lhes bem olhar o mundo, mas o mundo deles é outro.
Um dia, vou passar ali, vou olhar e de certeza que não a vou ver, partirá com a certeza de que poderia ter tido uma vida melhor, mas acredito, quem nem por um minuto também ela foi feliz. E é desse pequeno minuto que se irá recordar sempre.