Olho para eles. Imagino-me assim, quem sabe, um dia....
Vieram para comer, olham a ementa, ele escolhe a mais barata, ela aceita com duvidas.
Não falam, sussuram entre meias palavras que está tudo caro. Têm dinheiro, não têm muito tempo de vida, mas não faz mal, tem sempre que se poupar.
A comida vem, ele come até ao fim porque, já que pediu tem que comer, ela nem por isso... Já não lhe apetece, como na vida, não quer assumir o seu fim.
Ela é bonita, foi bonita, está bem arranjada e pintou os lábios de vermelho, será que ainda o quer agradar? Ele está vestido a rigor mas não foi para ela que se vestiu assim, tenho a certeza.
O espectáculo começa, continuam a não falar. No fim dizem mal, que não, não gostaram. Como poderiam gostar? Nesta idade já nada presta, naquele tampo é que era bom. Mas esse levou-o sabe Deus quem... Talvez ele próprio.Como levou a beleza, as conversas animadas, o trabalho, o esforço, a pressa do dia a dia. Ficam ali, não saem, não têm pressa. Ele paga. Ela olha-o e deve pensar porque faz aquela cara enquanto passa um cheque onde também a caneta não tem pressa.
Penso como será quando chegarem a casa.
Ainda bem que os vi. Apesar de tudo ainda se têm, nem que seja para sentir o silêncio.
Nem que seja para chorar quando um partir e o outro partir com ele.
Um dia vão-se encontrar e rir, rir muito pois repararam em mim, vão achar que pensei neles e até que tive pena. mas de facto, coitada de mim.....