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Contos-->Em ti a forças que buscas -- 16/02/2004 - 22:04 (MARIA PETRONILHO) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos


Silvio entrou na sala, feliz por vê-la vazia.
Desabotoou os botões da bata e retirou do pescoço o colar que de há muito compunha a sua indumentária.
Depôs o estetoscópio, em cima da mesa e sentou-se na cadeira giratória.
Cotovelos apoiados sobre a mesa, mergulhou o rosto na concha das mãos abertas. Respirou fundo.
Há muito não tinha o privilégio de ficar a sós consigo.
Tentou não pensar em nada, abster-se de tudo: de Natália, das crianças, das tramóias em que se envolvia, ao tentar sobrepô-las.
Da história clínica dos que padeciam naquela hora.
Tentou encontrar-se no meio do mundo que o submergia.
Não conseguia.
Tanto recomendava a todos que se abstivessem de sentir-se tensos...
Tantos conselhos e comprimidos, tantos truques aprendidos ao longo da vida, ensinados dia a dia... Mas consigo mesmo não resultavam!
Que médico lhe valia?
Sentia-se frágil como uma criança, uma criança desvalida.
Lembrou-se do episódio de Dirce, em que não acreditara:
Dirce estivera em coma. Por onze dias, mantiveram-na viva no termo da esperança.
Um dia abrira os olhos diante dele e dissera:
- Doutor! Eu sei que o senhor que esteve todo este tempo ao meu lado. Quanto tempo se passou, desde que adormeci?
Olhou-a surpreso. Dirce de nada podia lembrar-se.
Ela olhou-o nos olhos, bem fundo, com uma lucidez de assustar.
- Sei o que pensa, doutor. Mas eu via tudo enquanto dormia, pode crer.
Via o senhor e o ir e vir do pessoal.
Via a enfermaria ser limpa todas as manhãs. Via as enfermeiras trocar os frascos de soro. Via o senhor, sério, a meu lado.
- Estás enganada, Dirce, descansa – disse-lhe ele, na voz da rotina fatigada... Tantas crenças vãs, tantas histórias forjadas...
- É verdade, doutor!
Eu estava deitada mas flutuava na sala.
- Lembra-se daquele dia em que telefonou à sua outra mulher, Vânia?
Sílvio não disse nada, porém o seu rosto falou, porque Dirce prosseguiu:
- O doutor estava zangado. Falava no telemóvel e dizia
- Vânia, pára com essa conversa de uma vez por todas! Sempre te disse que por mais que me custe jamais abandonarei Natália e aos meus filhos para ficar contigo!
Sempre o soubeste. Pára com isso de uma vez se queres manter o nosso bom relacionamento!
Dirce viu o assombro patente na cara do médico.
- É verdade ou não é que o doutor teve esta conversa no telemóvel enquanto estava aqui no quarto e eu dormia?
Agora Sívio pensava, mais uma vez, nos mistérios insondáveis com que lidava.
Tinham-lhe ensinado tanto, tinha lido, escutado... mas onde, mas em que canto se encontrava o cerne que separa a morte da vida?

E ralava-se Natália com a roupa, com a mobília, com a ascensão social da vizinha, com o estado das sebes do jardim, que eram obrigação dele e não cuidava!
E preocupava-se Vânia com o seu “futuro imediato”, como dizia... porque envelhecer é inevitável e a beleza é o seguro de toda a mulher que não é casada com o homem da sua vida, mas da vida de outra... e de qual delas era ele o homem, afinal?
E de si, quem cuidava?
Qual delas se preocupava a sério com o seu íntimo, lhe perguntava como se sentia ao fim de cada dia de luta, lhe prestava cuidados em vez de lhos pedir?

E Sílvio chorou na concha das próprias mãos, encontrando finalmente o ansiado regaço no âmago de si mesmo!

Almada, Portugal
16/2/2004
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