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Ensaios-->O Livro Negro do Comunismo - Adquira a obra -- 11/11/2008 - 00:20 (Félix Maier) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
Preâmbulo

F. Maier

"O Livro Negro do Comunismo" trata do maior crime já cometido contra a humanidade. As esquerdas de todo o mundo boicotaram essa obra e é difícil encontrá-la nas livrarias e nas bibliotecas. Adquira o livro antes de ele sumir para sempre, seja com a Editora Bertrand do Brasil, seja em algum sebo perdido por aí.

Leia, abaixo, a apresentação da obra, principalmente sobre os crimes cometidos na União Soviética, na China e no Camboja, além de outros países como Cuba, Coréia do Norte, Vietnã, etc., que deixou um rasto de sangue de mais de 100.000.000 de mortos.


***

O Livro Negro do Comunismo

JEAN-LOUIS PANNÉ, ANDRZEJ PACZKOWSKI, KAREL BARTOSEK, JEAN-LOUIS MARGOLIN

O LIVRO NEGRO DO COMUNISMO

Tradução CAIO MEIRA
BERTRAND BRASIL
Título original: Le livre noir du communisme Obra publicada sob a direção de Charles Ronsac Capa: Raul Fernandes
Editoração: Art Line 1999
Impresso no Brasil
Printed in Braztl
CIP-Brasil. Catalogação-na-fonte Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ
L762 O livro negro do comunismo: crimes, terror e repressão / Stéphane
Courtois... [et ai.]; com a colaboração de Remi Kauffér... [et ai.]; tradução Caio Meira. - Rio de Janeiro: Bertrand Brasil,
1999. 924p., [32] p. de estampas: il.
Tradução de: Lê livre noir du communisme ISBN 85-286-0732-1
1. Comunismo — História — Século XX. 2. Perseguição política. 3. Terrorismo. I. Courtois, Stéphane, 1947-.
CDD - 320.532
99-1236 CDU-321.74

Todos os direitos reservados pela:
BCD UNIÃO DE EDITORAS S.A.
Av. Rio Branco, 99 - 20° andar - Centro
20040-004 - Rio de Janeiro - RJ
Tel: (OXX21) 3263-2082 Fax: (OXX21) 3263-6112

Adquira o livro que a esquerda deu um jeito de retirar das livrarias e das bibliotecas do Brasil e conheça o maior crime já cometido contra a humanidade.


Crimes, terror e repressão

Orelhas da capa:

Outubro de 1917: o golpe de estado bolchevique significou bem mais do que a queda do czarismo e a subida ao poder de um
grupo de políticos idealistas. A revolução liderada por Lenin tornou-se o ícone que representaria o começo de uma nova era
para a humanidade, anunciando uma sociedade mais justa e um homem mais consciente de sua relação com seu semelhante.
Novembro de 1989: a queda do Muro de Berlim e a consequente abertura dos arquivos dos países comunistas apareceram
para o mundo como a derrocada final do sonho comunista. O livro negro do comunismo traz a público o saldo estarrecedor
de mais de sete décadas de história de regimes comunistas: massacres em larga escala, deportações de populações inteiras
para regiões sem a mínima condição de sobrevivência, expurgos assassinos liquidando o menor esboço de oposição, fome e
miséria provocadas que dizimaram indistintamente milhões de pessoas, enfim, a aniquilação de homens, mulheres, crianças,
soldados, camponeses, religiosos, presos políticos e todos aqueles que, pelas mais diversas razões, se encontraram no
caminho de implantação do que, paradoxalmente, nascera como promessa de redenção e esperança. Os autores, historiadores
que permanecem ou estiveram ligados à esquerda, não hesitam em usar a palavra genocídio, pois foram cerca de 100 milhões
de mortos! Esse número assustador ultrapassa amplamente, por exemplo, o número de vítimas do nazismo e até mesmo o das
duas guerras mundiais somadas. Genocídio, holocausto, portanto, confirmado pelos vários relatos de sobreviventes e,
principalmente, pelas revelações dos arquivos hoje acessíveis. O terror - o Terror Vermelho - foi o principal instrumento
utilizado por comunistas tanto para a tomada do poder quanto para a sua manutenção, e também por grupos de oposição que
jamais chegaram ao governo. Os fatos demonstram: o terrorismo de oposição e o terrorismo de Estado, com frequência
praticados contra o seu próprio povo, são as grandes características do comunismo no século XX. Obstinados, pragmáticos,
carismáticos, os líderes comunistas, que guiariam o mundo a seu destino inelutável, têm revelada a sua face sombria: Lenin,
Stalin, Mão Zedong, Pol Pot, Ho Chi Minh, Fidel Castro e muitos outros tornam-se os responsáveis diretos pelas atrocidades
cometidas em nome do ideal comunista. Sob seus olhares zelosos, os "obstáculos" - qualquer homem, cidade ou povo - foram
sendo exterminados com violência e brutalidade. O livro negro do comunismo não quer justificar nem encontrar causas para
tais atrocidades. Tampouco pretende ser mais um capítulo na polémica entre esquerda e direita, discutindo fundamentos ou
teorias marxistas. Trata-se, sobretudo, de dar nome e voz às vítimas e a seus algozes. Vítimas ocultas por demasiado tempo
sob a máquina de propaganda dos PCs espalhados pelo mundo. Algozes muitas vezes festejados e recebidos com toda a
pompa pelas democracias ocidentais. Todos que de algum modo tomaram parte na aventura comunista neste século estão,
doravante, obrigados a rever as suas certezas e convicções. Encontra-se, assim, uma das principais virtudes deste livro: à luz
dos fatos aqui revelados, o Terror Vermelho deve estar presente na consciência dos que ainda crêem num futuro para o
comunismo.

O editor e os autores dedicam este livro à memória de François Furet, que havia concordado em redigir o seu prefácio.


SUMÁRIO

OS CRIMES DO COMUNISMO 11

PRIMEIRA PARTE UM ESTADO CONTRA O POVO

Paradoxos e equívocos de Outubro 53
O "braço armado da ditadura do proletariado" 69
O Terror Vermelho 90
A "guerra suja" 102
De Tambov à grande fome 134
Da trégua à "grande virada" 161
Coletivização forçada e deskulakização 178
A grande fome 193
"Elementos estranhos à sociedade" e ciclos repressivos 205
O Grande Terror (1936-1938) 223
O império dos campos de concentração 244
O avesso de uma vitória 259
Apogeu e crise do Gulag 278
O último complô 290
15- A saída do Stalinismo 299
À guisa de conclusão 311

SEGUNDA PARTE REVOLUÇÃO MUNDIAL, GUERRA CIVIL E TERROR

1. O Komintern em ação 321
A revolução na Europa 321
Komintern e guerra civil 325
Ditadura, incriminação dos opositores e repressão no
interior do Komintern 338
O grande terror atinge o Komintern 350
Terror no interior dos partidos comunistas 354
A caça aos "trotskistas" 361
Antifascistas e revolucionários estrangeiros vítimas do terror
na URSS 366
Guerra civil e guerra de libertação nacional 382
2. A sombra do NKVD sobre a Espanha 394
A linha geral dos comunistas 395
"Conselheiros" e agentes 398
"Depois das calúnias... as balas na nuca" 401
Maio de 1937 e a liquidação do POUM 402
O NKVD em ação 407
Um "julgamento de Moscou" em Barcelona 410
Dentro das Brigadas Internacionais 411
Exílio e morte na "pátria dos proletários" 415
3. Comunismo e terrorismo 418

TERCEIRA PARTE A OUTRA EUROPA VÍTIMA DO COMUNISMO

1. Polónia, a "nação inimiga" 429
O caso do POW (Organização Militar Polonesa) e a "operação
polonesa" do NKVD (1933-1938) 430
Katyn, prisões e deportações (1939-1941) 434
O NKVD contra a Armia Krajowa (Exército Nacional) 440
Bibliografia 443
Polónia 1944-1989: o sistema de repressão 444
À conquista do Estado ou o terror de massa (1944-1947) 444
A sociedade como objetivo de conquista ou o terror
generalizado (1948-1956) 449
O socialismo real ou o sistema de repressão seletiva (1956-1981).... 454
O estado de guerra, uma tentativa de repressão generalizada 459
Do cessar-fogo à capitulação, ou a confusão do poder (1986-1989) 461
Bibliografia 462
2. Europa Central e do Sudeste 464
Terror "importado"? 464
Os processos políticos contra os aliados não comunistas 469
3
A destruição da sociedade civil 479
O sistema concentracionário e a "gente do povo" 486
Os processos dos dirigentes comunistas 498
Do "pós-terror" ao pós-comunismo 514
Uma gestão complexa do passado 528
Bibliografia selecionada 537

QUARTA PARTE COMUNISMOS DA ÁSIA: ENTRE "REEDUCAÇÃO" E MASSACRE

1. China: uma longa marcha na noite 545
Uma tradição de violência? 548
Uma revolução inseparável do terror (1927-1946) 554
Reforma agrária e expurgos urbanos (1946-1957) 561
Os campos: submissão e engenharia social 562
As cidades: "tática do salame" e expropriações 567
A maior fome da história (1959-1961) 576
Um "Gulag" escondido: o laogai 590
A Revolução Cultural: um totalitarismo anárquico (1966-1976) 606
A era Deng: desagregação do terror (depois de 1976) 639
Tibet: um genocídio no teto do mundo? 644
2. Coreia do Norte, Vietnã e Laos: a semente do Dragão 650
Crimes, terror e segredo na Coreia do Norte 650
Antes da constituição do Estado comunista 651
Vítimas da luta armada 652
Vítimas comunistas do Partido-Estado norte-coreano 654
As execuções 656
Prisões e campos 657
O controle da população 663
Tentativa de genocídio intelectual? 664
Uma hierarquia estrita 666
A fuga 667
Atividades no exterior 668
Fome e miséria 669
Balanço final 670
Vietnã: os impasses de um comunismo de guerra 672
Laos: populações em fuga 683
3. Camboja: no país do crime desconcertante 686
A espiral do horror 688
Variações em torno de um martirológio 699
A morte cotidiana no tempo de Pol Pot 711
As razões da loucura 734
Um genocídio? 755
Conclusão 758
Seleção bibliográfica Ásia 764

QUINTA PARTE O TERCEIRO MUNDO

1. A América Latina e a experiência comunista 769
Cuba. O interminável totalitarismo tropical 769
Nicarágua: o fracasso de um projeto totalitário 789
Peru: a "longa marcha" sangrenta do Sendero Luminoso 800
Orientações bibliográficas 806
2. Afrocomunismos: Etiópia, Angola, Moçambique 808
O comunismo de cores africanas 808
O Império Vermelho: a Etiópia 813
Violências lusófonas: Angola, Moçambique 823
A República Popular de Angola 824
Moçambique 830
3. O comunismo no Afeganistão 835
O Afeganistão e a URSS de 1917 a 1973 836
Os comunistas afeganes 839
O golpe de Estado de Mohammed Daud 840
O golpe de Estado de abril de 1978 ou a "Revolução de Saur" 841
A intervenção soviética 846
A amplitude da repressão 849
PORQUÊ? 861
OS AUTORES 897
4

ÍNDICE ONOMÁSTICO 901

OS CRIMES DO COMUNISMO

[por Stéphane Courtois |
"A vida perdeu para a morte, mas a memória ganha seu combate contra o nada."

Tzvetan Todorov Os abusos da memória

Já se escreveu que "a história é a ciência da infelicidade dos homens";1 nosso século de violência parece confirmar essa
fórmula de maneira eloquente. É verdade que nos séculos precedentes poucos povos e poucos Estados estiveram isentos da
violência de massa. As principais potências europeias estiveram implicadas no tráfico de negros; a república francesa
praticou uma colonização que, apesar de algumas contribuições, foi marcada por numerosos episódios repugnantes, e isso até
o seu término. Os Estados Unidos permanecem impregnados de uma certa cultura da violência que se enraíza em dois dos
mais terríveis crimes: a escravidão dos negros e o extermínio dos índios.

Não resta dúvida de que, a esse respeito, nosso século deve ter ultrapassado seus predecessores. Um olhar retrospectivo
impõe uma conclusão incómoda: este foi o século das grandes catástrofes humanas - duas guerras mundiais, o nazismo, sem
falar das tragédias mais circunscritas, como as da Arménia, Biafra, Ruanda e outros países. Com efeito, o Império Otomano
entregou-se ao genocídio dos arménios, e a Alemanha ao dos judeus e dos ciganos. A Itália de Mussolini massacrou os
etíopes. Os tchecos têm dificuldades em admitir que seu comportamento em relação aos alemães dos Sudetos, em 1945-1946,
não esteve acima de qualquer suspeita. A própria Suíça é hoje alcançada por seu passado como o país que gerenciava o ouro
roubado pelos nazistas dos judeus exterminados, apesar desse comportamento não ser em nenhuma medida tão atroz quanto
o do genocídio.

O comunismo insere-se nessa faixa de tempo histórico transbordante de tragédias, chegando mesmo a constituir um de seus
momentos mais intensos e mais significativos. O comunismo, um dos fenómenos mais importantes deste curto século XX -
que começa em 1914 e termina em Moscou em 1991 -, encontra-se no centro desse quadro. Um comunismo que preexistia ao
fascismo e ao nazismo, e que sobreviveu a eles, atingindo os quatro grandes continentes.
O que designamos precisamente com a denominação "comunismo"?
1 Raymond Queneau, Une histoire modele, Gallimard, 1979, p. 9.
5

Devemos, desde já, introduzir uma distinção entre a doutrina e a prática. Como filosofia política, o comunismo existe há
séculos, e quem sabe, há milénios. Pois não foi Platão quem, em A República, fundou a ideia de uma cidade ideal na qual os
homens não seriam corrompidos pelo dinheiro e pelo poder, na qual a sabedoria, a razão e a justiça comandariam? Não foi
um pensador e estadista tão eminente quanto Sir Thomas More, chanceler da Inglaterra em 1530, autor da famosa Utopia e
morto sob o machado do carrasco de Henrique VIII, um outro precursor da ideia dessa cidade ideal? O método utópico
parece perfeitamente legítimo como instrumento crítico da sociedade. Ele participa do debate das ideias - oxigénio de nossas
democracias. Entretanto, o comunismo aqui abordado não se situa no céu das ideias. É um comunismo bem real, que existiu
numa determinada época, em determinados países, encarnado por líderes célebres - Lenin, Stalin, Mão, Ho Chi Minh, Castro,
etc., e, mais próximos da história política francesa, Maurice Thorez, Jacques Duelos, Georges Marchais.

Qualquer que seja o grau de envolvimento da doutrina comunista anterior a 1917 na prática do comunismo real -
retornaremos a esse ponto -, foi este quem pôs em prática uma repressão metódica, chegando a instituir, em momentos de
grande paroxismo, o terror como modo de governo. Isso faz com que a ideologia seja inocente? Os espíritos ressentidos ou
escolásticos sempre poderão sustentar que o comunismo real não tem nada a ver com o comunismo ideal. Evidentemente,
seria absurdo imputar a teorias elaboradas antes de Cristo, durante a Renascença ou mesmo o século XDC, eventos que
surgiram no decorrer do século XX. Entretanto, como escreve Ignazio Silone, "na verdade, as revoluções são como as
árvores, elas são reconhecidas através de seus frutos". Não foi sem razão que os social-democratas russos, conhecidos como
"bolcheviques", decidiram, em novembro de 1917, chamar a si próprios de "comunistas". Tampouco foi por acaso que
erigiram junto ao Kremlin um monumento em glória daqueles que eles consideravam seus precursores: More ou Campanella.

Excedendo os crimes individuais, os massacres pontuais, circunstanciais, os regimes comunistas erigiram, para assegurar o
poder, o crime de massa como verdadeiro sistema de governo. É certo que no fim de um período de tempo variável — alguns
anos no Leste Europeu ou várias décadas na URSS ou na China — o terror perdeu seu vigor, os regimes estabilizaram-se na
gestão da repressão cotidiana, censurando todos os meios de comunicação, controlando as fronteiras, expulsando os
dissidentes. Mas a "memória do terror" continuou a assegurar a credibilidade e, consequentemente, a eficácia da ameaça
* O autor se refere aqui a três líderes do Partido Comunista Francês. (N. T.)
repressiva. Nenhuma das experiências comunistas, populares durante algum tempo no Ocidente, escapou a essa lei: nem a
China do "Grande Timoneiro", nem a Coreia de Kim II Sung, nem mesmo o Vietnã do "gentil Tio Ho" ou a Cuba do
flamejante Fidel, ladeado pela pureza de um Che Guevara, não se esquecendo da Etiópia de Mengistu, da Angola de Neto e
do Afeganistão de Najibullah.

Ora, os crimes do comunismo não foram submetidos a uma avaliação legítima e normal, tanto do ponto de vista histórico
quanto do ponto de vista moral. Sem dúvida, trata-se aqui de uma das primeiras vezes que se tenta uma aproximação do
comunismo, perguntando-se sobre esta dimensão criminosa como uma questão ao mesmo tempo global e central. Poderão
retorquir-nos que a maioria dos crimes respondia a uma "legalidade", ela própria sustentada por instituições pertencentes aos
regimes vigentes, reconhecidos no plano internacional e cujos chefes eram recebidos com grande pompa por nossos próprios
dirigentes. Mas não ocorreu o mesmo com o nazismo? Os crimes que expomos neste livro não se definem em relação à
jurisdição dos regimes comunistas, mas ao código não escrito dos direitos naturais da humanidade.

A história dos regimes e dos partidos comunistas, de sua política, de suas relações com as sociedades nacionais e com a
comunidade internacional não se resume a essa dimensão criminosa, ou mesmo a uma dimensão de terror e de repressão. Na
URSS e nas "democracias populares" depois da morte de Stalin, na China após a morte de Mão, o terror atenuou-se, a
sociedade começou a retomar suas cores, a "coexistência pacífica" - mesmo sendo ainda "uma continuação da luta de classes
sob outras formas" — tornou-se um dado permanente da vida internacional. Entretanto, os arquivos e os testemunhos
abundantes mostram que o terror foi, desde sua origem, uma das dimensões fundamentais do comunismo moderno.

Abandonemos a ideia de que tal execução de reféns, tal massacre de trabalhadores revoltados, tal hecatombe de camponeses
mortos de fome, foram somente "acidentes" conjunturais, próprios a tais países ou a tal época. O nosso método ultrapassa a
especificidade de cada terreno e considera a dimensão criminosa como uma das dimensões próprias ao conjunto do sistema
comunista, durante todo o seu período de existência.

Do que falaremos, de quais crimes? O comunismo cometeu inúmeros: inicialmente, crimes contra o espírito, mas também
crimes contra a cultura universal e contra as culturas nacionais. Stalin ordenou a demolição de centenas de igrejas em
Moscou; Ceaucescu destruiu o coração histórico de Bucareste para construir edifícios e traçar perspectivas megalomaníacas;
Pol Pot fez com que fosse desmontada pedra por pedra a Catedral de Phnom Penh e abandonou
à selva os templos de Angkor; durante a revolução cultural maoísta, tesouros inestimáveis foram quebrados ou queimados
pelas Guardas Vermelhas. Entretanto, por mais graves que tenham sido essas destruições, a longo prazo, para as nações
envolvidas e para a humanidade inteira, em que medida elas pesam em face do assassinato em massa de pessoas, de homens,
de mulheres, de crianças?

Portanto, consideramos apenas os crimes contra as pessoas, os que constituem a essência do fenómeno do terror. Esses
respondem a uma nomenclatura comum, mesmo que tal prática seja mais acentuada neste ou naquele regime: execução por
meios diversos — fuzilamento, enforcamento, afogamento, espancamento e, em alguns casos, gás de combate, veneno ou
acidente de automóvel; destruição pela fome — indigência provocada e/ou não socorrida; deportação - a morte podendo
ocorrer no curso do transporte (em caminhadas a pé ou em vagões para animais) ou nos locais de residência e/ou de trabalhos
forçados (esgotamento, doença, fome, frio). O caso dos períodos ditos de "guerra civil" é mais complexo: não é fácil
distinguir o que decorre do combate entre poder e rebeldes e o que é massacre da população civil.

Contudo, podemos estabelecer os números de um primeiro balanço que pretende ser somente uma aproximação mínima e
que necessitaria ainda de uma maior precisão, mas que, de acordo com estimativas pessoais, dá uma dimensão da grandeza e
permite sentir a gravidade do assunto:

-URSS, 20 milhões de mortos,
-China, 65 milhões de mortos,
-Vietnã, l milhão de mortos,
-Coreia do Norte, 2 milhões de mortos,
-Camboja, 2 milhões de mortos,
-Leste Europeu, l milhão de mortos,-América Latina, 150.000 mortos,
-África, l ,7 milhão de mortos,-Afeganistão, 1,5 milhão de mortos,
-Movimento comunista internacional e partidos comunistas fora dopoder, uma dezena de milhões de mortos.

O total se aproxima da faixa dos cem milhões de mortos.

Essa escala de grandeza recobre situações de grande disparidade. É incontestável que, em valor relativo, o "trofeu" vai para o
Camboja, onde Pol Pot, em três anos e meio, conseguiu matar da maneira mais atroz - a fome, a tortura — aproximadamente
um quarto da população total do país. Entretanto, a experiência maoísta choca pela amplitude das massas atingidas. Quanto à
Rússia leninista ou stalinista, ela dá calafrios por seu lado experimental, porém perfeitamente refletido, lógico, político.

Essa abordagem elementar não poderia esgotar a questão cujo aprofundamento implica a utilização de um método
"qualitativo" que repouse na definição de crime. Tal definição deve apoiar-se em critérios "objetivos" e jurídicos. A questão
do crime cometido por um Estado foi tratada pela primeira vez, do ponto de vista jurídico, em 1945, no tribunal de
Nuremberg instituído pelos Aliados para julgar os crimes nazistas. A natureza desses crimes foi definida pelo artigo 6 dos
estatutos do tribunal, que designa três crimes maiores: os crimes contra a paz, os crimes de guerra, os crimes contra a
humanidade. Ora, um exame do conjunto dos crimes cometidos sob o regime leninis-ta/stalinista, e também no mundo
comunista em geral, conduz-nos ao reconhecimento de cada uma dessas três categorias.

Os crimes contra a paz são definidos pelo artigo 6a e concernem "a dire-ção, a preparação, o início ou o prosseguimento de
uma guerra de agressão, ou de uma guerra de violação de tratados, garantias ou acordos internacionais, ou a participação num
plano concertado ou num complô para a consecução de qualquer um dos atos precedentes". Stalin cometeu
incontestavelmente esse tipo de crime, pelo menos quando negociou secretamente com Hitler, através dos tratados de 23 de
agosto e de 28 de setembro de 1939, a partilha da Polónia e a anexação dos Países Bálticos, da Bucovina do Norte e da
Bessarábia à URSS. O tratado de 23 de agosto, libertando a Alemanha do perigo de um combate em duas frentes, provocou
diretamente o início da Segunda Guerra Mundial. Stalin perpetrou um novo crime contra a paz ao agredir a Finlândia em 30
de novembro de 1939. O ataque imprevisto da Coreia do Norte contra a Coreia do Sul em 25 de junho de 1950 e a
intervenção maciça do exército da China comunista são atos da mesma ordem. Os métodos de subversão, assumidos durante
um tempo pelos partidos comunistas comandados por Moscou, poderiam igualmente ser assimilados aos crimes contra a paz,
pois sua ação desembocou em algumas guerras; assim, o golpe de Estado comunista no Afeganistão acarretou, em 27 de
dezembro de 1979, uma intervenção militar maciça da URSS, inaugurando uma guerra que ainda não terminou.

Os crimes de guerra são definidos no artigo 6b como "as violações das leis e costumes da guerra. Essas violações
compreendem - sem estarem limitadas a isto, porém — o assassinato, maus-tratos ou deportação para trabalhos forcados, ou
ainda com outro objetivo, das populações civis dos territórios ocupados, o assassinato ou maus-tratos de prisioneiros de
guerra e de pessoas no mar, a execução de reféns, a pilhagem dos bens públicos ou privados, a destruição sem motivos de
cidades e povoados ou a devastação não justificada por exigências militares". As leis e costumes de guerra estão inscritos em
convenções, sendo que a mais conhecida dentre elas é a Convenção de Haia de 1907, que estipula: "Em tempos de guerra, as
populações e os beligerantes permanecem sob o império dos princípios do direito internacional, tais como os que resultam dos usos estabelecidos pelas nações
civilizadas, as leis da humanidade e as exigências da consciência pública."

Ora, Stalin ordenou ou autorizou numerosos crimes de guerra, sendo a execução da quase-totalidade dos oficiais poloneses
aprisionados em 1939 -dos quais os 4.500 mortos de Katyn são apenas um episódio — o crime mais espetacular. Mas outros
crimes de amplitude ainda maior passaram despercebidos, como o assassinato ou a morte no Gulag* de centenas de milhares
de militares alemães aprisionados entre 1943 e 1945; a isto acrescentam-se os estupros em massa de mulheres alemãs pelos
soldados do Exército Vermelho na Alemanha ocupada; sem falar da pilhagem sistemática de todo o parque industrial dos
países ocupados pelo Exército Vermelho. Incorrem no mesmo artigo 6b o aprisionamento, o fuzilamento ou a deportação das
resistências organizadas que combatiam abertamente o poder comunista: por exemplo, os militares das organizações
polonesas de resistência antinazista (POW, AK), os membros das organizações de partidários bálticos e ucranianos armados,
as resistências afegãs, etc.

A expressão "crimes contra a humanidade" apareceu pela primeira vez em 18 de maio de 1915, numa declaração dá França,
da Inglaterra e da Rússia contra a Turquia, em razão do massacre dos arménios, qualificado como "novo crime da Turquia
contra a humanidade e a civilização". As extorsões nazistas levaram o tribunal de Nuremberg a redefinir a noção em seu
artigo 6c: "O assassinato, o extermínio, a escravidão, a deportação e todo ato inumano cometido contra toda e qualquer
população civil, antes ou durante a guerra, ou ainda perseguições por motivos políticos, raciais ou religiosos, quando estes
atos ou perseguições forem cometidos na sequência de todo crime que entre na competência do tribunal, ou que esteja ligado
a este crime, quer violem ou não o direito interno do país onde foram perpetrados."

Em seu requisitório em Nuremberg, François de Menthon, procurador geral francês, destacava a dimensão ideológica dos
crimes:

"Proponho-me a demonstrar-lhes que toda criminalidade organizada e sistemática decorre do que me permitirei chamar de
crime contra o espírito, quero dizer, de uma doutrina que, negando todos os valores espirituais, racionais ou morais, sob os
quais os povos tentaram há milénios fazer progredir a condição humana, visa a devolver a Humanidade à barbárie, não mais
a barbárie natural e espontânea dos povos primitivos, mas a barbárie demoníaca, já que consciente dela própria e
* Gulag é o nome dado aos campos de concentração na URSS. (N. T.)
utilizando para os seus fins todos os meios materiais postos à disposição dos homens pela ciência contemporânea. Esse
pecado contra o espírito é a falta original do nacional-socialismo da qual todos os crimes decorrem. Essa doutrina monstruosa
é a do racismo. [...] Que se trate de crime contra a Paz ou de crimes de guerra, não nos encontramos diante de uma
criminalidade acidental, ocasional, que os eventos pudessem, talvez, não apenas justificar, mas explicar, encontramo-nos sim
diante de uma criminalidade sistemática, que decorre direta e necessariamente de uma doutrina monstruosa, servida pela
vontade deliberada dos dirigentes da Alemanha Nazista."

François de Menthon explicava também que as deportações destinadas a assegurar mão-de-obra suplementar para a máquina
de guerra alemã e as que visavam a exterminar os oponentes eram apenas "consequência natural da doutrina nacionalsocialista,
segundo a qual o homem não tem nenhum valor em si quando não está a serviço da raça alemã". Todas as
declarações no tribunal de Nuremberg insistiam numa das características maiores do crime contra a humanidade: o fato de
que a potência do Estado esteja a serviço de políticas e de práticas criminosas. Porém, a competência do tribunal estava
limitada aos crimes cometidos durante a Segunda Guerra Mundial. Era então indispensável ampliar a noção jurídica a
situações não implicadas nessa guerra. O novo Código Penal francês, adotado em 23 de julho de 1992, define assim o crime
contra a humanidade: "a deportação, a escravidão, ou a prática maciça e sistemática de execuções sumárias, de sequestro de
pessoas seguido de sua desaparição, da tortura ou de atos inumanos, inspirados por motivos políticos, filosóficos, raciais ou
religiosos, e organizados em execução de um plano concertado que atinja um grupo de população civil" (grifo nosso).

Ora, todas essas definições, em particular a recente definição francesa, aplicam-se a numerosos crimes cometidos no período
de Lenin, e sobretudo no de Stalin, e também por todos os países de regime comunista, com exceção (sob reserva de
verificação) de Cuba e da Nicarágua dos sandinistas. A condição principal parece incontestável: os regimes comunistas
trabalharam "em nome de um Estado praticante de uma política de hegemonia ideológica". É exatamente em nome de uma
doutrina, fundamento lógico e necessário do sistema, que foram massacrados dezenas de milhões de inocentes sem que
nenhum ato particular possa lhes ser censurado, a menos que se reconheça que era criminoso ser nobre, burguês, kulak,
ucraniano, ou mesmo trabalha-
* Camponês russo que dispunha de terras e haveres, tendo a seu serviço outros camponeses em regime de verdadeira
escravidão. (N. T.)
dor ou... membro do Partido Comunista. A intolerância ativa fazia parte do programa posto em prática. É assim que Tomski,
o grande líder dos sindicatos soviéticos, declarava em 13 de novembro de 1927, no Trud. "Em nosso país, outros partidos
também podem existir. Mas eis o princípio fundamental que nos distingue do Ocidente; a situação imaginável é a seguinte:
um partido reina, todos os outros estão na prisão."2

A noção de crime contra a humanidade é complexa e recobre crimes designados formalmente. Um dos mais específicos é o
genocídio. Após o genocídio dos judeus pelos nazistas, e a fim de tornar mais preciso o artigo 6c do tribunal de Nuremberg, a
noção foi definida por uma convenção das Nações Unidas, de 9 de dezembro de 1948: "O genocídio é compreendido como
um dos atos infracitados, cometidos na intenção de destruir, todo ou em parte, um grupo nacional, étnico, racial ou religioso,
como tal: a) mortes de membros do grupo; b) atentado grave à integridade física ou mental de membros do grupo; c)
submissão intencional do grupo às condições de existência que acarretem sua destruição física, total ou parcial; d) medidas
que visem a impedir nascimentos no seio do grupo; e) transferências forçadas de crianças do grupo a um outro grupo."

O novo Código Penal francês dá ao genocídio uma definição ainda mais ampla: "O fato, a execução de um plano concertado
que tenda à destruição total ou parcial de um grupo nacional, étnico racial ou religioso, ou de um grupo determinado a partir
de qualquer outro critério arbitrário" (grifo nosso). Essa definição jurídica não contradiz a abordagem mais filosófica de
André Frossard, para quem "há crime contra a humanidade quando se mata alguém sob o pretexto de que ele nasceu."3 Em
seu curto e magnífico relato intitulado Toutpasse, Vassili Grossman diz a respeito de Ivan Grigorievitch, seu herói oriundo do
campo: "Ele permaneceu o que ele era em seu nascimento, um homem".4 É precisamente esse o motivo de ele sucumbir ao
golpe do terror. A definição francesa permite sublinhar que o genocídio não é sempre do mesmo tipo - racial, como no caso
dos judeus - e que também pode visar grupos sociais. Em um livro publicado em Berlim, em 1924 - intitulado La terreur
rouge en Russie-, o historiador e socialista russo Serguei Melgunov cita Latzis, um dos primeiros chefes da Tcheka (a polícia
política soviética) que, em 19 de novembro de 1918, deu as seguintes diretivas a seus esbirros: "Nós não fazemos uma guerra
específica contra as pessoas. Nós exterminamos a burguesia enquanto classe. Não procurem, na investigação, documentos e
provas do que
Citado por Kostas Papaionannou, Lês Marxistes, J`ai Lu, 1965.
Lê Crime contre l`humanité, Robert Laffont, 1987.
4 Tout passe, Julliard-L`Age de 1`homme, 1984.
o acusado fez, em atos ou palavras, contra a autoridade soviética. A primeira questão que vocês devem colocar-lhe é a que
classe ele pertence, qual é sua origem, sua educação, sua instrução, sua profissão."^

Desde o início, Lenin e seus camaradas se situaram no contexto de uma "guerra de classes" sem perdão, na qual o adversário
político, ideológico, ou mesmo a população recalcitrante eram considerados - e tratados - como inimigos e deveriam ser
exterminados. Os bolcheviques decidiram eliminar legalmente, mas também fisicamente, toda oposição ou toda resistência -
e mesmo a mais passiva - ao seu poder hegemónico, não somente quando esta era formada por grupos de adversários
políticos, mas também por grupos sociais propriamente ditos — tais como a nobreza, a burguesia, a intelligentsia, a Igreja,
etc., e também as categorias profissionais (os oficiais, os policiais...) -conferindo, por vezes, uma dimensão de genocídio a
esses atos. Desde 1920, a "descossaquização" corresponde abertamente à definição de genocídio: o conjunto de uma
população com implantação territorial fortemente determinada, os cossacos, era exterminado, os homens fuzilados, as
mulheres, as crianças e os idosos deportados, os povoados destruídos ou entregues a novos habitantes não cossacos. Lenin
assimilava os cossacos à Vendéia,* durante a revolução francesa, e desejava aplicar-lhes o tratamento que Gracchus Babeuf,
o "inventor" do comunismo moderno, qualificava como "populicídio".6

A "deskulakização" de 1930-1932 não foi senão a retomada, em grande escala, da "descossaquização", com a novidade de a
operação ser reivindicada por Stalin, para quem a palavra de ordem oficial, alardeada pela propaganda do regime, era
"exterminar os kulaks enquanto classe". Os kulaks que resistiam à coletivização eram fuzilados, os outros eram deportados
junto com suas mulheres, crianças e os idosos. De fato, eles não foram todos diretamente exterminados, mas o trabalho
forçado ao qual foram submetidos, nas zonas não desbravadas da Sibéria ou do Grande Norte, deixou-lhes pouca chance de
sobrevivência. Várias centenas de milhares deixaram ali suas vidas, mas o número exato de vítimas permanece desconhecido.

Quanto à grande fome ucraniana de 1932-1933, relacionada à resistência das populações rurais à coletivização forçada, ela
em poucos meses provocou a morte de seis milhões de pessoas.

Aqui, o genocídio "da classe" junta-se ao genocídio "da raça": matar de fome uma criança kulak ucraniana deliberadamente
coagida à indigência pelo regime stalinista "vale" o matar de fome uma criança judia do gueto de
5 Jacques Baynac, La Terreur sous Lénine, Lê Sagittaire, 1975, p. 75.
* Guerras de Vendée ou Vendéia, insurreição contra-revolucionária provocada em 1793, entre os camponeses da Bretanha,
Poitou e Anjou, pela constituição civil do clero e o recrutamento em massa. (N. T.)
6 Gracchus Babeuf, La Guerre de Vendée et lê systeme de dépopulation, Tallandier, 1987.
Varsóvia coagida à indigência pelo regime nazista. Essa constatação de modo algum repõe em causa a "singularidade de
Auschwitz": a mobilização dos mais modernos recursos técnicos e a implantação de um verdadeiro "processo industrial" - a
construção de uma "usina de extermínio", o uso de gases, a cremação. Mas destaca uma particularidade de muitos regimes
comunistas: a utilização sistemática da "arma da fome"; o regime tende a controlar a totalidade do estoque de comida
disponível e, por um sistema de racionamento por vezes bastante sofisticado, só o distribui em função do "mérito" e do
"demérito" de uns e de outros. Este procedimento pode mesmo provocar gigantescas situações de indigência. Lembremo-nos
de que, no período posterior a 1918, somente os países comunistas conheceram essa grande fome que levou à morte de
centenas de milhares, ou quem sabe até de milhões de pessoas. Ainda nesta última década, dois países da África que se dizem
marxistas-leninistas -Etiópia e Moçambique — sofreram dessas indigências assassinas.
Um primeiro balanço global desses crimes pode ser esboçado:

- fuzilamento de dezenas de milhares de reféns, ou de pessoas aprisionadas sem julgamento, e massacre de centenas de
milhares de trabalhadoresrevoltados entre 1918 e 1922;
- a fome de 1922, provocando a morte de cinco milhões de pessoas;
- execução e deportação dos cossacos da região do Don em 1920;
- assassinato de dezenas de milhares de pessoas em campos de concentração entre 1919 e 1930;
- execução de cerca de 690.000 pessoas por ocasião do Grande Expurgode 1937-1938;
- deportação de dois milhões de kulaks (ou supostos kulaks) em 1930-1932;
- destruição por fome provocada e não socorrida de seis milhões deucranianos em 1932-1933;
- deportação de centenas de milhares de poloneses, ucranianos, bálticos,moldávios e bessarábios em 1939-1941, e posteriormente em 1944-1945;
- deportação dos alemães do Volga em 1941;
- deportação-abandono dos tártaros da Criméia em 1943;
- deportação-abandono dos chechenos em 1944;
- deportação-abandono dos inguches em 1944;
- deportação-abandono das populações urbanas do Camboja entre1975 e 1978;
- lenta destruição dos tibetanos pelos chineses, desde 1950, etc.

Não terminaríamos nunca de enumerar os crimes do leninismo e do stalinismo, com frequência reproduzidos de modo quase
idêntico pelos regimes de Mão Zedong, Kim II Sung, Pol Pot.

Permanece uma difícil questão epistemológica: o historiador está apto a usar, em sua caracterização e em sua interpretação,
fatos ou noções tais como "crime contra a humanidade" ou "genocídio", relativos, como vimos acima, ao domínio jurídico?

Não seriam essas noções demasiado dependentes de imperativos conjunturais - a condenação do nazismo em Nuremberg -
para serem integradas a uma reflexão histórica que vise estabelecer uma análise pertinente a médio prazo? Por outro lado,
essas noções não estão demasiado carregadas de "valores" suscetíveis de "falsearem" o objetivo da análise histórica?

Sobre o primeiro ponto, a história deste século mostrou que a prática do massacre de massa, feita por Estados ou por
Partidos-Estados, não foi uma exclusividade nazista. Bósnia e Ruanda provam que essas práticas perduram e que elas
constituirão, sem dúvida, uma das características principais deste século.

Sobre o segundo ponto, não se trata de modo algum de um retorno às concepções históricas do século XIX, segundo as quais
o historiador procurava bem mais "julgar" do que "compreender". Contudo, diante das imensas tragédias humanas
diretamente provocadas por certas concepções ideológicas e políticas, pode o historiador abandonar todo princípio de
referência a uma concepção humanista — ligada à nossa civilização judaico-cristã e à nossa cultura democrática - como, por
exemplo, o respeito pela pessoa humana? Numerosos e renomados historiadores, tais como Jean-Pierre Azema num artigo
sobre "Auschwitz"? ou Pierre Vidal-Naquet com respeito ao processo de Touvier,8 não hesitam em utilizar a expressão
"crime contra a humanidade" para qualificar os crimes nazistas. Parece-nos, então, que não é ilegítimo utilizar essas noções
para caracterizar alguns dos crimes cometidos pelos regimes comunistas.

Além da questão da responsabilidade direta dos comunistas no poder, coloca-se a questão da cumplicidade. O Código
Criminal canadense, modificado em 1987, considera, em seu artigo 7 (3.77), que as infrações de crime contra a humanidade
incluem as infrações de tentativa, cumplicidade, conselho, ajuda e encorajamento ou de cumplicidade de fato? São também
assimilados aos crimes contra a humanidade - artigo 7 (3.76) - "a tentativa, o complô, a cumplicidade após o fato, o conselho,
a ajuda ou o encorajamento a respeito desse fato" (grifo nosso). Ora, dos anos 20 aos anos 50, os comunistas do mundo
/«J.-P. Azema, F. Bédarida, Dictíonnaire dês années de tourmente, Flammarion, 1995, p. 777.
Réflexions sur lê génocide, La Découverte, 1995, p. 268; P. Vidal-Naquet escreve, aliás:"Falamos de Katyn e do massacre,
em 1940, dos oficiais poloneses prisioneiros dos soviéticos.Katyn entra perfeitamente na definição de Nuremberg".
Denis Szabo, Alain Joffé, "La répression dês crimes contre l`humanité et dês crimes du genreau Canada", in Mareei Colin, Lê
Crime contre 1`humanité, Erès, 1996, p. 65.
inteiro e várias outras pessoas aplaudiram com entusiasmo a política de Lenin e, em seguida, a de Stalin. Centenas de
milhares de homens engajaram-se nas fileiras da Internacional Comunista e nas seções locais do "partido mundial da
revolução". Nos anos 50-70, outras centenas de milhares de homens veneraram o "Grande Timoneiro" da revolução chinesa e
cantaram os grandes méritos do Grande Salto Adiante ou os da Revolução Cultural. Já em nosso meio, muita gente se
felicitou quando Pol Pot tomou o poder.10 Alguns responderão que "não sabiam". É verdade que nem sempre foi fácil saber,
já que os regimes comunistas fizeram do segredo uma das estratégias de defesa privilegiadas. Mas, frequentemente, essa
ignorância era tão-somente resultado de uma cegueira devida à crença militante. E, desde os anos 40 e 50, muitos fatos eram
conhecidos e incontestáveis. Ora, se vários desses bajuladores abandonaram seus ídolos de ontem, foi com silêncio e
discrição. Mas o que pensar do profundo amoralismo que há em abandonar um engajamento público no maior dos segredos,
sem tirar dele qualquer lição?

Em 1969, um dos pioneiros no estudo do terror comunista, Robert Conquest, escreveu: "O fato de tantas pessoas `engolirem`
efetivamente [o Grande Expurgo] foi, sem dúvida, um dos fatores que tornaram possível qualquer Expurgo. Os processos,
principalmente, teriam tido muito pouco interesse se não tivessem sido validados por certos comentadores estrangeiros - ou
seja, `independentes`. Estes últimos devem, pelo menos em parte, arcar com a responsabilidade de uma certa cumplicidade
para com essas mortes políticas, ou, em todo caso, para com o fato de que elas vieram a se repetir quando a primeira
operação, o processo Zinoviev [de 1936], foi beneficiada com um crédito injustificado."11 Se atribuímos, através desse
parâmetro, uma cumplicidade moral e intelectual a um certo número de não-comunistas, o que dizer da cumplicidade dos
comunistas? E não nos lembramos de ver Louis Aragon arrepender-se publicamente por ter, num poema de 1931, evocado a
vontade da criação de uma polícia política comunista na França,12 mesmo que, algumas vezes, ele tenha criticado o período
stalinista.

Joseph Berger, antigo membro do Komintern, ele próprio "expurgado" e conhecedor dos campos, cita a carta recebida de
uma antiga deportada do Gulag, mas que permaneceu membro do Partido após ter retornado dos campos de concentração:

"Os comunistas de minha geração aceitaram a autoridade de Stalin. Eles aprovaram seus crimes. Isso vale não somente para
os comu-
10 Ver a este respeito a análise de Jean-Noêl Darde, Lê Ministèrc de Ia Véríté: histoire d`un géno-cide dam lejournal,
UHumanité, Lê Seuil, 1984.
11 "La Grande Purge", Preuves, fevereiro-março de 1969.
12 Ver Louis Aragon, Prélude au temps dês ceríses.
nistas soviéticos, mas também para aqueles do mundo inteiro, e essa nódoa nos marca individual e coletivamente. Só
podemos apagá-la fazendo com que isso nunca mais se reproduza. O que aconteceu? Havíamos perdido a razão ou somos
traidores do comunismo? A verdade é que todos nós, inclusive os que estavam mais próximos a Stalin, fizemos dos crimes o
contrário do que eles realmente eram. Nós os consideramos como uma importante contribuição para a vitória do socialismo.

Acreditamos que tudo o que fortalecia a potência política do Partido Comunista na União Soviética e no mundo era uma
vitória para o socialismo. Não imaginávamos jamais que pudesse haver um conflito no interior do partido entre a política e a
ética."^

Por sua vez, Berger desenvolve essa afirmação: "Estimo que se podemos condenar a atitude daqueles que aceitaram a política
de Stalin, o que não foi o caso de todos os comunistas, é bem mais difícil censurá-los por não terem tornado esses crimes
impossíveis. Acreditar que homens, mesmo aqueles com postos mais elevados, podiam opor-se a seus desejos é não
compreender nada do que foi o seu despotismo bizantino." Berger tem a "desculpa" de ter estado na URSS e, portanto, de ter
sido tragado pela máquina infernal, sem poder escapar dela. Mas e os comunistas da Europa Ocidental que não sofriam
nenhum constrangimento direto do NKVD*, que cegueira fez com que continuassem fazendo a apologia do sistema e de seu
chefe? Seria preciso que a poção mágica que os mantinha em submissão fosse potente! Em sua notável obra sobre a
Revolução Russa — La Tragédie Soviétique —, Martin Malia traz um pouco de luz ao assunto falando "desse paradoxo: um
grande ideal que levou a um grande crime."14 Annie Kriegel, uma outra grande analista do comunismo, insistia nessa
articulação quase necessária das duas faces do comunismo: uma luminosa e outra escura.

A esse paradoxo, Tzvetan Todorov traz uma primeira resposta: "O habitante de uma democracia ocidental queria pensar no
totalitarismo como algo completamente estranho às aspirações humanas normais. Ora, o totalitarismo não teria se mantido
por tanto tempo, não teria arrastado tantos indivíduos em sua senda, se ele fosse assim. Ele é, ao contrário, uma máquina de
tremenda eficácia. A ideologia comunista propõe a imagem de uma sociedade melhor e nos incita a desejá-la: não faz parte
da identidade humana o desejo de transformar o mundo em nome de um ideal? [...] Além do mais, a sociedade comu-
13 Joseph Berger, Lê Naufrage d`unegénération, Denoêl, "Lettres nouvelles", 1974, p. 255. * Sigla das palavras russas que
significam "Comissariado do Povo para os Negócios Interiores", organismo criado em 1934 após a dissolução da GPU
(Polícia Política Soviética de 1922 a 1934). (N. T.) MLeSeuil, 1995, p. 15.
nista priva o indivíduo de suas responsabilidades: são sempre "eles" quem decidem. Ora, a responsabilidade é
frequentemente um fardo pesado a ser carregado. [...] A atraçâo pelo sistema totalitário, experimentada inconscientemente
por numerosos indivíduos, provém de um certo medo da liberdade e da responsabilidade - o que explica a popularidade de
todos os regimes autoritários (é a tese de Erich Fromm em O medo da liberdade); o que existe é uma `servidão voluntária`, já
dizia La Boétie".1*

A cumplicidade daqueles que enveredaram na servidão voluntária não foi — e continua não sendo — abstrata e teórica. O
simples fato de aceitar e/ou assumir uma propaganda destinada a esconder a verdade demonstrava e continua demonstrando
uma cumplicidade ativa. Pois tornar público é o único meio - ainda que não seja sempre eficaz, como acaba de mostrar a
tragédia de Ruanda — de lutar contra os crimes de massa cometidos em segredo, protegidos dos olhares indiscretos.

A análise dessa realidade central do fenómeno comunista no poder -ditadura e terror - não é simples. Jean Ellenstein definiu o
fenómeno stalinis-ta como uma mistura de tirania grega e despotismo oriental. A fórmula é sedutora, mas não dá conta do
caráter moderno dessa experiência, de seu alcance totalitário, distinto das formas anteriormente conhecidas de ditadura. Um
rápido sobrevoo comparativo permitirá uma melhor compreensão.
Poder-se-ia inicialmente evocar a tradição russa da opressão. Os bolcheviques combatiam o regime terrorista do Czar, que,
entretanto, empalidece diante dos horrores do bolchevismo no poder. O Czar denunciava os prisioneiros políticos diante de
uma verdadeira justiça; a defesa podia exprimir-se tanto quanto ou ainda mais do que a acusação e tomar o testemunho de
uma opinião pública nacional inexistente no regime comunista e, sobretudo, de uma opinião pública internacional. Os
prisioneiros e os condenados se beneficiavam de uma regulamentação nas prisões, e o regime de desterro, ou mesmo o de
deportação, era relativamente leve. Os deportados podiam partir com suas famílias, ler e escrever o que quisessem: caçar,
pescar e se encontrarem, nos momentos de lazer, com seus companheiros de "infortúnio". Lenin e Stalin puderam
experimentar essa situação pessoalmente. Mesmo as Recordações da casa dos mortos, de Dostoievski, que tanto chocaram a
opinião pública na época de sua publicação, parecem anódinas em face dos horrores do comunismo. Seguramente, houve, na
Rússia dos anos 1880 a 1914, tumultos populares e insurreições duramente reprimidos por um sistema político arcaico.
Porém, de 1825 a 1917, o número total de pessoas condenadas à
UTzvetanTodorov, UHommedfpaysé, Lê Seuil, 1996, p. 36.
morte nesse país, por sua opinião ou sua ação política, foi de 6.360, dos quais 3.932 foram executados - 191 de 1825 a 1905,
e 3.741 de 1906 a 1910 -quantidade que já havia sido ultrapassada pelos bolcheviques em março de 1919, após somente
quatro meses de exercício de poder. O balanço da repressão czarista é, assim, sem paralelo com o do terror comunista.

Entre os anos 20 e 40, o comunismo censurou violentamente o terror praticado pelos regimes fascistas. Um rápido exame dos
números mostra que as coisas não são assim tão simples. O fascismo italiano, o primeiro em ação e também quem
abertamente reivindicou para si o título de "totalitário", aprisionou e com frequência maltratou seus adversários políticos.

Entretanto, ele raramente chegou a cometer assassinatos, de modo que, na metade dos anos 30, a Itália tinha algumas
centenas de prisioneiros políticos e várias centenas de confínati — postos em residência vigiada nas ilhas —, mas, é verdade,
tinha também dezenas de milhares de exilados políticos.

Até a guerra, o terror nazista visou alguns grupos; os oponentes ao regime - principalmente comunistas, socialistas,
anarquistas, alguns sindicalistas — foram reprimidos de maneira aberta, encarcerados em prisões e sobretudo internados em
campos de concentração, submetidos a humilhações severas. No total, de 1933 a 1939, aproximadamente 20.000 militantes
de esquerda foram assassinados com ou sem julgamento nos campos e prisões; sem falar dos acertos de contas internos ao
nazismo, como a "noite dos punhais" em junho de 1934. Outra categoria de vítimas destinadas à morte foram os alemães que
supostamente não correspondiam aos critérios raciais do "grande ariano loiro" - doentes mentais, deficientes físicos, idosos.
Hider decidiu executar seus intentos por ocasião da guerra: 70.000 alemães foram vítimas de um programa de eutanásia com
asfixia por gás, entre o fim de 1939 e o início de 1941, até que as Igrejas protestassem e que o programa fosse encerrado. Os
métodos de asfixia por gás aperfeiçoados na ocasião são os que foram aplicados no terceiro grupo de vítimas, os judeus.

Até a guerra, as medidas de exclusão contra eles eram generalizadas, mas sua perseguição teve seu apogeu na ocasião da
"Noite de Cristal" - várias centenas de mortos e 35.000 internamentos em campos de concentração. Foi somente com a
guerra, e sobretudo com o ataque à URSS, que se desencadeou o terror nazista, cujo balanço sumário é o seguinte: 15
milhões de civis mortos nos países ocupados; 5,1 milhões de judeus; 3,3 milhões de prisioneiros de guerra soviéticos; 1,1
milhão de deportados mortos nos campos; várias centenas de milhares de ciganos. Á essas vítimas se juntaram 8 milhões de
pessoas destinadas a trabalhos forçados e 1,6 milhão de detentos sobreviventes em campos de concentração.

O terror nazista chocou as imaginações por três razões. Inicialmente,
por ter atingido diretamente os europeus. Por outro lado, uma vez vencidos os nazistas, e com seus principais dirigentes
julgados em Nuremberg, seus crimes foram oficialmente designados e condenados como tais. Enfim, a revelação do
genocídio dos judeus foi um choque por seu caráter de aparência irracional, sua dimensão racista, o radicalismo do crime.

Nosso propósito aqui não é o de estabelecer uma macabra aritmética comparativa qualquer, uma contabilidade duplicada do
horror, uma hierarquia da crueldade. Entretanto, os fatos são tenazes e mostram que os regimes comunistas cometeram
crimes concernentes a aproximadamente 100 milhões de pessoas, contra 25 milhões de pessoas atingidas pelo nazismo. Essa
simples constatação deve, pelo menos, provocar uma reflexão comparativa sobre a semelhança entre o regime que foi
considerado, a partir de 1945, como o regime mais criminoso do século, e um sistema comunista que conservou, até 1991,
toda a sua legitimidade internacional e que, até hoje, está no poder em alguns países, mantendo adeptos no mundo inteiro.

Mesmo que muitos dos partidos comunistas tenham reconhecido tardiamente os crimes do stalinis-mo, eles não
abandonaram, em sua maioria, os princípios de Lenin e nunca se interrogam sobre suas próprias implicações no fenómeno
terrorista.

Os métodos postos em prática por Lenin e sistematizados por Stalin e seus êmulos, não somente lembram os métodos
nazistas como também, e com frequência, lhes são anteriores. A esse respeito, Rudolf Hoess, encarregado de criar o campo
de Auschwitz, e também seu futuro comandante, sustentou afirmações bastante indicativas: "A direção da Segurança fizera
chegar aos comandantes dos campos uma detalhada documentação sobre os campos de concentração russos. Baseando-se nos
testemunhos dos fugitivos, estavam expostas em todos os detalhes as condições reinantes no local. Destacava-se
particularmente que os russos exterminavam populações inteiras utilizando-as em trabalhos forçados."16 Porém, se é fato
que a intensidade e as técnicas da violência de massa foram inauguradas pelos comunistas e que os nazistas tenham se
inspirado nelas, isto não implica, a nosso ver, que se possa estabelecer uma relação direta de causa e efeito entre a tomada do
poder pelos bolcheviques e a emergência do nazismo.

Desde o fim dos anos 20, a GPU (novo nome da Tcheka) inaugurou o método das quotas: cada região e cada distrito deviam
deter, deportar ou fuzilar uma determinada percentagem de pessoas pertencentes às camadas sociais "inimigas". Essas
percentagens eram definidas centralmente pela direção do Partido. A loucura planificadora e a mania estatística não diziam
respeito somente à economia; elas também se aplicavam ao domínio do terror. Desde
16 Lê commandant á`Auschwitzparle, La Découverte, 1995, p. 224.
1920, com a vitória do Exército Vermelho sobre o Exército Branco, na Criméia, surgiram métodos estatísticos, e mesmo
sociológicos: as vítimas são seleciona-das segundo critérios precisos, estabelecidos com a ajuda de questionários aos quais
ninguém poderia deixar de responder. Os mesmos métodos "sociológicos`` serão postos em prática pelos soviéticos para
organizar as deportações e execuções em massa nos Estados Bálticos e na Polónia ocupada de 1939-1941. O transporte dos
deportados em vagões de animais acarretou as mesmas "aberrações" que as cometidas pelo nazismo: em 1943-1944, em
plena batalha, Stalin fel com que milhares de vagões e centenas de milhares de homens das tropas especiais do NKVD
deixassem o fronte para assegurar em um curtíssimo espaço de tempo a deportação das populações do Cáucaso. Essa lógica
do genocídio - que consiste, retomando o Código Penal francês, na "destruição total ou parcial de um grupo nacional, étnico, racial
ou religioso, ou de um determinado grupo, a partir de qualquer outro critério arbitrário" - aplicada pelo podercomunista a
grupos designados como inimigos, a frações de sua própria sociedade, foi conduzida ao seu paroxismo por Pol Pot e seus
khmers vermelhos.

Fazer a aproximação entre o nazismo e o comunismo, no que diz respeito a seus respectivos extermínios, pode chocar.

Entretanto, é Vassili Grossman - cuja mãe foi morta pelos nazistas no gueto de Berditchev, escritor do primeiro texto sobre Treblinka e também um
dos mestres do Livre noir sobre oextermínio dos judeus na URSS - que, em seu relato Tout passe, faz um deseus personagens
dizer a respeito da fome na Ucrânia: "Os escritores e o próprio Stalin diziam todos a mesma coisa: os kulaks são parasitas,
eles queimamo trigo, matam as crianças. E nos disseram sem rodeios: é preciso que as massas se revoltem contra eles, para
aniquilá-los todos, enquanto classe, esses malditos." E acrescenta: "Para matá-los, seria preciso declarar: os kulaks não
sãoseres humanos. Do mesmo modo que os alemães diziam: os judeus não sãoseres humanos. Foi o que Lenin e Stalin
disseram: os kulaks não são sereshumanos." E Grossman conclui, a respeito das crianças kulaks: "É como osalemães que
assassinaram as crianças judias nas câmaras de gás: vocês não têmdireito de viver, vocês são judeus."17

 cada vez, não são tanto os indivíduos que são atingidos, mas os grupos. O terror tem como objetivo exterminar um grupo
designado como inimigo, que, na verdade, constitui-se somente como uma fração da sociedade, mas que é atingido enquanto
tal por uma lógica do genocídio. Assim, os mecanismos de segregação e de exclusão do "totalitarismo da classe" se parecem
singularmente àqueles do "totalitarismo da raça". Á sociedade nazista futura devia ser construída em torno da "raça pura"; a
sociedade comunista
17 Vassili Grossman, op. cit., pp. 140 e 150.
futura, em torno de um povo proletário, purificado de toda escória burguesa. O remodelamento dessas duas sociedades foi
planejado do mesmo modo, apesar de os critérios de exclusão não serem os mesmos. Portanto, é falso pretender que o
comunismo seja um universalismo: se o projeto tem uma vocação mundial, uma parte da humanidade é declarada indigna de
existir neste mundo, como no caso do nazismo; a diferença é que um recorte por estratos (classes) substitui o recorte racial e
territorial dos nazistas. Logo, os empreendimentos leninista, stalinista, maoísta e a experiência cambojana põem à
humanidade — assim como aos juristas e historiadores — uma nova questão: como qualificar o crime que consiste em
exterminar, por razões político-ideo-lógicas, não mais indivíduos ou grupos limitados de oponentes, mas partes inteiras da
sociedade? É preciso inventar uma nova denominação? Alguns autores anglo-saxões pensam dessa forma, criando o termo
"politicídio". Ou é preciso chegar, como o fazem os juristas tchecos, a qualificar os crimes cometidos pelos regimes
comunistas como "crimes comunistas"?

O que se sabia dos crimes do comunismo? O que se queria saber? Por que foi preciso esperar o fim do século para que esse
tema obtivesse o status de objeto de ciência? Pois é evidente que o estudo do terror stalinista e comunista em geral,
comparado ao estudo dos crimes nazistas, tem um enorme atraso a recuperar, mesmo que, no Leste, os estudos se
multipliquem.

Um grande contraste não pode deixar de nos causar surpresa: foi com legitimidade que os vencedores em 1945 situaram o
crime - e em particular o genocídio dos judeus - no centro de sua condenação ao nazismo. Numerosos pesquisadores em todo
o mundo trabalham há décadas sobre essa questão. Milhares de livros lhe foram consagrados, dezenas de filmes, dos quais
alguns muito famosos nos mais diferentes géneros — Noite e Neblina ou Shoah, A Escolha de Sofia ou A Lista de Schindler.
Raul Hilberg, para citarmos apenas um autor, fez da descrição detalhada das modalidades da matança aos judeus no III
Reich18 o centro de sua obra mais importante.

Ora, não existe um trabalho como esse sobre a questão dos crimes comunistas. Enquanto que nomes como os de Himmler ou
o de Eichman são conhecidos em todo o mundo como símbolos da barbárie contemporânea, os de Dzerjinski, lagoda ou de
lejov são ignorados da maioria. Quanto a Lenin, Mão, Ho Chi Minh e o próprio Stalin, eles sempre foram tratados com uma
surpreendente reverência. Um órgão do Estado francês, a Loto, chegou a ter a inconsciência de associar Stalin e Mão a uma
de suas campanhas publicitárias! Quem teria a ideia de utilizar Hitler ou Goebbels numa operação semelhante?
18 Raul Hilberg, La Destruction desjuifi d`Europe, Fayard, 1988.

A atenção excepcional concedida aos crimes hitleristas é perfeitamente justificada. Ela responde à vontade dos sobreviventes
de testemunhar, dos pesquisadores de compreender e das autoridades morais e políticas de confirmar os valores
democráticos. Mas por que os testemunhos dos crimes comunistas têm uma repercussão tão fraca na opinião pública? Por
que o silêncio constrangido dos políticos? E, sobretudo, por que um silêncio "académico" sobre a catástrofe comunista que
atingiu, há aproximadamente 80 anos, um terço da espécie humana, sobre quatro continentes? Por que essa incapacidade de
situar no centro da análise do comunismo um fator tão essencial quanto o crime, o crime de massa, o crime sistemático, o
crime contra a humanidade? Estamos diante de uma impossibilidade de compreensão? Não se trata, antes, de uma recusa
deliberada de saber, de um medo de compreender?

As razões dessa ocultação são múltiplas e complexas. Inicialmente, estava em jogo a vontade clássica e constante dos
carrascos de apagar as marcas de seus crimes e de justificar o que eles não podiam esconder. O "relatório secreto" de
Kruschev (1956), que se constituiu como o primeiro reconhecimento dos crimes comunistas pelos próprios dirigentes
comunistas, é também o relato de um carrasco que vai procurar mascarar e encobrir seus próprios crimes -como chefe do
Partido Comunista ucraniano no auge do terror — atribuindo-os somente a Stalin e valendo-se do fato de que obedecia a
ordens; ocultar a maior parte do crime — ele fala somente das vítimas comunistas, bem menos numerosas do que todas as
outras; atenuar o significado desses crimes - ele os qualifica como "abusos cometidos pelo regime stalinista"; e, enfim,
justificar a continuidade do sistema com os mesmos princípios, as mesmas estruturas e os mesmos homens.
Kruschev nos dá um testemunho franco, relacionando as oposições com as quais ele se chocou ao preparar o "relatório
secreto", particularmente no que diz respeito ao homem de confiança de Stalin: "Kaganovitch era de tal modo um adulador,
que ele teria cortado a garganta de seu pai se Stalin assim o ordenasse com uma piscada de olhos, dizendo-lhe que era no
interesse da Causa: a causa stalinista, é claro, f...] Ele argumentava contra mim por causa do medo egoísta de perder o
pescoço. Ele obedecia ao desejo impaciente de fugir a toda responsabilidade. Se havia crimes, Kaganovitch queria somente
uma coisa: estar certo de que suas marcas foram apagadas."1^ O fechamento absoluto dos arquivos dos países comunistas, o
controle total da imprensa, da mídia e de todas as saídas para o exterior, a propaganda do "sucesso" do regime, toda essa
máquina de ocultar informações visava, em primeiro lugar, impedir que viesse à luz a verdade sobre os crimes.
Nikita Kruschev, Souvenirs, Robert Laffont, 1971, p. 330.

Não contentes em esconder seus delitos, os carrascos combateram por todos os meios aqueles que tentavam relatá-los. Pois
alguns observadores e analistas tentaram esclarecer seus contemporâneos. Após a Segunda Guerra Mundial, isso foi
particularmente claro em duas ocasiões na França. De janeiro a abril de 1949 teve lugar em Paris o processo que opôs Victor
Kravchenko - um ex-alto funcionário soviético que havia escrito/`tf / choisi Ia liberte, livro no qual era descrita a ditadura
stalinista - ao jornal comunista dirigido por Louis Aragon, Lês Lettres Françaises, que cobria Kravchenko de injúrias. Teve
lugar também em Paris, de novembro de 1950 a janeiro de 1951, um outro processo entre Lês Lettres Françaises (mais uma
vez) e David Rousset, um intelectual, ex-trotskista, deportado da Alemanha pelos nazistas e que, em 1946, havia recebido o
prémio Renaudot por seu livro LUniven concentrationnaire; Rousset convocara, em 12 de novembro de 1949, todos os
antigos deportados dos campos nazistas para formar uma comissão de investigação sobre os campos soviéticos, sendo então
violentamente atacado pela imprensa comunista, que negava a existência desses campos. Em seguida à convocação feita por
Rousset, em 25 de fevereiro de 1950, num artigo do Figaro littéraire intitulado "Pour 1`enquête sur lês camps soviétiques.
Qui estpire, Satan ou BelzébutW? Margaret Buber-Neumann expunha sua dupla experiência de deportada dos campos
nazistas e soviéticos.

Contra todos esses esclarecedores da consciência humana, os carrascos desenvolveram, num combate sistemático, todo o
arsenal dos grandes Estados modernos, capazes de intervir no mundo inteiro. Eles procuraram desqualificá-los, desacreditálos,
intimidá-los. A. Soljenitsyne, V. Bukovsky, A. Zinoviev L. Plichki foram expulsos de seu país, André Sakharov foi
exilado em Gorki, o general Piotr Grigorenko, abandonado num hospital psiquiátrico, Markov, assassinado com um guardachuva
envenenado.

Diante de tal poder de intimidação e de ocultação, as próprias vítimas hesitavam em se manifestar, tornando-se incapazes de
reintegrar a sociedade onde desfilavam seus delatores e carrascos. Vassili Grossman20 narra essa desesperança. Ao contrário
da tragédia dos judeus — em relação à qual a comunidade judia internacional encarregou-se da celebração dos mortos do
genocídio - durante muito tempo foi impossível às vítimas do comunismo e aos seus interessados manter uma memória viva
da tragédia, estando proibido qualquer tipo de celebração ou demanda de reparação.

Quando não conseguiam manter a verdade escondida — a prática dos fuzilamentos, os campos de concentração, a fome
imposta —, os carrascos tra-
* Pela investigação dos campos soviéticos. Quem é pior, Satã ou Belzebu? (N. T.) 20 Toutpasse, of. cit., 1984.
mavam a justificação dos fatos maquiando-os grosseiramente. Depois de terem reivindicado o terror, eles o erigiram como
figura alegórica da revolução: "quando se corta a floresta, as farpas voam", "não se pode fazer uma omelete sem se
quebrarem os ovos". A isto Vladimir Bukovski replicava ter visto os ovos quebrados, mas não ter nunca provado omeletes.

Mas, sem dúvida, foi com a perversão da linguagem que se chegou ao pior. Através da magia vocabular, o sistema dos
campos de concentração tornou-se obra de reeducação, e os carrascos, educadores aplicados em transformar os homens de
uma sociedade antiga em "homens novos". Pedia-se, através da força, aos zeks - termo que designa os prisioneiros dos
campos de concentração soviéticos — para que acreditassem num sistema que os subjugava. Na China, o interno na
concentração é denominado "estudante": ele deve estudar o pensamento justo do partido e reformar o seu próprio pensamento
imperfeito.

Como acontece com frequência, a mentira não é, strícto sensu, o inverso da verdade, e toda mentira se apoia sobre elementos
verdadeiros. As palavras pervertidas aparecem como uma visão deslocada que deforma a perspectiva de conjunto: somos
confrontados a um astigmatismo social e político. Ora, é fácil corrigir a percepção deformada pela propaganda comunista,
mas é muito difícil reconduzir aquele que percebeu erroneamente a uma concepção intelectual pertinente. A impressão
primeira permanece e torna-se preconceito. Como fazem os praticantes do judo - e graças a sua incomparável potência
propagandista, amplamente baseada na perversão da linguagem —, os comunistas utilizaram toda a força das críticas feitas
aos seus métodos terroristas para retorná-las contra essas próprias críticas, reunindo, a cada vez, as fileiras de seus militantes
e simpatizantes na renovação do ato de fé comunista. Assim, eles reencontraram o princípio primeiro da crença ideológica,
formulada por Tertuliano, em sua época: "Creio porque é absurdo."

No contexto dessas operações de contrapropaganda, os intelectuais, literalmente, se prostituíram. Em 1928, Gorki aceitou ir
em "excursão" às ilhas Solovki, um campo de concentração experimental que, através de suas "metástases" (Soljenitsyne),
dará origem ao sistema do Gulag. Ele trouxe de lá um livro exaltando Solovki e o governo soviético. Henri Barbusse, escritor
francês ganhador do Goncourt* de 1916, não hesitou, em troca de uma recompensa financeira, em exaltar o regime stalinista,
publicando, em 1928, um livro sobre a "maravilhosa Geórgia" - onde, precisamente em 1921, Stalin e seu acólito
Ordjonikidze se entregaram a uma verdadeira carnificina, e onde Beria, chefe do NKVD, se fazia notar por seu
maquiavelismo e seu sadismo -
* Príx Goncourt, grande prémio de literatura na França. (N. T.)
e, em 1935, a primeira biografia oficiosa de Stalin. Mais recentemente, Ma-ria-Antonietta Macciochi fez a apologia de Mão,
Alain Peyrefitte lhe fez coro, enquanto Danielle Mitterrand passeava ao lado de Castro. Cupidez, apatia, vaidade, fascinação
pela força e pela violência, paixão revolucionária: qualquer que seja a motivação, as ditaduras totalitárias sempre
encontraram os bajuladores dos quais necessitavam, tanto a ditadura comunista quanto as outras.

Diante da propaganda comunista, o Ocidente mostrou-se durante muito tempo de uma cegueira excepcional, mantida tanto
pela inocência em face de um sistema astuto, quanto pelo medo da potência soviética, sem falar do cinismo dos políticos e
dos interesseiros. Cegueira presente em Yalta, quando o presidente Roosevelt deixou o Leste Europeu entregue a Stalin,
contra a promessa, redigida de forma clara e limpa, de que ele organizaria eleições livres na região o mais rapidamente
possível. O realismo e a resignação estavam presentes em Moscou quando, em dezembro de 1944, o General de Gaulle
trocou o abandono da infeliz Polónia ao Moloch pela garantia da paz social e política, assegurada pela volta de Maurice
Thorez a Paris.

Cegueira que foi fortalecida, quase que legitimada, por uma crença — entre os comunistas ocidentais e muitos homens de
esquerda — segundo a qual esses países estavam "construindo o socialismo", e que a utopia que nas democracias alimentava
os conflitos sociais e políticos tornava-se "para eles" uma realidade cujo prestígio Simone Weil destacou: "Os trabalhadores
revolucionários são felizes por terem um Estado por detrás deles — um Estado que dá às suas ações esse caráter oficial, uma
legitimidade, uma realidade que somente ele, o Estado, pode conferir, e que, ao mesmo tempo, está situado longe deles o
suficiente para não causar-lhes desgosto".21 O comunismo apresentava, então, sua face clara: ele se declarava Iluminado,
inserido numa tradição de emancipação social e humana, de sonho da "igualdade real" e da "felicidade para todos"
inaugurada por Gracchus Babeuf. É essa face luminosa que ocultava quase que totalmente a face das trevas.

À ignorância — desejada ou não — da dimensão criminosa do comunismo juntou-se, como sempre, a indiferença de nossos
contemporâneos para com seus irmãos humanos. Não que o homem tenha o coração de pedra. Pelo contrário, em inúmeras
situações-limite, ele mostra insuspeitadas fontes de solidariedade, de amizade, de afeição e mesmo de amor. Entretanto, como
destaca Tzvetan Todorov, "a memória de nossos lutos nos impede de percebermos o sofrimento dos outros".22 E, terminada a
Primeira e, em seguida, a
21 Simone Weil, L`Enracinement, Gallimard, 1949.
22 Tzvetan Todorov, "La Morale de 1`historien", colloque L`Homme, Ia langue, lês camps, ParisIV-Sorbonne, maio de
1997.
Segunda Guerra Mundial, que povo europeu ou asiático não estava ocupado em curar as chagas de inúmeros lutos? As
dificuldades encontradas na própria Franca no afrontamento dos anos sombrios são suficientemente eloquentes. A história -
ou melhor, a não-história - da Ocupação continua a envenenar a consciência francesa. Acontece o mesmo, talvez com menos
intensidade, com a história dos períodos "nazi" na Alemanha, "fascista" na Itália, "franquista" na Espanha, da guerra civil na
Grécia, etc. Neste século de ferro e sangue, cada um esteve demasiadamente ocupado com suas próprias mazelas para poder
compadecer-se das dos outros.

A ocultação da dimensão criminosa do comunismo remete, porém, a três razões específicas. A primeira refere-se ao apego à
própria ideia da revolução. Ainda hoje, o luto dessa ideia, tal como ela foi preconizada nos séculos XIX e XX, está longe de
terminar. Seus símbolos — bandeira vermelha, a Internacional, punho erguido - ressurgem por ocasião de todo movimento
social importante. Che Guevara retorna à moda. Grupos declaradamente revolucionários permanecem ativos e se manifestam
com toda legalidade, tratando com desprezo a menor reflexão crítica sobre os crimes dos seus predecessores e não hesitando
em reiterar os velhos discursos justificativos de Lenin, de Trotski ou de Mão. Paixão revolucionária que não acometeu
somente aos outros. Muitos dos próprios autores deste livro acreditaram durante algum tempo na propaganda comunista.

A segunda razão refere-se à participação dos soviéticos na vitória sobre o nazismo, o que permitiu aos comunistas mascarar
sob um patriotismo intenso seus fins últimos, que visavam à tomada do poder. A partir de junho de 1941, os comunistas do
conjunto dos países ocupados entraram numa resistência ativa — e com frequência armada — à ocupação nazista ou italiana.

Do mesmo modo que os demais resistentes aos regimes de sujeição, eles tiveram de pagar o imposto da repressão, com
milhares de fuzilados, massacrados, deportados. Eles se serviram desses mártires para sacralizar a causa do comunismo e
proibir toda crítica a seu respeito. Além disso, no curso dos combates da Resistência, muitos dos não-comunistas
estabeleceram laços de solidariedade, de combate, de sangue com comunistas, o que impediu que muitos olhos se abrissem;
na França, a atitude dos gaullistas foi com frequência comandada por essa memória comum e encorajada pela política do
general de Gaulle que utilizava o contrapeso soviético diante dos americanos.23

A participação dos comunistas na guerra e na vitória sobre o nazismo fez triunfar definitivamente a noção de antifascismo
como critério de verdade da
23 Ver Pierre Nora, "Gaullistes et communistes", Lês Lieux de mémoire, Gallimard, 1997, Quarto, vol. 2.
esquerda, e, certamente, os comunistas se colocaram como os melhores representantes e os melhores defensores desse
antifascismo. O antifascismo tornou-se um rótulo definitivo para o comunismo, sendo fácil, em nome do antifascismo,
silenciar os recalcitrantes. François Furet escreveu páginas esclarecedoras sobre esse assunto crucial. Com o nazismo
vencido, designado pelos Aliados como o "Mal Absoluto", o comunismo saltou quase que mecanicamente para o campo do
Bem. O que ocorreu, evidentemente, na ocasião do processo de Nuremberg, quando os soviéticos estiveram sentados no
banco da acusação. Assim, episódios embaraçosos para os valores democráticos foram escamoteados, tais como os pactos
germano-soviéticos de 1939 ou o massacre de Katyn. A vitória sobre o nazismo deveria supostamente fornecer a prova da
superioridade do sistema comunista. Na Europa libertada pelos anglo-ameri-canos, ela teve, sobretudo, o efeito de suscitar
um duplo sentimento de gratidão para com o Exército Vermelho (do qual não se teve que suportar a ocupação) e de culpa em
face dos sacrifícios suportados pela população da URSS, sentimentos que a propaganda comunista não hesitou em manipular
a fundo.

Paralelamente, as modalidades de "libertação" feitas pelo Exército Vermelho no Leste Europeu permanecem amplamente
desconhecidas no Ocidente, onde os historiadores assimilaram dois tipos de "libertação" bastante diferentes: o primeiro deles
conduzia à restauração das democracias, o outro abria caminho à instauração das ditaduras. Na Europa Central e no Leste
Europeu, o sistema soviético postulava à sucessão do Reich de mil anos, e Witold Gombrowicz exprimiu em poucas palavras
o drama desses povos: "O fim da guerra não trouxe libertação aos poloneses. Nesta triste Europa Central, significou somente
a troca de uma noite por outra, dos carrascos de Hitler pelos de Stalin. No momento exato em que, nos cafés parisienses, as
nobres almas saudavam com um canto radiante a `emancipação do povo polonês do jugo feudal`, na Polónia, o mesmo cigarro
aceso simplesmente mudava de mão e continuava a queimar a carne humana".24 Aqui reside a falha entre duas memórias
europeias. Entretanto, certas obras revelaram rapidamente a maneira pela qual a URSS libertou do nazismo poloneses,
alemães, tchecos e eslovacos.25

A última razão dessa ocultação é a mais sutil, e também a mais delicada a exprimir. Após 1945, o genocídio dos judeus
apareceu como o paradigma da barbárie moderna, chegando mesmo a ocupar todo o espaço reservado à percepção do terror
de massa no século XX. Após negarem, durante algum tem-
24 Witold Gombrowicz, Testament. Entretíens avec Dominique de Roux, Folio, 1996, p. 109.
25 Cf. Piotr Pigorov, J`ai quitté ma patríe, La Jeune Parque, 1952; ou Michel Koriakoff, Je memets hors Ia loi, Éditions
du Monde Nouveau, 1947.
pó, a especificidade da perseguição dos nazistas aos judeus, os comunistas compreenderam toda a vantagem que eles podiam
tirar de um tal reconhecimento, reutilizando regularmente o antifascismo. O espectro do "animal imundo cujo ventre é ainda
fecundo" - segundo a fórmula famosa de Bertolt Brecht — foi agitado com frequência, com ou sem motivo justificado. Mais
recentemente, o fato de ter sido posta em evidência a "singularidade" no genocídio dos judeus, focalizando a atenção sobre
sua atrocidade excepcional, também impediu que se percebessem outras realidades da mesma natureza no mundo comunista.

Como imaginar que eles próprios, que tinham contribuído com sua vitória na destruição de um sistema de genocídio,
pudessem também praticar os mesmos métodos? A reação mais corrente foi a recusa em admitir tal paradoxo.

A primeira grande virada no reconhecimento oficial dos crimes comunistas situa-se em 24 de fevereiro de 1956. Nessa noite,
Nikita Kruschev, pri-meiro-secretário, vem à tribuna do XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética, o PCUS. A
sessão é a portas fechadas; somente os delegados do congresso estão presentes. Em silêncio absoluto, aterrorizados, eles
escutam o primeiro-secretário do Partido destruir metodicamente a imagem do "pequeno pai dos povos", do "Stalin genial"
que foi, durante 30 anos, o herói do comunismo mundial. Esse relato, conhecido como o "relatório secreto", constitui uma
das inflexões fundamentais do comunismo contemporâneo. Pela primeira vez, um dirigente comunista do mais alto escalão
reconheceu oficialmente, ainda que assistido somente pelos comunistas, que o regime que tomara o poder em 1917 cometera
uma "deriva" criminosa.

As razões que levaram o "Senhor K" a quebrar um dos maiores tabus do regime soviético eram múltiplas. Seu principal
objetivo era o de imputar os crimes do comunismo somente a Stalin, circunscrevendo e extraindo o mal para poder salvar o
regime. Também fazia parte de sua decisão a vontade de atacar o clã dos stalinistas que se opunham a seu poder em nome dos
métodos de seu antigo chefe. Aliás, após o verão de 1957, esses homens foram demitidos de todas as suas funções. Contudo,
pela primeira vez desde 1934, a "morte política" destes últimos não foi acompanhada da morte real, podendo-se inferir,
através desse simples "detalhe", que as razões de Kruschev eram mais profundas. Ele, que tinha sido durante anos o grande
chefe da Ucrânia e, por isso mesmo, havia conduzido e acobertado gigantescas chacinas, parecia cansado de todo esse
sangue. Em suas memórias, onde, sem dúvida, tem o papel de mocinho, Kruschev relembra o que lhe passava pelo espírito:

"O Congresso vai terminar; resoluções serão tomadas, todas para cumprir com as fornialidades.
Mas para quê? Aqueles que foram fuzilados às centenas de milhares permanecerão em nossas consciências".26

Ao mesmo tempo, ele censura duramente seus camaradas:

"O que faremos com os que foram detidos, assassinados? [...] Sabemos agora que as vítimas das repressões eram inocentes.

Temos a prova irrefutável de que, longe de serem inimigos do povo, eram homens e mulheres honestos, devotados ao
Partido, à Revolução, à causa leninista da edificação do socialismo e do comunismo. [...] É impossível tudo esconder. Cedo
ou tarde, os que estão na prisão, nos campos, sairão e retornarão a suas casas. Eles relatarão então aos seus parentes, seus
amigos, seus camaradas o que lhes aconteceu. [...] É por isso que somos obrigados a confessar aos delegados tudo a respeito
do modo como o Partido foi dirigido naqueles anos. [...] Como pretender nada saber do que acontecia? [...] Sabemos que
reinava a repressão e a arbitrariedade no Partido, e devemos dizer ao Congresso o que sabemos. [...] Na vida de todos os que
cometeram um crime, vem o momento em que a confissão assegura a indulgência, e mesmo a absolvição".27

Em alguns dos homens que haviam participado diretamente dos crimes perpetrados pelo regime stalinista - e que, em sua
maioria, deviam sua promoção ao extermínio de seus predecessores na função — emergia um certo tipo de remorso; um
remorso constrangido, é claro, um remorso interesseiro, um remorso político, mas, ainda assim, um remorso. Efetivamente,
era preciso que alguém terminasse com o massacre; Kruschev teve essa coragem, mesmo não tendo hesitado, em 1956, em
enviar uma frota de tanques soviéticos a Budapeste.

Em 1961, na ocasião do XXII Congresso do PCUS, Kruschev evocou não somente as vítimas comunistas, mas também todo
o conjunto das vítimas de Stalin, chegando a propor que fosse erigido um monumento em memória delas. Sem dúvida, ele
havia transposto o limite invisível além do qual o próprio princípio do regime estava posto em causa: o monopólio do poder
absoluto reservado ao Partido Comunista. O monumento jamais veio à luz. Em 1962, o primeiro-secretário autorizou a
publicação de Une journée d`Ivan Denissovitch, de Alexandre Soljenitsyne. Em 24 de outubro de 1964, Kruschev foi
brutalmente demitido de todas as suas funções, mas ele tampouco foi assassinado, morrendo no anonimato em 1971.

Todos os analistas reconhecem a importância decisiva do "relatório secreto" que provocou a ruptura fundamental na trajetória
do comunismo no século XX. François Furet, que justamente acabava de deixar o Partido Comuas
Nikita Kruschev, op. cít., p. 329. 27 Nikita Kruschev, op. cit., pp. 331-2.
nista Francês em 1954, escreve a este respeito: "Ora, eis que o `relatório secreto` de fevereiro de 1956 transtorna de uma só
vez, assim que ele veio a público, o estatuto da ideia comunista no universo. A voz que denuncia os crimes de Stalin não vem
mais do Ocidente, mas de Moscou, e do santo dos santos de Moscou, o Kremlin. Não se trata mais de um comunista
infringindo seu exílio, mas do primeiro dos comunistas no mundo, o chefe do Partido Comunista da União Soviética. Então,
em lugar de ser alvo das suspeitas que acometem os discursos dos ex-comunistas, esta voz está investida da autoridade
suprema outorgada pelo sistema ao seu chefe. [...] O extraordinário poder do `relatório secreto` sobre as consciências vem do
fato de ele não ter contraditores".28

Desde o começo, o evento era tão paradoxal, que numerosos contemporâneos haviam prevenido os bolcheviques contra os
perigos de seus procedimentos. Desde 1917-1918 batiam-se no próprio interior do movimento socialista os que acreditavam
no "grande clarão do Leste" e os que criticavam sem remissão os bolcheviques. A disputa recaía essencialmente sobre o
método de Lenin: violência, crimes, terror. Enquanto que, dos anos 20 aos anos 50, o lado sombrio da experiência
bolchevique foi denunciado por numerosas testemunhas, vítimas, observadores qualificados, e também por incontáveis
artigos e obras, foi preciso esperar que os próprios comunistas no poder reconhecessem essa realidade — ainda que de modo
limitado — para que uma fração cada vez maior da opinião pública pudesse tomar conhecimento do drama. Reconhecimento
enviesado, já que o "relatório secreto" abordava somente a questão das vítimas comunistas. Ainda assim, um reconhecimento
que trazia a primeira confirmação de testemunhos e estudos anteriores, e que corroborava o que muitos desconfiavam há
bastante tempo: o comunismo havia provocado na Rússia uma imensa tragédia.

Os dirigentes de muitos dos "partidos irmãos" não se persuadiram, de imediato, de que era preciso que se engajassem no
caminho das revelações. Ao lado do precursor Kruschev, eles pareciam um tanto retardados: foi necessário esperar 1979 para
que o Partido Comunista chinês distinguisse na política de Mão "grandes méritos" - até 1957 - e "grandes erros" em seguida.
Os vietnamitas somente abordam essa questão à luz da condenação do genocídio perpetrado por Pol Pot. Quanto a Castro, ele
nega as atrocidades cometidas sob sua égide.

Até então, a denúncia dos crimes comunistas vinha somente da parte dos seus inimigos, dos dissidentes trotskistas ou dos
anarquistas; e ela não tinha sido particularmente eficaz. A vontade de testemunhar era tão forte nos
28 François Furet, Lê Passe d"une illusion. Essai sur l`idée communiste au XX? siècle, Robert Laffont/Calmann-Lévy, 1995,
p. 513.
sobreviventes dos massacres comunistas quanto nos sobreviventes dos massacres nazistas. Mas eles foram muito pouco - ou
quase nada - escutados, em particular na França, onde a experiência concreta do sistema de campos de concentração
soviético só afetou diretamente a grupos restritos, tais como os Malgré-nous da Alsace-Lorraine.2^ Na maior parte das vezes,
os testemunhos, as erupções de memória, os trabalhos das comissões independentes criadas sob a iniciativa de algumas
pessoas - assim como a Commission Internationale sur lê regime concentrationnaire, de David Rousset, ou a Commission
pour Ia véritésur lês crimes de Staline* - foram encobertos pelo tamanho da verba para a propaganda comunista,
acompanhado por um silêncio covarde ou indiferente. Esse silêncio, que sucede geralmente a algum momento de
sensibilização provocado pela emergência de uma obra - UArchipel du Goulag, de Soljenitsyne —. ou de um testemunho
mais incontestável do que outros - Lês Récits de Ia Kolyma, de Variam Chalamov,3° ou UUtopie meurtrière, de Pin Yathay3i
-, mostra uma resistência própria aos vários e diferentes segmentos das sociedades ocidentais no que diz respeito ao
fenómeno comunista; eles se recusam, até o momento, a encarar a realidade: o sistema comunista comporta, ainda que em
graus diversos, uma dimensão fundamentalmente criminosa. Com esta recusa, as sociedades participaram da mentira, no
sentido aludido por Nietzsche: "Recusar-se a ver algo que se vê; recusar-se a ver algo como se vê".

A despeito de todas essas dificuldades na abordagem da questão, vários observadores tentaram a empreitada. Dos anos 20 aos
anos 50 - na falta de dados mais confiáveis, cuidadosamente dissimulados pelo regime soviético — a pesquisa repousava
essencialmente sobre os testemunhos dos desertores. Suscetíveis de estarem imbuídos de um espírito vingativo, ou
difamatório, ou ainda de serem manipulados por um poder anticomunista, esses testemunhos - passíveis de contestação pelos
historiadores, como todo testemunho - eram frequentemente desconsiderados pelos bajuladores do comunismo. O que se
poderia pensar, em 1959, da descrição do Gulag feita por um desertor dos altos escalões da KGB, tal como ela fora
recuperada no livro de Paul Barton?32 E o que pensar de Paul Barton, ele próprio um exilado tcheco, cujo verdadei-
29 Cf Pierre Rigoulot, Lês Français au Goulag, Fayard, 1984; e, sobretudo, Jacques Rossi, LêGoulag de A à Z, Lê
Cherche Midi, 1997.
* Respectivamente: Comissão Internacional Sobre os Regimes dos Campos de Concentração e Comissão Pela Verdade Sobre
os Crimes de Stalin. (N. T.)
30 Variam Chalamov, Récits de Ia Kolyma, F. Maspero, 1980, reed. La Découverte/Fayard,1986.
3` Pin Yathay, UUtofie meurtrière, Robert Laffont, 1980.
32 paul Barton, UInaítution concentrationnaire en Russie, 1930-1957, Plon, 1959.
ro nome é Jiri Veltrusky, um dos organizadores da insurreição antinazista de 1945 em Praga, obrigado a fugir de seu país em
1948? Ora, a confrontação com os arquivos doravante abertos mostra que essa informação era perfeitamente confiável.

Nos anos 70 e 80, a grande obra de Soljenitsyne - UArchipel du Goulag, e depois o ciclo dos "Nós" da Revolução Russa -
provocou um verdadeiro choque na opinião pública. Sem dúvida, um efeito produzido muito mais pela literatura, pelo
cronista genial, do que por uma tomada de consciência geral do horrível sistema por ele descrito. Entretanto, Soljenitsyne
encontrou dificuldades em perfurar a crosta da mentira, chegando a ser comparado, em 1975, por um jornalista de um grande
jornal francês, a Pierre Lavai, Doriot e Déat, "que acolhiam os nazistas como libertadores"^^. Seu testemunho foi, todavia,
decisivo para uma primeira tomada de consciência, assim como o de Chalamov sobre a Kolyma, ou o de Pin Yathay sobre o
Camboja. Mais recentemente, Vladimir Bukovski, uma das principais figuras da dissidência soviética no período Brejnev,
ergueu um novo grito de protesto que reclamava, sob o título Jugement à Moscou,^ a instauração de um novo tribunal de
Nuremberg para julgar as atividades criminosas do regime; seu livro foi recebido no ocidente com grande sucesso de crítica,
mas não de público. Simultaneamente, vemos as publicações que tentam a reabilitação de Stalin35 florescerem.

Que motivação pode encorajar, neste fim de século XX, a exploração de um domínio tão trágico, tão tenebroso, tão
polémico? Hoje, não somente os arquivos confirmam a exatidão desses testemunhos, como também permitem ir muito mais
adiante. Os arquivos internos do sistema de repressão da ex-União Soviética, das ex-democracias populares e do Camboja
evidenciam uma realidade aterradora: o caráter maciço e sistemático do terror, que, em vários casos, conduziu ao crime
contra a humanidade. Chegou o momento de abordar de maneira científica — documentada por fatos incontestáveis, e livre
das implicações polí-tico-ideológicas que a sobrecarregavam - a questão recorrente que todos os observadores se puseram:
que lugar ocupa o crime no sistema comunista?

Nessa perspectiva, qual pode ser a nossa contribuição específica? Procuramos utilizar procedimentos que respondam, em
primeiro lugar, a um dever para com a história. Nenhum tema é tabu para o historiador, e as impli-
Bernard Chapuis, Lê Monde, 3 de julho de 1975.
Vladimir Boukovski,/«gf»jf»f à Moscou, Robert Laffònt, 1995.
Ver, por exemplo, o livro de Ludo Martens, Un autre regarásur Staline (EPO, 1994,350 pp.),vendido na Cidade dos livros da
Festa da Humanidade 1997. Já num estilo um pouco menoshagiográfico, Lilly Marcou publicou Staline, vieprívée, Calmann-
Lévy, 1996.
cações e pressões de todo tipo - políticas, ideológicas, pessoais - não devem impedi-lo de seguir o caminho do conhecimento,
da exumação e da interpretação dos fatos, sobretudo quando estes estiveram por um longo tempo voluntariamente enterrados
no segredo dos arquivos e das consciências. Ora, a história do terror comunista constitui-se como um dos maiores panos de
fundo da história europeia, sustentando com firmeza os dois extremos da grande questão historiográfica do totalitarismo. Este
último teve uma versão hitlerista como também as versões leninista e stalinista, não sendo mais aceitável elaborar uma
história hemiplégica, que ignore a vertente comunista. Do mesmo modo, a posição defensiva que consiste em reduzir a
história do comunismo unicamente a sua dimensão nacional, social e cultural é insustentável. Sobretudo porque o fenómeno
totalitário não se limitou à Europa e ao episódio soviético. Ela compreende também a China maoísta, a Coreia do Norte, o
Camboja de Pol Pot. Cada comunismo nacional esteve ligado por algum tipo de cordão umbilical à matriz russa e soviética, o
que também contribuiu para o progresso desse movimento mundial. A história com a qual nos confrontamos é a de um
fenómeno que se desenvolveu em todo o mundo e que diz respeito a toda a humanidade.

O segundo dever ao qual responde esta obra é o de um dever para com a memória. E uma obrigação moral honrar a memória
dos mortos, sobretudo quando são vítimas inocentes e anónimas do Moloch conduzido por um poder absoluto que procurou,
inclusive, apagar a sua própria lembrança. Após a queda do Muro de Berlim e o desmoronamento do centro do poder
comunista em Moscou, a Europa, continente matricial das experiências trágicas do século XX, está prestes a recompor uma
memória comum; podemos, por nossa parte, dar a nossa contribuição. Os próprios autores deste livro são portadores dessa
memória: um mais ligado à Europa Central devido a sua vida profissional; outro, às ideias e práticas revolucionárias, em seus
engajamentos contemporâneos a 1968 ou mesmo mais recentes.

Esse duplo dever, para com a memória e a história, inscreve-se nos mais diversos contextos. Para alguns, ele se refere a
países onde o comunismo praticamente nunca pesou, nem sobre a sociedade nem sobre o poder - Grã-Bretanha, Áustria,
Bélgica, etc. Para outros, ele se manifesta em países em que o comunismo foi uma potência temida — como nos Estados
Unidos após 1946 — ou temerária, mesmo não tendo jamais chegado ao poder — como na França, Itália, Espanha, Grécia,
Portugal. Do mesmo modo, ele se impõe com força nos países onde o comunismo perdeu o poder que detivera por várias
décadas - Leste Europeu, Rússia. Por fim, sua pequena chama vacila em meio ao perigo nos lugares onde o comunismo ainda
está no poder - China, Coreia do Norte, Cuba, Laos, Vietnã.

De acordo com essas situações, a atitude dos contemporâneos diante da história e da memória é distinta. Nos dois primeiros
casos, eles se ligam a um procedimento relativamente simples de conhecimento e de reflexão. No terceiro caso, há um
confronto com as necessidades da reconciliação nacional, havendo ou não o castigo dos carrascos; a esse respeito, a
Alemanha reunificada oferece, sem dúvida, o exemplo mais surpreendente e "milagroso" - basta considerar o exemplo do
desastre da Jugoslávia. Mas a ex-Tchecoslováquia -que se tornou República Tcheca e Eslováquia -, a Polónia e o Camboja se
chocam do mesmo modo com os tormentos da memória e da história do comunismo. Um certo grau de amnésia, espontânea
ou oficial, pode parecer indispensável à cura das feridas morais, psíquicas, afetivas, pessoais, coletivas, provocadas por meio
século ou mais de comunismo. Nos lugares onde o comunismo continua no poder, os carrascos e seus herdeiros ou organizam
uma denegação sistemática - como em Cuba ou na China - ou talvez até continuem a reivindicar o terror como modo de
governo - como na Coreia do Norte.

Esse dever para com a história e a memória tem, incontestavelmente, um alcance moral. Alguns poderiam nos censurar:
"Quem os autoriza a dizer o que é o Bem e o que é o Mal?"

Segundo critérios que lhe são próprios, é exatamente esse o efeito pretendido pela Igreja Católica quando, com poucos dias
de intervalo, o Papa Pio XI condenou, em duas encíclicas distintas, o nazismo - Mit Brennender Sorge, de 14 de março de
1937 - e o comunismo - Divini redemptoris, de 19 de março de 1937. Esta última afirmava que Deus havia dotado o homem
de prerrogativas: "o direito à vida, à integridade do corpo e aos meios necessários à existência; o direito de se dirigir ao seu
fim último na via traçada por Deus; o direito de associação, de propriedade e o direito de usufruir dessa propriedade". Mesmo
que possamos denunciar uma certa hipocrisia da Igreja que caucionava o enriquecimento excessivo de uns através da
exploração de outros, o seu apelo em favor da dignidade humana não é desprovido de importância.

Já em 1931, na encíclica Quadragesimo Anno, Pio XI havia escrito: "O comunismo tem em seu ensinamento e em sua ação
um duplo objetivo, que são perseguidos não em segredo, ou por vias indiretas, mas abertamente, à luz do dia e por todos os
meios, mesmo os mais violentos: uma luta de classes implacável e a desaparição completa da propriedade privada. Na
perseguição desse objetivo, não há nada que ele não ouse, nada que ele respeite; nos lugares onde tomou o poder, ele se
mostra selvagem e desumano com tanta intensidade que temos dificuldades em crer, chegando mesmo a nos parecer
inexplicável, como atestam os terríveis massacres e as ruínas por ele acumuladas nos imensos países da Europa Oriental e da
Ásia." A advertência ganhava pieno sentido por vir de uma instituição que havia, durante vários séculos e em nome da fé, justificado o massacre dos Infiéis,
desenvolvido a Inquisição, amordaçado a liberdade de pensamento e que iria apoiar os regimes ditatoriais como os de Franco
ou Salazar.

Contudo, se a Igreja cumpria seu papel de censor moral, qual deve ser, ou melhor, qual pode ser o discurso do historiador
diante do relato "heróico" dos partidários do comunismo, ou do relato patético de suas vítimas? Em suas Memórias de Além-
Túmulo, François René de Chateaubriand escreve: "Quando, no silêncio da abjeção, não escutamos mais repercutir senão a
corrente do escravo e a voz do delator; quando tudo treme diante do tirano, e que é tão perigoso expormo-nos a seu favor
quanto merecer sua desgraça, o historiador aparece, encarregado da vingança dos povos. A prosperidade de Nero é vã, Tácito
já nasceu sob o império."36 Longe de nós a ideia de nos instituirmos como defensores da enigmática "vingança dos povos", à
qual Chateaubriand já não mais crê no fim de sua vida; mas, em sua modéstia, o historiador torna-se, quase que contra a sua
própria vontade, o porta-voz daqueles que, por causa do terror, se viram na impossibilidade de dizer a verdade sobre a sua
condição. Ele se faz presente para trabalhar com o conhecimento; sua primeira tarefa é estabelecer fatos e elementos de
verdade que se tornarão conhecimento. Além disso, sua relação com a história do comunismo é particular: ele é obrigado a
ser o historiógrafo da mentira. Mesmo que a abertura dos arquivos lhe forneça materiais indispensáveis, ele deve se preservar
de toda ingenuidade, já que um grande número de questões complexas se apresentam como objeto de controvérsias que não
estão de modo algum isentas de segundas intenções. Todavia, este conhecimento histórico não se pode abster de um juízo que
responda a alguns valores fundamentais: o respeito às regras da democracia representativa e, sobretudo, o respeito à vida e à
dignidade humana. É através deste parâmetro que o historiador emite um "juízo" sobre os atores da história.

Um motivo pessoal juntou-se às razões gerais para empreender esse trabalho sobre memória e sobre história. Alguns dos
autores do livro nem sempre estiveram alheios à fascinação exercida pelo comunismo. Por vezes, eles foram participantes,
dentro dos limites de cada um, do sistema comunista, seja em sua versão ortodoxa leninista-stalinista, seja em versões anexas
e dissidentes (trotskista, maoísta). Se eles permanecem ligados à esquerda — e porque eles permanecem ligados à esquerda -
é preciso que eles reflitam sobre as razões desta cegueira. Essa reflexão também seguiu os caminhos do conheci-
36 François-René de Chateaubriand, Mémoires d`Outre-tombe, Paris, Gallimard, édition Quarto, 1997.
mento, balizados pela escolha dos respectivos temas de estudo, pelas publicações científicas próprias e pelas participações de
cada um nas revistas La NouvelleAlternativee Communisme. O presente livro não é senão um momento dessa reflexão. Se
seus autores a conduzem incansavelmente, é por terem a consciência de que não se pode deixar a uma extrema direita cada
vez mais presente o privilégio de dizer a verdade; é em nome dos valores democráticos, e não dos ideais nacional-fascistas,
que se devem analisar e condenar os crimes do comunismo.

Essa abordagem implica um trabalho comparativo, da China à URSS, de Cuba ao Vietná. Ora, não dispomos, até o momento,
de uma qualidade homogénea na documentação. Em alguns casos, os arquivos estão abertos -ou entreabertos - enquanto em
outros, não. Isto não nos pareceu uma razão suficiente para adiar o trabalho; sabemos o bastante, de fonte "segura", para nos
lançarmos num empreendimento que, embora não tenha nenhuma pretensão de ser exaustivo, quer ser pioneiro e deseja
inaugurar um vasto campo para a pesquisa e a reflexão. Empreendemos, assim, uma primeira verificação de um número
máximo de fatos, uma primeira aproximação que deverá instigar, com o tempo, muitos outros trabalhos. Mas é preciso
começar, considerando apenas os fatos mais claros, mais incontestáveis, mais graves.

Nosso trabalho contém muitas palavras e poucas imagens. Atingimos aqui um dos pontos sensíveis da ocultação dos crimes
do comunismo: numa sociedade mundial supermidiatizada, onde a imagem - fotografada ou televisionada - será em breve a
única a merecer crédito da opinião pública, dispomos tão-somente de algumas e raras fotos de arquivo sobre o Gulag ou o
Laogai,* nenhuma foto sobre a deskulakização ou sobre a fome do Grande Salto Adiante. Os vencedores de Nuremberg
puderam fotografar e filmar à vontade os milhares de cadáveres do campo de Bergen-Belsen, onde também foram
encontradas fotos tiradas pelos próprios carrascos, corno aquela de um alemão abatendo com um tiro de fuzil à queima-roupa
uma mulher com seu filho nos braços. Nada igual ocorreu no mundo comunista, onde o terror era organizado no mais estrito
segredo.

Que o leitor não se contente apenas com os poucos documentos icono-gráficos reunidos aqui. Que ele consagre o tempo
necessário para tomar conhecimento, página por página, do calvário sofrido por milhões de homens. Que ele faça o esforço
de imaginação indispensável para compreender o que foi essa imensa tragédia que vai continuar a marcar a história mundial
pelas décadas vindouras. Então, a ele será apresentada a questão capital:
* Nome dado aos campos de concentração para trabalhos forcados na China e no Tibet. (N. T.)
por quê? Por que Lenin, Trotski, Stalin e os outros julgaram necessário exterminar todos aqueles que eram designados como
"inimigos"? Por que eles se autorizaram a infringir o código não escrito que rege a vida da Humanidade: "Não matarás"?

Tentamos responder a esta questão no fim deste livro.


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Comentários

Adilson  - 22/10/2010

A verdade sempre é sufocada , interesses políticos estão acima da verdade .
Hoje integridade ética , respeito e educação ,infelizmente foram esquecidos, o que queriam os cumunistas conseguiram ,

cauterizaram a memória e manipulam uma sociedade pobre em valores morais e culturais , o governo civil perdeu o controle!

Gostaria que agora um grupo de pessoas íntegras ,fossem as ruas pedir a volta da autoridade e do respeito !

O fim da corrupção descarada que impera no poder público,a passeata dos cem mil integros ! Seria uma boa!

Se a sociedade não gritar,não somente escoderão literaturas , mais tudo aquilo que possui integridade e verdade !

Despertem do sono sociedade do bem !

Vamos salvar a nossa pátria das mãos dos comunistas !

Brasil ame-o ou deixe-o !

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