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Contos-->A última viagem -- 27/10/2003 - 15:16 (Pedro Wilson Carrano Albuquerque) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
A ÚLTIMA VIAGEM

Tudo muito estranho. De repente eu me encontrava numa capela mortuária do Cemitério São João Batista, sem saber porque estava ali e como cheguei àquele lugar.
Só me lembrava de estar sendo sedado com injeção intravenosa para submeter-me a cirurgia visando à eliminação de incômoda varicocele e de ter reclamado com a enfermeira de pequena dor no momento da picada. Depois, um vazio completo, até me ver naquela necrópole da Zona Sul do Rio de Janeiro.
Despertei-me, então, para o fato de poder estar velando um amigo ou, até mesmo, alguém da família. Provavelmente, o choque provocado pela perda de pessoa querida tornara-me um amnésico, como narrado, corriqueiramente, na literatura médica.
A constatação de que no caixão à minha frente estava alguém do meu relacionamento deu-se quando passei a observar os veladores, todos meus conhecidos.
Espantosamente, eu, normalmente desequilibrado em situações da espécie, mantinha o controle de todas as minhas emoções.
Tranqüilizou-me notar que tanto minha mãe como meus irmãos e filhos ali se encontravam, vivinhos da Silva, embora contritos e chorosos.
Não obtendo a identificação do falecido em minha memória, aproximei-me do caixão para eliminar minhas dúvidas. A surpresa foi grande quando vi que eu era o indivíduo ali deitado, com um semblante que revelava tranqüilidade e, até mesmo, alguma felicidade.
Só então notei que ninguém me havia destinado a palavra ou cumprimentos. Os abraços em meus irmãos tinham sido totalmente ignorados.
Lembrei-me, nesse momento, do escritor Orígenes Lessa, que no início do romance “João Simões Continua” colocou um personagem em situação parecida. A diferença é que eu não era ateu como o João daquele livro, aceitando melhor, em face disso, o que estava acontecendo.
Fixei os olhos lacrimosos de minha mãe. Ela, mesmo no sofrimento, mostrava a força de sempre. Como devia ser duro perder um filho que ela teve no ventre durante nove meses, preparou para a vida e viu desabrochar pelo mundo.
Quando criança eu lacrimejava quando escutava a música “Coração Materno”, de Vicente Celestino. Mesmo adulto, quando ouvia Caetano Veloso, com sua voz suave, interpretar a canção, não me era possível conter a emoção, por saber que minha mãe, como a velhinha dos versos da composição, seria capaz, também, de deplorar o tombo do filho que lhe extraíra do peito o coração.
Próxima ao meu esquife, meio de transporte para o túmulo, estava minha mulher, triste por perder o companheiro por mais de quarenta anos. Deixei-me navegar, durante algum tempo, por nossa vida em comum, com suas tristezas, lutas, sucessos e alegrias.
De nosso intenso amor originaram-se os filhos e netos de que eu tanto me orgulhava e que ali se encontravam a lamentar a separação do pai e avô.
Passei, então, a circular entre os amigos que ali esperavam meu sepultamento. Felizmente, todas as suas palavras me eram favoráveis, apesar de algumas vezes se lembrarem, jocosamente, de presepadas de que fui protagonista.
Foi quando vi Estela, em vestido que imitava a pele de leopardo. Aproximei-me e fitei-a com atenção. Afastada de todos, certamente tomara conhecimento de minha morte através de anúncio fúnebre publicado em jornal da cidade.
Havia muito tempo que não nos víamos. Os olhos marejados mostravam quanto ela deplorava minha partida, apesar da pouca probabilidade de um reencontro após nossa última despedida.
Não havia mais em mim a libido de antes. A morte me retirara essa energia motriz. Isso não obstante, eu ainda a achava linda e atraente, vindo-me à memória os momentos repletos de prazer em que passamos juntos, misturando nosso suor nos folguedos amorosos.
Um movimento chamou-me a atenção. Após algumas orações declamadas por bondosas senhoras e os últimos olhares de meus queridos parentes, operários fechavam o caixão com a perícia que a experiência lhes dera.
Acompanhei o féretro até o jazigo, onde fui colocado pelos coveiros, únicos distantes da emoção presente, insensibilidade proveniente dos milhares de sepultamentos de que haviam participado.
No momento em que o cimento começou a fixar a pedra colocada sobre meu túmulo, senti que havia chegado a hora de minha partida. O mundo onde vivera passaria, a partir de então, à mera condição de uma lembrança.



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