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Ensaios-->Análise do livro “El reino deste mundo” de Alejo Carpentier -- 05/02/2008 - 04:42 (PAULO HENRIQUE COELHO FONTENELLE DE ARAUJO) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
USP - F.F.L.C.H - Universidade de São Paulo.
Literatura Hispano Americana
Professor Dra. Ana Cecília

Aluno: Paulo Henrique Coelho Fontenelle de Araújo
n. USP: 3710046














Análise do Livro “El reino deste mundo” de Alejo Carpentier

















São Paulo
Dezembro de 2007





O AUTOR

É preciso afirmar antes da presente análise de “El reino deste mundo” que Alejo Carpentier é um grande projetista literário e isso é uma assertiva válida pela evidente técnica e formalização utilizada na indicada obra, concebida pelo autor como uma maneira da narrativa adequar-se à temática do livro (que incluiu a magia da vegetação tropical e a desenfreada criação de formas de nossa natureza) sem jamais se perder ou pecar pelo exagero. Problemas que até seriam justificáveis diante da pretensão acima, embora tornassem a leitura algo inviável.
Alejo Carpentier demonstrou então ter conhecimento do segredo, da montagem de um engenho literário em limites que podem ser concentrados ou compactados e exatamente por essas noções, as características da obra vão se desvendando aos poucos; em cada parágrafo, nas ligações entre capítulos, nos vínculos entre as partes. E a presente análise procura acompanhar e apontar os registros desta instalação. Mostrar o que se mantém em toda a narrativa, o que surge, o que é diluído em metáforas, o que tem cabimento diante do contexto para, no final concluir, se a técnica encontra a arte, se as duas tornam o autor mais do que somente um projetista, mas o criador de uma obra-prima.
O tema do presente trabalho pretende então detectar, contrapor e avaliar as soluções encontradas pelo escritor, para manter o equilíbrio do aspecto estrutural acima identificado (concentração rítmica versus efusão metafórica), e isso em parágrafos e capítulos importantes da narrativa. Destacando ainda a possibilidade de contraste e efetividade do “real maravilhoso”: esta designação maior da literatura do autor, sua marca constitutiva, que pretendia captar a realidade do continente americano através do insólito que a própria realidade do continente lhe oferecia.

PRIMEIRA PARTE

A primeira característica, destacada já no primeiro capítulo é a oposição entre o mundo dos escravos e o mundo dos senhores. Oposição que cria um ponto estrutural e mantém a narrativa dentro do compreensível (o dualismo que permite a existência de princípios como o bem e mal, alma e corpo; sempre foi uma doutrina de fácil entendimento ao homem). Não obstante, a opção é monolítica o suficiente para gerar uma ambigüidade e isso porque a oposição que se evidencia em toda a primeira parte do livro, jamais se consuma em uma circunstância que propicie a eliminação de um dos mundos pelo outro.
A oposição dos dois mundos, duas sociedades, logra ainda sustentar a qualidade narrativa do texto, na obrigatoriedade que é comprovar satisfatoriamente a vigência e constância desses modos de existir em um mesmo espaço e tempo. O autor, em resumo, demonstra habilidade estilística ao evidenciar a estabilidade daquelas duas sociedades na mesma circunstância em que ressalta as diferenças. O desfile ali gerado deve ser destacado para não perder alguns momentos de extrema sutileza, um dos aspectos que distinguem os escritores entre si.
Temos a oposição, já no primeiro capítulo, das cabeças de cera versus as cabeças de carneiro. A oposição entre o comportamento da corte francesa e os reinos de Arada, dos nagôs e dos fulas.
O personagem Ti Noel é o que proporciona o contato entre os escravos e os senhores e sugere a oposição que em toda a primeira parte permanece exatamente nesse nível: o da sugestão. Sugestão que às vezes não existe em uma condição estrutural, mas poético. Um exemplo, no capítulo “A poda”, é a alusão à leveza das “espadas que cortavam como navalhas, como pétala na mão do guerreiro”.
Contudo, é a oposição a característica básica, atributo pelo qual tudo é gerado e que deve ser preliminarmente apontado. No capítulo “ O que a mão encontrava” percebemos uma oposição entre as criações da natureza identificadas pelo cheiro, pelo tato, pelo olhar, pela intuição de Mackandal e as construções da fazenda: as moendas, os secadouros de cacau, de café, a anilaria, as forjas, etc. No capítulo “As metamorfoses”, as oposições de imagens: “ o veneno... transformado-se em espuma na grande noite dentro da terra, que noite de terra já era para tantas vidas”.
No capítulo “De profundis” a oposição ocorre entre o veneno que se espalha pela planície no início do capítulo e a imagem que lhe substitui, no final, após saberem quem era responsável pelo envenenamento, os latidos de cães e o comportamento dos verdugos blasfemando é o que se alastra pela região.
E neste andamento, em cada capítulo, a oposição - fundamento levado a pontos extremos- concede aos mesmos capítulos uma finalização. Torna-os algo com o vigor literário distinto da mera continuidade de um Romance. O livro seria então uma sucessão de contos, textos marcados pela sua curta extensão, pelo impacto, pelo aspecto fotográfico de cada passagem. No capítulo “De profundis”: as fogueiras de vacas mortas que desprendiam uma fumaça gordurenta; animais tombados envoltos pelo zumbido de moscas varejeiras; telhados cobertos de grandes aves negras de cabeça pelada.
O autor, por conseguinte, detém o método quase cinematográfico e não se perde nas premissas: oposição sugerida entre imagens e mundos; potência, ambigüidade, pouca extensão dos capítulos, impacto, aspecto fotográfico.
Acrescentaria ainda ao método, o pleno conhecimento dos mundos descritos, o prazer pelo detalhe, as metáforas mínimas e progressivas. No capítulo “De profundis” três destaques: martelar dos ataúdes; missas cantadas senão para os mortos; extrema-unções que chegavam tarde. Tudo para provar o estado de horror vigente.
( O método de construção do texto que pretende este aspecto cinematográfico, dispensa uma datação como se o autor quisesse alcançar o leitor independentemente dos conhecimentos históricos que esse leitor possuísse).
O capítulo “As metamorfoses” seria também um bom exemplo do estilo do autor aplicado a primeira parte do presente livro, pois metamorfose é um processo de mudança de algo para outra coisa, ou de tudo para algo, do tudo para o mínimo.
E o capítulo final da primeira parte demonstra, por fim, que a ambigüidade, gerada pela constante oposição e confluência dos mundos, como um rio que tivesse duas cores, não é resolvida, senão aprofundada. No ato que poderia evidenciar a subjugação do mundo dos senhores sobre o dos escravos; os dois permanecem. Não há nem mesmo o embate (algo lógico diante das diferenças), mas a consagração do simbólico - um dos objetivos do livro - e que ocorre quando Mackandal mergulha no mar dos negros, perpetuando o desejo também simbólico de liberdade e, simultaneamente, é queimado vivo pelos brancos para servir de exemplo para os escravos.
E este é o final da primeira parte que demonstra a existência de dois mundos em oposição para além daquilo que seria simplesmente a libertação dos escravos e a manutenção do sistema escravocrata dentro da ilha. Uma oposição que se mantém no etéreo da inviabilidade, na inconsciência dos personagens, que não percebem o significado do outro mundo no qual convivem diariamente. Este modo de pontuar aquele ambiente, como já dito acima, foi o parâmetro usado pelo autor que permitiu ao mesmo o controle da obra, ou seja, evitou na profusão de imagens de impacto - marca estilística de Alejo Carpentier - o comprometimento do texto, não o reduziu ao detalhismo de metáforas suspensas nas páginas (algo semelhante às últimas estampas vindas de Paris, penduradas em um arame e admiradas por Ti Noel no início do primeiro capítulo).

SEGUNDA PARTE

Na segunda parte não se percebe mais a oposição do mundo dos senhores e dos escravos. Alejo Carpentier cria agora outras variáveis para domínio da obra: uma narrativa mais concatenada, combinada pela descrição dos personagens em um grau maior do que o proposto na primeira parte, inclusive com certa análise psicológica do personagem Paulina. Na segunda parte, a narrativa prossegue através da potencialização do conflito entre os senhores e escravos, atingindo o limite da ruptura que é a assimilação do outro, a apropriação dos valores do inimigo, do mundo antagônico ao seu: os brancos burgueses deleitam-se com a perda de sua ordem moral, militar, econômica e os negros começam a aceitar a religião dos brancos. Aceitação demonstrada em diversos momentos dessa segunda parte.
Da narrativa é a lentidão o aspecto marcante. Lentidão de quem ainda apresenta a situação. Uma efusão maior transformaria o texto em um livre fluxo de idéias e nesta circunstância (como um desbravador que não pode sair da trilha no meio da floresta, sob pena de deslumbrar-se com a vegetação) haveria o risco do escritor perder-se totalmente, arriscando o projeto.
A lentidão narrativa é um procedimento intencional de garantia do projeto e pode ser demonstrado pela seqüência: no capítulo quinto “Santiago Cuba” observa-se que “os brancos se divertiam na desordem... Todas as hierarquias burguesas da colônia haviam caído”; prossegue no fim desse capítulo quando o autor afirma que Ti Noel encontra nas igrejas espanholas um calor de Vodu; continua no capitulo “São Transtorno”, na relação de Paulina com o negro Solimán e termina no final da 2a parte, na explicitação dos sacerdotes negros.
Todas as outras características (potência, ambigüidade, pouca extensão dos capítulos, impacto, aspecto fotográfico, etc) permanecem e ajustam-se à complexa estrutura expositiva que o autor evidencia em cada capítulos que são, de fato, independentes entre si.

(A “potência” sugerida na primeira parte consuma-se na segunda pelo conflito real que ocorre; a “ambigüidade” que na primeira parte esteve na antítese dos dois mundos, na segunda manifesta-se na assimilação; a pouca extensão dos capítulos também prossegue; o impacto é permanente; o aspecto fotográfico algo óbvio e o rigor histórico, o prazer pelo detalhe, a metáfora mínima: estas são também manifestações de um estilo barroco, exuberante).

TERCEIRA PARTE

O lapso de tempo clarificado já no início apresenta-se como o início de uma nova teia narrativa. Aliás, a metáfora da “teia” seria a mais adequada para exemplificar o processo narrativo do autor: cada teia é única, embora a trama dos fios seja semelhante. Não há possibilidade de entrelaçamento entre duas teias, mas ao olharmos para apenas uma delas, compreendemos a constituição de todas. As partes do livro “El reino deste mundo” são teias. Estruturam-se através de certos marcos fincados no texto, embora localizados em lugares distintos e por ali caminha o autor que, transfigurado em uma aranha, também captura insetos (no texto nas criaturas equivalem a metáforas entre outras figuras, elementos ornamentais da obra).
Podemos fazer ainda um contraponto ao estilo Barroco de Alejo e a narrativa desta terceira parte. Aléxis Marques Rodrigues em seu texto: “Alejo Carpentier. Teorias Del Barroco e de lo Real Maravilloso” cita Fernando Aínsa e o mesmo afirma que o Barroco na América Latina poderia ser definido em uma condição de “Horror ao vazio”. A definição demonstra que, se há narrativa no livro “El reino deste mundo”, ela se vincula a certos dados materiais, a existência de alguns parâmetros plenamente constituídos - e que se constituíram em todas as partes - e cuja “presença” foi necessária para o sequenciamento dos fatos e domínio do texto. Assim o preenchimento do vazio que dá respaldo à narrativa na terceira parte, vem como algo maior do que o delírio do rei, da agonia arcebispo emparedado, dos signos europeus da corte de Henri Christophe. O verdadeiro preenchimento do terrível vazio que macularia o estilo de autores como Alejo Carpentier - e cuja ausência tornaria a narrativa oca - é a construção da cidadela de La Ferriére. Construção erguida dentro da construção literária e que propicia a consistência dessa última ( como o sangue de touro degolados permite a resistência do castelo). O monumento símbolo do reinado e da contradição que representa um rei negro escravizando negros é o que motiva a história apresentada.
A totalidade da cidadela - no texto e no momento histórico - é comprovada pelos pensamentos do rei quando imagina, no final do capítulo terceiro, que “ali poderia resistir, ali, sobre nuvens, durante tantos anos quantos fossem necessários, com toda a sua corte, seu exército, seus capelães, seus músicos, seus pajens africanos... Quinze mil homens viveriam com ele entre aquelas paredes ciclópicas, sem carecerem de nada”.
Como já citado, o que importa é a narrativa, dinâmica e viva, paradoxalmente construída a partir de um castelo de significação tumular, túmulo que se torna no final dessa terceira parte.

QUARTA PARTE

Na quarta parte, cada capítulo destaca uma conclusão. E a materialidade deste modelo, concede ao livro o grau de excelência questionado no início dessa análise. As conclusões preenchem - mais do que vazio temido pelos escritores barrocos - o vazio da existência humana. Não abandonam o leitor em sua perplexidade após tudo o que foi constatado.
No capítulo primeiro da quarta parte, a conclusão evidenciada é de que não podemos fugir de nosso passado, antes de resolve-lo. O passado nos cobra uma postura para o bem ou para o mal. O comportamento do negro Solimán, seu delírio por alcançar um deus que se encontrava no distante Dahomey, demonstra esta conclusão.
No capítulo segundo, o que se conclui é se fosse possível a existência de um rei negro naquela ilha, ele seria como Ti Noel que com sua casaca de seda verde que pertenceu a Henri Christophe, fala constantemente com todos, abre os braços para todos. Um rei com direitos adquiridos pelo que viveu e sofreu neste mundo.
No capítulo terceiro, Ti Noel conclui afinal ( e um rei pode concluir algo de significativo para o seu povo) é de que a vida naquele lugar seria um infindável renovar de cadeias, um renascer de grilhões, uma proliferação de misérias.
(A conclusão acima é muito significativa, quando percebemos que toda a história do Haiti, mesmo muitos anos depois de Henri Christophe foi marcada por uma sucessão de tiranos como Papa Doc e Baby Doc e provavelmente esta miséria não terminará, mesmo com a intervenção da ONU realizada nesse início de século XXI).
No capítulo quarto, a conclusão do rei Ti Noel ainda vai mais longe. Ele compreende que a vida de todos, sem distinção de senhores e escravos, é uma sucessão de sofrimento, espera e trabalho para outras pessoas que nunca serão felizes e que também trabalharão para pessoas igualmente infelizes, pois a felicidade é algo que não basta ao desejo de cada um. Ti Noel conclui por fim, que a grandeza do homem venha de percorrer este sofrimento, suportar essa condição e que sem esta capacidade de tolerância como poderia valer a pena viver no Reino deste mundo, um lugar por si mesmo incompleto.
Ti Noel, o negro libertado pelo sacrifício, através do escritor Alejo Carpentier, concede ao ser humano, alguma explicação para a barbárie que viu e que ainda acontecerá em todos os reinos.

A barbárie é uma narrativa sem fim.





BIBLIOGRAFIA:

FIORIN, José Luiz e SAVIOLI, Francisco Platão. Para Entender o texto: Leitura e Redação. 3 ed. São Paulo, Edit. Ática, 1992.


CANDIDO, Antônio Na sala de aula – caderno de análise literária, 5a ed. SP:Editora Ática, 1995.


RODRIGUES, Aléxis Márques. Alejo Carpentier: Teorias Del Barroco e de lo Real Maravillhoso- Universidade Central da Venezuela- 1990.


AVELAR, Ildeber. Alegorias da Derrota – A ficção pós ditatorial e o trabalho do luto na América Latina – Belo Horizonte – Editora UFMG, 2003.


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