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Ensaios-->Cesário Verde: uma leitura de "O Sentimento dum Ocidental" -- 28/06/2001 - 11:24 (Anna Barbara Figueiredo Menezes) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
1. A cidade como lugar de enclausuramento


"O Sentimento dum Ocidental" se constrói como uma observação da cidade de Lisboa (apesar de seu nome não ser citado no poema) e uma reflexão sobre ela. Portugal, antes celebrado por seus feitos e conquistas, por sua grandiosidade e poder, agora é apresentado através de uma cidade suja e malcuidada, sofrendo a ameaça da Peste e do Cólera e da Inglaterra. Cesário Verde, como um flâneur que passeia pela cidade, descreve-a com detalhes, ao mesmo tempo em que reflete sobre o que está sendo visto e sofre com isso.

O poema é dividido em quatro partes e em todas elas pode ser observado este sentimento de descontentamento do poeta. Já na terceira estrofe da primeira parte, ele é preciso: "Batem os carros d´aluguer, ao fundo,/ Levando à via férrea os que se vão. Felizes!" O poema deixa bem claro que o melhor a se fazer é deixar Portugal. Cesário apresenta os motivos que o levam a fazer tal afirmação através de comentários sobre a cidade como um lugar que sufoca, que oprime, que maltrata. Ele, muitas vezes, a compara com uma prisão e esta sensação de emparedamento dá ao poeta uma sensação de morte. Como se pintasse um quadro aflitivo na cabeça do leitor, ele descreve a cidade, deixando transparecer as impressões que ela causa nele: "Semelham-se a gaiolas, com viveiros,/ As edificações somente emadeiradas:" Nestes versos, Cesário observa os edifícios em construção e compara-os a gaiolas, que trazem consigo uma idéia de prisão. Mais adiante, na segunda parte do poema, ele afirma "Muram-me as construções rectas, iguais, crescidas;" e passa ao leitor uma sensação de encurralamento, como se ele estivesse num lugar cercado e tedioso. Esta sensação também está presente claramente num verso da quarta parte: "E eu sigo, como as linhas de uma pauta,/ A dupla correnteza augusta das fachadas;".

Para fugir desta arquitetura que o oprime durante todo o tempo e que está presente em descrições através de todo o poema, Cesário evoca o passado ou o futuro. Ele se lembra das Grandes Navegações e glorifica este tempo: "E evoco então as crônicas navais:/ Mouros, baixéis, heróis, tudo ressuscitado!" A glória dos portugueses é uma lembrança ou uma ilusão. Ela aparece no passado, como no exemplo citado, ou em planos para o futuro: "Nós vamos explorar todos os continentes/ E pelas vastidões aquáticas seguir!" O ideal português é um sonho, realizado ou ainda por se realizar, mas longe do presente. Ele só aparece como algo fora da realidade portuguesa do tempo do poeta. Quando o poeta pára de sonhar, a cidade volta a oprimi-lo, como mostra os versos que aparecem logo depois dos planos de conquistar territórios pelo mar novamente: "Mas se vivemos, os emparedados,/ Sem árvores, no vale escuro das muralhas!..." Estes versos começam com uma adversativa, "mas", mostrando que depois do sonho acalentador vem a realidade que esmaga. O poeta reconhece que ele vive preso, distante da liberdade do campo, que aparece idealizado no verso "as notas pastoris de uma longínqua flauta".

Cesário Verde termina seu poema com a mesma descrença que o fez escrever as primeiras linhas. Na última estrofe, ele reafirma, evocando a idéia de morte, que a cidade é um lugar que o enclausura: "E enorme, nesta massa irregular/ De prédios sepulcrais, com dimensões de montes,/ A Dor humana busca os amplos horizontes,/ E tem marés, de fel, como um sinistro mar!"

É de se esperar que, depois de todo o horror retratado e sentido pelo poeta, ele tenha um sentimento de ódio para com a cidade. Alguns autores assim afirmam. Mourão-Ferreira diz que o poeta "fora um enamorado" da cidade mas que, ao conhecê-la melhor, deixou de o ser. Já Helder Macedo acredita que o poeta nunca esteve "enamorado" dela. Eu, contrariando todos estes estudiosos, penso que o poeta gosta de Lisboa. A cidade o incomoda mas ao mesmo tempo o inspira. Embora ele descreva a miséria e a luta pela sobrevivência com um ar melancólico, embora a cidade desperte nele, muitas vezes, um desejo de morte, ele continua escrevendo sobre ela, como se algo o fascinasse. Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa, refletiu sobre Cesário Verde em versos: "Que pena que tenho dele! Ele era um camponês/ Que andava preso em liberdade pela cidade./ Mas o modo como olhava para as casas,/ E o modo como reparava nas ruas,/ E a maneira como dava pelas cousas,/ É o de quem olha para árvores." Alberto Caeiro gostava de árvores. Como afirma Márcia Helena Saldanha Barbosa, "a insistência no tema, a produção de imagens múltiplas e simultâneas, a atenção a determinados detalhes que constituem o bulício do espaço urbano e as freqüentes enumerações separadas por pausas, que conferem aos versos um ritmo bem marcado, tudo isso trai a vibração e o paradoxal deleite do caminhante. Trata-se de alguém deslumbrado por aquilo mesmo que o faz sofrer, e até pelo próprio sofrimento." A cidade o atrai. O poeta é o próprio flâneur que, andando pelas ruas de Lisboa, a entende. "A rua se torna moradia para o flâneur que, entre fachadas dos prédios, sente-se em casa tanto quanto o burguês entre suas quatro paredes", escreve Walter Benjamin. Por tudo isso, acredito que é possível afirmar que, mesmo se sentindo enclausurado, mesmo evocando a morte tantas vezes, mesmo nos mostrando o lado mais miserável de Lisboa, algo nela o encantava e o convidava a olhar para ela com olhos atentos e poéticos. Cesário, aceitando o convite, a olhava através de versos alexandrinos e a adorava pelo avesso.


2. Elementos de modernidade presentes no poema


Em "O Sentimento dum Ocidental", além de fazer algumas menções ao período das Grandes Navegações, Cesário Verde registrou as ilusões da modernidade e a euforia do século XIX. Entremeados por entre os versos, estão vários elementos modernos, várias ideologias contemporâneas que fazem deste poema um épico da modernidade.

Na segunda estrofe da primeira parte, ele já nos mostra algumas destas marcas: "O céu parece baixo e de neblina,/ O gás extravasado enjoa-me, perturba;/ E os edifícios, com as chaminés, e a turba/ Toldam-se duma cor monótona e londrina." Através destes versos, é possível extrair muitos elementos da modernidade: retratada no primeiro verso, está a poluição, fruto da Revolução Industrial. O gás, que também aparece no título da quarta parte do poema, e os edifícios são outros elementos modernos. No último verso desta estrofe, aparece o adjetivo "londrina". A cor "londrina" de Lisboa sugere que a cidade tinha se transformado em algo sujo, poluído. Londres era "a mãe" da Revolução Industrial e, nesta época, trazia consigo o conceito de modernidade. Ela também vai estar presente no verso: "De um couraçado inglês vogam os escaleres;" Londres vendia mercadorias para Portugal, mercadorias artificiais e que ditavam moda, trazendo um sentimento de desconforto para o poeta. "Que grande cobra, a lúbrica pessoa,/ Que espartilhada escolhe uns xales com debuxo!" Enquanto muitos passam fome, "em terra num tinir de louças e talheres/ Flamejam, ao jantar, alguns hotéis da moda." Ao falar de Londres, Cesário Verde cita, em seu poema, a colonização inglesa, a opressão econômica da Inglaterra, a ditadura do capitalismo, marca da modernidade. Além disso, pode-se citar também as palavras de Márcia Helena Barbosa que afirmam que Cesário também expressa "os sonhos coletivos do século XIX, materializados na adoração da mercadoria e da novidade, nos rituais de consumo, os quais teriam como conseqüência a alienação do homem".

Outro elemento moderno pode ser visto na terceira estrofe da primeira parte: "Batem os carros d´aluguer, ao fundo,/ Levando à via férrea os que se vão. Felizes!/ Ocorrem-me em revista exposições, países:/ Madrid, Paris, Berlim, S. Petesburgo, o mundo!" Primeiramente, pode-se apontar os "carros d´aluguer" e a via férrea como elementos modernos. Em seguida, pode-se extrair como marca da modernidade o último verso. O poeta nos mostra, fazendo uma gradação dos países meridionais aos países nórdicos, que (tendo dinheiro, obviamente) é possível sair de Portugal e ir para qualquer outro lugar facilmente. O mundo não é mais só a Península Ibérica, como foi durante muito tempo. Portugal ultrapassou essas fronteiras. O mundo moderno é grande.

Outra marca da modernidade é o eu lírico do poema, que é um eu poético sozinho e sabe disso. A individualidade é um produto típico da modernidade. Como disse Maria Cristina Batalha (UERJ), ele é consciente da falta de sintonia entre ele e o mundo e isso impede a solaridade plena em sua poética. Ele é um flâneur que olha a cidade e se sente só: "E eu, de luneta de uma lente só,/ Eu acho sempre assunto a quadros revoltados;", "E eu sigo, como as linhas de uma pauta,/ A dupla correnteza augusta das fachadas;". Além disso, "a lei do efêmero e das aparências mutantes da modernidade metaforiza-se exemplarmente na figura da multidão, a massa humana das ruas das grandes cidades industriais que apresenta contraditoriamente a uniformidade do movimento coletivo e a singularidade das feições, a aparente integração no conjunto e a sensação de isolamento dos indivíduos" (Meneses:1994: 59)." A modernidade traz um aumento da densidade demográfica em Lisboa e, ao mesmo tempo, traz um maior isolamento entre seus habitantes e uma maior solidão.


3. O eu lírico de costas para o mar


"O Sentimento dum Ocidental" foi publicado em 1880, no ano do tricentenário da morte de Camões. Para homenagear este autor "de uma lente só", "épico doutrora" que contou em versos gloriosas aventuras marítimas de Portugal, Cesário Verde vira as costas para o mar e fala da cidade. Os autores portugueses, até então, se preocupavam muito mais em escrever sobre grandes feitos marítimos, sobre monstros que habitavam o fundo do oceano. O mar tinha sido sempre a fonte de inspiração de muitos poetas, até então. Cesário Verde vai contra essa tendência. O mar não mais o interessa, a glória marítima é passado. Cesário fala da cidade. O mar aparece apenas como uma boa lembrança, no seu poema.

Sua atenção é direcionada para Lisboa e seus habitantes. É de costas para o mar que ele vai prestar atenção nas varinas, nas obreiras, nos mestres carpinteiros que mais parecem morcegos, nos bêbados e nas patrulhas. É por olhar atentamente para a cidade que ele repara e se revolta com a poluição, com a sujeira das ruas que traz o Cólera e a Peste, com a arquitetura que o oprime. É por estar em terra firme que ele vai presenciar o acender dos lampiões que, ao invés de trazerem luz e paz ao poeta, o atormentam ainda mais porque a noite desvenda a pobreza. É nas esquinas de sua cidade que ele encontra sempre seu velho professor de latim pedindo esmolas.

O eu lírico de Cesário é habitante de Lisboa ("Mas se vivemos, os emparedados"), mas é constantemente atingido pela lembrança do mar. O mar aparece no seu poema como fuga da realidade opressora da cidade. Ele aparece trazendo recordações de glórias e de conquistas. "E evoco, então, as crônicas navais:/ Mouros, baixéis, heróis, tudo ressucitado!" As grandes naus do passado atravessam o presente através de sua imaginação: "Singram soberbas naus que eu não verei jamais!" O eu lírico, que mora em terra firme, mesmo de frente para a cidade, é assediado pelo mar através dos sentidos, da memória ou da imaginação. Na estrofe final, o ciclo se fecha. Cesário, que começou o poema de costas para o mar, termina o poema com ele: "a Dor humana repete o gesto das antigas naus, buscando os amplos horizontes e, simultaneamente, imita o mar: E tem marés de fel, como um sinistro mar! ", como bem disse Márcia Helena Saldanha Barbosa.

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Texto dedicado ao Prof. Edgard Pereira, que me ensinou a amar Cesário.
Comentários

sthefanny helena  - 12/12/2010

Nossa, fantástico.
Parabêns e Obrigada.

Oilas Gon?alves Siqueira  -

Excelente trabalho!

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