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Contos-->Paixão e covardia -- 27/01/2003 - 20:18 (Pedro Wilson Carrano Albuquerque) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
PAIXÃO E COVARDIA

Vida dura. O baixo salário levou-me a ocupar horas vagas com a venda, casa a casa, de produtos que colocavam em minhas mãos: discos fonográficos, livros, carnês, títulos de clubes, etc.
E foi na venda de “long-play”, em uma manhã chuvosa, que conheci Isaura.
Lembro-me da primeira vez que a vi. Um toque sobre o interruptor da campainha, a abertura da porta e o surgimento de bela mulher a indagar-me com os olhos sobre o motivo de minha visita.
Ela usava vestido de viscose estampado, de cores claras, solto sobre o corpo e repousava os pés em confortável par de chinelos franciscanos.
Mostrei-lhe os discos que compunham meu mostruário, oferecendo-me para colocá-los em sua vitrola. Isaura interessou-se por algumas gravações de boleros.
Na sala – humilde, mas acolhedora – ela agachou-se para ligar o toca-discos, revelando as curvas de seu belo corpo
Com palavras maviosas, música para meus ouvidos, justificou o motivo do baixo volume procurado no dial: o filho, ainda bebê, dormia no quarto ao lado.
As canções sucediam-se e tocou-me vê-la, comovida e sonhadora, a ouvir “Perfídia”, “Dos Almas”, “Solamente uma vez” e outros boleros.
De repente, levantou-se, lançou os chinelos para longe e pôs-se a dançar com a mão esquerda sobre o peito e a direita solta no ar, à altura do ombro.
Seus olhos miravam-me de vez em quando, mas isso, por si só, não garantia a existência de convite para acompanhá-la.
Excitado, porém, com a matreirice de Isaura e com as letras provocantes dos boleros, enchi-me de coragem e enlacei a cintura da dançarina quando se iniciavam os acordes do “Besame Mucho”.
Aquela mulher me atraía com uma força nunca antes por mim observada. Sentia-me como um alfinete arrastado por um ímã.
Meus sentidos estavam totalmente despertos com o aroma agradável oriundo da parceira e a proximidade de seu corpo. Notei, então, que entre o vestido e sua pele nada mais havia.
Receava que Isaura mostrasse aborrecimento com meu comportamento, mas, para minha surpresa, ela se revelou receptiva à minha ousadia.
A partir daí foi o instinto que comandou os nossos atos. Quem segura a força de uma paixão quando as oportunidades aparecem?
Utilizando o verbo conhecer no sentido que lhe é dado muitas vezes pela Bíblia, digo que nos conhecíamos quase que diariamente. Nunca um vendedor visitou tantas vezes uma mesma cliente.
Até que numa quinta-feira, juntos na banheira, ouvimos o toque da campainha e batidas nas portas trancadas por ferrolhos.
Só tive tempo para enxugar-me, apanhar minha roupa e correr para a área de serviço do apartamento, trancando-me no banheiro de empregada.
Era o marido que voltava mais cedo do trabalho. Uma greve interrompera as suas atividades.
Ouvi Isaura abrir a porta e justificar a demora: estava tomando banho quando a campainha tocou. E ela não mentia. Logo após, convidou o marido para o seu quarto, tentando, certamente, dar-me a oportunidade que necessitava para escapulir pela porta de serviço.
Para meu desespero, o esposo resolveu, antes de qualquer outra coisa, alimentar os canários, que cantavam alegremente em gaiolas fixadas na parede da área de serviço.
Segurei a respiração no momento em que o rapaz se aproximou da porta do banheiro onde eu me escondia.
Enquanto os pássaros recebiam sua refeição, senti uma vontade enorme de tossir. Meus nervos estavam à flor da pele.
Tentei desviar meus pensamentos para outro lugar. Lembrei-me, então, de meu velho professor de Matemática, quando eu cursava o ginásio.
Veio-me à memória, não sei porque, o Teorema de Pitágoras: “em todo triângulo retângulo, o quadrado da hipotenusa é igual à soma dos quadrados dos catetos”.
E eu que pensava que o estudo da geometria nunca teria utilidade para quem, como eu, desejava ser advogado.
Ouvi, novamente, o chamado de Isaura e a resposta do cônjuge de que já estava indo. Depois, o som de passos cada vez mais distante.
Foi o bastante para que eu abrisse cuidadosamente a porta de meu esconderijo e seguisse, pisando sobre ovos, em direção à cozinha, onde se encontrava a saída para área comum do prédio. Imaginem o alívio que senti quando me vi na rua.
Depois disso, eu, covardemente, nunca mais procurei Isaura. O medo foi mais forte que a grande paixão sentida pela jovem. Já me aconselhava meu longevo avô: “mais vale um medroso vivo que um bravo morto”.





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