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Artigos-->Espólio veluziano -- 08/10/2013 - 10:04 (Brazílio) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
Cinco casamentos, quatro viuvezes e um pouco mais que oito décadas de laboriosa



existência e Velusiano, o Velu, expirou, cercado pelo carinho da família contristada.



Justiniana, a primogênita do quinto matrimônio que o assistiu nas horas derradeiras



recitava aos sobrinhos, anos depois, parte da agonia estertoral do progenitor, a



pedir água,..."um quarto d`água".



Seleiro de profissão, mas raramente a cavaleiro da situação, Velusiano muito fiou e



mais se endividou ao longo dos anos, deixando, ao partir, obrigações que os filhos,



já empregados, e em mutirão, foram desbastando até a total liquidação.



Do espólio, além das paternais recomendações, exemplificadas numa vida de



paciência, esperança e compreensão, sobraram as ferramentas do ofício: um



compasso de ferro, um par de sovelas ( o sovelão e a sovelinha), um vazador, a torquês, sim senhor, e



alguma peça mais genérica, como a foicinha e a enchó.



Foi o filho Antônio, que com sua eclética inclinação profissional, e apenas ligeira



aptidão funcional, encarregou-se de ampliar aquele lote ferramental, adicionando-

lhe, ao sabor de suas sussecivas e malsucedidas tentativas de novo ofício, coisas como colher de pedreiro,



nível, facas de sapateiro, feitas do melhor aço de arco de barril, o prumo,



martelo sem pé-de-cabra, pé-de-ferro de três extremidades (pezão, pezinho e



salto), tamborete das pernas curtas, bateia... enfim, um arsenal de aspirações



profissionais que ficava em sua maior parte confinado naquela lata de querosene,



num cantinho do quarto de Antônio.



Havia o bombardim também, aquele instrumento que pertencia à banda, que lhe



fora confiado, e apesar do esfuziante entusiasmo, pouco executado. Mas esse já era



um capítulo da arte, não do artesão.



Outras peças remanescentes dos cuidados profissionais de Velusiano, embora não



classificadas, erravam pela casa, ou pelo terreiro, sem um repouso fixo, de tanto



que os netos lhes tentavam achar nexo. Assim, havia uns blocos ou pesos de ferro



de vários tamanhos que achavam serventia escorando portas contra a ventania.



Teriam sido pesos usados no esticamento do couro, arreios, selas? Havia também



uns ferrinhos e umas prensas de madeira que só um outro seleiro daquele tempo



é que poderia lhes dar nome e utilidade. O José, filho do terceiro casamento de



Velusiano, meio-irmão de Antônio, bem que poderia ter ajudado nessa definição,



pois como o pai, teve seus pendores para a profissão, mas suas visitas à casa dos



meio-irmãos eram raras, e geralmente da sala - onde fumava Douradinho, cantava



alguma modinha ao violão - não passavam. Assim como ele próprio, já sessentão,



não passava de seus admitidos 38 anos.



Por fim, a bengalinha, ou manguarinha, como a chamava Justiniana. Fininha,



elegante, lustrosa até, foi encontrar serventia ao ser serrada e conformada a escora



de cortina de plástico entre a sala e copa.
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