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Ensaios-->O ouro de Moscou -- 17/01/2013 - 17:44 (Félix Maier) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos

O “OURO DE MOSCOU”

Carlos Ilich Santos Azambuja

 

Os partidos comunistas de todo o mundo sempre defenderam a pátria do socialismo... Até o último rublo.             

                           

Sobre o tão falado “Ouro de Moscou” ou seja, a “ajuda financeira fraternal” que o PC Soviético sempre deu a todos os partidos comunistas do mundo, deve ser assinalado, antes de tudo, que sustentar um exército de revolucionários profissionais que tornasse possível a manutenção de casas ilegais (aparelhos), imprensas, depósitos para literatura, aparatos de autodefesa, gráficas, serviços de inteligência, etc., requeria muito dinheiro. Dinheiro que os partidos comunistas quase sempre não tinham. Nesse contexto, a “ajuda fraternal”, embora limitada para as necessidades sempre crescentes, não era desdenhável. Aos partidos comunistas, nesse sentido, antepunham-se duas alternativas: o caminho das “expropriações revolucionárias” ou o da penetração nos grandes âmbitos econômicos - os chamados empreendimentos partidários -. Todos os partidos comunistas do mundo optaram por este último caminho, que requeria pessoas fiéis e incorruptíveis.

 

O “Ouro de Moscou”, no entanto, não fluía sem limites e, muitas vezes, nem em montantes significativos que atendessem a todas as necessidades partidárias, conforme especificado pelo depoimento, do Coronel Vladimir Gueorguievitch Novikov, chefe da “sucursal da KGB no Brasil” nos anos 80, à revista “Veja” de 12 de julho de 1995. Segundo essa entrevista, “os comunistas brasileiros” recebiam dinheiro do Estado soviético “em algum lugar da Europa”. Esse lugar da Europa era a Suíça, e o encarregado do recebimento será aqui mantido no anonimato, citado apenas pelas suas iniciais e seu codinome; JM (“Careca”), pois não se pode descartar que não retorne, no futuro, a tarefas semelhantes.

 

Esse auxílio fraternal, todavia, foi muito mais amplo do que se possa imaginar, conforme os balancetes dados a conhecer em Moscou após o fim da União Soviética, a partir de 1991. Segundo o jornal “Konsomolskaya Pravda” de 8 de abril de 1992, o PCUS, somente em 1990 - ou seja, 5 anos após a implantação, por Gorbachev, das políticas da “perestroika” e “glasnost” - a União Soviética “ajudou com mais de US$ 200 milhões os partidos irmãos do mundo, entre os quais o da Espanha e Portugal e quase todos da América Latina (...) Os do Brasil e Colômbia receberam US$ 400 mil cada um”. Ou seja, uma situação paradoxal: enquanto Gorbachev se reunia assiduamente com os líderes ocidentais, defendendo o desarmamento e a paz, dava dinheiro aos partidos comunistas desses países para a luta que visava a derrubada dos governos chefiados por esses mesmos líderes.

 

Nesse sentido, cabe esclarecer que a “ajuda fraternal” e o apoio político não eram dados apenas aos partidos comunistas fiéis a Moscou, como seria lícito imaginar. Ao final da década de 70, dos diversos exilados latino-americanos que foram acolhidos e viveram em Moscou e em países da Europa Oriental, cerca de 100 pertenciam à organização argentina de luta armada “Montoneros”, segundo registra o livro “El Oro de Moscou”, 1994, de Isidoro Gilbert, ex-chefe da agência de notícias soviética TASS, em Buenos Aires. Ou seja, o PCUS, que se sobrepunha ao Estado soviético, também apoiava as organizações de luta armada ao mesmo tempo em que mantinha negócios e relações diplomáticas com os países onde essas organizações atuavam, como ficou claro, por exemplo, com o apoio em dinheiro, armas e treinamento, aos militantes chilenos da “Frente Patriótica Manuel Rodriguez”, braço armado do Partido Comunista Chileno.

 

Essa “ajuda fraternal” era, no entanto, muito mais ampla do que as cifras mencionadas pelo “Konsomolskaya Pravda”. Ela implicava também em financiamentos de editoras, gráficas, jornais, revistas, viagens de membros do aparelho dirigente ao exterior, férias anuais em casas de repouso na Criméia, educação política e treinamento de quadros nas escolas do partido, em Moscou, inclusive treinamento militar, e outros tipos de “auxílio”. Muitos negócios no comércio exterior foram facilitados graças à interferência do Departamento Internacional do PCUS, ao qual se vinculavam os partidos comunistas de todo o mundo. Essa vinculação era realizada através de um “referente” (membro do aparelho do Departamento Internacional responsável pela “assistência política” e por todos os assuntos que diziam respeito a um PC determinado). O “referente” encarregava-se de encaminhar e buscar solucionar todos os problemas que ordinariamente surgiam, envolvendo o partido comunista a seu cargo e fazia também as vezes de “perevodchic” (intérprete) quando da ida de dirigentes comunistas a Moscou para reuniões ou entrevistas com funcionários de maior hierarquia do PCUS. Os “referentes” sempre conheceram de perto as lutas internas dos partidos comunistas que “assistiam” e, muitas vezes, participaram decisivamente delas.

                       

Nos casos de intermediação de negócios de comércio exterior, os partidos recebiam comissões por parte das empresas nacionais que haviam sido ajudadas. Todavia, na medida em que o socialismo real se foi degradando, particularmente após 1985, quando Gorbachev assumiu o poder na URSS, sua decadência influiu negativamente sobre esses negócios bem como sobre os empreendimentos partidários, pois nenhum partido conseguiu adaptar-se à economia de livre mercado. Na Rússia de hoje, conforme a imprensa vem dando conta quotidianamente, o fim do PCUS deixou a várias frações e a diversos dirigentes pós-soviéticos “alguns negócios”, dando origem ao que hoje é chamado de “máfia russa”.

 

Depois que o PCUS foi formalmente colocado na ilegalidade e declarado extinto, em agosto de 1991, seus arquivos secretos foram abertos e alguns deles, por “ordens superiores”, rapidamente fechados. Valentim Falin, que fora embaixador na  Alemanha Ocidental e último chefe do Departamento Internacional do PCUS (e que em fins de 1992 solicitou e obteve asilo político na atual Alemanha) declarou que “em meados de março de 1990, uma grande injeção financeira foi recebida pela maioria dos partidos comunistas estrangeiros. O da França recebeu US$ 2 milhões, o do Chile US$ 700 mil, os da Alemanha e Portugal US$ 500 mil cada um, o do Líbano US$ 400 mil, o de Luxemburgo US$ 270 mil, e os da Índia e Argentina US$ 250 mil cada um” (jornal “Novedades”, Moscou, 27 de setembro de 1992).

 

Também o livro “A Conspiração do Kremlin”, escrito conjuntamente pela Procuradora-Geral da Rússia, Valentina Stepankov, por seu segundo, Evgueny Lisov, e pelo jornalista Pavel Nikitin, assinala que o PCUS doava cerca de US$ 20 milhões de ajuda financeira, anualmente, aos partidos comunistas e organizações revolucionárias de todo o mundo. Esse montante foi considerado correto pelo general da KGB, hoje na reserva, Nikolai Leonov.

 

Todavia, a imaginação criadora daqueles que geriam as finanças do PCUS não tinha limites. Havia outras formas de enviar dinheiro aos partidos comunistas estrangeiros. A “Federação Sindical Mundial”, a “Federação Mundial da Juventude Democrática”, a “União Internacional de Estudantes”, a “Federação Democrática Internacional de Mulheres”, e outras entidades que integravam o Movimento Comunista Internacional, também possuíam seus canais, embora mais modestos, de “ajuda fraternal” às entidades similares dos países ocidentais.

 

Essa tarefa de auxílio aos revolucionários de todo o mundo não foi recente. Ela teve início em 1920, logo depois da Revolução Bolchevique, através do “Serviço de Relações Internacionais” do Komintern, entidade conhecida pela sigla “OMS” (em russo: “Otdel Mezhdunarodnykh Suyasey”), que era a alma do aparato secreto do Komintern, pois controlava os códigos para transmissão e recebimento de mensagens e as planilhas sobre o financiamento aos partidos comunistas,  que eram manuscritas, a fim de que delas não tomassem conhecimento olhares menos confiáveis.

 

Existiam, então, representantes da “OMS” em todo o mundo, aos quais cabia a tarefa de fazer chegar essa ajuda fraternal a quem de direito. Esses representantes, contudo, não devem ser confundidos com os membros do Komintern enviados ao exterior para educar na “doutrina científica” os membros dos partidos comunistas estrangeiros. Os partidos comunistas da América Latina, por exemplo, durante toda a existência do Komintern, desativado por Stalin em maio de 1943, receberam ajuda financeira através do “Bureau Sul-Americano”, sediado em Buenos Aires e, posteriormente, em Montevidéu.

 

 A partir de 1991, a nova situação criada pelo fim da União Soviética e o desmantelamento do PCUS afetou profundamente as finanças dos partidos comunistas de todo o mundo que, de 1992 em diante, não mais receberam a “ajuda fraternal” à qual se haviam acostumado por 70 anos.

 

A bem da verdade, deve ser assinalado que essa múltipla colaboração, sob a hegemonia do PCUS e sob a égide Movimento Comunista Internacional, não obscurece o talento e o sacrifício de milhares de militantes que integravam os aparatos anônimos dos partidos comunistas de todo o mundo, que participavam de comícios, pichações, panfletagens e greves políticas, tarefas essas que marcaram a ferro e fogo as personalidades da grande maioria desses anônimos que fizeram dessa profissão o seu modo de vida e jamais conheceram outro e, da vida, um alheamento da realidade. Profissão que deglutiu famílias e pessoas diabolicamente convencidas de estarem lutando por um mundo melhor.

 

A eles, esse dinheiro nunca chegou. Viviam como pedintes, do que era denominado “circulismo”, isto é, de arrecadar dinheiro em seu círculo de parentes, amigos, colaboradores e simpatizantes, para sobreviver.

 

Contraditoriamente, o Partido (com inicial maiúscula) sempre valorizou e considerou mais útil a seus interesses estratégicos um homem de direita, um burguês com acesso aos organismos empresariais ou de Segurança que um provado e leal militante. Foi essa a realidade. Sabe-se que, anualmente, sempre foram colocadas à disposição da direção do PCB dez passagens aéreas, de ida e volta a Moscou, para que os dirigentes gozassem férias nas casas de repouso do partido soviético. Tudo isso foi confirmado pelo Tribunal Constitucional Russo, que em 1992 julgou os crimes do PC Soviético.

 

No entanto, essa realidade, que já passou, não significa absolutamente o fim de História. Pelo contrário, o mundo encontra-se apenas no início de um período duvidoso e carregado de imponderáveis. Talvez mais perigoso que o dos tempos da Guerra-Fria. As perspectivas são várias e as diversas conjeturas estão em aberto.  

 

 

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