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Ensaios-->Mensagem final -- 01/11/2012 - 11:46 (Félix Maier) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos

"UMA AULA PARA O MINISTRO DA DEFESA E LUGARES TENENTES"

PUBLICADO NA "REVISTA DO CLUBE MILITAR" EM JANEIRO DE 2001

MENSAGEM FINAL
 
Por Paulo Campos Paiva
General-de- Exército Reformado, falecido em 2005
 
Sinto a necessidade de colocar aqui algumas apreensões e questionamentos quanto ao futuro que estaria reservado à nacionalidade brasileira e ao nosso País.
 
Retornei da Itália, comungando com a esmagadora maioria dos “veteranos” da FEB no sentimento de fé quanto ao destino de grandeza da Pátria, com o Brasil evoluindo, na segunda metade do século, de uma potência continental para uma outra de nível, pelo menos, equiparado  ao de grandes potências como a Inglaterra e a França. Isto, infelizmente, não é a realidade que estamos vivendo hoje. Mas as ameaças, neste início de milênio, entretanto, continuam aí, ganhando força, a cada dia, a cobiça internacional pela Amazônia, sem que se disponha de um poder de dissuasão compatível com a atual projeção do País no contexto mundial. É de se perguntar se a estratégia que nos resta para fazer frente, nos dias atuais, a uma “Santa Aliança” de potências nucleares no TO Amazônico, à semelhança da adotada pelo vietcong na Indochina, é realmente a melhor indicada, ainda mais quando essa implica numa guerra de desgaste, de longa duração, impondo sacrifícios ao povo brasileiro nos 4 (quatro) campos do poder, sobre-humanos e incalculáveis, tiranicamente superiores aos que nos foram exigidos durante a II GM.
 
É bom visualizar que a composição de forças não é mais como a que havia no Vietnã. Naquela época a luta era de “Davi contra um único Golias”. Este último completamente desgastado e sem apoio da opinião pública mundial. O “Golias”, nos dias atuais, foi multiplicado por 7 (sete), não sendo difícil obter o beneplácito da comunidade global contra brasileiros, acusados como “destruidores da flora e da fauna”. Em Londres, não é novidade, já circulam automóveis com adesivos nos vidros, contendo mensagens do tipo: - “Salve a Floresta Amazônica, queime um brasileiro.”
É de se questionar, também, posto que, praticamente, já tendo alcançado o limiar do domínio da tecnologia do enriquecimento de urânio, se não seria aconselhável denunciarmos os tratados que, longe de afastar o perigo de uma hecatombe, apenas nos submetem, impondo-nos uma “soberania limitada”, motivo de afronta aos que, empunhando armas, deram sua vida pela manutenção de uma soberania que, na década de 40, na admitia restrições, fossem estas quais fossem.
 
Em assim sendo, sou levado a crer que uma opção, como a que fizeram indianos e paquistaneses ou, até mesmo, desenvolver uma guerra química-bacteriológica-radiológica (GQBR), com alto grau de letalidade, como nosso trunfo, constituiria linha-de-ação mais simples, de efeito dissuasório mais imediato e de conseqüências menos onerosas em termos de sofrimentos e de vidas humanas. Será que já fomos cerceados, também, nessa direção pela “guarda pretoriana” do 1º Mundo? Se não, por que não optarmos, de forma a poupar a nacionalidade brasileira de um holocausto sem par, de uma sangueira sem limites, como só poderá ocorrer no País no caso da necessidade de transformá-lo num Vietnâ? Por que não aliciamos a Argentina e o Chile para projetos desta natureza? O MERCOSUL, à semelhança de outros blocos econômicos, não deve possuir um poderio militar que o alicerce? A própria África do Sul, por que não criarmos um novel bloco de poder, no Atlântico Sul, com esses países?

A grande realidade é que nenhuma “santa aliança” de grandes potências ousa intervir ou, mesmo, se imiscuir nos assuntos internos de uma Rússia, ainda que decadente, ou de potências nucleares emergentes, como a Índia e o Paquistão.  A propósito, por que seriam, indianos e paquistaneses, mais competentes que brasileiros (detentores da 8ª economia mundial), a ponto de conseguirem resistir às pressões internacionais contrárias à consecução e manutenção de objetivo nacional de tamanha relevância, qual seja o de dotar seus países de poder militar inquestionável pelos atuais árbitros do porvir da comunidade global?
 
Não há como questionar porém que, hoje, apenas potências nucleares podem impedir a consecução de nossos objetivos nacionais ou ameaçar nossa soberania. Desta forma, é para fazer frente às pressões escudadas em seu poderio que devemos estar preparados. Isto posto, não se pode admitir que o Brasil, ao final do Século 20, no início do 3º Milênio, continue o mesmo “gigante pela própria natureza” ainda sem garras, o de sempre “impávido colosso” ainda sem presas, não para atacar, para ferir, mas para se defender de oponentes que não o têm o mínimo constrangimento de intervir, à “manu militari”, em outras nações, invocando dogmas e princípios de direito internacional que só respeitam quando são do seu interesse!
 
Será tão difícil pressentirmos que estamos, cada vez mais, trilhando um caminho sem retorno, comprometendo a altivez e o próprio futuro das gerações que estão por vir? O País já não consegue distinguir se, feliz ou infelizmente, tem o que defender! Acontece que temos muitíssimo a defender. Um Centro-Sul desenvolvido e uma Amazônia entesourada que não podem ser mantidos apenas com paus e pedras ou confiando apenas na diplomacia. Esta, por sua vez, para falar de igual para igual, sem constrangimento, com os atuais “senhores da paz e da guerra”, tem que ser apoiada em poder militar de peso mas nunca em tratados delimitação de armas, que só favorecem, em última instância, a notórios mercadores da morte.
 
Mas, e na Amazônia, o chamado “pulmão do mundo”? Como ter a certeza da eficiência e da eficácia de uma estratégia nestes moldes (vietcong), se ainda viabilizamos o adestramento na selva para militares de países que, sabemos pela declaração de seus governantes, não hesitam em afirmar que “a região é patrimônio da humanidade, sendo descabida a pretensão de nós, brasileiros, a considerarmos como nossa?”
 
Se somos cerceados no direito de possuir um poder de dissuasão eficiente, eficaz e imediato para a garantia da Amazônia, não seria uma temeridade admitir que o inimigo mais provável seja treinado e ambientado num tipo de guerra estratégica que entendemos com sendo a única, “que nos foi permitida”, para se fazer frente a uma ameaça naquela região? Não estaríamos, assim, de boa fé, inocentemente, expondo o flanco ou, quem sabe, admitindo um “cavalo de tróia”? Independente do nível de conhecimentos ministrados neste adestramento, não se pode deixar de considerar o gabarito desses militares estrangeiros, em sua esmagadora maioria integrantes de “unidades de elite” em seus países, alguns, não há como duvidar, especialistas na “área de Inteligência” com reais possibilidades de, durante o decorrer do mesmo, levantarem dados, informes e informações valiosas que, fatalmente, comprometerão o próprio desencadeamento de uma reação nos moldes que foram planejados.
 
Existe hoje uma “corrente de opinião” que, lamentavelmente, de forma desavisada e leviana, está, acredito que involuntariamente e de boa fé, fazendo as vezes de uma 5ª coluna, procurando minimizar a possibilidade de uma intervenção por potências estrangeiras na Amazônia. Argumenta esta “corrente” que, como estão conseguindo extrair, sorver e transladar tudo que dela precisam, sem dar um tiro, àquelas potências não interessaria uma escalada do tipo militar na região. A este segmento, de “cépticos incuráveis”, gostaria de lembrar que, em 7 de dezembro de 1941, o embaixador japonês em Washington ainda não havia formalizado o estado de guerra e a força aeronaval nipônica já estava a bombardear a base naval americana em Pearl Harbor. E a queda do muro de Berlim? A desintegração da URSS? Quem poderia acreditar nesses desideratos históricos de tamanha amplitude e significado para a humanidade? E por isso pergunto: por que ser tão incrédulo quanto à possibilidade de uma “propalada intervenção humanitária, apoiada no dever de ingerência, invocado para o bem da humanidade”, em uma área que, para a comunidade internacional, não pertence apenas aos brasileiros?
 
Para finalizar, desejo deixar mais um último questionamento: -” Se a Argentina dispusesse, apenas, de um único artefato, teria o seu oponente deslocado toda uma armada para o bloqueio da Ilhas Malvinas?
 
Não admitir limitações à soberania da Pátria, permitir e dar condições para que, na terra brasileira, possa viver um povo altivo e orgulhoso, temido na guerra e, sobretudo, respeitado na paz, Foi por isto que lutaram os nossos bravos “pracinhas”, liderados por uma oficialidade desassombrada. Este foi o farol indicado pela FEB! E é isso que nós, “veteranos”, almejamos seja mantido como ideal para as gerações vindouras. 
 

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