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Ensaios-->O MSIA e a Campanha da Fraternidade 2011 -- 01/03/2011 - 14:45 (Félix Maier) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
Campanha da Fraternidade 2011

A idolatria da natureza promove a pobreza, a fome
e o malthusianismo

Fevereiro de 2011

Movimento de Solidariedade Ibero-americana
2 Solidariedade Ibero-americana
Rua México, 31 s.202
CEP 20.031-144
Rio de Janeiro-RJ
Telefax: + (21) 2532-4086
E-mail: msia@msia.org.br
Sítio: www.msia.org.br
Publicado pelo
MSIA – Movimento
de Solidariedade
Ibero-americana
EDIÇÃO ESPECIAL DO
JORNAL SOLIDARIEDADE
IBERO-AMERICANA
Capa: A parábola do cego
guiando os cegos, quadro de
Pieter Bruegel, o Velho (1568).
Diretora: Silvia Palacios
Conselho editorial:
Angel Palacios Zea, Geraldo
Luís Lino, Lorenzo Carrasco
e Marivilia Carrasco
Projeto Gráfico:
Maurício Santos
A nação brasileira tem percorrido uma difícil
trajetória histórica em termos do trabalho de
gerações, pesquisa científica e capacitação
tecnológica, que, não obstante, a colocam
hoje em lugar de destaque como grande produtora
de alimentos, com uma das maiores
áreas potenciais de expansão agrícola do planeta,
além de dotá-la de vastas fontes de
energia, principalmente, hidroeletricidade,
petróleo, gás natural e energia nuclear.
O pleno desenvolvimento desses recursos,
acrescido da implementação de grandes
obras de infraestrutura de transportes e comunicações,
deve beneficiar não apenas o País,
mas também facilitar a integração física e
econômica da América do Sul, da qual o Brasil
é o centro nevrálgico, por suas dimensões,
população e capacidade produtiva. Em conjunto,
o Brasil e a região têm um enorme potencial
para transformar os seus vastos recursos
naturais em riquezas reais em benefício
da população e converter-se num “celeiro
do mundo”, contribuindo ativamente para
eliminar o vergonhoso espectro da fome no
planeta e para ajudar o restante da América
Latina e grande parte da África a superar o
seu subdesenvolvimento histórico.
Diante da aguda crise econômica e social
que afeta todo o mundo, produto da globalização
financeira sem controle, este é o momento
para que o chamado “Continente da
Esperança” mostre o seu esplendor e utilize
esta oportunidade histórica para praticar a
solidariedade dentro de suas fronteiras e o
fomentá-la fora delas, manifestando as raízes
cristãs que nos formaram como nações
miscigenadas e exercendo uma fraternidade
universal que tem sido ignorada pelos sistemas
econômicos dominantes nos últimos três
séculos. Esta ordem solidária e fraterna tem
sido a preocupação central da Doutrina Social
da Igreja desde que esta foi apresentada.
Por isso, causa surpresa e choque constatar
que o texto-base da Conferência Nacional
dos Bispos do Brasil (CNBB) para a Campanha
da Fraternidade 2011 (CF 2011), com o
inspirador lema “Fraternidade e a vida no
planeta”, deixe de lado aquela perspectiva de
progresso e esperança para, em troca, apoiar
as teses infundadas do movimento ambientalista
internacional contra a sociedade urbana e
industrial. Se não contasse com a chancela da
CNBB – que pela terceira vez trata de temas
ambientais em sua campanha da Quaresma
–, um leitor desavisado poderia supor que o
documento poderia ter sido elaborado por
ONGs como o Greenpeace, o Fundo Mundial
para a Natureza (WWF) ou outras.
Campanha da Fraternidade 2011
A idolatria da natureza
promove a pobreza, a fome
e o malthusianismo
Silvia Palacios e Lorenzo Carrasco
Fevereiro de 2011 3
Como tem sido apontado por várias investigações
do Movimento de Solidariedade
Ibero-americana (MSIa) (como o livro Máfia
Verde: o ambientalismo a serviço do Governo
Mundial e outros), confirmadas por trabalhos
independentes, o movimento ambientalista
tem funcionado como um instrumento
político a serviço de oligarquias internacionais,
contra o progresso das nações em desenvolvimento.
Na essência, a sua proposta é a
de um retorno a sistemas econômicos pré-industriais,
motivada por uma equivocada ideologia
de “retorno à natureza”, com inspiração
esotérica e disfarçada de uma falsa espiritualidade,
que, na realidade, representa
uma porta de entrada à chamada “New Age”
e outras formas de idolatria. Ou seja, tratamse
de conceitos que jamais deveriam ser respaldados
em nome da Igreja Católica, cuja
Doutrina Social os condena formalmente.
A estranheza com o documento da CF
2011 é ainda maior pelo fato de o Brasil ter
sido, nas últimas duas décadas, submetido a
fortes pressões por parte de poderosos grupos
oligárquicos internacionais, visando frear
ou impedir o desenvolvimento dos seus vastos
recursos naturais e humanos, o desenvolvimento
de tecnologias avançadas, como a energia
nuclear, o setor aeroespacial e outros, em
um esforço de enquadrar o País em um autêntico
regime de “apartheid tecnológico”.
Na área de infraestrutura física, o movimento
ambientalista internacional tem sido mobilizado,
com vastos recursos financeiros e o
apoio de grande parte da mídia, para se lançar
contra todo tipo de projetos: hidrovias, ferrovias,
asfaltamento de rodovias, usinas hidrelétricas,
energia nuclear e muitos outros.
Já na década de 1970, essas eram as motivações
dos grupos oligárquicos anglo-americanos
encastelados no governo dos EUA,
que elaboraram o chamado memorando
NSSM-200, o qual propunha uma estratégia
secreta de controle da população para o
Brasil e outros 12 países em desenvolvimento,
sob o argumento de que o seu crescimento
populacional colocaria em risco o abastecimento
de recursos naturais (localizados nesses
países) para os EUA e seus aliados. Vem
daí o apoio financeiro a campanhas de esterilização
maciça de mulheres das regiões
mais pobres do Brasil e dos demais países citados
no documento, por parte de agências
oficiais e fundações privadas estadunidenses.
Nesta e em outras campanhas, ficava evidente
a intenção de minar as raízes cristãs da
sociedade brasileira, consideradas por tais
grupos como sendo o impulso do crescimento
populacional do País.
Thomas Malthus redivivo
No final do século XVIII, o reverendo inglês
Thomas Malthus, que também era professor
de Economia Política da Companhia das Índias
Orientais britânica (a primeira grande
empresa colonial criada para explorar recursos
naturais no exterior), lançou as bases da
ideologia que ficaria conhecida pelo seu
nome, o malthusianismo. Em linhas gerais,
Malthus afirmava que a população humana
tinha limites naturais impostos pela incapacidade
de a produção de alimentos acompanhar
o crescimento demográfico. Ademais,
Malthus era contrário às incipientes políticas
de ajuda aos pobres e a quaisquer avanços
da medicina que diminuíssem as altas taxas
de mortalidade da época – recursos que, segundo
ele, eram contrários às leis naturais.
Ficou célebre a sua polêmica com o médico
Thomas Jenner, que introduziu a vacinação
contra a varíola, doença que era então uma
das principais causas de mortes prematuras,
especialmente de crianças.
Embora o malthusianismo tenha sido
desacreditado pelos grandes avanços na produtividade
agrícola ocorridos ao longo do
século XX, os círculos oligárquicos que promoviam
o controle populacional direto decidiram
sofisticar os seus argumentos. Desta
forma, converteram os conceitos malthusianos
na ideologia ambientalista, cuja essência
sustenta a inviabilidade de se estender a todos
os povos e países do planeta os níveis de
vida desfrutados pelas sociedades industrializadas,
supostamente, devido à inexistência
de recursos naturais e à incapacidade de o
meio ambiente global suportar os impactos
decorrentes de um amplo desenvolvimento
mundial. E é aí que entra em cena o alarmismo
prevalecente nas campanhas ambientalistas,
principalmente, nas que envolvem as
mudanças climáticas.
4 Solidariedade Ibero-americana
Evidentemente, isso não significa que as
preocupações com o meio ambiente sejam injustificadas
– aspecto que tem sido observado
por altos dignitários do governo da Igreja
Católica, a começar pelo Papa Bento XVI.
Afinal, o grande desafio da Humanidade é a
construção de um sistema econômico harmonioso,
baseado no respeito à dignidade e aos
direitos naturais do ser humano, como indicados
a partir do próprio Livro do Gênesis
(I, 28), no qual tem que ser devidamente
considerada a necessidade de certos níveis de
proteção do meio ambiente, estabelecidos
com critérios científicos e morais.
Nesse quadro, além do regozijo familiar, o
nascimento de uma criança deve ser recebido
como uma potencial contribuição para o progresso
humano e o enriquecimento do Universo
– uma criatura de Deus –, na medida em
que ela disponha de condições de desenvolver
plenamente os seus potenciais criativos inatos.
Porém, a combinação dos dogmas malthusianos
e ambientalistas, sustentada por
um consumismo egoísta e hedonista, vê o nascimento
de novas vidas humanas como ameaças
aos níveis de vida que, supostamente,
não poderiam ser universalizados. Sob esta
ótica perversa, as novas vidas seriam “novas
bocas”, “novos poluidores” ou outras qualificações
depreciativas. Para alguns adeptos
mais radicais da hipótese do aquecimento
global, o controle populacional seria a maneira
mais eficiente de se evitar que a Humanidade
continuasse afetando a atmosfera.
O pessimismo cultural disseminado por
essa visão malthusiana-ambientalista, nas
últimas décadas, tem contribuído bastante
para a brusca queda das taxas de fertilidade
para níveis abaixo da mera reposição da população,
que tem afetado a quase totalidade
dos países industrializados e já começa a
atingir países em desenvolvimento, como o
próprio Brasil. Esta crise demográfica, ao
contrário da “bomba populacional” pregada
pelos malthusianos nas décadas de 1960-70,
representa uma séria ameaça para a prosperidade
das economias modernas, devido aos
seus efeitos sobre o envelhecimento da população,
a menor disponibilidade de uma força
de trabalho produtiva e o peso sobre os sistemas
de seguridade social.
Foi, entre outros motivos, para combater
esses lúgubres prognósticos sobre o futuro da
Humanidade, que o Papa Paulo VI convidou
o mundo a transitar por outro caminho, ao
estabelecer, em sua profética encíclica Populorum
Progressio (1967), que o autêntico
desenvolvimento é “o novo nome da paz”.
O homem não é inimigo da natureza, mas
está convocado ao seu aperfeiçoamento, por
meio da técnica que é produto de seu intelecto,
afirma o Pontífice no documento.
Contra esse espírito animador da Doutrina
Social da Igreja e a ideia de progresso e
industrialização, que contagiava as nações
em desenvolvimento naquela época, em suas
aspirações de superar a sua pobreza histórica,
as oligarquias internacionais criaram o
Clube de Roma, para promover a insidiosa
tese dos “limites ao crescimento”, ao mesmo
tempo em que preparava o lançamento
do movimento ambientalista internacional.
A perversa ideologia defendida pelos mentores
da organização pode ser sintetizada no
seguinte parágrafo autoexplicativo do livro
The First Global Revolution (A primeira revolução
global), de 1991: “Na busca de um
novo inimigo que nos uma, levantamos a
ideia de que a poluição, a ameaça do aquecimento
global, a escassez de água, a fome e
outras do gênero, se encaixariam no conceito.
Todos esses perigos são causados pela intervenção
humana e somente podem ser superados
com uma mudança de atitudes e comportamentos.
O inimigo real, então, é a
própria Humanidade [grifos nossos].”
Em abril de 2007, ao apresentar as conclusões
do seminário internacional sobre “Mudanças
Climáticas e Desenvolvimento”, realizado
em Roma, o cardeal Renato Raffaele
Martino, presidente do Conselho Pontifício
Justiça e Paz, criticou veementemente o que
chamou “a ideologia do catastrofismo”.
Segundo ele, “o informe preparado pelo MIT
de Boston para o Clube de Roma, feito público
em 1972, com o título Os limites do
crescimento, foi a mãe de todos os catastrofismos
do ambientalismo ideológico”.
O cardeal Martino é apenas um de muitos
dignitários da Igreja Católica que têm feito
as comparações cabíveis do radicalismo ambientalista
e o malthusianismo anticristão.
Fevereiro de 2011 5
Por conseguinte, é inconcebível que os
autores do documento da CNBB sequer levaram
em conta essas importantes discussões, limitando-
se a recorrer à “autoridade” de entidades
como o Clube de Roma. E, da mesma
forma, se fazem eco de outro dos arautos do
catastrofismo ambiental, o Painel Intergovernamental
sobre Mudanças Climáticas
(IPCC), órgão das Nações Unidas que tem
sido crescentemente contestado em sua pretensão
de representar um inexistente “consenso
científico” sobre as questões climáticas,
sem falar nas informações fraudulentas que
tem divulgado para justificar a suposta interferência
humana no clima global.
Além do não comprovado aquecimento
global antropogênico, os autores do documento
também repetiram sem qualquer consideração
crítica relevante os ataques igualmente
infundados dos ambientalistas radicais
contra os organismos geneticamente modificados
(transgênicos), a energia nuclear e
a exploração dos enormes recursos de petróleo
e gás natural da camada do pré-sal da
costa brasileira, uma conquista tecnológica e
orgulho do Brasil. Tudo isso, contrariamente
às lúcidas discussões em que o Vaticano tem
se engajado com a comunidade científica em
relação aos fenômenos naturais das mudanças
climáticas, o desenvolvimento da energia
nuclear para usos pacíficos e a utilização de
produtos transgênicos no combate à fome,
como veremos adiante.
Uma morna “sopa teológica”
Ainda mais surpreendente é a tentativa, na
seção “Apontamentos bíblicos sobre a preservação
da natureza” (p. 58), de justificar a
agenda ambientalista segundo os cânones do
magistério cristão. Para tanto, os autores recorrem
a uma coleção de citações de documentos
eclesiásticos e declarações de autores
cristãos e papas (inclusive os dois últimos),
retiradas dos seus contextos gerais para fazer
parecer que a doutrina cristã apoia o radicalismo
“verde”. O resultado é a promoção de
uma autêntica idolatria da natureza, que remete
ao paganismo pré-cristão, como já advertiu
ninguém menos que o próprio papa
Bento XVI, que rotulou a ideologia malthusiana-
ambientalista como “neopaganismo”.
Em 135 páginas quase inacreditáveis, o
documento reproduz sem maiores contestações
toda a pletora de argumentos que têm
sido manipulados para justificar a agenda de
limitações do uso de combustíveis fósseis,
além de oferecer como alternativa o habitual
receituário “verde” de restrições tecnológicas,
cuja aplicação plena implicaria em um
virtual retrocesso civilizatório e uma drástica
redução da população mundial.
Entre outras propostas, os autores apontam
o uso de energias “alternativas” – eólica,
solar, geotérmica etc. –, que mal representam
2% do consumo mundial de eletricidade,
além do retorno a uma virtual agricultura de
subsistência, com as suas fortes críticas ao
que chamam genericamente “agronegócio”.
A absoluta insensibilidade dos autores
para com as verdadeiras necessidades de uma
população ávida de progresso se mostra na
sugestão de um programa para a redução
do consumo pessoal. Entre as recomendações,
destacam-se: o abandono das viagens
de avião; a preferência pelo consumo de legumes
e frutas orgânicos (muito mais caros);
o uso de fraldas “ecocompatíveis”; a troca
do papel pela tecnologia digital; o uso de
painéis solares para aquecimento e geração
de eletricidade; e outras do gênero. Seriam
estas recomendações de uma ação preferencial
pelos pobres?
Os redatores da CNBB podem ter sido
motivados pelo que percebem como a melhor
das intenções, o empenho em colocar a
Igreja na vanguarda das discussões sobre
temas que consideram “os sinais dos tempos”,
ainda que com uma ótica um tanto
desfocada, que nos remete à parábola bíblica
do cego guiando os cegos, magistralmente retratada
no quadro de Pieter Bruegel o Velho,
que ilustra a capa desta edição. A intenção
do artista (explicitada pela igreja pintada no
plano de fundo do quadro), em uma época
de intensas turbulências religiosas, foi a de
advertir contra se seguir cegamente os falsos
líderes que se afastavam das lições da Igreja.
No caso da CF 2011, o resultado acabou
sendo uma descabida promoção dos princípios
misantrópicos e anticristãos que impregnam
a ideologia e a agenda do movimento
ambientalista internacional.
6 Solidariedade Ibero-americana
Em abril de 2007, realizou-se no Vaticano
um seminário internacional sobre
Mudanças Climáticas e Desenvolvimento.
O evento, promovido pelo Conselho Pontifício
Justiça e Paz, teve a participação
de 80 especialistas de áreas diversas provenientes
de 20 países de todos os continentes.
No discurso de encerramento da
reunião de dois dias, ao apresentar as
conclusões dos debates, o cardeal Renato
Raffaele Martino, presidente do Conselho,
transmitiu uma mensagem clara e
direta: o Vaticano reconhece a importância
das mudanças climáticas, mas rejeita
alarmismo inconsequente que tem
dominado o assunto.
Em entrevista à Rádio Vaticano, Martino
foi enfático: “Nem todo o mundo científico
está proclamando o desastre. Há
um bom número de cientistas que, consistentemente,
não vê essas mudanças climáticas
sob um ângulo negativo e, de fato,
dizem que esses fenômenos são recorrentes
ao longo dos anos e das eras e, às vezes,
podem apresentar resultados favoráveis
para a agricultura e o desenvolvimento.”
Por outro lado, Martino dedicou
grande parte do seu discurso a uma veemente
crítica à idolatria da natureza.
Segundo uma nota divulgada pela agência
Zenit.org (27/04/2007), ele enfatizou
que “a natureza é para o homem e o homem
é para Deus” e criticou o que denominou
“formas de idolatria da natureza
que perdem de vista o homem”.
“Também na consideração dos problemas
relativos às mudanças climáticas teremos
que recorrer a Doutrina Social da Igreja,
que não avaliza nem a absolutização
da natureza nem sua redução a mero instrumento”,
afirmou. Para ele, “a natureza
não é um absoluto, mas uma riqueza
depositada nas mãos responsáveis e prudentes
do homem”, e isto também significa
que “o homem tem uma indiscutível
superioridade sobre a criação e, em virtude
de ser pessoa dotada de uma alma, não
pode ser equiparada aos demais seres vivos,
nem muito menos considerado elemento
de perturbação do equilíbrio ecológico
naturalista. O homem não tem um
direito absoluto sobre ela, ainda que sim
um mandato de conservação e desenvolvimento
dentro de uma lógica do destino
universal dos bens da Terra, que é um dos
princípios fundamentais da Doutrina Social
da Igreja, principio que tem de ser
compatibilizado sobre tudo com a opção
preferencial pelos pobres e pelo desenvolvimento
dos países pobres”.
“A Igreja propõe uma visão realista.
Tem confiança no homem e em sua capacidade
sempre nova de buscar soluções
aos problemas que a historia apresentam.
Capacidade que lhe permite
opor-se com frequência às recorrentes,
infaustas e improváveis previsões catastrofistas”,
prosseguiu.
Nas conclusões, Martino lembrou que,
“segundo a conceição da ecologia humana
desenvolvida por João Paulo II, a ecologia
não é só uma emergência natural, mas uma
emergência antropológica, na que tem um
papel decisivo a relação do homem consigo
mesmo e, sobretudo, com Deus. O erro
antropológico é, portanto, teológico.”
Em setembro do mesmo ano, durante
a apresentação do livro “Recurso ambi-
O Vaticano condena a
idolatria da natureza
Silvia Palacios e Lorenzo Carrasco
Fevereiro de 2011 7
ente: uma viagem na cultura do fazer”
(Risorsa Ambiente. Um viaggio nella cultura
del fare), foi ainda mais enfático, ao
denunciar quatro dos perigos em que se
pode incorrer na abordagem dos problemas
ambientais. Em sua exposição, Martino
explicou que a Doutrina Social da
Igreja rejeita o biologismo, o catastrofismo,
o naturalismo e a ideologia malthusiana,
propondo, ao contrário, uma ecologia
humana como a mais harmônica
com o bem comum.
Martino criticou o “biologismo” (no
Brasil, mais conhecido como “biocentrismo”),
porque não distingue a diferença
substancial entre o homem e os animais,
remontando todas as funções humanas
apenas a bases biológicas e genéticas.
Para ele, o biologismo “não é uma ciência,
é uma ideologia que se contrapõe ao
antropocentrismo”.
Sobre “a ideologia do catastrofismo”,
explicou que suas origens remontam aos
relatórios do Clube de Roma sobre os
“limites do desenvolvimento”. O catastrofismo,
afirmou, “é uma ideologia quando
se nutre de um tal pessimismo antropológico
que nunca aponta o homem como
recurso... O pessimismo e a suspeita sobre
o homem se convertem em confiança
extrema nas técnicas seletivas, inclusive o
aborto e a esterilização maciça”.
Ao criticar o malthusianismo, Martino
recordou que, por ocasião da Conferência
da ONU sobre População e Desenvolvimento,
realizada no Cairo em 1994
e, depois, na dedicada às Mulheres em
Pequim, no ano seguinte, “a ação diplomática
exercida pela delegação da Santa
Sé entrou em singular sintonia com os
países pobres do planeta, interessados em
denunciar a ideologia neomalthusiana
que propunha planificar de modo centralizado
os nascimentos, violentando assim
a vontade das mulheres”.
O cardeal Martino explicou que a
Doutrina Social da Igreja não admite a
ideologia do naturalismo egoísta, ou seja,
do “retorno à natureza”, nas diversas
formas de “esoterismo naturalista, narcisismo
físico, busca de um bem-estar
psicológico e emotivo confundido com
bem-estar espiritual”.
“São formas de naturalismo que confinam
com a ‘New Age’, alimentam o supermercado
da religiosidade, entendem
de modo panteísta a biosfera como um
todo único e indiferenciado, e perdem
definitivamente de vista a natureza entendida
como diálogo entre o homem e
Deus”, explicou.
Frente a essas ideologias, Martino recordou
que os problemas ambientais são
uma questão social e que a Doutrina Social
da Igreja usa o conceito de “ecologia
humana”, como assinalado pelo papa
João Paulo II na encíclica Centesimus
annus (1991). No documento, o Pontífice
escreveu: “Com freqüência, nos interessamos
pelo ambiente natural, enquanto
não há um empenho semelhante
por salvaguardar o meio ambiente humano.
Há pouco empenho em salvaguardar
as condições morais para uma autêntica
ecologia humana.”
“A expressão ecologia social, para a
Igreja não significa só que o meio ambiente
natural deva ser humanizado, encaminhado
ao bem do homem de hoje e das
gerações futuras. Quer dizer também e
sobretudo que o meio ambiente humano
– a salvaguarda da vida, da família,
o trabalho, a cidade – exige o respeito
a uma ecologia própria, a um funcionamento
físico, a uma natureza própria”,
disse Martino.
O cardeal concluiu afirmando: “Nesse
sentido, a ecologia humana é um conceito
em harmonia com o bem comum,
sendo este o conjunto daquelas condições
sociais que permitem e favorecem nos seres
humanos o desenvolvimento integral
de sua pessoa.”
Lúcidas considerações, que passaram
despercebidas ou foram ignoradas pelos
autores do texto-base da CF 2011.
8 Solidariedade Ibero-americana
O texto-base da CF 2011 é tão repleto de
equívocos conceituais e factuais que contestá-
los um a um requereria um espaço
consideravelmente maior que o permitido
na presente publicação. Por conseguinte, limitar-
nos-emos a comentar alguns dos mais
representativos, suficientes para dar uma
ideia da desorientação dos autores do documento
da CNBB, quanto aos princípios
científicos e tecnológicos básicos que fundamentam
as questões climáticas e o estabelecimento
das infraestruturas físicas das economias
modernas.
Logo na Introdução da Primeira Parte
(p. 15), o texto sintetiza o equívoco principal
que norteia todo o trabalho: “(...) Nos
dias de hoje, é visível que mudanças climáticas
estão em curso; a temperatura está
mais elevada, temporais por toda a parte,
vendavais, longas estiagens. Mas se no passado
as mudanças ocorreram por causas
naturais, não podemos dizer o mesmo em
relação às atuais, que coincidem com o processo
de industrialização que se intensificou
nos últimos dois séculos.”
Para começar, as mudanças constituem o
estado natural do clima, que há milhões de
anos tem apresentado temperaturas bem
mais altas e mais baixas que as atuais e concentrações
de dióxido de carbono (CO2)
muito mais altas (mas apenas um pouco
mais baixas) que as atuais (Fig. 1). Também
houve níveis do mar muito mais altos e mais
baixos, assim como a cobertura de neve e
gelo variou entre zero e 100% da superfície
do planeta. Logo, a própria expressão
“mudanças climáticas” é redundante, pois
o clima está sempre mudando. E temperaturas
mais elevadas, grandes tempestades e
secas prolongadas já ocorreram incontáveis
vezes no passado e continuarão ocorrendo
no futuro, sem que a Humanidade possa
exercer qualquer controle sobre tais fenômenos
– exceto tratar de antecipá-los e se
preparar adequadamente para lidar com as
suas consequências.
Curiosamente, apesar de admitir que
“não há unanimidade na comunidade científica
a respeito das causas destas mudanças
climáticas a que assistimos” (p. 15), os autores
não mencionam qualquer cientista ou
trabalho que conteste o cenário alarmista
que constitui a linha mestra do documento.
Ao contrário, vão buscar os seus argumentos
exclusivamente em fontes comprometidas
com tal cenário catastrofista, engendrado
com fins políticos, como o Painel
Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas
(IPCC) das Nações Unidas e o Clube
de Roma, o templo do malthusianismo por
excelência. Não por acaso, o primeiro tem
sido crescentemente questionado, devido às
numerosas informações erradas e até fraudulentas
divulgadas em seus relatórios, e o
segundo, propagandista da falaciosa tese
dos “limites do crescimento”, tem sido duramente
criticado por numerosos dignitários
da própria Igreja Católica.
Dizem eles (p. 20): “Em seu quarto relatório,
de 2007, o IPCC afirma, com nível
muito alto de confiança – isto é, com segurança
de mais de 90% - que o planeta Terra
está aquecendo desde 1750, tendo elevado
a temperatura média em 0,74oC até 2006.
Equívocos do
texto-base da CF 2011
Geraldo Luís Lino*
* Autor do livro A fraude do aquecimento global: como um fenômeno natural foi convertido numa
falsa emergência mundial (Capax Dei, 2009).
Fevereiro de 2011 9
Nesse sentido, alguns dados chamam a
atenção, como por exemplo, as concentrações
de dióxido de carbono (CO2), o gás de
efeito estufa mais importante, aumentaram
entre 1995 e 2005 em um ritmo mais acelerado
do que entre 1960 e 1995. Como o aumento
se deve à maior presença de CO2 na
atmosfera, então a conclusão é que a temperatura
tende a aumentar cada vez mais.”
Neste único parágrafo, há duas imprecisões
científicas e uma informação que, por
si só, não tem qualquer relevância prática.
A primeira imprecisão é a afirmativa de que
o CO2 é “o gás de efeito estufa mais importante”;
não é, o privilégio cabe ao vapor
d’água (H2O), responsável por mais de
90% do efeito, cabendo ao CO2 pouco mais
de 5%. A segunda é a conclusão de que
mais CO2 na atmosfera implica em temperaturas
mais altas: a relação de causa e
efeito, nas últimas centenas de milhares de
anos, tem sido exatamente a oposta; quem
varia primeiro são as temperaturas, as
concentrações do gás as acompanham, em
intervalos de tempo variáveis de alguns a
centenas de anos. E a irrisória alta de temperatura
verificada desde o século XVIII,
como veremos adiante, não se distingue em
nada das variações muito maiores ocorridas
no passado.
Na p. 24, os autores afirmam que, “segundo
estimativas, a queima de combustíveis
fósseis acrescenta anualmente 5 bilhões
de toneladas de CO2 na atmosfera”.
E, adiante, na p. 32, advertem: “Assim,
dada a quantidade de CO2 na atmosfera, a
redução necessária para as emissões seria,
segundo o IPCC, da ordem de 50% até
2030. (...)”
Porém, os autores não dizem que a contribuição
humana para o CO2 que entra na
atmosfera é muito inferior à das fontes naturais
(oceanos, seres vivos, vulcões etc.).
O Dr. Luiz Carlos Baldicero Molion, do Instituto
de Ciências Atmosféricas da Universidade
Federal de Alagoas (UFAL), um dos
maiores críticos brasileiros do alarmismo
climático, enfatiza que a atmosfera recicla
anualmente 200 bilhões de toneladas (gigatoneladas)
de carbono, mas existe uma faixa
de incerteza muito grande sobre estes números,
que são calculados entre 160 e 240 gigatoneladas,
segundo os
diversos estudos existentes.
Como a contribuição
humana não passa de 8
gigatoneladas, ela é de
apenas 10% da faixa de
incerteza das estimativas
sobre a quantidade total
de carbono que entra na
atmosfera todos os anos.
Isso significa que,
ainda que a toda a Humanidade
embarcasse na
irracional – e potencialmente
suicida – agenda
de redução de 50% das
suas emissões de CO2, o
impacto nos fluxos naturais
de carbono seria insignificante,
em relação
aos números conhecidos.
Por outro lado, o sacrifício
socioeconômico
imposto à Humanidade
Fig. 1 – Variação das concentrações atmosféricas de CO2 e temperaturas
nos últimos 560 milhões de anos. Observe-se que, durante a maior parte
do período, as duas curvas não mostram uma correlação clara
e as concentrações de CO2 foram bem maiores que as atuais
(Fontes: R.A. Berner e C.R. Scotese, www.geocraft.com/wvFossils/
Carboniferous_climate.html).
10 Solidariedade Ibero-americana
seria enorme, pois tal redução afetaria, principalmente,
o uso dos combustíveis fósseis
– petróleo, gás natural e carvão mineral –,
que proporcionam mais de 80% da energia
primária consumida e cerca de dois terços
da eletricidade gerada em todo o mundo.
A quantidade de erros referentes à dinâmica
climática encontrados no documento
da CNBB é tão grande que mais vale refutálos
em bloco, demonstrando a falta de base
científica para a hipótese do aquecimento
global antropogênico, na parte seguinte da
presente edição.
A abundância de energia é um “perigo”
No tocante às fontes de energia, o trecho
seguinte sintetiza a visão dos autores (p. 31):
“(...) É preocupante o direcionamento que
as recentes decisões do governo estão conferindo
à questão das fontes energéticas
em nosso país. Hoje a Região Amazônica
é palco de grandes projetos hidrelétricos,
como as usinas Jirau e Santo Antônio, no
rio Madeira, Belo Monte e Tapajós, no
Pará, além de muitas Pequenas Centrais Hidrelétricas
(PCH) espalhadas pelo país e os
acenos de expansão da matriz energética
atômica. E, em meio às dificuldades mundiais
de contenção das emissões de CO2, o
governo praticamente ignora o potencial
oferecido pelo nosso imenso território para
a implementação e expansão da energia solar
e da eólica... A lógica desses projetos
energéticos está na contramão das medidas
necessárias para diminuir ou conter o aquecimento
global e impedir que a desestabilização
do clima coloque em risco as condições
de vida do planeta. (...)”
Convenientemente, os autores não esclarecem
que as únicas formas tecnológica e
economicamente viáveis de geração de eletricidade
para abastecer sociedades urbanizadas
e industrializadas são as usinas hidrelétricas,
termelétricas e nucleares, que
respondem por cerca de 98% da eletricidade
gerada no planeta. Devido à sua reduzida
densidade energética e custo elevado,
as chamadas fontes “alternativas” – solar,
eólica, geotérmica, biomassa etc. – são
apropriadas apenas para abastecimentos
locais ou pontuais. Qualquer sugestão em
contrário não passa de desinformação ou
desorientação ideologicamente motivada.
A visão distorcida contra os combustíveis
fósseis atinge as raias do absurdo,
quando, em vez de celebrar a ampla disponibilidade
deles, os autores afirmam exatamente
o oposto (p. 30): “As reservas disponíveis
são suficientes para manter este
consumo por décadas, talvez com preços
um pouco mais elevados. Atualmente, o
perigo não é propriamente a escassez, mas
a abundância de oferta destes produtos fósseis
[grifos nossos]. (...)”
Ou seja, a disponibilidade de fontes
energéticas a custos acessíveis, que possibilitem
a modernização das economias de
todo o mundo e o aumento dos níveis de
vida proporcionado pela disponibilidade de
eletricidade (benefício de que pelo menos
1,5 bilhão de habitantes do planeta ainda
não dispõem), é considerada um perigo pelos
redatores do documento!
Por isso, não admira que outra passagem
desqualifique a exploração de petróleo
e gás natural na camada pré-sal da costa
brasileira (p. 107): “(...) A exploração do
pré-sal não é a maravilha apresentada pelas
propagandas governamentais, pois além de
dispendiosa e de incorrer em riscos de graves
acidentes ambientais, trata-se da energia
que mais emite gases de efeito estufa, a
combustão de derivados de petróleo. (...)”
Em uma reles frase de efeito, os autores
depreciam a relevância de uma das maiores
descobertas da exploração de hidrocarbonetos
das últimas décadas em todo o mundo,
fruto exclusivo da qualificação dos técnicos
da Petrobras – quase como se a façanha,
saudada internacionalmente, representasse
um crime de lesa-humanidade.
E, logo adiante, voltam a atacar a tecnologia
nuclear (pp. 107-08): “(...) A sociedade
precisa se opor firmemente a iniciativas
de expansão da matriz atômica, porque
os seus resíduos permanecessem (sic) ativos
por longos anos; seria um problema que
legaríamos par muitas gerações futuras.”
Curiosamente, os autores do libelo passam
por cima do fato de que o Vaticano é
Fevereiro de 2011 11
membro fundador da Agência Internacional
de Energia Atômica (AIEA), órgão que tem
entre as suas atribuições precípuas o desenvolvimento
da energia nuclear para fins pacíficos
em todo o mundo. Nas palavras de
Dom Giampaolo Crepaldi, arcebispo de
Trieste e secretário do Conselho Pontifício
Justiça e Paz do Vaticano, “a energia nuclear
é um direito inalienável para o desenvolvimento
econômico e social” – como afirmou
aos participantes de uma conferência
internacional promovida pela Sociedade de
Gerenciamento de Instalações Nucleares
(Sogin), em julho de 2010 (ver Apêndice).
Ataque à agricultura moderna
Em outro trecho, o documento ataca toda a
agricultura moderna, rotulada de forma
simplista como “agronegócio” (p. 109):
“(...) Podemos também questionar a qualidade
dos seus produtos, cuja produção
exige necessariamente a introdução de elementos
químicos, além das sementes geneticamente
modificadas. Os fertilizantes se
constituem em um capítulo à parte, pois os
excessos de fósforo e nitrogênio despejados
nas terras acabam afetando as águas e a
própria atmosfera. Diante disso, deveríamos
favorecer a alternativa que é a pequena produção
camponesa, privilegiando a compra
de produtos orgânicos e os produzidos na
região, para poupar o dispêndio de energia
que resulta em emissões. (...)”
Ademais da insultuosa sugestão de que
famílias pobres deem preferência a alimentos
“orgânicos” de preços geralmente elevados,
uma vez mais, os autores deixam implícita
uma preferência por um idílico e
bucólico mundo rural, de população, urbanização
e industrialização reduzidas. E ainda
ignoram ou fingem ignorar o vivo interesse
do Vaticano pelos avanços da biotecnologia,
demonstrado pela realização da Semana
de Estudos sobre os Organismos Geneticamente
Modificados, promovida pela
Pontifícia Academia de Ciências, em dezembro
de 2010. Apesar de a Santa Sé esclarecer
que não tem uma posição oficial sobre
o tema, as discussões do evento foram
sintetizadas em um documento chamado
“As plantas transgênicas para a segurança
alimentar no contexto do desenvolvimento”,
o qual estabelece: “Em conformidade com
as recentes descobertas científicas, existe um
imperativo moral de estender os benefícios
desta tecnologia (os transgênicos) às populações
pobres e vulneráveis que desejarem,
em uma escala maior e em condições
que aumentem seu nível de vida, melhorem
a sua saúde e protejam o meio ambiente
(Zenit.org, 2/12/2010).”
Uma das propostas do documento para
orientar as ações individuais para “a diminuição
das emissões de gases de efeito estufa”
é uma lista de iniciativas promovida
pela ONG inglesa 10:10 Global, dirigida
pela cineasta Franny Armstrong (p. 101).
Entre várias sugestões que qualquer pessoa
sensata deve adotar para reduzir o consumo
e o custo da energia doméstica (como desligar
a televisão quando não estiver sendo
assistida), a lista inclui disparates como a
renúncia ao uso do papel e às viagens aéreas
e a preferência por alimentos orgânicos
produzidos localmente (geralmente, de
custo inacessível à maioria das famílias de
menor poder aquisitivo).
Franny Armstrong ganhou certa notoriedade
em 2009, com a divulgação do filmecatástrofe
A era da estupidez, no qual pinta
um mundo de meados do século devastado
pelas mudanças climáticas provocadas pelo
homem. Entretanto, em outubro de 2010,
ela provocou um escândalo internacional
com a exibição de um filmete de propaganda
intitulado “Sem pressão” (No pressure),
no qual estudantes secundários, funcionários
de uma empresa e até um esportista
eram explodidos em meio a jorros de sangue,
por se recusarem a participar da campanha
da ONG contra o carbono. A enorme
repercussão negativa do fato levou a maioria
das grandes empresas que patrocinavam
a campanha a retirar-se dela (o leitor interessado
pode conferir por si mesmo o deplorável
vídeo, que foi postado em numerosos
sítios da Internet).
Em resumo, definitivamente, os redatores
do texto-base da CF 2011 não fizeram
direito o seu “dever de casa”.
12 Solidariedade Ibero-americana
O aspecto central de toda a discussão sobre
as questões climáticas é o fato incontestável
de que não existe nenhuma evidência
científica real que permita distinguir as
mudanças de temperaturas, níveis do mar e
outros parâmetros climáticos ou influenciados
pelo clima, em escala global, ocorridas
desde a Revolução Industrial do século
XVIII, das variações muito maiores e mais
rápidas ocorridas anteriormente, de modo a
que se possa atribuí-las à ação humana.
Vale a pena repetir de forma mais direta,
para não deixar margem a dúvidas: não
existe qualquer evidência científica observada
que apoie a hipótese do aquecimento
global antropogênico (AGA) – que se baseia
apenas em modelos matemáticos rodados
em supercomputadores.
É claro que essa afirmativa contraria
quase tudo o que costuma ser apresentado
à opinião pública em geral, com base no suposto
“consenso” científico representado
pelo IPCC, trombeteado repetidamente por
Al Gore e seus amigos de Hollywood, uma
mídia mais interessada em manchetes sensacionalistas
do que em fatos científicos reais,
políticos interessados em agradar o eleitorado
ou preocupados em não contrariar as
suas crenças e um grande número de pessoas
preocupadas, mas desinformadas – inclusive
os autores do texto-base da CF 2011.
Portanto, para demonstrar o que dissemos
acima, convidamos o leitor a uma aplicação
elementar do método científico, submetendo
a ele a hipótese do AGA.
Como se sabe, o método científico envolve
basicamente: 1) a formulação de uma
hipótese; e 2) a comprovação dessa hipótese
com dados observados no mundo real. Se os
dados observados não se encaixarem na hipótese,
ela deve ser abandonada (ou os métodos
de coleta de dados precisam ser revistos).
Não obstante, mesmo quando um
certo conjunto de dados a comprova, é comum
que novos dados observados posteriores
deixem de corresponder a ela, com o
que é necessário reformulá-la em parte ou
totalmente. Em linhas gerais, é assim que a
ciência tem avançado.
Com isso em mente, examinemos a hipótese
do AGA.
1) Hipótese:
O homem estaria afetando a dinâmica
climática com as emissões de carbono (especialmente
CO2) posteriores à Revolução Industrial
(séc. XVIII).
2) Evidências necessárias:
Para comprovar tal hipótese, seria preciso
que houvesse alguma variação perceptível
nas taxas de variação de certos parâmetros
climáticos, como a temperatura, ou
influenciados pelo clima, como o nível do
mar, em relação ao comportamento deles
antes da Revolução Industrial, de modo que
se pudesse identificar a interferência humana
(que se revelaria por uma aceleração
positiva nas variações deles; por exemplo, o
aumento das temperaturas ou dos níveis do
mar teriam que ser mais rápidos do que os
ocorridos antes do século XVIII).
3) Evidências observadas:
Segundo o relatório de 2007 do IPCC,
desde meados do século XIX, a temperatura
média da atmosfera aumentou cerca de
0,8oC e o nível do mar, 0,2 m (20 cm) (Fig. 2).
Ocorre que, ao longo do Holoceno, a época
O aquecimento global
antropogênico é reprovado
no teste do método científico
Geraldo Luís Lino
Fevereiro de 2011 13
geológica iniciada há 12 mil anos e na qual
a Civilização tem existido, houve vários períodos
mais quentes e com níveis do mar
mais altos que os atuais. Por exemplo, no
Holoceno Médio, há cerca de 5.000-6.000
anos, os níveis do mar eram até 3 metros superiores
aos atuais, como se observa em
muitos lugares do mundo, inclusive na costa
brasileira. Naquela época, as temperaturas
médias eram 2-4oC mais altas que as atuais.
Igualmente, entre os séculos X e XIII, ocorreu
o chamado Período Quente Medieval,
em que as temperaturas eram 1-2oC superiores
às atuais, conforme indicam centenas
de pesquisas realizadas em dúzias de países
e em todos os continentes.
Da mesma forma, a elevação das temperaturas
verificada desde 1870 significa
um aumento médio de 0,06oC por década.
Ora, pouco antes do início do Holoceno, há
12.900 anos, quando o planeta se encontrava
em meio ao degelo do último período
glacial, ocorreu um súbito resfriamento
que durou cerca de 1.300 anos, o chamado
Dryas Recente. Na época, as temperaturas
caíram 7-8oC em menos de 50 anos e, ao
final desse período de resfriamento, voltaram
a subir quase tão rapidamente quanto
haviam caído, subindo
na mesma proporção em
pouco mais de meio século
(Fig. 3). Essas variações
bruscas de temperaturas,
tanto de queda
como de subida, foram
dezenas de vezes mais rápidas
do que a elevação
ocorrida no período industrial
da Humanidade.
Quanto ao nível do
mar, há 22.000 anos, no
auge do último período
glacial, ele se encontrava
a 130 metros abaixo do
nível atual, tendo subido
desde então e atingido
níveis próximos do atual
por volta de 6.000 anos
atrás. A maior parte desta
subida, 120 metros,
ocorreu entre 18.000 e
6.000 anos atrás – ou
seja, uma elevação média
de um metro por século
(Fig. 4), suficiente para
impactar visualmente os
povos que habitavam as
margens dos continentes
(não por acaso, muitos
deles têm lendas sobre
um dilúvio universal).
Essa taxa de um metro
por século é sete vezes
mais rápida do que a ele-
Fig. 2 – Temperaturas, níveis do mar e retração dos glaciares desde
o séc. XIX, segundo o relatório de 2007 do IPCC. As elevações
registradas nas temperaturas (0,8oC) e níveis do mar (cerca de 20 cm)
são indistinguíveis das variações muito maiores e mais rápidas,
ocorridas antes da Revolução Industrial (Fonte: IPCC, 2007).
14 Solidariedade Ibero-americana
vação do nível do mar verificada desde o
final do século XIX, como consta do relatório
de 2007 do IPCC.
Em suma: se há 5.000-6.000 anos, quando
o esterco e a lenha eram os únicos combustíveis
usados pelo homem e a Humani-
Fig. 4 – Variação do nível do mar nos últimos 22.000 anos. Observe-se
a elevação de cerca de 120 metros, ocorrida entre 18.000 e 6.000 anos
atrás, uma taxa de 1 m por século (sete vezes mais rápida que a registrada
desde o séc. XIX). Em torno de 5.000-6.000 anos atrás, o nível do mar
era cerca de 3 m superior ao atual (Fonte: R.W. Fairbridge, 1958).
Fig. 3 – Evolução das temperaturas atmosféricas na Groenlândia
Central, nos últimos 16.000 anos, inferidas a partir de uma sondagem
no gelo (GISP 2). Observe-se que, na maior parte dos últimos 12.000
anos (Holoceno), as temperaturas foram mais altas que as atuais.
E, também, as bruscas fases de resfriamento e aquecimento que
marcaram o período frio chamado Dryas Recente, entre 12.900
e 11.600 anos atrás, quando as temperaturas caíram e subiram 8oC
em poucas décadas (Fonte: D.J. Easterbrook, 2008).
dade não passava de algumas dezenas de
milhões de indivíduos, houve temperaturas
e níveis do mar significativamente mais altos
que os atuais; se a subida do nível do mar
já foi muito mais rápida, entre 18.000 e
6.000 anos atrás; e se o aquecimento global
no final do Dryas Recente,
há 11.600 anos,
foi muito mais rápido
que o verificado desde o
século XIX; em termos
científicos concretos, não
é possível diferenciar as
pequenas variações ocorridas
no período industrial,
dentro das oscilações
naturais muito maiores
ocorridas anteriormente,
de modo a se poder atribuí-
las ao homem.
4) Conclusão:
A hipótese do AGA
não se sustenta nas evidências
observadas no
mundo real. Na prática,
ela não passa de projeções
de modelos matemáticos
sobre o clima, bastante incompletos,
que são ferramentas
úteis para a pesquisa
científica, mas não
são substitutos para evidências
concretas e, principalmente,
não devem
ser usados para fundamentar
políticas públicas
de alcance global.
Como corolário desses
fatos, a despeito de
todo o apelo emocional
do discurso ambientalista,
é simplesmente descabido
se pretender mudar
toda a base energética da
economia mundial, que
depende dos combustíveis
fósseis em mais de
80%, com base numa hipótese
que não tem base
científica factual.
Fevereiro de 2011 15
A seguir, apresentamos excertos do discurso
de Giampaolo Crepaldi, arcebispo de Trieste,
presidente da Comissão “Caritas in veritate”
do Conselho das Conferências Episcopais da
Europa (CCEE) e presidente do Observatório
Internacional Cardeal Van Thuân sobre a
Doutrina Social da Igreja, proferido no seminário
internacional “A Segurança Nuclear:
um Bem Comum”, promovida pela Sociedade
de Gerenciamento de Instalações Nucleares
(Sogin), do governo italiano, em Trieste, em
julho de 2010. Os grifos são da editoria.
Diante desse complexo panorama, a Doutrina
Social da Igreja nos convida, em primeiro
lugar, a manter uma atitude equilibrada
e sábia, que realmente possa orientar-nos
para soluções praticáveis e humanas. Ela nos
conclama, antes de tudo, a rechaçar o enfoque
ideológico da questão energética. Parece
que, hoje em dia, as ideologias gravitam sobretudo
em questões ambientais em geral, e
energéticas em particular. Como assinala o
Compêndio da Doutrina Social da Igreja:
“Uma correta concepção do meio ambiente:
enquanto, de um lado, não se pode reduzir
utilitariamente a natureza a um puro objeto
de manipulação e exploração, do outro, não
se deve absolutilizá-la e supervalorizá-la em
relação à dignidade da própria pessoa humana.
Neste último caso, se chega ao ponto
de divinizar a natureza ou a Terra, como se
pode encontrar facilmente em alguns movimentos
ambientalistas que pedem que se dê
um perfil institucional e internacionalmente
garantido às suas idéias.
Em segundo lugar, nos convida a superar
o enfoque meramente técnico e a ter confiança
na capacidade do homem, para quem
“é lícito exercer uma administração responsável
da natureza, para protegê-la, aproveitá-
la e cultivá-la, com novas formas e tecnologias
avançadas, de modo que ela possa receber
e alimentar a população que a habita,
APÊNDICE
Os problemas energéticos à luz
da Doutrina Social da Igreja
com dignidade (Encíclica Caritas in Veritate,
50)”. A tecnologia é, sem dúvida, uma expressão
da vocação do trabalho humano, mas
representa o aspecto objetivo do fazer, cuja
origem se encontra no elemento subjetivo,
ou seja, da pessoa que trabalha. Por isso, a
tecnologia nunca é somente técnica, inserindo-
se de fato no mandato de “cultivar e cuidar
da terra” (cf. Gênesis 2:15), que Deus
confiou ao homem, e está orientada para reforçar
a aliança entre os seres humanos e o
meio ambiente, que deve refletir o amor criador
de Deus. Ao contrário, algumas vezes, se
assiste, ou a uma exaltação da tecnologia, ou
à sua demonização, como se ela fosse tudo
ou nada. Em ambos os casos, se manifesta
uma antropologia pessimista, tendo em
conta o que os problemas derivados da tecnologia
podem ser automaticamente resolvidos
por ela mesma, ou pensando que ela não
tem solução que não seja renunciar à própria
tecnologia. O capítulo VI da encíclica Caritas
in veritate, intitulado “O desafio das pessoas
e a tecnologia”, ajuda a esclarecer esses
problemas.
A Doutrina Social da Igreja nos convida
a seguir a dinâmica do discernimento, assim
como a avaliar os problemas que se produzem
em um momento histórico e em um lugar
determinado. Ela assume também a perspectiva
de fazer interagir a fé e a razão, não
se preocupando apenas com a salvaguarda
dos equilíbrios naturalistas, mas também
considerando, sobretudo, as consequências
sobre o homem, concebendo o Universo
como criado em função do homem, criatura
por excelência.
Faço a pergunta da forma mais clara possível:
a Doutrina Social da Igreja apóia ou
desaprova a energia nuclear? Quero aproximar-
me da resposta de maneira gradual, inspirado
por três fatos que, talvez, não sejam
conhecidos por todos.
16 Solidariedade Ibero-americana
Conheça os bastidores do ambientalismo e suas
campanhas nos livros da Capax Dei Editora
Em primeiro lugar, quero recordar que a
Santa Sé é uma das fundadoras da AIEA, a
agência da ONU encarregada dos assuntos
da energia nuclear, e que o estatuto desta organização,
aceito também pela Santa Sé como
membro fundador, diz que a energia nuclear
é um direito inalienável para o desenvolvimento
econômico e social. A posição de membro
fundador da AIEA permite à Santa Sé seguir
de perto e promover para o bem comum,
por um lado, o processo de desarmamento e
a não-proliferação nuclear e, do outro, as
pesquisas e as possíveis aplicações pacíficas
da tecnologia nuclear.
A partir desses três pontos, penso que
posso concluir que a Doutrina Social da Igreja,
nem absolutiza a escolha pela energia
nuclear, nem a condena irremediavelmente
como equivocada. Em vez disto, a doutrina
a coloca na responsabilidade comum da
Humanidade para construir o seu progresso
futuro, baseada, não como frequentemente
se diz, ao respeito aos direitos do meio ambiente,
porque o ambiente naturalista assim
entendido não tem direitos, mas nos direitos
dos homens, inclusive os pobres de hoje, de
amanhã e das gerações futuras. A responsabilidade,
a solidariedade, a intenção pacífica,
a transparência, o controle e a segurança, o
desenvolvimento integrado de diversas energias
renováveis, o otimismo sobre a capacidade
humana e, ao mesmo tempo, o realismo
sobre as possíveis contaminações devidas
aos interesses de partes e aos egoísmos, a
colaboração internacional, o desenvolvimento
das autoridades competentes e politicamente
independentes, a formação e educação
dos cidadãos, a luta unânime e decidida
contra o uso militar da energia atômica
etc., como se pode ver, fazem parte de uma
agenda exigente, mas, como se costuma dizer,
“sustentável”.
Na atualidade, se usa frequentemente o
termo “sustentabilidade”. Em minha opinião,
às vezes, ele envolve um equívoco fundamental.
A única sustentabilidade que se
discute, em geral, é aquela naturalista, que
está vinculada aos equilíbrios naturais, como
o são em termos da natureza considerada em
si própria. Nem sempre se leva em conta a
sustentabilidade humana. A natureza não é
uma variável independente e a ação humana,
a variável dependente. O fracasso de muitos
prognósticos malthusianos e neomalthusianos
o tem demonstrado amplamente. O atuar
humano não é só e sempre contra a natureza,
se ele é responsável, pode equilibrar a relação
entre o homem e a natureza, nos níveis
superiores da sustentabilidade. Isto deve ser
sempre considerado na relação homem-natureza,
onde o homem continua sendo central,
já que no plano de Deus é o único destinatário
responsável. A natureza não é um fim em
si mesma, o homem, sim.
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