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Ensaios-->O berço do islã radical -- 08/02/2011 - 12:00 (Félix Maier) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
Revista Época

O berço do islã radical

Embora hoje se declare favorável à democracia, a Irmandade Muçulmana pode se tornar o maior obstáculo à abertura no Egito

José Antonio Lima, do Cairo, com Eliseu Barreira Junior

NINHO DO TERROR

De todas as incertezas e aflições do mundo diante do que ocorre no Egito, a maior delas é o que esperar da Irmandade Muçulmana, o maior movimento político islâmico do mundo árabe, quando chegar ao fim a ditadura de Hosni Mubarak. O maior temor do mundo ocidental – com Estados Unidos e Israel à frente – é que o grupo conduza uma radicalização islâmica no Egito, tal qual os aiatolás iranianos fizeram após a queda do xá Reza Pahlevi, em 1979.
A Irmandade abdicou formalmente da violência em 1970. Mesmo oficialmente banida pelo governo egípcio desde 1954, hoje seus líderes integram a coalizão oposicionista que deverá ocupar o espaço a ser deixado por Mubarak. Mas um olhar sobre a história do movimento justifica a preocupação com uma guinada rumo à teocracia.
A Irmandade Muçulmana foi fundada em 1928 pelo professor egípcio Hassan al-Banna, na cidade de Ismailia, nordeste do país. Seu objetivo declarado era revitalizar os valores islâmicos num momento em que o nacionalismo de esquerda secular então vigente estava desacreditado pelo colonialismo britânico. De uma entidade voltada a missões educacionais e de caridade, a Irmandade evoluiu rapidamente para a ação política. O movimento se alastrou por Síria, Jordânia e Palestina, que o adaptaram a suas realidades.
No Egito, logo surgiu uma pressão interna para que Al-Banna criasse um braço militar para lutar contra os britânicos. Ele cedeu, e a ala armada passou a realizar ataques contra quem via como inimigo. A primeira ação violenta relevante foi o assassinato do primeiro-ministro Nokrashy Pasha, em 1948. Seis anos depois, já sob o Egito independente, membros da Irmandade tentaram matar o presidente Gamal Abdel Nasser. A resposta do governo foi pôr o grupo na ilegalidade e perseguir seus líderes.
Foi nesse período que a Irmandade, já militarizada, ganhou um ideólogo jihadista. Crítico literário e funcionário público, Sayyid Qutb ganhou prestígio dentro do grupo, com sua defesa da lei islâmica (charia) para todo o mundo muçulmano e sua desconfiança dos valores ocidentais. Seu manifesto Ma’alim fi-l-Tariq (algo como Marcos principais), de 1964, é considerado o manual inspirador de grupos radicais. Qutb é uma espécie de “pai espiritual” de vários grupos islâmicos extremistas, do Hamas (uma espécie de braço da Irmandade na Palestina) à Al-Qaeda.
O médico egípcio Ayman al-Zawahiri, o número dois da Al-Qaeda e ideólogo de Osama Bin Laden, começou nas fileiras da Irmandade. Mohammed Atta, o terrorista apontado como piloto de um dos aviões que se chocaram contra as Torres Gêmeas em 11 de setembro de 2001, vivia de perto com membros da Irmandade e seu pai apoiava o movimento. Mesmo sem ter relação direta com o terrorismo islâmico mais recente, a Irmandade sofre com a imagem de uma organização que sempre teve problemas para conter extremistas criados em seu próprio ninho. De dentro da Irmandade, nasceu também a Jihad Islâmica Egípcia, apontada como responsável pelo assassinato do presidente Anwar al-Sadat, em 1981, numa represália ao acordo de paz assinado com Israel dois anos antes.
Parte da apreensão também se deve ao fato de a Irmandade ocupar na sociedade um espaço semelhante ao dos radicais palestinos do Hamas ou dos libaneses do Hezbollah. Todos agem no vácuo estatal, proporcionando benefícios sociais como educação e saúde a populações abandonadas pelo Estado. O Egito, porém, é um país muito mais diversificado social e culturalmente, e há vários gru-pos que bloqueiam a islamização fundamentalista: o Exército, de onde vem Mubarak; os cristãos coptas, cerca de 10% da população, boa parte deles entre os mais ricos do país; e os partidos liberais e os de esquerda, seculares.
A desconfiança do Ocidente incomoda os simpatizantes egípcios da Irmandade. “O Egito não é o Irã. Nós somos moderados. Tudo o que está no Alcorão tem de passar pela vontade do povo”, disse a ÉPOCA o pediatra Abdel Moneim Aboul Fotouh, de 60 anos, secretário-geral da União Árabe de Médicos e voz influente dentro da Irmandade – ele e outros profissionais liberais dão forte sustentação ao grupo na sociedade civil. O grupo de profissionais liberais do qual faz parte Fotouh também prefere a estabilidade de uma democracia com uma cultura muçulmana a uma revolução islâmica. “Para nós, charia significa liberdade, justiça e desenvolvimento, e não cortar as mãos de criminosos e oprimir a mulher”, diz Fotouh.
É bem verdade que o discurso de temor sempre foi conveniente para os interessados em manter Mubarak. “O governo egípcio sempre permitiu à Irmandade certa margem de manobra. É para sustentar a ideia de que um ‘bicho-papão’ islâmico está à espreita”, afirma Rashid Khalidi, professor de estudos árabes da Universidade Colúmbia, de Nova York. Até agora, a Irmandade mostra coerência em sua promessa de moderação. Reconhece que não concorda com os acordos de paz com Israel, vigentes desde 1979, mas garante que não vai descumpri-los, para evitar o caos. O grupo anunciou que não terá candidato à Presidência, mas disputará as cadeiras do Parlamento (em 2005, seus partidários concorreram como independentes e levaram 20% dos assentos). A Irmandade fará inevitavelmente parte de qualquer futuro político do Egito. Se suas declarações de moderação forem confirmadas por meio de atos, o país poderá se tornar uma democracia de fato. Se, ao contrário, a Irmandade reproduzir a história de outros grupos islâmicos extremistas, ela se transformará nomaior obstáculo a que isso aconteça.


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