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Ensaios-->Bento XVI: Beatificação do internacionalismo castrista? -- 08/02/2010 - 08:49 (Félix Maier) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
Fonte: http://www.sacralidade.com/igreja2010/0291.cuba.html

Bento XVI: beatificação do internacionalismo castrista?

Armando F. Valladares

O Santo Padre, depois de se referir com deferência ao ditador Raúl Castro, realçou o 'decidido protagonismo' que Cuba comunista continuaria tendo no 'contexto político' da América Latina.

Qual seria então a essência deste 'protagonismo' cubano aludido no discurso de Bento XVI? A paz, o bem comum e a prosperidade cristã? Ou o caos, a subversão e todas as novas formas de revolução anticatólica inspiradas e impulsionadas a partir de Cuba?

Como entender o destaque papal dado a este protagonismo, em um contexto explicitamente elogioso, quase se diria de 'beatificação' do internacionalismo cubano?

O discurso de Bento XVI ao receber as Cartas Credenciais [1] do novo embaixador de Cuba comunista, Eduardo Delgado Bermúdez (cf. 'Le lettere credenziali dell’Ambasciatore di Cuba presso la Santa Sede', Sala de Imprensa da Santa Sé, 10 de dezembro de 2009, com texto completo do discurso, em idioma espanhol), foi pouco divulgado pela imprensa e praticamente não recebeu comentários.[2]

Não obstante, o referido discurso merece a máxima atenção: porque mostra uma faceta até agora pouco divulgada do pontificado de Bento XVI, considerado por muitos como conservador; porque constitui uma reafirmação da incompreensível política de distensão da diplomacia vaticana com relação ao regime cubano desde os primeiros anos da sangrenta revolução, diplomacia que não pode haver deixado de ter um papel e uma responsabilidade fundamentais na redação desse discurso; porque as palavras do Pontífice podem ter conseqüências sérias, não somente para o futuro de Cuba comunista, como também para o da América Latina, na medida em que de uma ou outra maneira beneficiem o 'eixo do mal' chavista-castrista-evista-correísta-orteguista.

O Santo Padre, depois de se referir com deferência ao ditador Raúl Castro, realça o 'decidido protagonismo' que Cuba comunista continuaria tendo no 'contexto político' da América Latina. Neste sentido, no texto lido pelo Pontífice é feito o elogio ao regime cubano por 'continuar oferecendo a numerosos países sua colaboração' numa atitude que favoreceria e impulsionaria 'a cooperação e a solidariedade internacionais'. Segundo parece interpretar o Pontífice, essa cooperação e solidariedade internacionais seriam desinteressadas, leais e sinceras, a ponto de que não estariam submetidas a 'outros interesses que não a própria ajuda às populações necessitadas'.

Sem embargo, com todo o respeito devido à benevolência papal, como se verificará a seguir, a interpretação de um alegado desinteresse cubano se vê desmentida flagrantemente pela própria definição de 'internacionalismo' insculpida na Constituição desse país, definição que certamente não é nem um pouco desinteressada e não se reduz a uma simples intenção de 'ajudar' os 'necessitados'.

Já em seu Preâmbulo a Constituição de Cuba deixa claro seu sentido intrinsicamente maléfico quando define o 'internacionalismo proletário' como a matriz inspiradora das numerosas aventuras revolucionárias promovidas em tantos países da América Latina e África, qualificadas de 'heróicas' pelo texto constitucional, mas que, na realidade, como se sabe, foram e continuam sendo sinônimo de sangue, revoluções e mais miséria para os necessitados.

Para não deixar dúvidas, a Constituição comunista, no seu artigo 12, retoma e 'faz seus' os 'princípios internacionalistas' louvados no Preâmbulo, deixando claro que vão de mãos dadas, sem separação possível, com os 'princípios antiimperialistas' (número 2), ou seja, revolucionários. E chega, nesse mesmo artigo, a justificar não apenas a 'legitimidade' da 'resistência armada', como também assume o 'dever internacionalista' (número 4) de solidarizar-se com esses movimentos revolucionários, algo que a Cuba comunista cumpriu ao pé da letra, da maneira mais cruel possível.


No discurso lido pelo Pontífice é feito o elogio ao regime cubano

Como atenuante do que foi dito anteriormente, poder-se-ia argumentar que o discurso pronunciado por Bento XVI se refere especificamente a duas 'áreas vitais', definidas em seu pronunciamento, respectivamente, como sendo a 'alfabetização' e a 'saúde'. Na realidade, o anterior dificilmente constituiria uma atenuante, senão que, mais propriamente, seria uma circunstância agravante. Com efeito, tal como tem demonstrado numerosos estudos acadêmicos, e como a própria Constituição cubana o reconhece, a educação e a saúde, essas tão mencionadas e midiatizadas supostas 'conquistas' do comunismo cubano, tem sido duas tenazes satânicas de controle psicológico, mental e social de jovens e adultos, durante cinco longas décadas de revolução castrista. Por isso, internacionalizar essas tenazes psicológicas, como o regime o está fazendo na Venezuela, Bolívia, Equador, Nicarágua e outros países do 'eixo do mal' latino-americano, é de suma gravidade.

Se ainda persiste alguma dúvida a respeito, o artigo 39 da atual Constituição a dissipa: o Estado comunista 'fomenta e promove a educação' exclusivamente em função do 'ideário marxista', com o implacável objetivo de 'promover' a 'formação comunista das novas gerações' (números 1 e 3), o que constitui, na realidade, uma suprema deformação espiritual e moral.

Qual seria então a essência deste 'protagonismo' cubano aludido no discurso de Bento XVI? A paz, o bem comum e a prosperidade cristã? Ou o caos, a subversão e todas as novas formas de revolução anticatólica inspiradas e impulsionadas a partir de Cuba? Como entender o destaque papal dado a este protagonismo, em um contexto explicitamente elogioso, quase se diria de 'beatificação' do internacionalismo cubano?



Palavras do embaixador: 'Com modesta humildade, nos sentimos orgulhosos do nosso projeto de justiça social, que defende a dignidade plena do homem' [3]

Mas não são apenas estas as dolorosas surpresas do discurso papal. Pareceria que, a seguir, o Pontífice procura atenuar a verdadeira causa da situação de extrema miséria na Cuba comunista, diluindo-a na 'grave crise internacional', nos 'devastadores efeitos' dos 'desastres naturais' e no denominado 'embargo econômico' norte-americano. Ao mesmo tempo, omite a causa profunda dessa miséria cubana: um sistema econômico que aplica um implacável 'embargo interno' contra a população por meio da abolição da propriedade privada e da asfixia da livre iniciativa.

Com relação aos 'sinais concretos' de 'abertura para o exercício da liberdade religiosa' que o Pontífice destaca como aspectos favoráveis para a situação dos católicos cubanos, permito-me recordar o nefasto artigo 62 da Constituição, que constitui um implacável 'torniquete' jurídico-penal contra todas as liberdades, inclusive e principalmente a 'liberdade religiosa', que cinicamente oferece aos desgraçados habitantes da ilha-cárcere. Este artigo literalmente constitui uma ameaça: 'Nenhuma das liberdades' reconhecidas aos cubanos poderá ser exercida 'nem contra a existência e fins do estado socialista, nem contra a decisão do povo cubano de construir o socialismo e o comunismo', advertindo que 'a infração desses princípios é punível'. Em Cuba, das palavras aos fatos nunca houve muita distância. Essa 'punição' se tornou realidade contra centenas e milhares de opositores que foram assassinados no 'paredón' ou que passaram pelas masmorras do regime; contra tantos outros presos políticos que permanecem nelas; contra as Damas de Branco que são mães, esposas e irmãs de prisioneiros políticos, humilhadas e espancadas nas ruas de Havana; e inclusive recentemente contra jovens blogueiros da ilha.

Em 6 de agosto de 1984, o então Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, cardeal Joseph Ratzinger, em sua 'Instrução sobre alguns aspectos da 'teologia da libertação`', diagnosticava de maneira clara e categórica, como se estivesse descrevendo a realidade cubana de hoje: 'Milhões de nossos contemporâneos aspiram legitimamente recuperar as liberdades fundamentais das quais têm sido privados por regimes totalitários e ateus que se apoderaram do poder por caminhos revolucionários e violentos, precisamente em nome da libertação do povo. Não se pode ignorar esta vergonha de nosso tempo: pretendendo contribuir para a liberdade, mantém-se nações inteiras em condições de escravidão indignas do homem.'. E concluía o atual Pontífice de maneira espantosa: 'Aqueles que se tornam cúmplices de semelhantes escravidões, talvez inconscientemente, traem os pobres que intentam servir'.

Hoje, 26 anos depois de haver inspirado, ditado e firmado esta brilhante análise, a pergunta que se coloca é se na mente do então prefeito de tão alta Congregação romana e atual Pontífice, a Cuba comunista continua sendo, ou não, uma 'vergonha de nosso tempo'. Se Cuba continua sendo, como compreender, nesse contexto, as afirmações acima consignadas da recente alocução papal ao novo embaixador cubano? Se, pelo contrário, Cuba deixou de ser uma 'vergonha de nosso tempo', quais seriam as altíssimas razões que teriam inspirado uma tal virada interpretativa de 180 graus com relação a aspectos intrínsecos desse regime?

Poderiam ser comentados outros aspectos não menos importantes do discurso papal, que, lamentavelmente, não são menos dolorosos. Esses comentários, invariavelmente respeitosos, seriam realizados em outra oportunidade, se as circunstâncias assim o exigirem.

Deixo registrado, finalmente, o estremecimento que me causou a alusão às relações 'nunca interrompidas' entre a Santa Sé e o regime cubano. Foram se sucedendo em minha memória, como em um trágico filme, episódios de décadas de política de distensão do Vaticano com a Cuba comunista, com a peregrinação de tantos altos prelados, cardeais e secretários de Estado, incluindo o atual, vários dos quais chegaram a fazer elogios rasgados ao tirano Fidel Castro e aos supostos 'êxitos' do regime; assim como tantos lances de colaboração comuno-católica, encabeçados pelo atual cardeal de Havana, D. Jaime Lucas Ortega y Alamino. Também, evocando esse período de relações 'nunca interrompidas', ressoaram em meus ouvidos, como se fosse hoje, os gritos de jovens mártires católicos, fuzilados no 'paredón' da sinistra La Cabaña, que morriam proclamando 'Viva Cristo Rei! Abaixo o comunismo!' E recordei o episódio dos três jovens irmãos García Marín, que em dezembro de 1980 buscaram asilo na Nunciatura, em Havana, sendo posteriormente dali retirados com promessas de liberdade e segurança individual, por pessoas que ali ingressaram vestidas com roupas eclesiásticas, no próprio automóvel da Nunciatura. Na realidade, não eram eclesiásticos e sim agentes da polícia política cubana que os arrancaram da Nunciatura mediante engano, para serem cruelmente torturados e finalmente fuzilados. Narro esse episódio em minhas Memórias e, até hoje, não fui desmentido. (cf. A. Valladares, 'Contra toda esperanza', Plaza & Janés, Barcelona, 1985, cap. 48, pág. 416).

Já manifestei expressamente em artigos anteriores sobre a política de distensão do Vaticano com o regime comunista, e o reitero com especial ênfase nesta respeitosa e angustiante análise: enquanto católico, enquanto cubano e enquanto ex-preso político, dói-me enormemente fazer publicamente este tipo de considerações, que faço como desencargo ineludível de minha consciência, com toda a veneração devida à Cátedra de Pedro. Isto produz uma dor e dilaceração talvez maiores que as piores torturas físicas que recebi durante 22 anos nas masmorras cubanas, porque o sofrimento espiritual é mais profundo inclusive que o físico.

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Armando Valladares é escritor, pintor e poeta. Passou 22 anos nos cárceres políticos de Cuba. Foi embaixador dos Estados Unidos ante a Comissão de Direitos Humanos da ONU nas administrações Reagan e Bush. Recebeu a Medalha Presidencial do Cidadão e o Superior Award do Departamento de Estado. Recentemente foi-lhe outorgado em Roma o Prêmio Internacional de Jornalismo ISCHIA, e em Tegucigalpa, a Ordem José Cecilio del Valle, no grau de Comendador, a mais alta distinção que Honduras concede a um estrangeiro.

Tradução para o português: André F. Falleiro Garcia.

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NOTAS DE SACRALIDADE:

[1] Para ver o texto original do discurso que o Papa proferiu em espanhol, clique aqui. Versão em inglês do discurso papal, clique aqui. Versão em português, clique aqui.



[2] Para ver o video (1 minuto) da entrega das credenciais no Vaticano, clique aqui.



[3] Afirmou ainda o embaixador: 'Apreciamos que a Santa Sé e Cuba tenham posições convergentes sobre temas substanciais da agenda internacional, como a promoção da paz, o desarmamento e a rejeição à violência', além da oposição à 'concentração de riqueza' e o apoio 'à luta contra a pobreza'. Cf. Fidel e Raúl Castro enviam cumprimentos ao papa Bento XVI.


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