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Ensaios-->Quatro décadas de fraude -- 22/04/2008 - 17:40 (Félix Maier) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
Quatro décadas de fraude

Olavo de Carvalho

Jornal do Brasil, 17 de abril de 2008

http://www.olavodecarvalho.org/semana/080417jb.html

Em 1965, o célebre editor comunista Ênio Silveira lançou o livro de Edmar Morel, O Golpe Começou em Washington. Desde então, cada ano traz uma nova safra de livros, teses universitárias e reportagens que, com pequenas variações, reiteram ad nauseam a mesma tese: o golpe que derrubou o presidente João Goulart foi obra da CIA.

Embora a insistência em buscar novas provas sugira que as provas anteriores não provaram nada, o efeito dessa produção editorial se exerce automaticamente pelo número de obras, que não precisam ser lidas para funcionar como símbolos onipresentes de uma verdade venerável.

No entanto, essa imensa literatura vale rigorosamente nada. Toda ela, de alto a baixo, é puro charlatanismo, ainda mais criminoso quando praticado por historiadores e politólogos de ofício que a adornam com o prestígio do conhecimento acadêmico, da “ciência”.

Ciência – ou mesmo jornalismo, quando digno do nome – não é nunca empilhar indícios em favor de uma afirmativa. Não é nem mesmo organizá-los de modo a dar ares de consistência lógica a essa afirmativa. Ciência – ou mesmo investigação jornalística – é confrontar uma afirmativa com suas opostas, somando os fatores em favor de todas as alternativas com igual isenção, até que uma conclusão se imponha racionalmente contra ou a favor das preferências do investigador.

Se não há confrontação de hipóteses, não há ciência, não há jornalismo, não há conhecimento: há apenas oratória política, propaganda.

A obrigação do confronto é tão indispensável na busca da verdade, que, mesmo quando os próprios fatos não sugiram desde logo uma hipótese alternativa, o investigador tem a obrigação de criá-la como instrumento de aferição.

Mas se a alternativa já está presente, manifesta, visível, declarada no próprio tecido dos fatos, a teimosia em ignorá-la, a fuga à confrontação, a insistência obsessiva em argumentar a favor de uma única hipótese denotam algo mais que parcialidade: denotam a fraude pura e simples.

No caso da alegada participação americana na derrubada de João Goulart, o principal agente da inteligência soviética no Brasil na época, o tcheco Ladislav Bittman, já confessou claramente que ele próprio e seus colaboradores inventaram essa história em abril de 1964, produziram os documentos falsos necessários para dar-lhe verossimilhança e conseguiram impingi-la a toda a grande mídia brasileira (v. Sugestão aos colegas ).

Na História, na investigação jornalística ou num inquérito policial, nenhuma prova ou indício tem mais valor que a confissão do acusado. Até o momento, nenhum ex-agente da CIA ou de qualquer órgão do governo americano apareceu confessando intromissão em assuntos brasileiros, malgrado a mania notoriamente endêmica que, na terra de Phillip Agee e Daniel Elsberg, essas criaturas têm de abrir todas as caixas pretas tão logo saem do emprego. Na verdade, nenhuma das obras do vasto gênero aqui considerado jamais forneceu um só nome de agente da CIA comprovadamente lotado no Brasil em 1964. O único nome líquido e certo é o do homem da KGB – e ele confessa ter inventado ponto por ponto a versão que se consagrou como cláusula pétrea da memória nacional.

No mínimo, o golpe de 64 foi um episódio da Guerra Fria, e a Guerra Fria não se travou entre o malvado Império e meia dúzia de desamparados brasileirinhos. Travou-se entre uma democracia capitalista e duas ditaduras comunistas. É impossível descrever honestamente a ação de uma dessas forças num país do Terceiro Mundo sem levar em conta a presença da força contrária. A história da suposta interferência americana no golpe de 64 suprime sistematicamente metade do cenário, e tem dois bons motivos para fazê-lo. Primeiro: a prova da sua mendacidade está guardada na metade suprimida. Segundo: Bittman confessa que tinha a seu serviço algumas dezenas de jornalistas brasileiros. Eles não podem contar essa história direito porque ela é a sua própria história.


***

Comentário

F. Maier

O livro '1964: O papel dos Estados Unidos no Golpe de Estado de 31 de Março' (Civilização Brasileira, Rio, 1977), da historiadora norte-americana Phyllis R. Parker, diz textualmente, nas 'Conclusões', à pg. 128:

'Não há provas de que os Estados Unidos instigaram, planejaram, dirigiram ou participaram da execução do golpe de 1964. Cada uma dessas funções parece ter competido a Castelo Branco e seus companheiros de farda. A mesmo tempo, há sugestivas evidências de que os Estados Unidos aprovaram e apoiaram a deposição militar de Goulart quase que desde o princípio. Os Estados Unidos reforçaram o seu apoio ao elaborar planos militares preventivos que poderiam ter sido úteis para os conspiradores, se houvesse surgido a necessidade'.


E que planos militares foram esses?

O livro de Parker afirma o seguinte:

'Às 11,30 da manhã de 31 de março, realizou-se uma reunião em Washington da qual participaram o Secretário Dean Rusk e outros representantes do Departamento de Estado; o Secretário de Defesa Robert McNamara; o Chefe do Estado-Maior General Maxwell Taulor; o Comandante-Chefe das Forças do Sul (USCINCSO) Tenente-General Andrew P. O`Meara; o Diretor da CIA John McCone; e outros funcionários. Na reunião, houve relatórios sobre a situação militar do Brasil. O grupo considerou que ações políticas deviam ser tomadas (tais como consulta a outros países latino-americanos, declarações públicas, etc.) e discutiu as disposições organizacionais para lidar com a crise brasileira, inclusive a criação de um grupo de trabalho interdepartamental e a consideração de `relações e comunicações entre a Embaixada [dos Estados Unidos] no Rio, os consulados e as forças militares norte-americanas.
Nessa reunião, ou numa outra realizada antes, considerou-se e aprovou-se um plano militar preventivo que ia mais longe do que as duas sugestões da Embaixada no Rio de que se deviam enviar petróleo e uma frota de porta-aviões ao Brasil. Esse terceiro plano compreendia providências que incluíam o envio de armas e munições ao Brasil, como apoio preventivo aos conspiradores.
(...)
Na tarde de 31 de março, os Estados Unidos começaram a transformar os planos preventivos em ação. O primeiro plano executado enviou um porta-aviões de ataque pesado, o Forrestal, e destróieres de apoio (inclusive um destróier equipado com mísseis teleguiados) em direção das águas brasileiras. A finalidade dessa força-tarefa era `firmar a presença dos Estados Unidos nessa área e estar preparada para executar as tarefas que lhe fossem designadas`. Os navios deviam partir de Norfolk, Virgínia, às 7 da manhã, hora local (9 da manhã no Rio de Janeiro), a 1º de abril, e deviam chegar a Santos, porto de São Paulo, por volta do dia 11. O apoio adicional dos navios compreendia petroleiros bélicos, navios de munição e navios de mantimentos.
Entrementes, o General-de-Divisão George S. Brown era nomeado Comandante de Missão para o projeto 'Brother Sam' (Irmão Sam). Essa operação combinava a força-tarefa do porta-aviões e o apoio de POL, planejados pela Embaixada no Rio, com a operação preventiva originada em Washington, a fim de fornecer armas e munição para os conspiradores militares do Brasil.
Os JCS (Chefes Conjuntos do Estado-Maior) instruíram o Comandante-Chefe do Sul, General Andrew O`Meara, para transportar por avião 250 espingardas de caça, calibre .12, marcadas 'Brother Sam' para a Base Aérea de Ramey, em Porto Rico, às 3 da manhã, hora do Rio de Janeiro, a 1º de abril. Além disso, 110 toneladas de armas portáteis e munição marcadas 'Brother Sam' deveriam chegar o mais tardar ao meio-dia, hora oficial do Leste americano, à Força Aérea McGuirre, New Jersey, para serem transportadas por avião para o Brasil. Os aviões destinados a essa missão compreendiam: sete aviões de transporte C135, oito aviões de caça, até oito aviões-tanque (para apoio do socorro aéreo), um avião de comunicações e um posto de comando transportado pelo ar.
Os JCS enfatizaram o caráter sigiloso das instruções 'Brother Sam' de que quatro navios-tanques fossem carregados com um total de 136.000 barris de gasolina comum, 272.000 barris de combustível para jatos, 87.000 barris de gasolina de aviação, 35.000 barris de óleo diesel e 20.000 barris de querosene. Os navios eram esperados em Aruba às 7 da noite, hora do Rio de Janeiro, de 31 de março, onde o POL seria carregado.
(...)
Às 11 horas da noite de 31 de março, o Coronel Walters foi ao apartamento do General Floriano de Lima Brayner. Walters explicou que o Embaixador Lincoln Gordon queria saber como estava a situação no Brasil. Brayner informou que Kruel lançara seu manifesto.
- Graças a Deus - respondeu o coronel norte-americano.
Às 7 horas da manhã do dia 1º de abril, na Base Aérea no Panamá (9 horas no Rio de Janeiro), uma força-tarefa conjunta do Exército, Marinha, Força Aérea e CIA, `ultra-secreta`, entrou em ação sob o comando do General-de-Divisão Breitweiser, da Força Aérea. A finalidade dessa força-tarefa parece que era a de acompanhar e coordenar a logística de 'Brother Sam'.

Solicitações do Brasil

Um grupo naval chefiado pelo Almirante Levi Reis estabeleceu um posto de comando na praia de Copacabana na manhã de 1º de abril. Ele estava tentando providenciar para que três destróieres operassem ao largo do Rio de Janeiro e um submarino operasse ao largo de Santos como parte da coordenação contra Goulart. Levi Reis perguntou ao chefe da Missão Naval americana `se e quando os Estados Unidos estariam em condições de fornecer combustível para submarinos`.
Ás 10 horas da manhã de 1º de abril, altos funcionários norte-americanos em Washington consideravam os efeitos políticos do apoio aberto dos Estados Unidos ao golpe e perguntavam à Embaixada do Brasil se `o impulso continuaria do lado anti-Goulart sem incentivo oculto ou ostensivo de nossa parte`. A preocupação dos estrategistas norte-americanos parece que não era o cabimento do envolvimento dos Estados Unidos nos assuntos internos do Brasil, mas se a indicação aberta do apoio americano `poderia favorecer Goulart neste momento`. Gordon respondeu: `O impulso claramente pegou e nestas horas não precisa de incentivo especial de nossa parte... Neste momento, a indicação aberta de nosso apoio seria um erro político que iria favorecer Goulart`.
(...)

As informações dos Estados Unidos

As decisões dos Estados Unidos se baseavam em informações preciosas e oportunas fornecidas por fontes excelentes. Uma fonte não-revelada na agência telegráfica informou à Embaixada no Rio quando as tropas do Segundo Exército atravessaram a fronteira São Paulo/Rio na manhã de 1º de abril. Houve duas manifestações naquela tarde no centro do Rio, e observadores faziam o circuito entre essas aglomerações e a Embaixada, mantendo a equipe informada. Vernon Walters procurou encontar-se com Castelo Branco ou alguém de sua equipe às 2 horas de 1º de abril e outra vez na manhã de 2 de abril.
O apoio a Goulart foi desorganizado e ineficaz. Greves foram convocadas, mas não consumadas. A resistência careceu de planejamento coerente e liderança forte. À 1 hora da tarde de 1º de abril, o Presidente Goulart partiu de avião do Rio para Brasília. Em vez de assumir uma posição planejada em Brasília, Goulart prosseguiu viagem para o Rio Grande do Sul naquela noite.
(...)
O apoio militar ostensivo dos Estados Unidos para a derrubada de Goulart logo se tornou desnecessário. Gordon cabografou a Washington, enviando um extenso relato da situação à 1 hora da manhã do dia 2 de abril, no qual descreveu as forças dos aparentes vencedores e os poucos focos de resistência restantes. Ao considerar as possíveis reações dos Estados Unidos, ele frisou que `enquanto não for assegurado o controle democrático das refinarias, não se pode excluir a possível necessidade de produtos petrolíferos`. Isso significava que os navios-tanques carregados de POL deviam continuar a caminho do Brasil. Gordon não cancelou de imediato o embarque pendente de 100 toneltadas de armas e munições dos Estados Unidos, porque, explicou ele, `enquanto a situação do Terceiro Exército não estiver claramente sob controle,... não podemos excluir por completo um possível pedido de material bélico`. Gordon focalizou as prováveis repercussões econômicas do golpe e comunicou a Washington que acreditava que a situação podia `requerer alguns fornecimentos de emergência, tais como alimentação, material de segurança pública, POL`
(...)
A 2 de abril, às 4 horas da tarde, Gordon comunicou a Washington que `acabara de receber confirmação de Castelo Branco de que cessara toda a resistência em Porto Alegre, e as forças democráticas agora controlavam inteiramente o Rio Grande do Sul. Isso elimina o último foco de resistência militar`.
Na mesma tarde, 200.000 pessoas reuniram-se no centro do Rio para a passeata da vitória do grupo `Marcha da Família com Deus pela Liberdaede`. Gordon descreveu a euforia da multidão agitando bandeiras brasileiras e cartazes anticomunistas, cantando o hino nacional e atirando confete` '.


Obs.: POL significa petróleo, óleo e lubrificantes; Walters era o adido militar americano no Brasil e Gordon era o embaixador americano no Brasil (F. Maier).





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