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Ensaios-->Ano do Galo: A verdade sobre a China -- 16/04/2008 - 15:44 (Félix Maier) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
A verdade sobre a China

por Guy Sorman em 16 de abril de 2008

Resumo: As rebeliões que agora surgem no Tibete e em outros lugares são contra o apartheid comunista.

© 2008 MidiaSemMascara.org

Se os chineses tivessem o direito de se expressar, tenho certeza que a maioria deles se juntaria aos protestos tibetanos. O que vemos agora nas províncias do Tibete não pode ser reduzido a um confronto étnico entre duas nações, os tibetanos versus a etnia chinesa; é muito mais uma revolta do estrato mais pobre e oprimido na China contra a tirania do Partido Comunista. As rebeliões tibetanas devem ser vistas como uma revelação sobre o verdadeiro caráter do sistema político-econômico chinês.

O que está ocorrendo no Tibete ocorre em toda a China: rebeliões com milhares de pessoas fazendo oposição por todo o enorme país, agricultores e trabalhadores contra o aparelho de segurança comunista.

No caso do Tibete, apenas ocorre que estamos mais bem informados, pois visitantes conseguiram tirar fotos e enviaram seus relatos ao resto do mundo. Não é o caso em outros lugares remotos, aonde nenhum visitante estrangeiro viaja. Mas sabemos, via internet e mensagens de textos enviadas por telefone celular, que o ciclo de rebeliões e repressão está presente em todos os lugares; sabemos que os manifestantes chineses, não apenas os tibetanos, são mortos pela polícia e enviados a prisão sem julgamento.

Quais são os motivos dessas rebeliões tanto dos tibetanos quanto dos não-tibetanos? Todos eles querem salvar sua identidade: os chineses são um povo diversificado, falando muitas línguas, praticando muitas religiões. Mas, em nome da unidade nacional, o Partido Comunista impôs uma língua nacional - o mandarim - na mídia e na educação: as minorias ligüísticas foram destruídas. O mesmo ocorre com a religião, que só é permitida nos templos oficiais, igrejas e monastérios.

Os tibetanos e os não-tibetanos também estão lutando por educação e serviços de saúde. Na China , escolas e serviços médicos nunca são gratuitos. Famílias pobres sem recursos suficientes não conseguem enviar seus filhos à escola e nenhum deles, tibetanos ou não-tibetanos, tem acesso a qualquer serviço médico.

Além desses motivos específicos, graves o bastante para causar uma revolução, um profundo sentimento de injustiça contamina toda a China.

Qualquer chinês pode ver que o país está dividido em dois países diferentes, o rico e o pobre. Os ricos, uma nova classe média, incluem aproximadamente 20% da população total; esse porcentual também se aplica às minorias étnicas, como os tibetanos. Para se juntar a essa nova classe média, é preciso ser membro do Partido Comunista ou membro da elite militar, ou pelo menos ter conexões com essas duas instituições. Fora do PC, fora das Forças Armadas, é praticamente impossível subir a escada social pelas qualidades pessoais.

O sistema chinês é basicamente fundamentado na divisão da sociedade: no topo, a burocracia comunista controla tudo: a economia, a religião, a cultura, a segurança. Essa burocracia fica mais poderosa a cada dia, pela exploração dos estrato mais baixo da sociedade chinesa.

As rebeliões que agora surgem no Tibete e em outros lugares são diretamente contra esse tipo de apartheid comunista. Será que o Partido Comunista ainda consegue dialogar com os rebeldes? Conseguirá a política econômica da China ser mais generosa com os pobres? Provavelmente não. Os membros do PC, não sendo eleitos, têm poucos incentivos para escutar o povo. Eles também são muito orgulhosos de sua própria conquista: de fato, a China voltou ao palco internacional.

Como então o Ocidente deve se comportar em relação à China? Devemos boicotar os Jogos Olímpicos ? Um boicote provocaria só um reforço nacionalista e daria mais forças ao Partido Comunista na China; nenhum líder dos direitos humanos, chinês ou tibetano, está defendendo um boicote. Mas devemos fazer uma clara distinção entre a China como um país e o Partido Comunista; devemos apoiar os direitos individuais dos jornalistas, religiosos, ativistas dos direitos humanos, professores liberais da China. Com o PC em si, devemos ser extremamente cautelosos, sabendo que para a maioria do povo chinês, a burocracia comunista não é considerada como legítima em seu próprio país.


Publicado pelo Diário do Comércio em 15/04/2008

Nota Redação MSM: Para maiores informações sobre a China, recomenda-se a leitura do livro de Guy Sorman O Ano do Galo, disponível na Editora É Realizações.


***

Comentário

Félix Maier

O pensador liberal francês Guy Sorman é também autor dos livros A Nova Riqueza das Nações (Instituto Liberal/Nórdica, Rio, 1987) e A Solução Liberal (Instituto Liberal, Rio, 1989), além de La révolution conservatrice américaine, L`état minimum, Les vrais penseurs de notre temps.

A Nova Riqueza das Nações (uma alusão à obra de Adam Smith, A Riqueza das Nações) trata da abordagem econômica do Terceiro Mundo, estudo feito por Sorman na década de 80 em 18 países, durante 3 anos, incluindo Egito, Índia, China, Cuba, Coréia do Sul, África do Sul, Brasil.

Segundo Sorman, não existem vítimas do 'imperialismo', das condições geográficas, mas dos maus governos, da má administração de seus políticos. A solução para a pobreza e o subdesenvolvimento deve ser uma busca singular, dentro de cada país, de acordo com as potencialidades de cada nação.

O livro aborda, também, a 'Revolução Verde', a tecnologia genética que aumentou a produção de grãos no mundo e salvou países como a China e a Índia de fome endêmica.

O outro livro, A Solução Liberal, trata da filosofia liberal clássica, aquela calcada no pensamento de titãs da economia, como Adam Smith, Hayek e Mises. Não tem nada a ver com o dito 'liberalismo' dos britânicos (representados pelos trabalhistas) e dos americanos (representados pelos democratas), os quais pretendem, não um Estado mínimo, como pregam os autênticos liberais, mas o feroz animal bíblico Leviathan, o Estado autoritário, muito bem descrito por Hobbes em seus portentoso livro Leviathan (ou Leviatã).

'O liberalismo é uma palavra que serviu muito, na medida exata, nos países anglo-saxões, para designar o inverso do que é: um liberal americano ou britânico está antes de tudo mais próximo de um socialismo francês' (prefácio do livro, pg. 6).

O livro aborda temas como a Sociedade Mont Pèlerin, o corporativismo dos movimentos sociais, as atuações liberais de Margaret Thatcher e Ronald Reagan, a Nova Classe dos burocratas estatólatras. O ideal liberal, segundo Sorman, é taxar a despesa, não a renda; menos Estado só é possível através de menos imposto.

Guy Sorman lamenta que na Europa ainda se acredita que o Estado cria o crescimento, ao passo que nos EUA e no Japão o crescimento se dá com menor intervenção do Estado na economia (hoje isso é discutível, pelo menos no que concerne aos EUA, onde o governo interfere cada vez mais na economia, para safar-se do desastre financeiro provocado pela quebra do setor imobiliário). Ou seja, uma luta entre Keynes e Schumpeter. Diz Sorman:

'Para os keynesianos, a riqueza das nações resulta da demanda das massas. Se esta diminui, cabe ao Estado dar novo impulso a ela, através das despesas públicas. A vulgata keynesiana é naturalmente para os povos e seus dirigentes, já que justifica, ao mesmo tempo, a alta dos salários e o aumento da intervenção do Estado como instrumentos da prosperidade. A divisa dos keynesianos poderia ser emprestada por François de Closet: sempre mais - mais dinheiro, mais salários, mais despesas.

Os schumpeterianos, ao contrário, apostam na iniciativa individual. São os chefes das empresas, os inventores, os comerciantes que impulsionam o crescimento. Não foi a demanda dos consumidores que criou uma indústria do automóvel, do computador individual, mas o gênio produtivo e comercial dos empresários. Assim como Keynes subordina o crescimento às massas, Schumpeter privilegia as elites. Mas essas elites econômicas não devem nada à sua origem social. O grupo dos empresários só se distingue por sua vontade de criar riquezas; é uma espécie de cavalaria dos tempos modernos. Esses homens e essas mulheres não brilham necessariamente por sua cultura nem por sua formação; não são especialmente inteligentes ou fascinantes. Têm em comum apenas o desejo de criar atividades econômicas. São os ativistas da economia, para usar o vocabulário americano. Pertencem a todas as nações, a todos os meios, a todas as gerações, transgridem os hábitos, as regras do bom-tom. O drama da Europa não é a falta de matérias-primas, mas o não conhecimento do papel dessas pessoas. A experiência liberal dos anos 80 dá razão ao professor Giersch: o crescimento está de volta às nações onde os empresários retomaram a iniciativa, mesmo naquelas onde a esperança parecia perdida' (pg. 110 e 111).

O leitor dirá: mas o Brasil aplicou a 'solução liberal' nos anos 80 e deu no que deu. Bobagem. O Brasil, na época com 80% de sua economia estatizada, estava muito mais próximo do paquiderme soviético do que de um verdadeiro Estado liberal, como é Coréia do Sul e, mais recentemente, o próprio Vietnã, que hoje é um dos maiores produtores de café do mundo e está rapidamente saindo da miséria por conta de um autêntico 'choque liberal'. O Brasil vive ainda o pré-capitalismo, ou seja, o mercantilismo dos tempos de Pombal, em que sobressai o patrimonialismo denunciado por Max Weber, que consiste na promiscuidade do bem público com o particular. A prova mais cabal disso é o rápido enriquecimento dos políticos, como foi o caso de ACM, José Sarney, Jader Barbalho, Renan Calheiros. Até Lula está se tornando milionário, por conta das inúmeras viagens inúteis que faz pelo interior do Brasil e ao redor do mundo, mas que lhe rende gordas diárias, que no exterior são pagas em dólares.

Enfim, o recado de Sorman para o desenvolvimento do Terceiro Mundo é simples: o Estado deve se ater a obras de infra-estrutura, Segurança, Saúde e Educação. A economia deve ser deixada para quem entende do assunto: o empresariado.

Parodiando a máxima 'laissez-faire, laissez-passer!', pode-se repetir com Sorman: 'Deixa o empresário trabalhar! Deixa o comerciante trabalhar! Deixa o inventor trabalhar!' Enfim, 'deixa o homem trabalhar!' - como dizia aquela frase lulana da campanha presidencial, que, no caso, seria mais correta se fosse 'deixa o homem viajar!' A iniciativa individual é que cria o desenvolvimento das nações, não o dinossauro estatal, cada vez mais ávido por impostos, mais perdulário, mais corrupto. Dinheiro chama dinheiro, miséria só chama pobreza. A opção, portanto, deve ser feita preferencialmente em favor da riqueza, como prega a ética protestante, não da pobreza, como prega a Igreja Católica.

O novo livro de Sorman, Ano do Galo, vem em boa hora, para tomarmos conhecimento do que está ocorrendo na China atual, o dragão adormecido durante milênios que acordou do sono profundo depois que começou a liberalizar sua atividade econômica e já é a 3ª maior economia do planeta.



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