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Ensaios-->Ideais traídos -- 01/11/2007 - 16:06 (Félix Maier) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
Ideais traídos

por Graça Salgueiro (*) em 01 de novembro de 2007

Resumo: A figura do traidor interno é encontrada no livro auto-biográfico do General Sylvio Frota, ex-Ministro do Exército do governo Geisel.

© 2007 MidiaSemMascara.org


“Uma nação pode sobreviver aos idiotas e até aos gananciosos, mas não pode sobreviver à traição gerada dentro de si mesma. Um inimigo exterior não é tão perigoso, porque é conhecido e carrega suas bandeiras abertamente. Mas o traidor se move livremente dentro do governo, seus melífluos sussurros são ouvidos entre todos e ecoam no próprio vestíbulo do Estado.

E esse traidor não parece ser um traidor; ele fala com familiaridade a suas vítimas, usa sua face e suas roupas e apela aos sentimentos que se alojam no coração de todas as pessoas. Ele arruína as raízes da sociedade; ele trabalha em segredo e oculto na noite para demolir as fundações da nação; ele infecta o corpo político a tal ponto que este sucumbe”.

(Discurso de Cícero, tribuno romano, 42 a.C.)


A contundente epígrafe acima, apesar de escrita há mais de 2.000 anos, serve para ilustrar fatos ocorridos em um passado recente de nossa nação e que continuam se repetindo até os dias de hoje. A figura do traidor interno, esse que “trabalha em segredo e oculto na noite”, vamos encontrá-lo no livro auto-biográfico do General Sylvio Frota, ex-Ministro do Exército do governo Geisel, publicado postumamente. Em “Ideais Traídos” (Ed Zahar, 2006), o General Sylvio Frota conta em detalhes, inclusive com cópias autênticas de documentos confidenciais e secretos, como a traição ao ideário da Revolução de 64 foi urdida dentro do próprio governo, nos corredores do Palácio, na calada da noite. Seus vultos invisíveis e ocultos que se moviam e agiam qual fantasmas, tudo fizeram para o retorno daquilo que os revolucionários de 64 combateram aguerrida e vitoriosamente: a implantação do comunismo no Brasil, como vemos hoje através das figuras encasteladas no poder.

Com o falecimento do General Dale Coutinho, em maio de 74, o General Sylvio Frota ocupa interinamente a pasta sendo efetivado a convite do presidente Geisel em 27 de maio daquele ano. O Gen Frota conhecia o presidente Geisel superficialmente, e no início de seu mandato como ministro as coisas corriam bem e harmoniosamente até que surgiu o problema do reconhecimento da República Popular da China.

Em 9 de abril de 1974, ainda como Chefe do Estado Maior do Exército (EME) e membro do Conselho de Segurança Nacional (CSN), o Gen Frota encaminhou ao presidente Geisel um parecer sobre a Exposição de Motivos do Ministério das Relações Exteriores. Nesse documento ele expõe detalhadamente os riscos que se corria com o reatamento, pois a pretexto de intercâmbio técnico e comercial a China comunista iria infiltrar seus agentes no nosso país, como já fazia em outros. Além disso, uma das exigências desse país comunista era o rompimento com a China Nacionalista, criando um problema com Formosa com quem o Brasil mantinha excelentes relações comerciais e políticas.

Geisel tinha interesse em reatar com a China comunista e certo dia, sendo o Gen Frota já Ministro do Exército, o presidente solicita ao Ministro da Casa Militar, Gen Hugo Abreu, que converse com o Gen Frota para que ele “abrande” os termos empregados no parecer dado em abril de 74. O Gen Frota manteve-se irredutível e certo dia, após um despacho com o Presidente, soube por um de seus assistentes que em conversa com o secretário particular de Geisel, Heitor Aquino Ferreira, ouvira a seguinte frase textual: “Por causa destes milicos de ... não podemos fazer relações com Cuba!” (Ideais traídos, págs. 101-102). O Gen Frota não mais tomou conhecimento do assunto e em 15 de agosto de 1974, o Brasil estabeleceu relações diplomáticas com a República Popular da China, o que provocou vários transtornos à comunidade chinesa do Brasil e o confisco de bens dos cônsules da China Nacionalista residentes no Rio e em São Paulo, por determinação do governo de Pequim.

No ano de 1975 a subversão parecia ter recobrado ânimo e em certo dia de julho daquele ano, despachando com o Presidente, este disse ao Ministro Frota que os militares estavam combatendo-os de forma errada, aliando-se à direita. Disse textualmente: “É um erro”. Depois, com toda a firmeza, acrescentou: “Nós devemos nos aproximar da esquerda”. Em seguida, fez um desenho num papel com as letras E, C e D, e circulou as letras E e C que indicavam a aproximação do centro com a esquerda. Atordoado, Sylvio Frota pergunta: “O senhor acha que nós devemos ir para a esquerda?” (Ideais traídos, pág. 133). O presidente nada respondeu; pegou o papel com o desenho, rasgou-o e o colocou no bolso do casaco. Ao sair dali, o ministro Frota recorda-se de que nos primeiros meses do governo Geisel, o ministro Golbery do Couto e Silva (da Casa Civil) teria dito aos oficiais do Serviço Nacional de Informações que o novo governo é um “governo de centro-esquerda”.

Tal afirmação encontra eco numa Informação Confidencial do Adido Militar brasileiro no México, chegada ao EME em 28 de abril de 1975, sobre o comunista Francisco Julião, que lá se encontrava exilado, e dava conta de que em palestra realizada em uma universidade, sob o tema “Los pueblos de América Latina contra el Fascismo”, Julião teria dito que: “O general Ernesto Geisel está convencido de que o Brasil deve abraçar o pluralismo ideológico e inclinar-se para onde se inclinem os povos da América Latina (em clara alusão à revolução cubana). (...) Sob as ordens do imperialismo norte-americano Garrastazú Médici pretendeu fazer do Brasil uma potência mesmo que para isso tivesse que sacrificar os operários, os camponeses, a classe média. (...) Agora com Geisel, o Brasil está procurando a forma de se encontrar a si mesmo. (...) Geisel está consciente (...) de que sua missão é ir desmontando a máquina militar” (Ideais traídos, págs. 137-138).

E finalizando, elogia o reatamento com a China e afirma: “Os interesses internos e externos contam com a proteção do Exército, e é aí onde aparece a cara sinistra do fascismo. É por isso que Geisel deverá procurar aliança com as forças progressistas do Brasil, e é o que, naturalmente, está fazendo”. Perguntado se acreditava que Geisel iria mudar a fisionomia do Brasil respondeu: “Passei a me convencer que tal sucederá, pois inclusive Geisel já está contando com a colaboração de elementos nossos, em certos ministérios. (...) Acredito que muito em breve teremos as portas abertas ao nosso retorno” (Ideais traídos, pág. 138)). A esse respeito o Gen Sylvio Frota denunciou ao presidente Geisel de que havia 97 funcionários em cargos de DAS que foram classificados pelos órgãos de Segurança como comunistas militantes; entretanto, tal alerta caiu no vazio, mais uma vez.

Delineava-se assim, cada vez mais claramente, aquilo que o Gen Sylvio Frota tanto temia e relutava em crer: o pendor esquerdista do Presidente Geisel. Os atritos pela divergência de cunho ideológico acentuavam-se mais e mais, e muitas vezes o Gen Frota pensou em entregar o cargo, não o fazendo pela responsabilidade assumida perante o seu Exército que tanto amava, e ao presidente a quem era leal, enquanto chefe da Nação e seu superior hierárquico.

No dia 31 de maio de 1977, em despacho com o presidente, o Gen Frota nota que Geisel estava nervoso. Encerrado o despacho Geisel diz com revolta que “estavam criando-lhe problemas”, referindo-se à prisão dos estudantes-militantes trotskistas e “... lá no Nordeste... os radicais prenderam agora dois pastores norte-americanos... criando um caso”. – “Que radicais, presidente?” O presidente prosseguiu sem dar ouvidos à pergunta: “E os estudantes... Estão provocando desordens... Estão se excedendo... Mandei prender...”. E voltando-se, apontou-lhe o dedo e disse lentamente: “E... tu sabes perfeitamente que eu não sou infenso às esquerdas...” (Ideais traídos, pág. 367).

Durante os quatro anos em que dirigiu o Ministério do Exército, o Gen Frota foi vítima de inescrupulosas armações pelo “grupo da intriga” (como ele chamava), capitaneadas por Golbery e com o respaldo do Gen Figueiredo e do ex-capitão Heitor Aquino Ferreira, secretário do presidente Geisel. Este grupo, por não encontrar qualquer falha de comportamento ou atitudes do Gen Frota perante seus comandados e a pasta que dirigia, vinha fomentando a intriga entre o presidente e o ministro através de ilações a um pretenso interesse do Gen Frota de candidatar-se à Presidência da República, coisa que jamais esteve em seus planos (como se evidencia ao longo de toda esta obra), pois o ministro era claro em afirmar não ter qualquer interesse na política partidária. Aliás, esta era uma de suas maiores críticas ao presidente e ao tal “grupelho”, que punham os interesses políticos à frente e acima dos interesses militares e dos ideais da Revolução de 64 para com a Nação. A propósito das ações do “grupo da intriga” que procurava denegrir a imagem do Gen Frota, passou a correr de boca em boca, Brasil afora, um bordão que buscava depreciar àquele autêntico revolucionário que, fiel aos princípios do Movimento Cívico-Patriótico de 64, procurava alertar Geisel a respeito do recrudescimento da subversão comunista. O debochado bordão dizia: “Chega de inteligente: Frota para presidente”. Isto considerando-se que Geisel era tido como um ser de inteligência superior.

Este grupo da intriga inventou, ainda, que na Ordem do Dia de 25 de agosto o Gen Frota faria um pronunciamento político e no dia seguinte, data do seu aniversário, lançaria sua candidatura à Presidência. No dia 9 de agosto, em despacho de rotina, Geisel fala com ar um tanto distraído: “O dia 25 de agosto vem aí...”; e em seguida, de dedo em riste e quase gritando: “E eu quero ler sua ordem do dia, general, eu quero ler...” (Ideais traídos, pág. 468). Indignado com a grosseira intimação, o Gen Frota conteve-se e respondeu: “Se o senhor não confia em mim, se o senhor não tem confiança em mim, exonere-me, demita-me, mas as minhas ordens nunca lhe deram motivos para censuras. Foram feitas sempre na base da disciplina e da hierarquia” (Idem, pág.469). Dias depois, após ler a Ordem do Dia redigida pelo ministro Frota, o presidente o elogiou.

Em 15 de setembro de 1977, o Ministro das Relações Exteriores, Azeredo da Silveira, sabidamente esquerdista por seus colegas do Itamaraty, informa ao Ministro do Exército que seu colega uruguaio havia lhe comunicado que o governo de seu país teria revogado o asilo político de Leonel Brizola, acusando-o de envolvimento em assuntos internos do Uruguai e de fornecer dados sobre as organizações militares aos seus camaradas. O Governo do Uruguai dera-lhe um prazo até o dia 21 de setembro para deixar o país e constava que tal informação era sigilosa. Especulava-se que Brizola poderia ir para o México, Portugal ou mesmo Argélia, onde Miguel Arraes articulava-se para tal fim, além de intermediar a importação para o Brasil de petróleo, conforme acertado com o Ministro das Minas e Energia, Shigeaki Ueki, conhecido como “o japonezinho de Geisel”.

Entretanto, no dia 20 de setembro o Gen Frota foi surpreendido por um telefonema em sua casa, ainda cedo da manhã, onde o Ministro da Justiça, Armando Falcão, informava-o de que Brizola viria para o Brasil. Diante da perplexidade do Gen Frota e dos argumentos de que ele não poderia vir, sobretudo por ter instigado os sargentos a matar os oficiais, respondeu-lhe Armando Falcão: “Mas, Frota... O presidente mandou que eu visse um lugar, assim como Corumbá, para confiná-lo...” (Ideais Traídos, pág. 487). O Gen Frota decidiu que acionaria o QG para prender o comunista, caso ele desembarcasse no Brasil e ruminava questionamentos acerca do comportamento do Presidente, sendo ele um Militar, em acoitar um homem odiado pelo Exército, inimigo declarado dos revolucionários e que acabava de ser expulso de uma nação irmã por ter desonrado o país que o acolhera.

Naquele dia 20 o Gen Frota foi ao palácio despachar com o presidente e ao fim do despacho disse-lhe Geisel: “O Brizola vem aí! Já dei ordem ao Armando Falcão para escolher um lugar, assim como Corumbá, para confiná-lo...”. O Gen Frota, perplexo, apresenta os argumentos já conhecidos da perniciosidade deste elemento e então Geisel responde:

- “Mas... já dei ordem para confiná-lo...”.

– Então coloque-o numa ilha... Trindade tem uma guarnição da Marinha, ou em Fernando de Noronha.

- “Deste modo vão dizer que eu o estou perseguindo...”

- E que mal há que o digam, presidente? (Ideais traídos, págs.489-490), foi a pergunta final do Gen Frota que manteve seu posicionamento e afirmou ao presidente que não se responsabilizaria pela integridade física de Brizola, em face de uma possível reação dos oficiais. Esta conversa fora privativa no entanto, chegou aos ouvidos de Brizola no mesmo dia – certamente pelo “grupo da intriga” -, para criar mais dificuldades ao Ministro do Exército.

Desta ilação, engendrou-se calúnia de que o Gen Sylvio Frota preparava um golpe para depor Geisel. Finalmente, soube-se no dia 21 de setembro que o governo dos Estados Unidos, sob a presidência do criptocomunista Jimmy Carter, abriu as portas do seu país para acolher Brizola, livrando assim o Brasil de maiores dissabores.

No dia 29 de setembro, por ocasião da reunião do Alto Comando, o Ministro Frota fez referência apoiando, por considerá-lo excelente, um documento intitulado “Relatório Especial de Informações” onde o autor, General-de-Exército Fernando Belfort Bethlem, Comandante do III Exército, analisava friamente a situação do país, a penetração marxista em setores da vida administrativa e apontava alguns nomes, do Senado e da hierarquia militar, como participantes das pressões espúrias que se faziam sentir no governo. Na tarde do dia 11 de outubro circularam informações de que o presidente Geisel mostrava-se indignado com tal relatório, e através de um oficial do Centro de Informações e Segurança da Aeronáutica Sylvio Frota recebeu a informação de que Geisel oscilava entre três soluções: prender e afastar o Gen Bethlem do Comando do III Exército; afastá-lo do Comando do III Exército ou mandar que o Gen Frota punisse este Comandante.

Ainda no dia 11, após receber esta informação, preocupado com os desdobramentos o Gen Frota telefona para o Gen Bethlem que estava em férias no Rio, e ao referir o relatório este mostra desconhecer totalmente do que se tratava, sendo ele o autor do documento e já sabendo que o Gen Frota seria exonerado do cargo que ele iria ocupar. O dia 12 de outubro fora decretado feriado, todavia, às 8 horas da manhã o Gen Sylvio Frota recebe um telefonema do Gen Hugo Abreu, informando que o presidente Geisel desejava falar-lhe às 9 horas no palácio. Indagado se conhecia o motivo o Gen Hugo Abreu, que participara de toda a trama na calada da noite do dia 11, disse que não sabia.

Ao chegar ao palácio o Gen Frota estava disposto a defender o Gen Bethlem, pois acreditava ser este o motivo da conversa. O presidente foi direto ao assunto dizendo que “não conseguia ‘se acertar’ com o ele”, ao que o Gen Frota retruca dizendo que sempre lhe fora leal, no que o presidente concordou. Entretanto, logo o Gen Frota percebeu que o presidente jamais diria os reais motivos de sua ansiada demissão mas que eles eram de ordem especificamente políticas, prendiam-se à permanência do grupelho no Planalto, uma vez que ele era a nota dissonante daqueles que pretendiam transformar o país num feudo de compadres.

Irritado porque o Gen Frota não pedia demissão, Geisel falou com aspereza: “Eu estou incompatibilizado com você; solicite demissão!”. O Gen Frota disse que não faria isto porque não se sentia incompatibilizado com o cargo. Mais exasperado ainda, Geisel bate com a palma da mão na mesa e grita: “Mas o cargo é meu!”. O Gen Frota confirma e diz que então ele o demita; Geisel diz em voz alta: “É o que farei!” (Ideais traídos, pág. 513). Ao sair do gabinete presidencial o Gen Frota informa ao Gen Hugo Abreu de que acabara de ser demitido, ao que este diz que “estava previsto desde sábado” e que os motivos foram meramente políticos.

O que se seguiu a este episódio foi algo degradante e indigno de alguém que durante todo o tempo em que ocupou o Ministério do Exército só visou o bem da sua Força, dos seus comandados e da própria Nação brasileira, tentando resguardá-la de um possível retorno à época da baderna promovida pelos comunistas. Na noite do dia 11 foi dado alerta a várias unidades militares para um possível “golpe” do Gen Sylvio Frota pela não aceitação de sua demissão – que se presumia -, mostrando que nenhum daqueles militares, comandados pelo “grupo da intriga”, estava a altura deste nobre Soldado, tampouco o conheciam suficientemente. Apenas revelavam, com gesto tão vil e mesquinho, seu desespero diante de um homem que, sem querer nem pedir, fazia-lhes sombra por sua competência, caráter ilibado e honradez inatacável.

Logo após sua demissão, o Gen Frota convoca seu Alto Comando para uma reunião onde pretendia dar ciência dos motivos que levaram o presidente a tomar tal atitude. Ao tomar conhecimento desta convocação, Geisel teria dito: “Não deixe os generais reunirem-se com Frota! Os generais são fracos e Frota vai dominá-los!”. Em seguida, ardilosamente convoca os mesmos oficiais para uma reunião em seu gabinete e todos, um por um, acodem ao chamado do presidente, ferindo de forma brutal o princípio de hierarquia, além de abandonarem num momento angustiante àquele a quem muitos se diziam amigos. No palácio aparece também o Gen Fernando Bethlem (que estava de férias), que toma posse no Ministério do Exército.

As calúnias, infâmias e perseguições que acompanharam o Gen Sylvio Frota, mesmo depois de sua exoneração, são dignas das obras do KGB. Sua correspondência passou a ser censurada; seu telefone grampeado de forma estúpida, pois até para seu filho – o Contra-Almirante Luiz Frota, que morava praticamente ao lado do pai e sabia que ele estava em casa – “uma voz” anunciara que o general não se encontrava; oficiais amigos do general foram perseguidos e preteridos em suas promoções. O pior de tudo, entretanto, foi a nota da antiga Delegacia de Ordem Política e Social (DOPS) que logo após o dia 12 de outubro passou a considerar o ex-ministro Sylvio Frota como “um elemento pernicioso à ordem vigente, digno de ser incluído no fichário dos subversivos, ao lado de assaltantes de bancos, assassinos e terroristas” (Ideais traídos, pág.564).

Em sua nota de despedida o Gen Sylvio Frota cita, dentre as divergências com o governo, além das já citadas acima, o voto de abstenção quanto ao ingresso de Cuba na OEA; o reconhecimento ao governo comunista de Angola; o voto anti-sionista de caráter discriminatório; as investidas para destruir a estrutura da Segurança Nacional; a tentativa de incompatibilizar as Forças Armadas com a opinião pública; a complacência criminosa com a infiltração comunista e a propaganda esquerdista na imprensa, nos setores estudantis e nos próprios órgãos do governo; processo de domínio pelo Estado da economia nacional.

É difícil resumir tão magnífica obra póstuma em poucas palavras. Mas é imperativo, ao menos - mesmo após 30 anos do fato ocorrido -, tentar restaurar a imagem de um homem íntegro, que viu traído não só os ideais revolucionários mas também a si próprio, por sua transparência e grandeza de espírito que desconhecia os ardis e a malícia daqueles que só almejam o poder, mesmo que isso custe renegar o juramento feito de defender a Pátria com o sacrifício da própria vida. Encerro esta homenagem ao grande Soldado Gen Sylvio Frota, injuriado e maculado em sua honra de Homem e Militar, com suas palavras sábias e proféticas na nota de despedida que ofereceu aos seus comandados, recomendando a todos a leitura desde livro memorável que é antes de tudo um documento histórico de inestimável valor:

“Que os quadros do Exército reflitam sobre o grave momento que atravessamos e meditem na magnífica tarefa que lhes atribuo, de preservar, para seus filhos, um Brasil democrático. E se, por uma fatalidade, isto não acontecer, quando as pesadas algemas do totalitarismo marxista, fizerem porejar o suor da amargura, nas frontes pálidas de suas esposas, não quero que em seus lamentos de desespero, acusem o General Sylvio Frota de omissão e de não lhes ter apontado o perigo iminente”.

Parece que ninguém ouviu este alerta...


Texto publicado originalmente no jornal Inconfidência e no site Farol da Democracia Representativa.


(*) Graça Salgueiro é jornalista independente, estudiosa do Foro de São Paulo e do regime castro-comunista e de seus avanços na América Latina, especialmente em Cuba, Venezuela, Argentina e Brasil. É articulista do Mídia Sem Máscara, onde também colabora como tradutora e revisora, correspondente brasileira do site La Historia Paralela da Argentina, articulista do jornal 'Inconfidência' de Belo Horizonte e proprietária do blog Notalatina.



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