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Ensaios-->Bandung ou o fim da era colonial -- 13/08/2007 - 15:39 (Félix Maier) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
Bandung ou o fim da era colonial

Jean Lacouture *

Le Monde diplomatique

Durante muito tempo eram apenas manchas de cor nos mapas, simbolizando os impérios coloniais. Depois, em Abril de 1955, na Indonésia, esta metade do planeta passou a ser o “Terceiro Mundo”. Muitos dos participantes estavam já no poder, como o chinês Chu En­& 8209;Lai, o jugoslavo Tito, o egípcio Nasser, o indiano Nehru ou o indonésio Sukarno. Outros lutavam ainda pela independência, como a Frente de Libertação da Argélia, o Neo­& 8209;Destour da Tunísia ou o Istiqlal de Marrocos. Um total de vinte e nove Estados e trinta movimentos de libertação nacional iam, em Bandung, mudar o curso da história. Meio século mais tarde, Jean Lacouture recorda esta “aurora”.

É muito possível que para a grande maioria dos jovens nascidos no tempo da Guerra Fria (1949­& 8209;1989) e da estruturação do império norte­& 8209;americano, a palavra Bandung já não diga grande coisa, e que o nome desta aprazível cidade turística da ilha de Java, na Indonésia, soe como o de uma qualquer batalha esquecida, entre Ialta (1945) e Dien Bien Phu (1954). Mas para muitos dos que como eu andaram pelo mundo de caneta em punho, levando na algibeira um visto caducado ou falso, este nome, durante duas ou três décadas, significou muito, simbolizando, por assim dizer, toda uma época: a era de uma certa descolonização, o refluxo dos impérios por vias que não eram as da guerra total e uma possível reinvenção do mundo.

Tendo em mente a segunda metade do século XX, se devêssemos escolher uma dezena de datas ou acontecimentos que representaram uma mudança de rumo no curso da história, entre a morte de Estaline em 1953, que pôs termo à fase bélica do comunismo, e a queda do Muro de Berlim em Novembro de 1989, que assinalou o fim da Guerra Fria, passando pela paz assinada em Genebra em 1954 (fim da guerra francesa da Indochina), pelas crises dos mísseis de Cuba em 1963, que fez surgir a possibilidade duma guerra nuclear, pela explosão da bomba H chinesa em 1967, pelo desastre americano em Saigão em 1975 e pelo aparecimento, com o ayatollah Khomeini, do islamismo combatente em 1979, deveríamos registar esses poucos dias do mês de Abril de 1955 em que, em Bandung, a uma hora de avião de Jacarta, mais de metade da humanidade esteve representada num concilio que proclamou o fim da era colonial e a emancipação do homem de cor, asiático ou africano.

Hoje é difícil fazer-se uma ideia das repercussões daquela conferência, realizada tão longe, que juntou os representantes de uma ampla fracção do género humano (muito mais ampla que a de Versalhes em 1919 ou mesmo que a de Ialta em 1945). Não porque Bandung tenha alterado a situação mundial, nem porque tenha feito progredir muito a emancipação dos africanos, mas por ter sido uma espécie de estados gerais do planeta, algo como um 1789 da humanidade.

A seu propósito, Léopold Sédar Senghor [1] falou de uma gigantesca «saída da prisão». Citando a Electra de Jean Giraudoux, o geógrafo Yves Lacoste asseverou que a Bandung «se chama aurora». E foi em relação a este acontecimento que o economista Alfred Sauvy inventou a expressão “Terceiro Mundo” – cuja paternidade é muitas vezes atribuída ao etnólogo Georges Balandier (no caso vertente editor de Sauvy), a quem, segundo me parece, eu já tinha ouvido essa expressão.

Alfred Sauvy, referindo-se ao início da Revolução Francesa e ao famoso texto de Emmanuel Joseph Sieyès («O que é o Terceiro Estado? É tudo. Que foi ele até agora na ordem política? Nada. Que reclama ele? Tornar­& 8209;se alguma coisa» [2]) , designou como Terceiro Mundo o conjunto dos povos da Ásia e de África que, não pertencendo à “nobreza” europeia nem ao “clero” norte-americano, possuíam uma parte imensa dos recursos humanos e materiais do planeta e queriam ver isso reconhecido pelos outros dois “mundos”, o capitalista e o comunista.

Este conceito, grandemente recuperado por algum liberalismo esclarecido, e em todo o caso pelas diversas correntes da social­& 8209;democracia, foi rapidamente denunciado como um subterfúgio, como um conceito elástico, pelos militantes revolucionários de um “afro-asiatismo” que não pretendia situar-se a meio termo entre o capitalismo e o marxismo-leninismo. Pois não eram dissociáveis os dois proletariados, o dos operários e o dos colonizados?


UM «GIGANTESCO ENCONTRO DE ESCUTEIROS» AFRO-ASIÁTICO

De resto, não devemos confundir “terceiro-mundismo”, tal como este emergiu da Conferência de Bandung – ressurreição dos colonizados mobilizados por homens como Chu En­& 8209;Lai [3], primeiro­& 8209;ministro da China comunista – e “não-alinhamento”, estratégia que seis anos depois, em Setembro de 1961, foi objecto, em Belgrado, a convite do marechal Tito, duma conferência que, independentemente da questão colonial, visou coordenar a acção dos diversos Estados [4] alérgicos aos recrutamentos de tipo atlântico ou soviético. A Conferência de Bandung, em que participaram sonoros aliados do Ocidente – sri-lankeses (nessa altura ainda se dizia cingaleses), paquistaneses, turcos, iraquianos – foi uma manifestação do fim da era colonial. A de Belgrado, seis anos depois, constituiu uma apologia do neutralismo, ou melhor, do “não-alinhamento”.

Foi na Primavera de 1954 que os cinco Estados do “Grupo de Colombo” – Índia, Paquistão, Sri Lanka (nesse tempo Ceilão , Birmânia e Indonésia – tomaram a iniciativa da Conferência Asiático­& 8209;Africana (era essa a expressão) na pequena cidade javanesa de Bandung, posta à disposição dos congressistas pelo presidente indonésio Ahmad Sukarno [5]. O sucesso da iniciativa ultrapassou as esperanças dos iniciadores; com efeito, deslocaram­& 8209;se a Bandung, cidade turística de Java, e foram muito bem recebidos pelas autoridades indonésias, cujo acolhimento e organização foram em geral alvo de elogios, mais de mil representantes de vinte e nove Estados e de trinta movimentos de resistência (anticolonial), entre os quais a Frente de Libertação Nacional (FLN) da Argélia, o Neo-Destour da Tunísia e o Istiqlal de Marrocos (estes dois últimos países só em 1956 alcançarão a independência).

E aqueles que começaram por zombar do que diziam ser um «gigantesco encontro de escuteiros» afro­& 8209;asiático leram com surpresa a reportagem do enviado especial do Le Monde, o perspicaz – e moderado – Robert Guillain: «Na Europa e nos Estados Unidos já se diz que esta conferência é a conferência da revolta, revolta asiática e africana, revolta contra os brancos. Na verdade, porém, não penso que ela seja isso. Vista de perto, esta revolta não parece tão feroz como a pintam, mostrando-se estes revoltados mais tranquilos do que se julga. Quererá isso dizer que não devemos levar a Conferência de Bandung a sério? A sério, sim, mas não tragicamente. Esta festa colorida, de pessoas de cor morena, amarela e preta, onde os rostos brancos estão ausentes, é de facto um acontecimento da nossa época... Mas é muito mais uma festa do que uma conspiração. E é preciso dizer, em abono dos seus inventores indonésios, que foi assim que eles a entenderam. Registemos, pelo menos, desde já o seguinte: a conferência afro-asiática garante, pela voz dos seus organizadores, que não pretende ser uma grande reunião racial, uma máquina de guerra contra o Ocidente, mas sim o começo de um bloco contra os brancos» [6].

Falou-se depois de um impressionante desejo, mais de “unidade” do que de “moderação”, e a breve trecho de uma espécie de Sociedade das Nações afro-asiática. Sonhariam aqueles “condenados da terra” mais com o paraíso do que com a vingança? Ao longo daqueles sete dias de concertações, foi esse o leitmotiv de quase todos os correspondentes.

Não porque os convidados de Ahmad Sukarno, entre os quais Jawaharlal Nehru, o prestigiado primeiro­& 8209;ministro da Índia, fossem todos eles adeptos de uma serena neutralidade. Vendo bem, a segunda personalidade dominante na conferência era o primeiro-ministro da Revolução Chinesa, que ainda não se dizia cultural e ainda não se distanciara (pelo menos publicamente) de Moscovo e dos pós­& 8209;estalinistas, mas que só havia dois anos tinha acabado com a Guerra da Coreia e, contra Washington, apoiava corajosamente o Vietname do Norte, representado em Bandung por Pham Van Dong. Ao lado de Chu En-Lai surgiu, em plena viragem para a esquerda, o egípcio Gamal Abdel Nasser, a quem se juntou Hocine Aít Ahmed, um dos líderes históricos da insurreição argelina iniciada a 1 de Novembro de 1954.

Em face destes, o partido “pró-americano” estava ruidosamente representado pelos turcos, pelos iraquianos do Pacto de Bagdade [7], pelos paquistaneses e cingaleses, que nos primeiros dias tentarão denunciar toda e qualquer forma de influência marxista de um lado e do outro do canal de Suez. Um dos raros incidentes desta pacífica conferência foi aliás provocado por uma tentativa de denúncia do colonialismo soviético. Mas em geral a atmosfera manteve­& 8209;se calma, recusando-se os porta-vozes dos grandes Estados (para grande decepção de alguns magrebinos, como o tunisino Salah Ben Youssefi a transformar a conferência num tribunal onde devia comparecer a França africana, então menos bem protegida contra as campanhas anticolonialistas do que a sua rival britânica.

Nehru, de início, foi visto como o pai ou inventor da conferência, tendo sido considerado, não só pelos seus amigos britânicos mas também pelos Estados Unidos e pela França, como o garante duma relativa moderação, evitando os excessos de fúria e as mais violentas acusações anticolonialistas. Mas a breve trecho o papel dominante foi confiscado por Chu En-Lai, que se impôs como figura central (e moderador) da conferência. Tal como dez meses antes quando, na conferência indochinesa em Genebra, o primeiro-ministro chinês agira como um grande diplomata moderador, perito no compromisso e pródigo em sorrisos.

Notaram-no todos quantos testemunharam os trabalhos de Bandung: o mais próximo companheiro de Mao impôs­& 8209;se logo de início como mestre-de-cerimónias, servindo de modelo e lançando ideias, as quais, com uma ou duas excepções, poderiam resumir-se no seguinte princípio: a ideologia não deveria inspirar as iniciativas daquele congresso multiforme e pluri­& 8209;étnico, visando apenas dissolver o colonialismo num imenso banho de paz.

Um incidente, todavia, marcou essa sinfonia consensual, que não foi perturbada pelos requisitórios anticolonialistas dos magrebinos nem pela acusação bastante retórica de Israel pelo coronel Nasser e seus colegas sírios e libaneses. Esse incidente foi provocado pelo “partido americano” – na ocorrência, o primeiro­& 8209;ministro cingalês, Sir John Kowetawala –, que apelou com veemência ao congresso que não deixasse monopolizar­& 8209;se pela denúncia exclusiva do velho colonialismo de tipo franco­& 8209;britânico e que se mobilizasse, com a mesma energia, contra o novo colonialismo, que a União Soviética teria imposto à Europa oriental...

Essa intervenção provocou um brado quase geral de indignação... Vários delegados, entre os quais três porta­& 8209;vozes do mundo árabe, declararam que se tratava duma provocação, que a conferência não se tinha reunido para «ouvir a propaganda de John Foster Dulles» (o secretário de Estado americano, que já então falava da “luta do Bem contra o Mal”), e que além disso, tratando-se duma conferência afro-asiática, «a acusação era deslocada». Sir John limitou­& 8209;se a registar o protesto, mas sem ignorar, sem dúvida, que aquela altercação lhe iria ser creditada em felicitações e créditos noutras paragens...

Chu En-Lai fez coro, naturalmente, com os que denunciaram o “deslize” do representante cingalês, mas quando a sessão foi suspensa entrou em concertações com Sir John Kowetawala, o qual, com certa satisfação, contou depois que o diplomata chinês lhe dera a entender que «havia coisas interessantes na sua intervenção...». O mestre da diplomacia chinesa não se limitou a preparar o terreno com vista ao desenvolvimento da estratégia anti­& 8209;soviética, cuja configuração pública surgirá dez anos mais tarde, tendo também encetado, com os Estados Unidos em mente, a propósito da Formosa (actual Taiwan), uma manobra prenunciando a que mais tarde se corporizou com Henry Kissinger a propósito do Vietname, no início da década de 1970 – manobra essa que adquiriu ainda mais relevo por ter sido efectuada no quarto dia, quando a conferência parecia estar a perder fôlego.

Chu En-Lai reanimou o encontro dando a entender que a questão de Taiwan podia ser resolvida pacificamente, em particular através da neutralização da zona, onde aliás estava programada a evacuação pelas forças norte­& 8209;americanas dos ilhéus de Quemoy e Matsu. No caso de Washington não se obstinar a apoiar pessoalmente Chang Kai-Chek [8], poderia ser encarada uma solução pacífica do problema relativo àquela grande ilha.

A sugestão fez passar pelo auditório, despertado pelo diplomata chinês, uma inspiração muito estimulante, vindo depois a ser favoravelmente comentada em Londres e Paris, mas os seus destinatários ignoraram­& 8209;na pura e simplesmente. Os serviços de John Foster Dulles limitaram-se a encarar essa ideia como uma armadilha. E talvez fosse verdade. Mas ao verem apenas garras nas mãos estendidas, os estrategos americanos estavam a preparar um amargo futuro.

Entretanto, os factos eram claros: ouvido ou não por Washington, o chefe da diplomacia chinesa impôs­& 8209;se como o mestre daquela conferência, que congregou os representantes de quase dois terços da humanidade. Pela boa vontade que manifestou, bem como pelas diligências oficiais que empreendeu, pela moderação formal e pelo manejo da linguagem da paz, o companheiro de Mao Zedong abriu uma estrada larga à diplomacia chinesa, sem se comprometer demasiado no apoio ao Vietname do Norte, que um ano após a partilha de Genebra ainda não iniciara a sua grande operação de recuperação do Sul, operação essa que o representante chinês não desejava que fosse levada a cabo muito depressa... Como François Mauriac no respeitante à Alemanha, Chu En­& 8209;Lai gostava tanto do Vietname que preferia que houvesse dois...

Ao lermos hoje os relatórios da Conferência de Bandung, é espantosa a imprecisão – para não dizer o carácter oco – das conversações que neles se encontram documentadas. Tão espantosa, aliás, como a sua moderação. Quem mais tarde tenha lido as reportagens sobre os debates da Tricontinental [9] não poderá deixar de as comparar às relativas a Bandung, notando que os descolonizados e demais “dominados” tinham entretanto forjado um mais veemente militantismo. Os historiadores poderão estabelecer paralelos entre, por um lado, a mudança de tom das Assembleias Constituintes de 1791 e das Convenções de 1794, e, por outro lado, a dinamização das declarações registada entre 1955 e 1965...

Ausente de Bandung porque a minha profissão de correspondente então me retinha no Cairo, não posso exprimir­& 8209;me na qualidade de testemunha dessa imensa “Convenção” dos povos colonizados (convém não esquecer que dez anos antes a Índia ainda era uma colónia de Sua Majestade Britânica e que a Revolução Chinesa só tinha saído vitoriosa em 1949, menos de seis anos antes...). Para não falarmos do Vietname ainda dividido, da Coreia ainda fumegante, da Indonésia submetida a um regime autoritário, da pobre Birmânia...

É-me todavia possível dar da Conferência de Bandung um eco mais exaltante. Por volta de 15 de Abril, no Cairo, vi partir para a Indonésia um Gamal Abdel Nasser pouco apoiado, muito tenso, inquieto com a pressão reinante na fronteira com Israel, preocupado com a perspectiva de ter de deixar de fazer as suas aquisições de armas (ainda muito modestas) a fornecedores ocidentais, passando a fazê-las aos seus homólogos do Leste, com o risco de provocar represálias de Washington. É verdade que a esquerda egípcia, até então bastante reservada a respeito de Nasser – com algumas excepções –, tinha começado a organizar “comités Bandung”, em particular nas universidades. Mas viu-se desde logo mal recompensada, visto a partida do primeiro­& 8209;ministro egípcio para a Ásia ter ocorrido na mesma altura em que vários dirigentes marxistas foram presos, como que para mostrar ao Ocidente que aquela viagem ao Extremo Oriente não tinha significado ideológico.

Dez dias depois, como a imprensa egípcia, e mais ainda a internacional, sem cessar sublinhara o papel desempenhado por Nasser em Bandung – por motivos mais aferentes às atenções de que ele fora objecto, chegando a aparecer, depois de Chu En-Lai e Nehru, como o “terceiro grande” do concílio, do que às suas breves intervenções –, o líder egípcio teve no Cairo um acolhimento tanto mais triunfal quanto contrastou com a discrição da sua partida.

Vi muitas vezes as ruas do Cairo inflamarem-se, na época em que a palavra de ordem nasseriana, «Deixa de baixar a cabeça, meu irmão, os tempos da humilhação já lá vão», aparecia em imensas bandeirolas empunhadas pela multidão. Foi então, nos últimos dias de Abril de 1955, que a capital egípcia mergulhou num transe prolongado, culminando com o funeral do Raís, quinze anos mais tarde.


A «AURORA» DOS POVOS SUBJUGADOS

Aquela reviravolta, que de início foi mais passional do que ideológica, adquiriu todo o seu sentido quando se ficou a saber que os dirigentes da esquerda militante, da prisão para onde Nasser os tinha arrojado, lhe enviavam uma mensagem de felicitações – que a imprensa oficial, apesar de não estar nada interessada em dar­& 8209;lhes notoriedade, publicou... Caso realmente raro de uma homenagem ao carcereiro vinda das prisões!

Foi também a época em que no seio dos “comités Bandung” se relacionaram dois jovens militantes marxistas, Baghat Elnadi e Adel Rifrat, que alguns anos depois publicarão A luta de classes no Egipto [10], livro assinado com o nome comum de “Mahmoud Hussein”, que se tornou familiar a todos quantos se interessam pela história social e cultural do Oriente árabe.

Apesar da fraqueza do seu conteúdo ideológico ou mesmo estratégico, a Conferência de Bandung foi efectivamente uma «aurora» para os povos subjugados. Terá ela sido um momento de história mais do que um produtor de história? É certo que aqueles sete dias de conversações, debates e diligências foram mais ricos em efervescência do que em ideias e projectos concretos. Mas a verdade é que a relação de forças internacional se tinha alterado: respostas tortas aos Estados Unidos, rejeição em segredo de Moscovo, duros pleitos contra o sistema colonial francês, vigorosa emergência da China... O pós-Bandung não correspondeu às expectativas dos revolucionários do Terceiro Mundo, mas o Terceiro Mundo passou a ter existência já não apenas como carne para exploração e como fornecedor de matérias-primas...

Associado ao grande cerimonial de Bandung, o conceito de Terceiro Mundo perdeu sem dúvida, desde há meio século, muito do seu brilho. Um dos melhores espíritos dessa geração (a nossa...), que viveu esses momentos com uma espécie de exaltação, Paul-Marie de La Gorce, recentemente falecido, fez há já vinte anos um balanço melancólico do acontecimento: «Perderam-se muitas esperanças, desvaneceram-se muitas ilusões, muitos vaticínios foram desmentidos pela história. A moda, como sempre excessiva, é agora o desencanto e o cepticismo; o Terceiro Mundo não terá resolvido nenhum dos seus problemas, nem a fome, nem o subdesenvolvimento, nem a desunião; as experiências socialistas transformaram­& 8209;se ali em ditaduras tropicais e as experiências capitalistas em corrupção cosmopolita. Em todo o caso, nele não terá nascido nenhum “centro de poder”, nenhum “pólo” internacional. É extraordinário que em França tenha tido sucesso o livro de Pascal Brückner intitulado O lamento do homem branco, em que o azedume, a acrimónia e o rancor transbordam, em que todo o anticolonialismo, todo o esforço para compreender o Terceiro Mundo ou lutar contra o subdesenvolvimento, parece estar assimilado a um sentimento de culpa, ao ódio do autor a si mesmo, e ao masoquismo» [11].

Quer levemos ou não a sério a sentimentalidade (a palavra parece aqui arriscada ... ) de alguns intelectuais do universo parisiense, o certo é que de Bandung à Guerra do Iraque, passando pelas eliminações de Che Guevara e de Mehdi Ben Barka, pela derrota do nasserismo, pela esterilização da vitória vietnamita e pelo horror dos Khmers Vermelhos, aquilo a que chamávamos Terceiro Mundo perdeu muito do seu valor moral, bem como das suas virtudes estratégicas.

O desmembramento do campo socialista e a grande querela sino­& 8209;soviética muito contribuíram para isso, mas também as medíocres manhas do neocolonialismo francês em África e, mais ainda, o surgimento do fundamentalismo dos ayatollahs e do seu avatar terrorista, que entre outras coisas arruinaram a Revolução Argelina. E convém aqui denunciar o modo como as elites locais se encerram em negociatas, numa burocracia satisfeita e na obsessão policial.

Não passará Bandung duma ilusão que se terá perdido na memória dos homens? A tomada da Bastilha começou por engendrar o Império, a Restauração, a Guerra. E por fim a República. O sistema de Bush está feito para suscitar, mais tarde ou mais cedo, outras Bandung...

[Ler também As etapas da liberdade]

______

* Jornalista, escritor e historiador. Autor, entre outras obras, de Gamal Abdel Nasser, Bayard/BNF, Paris, 2005.


[1] Léopold Sédar Senghor (1906-2001), estadista e escritor senegalês.

[2] Emmanuel Joseph Sieyès (1748-1863), Qu’est-ce que le tiers état?, brochura editada em Paris em Janeiro de 1789.

[3] Mantemos aqui a transcrição latina que então vigorava, mas nos documentos recentes o nome do antigo primeiro-ministro e ministro dos Negócios Estrangeiros da China Popular passou a ser transcrito da seguinte maneira: Zhu En-Lai.

[4] Em Belgrado, um primeiro país da América Latina, Cuba (onde a revolução vencera, em Janeiro de 1959), juntou­& 8209;se aos Estados “não alinhados” de África e da Ásia.

[5] Ler, de Sukamo, “Les objectifs de la conférence de Bandung”, discurso de abertura da conferência, Le Monde diplomatique, Maio de 1955.

[6] Le Monde, 27 de Abril de 1955.

[7] O Pacto de Bagdade, tratado de defesa mútua assinado a 24 de Fevereiro de 1955 entre o Iraque e a Turquia, a que se juntaram o Reino Unido, o Paquistão e o Irão, sob a égide dos Estados Unidos, teve como objectivo conter os movimentos nacionalistas e a influência soviética na região.

[8] Chang Kai-Chek (1887-1975), general e presidente da República da China. Vitorioso contra os japoneses, foi derrotado pelos comunistas, dirigidos por Mao Zedong, refugiando-se com o seu exército na ilha de Taiwan, protectorado dos Estados Unidos.

[9] Conferência convocada para Havana, em Janeiro de 1966, de que resultou a criação da Organização de Solidariedade dos Povos de África, Ásia e América Latina (OSPAAAL) e da Organização Latino­& 8209;Americana de Solidariedade (OLAS).

[10] Edição francesa da Maspéro, Paris, 1969.

[11] “Le recul des grandes aspirations révolutionnaires”, Le Monde diplomatique, Maio de 1984.


***


Obs.: Convencionou-se chamar de 'Geração Bandung' a leva de líderes esquerdistas terceiro-mundistas, que, depois da famosa reunião na ilha de Java, em 1955, até hoje conseguiram realizar uma só coisa: tornar o Terceiro Mundo o Quinto dos Infernos. A Geração Bandung eterniza-se nas atuais refundações comunistas, como o Fórum Social Mundial, de Porto Alegre, em que os parasitas esquerdosos, que estão entre os mais globalizados do planeta, se reúnem para gritar slogans contra a globalização. Claro: eles são apenas contra a globalização da economia de mercado (capitalismo), não contra a globalização do socialismo. Globobões de todo o globo, uni-vos! (F.Maier)



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