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Ensaios-->Memorial do Comunismo: Hospedaria dos subversivos -- 01/08/2007 - 13:46 (Félix Maier) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
Hospedaria dos subversivos

Jornal do Brasil - 18/04/2001

Na então capital da República, a partir de 1910, aquele edifício de estilo eclético francês, a contrastar com os modestos sobrados dos arredores, destacou-se na esquina da Rua da Relação com a dos Inválidos como centro nacional da repressão aos movimentos de contestação. Metia medo. Dele se contariam histórias de arrepiar. Depois de um período de abandono, já tombado pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultural, ressurgiu ontem dentre os prédios mortos para uma existência dignificante: a ex-sede da Polícia Central passou a abrigar o Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro, que andava errante, sem-teto. Ali vai ser guardado com zelo e em segurança acervo de importância histórica ameaçado de extinção. Desfaz-se a sua catadura de casarão mal-assombrado, onde ecoaram os gritos e gemidos daqueles que a ordem vigente tratava como perigosos subversivos – e alguns o eram de fato, porque essa ordem representava o disfarce da injustiça social. Para lá me levaram algumas vezes quando jovem e mesmo já maduro. Lá voltei, na manhã de ontem, para a emocionante cerimônia de sua transfiguração. Aqui, dou meu testemunho como antigo usuário da casa.

Minhas incursões - à força - no prédio da Polícia Central começaram ao terminar eu o primeiro ano do curso de Direito, com 18 anos incompletos. Já era para mim uma recordação distante quando um dia, passados os 80 anos, fui procurar o Arquivo Público para uma pesquisa. Tinha conhecido a repartição ainda em sua sede em Niterói, onde requeri cópia do meu prontuário policial, o chamado habeas data. Ele me veio tão alentado, tão rico em notícias de participação em movimentos progressistas, tidos no passado como subversivos, que um político mais moço, a quem o mostrei, comentou comigo: Mas isto não é um prontuário, é um currículo!

Na minha procura do Arquivo, acabei descobrindo que ele estava alojado, quase de favor, num antigo prédio do metrô, na Praia de Botafogo, 480, exposto às intempéries, ao fogo e às inundações, à maresia e aos cupins. Perguntei pela autoridades responsável e me levaram a Dona Jessi . Era minha conhecida só de fama: a Jessi Jane Vieira de Souza, que, com o seu companheiro Colombo, tinha seqüestrado cerca de 30 anos antes um Caravelle da Cruzeiro do Sul que fazia a linha Rio-Buenos Aires. Foi na época um escândalo nunca visto. Jessi Jane, depois de cruelmente torturada e de nove anos passados no presídio de Bangu, ao sair da prisão continuou o seu curso de História, tornou-se doutora e professora, e acabou nomeada para zelar, no Arquivo Público, pelas fichas que tinha ajudado a acumular aos 20 anos. Era uma biografia extraordinária.

Fui atendido no que pretendia, mas o que passou a me interessar, mesmo, foi o destino ameaçado daquele Arquivo errante, expulso havia pouco da sede da Cedae, na Rua do Riachuelo, onde era um trambolho a prejudicar uma projetada privatização. Daí escrevi no JB um artigo (Arquivo ameaçado, 6/3/99) e o jornal publicou uma reportagem de primeira página no Caderno B (Memória abandonada, 16/3/99). Eu concluía: Sou portador de uma sugestão de anistiados para o governador Anthony Garotinho. O Arquivo poderia ser instalado - em definitivo - no antigo prédio da Policia Central, tombado, na Rua da Relação, esquina dos Inválidos, porque ali teve sede o DPSP, cujos fichários e prontuários formam parte substancial do acervo ora em perigo. E isso se torna mais indicado quando se aproxima o vigésimo aniversário da Lei de Anistia.

Hoje posso confessar que a idéia não era dos anistiados , em geral, mas da própria Jessi, que não queria aparecer temendo que a sua autoria viesse a criar problemas. Deu certo. Mas ninguém pense que a vitória caiu do céu. Foi uma luta brava, em que Jessi Jane soube conquistar aliados. Sem nenhum resquício de revanchismo. A ex-presa política tinha uma visão mais ampla da importância nacional e cultural daquela obra de resgate.

O prédio da Rua do Riachuelo foi tombado em 1994, por ato do então governador Nilo Batista, mas permaneceu sob a responsabilidade da Polícia Civil, que a princípio não queria por nada abrir mão dele. Alegava-se que era um monumento consagrado à segurança pública; que a repressão teria sido apenas uma etapa em sua história, no Estado Novo. Na verdade a função repressora era fundamental e vinha da República Velha, quando, antes dos comunistas, eram os anarquistas os demônios a exorcizar. Depois vieram os revolucionários da década de 20, que ali sofreram atos de violência. Um desses, Conrado Niemeyer, sobrinho do construtor da avenida que tomou o seu nome: em 1935, foi jogado de uma janela que dava para a Rua da Relação, e disseram que era suicídio.

O pior viria depois da Intentona Comunista, ainda antes da proclamação do Estado Novo. As celas do prédio se encheram, as torturas conheceram um auge jamais visto de crueldade. Um companheiro de Luis Carlos Prestes (preso no quartel da Polícia Especial e depois no presídio da Frei Caneca) foi o americano Victor Allan Baron, atirado do terceiro andar para o pátio central. Depois de proclamada a ditadura em novembro de 1937, as violências e torturas continuaram, sob a chefia de Felinto Müller e auxiliares como Serafim Braga e Cecil Borer, para só citar esses, mais notórios. A prática iria prosseguir, criando uma cultura da brutalidade ainda vigente, como mostrou o relatório da ONU divulgado neste jornal.

Na solenidade de ontem, em que se formalizou a entrega do prédio ao Arquivo Público do Rio de Janeiro, a decisão do governador Anthony Garotinho foi justamente elogiada. Falou-se também em segurança pública, mas essa função da Polícia Civil será exercida em outro local mais adequado. Aquele ali fica definitivamente destinado à sede do Arquivo, com uma finalidade específica, humanista, educativa, cultural.

Seria longo demais, e não cabe aqui, o meu relato sobre a vivência que me coube naquele edifício histórico. Falei detalhadamente a respeito num livro recente, Europa 1935 - Uma aventura de juventude. O meu testemunho pessoal se faz solicitado pelo simples fato de que sou dos mais antigos freqüentadores involuntários da Rua da Relação. Mas vale a pena repetir aqui que a minha estréia como jornalista, em outubro de 1934, culminou naquele prédio. Eu fazia para o efêmero Jornal do Povo, de Aparício Torelli, Barão de Itararé, a cobertura de uma reunião sindical que foi interrompida a bala pela polícia e todos os participantes, eu inclusive, levados presos, debaixo de pancada num corredor polonês , por brutamontes da Polícia Especial, e amontoados por três dias numa cela. Ali me ficharam. E o que, para os guardiães da ordem, deveria constituir uma negra mácula, ficou sendo para mim um motivo de orgulho. Faz bem ao espírito lembrar momentos de luta em que nos engajamos com ânimo juvenil, tentando ajudar a construir um Brasil melhor, um mundo melhor.


História arquivada da repressão

Construída em 1910, antiga sede do Dops, na Rua da Relação, será reformada para dar lugar ao Arquivo Público

MARIA HELENA MALTA

Nada como a democracia. Noventa anos após a inauguração, em novembro de 1910, o velho prédio da Repartição Central de Polícia, na Rua da Relação 40 - o mesmo que seria temido, no regime militar, como Departamento de Ordem Política e Social (Dops) - serviu de cenário, na manhã de ontem, para um encontro antes inimaginável: de um lado, o secretário estadual de Segurança Pública, Josias Quintal, apontado como ex-analista de informações nos anos 70; do outro, a historiadora Jessie Jane Vieira de Sousa, ex-presa política e atual diretora do Arquivo Público do Rio de Janeiro. Os dois discursaram, sorriram educadamente e posaram para fotos - tudo pela bela construção em estilo eclético francês, que, por decisão do governador Anthony Garotinho, saiu das mãos da polícia para sediar o Arquivo, até ontem precariamente instalado numa antiga garagem de bondes dos anos 20, na Praia de Botafogo. Estão me pedindo para não chorar, mas é impossível. Quem me conhece sabe que eu choro na hora certa e deixo de chorar quando é necessário , desabafou Jessie, em seu discurso, tentando conter a emoção. Ela já havia enxugado duas lágrimas quando tocaram O bêbado e a equilibrista (João Bôsco-Aldir Blanc) e ainda chorava durante o discurso de Fernando Peregrino, coordenador de Desenvolvimento Humano do estado, que em 93 conseguira o primeiro apoio financeiro - cerca de R$ 100 mil em valores atuais - para pesquisadores do arquivo.

Abandono - E não por acaso. O abandono oficial, além de ratos e baratas, ameaçava a preciosa coleção do Arquivo Público - cerca de três quilômetros quadrados de informação histórica, que guardam toda a documentação das polícias políticas, de 1920 a 1982 - inclusive papéis da Casa de Detenção do ainda Distrito Federal, onde estiveram presos, nos anos 30, Olga e Luiz Carlos Prestes -, além de prontuários de ex-presidentes como João Goulart e documentos da Operação Condor - a união de esforços das ditaduras sul-americanas, nos anos 70, contra qualquer oposição. Agora, paralelamente à instalação do arquivo, o prédio passará por cerca de dois anos de obras de recuperação - orçadas em R$ 5 milhões - e deverá incluir um teatro e um museu. Foram dois anos de briga , desabafou Jessie. Seu sonho, afinal, começava a assumir os primeiros contornos: o prédio da Relação deixava de ser um símbolo da tortura - ali praticada no Estado Novo, a ditadura getulista que foi de 1937 a 1945 - para ser da cultura. Ainda bem.

Policiais protestam

Num impecável terno caramelo, o secretário de Segurança, Josias Quintal, fez um longo discurso sobre o prédio da Rua da Relação 40, citando presidentes da República, como Afonso Pena - que já ressaltava a segurança pública - e lembrou Juscelino Kubitschek, em 1960 - que tranferiu a capital para Brasília, mas manteve a centralização das informações, por uns tempos no Estado da Guanabara.

Josias Quintal só não entrou em detalhes nos anos 70, época em que, segundo Cecília Coimbra, do Tortura Nunca Mais, dedicou-se à área de informações. Ele já assumiu isso e até disse que tinha saudades , acusou Cecília, no meio da festa.

Josias, na verdade, enfrentava outro problema - a irritação de seus próprios colegas, que vinham reivindicando o prédio da Relação para sediar o Museu da Polícia Civil e, ontem à tarde, abriram uma faixa de protesto na porta da nova sede do Arquivo. Para o delegado aposentado Wladimir Reale, 61 anos e atual presidente da Associação dos Delegados de Polícia, o temor da corporação é que o arquivo tenha uma visão unilateral . A questão da anistia teve dois lados. Afinal, também houve os que tombaram do lado de cá. (M.H.M.)

Festa reúne ex-presos políticos

Examinando os velhos vitrais e as sacadas desbotadas pelo tempo, no velho prédio do Departamento de Ordem Política e Social (Dops), o advogado Modesto da Silveira, um defensor de presos políticos, hoje com 74 anos, percebeu que perdera a conta dos clientes que passaram pela Rua da Relação. Depois de 1935 (ano da Intentona Comunista, movimento que deu a Getúlio o pretexto para o Estado Novo), dureza semelhante só no período 64-85. Mas, aí, o centro do terror já havia passado para a área do Exército e da Marinha , recordou o advogado, lembrando, também, a vez em que saiu correndo, nos anos 60, para defender 91 camponeses e um padre holandês, que ali sofriam no pau-de-arara, em rodízio .

Perto de Modesto, na festa do Arquivo Público, o médico Luiz Roberto Tenório, gerente do Programa de Saúde do Trabalho do município, contabilizava nada menos de oito passagens pelo Dops carioca, todas relacionadas com o movimento estudantil dos anos 60. Numa delas, em 1966, quando se dirigia a um congresso em Belo Horizonte, foi preso no trem, pelo temido inspetor Mário Borges, que batia ponto na Rua da Relação. Já em 1969, poucos meses após o endurecimento do Ato Institucional n° 5, Tenório saiu de lá direto para a 3ª Zona Aérea e, depois, para o DOI-Codi da Rua Barão de Mesquita, onde foi torturado.

No velho prédio da Relação, a tortura freqüente nos anos 30 passou a ser rara, pelo menos a partir do fim dos 60. Durante o regime militar, o edifício funcionava como prisão - o presídio feminino São Judas Tadeu ficava no térreo - ou simplesmente como passagem para locais mais temidos.

Cecília Coimbra, do grupo Tortura Nunca Mais, lembrou, emocionada, dos três dias que passou numa cela grande do prédio, em 1970, antes de seguir para o DOI-Codi, acusada de ter dado infra-estrutura ao pessoal que seqüestrara o embaixador americano Charles Burke Elbrick.

Outro que teve ali uma estação de passagem foi o médico Almir Dutton, agora com 67 anos e autor, em 1970, de uma plástica clandestina para modificar as feições de Carlos Lamarca - o guerrilheiro mais procurado na época. Pela façanha, Dutton foi parar no DOI-Codi.

Como o médico, a advogada Dalva Bonet - hoje com 54 anos e também emocionada na festa de ontem - recordava suas duas estadias no Presídio São Judas Tadeu, bem ali no térreo. Na segunda, em 1972, ela conta que o diretor da penitenciária da Relação salvou-lhe a vida. O seu Osvaldo Mendonça, que era um bom sujeito, ficou com medo de que me matassem no DOI, e permitiu que eu ligasse daqui para a minha família. Foi assim que saiu alguma coisa nos jornais e tudo isso me salvou a vida , revelou.

Quando Dalva chegou ao temido DOI-Codi, um de seus carrascos insistiu em interrogá-la sobre quem teria sido o corrupto do Dops que deixara a moça telefonar.

O cineasta Sílvio Tendler - que fez questão de levar seu abraço, ontem, a Jessie Jane - só teve que passar por ali em 1970, para liberar o passaporte que o levou ao Chile e, depois, à França, para os seis anos de exílio. Já o deputado Chico Alencar (PT), presidente da Comissão de Direitos Humanos da Assembléia Legislativa e hoje com 51 anos, era fichado como esquerdista desde os 23, quando prestou concurso para professor do estado. Para ser contratado, teve que fazer uma visitinha ao temido inspetor Mário Borges, na sede do DOPS. Do contrário, perderia o emprego , contou.


Um mundo medíocre

MARIA HELENA MALTA

Foram duas prisões de, ao todo, 15 dias. Em 1968, após o 30° Congresso da UNE, em Ibiúna (SP); e em 1975, já como jornalista, por conta de uma prisão preventiva dos tempos de estudante. Nas duas ocasiões em que ocupei uma das celas do Presídio São Judas Tadeu, no térreo do prédio do DOPS, descobri não apenas o medo das madrugadas - o terror de sair encapuzada para o desconhecido e, quem sabe, para a tortura -, mas um pequeno mundo medíocre e desesperançado, que reproduzia a desigualdade social de fora. Presas comuns eram pessoas simples, quase sempre pobres e esquecidas. Havia uma enfermeira que estava ali há tempos, pelo simples crime de instrumentar um aborto - coisa já comum, nas clínicas de luxo de Botafogo - e uma mulher que acabou se esfaqueando, na tentativa de sair para um hospital e rever a luz. Quando chegou o alvará de soltura, senti uma grande alegria. Mas o ruído da chave na porta de ferro alojou-se, para sempre, no fundo da memória.

(JB, 18/4/2001)


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