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Ensaios-->Meira Penna, o Barão de Castália -- 23/05/2007 - 15:52 (Félix Maier) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
Meira Penna, pensador notável em dose dupla

por Ipojuca Pontes (*) em 08 de dezembro de 2002

Resumo: Dois lançamentos, ‘Da Moral em Economia’ e ‘Quando Mudam as Capitais’, comprovam que o embaixador está entre os nossos intelectuais mais atuantes e vigorosos e enfrenta os mais diversos temas e gêneros literários desde os primórdios da carreira, iniciada nos anos 40.

© 2002 MidiaSemMascara.org


Dois lançamentos, ‘Da Moral em Economia’ e ‘Quando Mudam as Capitais’, comprovam que o embaixador está entre os nossos intelectuais mais atuantes e vigorosos e enfrenta os mais diversos temas e gêneros literários desde os primórdios da carreira, iniciada nos anos 40

O Estado de São Paulo, 1 de janeiro de 2003


Diante do lançamento dos substanciosos ensaios Da Moral em Economia (UniverCidade Editora) - de abordagem crítica e analítica - e Quando Mudam as Capitais (Biblioteca Básica Brasileira, Sen. Federal) - este, de natureza histórico comparativo -, o embaixador J.O. de Meira Penna inscreve-se, desde já, não obstante os seus 85 anos bem vividos, entre os nossos intelectuais mais atuantes e vigorosos, autor de vasta obra cuja importância e amplitude de abordagem só faz crescer a cada livro lançado - algo em torno de 20 títulos -, iniciada de forma brilhante nos primórdios dos anos 40 com a publicação de Shangai - Aspectos Históricos da China Moderna.

De lá para cá, ao longo dos anos, enfrentando os mais diversos temas e gêneros literários, que vão da visão do corrosivo humano nos domínios da ficção científica (Urânia, São Paulo, 2001) aos ensaios de psicologia social (Em Berço Esplêndido, Topbooks, Rio, 1999, e Psicologia do Subdesenvolvimento, Apec, Rio, 1972) e análises econômica e política (Opção Preferencial pela Riqueza, Instituto Liberal, Rio, 1991, e O Espírito das Revoluções, Faculdade da Cidade Editora, Rio, 1997), o professor Meira Penna vem construindo densa reflexão voltada para as questões nacionais e as visíveis dificuldades que o País encontra em consolidar uma democracia moldada no entendimento e na prática do pensamento liberal (clássico ou moderno) - um esforço no mínimo ciclópico de pesquisa e apreensão crítica da realidade que nem mesmo a obtusa cortina de silêncio imposta por seus adversários consegue abalar.

Em Da Moral em Economia, o autor, fazendo uso eficaz de métodos quantitativos e comparativos, procura responder a pertinente pergunta de se saber se, como ele próprio estabelece, existe uma ética no sistema capitalista de mercado e qual a relação entre os conceitos de eficiência, moralidade e justiça na economia livre e natural, em comparação, por exemplo, com esses mesmos conceitos num regime socialista untado no dirigismo econômico e na prestidigitação da engenharia social. No livro que já nasce clássico, o autor evolui a resposta com agilidade e clareza ao longo de oito capítulos e nos remete, de início, aos primórdios da condição humana, na senda do pecado original, em que observa, como dado fundamental, a ambigüidade do comportamento humano, a um tempo, egoísta, altruísta e racional. Mas, contrariamente à moralidade explorada pelos iluministas e românticos, ele compreende o egoísmo como uma força prodigiosamente construtiva, capaz de levar o ser humano, paradoxalmente, à criatividade, ao dispêndio do esforço acima das convenções e, por conseqüência, à convivência solidária com o próximo. Tirar, trocar e doar são os três tipos básicos de atitudes do homem em face dos seus semelhantes. Na visão de Meira Penna, os instintos fundamentais (e primitivos) de agressão, conservação e domínio interagem de forma dialética com os de simpatia, amor e o desejo de reprodução. Essas duas tendências comportamentais, conciliadas pelos dons da racionalidade, comporiam o princípio que preside a lógica do mercado e cria, pela ação da mão invisível apontada pelo pioneiro Adam Smith, a Ordem Espontânea sugerida pelo Prêmio Nobel (1974) Friedrich Hayek.

Liberal convicto, na melhor linhagem de um Locke, Hume, Smith ou De Mises, o autor compreende e aceita que o Homo Sapiens, a despeito dos interesses egoístas, ou justamente por causa deles, tem revelado suficiente inteligência para descobrir as vantagens do coexistir pacífico com o próximo e, no jogo da competitividade, dentro do respeito às leis, enfrentar a escassez e a incerteza. De forma corajosa Meira Penna admite 'que, em seu próprio nível, o sistema de mercado é indiferente e nada tem a ver com a moralidade, salvo no que diz respeito às necessárias virtudes de prudência, trabalho, parcimônia e honestidade nas transações, com respeito ao princípio legal de que os contratos têm de ser respeitados'. Reconhecendo, no entanto, que os 'vícios privados', numa perspectiva liberal de respeito ao direito de propriedade termina por gerar 'benefícios públicos', Meira Penna realça o valor de um sistema que abriu 'para a humanidade em 200 anos um período absolutamente inédito de desenvolvimento e prosperidade, que deu margem ao aparecimento de gigantesco progresso econômico e permitiu, nos países avançados e democráticos, graças à atmosfera de geral confiança, a supressão prática da miséria'.

Mas o estudo nos revela gratas surpresas. No seu capítulo sexto, aparentemente fugindo do tema central proposto, o autor envereda pelo terreno da psicologia social e, com agudo senso de humor, trata do caráter nacional dos povos, que, no seu entender, comportariam quatro tipos principais: 'Em primeiro lugar, o padrão ideal que, a meu ver, é o da Inglaterra, onde tudo é permitido, salvo aquilo que é proibido. A Suíça oferece o segundo modelo, menos perfeito, o domínio do verboten, onde tudo é proibido, menos aquilo que é especificamente permitido (gestatten). O terceiro tipo é o dos países totalitários, de autoridade atrabiliária, em que tudo é proibido, mesmo aquilo que é permitido (como é o caso de Cuba e da antiga República Federal Alemã). Os países como o nosso, anárquicos, antinômicos, carnavalescos, pertencem à quarta categoria onde tudo é permitido, mesmo aquilo que é proibido.'

Da Moral em Economia é o livro correto lançado no momento certo. Hoje, na medida em que nos defrontamos com um governo que pretende enfrentar uma formidável gama de problemas tendo como projeto básico a ampliação dos poderes do Estado em detrimento do indivíduo, e em que a própria sociedade é intimada a acreditar nos dotes mágicos da hidra, o livro de Meira Penna funciona como uma sonora advertência. Ele não apenas desacredita na ação intervencionista do governo, como chama a atenção para o fato de que as sociedade mais prósperas (e livres) são justamente aquelas que respeitam as liberdades individuais, estimulam (ou não atrapalham) a ação e a eficiência da livre empresa, limitam as benesses conferidas às corporações e entidades e, sobretudo, tosam a voracidade de burocracia, que, voltada para si, tem como objetivo permanente, a pretexto de solucionar 'o problema social', a ampliação de tributos e impostos para usufruto de privilégios.

No capítulos finais do estudo, em especial o denominado Eficiência e Justiça, a propósito do Estado patrimonialista brasileiro, o autor aborda a questão de uma oligarquia burocrática (transformada em classe dominante, numa paródia ao bode expiatório marxista) formada por legiões de técnicos, funcionários, juízes, congressistas, ministros, diplomatas, militares, empregados de estatais, bancários de bancos do governo e empresários que têm o Estado como patrimônio pessoal - e para a qual não há limites de benesses.

Neles, para demonstrar o abismo que ronda o governo distributivista que se anuncia, só falta o autor mencionar que a oligarquia é responsável pelo absorção de 38% do Produto Interno Bruto (PIB) produzido pelo País, hoje na casa de R$ 1 trilhão e 86 bilhões, a expropriar dos empresários e da sociedade toda a poupança necessária ao investimento produtivo ou socialmente útil.

Nacionalidade - Em Quando Mudam as Capitais, edição revista e publicada originalmente em 1958 pelo IBGE, o professor Meira Penna investiga com riqueza de dados e informações, as razões e os motivos pelos quais sãos criadas, ex-nihilo, capitais artificiais. Antes de abordar o exemplo de Brasília, o autor considera a criação, entre outras, de capitais como Tebas, Alexandria, Constantinopla, Tóquio, Madri, Washington, Ottawa, Ankara e Camberra, em geral criadas por 'objetivos políticos', a partir da observação de fatores geopolíticos dentro de determinadas conjunturas históricas. No caso brasileiro, a autor se manifesta favorável à construção da nova capital, ressaltando, em especial, no prefácio da 1.ª edição, as questões de 'unidade, eficiência administrativa, descentralização e aproximação das fronteiras continentais, de desenvolvimento econômico e social do interior e exploração das vastas, desertas e férteis áreas de Goiás e Mato Grosso', onde, acredita, 'amadurece o futuro da nacionalidade'.

Lenda - Diz uma das lendas que Brasília nasceu de um porre. Juscelino Kubitschek, seu criador, fazendo discurso de campanha eleitoral no cerrado goiano, recebeu aparte de nativo, aparentemente embriagado, indagando se o candidato, caso eleito, providenciaria a mudança da capital para o Centro-Oeste do Pais, conforme previsto na Constituição de 1824. O futuro presidente, sempre solícito, logo encampou a idéia e dela fez plataforma de governo. Eleito, temendo a sabotagem dos adversários políticos, em praticamente três anos planejou, construiu, transferiu e inaugurou a nova Capital Federal, fomentando uma colossal soma de gastos, origem, para muitos, do galopante processo inflacionário que até hoje deixa marca no bolso de cada brasileiro vivo.

O autor discorda da visão da construção de Brasília como fator determinante do processo inflacionário brasileiro, assinalando que ele já tomava corpo na economia nacional, solenemente, na era Vargas. No capítulo especialmente escrito para a presente edição, Brasília, 40 Anos depois, fazendo uma espécie de autocrítica, reconhece 'algumas falsas antecipações que, eu próprio, me atrevi a desenvolver', a mais grave, 'haver imaginado a transferência do governo do Rio para o Planalto Central como último recurso de cercear o crescimento patológico do dinossauro burocrático contra o qual alimentava, como alimento até hoje, ojeriza profunda'.

Homem generoso, porém, o diplomata Meira Penna conclui Quando Mudam as Capitais admitindo que 'há no simbolismo do desenho de Brasília (feito por Lucio Costa - reprodução do gesto de quem faz o sinal da cruz) algo de transcendental'. De fato, ele acredita que 'a Capital do Sertão, ao mesmo tempo em que satisfaz a uma necessidade eminentemente política da nação, abriu perspectivas para a cultura no novo mundo global, cultura que é cristã e ocidental em suas raízes históricas, técnica e científica em suas bases, universal em âmbito e, acrescentemos, livre e democrática em seu espírito'.

Deus o ouça!


(*) O autor é cineasta, jornalista, escritor e ex-Secretário Nacional da Cultura.


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Obra que conta história das capitais é relançada

Jornal de Brasília, 12 de dezembro de 2002 (pg. 3).

O ensaísta e embaixador aposentado José Osvaldo de Meira Penna relançou ontem à noite, em concorrido coquetel no bar Armazém do Brás, a obra Quando Mudam as Capitais, 457 páginas, escrita em 1959. Meira Penna aproveita o centenário Juscelino Kubitschek e Israel Pinheiro (que comandou a construção de Brasília) para resgatar o que chama de 'um estudo comparativo e histórico sobre os antecedentes das construções de novas capitais e mudanças da sede do governo'.

Quando Mudam as Capitais interessa a políticos, administradores, urbanistas, historiadores e todos os admiradores de Brasília. A apresentação do livro é um trecho retirado do livro Por que construí Brasília, de JK, em que o embaixador e a obra são citados pelo ex-presidente. No livro de Meira Penna há 15 capítulos contando exemplos de criação e mudanças de capitais, como Menphis, Thebas, Akhetaton e Alexandria, no Antigo Egito; São Petersburgo, na Rússia, Nará, Kyoto e Tóquio no Japão; Nova Delhi na Índia e Washington nos EUA.

Há dois capítulos que contam a história de Brasília e os motivos da transferência da sede do governo do Rio de Janeiro para o Planalto Central. O primeiro foi escrito dois anos antes da inauguração e estava incluído na obra de 1959; já o segundo, foi um acréscimo que Meira Penna fez para a nova edição, intitulada Brasília, quarenta anos depois. 'Neste capítulo há críticas positivas e negativas de várias personalidades sobre a construção da nova capital', conta o autor. Nos anexos há um relatório com desenhos de Lúcio Costa sobre o Plano Piloto.

O embaixador começou a pesquisa para o livro em 1953, quando estava em missão pela ONU em Nova York. Entre 1956 e 1959 ele dirigiu o Departamento Cultural do Itamaraty e teve a oportunidade de conhecer Lúcio Costa e Oscar Niemeyer. A idéia de relançar a obra, esgotada há vários anos, surgiu quando a neta de Israel Pinheiro, Maria Helena Pinheiro Bezerra, fez uma pequena exposição no Itamaraty em setembro para celebrar o centenário do avô. 'Aproveitei a oportunidade para terminar meu livro', revela Meira Penna.


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Breve biografia do Embaixador Meira Penna:

José Osvaldo de Meira Penna nasceu no Rio de Janeiro no dia 14 de Março de 1917. Pela Universidade do Brasil, atual Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), obteve o título de Bacharel em Ciências Jurídicas. No ano de 1938 ingressou na carreira diplomática por intermédio de concurso público para o Instituto Rio Branco. Fez cursos de especialização na Universidade de Columbia, em Nova York, e no Instituto C. G. Jung, de Zurique. No ano de 1965 fez o Curso Superior de Guerra da ESG, tendo cursado posteriormente diversos cursos de especialização nessa instituição. Como diplomata de carreira, J. O. Meira Penna ocupou diversas funções, dentre as quais: Vice-Cônsul em Calcutá¡, Índia, e Shangai, China (1940-1952); Segundo Secretário em Ankara, Turquia, e Encarregado de Negócios em Nanking, China (1947-1949); Secretário em Ottawa, Canadá¡, Secretário e Conselheiro da Missão Brasileira das Nações Unidas (1953-1956) e membro da Delegação Brasileira a várias Assembléias das Nações Unidas, e da Conferência Geral da UNESCO em 1958; Chefe da Divisão Cultural do Ministério das Relações Exteriores (1956-1959); Cônsul Geral em Zurique, Suíça (1959-1964); Embaixador do Brasil em Lagos, Nigériria (1964-1965); Secretário Geral Adjunto para o Planejamento e da Europa-Oriental e Ásia (1966-1967); Embaixador do Brasil em Israel e em Chipre (1967-1970); Presidente da Comissão de Assuntos Internacionais do MEC, Diretor Geral da Embrafilme e Assessor do Ministério da Educação e Cultura (1971-1973); Embaixador do Brasil em Oslo, Noruega e na Islândia (1974-1977); Embaixador do Brasil em Quito, Equador (1978-1979); e Embaixador do Brasil em Varsóvia, Polônia (1979-1981). Meira Penna foi conferencista de cursos da ADESG (1971-1973); tem ministrado regularmente conferências sobre psicologia social no Instituto C. G. Jung em Zurique e conferências sobre diversos temas na Escola Superior de Guerra e no Conselho Técnico da Confederação Nacional da Indústria e do Comércio. Tem colaborado com o trabalho dos Institutos Liberais de todo o Brasil, sendo atualmente o presidente do Instituto Liberal de Brasília. José Osvaldo de Meira Penna é um dos quatro brasileiros vivos que tem a honra de ser membro da Mont Pelerin Society.

Meira Penna é autor de vasta obra composta, até o presente momento, dos seguintes livros: Shangai: Aspectos Históricos da China Moderna (1944), O Sonho de Sarumoto: O Romance da História do Japão (1948), Quando Mudam as Capitais (1958 / 2ª Edição revista e ampliada: 2002), Política Externa, Segurança e Desenvolvimento (1967), Psicologia do Subdesenvolvimento (1972), Em Berço Esplêndido: Ensaios de Psicologia Coletiva Brasileira (1ª Edição: 1974 / 2ª Edição revista e ampliada: 1999), Elogio do Burro (1980), O Brasil na Idade da Razão (1980), O evangelho segundo Marx (1982), A Ideologia do Século XX: Ensaios sobre o Nacional-socialismo, o Marxismo, o Terceiro-mundismo e a Ideologia Brasileira (1ª Edição: 1985 / 2ª Edição revista e ampliada: 1994), A Utopia Brasileira (1988), O Dinossauro: uma Pesquisa sobre o Estado, o Patrimonialismo Selvagem e a Nova Classe de Burocratas e Intelectuais (1988), Opção Preferencial pela Riqueza (1991), Decência Já¡ (1992), O Espírito das Revoluções: Da Revolução Gloriosa à Revolução Liberal (1997), Ai, que dor de cabeça!: Alguns dados informativos e sugestões para aqueles que sofrem de enxaqueca (2000), Urania: Onde se discute a conquista do espaço, a ficção científica, os discos voadores, E.T.s, a pluralidade dos Mundos Habitados e a solidão do homem (2000), Cândido Pafúncio: Numa historia contada por um idiota (2001), Da Moral em Economia (2002) e Polemos - uma análise crítica do darwinismo (2006). Além desses livros, Meira Penna é autor de centenas de artigos publicados em jornais e revistas no Brasil e no exterior.


Algumas opiniões acerca do Embaixador Meira Penna:

“O embaixador Meira Penna é um homem de grande cultura, que já leu todos os grandes clássicos e modernos do pensamento liberal, e que fez do liberalismo uma doutrina viva. É também um formidável polemista”.
- Mário Vargas Llosa

“Desenvolvendo grande atividade intelectual desde a juventude, o embaixador aposentado José Osvaldo de Meira Penna realizou uma obra grandiosa, que acredito venha a merecer consideração detida num dos nossos cursos de pós-graduação em pensamento brasileiro ou ciência política”.
- Antonio Paim

“O embaixador Meira Penna alia a sua inteligência e a sua vasta erudição - histórica, filosófica, sociológica, política e econômica - a uma notável capacidade de combater. Polêmico, freqüentemente agressivo em face a posturas contrária a sua - especialmente a socialista e nacionalista -, ele é uma figura ímpar no panorama intelectual brasileiro, sempre pronto a denunciar ilusões ou imposturas”.
- Roque Spencer Maciel de Barros

“Meira Penna é um reconhecido intelectual, articulista e polemista, já escrevera diversas obras de fôlego, introduzindo muitos temas então inéditos ou pouco abordados, como o patrimonialismo selvagem”.
- Cândido Prunes

“O embaixador José Osvaldo de Meira Penna é um dos intelectuais brasileiros que mais tem contribuído para a formação de uma literatura liberal em nosso país”.
- Og F. Leme

“Meira Penna é um expoente da pequena ala de intelectuais liberais do Itamaraty que não se deixaram contaminar pelas ideologias coletivas: o solidarismo romântico, o nacionalismo e o socialismo. Essas ideologias antiliberais, que desconhecem o papel da concorrência na promoção da eficácia econômica e do pluralismo político, impregnaram várias gerações itamaratianas. E, como convé a celebre entropia de um país subdesenvolvido, degradaram-se em manifestações folclóricas: antiamericanismo de salão, socialismo de balcão e terceiro-mundismo de ocasião”. “Meira Penna, como liberal engajado e espadachim ideológico, sempre sofreu discriminação por parte de mesquinhas igrejinhas no Butantã da Rua Larga. Foi um talento subaproveitado. Prosperam mais, para usar a verbologia de Platão, os 'filodoxos' (amigos de opiniões) do que os 'filósofos' (amigos da sabedoria)”.
- Roberto Campos

“Meira Penna está muito atento aos problemas colocados pela inserção do catolicismo na economia da modernidade, além de preocupado com a fundação de uma Ética social”.
- Ubiratan Borges de Macedo

“Meira Penna escreveu o melhor livro de psicologia social brasileira (Psicologia do Subdesenvolvimento) e a melhor defesa da economia liberal que existe em português (Opção Preferencial pela Riqueza), além de uma notável análise da burocracia estatal (O Dinossauro), de um esplêndido painel das Ideologias do Século XX e de muitos outros livros que não ficam abaixo desses”. “Poucos escritores de tamanho valor foram, no mundo, tão injustamente depreciados pela mídia, tão sistematicamente excluídos do debate público e reduzidos a falar para um pequeno círculo de leitores e admiradores”.
- Olavo de Carvalho


***

Artigos de José Osvaldo de Meira Penna
Período de 21/1/1998 a 15/10/2001
Total: 83 artigos

PREFÁCIO DE CUNHO AUTO-BIOGRÁFICO
Terça-feira, 30 de Outubro de 2001

Sempre foi um sério problema para autores de obras de filosofia, psicologia ou mesmo teologia - que procuram impressionar de maneira satisfatória o curioso mas desprevenido leitor - saber como dar um início apropriado a seu livro. Alguns simplesmente anunciam o tese principal com um surdo tambor - bombo acompanhado de fanfarras, destinadas a libertar do torpor os que se atreveram a enfrentar o gênio. Arthur Schopenhauer, por exemplo. Logo na primeira frase de sua obra principal, o grande pessimista alemão proclama com grandiloquência: 'O Mundo é minha Representação' (Outra possível tradução é 'O Mundo é minha Idéia'!). Ora, o mundo é e não é minha idéia. A realidade está dentro de mim ou fora de mim? Mais certa é a dúvida hamletiana: qual é a verdadeira essência dessa realidade? quem sou eu? sou ou não sou? onde está o Eu como consciência de si-mesmo num mundo objetivo cujos contornos apenas superficialmente conhecemos?
No Ecce Homo, escrito 'com dinamite' autobiográfica nos derradeiros meses de sua lucidez (1888), e obra já extravagante pela loucura no extremo de ironia, enceta Friedrich Nietzsche o Prefácio com a declaração estrondosa: 'Antecipando que me será necessário, dentro em breve, endereçar à humanidade o mais grave desafio que tenha recebido, parece-me indispensável dizer quem eu sou'... Segue-se uma série espantosa de queixas pela ignorância geral em relação a seu próprio valor, eivadas de ressentimentos amargos pelo pouco sucesso dos livros que publicara, mas compensadas por auto-elogios: 'Por que sou tão sábio', 'Por que escrevo livros tão bons', 'Por que sou tão inteligente'. Seguem-se outras afirmações fantásticas: 'Sou discípulo do filósofo Dionísio. Prefiro ser um sátiro a ser um santo'; 'Sou um nobre de puro sangue polonês'; 'Meu estilo é a arte mais diversa que qualquer homem tenha jamais tido à sua disposição', 'Voltaire foi um grandseigneur do espírito e é isso, precisamente, o que igualmente sou', 'Parece-me que segurar nas mãos um de meus livros é uma das distinções mais raras que qualquer pessoa a si mesmo possa conferir. Acredito mesmo que deve tirar os sapatos nessa ocasião'. O livro vai por aí adiante, com afirmações da mesma natureza. A paranóia é evidente. A intuição da loucura próxima também: 'Estou envergonhado desta falsa modéstia'; 'Todos os traços mórbidos me faltam. Mesmo em períodos de enfermidade severa não me tornei mórbido... nos setenta dias do último outono estive criando ininterruptamente nada que não fosse de primeira categoria. Que homem algum será capaz disto realizar outra vez ou já antes realizou, carregando-lhe a responsabilidade por todos os próximos milênios?'.

Vejamos o que disseram outros pensadores, ao se depararem com a problemática que se resume na fórmula de confronto 'Eu e o Mundo'.

René Descartes fundamentaria sua filosofia racionalista com um simples a priori: penso, logo existo: Cogito, ergo sum. Pode parecer um pouco presunçoso que ouse alguém metafisicamente provar a Existência real através da certeza de seu próprio pensamento. Mas por que não? A priori sou eu. Sou eu que penso e que existo, mesmo quando solitário no meio de um deserto, no alto de uma montanha, ou em meu quarto a portas fechadas. De outra forma integrou Descartes suas memórias entre o Inconsciente onírico e o Consciente racional claro, preciso e metódico, de quem se tornou o maior Mestre, na obra central de sua vida, o 'Discurso do Método para bem Conduzir a Razão e Procurar a Verdade nas Ciências'. Ele acentua de entrada que 'o Bom Senso é a coisa melhor partilhada do mundo' (Le bon sens est la chose du monde la mieux partagée). Não tarda, porém, a assinalar, no Capítulo II do livro, que a própria concepção dessa coluna fundamental do Racionalismo foi por ele forjada em decorrência de três sonhos, absurdos e extravagantes como todo sonho, registrados quando de uma viagem à Alemanha durante a Guerra dos Trinta Anos. Ora, todo sonho surge necessariamente de um mundo subliminar, infro ou supra-racional, um mundo ausente de qualquer senso comum ou qualquer império da racionalidade. Um sonho interpretado não é certamente um método para bem conduzir a razão, nem para procurar a verdade com idéias claras e precisas. O importante é que, através dos sonhos, reconhece Descartes a existência de uma instância a que damos hoje o nome de Inconsciente, a qual estabelece o relacionamento entre o Eu pensante, res cogitans, e o mundo exterior, ou seja, o universo espacial objetivo, res extensa.

Mas recuemos ainda mais atrás na história, mil e seiscentos anos! Mais ortodoxo, evidentemente, é Agostinho. O santo Bispo de Hipona abre suas 'Confissões' - a primeira verdadeira Autobiografia e talvez a mais admirável de toda a história da literatura - com invocações e louvor ao Senhor - e não poderia ser de outro modo no monumento extraordinário que foi a obra do maior pensador cristão. Notável pela mocidade boêmia e irresponsável e como prelúdio ao relato do confronto do homem com a Divindade, introduz Agostinho, no texto puramente biográfico e meditativo, exposto da maneira ao mesmo tempo mais brutal, profunda e sublime, considerações sobre a metafísica do Tempo. A descoberta do Tempo! É a primeira vez que o Tempo se torna objeto preciso da investigação filosófica e isso influenciará, num sentido decisivo e irreversível, a pesquisa da mente humana num sentido de consciência da própria consciência do Eu. Agostinho aos poucos se dá conta da essência irreversível do Tempo na memória do passado, na observação do mundo presente e na capacidade de antecipação do futuro. Ali estão os três momentos do Tempo: o passado, o presente, o futuro - uma dimensão reta num movimento irreversível. O que já figura como esboço em Platão e Aristóteles se torna, sob a pena mágica de Agostinho, a primeira afirmação do Tempo como auto-biografia. Seguindo aquela 'rota da alma em direção a Deus', itinerarium mentis in Deum tal como por S. Boaventura foi chamado, tão relevante na história do Cristianismo por haver introduzido elementos platônicos básicos na teologia que a Igreja construía, Agostinho reconhece que foi intuitivamente, o que quer dizer como uma Graça, um relâmpago aquilo que nele, como divino e Santo Espírito, penetrou. O que o converteu e o iluminou foi 'a luz eterna e imutável', como que transcendentalmente emanada do Céu. Daí por diante, sobre tais alicerces agostinianos, num fundamento subjetivista e introspectivo erguido sobre o edifício monumental da filosofia clássica, grega, romana e helenística, se desenvolveria o pensamento ocidental em suas etapas medieval, renascentista, iluminista, empirista e moderna. De fato, a influência da filosofia grega e helenística perdurou durante a Idade Média e, menos de mil anos depois das reminiscências de Agostinho, outro grande pensador católico, Dante, baseando-se aliás principalmente no 'Consolo da Filosofia' de Boethius, repetiu novas e admiráveis 'confissões', em sua Vita Nuova (1293).

De outro calibre filosófico e moral são as 'Confissões' de Rousseau. O genebrino logo ali proclama, nas primeira linhas desta masturbação auto-promocional, sua originalidade, o conhecimento dos homens que possui, a genialidade de sua intuição e os méritos excepcionalíssimos com que foi dotado: 'Je forme une entreprise qui n´eut jamais d´exemple, et dont l´exécution n´aura point d´imitateur. Je veux montrer à mes semblables un homme dans toute la vérité de la nature; et cet homme, ce sera moi... Moi seul. Je sens mon coeur et je connais les hommes. Je ne suis fait comme aucun de ceux que j´ai vus; j´ose croire n´être fait comme aucun de ceux qui existent'. Notem que, enquanto a aparente paranóia de Nietzsche no Ecce Homo se expressa com um misto de doidice e sarcasmo, dirigido contra si-mesmo - o alemão era um solitário, um introvertido extremo - o marketing hagiográfico que Rousseau inaugura é mero sintoma de desmedido autismo e incomensurável hipocrisia. O texto do primeiro grande escritor revolucionário que, conscientemente, contribuiu para a edificação da modernidade se enquadra, aliás, com perfeição, no que Eric Voegelin qualifica como a Revolução egofânica. Egofânico, no bom e mal sentido, é o espírito distintivo de nossa época - contraponto necessário de uma civilização inteiramente voltada para a investigação, o conhecimento e o poder sobre a natureza. De natureza egofânica igualmente pronunciada é a frase presunçosa com que Oswald Spengler deu início a seu 'O Declínio do Ocidente' (der Untergang des Abendlandes): 'Nesta obra se acomete, por vez primeira, o intento de predizer a história'. Depois do anuncio pomposo, Spengler explica sua intenção: 'Trata-se de vislumbrar o destino de uma cultura, a única que se encontra hoje no caminho da plenitude: a cultura da América e da Europa Ocidental'. E acrescenta modestamente, para que ninguém disto duvide, que ninguém antes dele empreendeu resolver um problema de tamanha envergadura e transcendência histórica. O que ocorreu, entretanto, é que todas suas antecipações se revelaram falsas: o Ocidente não está em declínio, mas domina a civilização global; a China não 'sofre a história', mas é um dos agentes mais ativos dos acontecimentos mundiais; a física não foi liquidada, mas produziu as maiores descobertas e as mais consideráveis aplicações tecnológicas no desenvolvimento das ciências; e não foi a Alemanha (nem tampouco a Rússia) que ergueu o Imperium mundi profetizado, mas são os Estados Unidos que presidem à Nova Ordem Espontânea global. A América se tornou a potência hegemônica num mundo de convivência democrática liberal - esse mesmo país que Spengler imaginava dever desagregar-se por força de sua confusão racial. O exemplo é típico da imaginação tresloucada de todos, ou quase todos, os auto-proclamados profetas e promotores de utopias socialistas, fascistas ou nacionalistas, que a perversa Ideologia gerou.

Vejam o contraste entre os delírios egocêntricos desses pensadores, entre os que mais influenciaram o espírito da modernidade, e os termos humildes com que Sir Karl Popper inicia a Introdução à sua própria filosofia. Pode esta ser lida na obra em dois volumes, editada em 1974 numa coleção intitulada The Library of Living Philosophers. Diz-se que, em virtude de um verdadeiro tabu ou espécie de etiqueta tradicional, não se deve penetrar mais a fundo na pesquisa do sentido de uma determinada filosofia enquanto vivo esteja seu autor. Estou absolutamente convicto da correção da tese de Nietzsche que não há filosofias, há apenas filósofos... No caso, por respeito protocolar à tradição, é com humildade que Popper redige o capítulo de 156 páginas no qual descreve a evolução de seu próprio pensamento. Tentando esclarecer e debater os temas em torno dos quais se debruçou como um dos mais eminentes filósofos do século, o pensador anglo-austríaco principia com as palavras: 'Eu tinha vinte anos quando me empreguei como aprendiz de um velho mestre-marceneiro de Viena cujo nome era Adalbert Pösch, e com ele trabalhei de 1922 a 1924, pouco depois da Primeira Guerra Mundial'. E logo a seguir confessa: 'Acredito que mais aprendi sobre a teoria do conhecimento com meu querido mestre omnisciente Adalbert Pösch do que de qualquer outro de meus professores. Nenhum tanto fez para me tornar um discípulo de Sócrates. Pois foi esse mestre que me ensinou não só quanto pouco eu sabia, mas também que qualquer sabedoria à qual poderia aspirar não consistiria senão em me tornar mais plenamente consciente do infinito de minha ignorância'. Não é este, de fato, um maravilhoso exemplo de confissão socrática, de humilde sabedoria?

Filósofo moderno de igual influência porém, a meu juízo, inferior a Popper na contribuição que realizou para o pensamento do século, Bertrand Russell assim se refere, no prólogo da Autobiografia publicada em 1967, às 'três paixões, simples mas supremamente fortes, que governaram minha vida: o anseio de amor, a procura do conhecimento e uma invencível compaixão (pity) pelo sofrimento da humanidade'. Ninguém imaginaria tais palavras na pena de um pensador que viveu mais de noventa anos de uma existência que se tornou notório pelas irritantes extravagâncias e incoerências de relacionamentos sexuais, comportamento, opiniões e posturas políticas. O positivista matemático tinha lá seus sentimentos profundos quando lamenta '...o mundo de solidão, pobreza e sofrimento (que) torna uma farsa o que deveria ser a vida humana'. Somos forçados a respeitar o homem que é tido como o maior filósofo inglês do século XX, não obstante suas notórias leviandades. Mas vejam só: em 1948 ele publicou um ensaio aconselhando os americanos a um ataque nuclear preventivo contra a URSS, que lhe teria liquidado com as veleidades revolucionárias e imperialistas, deixando-a prostrada com uma centena de milhões de vítimas. Vinte anos depois, já diante do confronto atômico e do 'equilíbrio do terror' (MAD - Mutual Assured Destruction), Russell desencadeou uma campanha anti-americana em torno do slogan imbecil better red, than dead. Sua tese era que, considerando a óbvia inevitabilidade de uma troca de mísseis atômicos entre as duas super-potências, bem como a superioridade de uma organização socialista sobre o capitalismo vigente, melhor seria o Ocidente entregar-se imediatamente ao domínio totalitário do Kremlin do que arriscar o que antecipava como o fim da civilização.

Um outro escritor e professor de filosofia inglês, Sir Anthony Kenny, de Oxford, admirador e principal discípulo de Ludwig Wittgenstein, considera este filósofo, discípulo de Russell etambém anglo-austríaco como Popper, o maior do século e Wittgenstein começou a vida como engenheiro, foi soldado na Iª Guerra Mundial, estabeleceu-se na Inglaterra. Lecionou em Cambridge onde adquiriu prestígio. Em seu Tractatus Logico-Philosophicus, Wittgenstein procura analisar, através de um estrito e absolutista método lógico, o Eu, o 'Penso logo existo' de Descartes e o solipsismo inerente a toda filosofia subjetivista. Nos ítens 5.621 e nos que se seguem, 5.63 e 5.631, o vienense genial declara: 'O mundo e a vida são um/ Eu sou meu mundo (O microcosmo)/ O sujeito pensante e apresentador (thinking, presenting subject), não existe tal coisa./ Se escrever um livro ´O mundo como o encontrei`, também teria de ali registar meu corpo e esclarecer que membros obedecem à minha vontade e quais os que não obedecem, etc. Seria isso então um método de isolar o sujeito ou, melhor ainda, de mostrar que num sentido importante não há sujeito: o que quer dizer, em tal livro dele menção alguma poderia ser feita'. O aforismo de Wittgenstein, frequentemente citado: Wovon man nicht reden kann, darüber muss man schweigen - 'Sobre aquilo que não podemos transmitir pela palavra (ou aquilo de que não podemos falar), devemos calar (ou manter silêncio)', parece óbvio. Não é, porém, tão simples. É mesmo quase impenetrável. Voltaremos a falar sobre esse filósofo, embora discordando do que sobre ele afirma Sir Anthony Kenny e de grande parte do que, mui penosamente, lhe consigo entender da obra. Wittgenstein, aliás, não escondeu certos traços místicos e desmentiu a maior parte das interpretações que sobre sua filosofia da Lógica positivista e da Linguagem foram divulgadas.

Muitos grandes sábios e cientistas exerceram profissões modestas e paralelas à sua ilustre carreira no amor da sabedoria. Sócrates era um boêmio ocioso; Jakob Boehme, sapateiro toda a vida; e Einstein funcionário dos Correios de Zurique quando elaborou a Teoria da Relatividade. Marceneiro - uma profissão, vale recordar, honrada por Jesus Cristo - quando iniciou a aprendizagem no campo da epistemologia, da teoria das ciências, da filosofia política liberal e luta contra o historicismo e o determinismo, Popper teve o mérito de desmistificar as falácias absolutistas, o marxismo, o freudismo, o hegelianismo, o próprio darwinismo radical, que se defendem da crítica detrás de uma muralha de tautologias. Um exemplo de como argumenta pela negatividade é sua afirmação de que o importante, em filosofia política, não é como se seleciona os bons governantes, mas como nos livramos dos maus sem violência sangrenta.

Detenho-me, agora, no exemplo de outro guru liberal, Isaiah Berlin. Falecido em 1998. Berlin, um dos grandes nomes do pensamento político moderno, tinha 86 anos quando, em fevereiro de 96, recebeu uma carta de um professor chinês que lhe pedia um sumário de suas idéias. Qualquer outro logo jogaria a carta na cesta de lixo. A resposta de Berlin cobre vários episódios autobiográficos e o relato da evolução de sua meditação sobre alguns dos mais importantes temas de filosofia política de nossa época - particularmente a distinção entre liberdade negativa e liberdade positiva, com privilégio concedido à primeira. O ensaio de Berlin é curto mas eminentemente instrutivo para a abordagem dos problemas intratáveis que afetavam nossa sociedade ao final do século.

Os que mencionamos acima eram, ou de simpatias socialistas, ou pioneiros do Liberalismo atual. Nossa curiosidade se dirige agora para um filósofo francamente conservador e inspiração mística. É outra das sumidades filosóficas contemporâneas no terreno político e religioso, Eric Voegelin. Ele também começou a ditar suas 'Reflexões Autobiográficas' com mais de setenta anos. Traçando pormenorizadamente o fluxo das cogitações que o absorveram desde os 18 anos de idade, quando cursou a Universidade de Viena, e paralelamente à sua produção como escritor e professor, destacou Voegelin, do mesmo modo como os colegas acima mencionados, o relacionamento do desenvolvimento filosófico do Ocidente com os desastrosos acontecimentos políticos concretos que os obrigariam ao exílio e migração para outras plagas de um continente mais acolhedor. Einstein, Voegelin, Leo Strauss, Hayek, Popper, Berlin, Thomas Mann e outras sumidades no campo da filosofia, da física, da economia e da literatura - quer tenham ou não sido judeus - foram traumatizados pela experiência dos horrores da IIª Guerra Mundial, um episódio central na história humana que determinou o caminho trilhado em seu trabalho de meditação filosófica. Voegelin sofreu um outro exílio: está quase inteiramente ausente dos tratados e histórias da filosofia moderna. Como intróito à Amnesis, sua Autobiografia, ele nos transmite no entanto um apropriado e relevante conselho de Agostinho - uma citação do De Vera Religione: 'No estudo da criatura não devemos exercitar uma curiosidade vã e perecível, mas ascender àquilo que é imortal e eterno'... Oxalá saibamos seguir esse sublime conselho! A meu ver, o máximo filósofo da história no passado século, particularmente na majestade incomparável dos cinco volumes de sua 'Ordem e História', Voegelin representa o respeito e a ênfase na continuidade espiritual da evolução da humanidade que se tende hoje, com desprezo, a desconsiderar como 'conservadorismo'. Pela Revelação (intuitiva) e a Filosofia (meditativa e cogitativa), aproximamo-nos em lento e penoso caminhar tendo como meta a Verdade transcendental.

Ao contrário de Descartes, se é ele o fundador da filosofia moderna, refere-se Carl Gustav Jung, psicólogo das profundidades inconscientes e investigador dos aspectos irracionais da psique humana, não a reminiscências de juventude que lhe determinaram o caminho a seguir no penoso caminhar. As de Jung são semi-conscientes visões infantis que datam do segundo e terceiro anos de vida! Ditadas à fiel Secretária Aniela Jaffé quando Jung já percorrera mais de oitenta anos de existência, os episódios externos e a introspeção psíquica inextricavelmente se confundem no relato mnemônico da Autobiografia - 'Memórias, Sonhos Reflexões'. O Inconsciente (Unbewusst) está sempre presente. É o pano de fundo. Bem no início da obra, um sonho ocorrido quando na infância mal saída do berço, e tendo como motivo central um enorme phallus, impinge como imagem esmagadora que o vai atormentar por toda a existência e terá influência marcante sobre sua obra e idéias. Diante da evidência que, naquela tenra idade, jamais poderia haver observado um pênis em ereção, concluiu Jung que se tratava de um 'arquétipo'. O sonho possui, aliás, certas conotações sacrílegas. A nebulosidade luciferiana é inerente a muitas das intuições psico-teológicas do grande cientista suíço que o fará penetrar no terreno pouco explorado e engimático do gnosticismo. Mas seria esta a melhor maneira de convencer o leitor, leigo na matéria, de que o que está ali escrito constitui uma reflexão idônea sobre o valor da Psicologia Analítica do Inconsciente Coletivo?

'Memórias, Sonhos, Reflexões' foram publicadas pela primeira vez em 1961, no mesmo ano de sua morte. Na época, servia eu como Cônsul Geral em Zurique e frequentava regularmente o Instituto C.G. Jung, ainda localizado no próprio centro da cidade. Em suas reminiscências, Jung principia com as seguintes palavras: 'A história de minha vida é a da própria realização por Si-mesmo do Inconsciente (self-realization of the unconscious). Tudo no Inconsciente procura manifestar-se externamente, e a personalidade também deseja evoluir para fora de suas condições inconscientes e sentir sua experiência como um todo. Não posso empregar a linguagem da ciência para esboçar esse processo de crescimento em mi-mesmo, pois não me posso sentir (experience myself) como um problema científico. O que somos em nossa visão interior (inward vision), e o que parece ser o homem sub specie aeternitatis, só pode ser expresso por intermédio de mito. O mito é mais individual e exprime a vida com maior precisão do que a ciência. A ciência trabalha com conceitos de medidas que são demasiadamente gerais para fazer justiça à variedade subjetiva de uma vida individual. É assim que agora empreendo, nos meus oitenta e três anos, a tarefa de relatar meu mito pessoal'.

De modo similar, é também com 83 anos que inicio esta abordagem auto-biográfica, a ela juntando um mito pessoal, memórias, sonhos e reflexões sobre diversos temas filosóficos e políticos. Na própria capa ilustrada deste livro figura uma mandala - simbolizando um mito pessoal. Nela combino uma imagem tradicional, retirada de um quadro de pintura medieval de Deus no ato de criação do Universo e do Homem, com a representação surrealista das galáxias na visão de Max Ernst. Na estética moderna, Ernst bem traduz a irracionalidade ou, por outra, a suprarracionalidade que procura, na alma moderna, abordar os campos só na aparência opostos da realidade física e da nossa realidade interior Inconsciente.

No caso de Jung, Popper, Berlin, Voegelin e também no de Hayek, sua produção mental, que resume o trabalho de uma vida inteira de reflexão, se prolongou até uma idade em que já se arregimentavam entre os que nos consideramos cronologicamente mais enriquecidos. Somos, quiçá, merecedores do descanso ou cultivo de nossos caprichos, birras ou manias de velhice. No entanto, por que ir tão longe? Quase noventa anos tem Mário Vieira de Mello, meu amigo e colega, que procura em seus livros de filosofia seguir aquele conselho de Agostinho, repetido por Voegelin. Foi ele, Mário, quem também me revelou o pensamento de Voegelin e, em sua obra ainda tão pouco reconhecida, 'Desenvolvimento e Cultura', quem me convenceu dessa verdade tão simples e tão descurada em nosso pensamento sociológico: a falta de uma sólida ética social é o principal entrave ao florescimento de uma autêntica cultura em nossa terra.

Mais de oitenta também carrega nosso Roberto Campos na idade. Campos é um spoudaios, um sábio venerável no sentido de Aristóteles. Seus artigos semanais e suas coletâneas, 'Lanterna na Pôpa', 'Antologia do Bom-Senso', etc., fazem jus à reputação que granjeou de ser, provavelmente, o homem mais lúcido do Brasil, tanto no terreno frio da ciência econômica - a dismal science - quanto na análise apaixonada dos obstáculos existentes à integração de nosso país à modernidade. A leitura dos escritos de 'Bob Fields' foi um dos fatores que me incentivou a procurar entender algo de economia. A ciência pode ser horrenda, como alegava Carlyle. Bem mais horrendas, porém, são as consequências de seu desconhecimento. O drama está claramente exposto nas iniciativas historicamente tresloucadas e absurdas que tantos de nossos governos tomaram, século passado, e nas tolices repetidas por tantos de nossos homens, ditos 'inteligentes', que nos impedem de saltar sobre as barreiras do sub-desenvolvimento inerente à sociedade patrimonialista.

'Liberals live longer' - diz uma piada atribuída a Hayek e vulgarizada nos meios liberais internacionais. Vivemos mais talvez. Sofremos, como quaisquer outros, os achaques da velhice, mas nos valemos de mais longa experiência. A experiência é preciosa e Wittgenstein, corretamente, a enaltece no capítulo 13 da Resenha de sua obra, empreendida por Anthony Kenny, em que são tocados os temas do Ceticismo e da Certeza. É graças à experiência que podemos acabar julgando com mais correção dos sucessos e loucuras de nossos contemporâneos poderosos.

Um amigo um tanto ou quanto ingênuo, porém sincero em sua cordialidade, me felicitou o outro dia com as palavras: 'Gostaria de chegar à sua idade, com igual lucidez'... Não percebeu a gafe. Será que não estou realmente ameaçado de irreversível decrepitude? Já não estarei gagá, para merecer tal elogio? E o que escrevo ainda faz sentido, à luz do que prevalece como temas dignos de pesquisa e meditação filosófica neste início de milênio? Escrevo, contudo, o que penso e tenho pensado muito há dez, vinte, cinquenta anos. Valho-me, com certeza, da experiência de longas meditações atormentadas, diante de espetáculos a que assisti como 'observador engajado'... 'Pode alguém desmentir o efeito da experiência em nosso sistema de suposições ou presunções (assumptions)?', pergunta Wittgenstein. O filósofo da linguagem e da lógica não hesitou, no fim da vida (ele morreu em 1951, com 62 anos), a escrever ensaios sobre temas como 'Ética, Cultura e Valor'. E ousou mesmo, algumas vezes, pronunciar a palavra 'Deus'... Ora, Ética, Cultura e Valor são as colunas que me sustentam, nesta etapa avançada da existência, ao procurar transmitir tudo o que tenho pensado sobre tão elevados tópicos. Ao alcançarmos essa idade, já conseguimos explorar, com alguma pequena, hesitante e vaidosa eficácia, os sistemas de causa e efeito, as distinções entre o Bem e o Mal, os critérios de Verdade e Mentira, e o conflito dos Valores. E, sobretudo, já nos damos perfeitamente conta do que seja a existência. Foi esta definida, há pouco mais de cem anos, por um médico, poeta e humorista americano do século XIX, Oliver Wendell Holmes (+1894). Pai de um ainda mais célebre juiz da Corte Suprema dos EUA, de mesmo nome, e inspirado ao que consta pela Mãe, uma calvinista rigorosa que morreu aos 93 anos, argumentava Holmes que 'é a vida uma enfermidade fatal (fatal complaint), eminentemente contagiosa'...

O aforismo merece ser memorizado. Com a dura mas valiosa experiência de uma centúria tremenda como foi a nossa, ora terminada e da qual ativamente participamos, dispomos talvez de algo valioso para contar à nova geração, crescida em décadas menos atormentadas, mais fáceis, confusas e permissivas. Um século que foi o mais sangrento e desastroso da história da Humanidade, é igualmente um daqueles cuja memória, possivelmente, permanecerá como dos mais criativos nos reinos da ciência e tecnologia, de maiores e mais extraordinária conquistas no poder do conhecimento humano, de mais rápido e quase explosivo crescimento demográfico e econômico, de mais consideráveis avanços na globalização do planeta e de profunda e deplorável crise moral. Um século do qual emerge a promessa do triunfo da liberdade. No qual se descobre o aprofundamento da consciência humana, adolescente, para seu destino transcendente. E se vive, quiçá, a suprema virtude da esperança...

A época deixou fundas cicratizes na mente daqueles que, no Velho Mundo, viveram e sofreram, refletindo-se naquele outro, o Novo Mundo, que os abrigava da tormenta. Afetou do mesmo modo aqueles que, como nós, brasileiros - gente pouco séria, amantes de carnaval e futebol, alegres adolescentes, cordiais, tolerantes, sentimentais, impulsivos, irresponsáveis; só interessados em nós mesmos e no nosso mundo particular, imediato, formado por nossos amigos e familiares - recebemos passivamente os contrachoques dos terremotos que sacudiram o planeta inteiro. Como diplomata, vivi décadas em postos nos quatro continentes; assisti a alguns dos grandes eventos da história contemporânea; convivi com guerras, revoluções e violências; amontoei um patrimônio de reminiscências de gente ilustre. E isso também exige expressão. Requer testemunho. Advoga uma interpretação própria dos fatos observados e vividos. Pede memorial na perspectiva de nossa própria experiência. Que é, precisamente, o que vamos aqui empreender.

A Necessidade Criadora

A questão primária que se apresenta ao princípio da disquisição é a de saber se um inquérito filosófico, do tipo cogitado, será propriamente válido. Válido em primeiro lugar como expressão de uma necessidade íntima, de um imperativo pessoal, de uma urgência independente do impulso espontâneo de defesa de idéias, opiniões, convicções ou pontos de vista arraigados, embora constante e teimosamente atacados pelo irresistível ceticismo que o cansaço da velhice muito agrava. Será que o que vamos escrever interessa o mundo abstrato dos leitores desconhecidos? Merece ser acolhido com simpatia pelos amigos concretos com os quais vamos dialogar pelo Verbo? Será o livro lido ou treslido, será meditado ou mofará numa prateleira de livraria, merecerá críticas pelos jornais ou terminará vendido num sebo, virgem de qualquer atenção?

A um nível que quase ousaríamos qualificar de espiritual - ocorre a exigência de criação e expressão imposta pelo thymos, ou seja, pelo desejo de reconhecimento e afirmação como expressão legítima da personalidade que aspira a uma curta, curtíssima imortalidade ideal. Não que devamos esquecer a observação algo cínica de Henri de Montherlant, segundo a qual 'não se alimentam os escritores de carne ou frango, mas exclusivamente de elogios'. A publicidade e o reconhecimento são apenas justas compensações. Não deveríamos colocá-las no início da refeição, pois são apenas hors d´oeuvres... A substância vem depois do banquete. Escrevemos de fato, quando autênticos, tanto para os outros quanto para nós mesmos. Ao salientar o valor especial da atividade expressiva pela palavra escrita, que se recorde a frase profunda de Saint-John Perse, aplaudido poeta que, durante muitos anos e sob seu verdadeiro nome de Alexis Léger, foi diplomata, Embaixador e Secretário Geral do Quay d Orsay. Prêmio Nobel de literatura, afirmava Saint-John Perse que a resposta adequada, quando alguém pergunta: 'Por que V. escreve?', deve ser a mais breve possível: 'Para melhor viver'... À la question toujours posée: 'Pourquoi écrivez-vous?', la réponse du poète sera toujours la plus brève: 'Pour mieux vivre'. Perse alimentava uma visão trágica da vida e compreendo suas angústias. Outro grande poeta francês, talvez o mais eminente do século XIX, Charles Baudelaire, igualmente atormentado por seus fantasmas de volúpia, depressão e morte, explicava: 'il faut travailler, sinon par goût, au moins par désespoir, puisque, tout bien vérifié, travailler est mon ennuyeux que s´amuser'... Que o trabalho seja uma maneira de escapar do tédio e da angústia, sobretudo o trabalho intelectual, é bem conhecido dos deprimidos. Não só a tarefa do escritor mas o simples prazer da leitura. Afirmava Montesquieu jamais haver sofrido algum tormento que uma hora de boa leitura não houvesse sarado...

Neste contexto, uma frase de Graham Greene é igualmente relevante: 'Escrever é uma forma de terapia'. O romancista inglês e personalidade polêmica cuja obra, em certa época, me fascinou, acrescenta em Ways of Escape: 'Às vezes me pergunto como é possível que aqueles que não escrevem, compõem ou pintam conseguem escapar da loucura, da melancolia, do medo pânico, inerente à situação humana'. Em que pesem suas ambiguidades ideológicas, recentemente explicadas pela circunstância de haver carregado a dupla máscara de intelectual de esquerda católica e agente do Serviço Secreto de Sua Majestade anglicana, Greene nos transmite o sentimento inexorável que, amiúde, nos força à expressão pela pena, a palavra ou as várias formas de arte - uma sublimação, uma catárse.

Minha própria atitude se aproxima da de George Orwell que, em um de seus ensaios, assegura-nos: 'escrever um livro é uma luta horrível, exaustiva, algo como um ataque de alguma dolorosa enfermidade. Ninguém jamais empreenderia tal coisa se não impelido por uma espécie de demônio ao qual não se pode nem resistir, nem compreender'. Orwell foi um dos que melhor exorcizou um dos mais tremendos demônios de nosso século, o totalitarismo. E por falar nesses espíritos que povoam em multidão a atmosfera infernizada da modernidade, vem-me à lembrança o famoso daimonion de Sócrates. Era um 'bom' demônio ou, pelos menos, um espírito ambíguo que o impelia a agir e ensinar, nas ocasiões decisivas da existência, de conformidade com os mais rígidos padrões morais, até o ponto de arriscar a vida. Ele foi de fato executado - uma vítima inocente das paixões políticas e religiosas; um sacrifício menos cruento do que o de Cristo, certo - mas assim mesmo havendo suficientemente impressionado os primeiros pensadores cristãos a ponto de alguns chegarem a sugerir sua santificação.

Se válido é tal conselho terapêutico na literatura, na música, na pintura, seria igualmente precioso em filosofia. Acresce talvez um impulso pedagógico. Haveria, na filosofia, o desejo de compartilharmos com os outros, amigos ou desconhecidos anônimos, dos ensinamentos de sabedoria que, por ventura, estimamos com ou sem razão haver adquirido - em alguns casos como que por chamamento de uma força irresistível, um daimonion ou bafo do Espírito do Além, leve aragem como a de Isaías, ou ventania de tufão - que sempre, como dizem os Evangelhos, 'sopra para onde quer'... Verdade: pode a transmissão ser aí puramente verbal. Três dos homens que, por seu exemplo e pregação, maior impacto tiveram sobre a história da humanidade, Sócrates, o Buda Siddharta Gautama e Jesus Cristo, nada escreveram, nada produziram em forma material, não deixaram escritos, apenas falaram. Ensinaram, porém, a discípulos que nos transmitiram sua mensagem iluminadora. Em seu aspecto ético/existencial, pode a filosofia ser privilegiadamente comunicada de modo puramente simbólico, pelo exemplo e a palavra - e, por motivos de tal índole, tanto a vida quanto a obra dos profetas são relevantes. A de Sócrates, no caso, foi paradigma da lição que deixou a seus discípulos, especialmente Platão. Pode também ser invocada em versos e é na literatura poética e de ficção que nos vamos deparar - como em Dante e Shakespeare, em Milton, Goethe ou Eliot, em Cervantes ou Dostoievsky - e, no Brasil, em Machado de Assis ou Carlos Drummond de Andrade - com alguns dos pensamentos mais profundos com que se enriquece a cultura humana, ainda que não formalmente expressos segundo uma metódica disciplina, hoje quase integralmente acadêmica.

O caso de Nietzsche é peculiar. Muitos lhe recusam o qualificativo de filósofo. Acham sua obra um simples produto de literatura, o que seria igualmente o caso de Kierkegaard. Mas em Dostoievsky, a forma do romance 'policial' permitiu ao russo alguns dos pensamentos filosóficos mais extraordinários do século XIX, a ponto de alguns lhe atribuírem a expressão antecipada do Cristianismo do novo milênio. As maneiras de fazer filosofia são, afinal de contas, muito variáveis. Conhecido professor americano, descreve Alasdair MacIntyre a obra de Agostinho e Anselmo como de 'filosofia como oração', a de São Tomás e Scotus Erigena como tomando a forma do debate intelectual escolástico, ao passo que a de Dante seria 'filosofia como poesia', a de Spinoza 'filosofia como geometria' e a de Hegel 'filosofia como história'. Freud e Jung são também considerados mais como escritores de ficção do que como cientistas. Freud nunca recebeu o Nobel, cujo galardão passou anos esperando, mas foi premiado com o Prêmio Goethe, o mais eminente da literatura na Alemanha. Jung nem isso.

O suíço, cuja ciência analítica da alma humana foi uma companhia quase constante em 60 anos de minha vida, muito insistia no esforço criativo de seus pacientes como método terapêutico. Expressar-se é certamente uma forma de cura mental. É o que pode dar sentido a uma vida introvertida na qual, de outro modo, seríamos vitimados pelos fantasmas sombrios e conteúdos depressivos que rodopiam, como encapuzados terroristas, em torno de nossa psique ou se escondem em nossa 'Sombra', como a que Jung nos descreve. Gustave Flaubert afirmava algo semelhante a Greene e Jung, mas não encontro os termos exatos que usou. Quando sofria de seus humores neurastênicos, recorria à caneta para deles se livrar. Estudos de psicólogos de várias tendências concorrem na idéia do valor insubstituível da capacidade criadora que pode dar sentido à nossa breve e penosa passagem pela existência, livrando-nos dos espectros casmurrentos que nos cercam e reduzindo as perplexidades que nos trazem as ofensas, pecados, arrependimentos, frustrações, inibições, agressões, insultos e inferioridades com que tropeçamos no áspero caminho da viagem... Jung estabelece um correlacionamento íntimo entre a expressividade criadora do paciente e a ação psicoterapêutica do analista. O sábio de Zürich muito insiste na força de sua vocação como médico - o que já não era, por exemplo, o caso de Freud. Como quer que seja, terapia ou enfermidade, argumentava Camus que escrever é 'por em ordem nossas obsessões'. Mormente, acrescentaria eu, nossas obsessões metafísicas sobre o sentido do absurdo da vida, da morte e do mundo onde divagamos.

O psicoterapeuta é essencialmente um médico da alma e essa virtude representa a que dignificou Sócrates como educador e filósofo - sem que se possa distinguir os dois aspectos da personalidade do mais sábio de todos os ateniense, de todos os gregos e, quiçá, de quase todos os humanos. Quando invocava a maiêutica como método próprio de ensino da filosofia, lembrava Sócrates a profissão de sua mãe que era parteira. O termo grego maieutikos se origina em maia, 'mãe, ama, parteira'. A imagem é que ele, Sócrates, simplesmente ajudava seus jovens discípulos a de sua própria mente extrair verdades eternas que já lá naturalmente se encontravam em estado, digamos, de embrião. Outro elemento fundamental do socratismo, formulado por Platão e repetido nas teses de Voegelin, é a crença que as perturbações da alma individual refletem e, ao mesmo tempo, influenciam as desordens, perversões e crises do grupo social a que pertencemos. Acredito muito nessa idéia e pretendo por ela orientar-me neste esboço.

Muitos pensadores célebres têm afirmado não se importarem se são lidos ou não. Se serão reconhecidos ou não. Seria essa a melhor atitude, mas não seria também a mais difícil? Que o objeto criado corresponda ou não ao que o público espera e aprecia; ou ao que nosso próprio senso crítico pode ou não aprovar - nada disso importa. O que vale é ceder a um ímpeto irresistível de criação que se satisfaz por si mesmo. Um grande número de escritores, mormente entre os mais inseguros, imagina deva sua genialidade receber um reconhecimento póstumo. Em alguns casos, é verdade que tal reconhecimento não se revela em vida, o que é uma tragédia da existência como foi para Kierkegaard e Nietzsche, por exemplo. Nietzsche compreendeu que algumas de suas reflexões eram inoportunas, estavam fora de sua época (Unzeitgemässe Betrachtungen, 1873), não pódiam ainda ser compreendidas. Essa ausência quase total de reconhecimento em vida lhe afetava terrivelmente o amor-próprio e muito contribuiu para o colapso mental que encerrou sua vida ativa. Permitam-me novamente lembrar Flaubert, desabusado como de costume: 'A menos que se seja um cretino, morre-se sempre na completa incerteza de seu próprio valor e do valor de sua obra'. Tal incerteza é nossa sina, é a dúvida perene do pensador e escritor um pouco mais sério que nunca pode adivinhar se é ou não cretino - e se será ou não incluído na galeria do Imbecil Coletivo composta por Olavo de Carvalho....

O que nos importa é o ato em si, o trabalho de gestação, o parto espiritual! Sentimo-nos então como que transportados a um outro mundo, a uma outra realidade, a outra esfera celeste transfigurada por nossas imagens e pensamentos, a visão na perspectiva de um outro universo além daquele em que, na modorra, vivemos a vida banal de todos os dias. Um Universo transcendente, além do da cosmologia? Talvez façamos filosofia quando, conscientemente, procuramos vislumbrar os contornos desse universo através das brumas espessas da própria ignorância. Pois 'o amor da sabedoria' é algo que, fundamentalmente, independe de estudos acadêmicos e pode ser descoberto, em alguns casos, até mesmo no meditar de um velho caboclo analfabeto. Passou o tempo em que só um 'professor de filosofia' podia ser filósofo. Repitamos: Sócrates era um vagabundo de pés descalços, filho de uma parteira, que passeava pela Ágora de Atenas fazendo perguntas idiotas aos jovens ociosos e criticando os heróis da pátria, Milcíades, Temístocles, Péricles, que haviam construídos muralhas, armado esquadras, edificado monumentos, mas se esquecido da defesa da Justiça e da Liberdade. Jakob Boehme era um sapateiro, já o dissemos. E Nietzsche só escreveu grande filosofia depois de largar a cátedra que ocupava na Universidade de Basiléia, para percorrer a Itália e a Engadine suíça como turista erudito que, com dinamite ou a golpes de martelo, escrevinhava compulsivamente seus aforismos explosivos em pedaços de papel. Quanto ao caboclo nosso irmão, lembro-me de haver lido um dia, na Rio/Brasília, na traseira de uma jamanta - onde os caminhoneiros costumam constelar sua sabedoria ambulante - a seguinte frase memorável: 'Para que tanta prosa se no fim é a morte?'. Não é digno do Eclesiastes?

Tudo isso justificaria a tese de Karl Popper, já acima qualificado como um dos maiores pensadores do século, que propunha a existência de três Mundos. Interpreto a tese popperiana do seguinte modo. O primeiro mundo é o mundo da realidade objetiva, fora de nós - o espaço exterior em três dimensões, observado pelos sentidos, vivido na Ação e investigado pelas ciências naturais. O segundo mundo é o que existe em nós mesmos - no 'Eu' de nossa consciência, no universo subjetivo de nossa memória, ações presentes, sentimentos, emoções e expectativas futuras; é o mundo que se estende na dimensão do tempo e persiste no temps durée de Bergson - o Tempo que corta perpendicularmente o primeiro mundo em movimento linear irreversível, no ponto exato em que Eu, presentemente, me encontro hic et nunc. E o terceiro mundo dos que contempla Popper é o de nossas teorias e criações intelectuais. É aquele universo mental, abstrato que, transmitido pela palavra escrita, ouvida, gravada ou representada, configura um universo espiritual que existe em nós e fora de nós, nos sobrevive e permanece após também ter sido salvo do passado que já se foi, em livros, monumentos, quadros, partituras, filmes, fotos, discos e memória megabytes de computador - mundo no qual acrescentaríamos as Artes e que representaria a própria permanência ou sobrevivência da cultura humana. Diziam os romanos: littera scripta manet - a palavra escrita permanece. Os chineses clássicos possuíam tamanho respeito pela palavra escrita em seus ideogramas, dezenas de milhares deles acumulados durante séculos, que sentiam um verdadeiro constrangimento na destruição de qualquer papel em que aparecesse algo escrito. Cuido de novamente mencionar Popper. Sir Karl acentuava que, se por um cataclismo qualquer, natural, ecológico ou bélico, a civilização viesse a desaparecer, sobrando contudo uma única biblioteca bem guarnecida, a Library do Congresso em Washington por exemplo, com seus quinze ou vinte milhões de livros, ou a do British Museum, ou qualquer das grandes universidades ocidentais, poderia a Humanidade, em poucos anos, recuperar o nível de civilização a que havia anteriormente atingido.

Afirmemos que, nos termos de Jung, cria o Inconsciente um liame entre o insignificante e transitório Eu consciente, do presente 'Aqui e Agora', e aquela entidade eterna omnipotente e personalizada a que se dá o nome de Deus e com a qual nos é facultado o diálogo - geralmente por intermédio do Inconsciente, como nas intuições fundamentais da Revelação e nas visões vertiginosas dos profetas. Em termos de memória coletiva, o Terceiro Mundo de Popper não é a mesma coisa. Popper é um positivista, não nos esqueçamos. No meu entender, seu Terceiro Mundo representa a cultura universal, consistindo naquela parte concreta, temporal e terrena, de um Sentido mais vasto, em eterno crescimento com as 'almas' de todos os homens que já viveram e através de cuja memória não mais Eu, mas Nós, todos nós, humanos, a Humanidade, nos movemos através da história em direção a um Fim último, desconhecido mas cuja definição progressiva configura, precisamente, o propósito do Espírito. Como Voegelin parece entender, seria a Filosofia o instrumento intuitivo pelo qual as sucessivas Revelações que de si mesmo fez o Ser transcendente nos atingem e educam. As Revelações nos ajudam a conceber esse Fim. Assim planejamos às escuras o caminho a trilhar para alcançá-lo. Eis por que toda grande filosofia deve, simultaneamente, ser uma Psicologia, uma Teologia, uma Cosmologia e uma Ética.

Ora, qualquer uma dessas veneráveis disciplinas deve começar, como sabiamente aconselhava Sócrates, pela obediência ao sagrado imperativo do Apolo de Delfos, o conhecer-se a si-próprio - Gnothe seauton. Imperativo que igualmente colocava no início de sua meditação religiosa, com o conselho de não a procurarmos lá fora, mas introvertermo-nos, pois é no interior do homem que habita a verdade:

Noli fora ire, inteipsum redi; in interiore homine habitat veritas.



ANAMNESIS

Obedeçamos pois ao princípio introspectivo, abeberado junto à fonte de Castália cujas límpidas águas permitiram à pitoniza vaticinar a sabedoria de Sócrates. O autor é, neste caso, um brasileiro, carioca, nascido em 1917 - ano fatídico que foi aquele em que terminou a maior batalha da história, Verdun, setecentos mil mortos; se iniciou a Revolução russa, que instalou no poder o regime soviético, sessenta milhões de mortos; e entraram os Estados Unidos na Grande Guerra, dez milhões de mortos, preparando-se para a posição de potência hegemônica do século XX. Num contexto de algum modo ordenado com idéias cartesianamente 'claras e precisas', procurarei salientar a correspondência entre as posturas filosóficas e ideológicas, adotadas como contraponto das peripécias da história do planeta, e o decorrido durante os mais de sessenta anos que entremeiam os albores de minha sensibilidade política e o crepúsculo fatídico ora atingido. Foram sessenta anos que tornam tarefa imperativa e urgente traduzir metodicamente os milhares de páginas, escritas e acumuladas ao Deus dará, na memória e no papel, em algo que faça sentido.

O problema psicológico da constelação familiar que me educou é desde logo, neste contexto, relevante. Minha Mãe era filha de um artista português, Frederico Nascimento, originário de Setúbal, que viera ao Brasil dar concertos de violoncelo, casara no Rio Grande do Sul e aqui permanecera, lecionando no Instituto de Música do Rio do qual se tornaria Diretor, praticamente até morrer. Foi mestre da maior parte dos grandes compositores brasileiros. Desse lado da família, foram meus tios incorrigíveis boêmios. Todos morreram cedo, como acontecia na época do Romantismo luso-brasileiro, de tuberculose - e um deles nos deixou com dois irmãos adotivos. Contrabalançando a disciplina paterna, deparei-me portanto com o exemplo de um liberalismo artístico que minha Mãe fortemente corrigia, quando necessário, com as estrituras de um código moral raramente violado. O ambiente de estúrdia sem periculosidade pendia francamente, desse lado, para a atmosfera psíquica em que dominava o intuitivo, o afetivo, o incoerente, o musical e o estético.

O componente político e religioso do complexio oppositorum não era banal. Originária do litoral norte de São Paulo, S. Sebastião e vale do Paraíba, a família de meu Pai, Gonçalves de Araujo Penna, era enorme (tive mais de quarenta primos irmãos). Tipicamente pequeno-burguesa, algo provinciana e conservadora, donde fortemente católica (um primo foi bispo e uma prima superiora de convento do Sacré Coeur) - ela gerou contudo um setor radical (um almirante linha-dura, Levy Reis, e um guerrilheiro urbano, Daniel Aarão Reis no período repressivo do general Médici). Desse lado, o pedigree mais relevante é o da avó paterna, Joana de Meira. Segundo ouvi de um provável primo longínquo, o general Meira Mattos, os Meira procedem de um tronco galego (da Galícia espanhola) mas são também descendentes de um dos primeiros povoadores do Brasil, João Ramalho, cujos rebentos se estenderam de São Vicente para aquela área paulista.

Meu pai na adolescência fora republicano. Contava-me que, ainda garotinho, costumava correr atrás da carruagem do Imperador, a partir do Largo de São Salvador onde morava a família, quando Pedro II ia visitar a Princesa Isabel e o conde d´Eu no Palácio Guanabara. Dava então um heroico 'Viva a República' - grito que Sua Majestade acolhia, detrás de suas venerandas barbas brancas, com um sorriso galhofeiro de boa vontade e um paternal aceno da mão. O pendor republicano e autoritário paterno iria combinar-se com uma grande admiração por Floriano. Estava no sangue, se poderia dizer. Um irmão mais velho, Antonio de Araujo Penna, foi como estudante de medicina aprisionado pelos marujos rebeldes no combate da Ponta da Armação, ao tempo da Revolta da Esquadra. O florianismo estendeu-se ao positivismo e converteu-se, na vida de meu pai, em amizade e admiração pelos sucessores de Júlio de Castilho, especialmente Pinheiro Machado. Apoiou também o Marechal Hermes da Fonseca, ainda que amigo de Rui Barbosa. Veio mais tarde o interesse, superficial embora, por temas relacionados com o pensamento de Augusto Comte - divagações positivistas que foram estimuladas durante sua permanência em Paris.

Embora sem qualquer comprometimento político, mas por convicção invariável e temperamento favorável aos poderes constituídos, inclusive o poder algo arbitrário e policialesco à época do Presidente Artur Bernardes - meu pai não hesitou em se entusiasmar com a revolução de 30, dita 'liberal', uma fraude que trouxe ao poder o chefe castilhista gaúcho Getúlio Vargas. Lembro-me claramente desse período de agitação que se agravaria nas três ou quatro décadas seguintes - o ciclo turbulento da grande crise do sistema político brasileiro, a lenta e árdua transição, longe de encerrada, de um regime patrimonialista autoritário, incompetente, corrupto e bom-moço, herdado do colonialismo português, para um sistema democrático de modelo norte-americano. Em 1932, recordo acaloradas discussões em casa, com referência à repressão do movimento constitucionalista de São Paulo.

Comecei portanto a vida na atmosfera criada pelo temperamento autoritário, de pavio curto e veleidades positivistas de meu Pai, com seus preconceitos castilhistas concernentes às vantagens da 'ditadura republicana', sua admiração pelo Marechal Floriano e os ensinamentos de Oliveira Viana sobre o valor instrumental do governo forte, militar se necessário, no estágio de desordem em que se encontrava - e, aliás, até hoje se encontra o Brasil. Bem no centro do contencioso ideológico do século, foram décadas de progressiva evolução na vaga direção do liberalismo de que, a princípio, não me dei conta. Mas quem não evoluiria de tempos em tempos, mudando de opinião num tal largo decurso cronológico, ainda que sempre orientado numa constante direção? À medida que crescia em idade e hierarquia, mais impaciência me causava a irracionalidade estúpida do Dinossauro burocrático, o Leviatã de corpo imenso, cérebro minúsculo e reações extremamente lentas a qualquer estímulo. A concretização da negativa em seguir o 'caminho da servidão' por Hayek denunciado, iria ocorrer muitas décadas depois, já aposentado. A irritação que sempre me causou a irracionalidade e irresponsabilidade de nosso povo - 'ce ne sont pas des gens sérieux' do polêmico aforismo gaullista - me inspiraria, mais tarde, a tentar uma explicação ou justificativa do caráter nacional, sem porém deixar de me colocar em atitude contenciosa com a realidade que era chamado a considerar, quando enfrentando não a intelligentzia, mas a burritzia tupiniquim...

O Catolicismo de meu Pai era superficial, o que quer dizer, pendia muito mais para o mundano (no sentido de la bonne société), do que para o místico - em contraste considerável com o que então se chamava de atitude 'livre pensadora' da família de minha Mãe. A ausência de religiosidade do componente materno correspondia à de seu próprio Pai lusitano, o que contribuíu para praticamente me privar de educação religiosa. Uma tal ausência pode, às vezes, ter menos consequências do que uma reação radical à opressão das beatas. Lembremos que dois dos mais eminentes 'gnósticos' do século passado e do atual foram Nietzsche e Jung, ambos filhos de pastores protestantes. Consequentemente, minha própria jornada religiosa foi ziguezagueante, contraditória e atravancada.

Social e culturalmente, o ponto chave foi a circunstância que, nos dez primeiros anos de vida, vivi num ambiente de elegante bem-estar e fartura burguesa, acumulados por meu Pai. Era ele dono de uma indústria farmacêutica homeopática que se ampliou com a substituição de importações ao tempo da Iª Guerra Mundial. A residência onde nasci, um pequeno 'palacete' com torrezinha e tudo, à Avenida Oswaldo Cruz, então uma das mais aristocráticas do Rio, era acrescida de uma velha casa em Petrópolis, na rua Ipiranga, hoje tombada, onde fugíamos da canícula carioca.

Eu tinha dez anos de idade quando meu pai nos levou, toda a família, para a Europa. Permanecemos três anos em Paris, de 1927 a princípios de 30, e durante esse período excursões ocasionais à Itália, Suíça, Alemanha, Bélgica, Holanda e Espanha infectaram-me com o vírus da aventura turística de que sofro até hoje. Na verdade, posso penetrar em meu próprio Inconsciente e descobrir uma espécie de procura irreal obstinada do Graal, que deve estar escondido alhures, em algum recanto obscuro de um qualquer dos cinco continentes. Em meus sonhos, paisagens desconhecidas de alguma terra ignota em que penso haver vivido, em outra encarnação, são temas recorrentes, imagens oníricas de sempre. Tomei, de qualquer forma, um gostinho de Europa, um sabor de civilização que jamais me largou. Foi influência decisiva na escolha da diplomacia, a única carreira que, à época no Brasil, granjeava uma abertura, digamos existencial, à cultura universal.

Em Paris, logo naturalmente desenvolvi o gosto pela cultura e o conhecimento da língua francesa que já principiara a conquistar no Lycée Français, no Rio de Janeiro, e com uma governanta que esteve agregada à família de 1927 a 1987, durante sessenta anos! Na capital francesa, cursei o Liceu Janson de Sailly, localizado no elegante bairro de Passy, rive droite naturalmente. No Janson, adquiri alguma experiência na língua e cultura, juntamente com o gosto pela história - disciplina cuja aprendizagem foi decisivas à vocação para a carrière, com a formação intelectual e alguma erudição francófila que posso reclamar. Em princípios de 1930, entretanto, a crise econômica e a desvalorização cambial, reflexos da Grande Depressão e dos problemas do café, obrigaram meu pai ao melancólico retorno ao Rio de Janeiro, tendo eu então doze anos. Algo mais traumatizado ficara, porém, com a ruptura da família e a separação semi-litigiosa de meus pais - minha mãe, irmã e os dois irmãos adotivos permaneceram em França por mais três anos.

Chegando assim à puberdade e adolescência, ia se caracterizando o interesse emergente por outras áreas da política, da psicologia e do pensamento filosófico. Foi nesse período, dos 14 aos 18 anos, que comecei a ler Freud. Eu mantive uma lista cronológica de tudo que leio durante praticamente toda a vida. Posso assim avaliar as variações das tendências de minha curiosidade. A psicanálise me impressionava de modo ambivalente, tanto como fascínio quanto pelo desagrado com o redutivismo obsessivo do sexo, destilado pela obra de Freud. Principiavam a desenhar-se, concomitantemente, os aspectos negativos do complexo de Édipo. Mais apropriadas contudo, na realidade, me pareciam as teses dissidentes de Alfred Adler sobre o 'complexo de inferioridade' e as reações do 'protesto viril', pois a extrema introversão (inata ou adquirida?) me escarmentava com uma timidez quase doentia - situação a que melhor se adaptava a hipótese adleriana, inspirada em Nietzsche. A leitura da obra de Bergson encetou a fascinante aventura de incursões cada vez mais ativas no campo do que já se poderia qualificar como um arremedo de pensamento filosófico. Tambem na época, além de leituras de história e literatura vária (uma mania de H.G.Wells por exemplo, que durou alguns anos), muito lí Keyserling. Na época, o pensador teuto-russo gozou de certo prestígio, hoje está quase olvidado. Suas 'Meditações Sul-americanas', no entanto, configuram uma análise das melhores que foram jamais feitas sobre o Brasil, nossa mentalidade e cultura.

Foi também por essa época de delírios imaginativos da adolescência que me entusiasmei pela ciência em geral e a astronomia em particular, graças a um livro de divulgação popular da ciência pelo astronomo e publicista Camille Flammarion. Cheguei a construir uma espécie de pequeno telescópio, com uma luneta montada em aparelhagem de Mecano. A Lua mais me atraía como objeto de pesquisa visual e divagações futuristas de viagens 'espaciais' ao satélite, do que como 'atalaia ofélica dos viajores perdidos' da imaginação poética. Muitos anos mais tarde, o problema dos OVNIs, dos E.T.s e da pluralidade dos mundos habitados voltou a intereesar-me e escrevi um livro de ficção, de tom humorístico, com o título URANIA, para o qual não encontrei ainda editor. A ciência (para satisfação de minhe Mãe, que fora amiga de Charles Richet, um dos grandes sábios do século, descobridor da anafilaxia e Prêmio Nobel em 1913) permaneu como curiosidade paralela no correr da vida.

Entretanto, a consciência política só principiou a brotar aos sobressaltos em 1935, após o Vestibular para a Faculdade de Direito, então localizada num pardieiro da rua do Catete. Com entusiasmo passageiro, eu havia lido uma obra do socialista francês Jean Jaurès - assassinado em agosto de 1914 por ser germanófilo. Na Faculdade - e já então com 17 anos - descobri a existência de uma crescente dicotomia ideológica, um verdadeiro maniqueísmo de horrendos resultados históricos, pois deixou um vírus que contaminou o século. A década dos 30 iria configurar o violento confronto dos 'extremismos', como assim eram então classificados, que se radicalizou com a Guerra Civil espanhola, um dos estopins da IIª Guerra Mundial. No Brasil, facultou a ditadura varguista… A sedução da parte mais considerável do corpo discente pelo canto de sereia do romantismo dito de 'esquerda' - o comunismo que não gostava de se identificar como tal - foi seu reflexo saliente na Faculdade. Eles acompanhavam os professores Leônidas de Rezende, Hermes Lima e Castro Rebelo em sua gororoba positivista/marxista. Leônidas de Rezende era o mais popular. Suas aulas de Introdução à Ciência do Direito faziam uma teimosa distinção simplória entre o que ele chamava os 'bons filósofos', os monistas, e os 'maus filósofos', os dualistas. Entre os bons monistas, defendendo as Termópilas da ideologia, destacavam-se Demócrito, Lucrécio, Spinoza, Bruno, alguns enciclopedistas franceses, creio, Rousseau e depois Marx, Engels, Comte, Darwin, Trotski e Haekel, um biólogo de segunda categoria que despertava enorme interesse no emérito catedrático. Entre os 'maus' dualistas se alinhavam, naturalmente, Platão, Aristóteles, Santo Tomás e, na modernidade se não me engano, Kant, Bergson e alguns outros - todos atirados ao Aqueronte do obsoletismo reacionário. Um outro grupo de estudantes, formados em ordem unida à 'direita', se congregava em torno do professor 'nacionalista' Alcebíades Delamare, cognominado 'o Pátria Amada'. Um terceiro grupo, provavelmente o mais numeroso e com certeza o mais prudente, abstinha-se de tomar partido: era o dos neutros, democratas ou, ocasionalmente, os varguistas e candidatos a emprego público, que brilhavam pelo silêncio total e pesado. Posteriormente aos eventos de 1935, foram Hermes Lima, Castro Rebelo e Leônidas demitidos da Universidade. Hermes Lima, porém, chegou a ser Primeiro Ministro, Chanceler e Ministro do Supremo no Governo Goulart, em 1962/63. Nas eleições para o Diretório Acadêmico foi eleito uma cintilante figura que já se distinguia nos estudos, na retórica e na empáfia. Seria, mais tarde, meu colega no Itamaraty. Tendo entrado para a carreira em concurso ulterior, eu só o conheceria pessoalmente em 1953/54, em condições particularmente polêmicas, ambos Secretários de nossa Missão junto às Nações Unidas em Nova York. Recordo igualmente de uma bem concorrida conferência de Gilberto Amado no Centro Oswald Spengler - que presumo se destinava a angariar simpatias para o eterno Chefe do Governo Provisório, prestes a enfrentar um dos mais sérios desafios à sua liderança.

Foi ao final desse primeiro ano acadêmico de 35, ou mais exatamente no dia 27 de novembro, que se registrou a chamada 'Intentona' comunista, de importância decisiva na evolução de minhas convicções políticas. Não me vou estender sobre as origens do movimento, o que não cabe nestas memórias. Registro apenas que, nessa época, vivia minha mãe, seus dois sobrinhos, irmãos adotivos, e minha irmã Maria Cecília, numa rua da Urca, Ramon Franco, que, saindo da Avenida Pasteur, se defrontava com o quartel do 3º Regimento de Infantaria, sediado num antigo pavilhão de exposições da Praia Vermelha. Eu morava com meu pai em Copacabana. Por volta das duas e meia da manhã, fomos despertados por um telefonema de minha mãe que, apavoradíssima, anunciava estar sua casa recebendo balaços do tiroteio infernal que arrebentara no quartel próximo. Dizia-se temerosa pela própria vida e a de seus filhos. Deitados todos no chão da sala de visitas, assim se protegiam da metralha.

O dia estava escuro, chovera pela manhã. O caminho barrado no Mourisco pela artilharia legalista que bombardeava os rebeldes. Só à tarde, por volta das dezesete horas, me foi possível alcançar a Urca e visitá-los. A casa apresentava, efetivamente, o estrago de buracos de bala e toda a área da Avenida Pasteur oferecia o espetáculo lamentável de um campo de batalha - galhos no chão, vidros quebrados, um automóvel destruído e queimando, sujeira por toda a parte e, no fundo, na perspectiva da própria avenida Pasteur, a cúpula do edifício do quartel em chamas. Acabava de passar, naquele momento, um grupo de oficiais revoltosos. Aprisionados e acompanhados pelas tropas do comandante da Vila Militar que suprimira a rebelião, o general Eurico Gaspar Dutra, futuro Presidente, os rebeldes não pareciam acovardados. Estavam maravilhados com a farra. O sangue os embriagara…O que mais me irritou porém, ao sair da casa materna, ainda traumatizada com o drama vivido, foi encontrar um grupo barulhento de colegas da Faculdade, conduzidos pelo acima aludido Presidente do Diretório Acadêmico, às gargalhadas diante do espetáculo teatral que haviam presenciado. Eu estava reagindo, ao contrário, com indignação. A brutalidade inédita do conflito me parecia absurda. A reação emocional foi agravada quando assisti à passagem de soldados feridos que enfermeiros militares e civis tentavam carregar até uma ambulância próxima. A vista do sangue me nauseou - um sintoma frequente na adolescência, encobrindo quiçá uma agressividade recalcada. A repulsa pelo ocorrido se agravou, dia seguinte, ao ler nos jornais sobre o alegado assassinato de seus colegas de quartel que dormiam, pelos oficiais revoltosos que assim pretendiam no assegurar o sucesso do golpe.

A 'Intentona' teve consequências históricas relevantes. Detrás das polêmicas que provocou, sabemos hoje, graças à documentação obtida em Moscou após o colapso da URSS em 1989/91, que o movimento fôra preparado com destacada inépcia. Líder do golpe, o camarada Luís Carlos Prestes havia persuadido os dirigentes do Comintern que, mergulhado na desordem após a Revolução de 30, estava o Brasil maduro para uma revolução de estilo jovem do Exército, liderada pelos 'tenentes', aderiria ao chamamento carismático do bolchevista ou mexicano. Não deviam esperar qualquer reação militar, eis que a oficialidade 'Cavaleiro da Esperança' e derrubaria o desprestigiado Presidente da República. Assim mal preparado, o putsch no Rio de Janeiro foi conduzido por uma dúzia de cabecilhas que, na Escola de Aviação do Campo dos Afonsos e no quartel da Praia Vermelha, foram facilmente desbaratados, respectivamente pelo então coronel Eduardo Gomes e pelo general Dutra. No Nordeste, a repressão foi ainda mais fácil. Em Natal, um rico 'coronel' e futuro Senador, Dinarte Mariz, liderara uma centena de jagunços, arregimentadas das fazendas vizinhas, os quais em meia hora puseram a correr os mal armados e comandados pobres diabos que haviam ocupado a capital do Rio Grande do Norte. Ficção ou não, o assassinato dos colegas que dormiam no quartel do 3º Regimento ao se iniciar o levante, repercutiu de modo profundamente negativo entre as Forças Armadas, gerando um trauma saudável, até hoje não arrefecido. Sem imaginar o erro cometido, os partidário do líder do PC criaram um mito diametralmente contrário ao da Grande Marcha da Coluna Prestes, injetando um anti-vírus que para sempre imunizou grande parte do Exército do credo totalitário. É possível que, sem o 27 de novembro, não teríamos tido uma oficialidade tão visceralmente anti-comunista quanto aquela que, décadas mais tarde, derrubaria os epígonos calhordas do esperançoso Che Guevara brasileiro, junto com Goulart, Brizola e companhia. A repressão da Aliança Nacional Libertadora serviu, além disso, ao espertíssimo Getúlio para, na surdina, preparar sua versão particular da 'Ditadura Republicana' castilhista - assegurando-se do apoio da 'direita', no Exército e no movimento Integralista, para o próprio golpe que cuidadosamente aprontava.

O sentimento de revolta diante do ocorrido com um levante de objetivos tão contestáveis se externou, dois ou três meses depois, pela minha inscrição na Ação Integralista Brasileira. Do movimento do Sigma participei até novembro de 1937 - durante dois anos portanto. Foi um período em que frequentava superficialmente a Faculdade e me encontrava, simultanea e pesadamente, ocupado com os estudos intensivos para o concurso do Itamaraty. O desvio para o caminho do suposto 'fascismo' tupiniquim, vestindo uma camisa verde e aos gritos de 'anauê!', não teria sequelas duradouras em minha mente, como veremos a seguir. Teve-as, porém, na carreira. Adquiri na Casa a reputação de 'fascista reacionário' que me acompanhou durante os quarenta e tantos anos seguintes.

Na realidade, a alternativa de um coletivismo belicoso, uniformizado e algo ingenuamente patrioteiro, para combater um outro, terrorístico, cafajeste e desclassificado, só podia conduzir a um impasse. A verdade é que, nesses dias de 1935, começava a medrar uma idéia que exigiria décadas para florescer em minha mente: a que o caminho a trilhar seria repleto de repugnantes contradições entre o Leviathan - o Estado burocrático, totalitário e interventor, o 'mais frio de todos os monstros frios' como o descreveu Nietzsche, de um lado - e o Behemoth da multidão revolucionária, arruaceira, ululante e destruidora do outro. Fortaleceu-se em mim, na verdade, uma entranhada ojeriza a esses aspectos, antitéticos mas complementares, da famosa 'rebelión de las masas' a que se referiu Ortega. Não sei o que é pior, se a visão de cem mil nazistas perfilados em perfeita formação geométrica diante da Cruz Gamada num campo de Nuremberg, para o congresso do Partido (ou espetáculos semelhantes nos desfiles militares da Praça Vermelha em Moscou, ou do 'Exército Popular' da Coréia do Norte em Piong Yang); ou a de uma multidão vociferante de cem mil baderneiros percorrendo uma artéria urbana, gritando slogans, quebrando janelas, enfrentando a polícia (que, geralmente, 'reage com brutalidade', como argumentam os locutores de televisão) e procurando derrubar De Gaulle no Quartier Latin ou Castello Branco na avenida Rio Branco. Este último tipo de espetáculo só por duas vezes me entusiasmou: quando um jovem estudante dissidente deteve um tanque na praça da Paz Celestial, em Beidjing, e quando o ditador Ceaucescu foi vaiado pela multidão, poucos dias antes de ser detido e fuzilado pelo exército em Burareste. A política, a meu ver, é isto: a arte de navegar entre Scylla e Charybdis, o que quer dizer o Leviathan do Estado absolutista e o Behemoth da multidão desembestada. Acabei reconhecendo o trágico dilema. Algumas vezes temos que utilizar os préstimos de um dos monstros para derrubar o outro. Behemoth para derrubar Ceaucescu, por exemplo; Leviathan para derrubar a canalha, como o fizeram Franco, na Espanha, e Pinochet no Chile. O recurso é, contudo, invariavelmente perigoso, extremamente perigoso...

Não pretendo haver compreendido Nietzsche. Li o 'Zarathustra' em estado de semi-embriaguês intelectual, numa adolescência solitária e tímida. Em sua 'Genealogia da Moral', Nietzsche bem descreve a repressão institucionalizada que a Moral do Rebanho, Herdenmoral, impõe não apenas à 'psicologia de massas' do Fascismo, como querem os fátuos gurus ideologicamente condicionados pelo Neo-marxismo da Escola de Frankfurt, mas à psicologia de massas de todo totalitarismo, esquerda ou direita - de linha mussoliniana, hitlerista, leninista, maoísta, fidelista ou chavista. Talvez a aversão simultânea a toda baderna desordeira e a toda submissão à estupidez da rotina burocrática plantava o germe de uma eventual conversão libertária - sendo entendido que o preço da liberdade está, justamente, na disciplina de uma ordem interior, admitida e responsável. A Ética da Responsabilidade de que falou Weber, Verantwortungsethik.

Recordo um pequeno episódio que, com o passar dos anos, hoje me diverte pelos seus paradoxos. Meu 'Chefe' no Departamento de Relações Internacionais da AIB era o Antonio Gallotti, personalidade admirável que se ia tornar, futuramente, um advogado famoso, o rico e poderoso Presidente da Brazilian Traction, a 'Light' de augusta memória. Com ele e com seu 'vice', o hoje igualmente notório Gerardo Mello Mourão, fomos ao Hotel Glória para entrevistar um intelectual ianqui, Samuel Putnam. Depois de explicarmos os propósitos do Integralismo, o prestigioso tradutor da literatura brasileira, manifestou-nos amigavelmente a opinião que o valor supremo era a Liberdade. Ao sairmos da entrevista, comentamos como anacrônico era o tipo - sem nos darmos conta, evidentemente, que poucos anos depois estaríamos nós mesmos, Gallotti e eu, convencidos da justeza de sua postura… Putnam, no entanto, já era ou se tornou marxista, uma contradição...

Mas voltemos à cronologia dos eventos. O golpe de 10 de novembro de 1937 foi um dos planos maquiavélicos mais bem arquitetados que regista a história, não só a do Brasil mas de toda a América Latina. Não cuido de me deter aqui sobre o episódio. Basta lembrar que, logo depois de 'decretado' o Estado Novo, um outro decreto ditatorial aboliu todos os partidos e todos os movimentos políticos, inclusive a própria Ação Integralista Brasileira que sustentara as ambições do ditador. O movimento foi eliminado sem dar um pio. Nada de autenticamente 'fascista' nessa passividade… Dei-me conta então de quão tola, ridícula e humilhante havia sido minha própria participação na 'marcha dos 50.000' que, dez dias antes do golpe, haviam percorrido o trajeto da praça Mauá a Botafogo, entrando pela ruas das Laranjeiras e Pinheiro Machado, e desfilando aos gritos de 'Anauê!' diante do palácio Guanabara. Lá na sacada estava o gordinho genial, com seu eterno 'sorriso da Gioconda', ladeado pelo general Newton Cavalcanti. O comandante da guarnição da Vila era o mesmo que a ingenuidade de nossos 'chefes' havia convertido num cripto integralista, pronto para sustentar a AIB com mão forte, caso algo atrapalhasse a antecipada 'tomada do poder'. Registro apenas o sentimento de desgosto, frustração e certa dose de ira pela 'traição' do Getúlio, sentimento que veio imediatamente à tona na mesma noite de 10 de novembro, quando o Pai dos Pobres fez seu discurso monótono, justificando seu 'Estado Novo' patrimonialista-castilhista-personalista - sem uma palavra siquer de agradecimento pelo apoio que recebera daquele que transformara, da noite para o dia, em palhaço impotente, Plínio Salgado, o fracassado 'Condestável' do Brasil integral.

Os ressentimentos explodiriam em maio do ano seguinte. O malogrado putsch, comandado por um oficial que nem mesmo era integralista, o capitão Fournier, contra aquele mesmo palácio Guanabara perante o qual havíamos desfilado seis meses antes, foi um exemplo prodigioso de golpe de mão inacreditavelmente mal concebido e executado. Mais aguda humilhação secretamente ressenti quando, pouco tempo depois desses eventos, fomos todos, os funcionários do Itamaraty como os de outros ministérios, 'convidados' a participar de outro desfile, desta vez no campo do Fluminense, contíguo ao palácio, para homenagear o ditador o qual, na ocasião, abriu o sorriso galhofeiro em larga e satisfeita gargalhada: tinha razões de sobra para isso…

A monumental rasteira que o caudilho, no qual ia o Brasil 'depositar sua fé e esperança', perpetrara, não só contra o Integralismo, mas contra os 'liberais democratas' (Armando Sales Oliveira, o coronel Euclides de Figueiredo e Otávio Mangabeira, entre outros, que contra ele conspiravam, incluindo maragatos e chimangos como Flores da Cunha e talvez mesmo João Neves da Fontoura e Borges de Medeiros), comportou o primeiro desapontamento memorável de minha carreira de 'observador engajado'. Custou-me décadas para perceber o que se passara. No fundo, o Getúlio não fora só culpado de introduzir no país o autoritarismo positivista de Júlio de Castilhos, antes confinado ao Rio Grande do Sul. Acoplado com o caudilhismo gaúcho, de indisfarçáveis raízes hispânicas e perversas consequências no reforço trazido ao patrimonialismo e clientelismo tradicionais de nosso sistema político, 'o Pai dos Pobres' (e 'mãe dos ricos'…) criara um poderoso precedente sebastianista que legitimou o corporativismo institucionalizado e até hoje nos afeta, sessenta anos depois. O Jânio utilizou o paradigma de modo inepto e tresloucado. O calhordíssimo Brizola carregou posteriormente o fantasma, ladeando o Lula. Este Neanderthal ainda tenta fazê-lo.

Mesmo no Brasil, em que pese nosso temperamento mais cordato e submisso, conhecemos pela primeira vez a figura do caudilho-tipo na pessoa deste 'Dr.' Getúlio. (Incidentalmente, 'Dr.' foi o máximo título nobiliárquico concedido pela República, como o de 'Duque' no Império, que só Caxias recebeu. Na República tivemos dois Doutores, Getúlio e Ulysses, ambos responsáveis pelos dois maiores monstrengos constitucionais de nossa história, as Cartas de 1937, a 'polaca', e de 1988, a dos 'miseráveis'). Me havendo deixado virtualmente seduzir, na adolescência, pelo apelo do coletivo e contaminar de ideologia - passei depois longos anos para me imunizar e purificar do vírus das multidões, organizadas ou caóticas. Não que dedicasse uma particular admiração, fidelidade ou devoção reverente por qualquer dos políticos que se projetaram na ribalta. Nenhum jamais para mim representou qualquer tipo de figura paterna ou 'Grande Irmão' que atraísse os eflúvios libidinosos das massas, como Freud sugerira em seus ensaios de Psicologia Coletiva. Pouco igualmente cheguei a bem conhecer ou compreender o Getúlio. Mais perplexo ainda ficava ao assistir, no noticiário visual então transmitido pelo cinema, a histrionice aterrorizante do Führer alemão, a teatralidade meridional, algo ridícula, do Duce de ópera italiana, ou a figura do tártaro enigmático, o Tio Zéca Stáline. Tiveram eles vários epígonos, no Brasil e alhures, mas todos passaram a me causar verdeiro asco.

Quanto à única oportunidade de contacto direto mantido com o 'Dr.' Getúlio, vale a pena descrevê-la. Em meados de 1940, pouco tempo antes da partida para o primeiro posto no exterior, fui promovido 'por antiguidade'. Era uma promoção automática, resultante do aumento dos quadros do pessoal que não comportava qualquer favor a mim concedido pelas autoridades. Mas por simples questão de boa educação, resolvi acompanhar ao Catete os outros colegas, da promoção 'por merecimento', para 'agradecer' o nobre e generoso ato de Sua Excelência. No palácio, fomos sendo apresentados, um a um. Todos os nomes nele despertavam alguma recordação pessoal: Fulano, filho do Almirante X, 'meus parabens, jovem Secretário, tua promoção foi muito merecida'; Sicrano, 'ah! teu Pai é grande amigo meu, lá de Pelotas, como vai ele? Recuperou-se de sua enfermidade?'; Beltraninha, 'o Pai de Você não é aquele juiz no Amazonas, não é? Sei quem ele é… Parabens, minha filha. Faça uma bela carreira...'. E assim por diante, Getúlio continuou, dezenove Segundos e Primeiros Secretários, todos encantados. Mas quando chegou minha vez, o munificente Grande Irmão empacou: 'Meira Penna? Meira Penna?'. O nome evidentemente não lhe despertava qualquer tipo de conexão de política, compadrio ou amizade. Passou adiante, sem dizer outra palavra.

De fato, meu Pai havia sido amigo de quase todos os Presidentes da República Velha, frequentara o Palácio do Catete como fazia a alta sociedade carioca daquela época. Mas a conexão se rompera com a Revolução de 30. Minha presença entre os rebentos da ilustre aristocracia patrimonialista federal (os 'Príncipes da República' como se vangloriavam os vaidosos) era meramente circunstancial. Eu fizera concurso e nele fora aprovado, sem necessidade de qualquer pistolão. Não precisava enquadrar e suspender na parede o Decreto assinado por Sua Excelência. Estava completamente fora da vasta e complexa tessitura de favores e obrigações clientelistas que constituiam a infra-estrutura do Poder, de estilo patrimonialista, sobre o qual se sustentava o homem predestinado no qual 'o Brasil deposita sua fé e esperança' (para usar as expressões do DIP). Pertencia a uma nova figura abstrata que principiava a surgir. Era a do 'profissional' independente e futuro 'tecnocrata', recrutado por concurso e destinado a preparar a emergência do país como democracia liberal nas décadas futuras.

Fui aos poucos forçado a admitir que, não só minhas simpatias se viravam cada vez mais para o lado dos liberais da futura UDN mas que, talvez sem exatamente ter consciência do que fazia, Getúlio Vargas teve pelo menos um mérito incontestável: preservou-nos de atropelos bem mais graves, caso houvesse permitido o livre crescimento no Brasil dos dois irmãos inimigos, das duas ideologias complementares de 'esquerda' e 'direita', cujo confronto nos poderia haver conduzido a trágicas aventuras durante a guerra mundial que, a passos largos, se aproximava do outro lado do Atlântico. Dos males, o menor. Antes um caudilho um tanto borocoxó e necessariamente mortal, com seu charuto e barriguinha de coronel dos Pampas, bem alimentado, do que um déspota sanguinário e eficiente, do tipo de um Lênine, um Stáline, um Hitler, um Mao, Pol Pot, Kim Ilsung ou Fidel.

Outras figuras 'carismáticas', que ulteriormente se manifestaram em nosso cenário político, também falharam. Carlos Lacerda por exemplo. Homem de admirável encanto e inteligência - com quem tive algum contacto quando apareceu em Nova York, auto-exilado em 1955, e depois em seu sítio de Petrópolis nos anos 60 - Carlos Lacerda sempre me deu a impressão de ser excessivamente impulsivo, incoerente e ambicioso para merecer a suprema liderança que tão obstinadamente perseguiu. Foi finalmente tragado pelo próprio regime militar que tanto contribuira para estimular - e cuja teoria justificadora ouvi, com meus próprios ouvidos, desenvolver num seminário na Universidade de Columbia, Nova York, perante um auditório assombrado e escandalizado, composto principalmente de exilados e perseguidos de outras ditaduras de generais latinos. Lacerda pretendera - imaginem só! - que os militares brasileiros seriam os únicos capazes de impor a democracia no Brasil, porque só o Exército era o partido da classe média. Em 1967/69, a questão foi posta à prova. A hipótese falhou...

Na análise que empreendi da evolução paralela de minha atitude e posicionamentos no terreno da política interna brasileira, face à situação internacional, confesso que custei a me dar conta que estava enfrentando uma problemática bem mais complexa do que inicialmente avaliara. Para combater um totalitarismo, eu havia originariamente simpatizado com outro movimento, de ideologia igualmente autoritária e estatizante. Tinha que repensar toda a questão e repelir as simplificações apressadas. Talvez fora essa necessidade o que me conduziu ao interesse pela filosofia política, enquanto as experiências subjetivas me inspiravam algo como o clima do 'existencialismo' - uma dicotomia permanente na atitude ora extravertida, ora introvertida.

Nosso século é, essencialmente, um século político. A política tudo invadiu, tudo orientou, tudo contaminou, sobretudo num sentido de mentira e propaganda, violência brutal e confrontos de opinião. Leviathan e Behemoth de mãos dadas foram os Mestres da Mentira que, como intuiu Kafka, se tornou a Ordem universal. A ideologia configurou a religião-ersatz ou pseudo-religião civil de uma época de imanentização da ética e coletivização igualitarista, ao nível da mais baixa vulgaridade. O parricídio simbólico fixou a obsessão da idade. Não é só que 'Deus morreu e fomos nós que o matamos', como propunha Nietzsche. O fenômeno dominante da psique coletiva consistiu em destruir a imagem simbólica da ordem patriarcal e, como resultado, tivemos o movimento revolucionário em seus aspectos mais grosseiros, com o surgimento de um Grande Irmão, mais cruel e detestável do que jamais se revelara o Patriarca de antanho. Mesmo no Ocidente democrático, a rebelião contra a antiga Ordem hierárquica, implícita na postura liberal, uma atitude em última análise positiva, veio de cambulhada com componentes anárquicos e niilistas, gerados pelo complexo homicida ambivalente (o de Édipo...), bem mais salientes do que a face construtiva da ética da responsabilidade individual, exigida pela conjuntura

Depois da Idade das Guerras e das Revoluções, estamos entrando na Idade do Crime. La Rebelión de las masas acarretou, eminentemente, uma submissão servil e masoquista aos grandes tiranos criminosos. A ideologia nacional-socialista contem em seu bojo a ignóbil aceitação do chicote do Grande Irmão. Na realidade, dominou o Grande Feitor, capataz, cacique ou feiticeiro representativo da imagem-ideal do ídolo tribal, o King Kong fantasmagórico com que, em seu 'Totem e Tabu', pretendeu Freud explicar o Complexo de que, coletivamente, sofreria a Humanidade. Como conciliar a liberdade almejada com o desejo de ordem e segurança que, na aparência, só o coletivismo garante através de um Estado forte? 'Direitos naturais', 'direitos do homem', 'direitos adquiridos', certo. Mas como assegurá-los sem os riscos da arbitrariedade estatal? Foi o tema que procurei cobrir, talvez sem grande sucesso, na obra 'O Dinossauro', publicada em 1988. Impecavelmente apresentado pela editora T.A. Queiroz, porém mal distribuído e privado de divulgação nos media, a obra foi um triste fracasso editorial. Uma das teses originais que aí defendi é a do contraste entre os dois desejos ou impulsos básicos do homem, o de segurança e o de liberdade. O paradoxo salientado é que a vontade de segurança a fim de evitar a guerra de todos contra todos, fundamentando o Estado, se coloca na origem do Contrato Social de Hobbes, ao passo que a liberdade figura no de Rousseau. Ora, o Leviathan do primeiro conduzirá ao Liberalismo moderno enquanto a Rousseau é corretamente atribuída a gestação, pela influência que exerceu sobre os Jacobinos franceses, do totalitarismo de nosso século. O livro pretendeu constituir uma análise do monstruoso Estado moderno com sua religião civil, seu 'patrimonialismo selvagem', sua burocracia corrupta, sua Nomenklatura e a 'Nova Classe' de intelectuais de esquerda que se transformavam em 'intelectuários' (o termo magnífico inventado por Gilberto Freyre para designar o intelectual que deseja tornar-se funcionário público, ou o funcionário que pretende ser promovido a intelectual), todos sedentos de poder e bem remuneradas mordomias.

Volto aos pontos relevantes deste currículo, retornado ao fio da meada autobiográfica.

Na Carreira

Foi ao final do ginasial no Liceu Francês, preparando-me para o vestibular da Faculdade de Direito por falta de outra opção, que surgiu a proposta, espontaneamente apresentada por minha irmã, de ingressar na carreira diplomática através de concurso. O carioca tem vocação automática para o serviço público. Faz-se um esforço inicial para receber o decreto de nomeação (na época eram ainda assinados pelo próprio Presidente da República!) e, daí por diante, tudo correrá sem tropeços, com os vencimentos religiosamente pagos ao final do mês: há mais de sessenta anos que isso me favorece, sem interrupção. O contracheque é a única instituição estável na notória instabilidade institucional do país... E, no Itamaraty, a não ser que se morra antes, cause um desfalque demasiadamente escandaloso ou seja notoriamente deficiente mental, grandes são as probabilidade de atingir o último degrau, o de Embaixador. Por isso, há hoje mais embaixadores do que Secretários em princípio de carreira...

A sugestão da diplomacia, dada por minha irmã, abria a oportunidade de viajar pelo mundo, oferecendo suficiente lazer para leitura e estudo. Depois de três anos de preparo para o concurso de 37, com estudo intensivo que me afastava de maior envolvimento político, venci a prova com apenas vinte anos de idade, numa turma de dez entre 105 candidatos, dos quais cinco se me tornaram amigos de toda a vida: Manoel Pio Correa, Carlos Silvestre (Bubu) de Ouro Preto, Jaime Azevedo Rodrigues, Arnaldo Vasconcellos, Luiz de Souza Bandeira e Manoel Antonio de Pimentel Brandão. Este último era o mais antigo de todos pois o conheci em 1927, em Paris, filho que era do então Conselheiro de nossa Embaixada em França. Posteriormente, foi Mário de Pimentel Brandão Chanceler do Getúlio, no período mesmo de nosso ingresso na 'Casa'.

Fui nomeado para o serviço diplomático em fevereiro de 1938, e a ele fielmente servi durante 43 anos, através dos vários escalões da carreira. Na véspera da nomeação, incidentalmente, em clamorosa demonstração do nepotismo e caráter patrimonialista do regime vigente, dez outros cavalheiros, escolhidos por 'concurso de circunstâncias', entraram 'pela janela', atrasando logo de início nossas expectativas de futuras promoções. Sem às vezes poupar-lhe críticas, que foram mal interpretadas por outros colegas, digamos, mais 'disciplinados' ou submissos; e sem chegar ao cinismo daquele de quem ouvi, certa vez, o franco desejo de 'viver longe do Brasil, mas à custa dele...' - confesso que uma de minhas grandes frustrações na profissão que Carlinhos de Ouro Preto, um dos chefes mais brilhantes sob os quais servi, comparava a uma prostituição de luxo - sempre foi a de alimentar sérias e recalcadas dúvidas quanto à utilidade e valor moral da mesma. Das três funções diplomáticas principais, Representação, Observação, Negociação, foi a segunda que soberbamente me condicionou para o suntuoso, porém arriscado, turismo cultural. Mas a Representação é o que preeminentemente justifica a nossa diplomacia - e minha Persona sempre foi algo embrionária, insegura e mal desenvolvida…

Entre 1938 e 1940, minha aprendizagem levou-me à Divisão de Atos Internacionais, uma sinecura que acabou sendo chata, e à Divisão Política. Ali servi em dois momentos particularmente interessantes de nossa história diplomática. A primeira, 1938/39, foi a Campanha de Nacionalização levada a cabo no Sul (Santa Catarina e RGS) para a redução das 'colonias' alemãs onde a língua, a cultura e a reivindicação de nacionalidade criava um perigoso núcleo para inserção do imperialismo nazista. Não obstante o interesse germânico em criar uma intensificação do comércio bilateral que, em 1938, tornou a Alemanha o principal fornecedor de nosso país, a arrogância e falta de habilidade do embaixador Ritter provocaram quase um rompimento de relações entre o Rio e Berlim.

Em fins de 1940 parti para o primeiro posto. Acompanhado de meu pai e irmã, Maria Cecília, que desejavam fazer a volta ao mundo, embarcamos num navio japonês, o Brasil Maru, que nos carregou ao Japão. Era o inverno, e o Império do Sol Nascente em Tóquio, Nara e Kyoto, envolto em brumas, deixou-me uma impressão de mistério de que com dificuldade custou desfazer-me.

Outro 'Maru' nos levou à Índia, via Xanghai, Hong Kong, Singapura e Bombaim. Senti em cheio o impacto do Call of the East que, outrora, seduzia a juventude aventureira do Ocidente. Calcutá era meu destino. Fora para ali designado com a missão, a primeira em minha folha de serviço, de administrar um Consulado de carreira normalmente atribuído a um Primeiro Secretário ou Conselheiro. Minha rota ia topar, todavia, com outra pedra imprevista. A Moira caprichosa a colocara no caminho - para adicionar algumas outras dúvidas e perplexidades no contencioso com uma realidade que, erroneamente, eu calculara limpa, racional e facilmente manipulável. O governo inglês recusou-me a concessão do Exequatur, formalidade exigida para que eu pudesse exercer as funções consulares previstas: a de carimbar vistos em passaportes e firmar despachos de juta exportada para nossas sacas de café. A iniciativa antipática teria sido inspirada por um Secretário da Embaixada da Grã-Bretanha no Rio, David Scott-Fox, de quem por nova ironia do destino me iria tornar amigo, ele e sua mulher francesa, a bela Brigitte, muitos anos depois, em Ankara e Nova York. As informações desabonadoras a respeito deste vosso humilde servidor teriam procedido de informantes brasileiros de origem inglesa, e os motivos teriam sido minhas simpatias germanófilas, agravadas no momento pela áspera desconfiança do governo de Churchill com as ambiguidades do Presidente Vargas e as alegadas demonstrações de personalidades brasileiras (Góis Monteiro, Felinto Müller, o próprio Gaspar Dutra?), supostamente favoráveis a um eventual conluio com o Eixo. Não nos esqueçamos que a Grã-Bretanha enfrentava o momento mais terrível da Guerra, a blitz nazista, e derrotas na Grécia, Creta e Líbia. Churchill não dava quartel!

A permanência na Índia foi, por consequinte, curta. Viajei rapidamente por esse sub-continente extraordinário, tão notável por seus gloriosos monumentos de arte e história, quanto pelo espetáculo deprimente da superstição e miséria humana. A arrogância impérial inglesa era flagrante. Não obstante, poucos anos mais tarde já me havia convencido do fato de oferecer a Inglaterra o grande exemplo e modelo político para o mundo, cabendo um lugar especial a Londres como a cidade mais civilizada da terra. Acontece igualmente que alguns de meus mais fieis amigos foram diplomatas ingleses, Milo Talbot, Kenneth James, Steve Lockart e sua mulher, Ângela, John Hickman e Bill Harding, este último embaixador britânico em Brasília nos primeiros anos 80, incluindo o episódio da Guerra das Falklands.

A cultura e literatura inglesas também acabaram superando, em meu afeto, a francesa que tão poderosa havia sido na infância e adolescência.

O Itamaraty transferiu-me para o Consulado Geral em Xanghai, onde cheguei em maio de 1941. Como Vice-Cônsul, seria o único auxiliar do brasileiríssimo Cônsul Geral James Philip Mee - a repartição funcionando numa salinha de seu próprio apartamento. No grande porto chinês, uma das metrópoles cosmopolitas mais excitantes e curiosas do planeta, permaneci seis meses de movimentada aventura, quando fomos colhidos pelo ataque japonês a Pearl Harbor. Os nipônicos, cujas tropas cercavam o chamado Settlement - a Concessão Internacional de que era o Brasil, curiosamente, um dos garantes e administradores teóricos - ocuparam sem combate toda a cidade na noite de 7/8 dezembro 1941. Exatamente no mesmo instante estavam bombardeando a esquadra americana do Pacífico. No próprio porto de Xanghai, afundaram depois de vinte minutos de bombardeio, uma canhoneira inglesa. O ronco dos canhões de um velho encouraçado, o Idzumô, às três da madrugada, me acordou para a realidade do que antecipara, sem me dar conta das consequências, a Guerra do Pacífico.

Em fevereiro do ano seguinte, tendo se reunido no Rio de Janeiro uma Conferência de Ministros das Relações Exteriores de todo o continente americano, foi decidido o rompimento de relações com o Eixo. O Brasil acompanhou imediatamente a decisão, sob a batuta do Oswaldo Aranha, notório partidário dos Aliados que Getúlio, oportuna e convenientemente, colocara na chefia do Itamaraty. As conseqüências em Xanghai não se fizeram tardar. As autoridades japonesas nos visitaram no mês de março, aliás muito cavalheirescas, sendo encerradas as atividades do Consulado Geral e lacrada a sede. Fomos transferidos para um hotel na própria 'Concessão Francesa' (obediente ao governo de Vichy), onde residíamos. Ali permanecemos em regime de semi-internamento até junho daquele mesmo ano de 42. Fomos então embarcados num navio italiano, o 'Conte Verde', e, via Oceano Índico, 'trocados' com os diplomatas japoneses que vinham da América do Norte e Sul em Lourenço Marques, hoje Maputo, no Moçambique, então colonia portuguesa. De Lourenço Marques, fomos recambiados ao Rio pelo navio sueco Gripsholm - uma viagem sem novidades em oceanos infestados de submarinos de diversas bandeiras, todos respeitosos - felizmente! - da grande cruz branca de neutralidade que o barco ostentava.

Curta mas imensamente gratificante foi a experiência desses dois primeiros postos - não obstante marcada por graves crises pessoais, altamente emocionais, de teor romântico, mas cujo relato não cabe neste contexto. No inverno de 42 assistiu-se à grande calamidade da fome em Xanghai. Constava que, numa só noite, quatrocentos mendigos haviam morrido de fome e frio pelas ruas da grande cidade, recolhidos na manhã seguinte. Eu mesmo tropecei num cadáver coberto de neve e assisti à agonia de outro faminto, a cujo lado aguardava um colega para lhe arrancar as roupas e sapatos furados. A fome em Xanghai não teve a gravidade do Rapto de Nanking de princípios de 1938 - o episódio singular que é considerado o mais mortífero de toda IIª Guerra Mundial, quando, com o intuito de obrigar a China a render-se pelo uso do terror indiscriminado, as tropas japonesas que acabavam de ocupar a capítal de Chiang Kai-chek foram desencadeadas em fúria homicida e massacraram entre duzentos a trezentos mil, da população civil da cidade. O comportamento do ocupante nipônico em Xanghai serviu, no entanto, para incompatibilizar-me definitivamente com a imagem utópica e romântica que desde a adolescência havia acariciado do Japão. O exótico Império do Sol Nascente, com seus samurais entre as perfeitas paisagens de verdura, castelos com telhados arrebitados e cerejeiras em flor, geishas extraordinárias de encanto e ternura, dramas heróicos de bravos bushi que Kurosawa, depois da guerra, iria personificar, nobres cegamente obedientes à fidelidade devida ao Xôgun - tudo isso se desmanchou diante da realidade de brutalidade gratuita de que havia sido testemunho.

Um curioso sentimento também permaneceu, algo traumático, desse episódio. Fizera amizade com alguns oficiais do Regimento de Marines que guarnecia o Settlement internacional. O Regimento partira para as Filipinas uma semana antes de Pearl Harbor e, segundo soube mais tarde, combatera na defesa de Bataan e Corregidor, detendo por seis meses o avanço nipônico no arquipélago. Dos oficiais que conheci, poucos sobreviveram com vida ao combate e à 'marcha da morte' dos prisioneiros em Bataan, após a rendição. A meditação existencial, algo melancólica, sobre a sorte que o destino nos reserva se torna aguda quando me vejo, numa foto do evento, entre os convivas de um rega-bofe, oficiais americanos, russos brancos exilados na China, moçoilas jovens e sedutoras em profusão de nacionalidades - cada um dos quais a guerra de modo diverso afetou, às vezes tragicamente.

Dados meu envolvimento com o Integralismo, entranhado anti-comunismo e deplorável ignorância do verdadeiro sentido da ideologia nazista, eu havia antecipdoi, no princípio da Guerra, que a 'necessidade' histórica iria conduzir o conflito ao triunfo da Alemanha, maneira prática de eliminar o 'perigo vermelho'. Muitos 'conservadores' do período, entre os mais sábios, pensavam do mesmo modo, poucos se dando conta da psicopatologia coletiva que Hitler representava. Eu havia lido Spengler em 1934. Um forte sentimento germanófilo dominava amigos da família e certos setores do governo do Getúlio, o que se manifestaria pelas palavras do próprio ditador no famoso discurso de junho de 1940, a bordo do encouraçado 'Minas Gerais'. Usando de sua célebre tática esperta de gangorra ideológica, Getúlio estava abrindo as portas a uma eventual colaboração com o Eixo - posição da qual rapida e sabiamente recuou em fins de 41, depois de Pearl Harbor! O rompimento com o Eixo e eventual envio da Força Expedicionária à Itália foram as consequências. No próprio Itamaraty, em sua grande maioria simpático à causa democrática aliada, só alguns grupos individuais diminutos favoreciam o Eixo. Quando um submarino nazista torpedeou um encouraçado de Sua Majestade britânica em Scapa Flow, em fins de 1939, meu amigo, colega e companheiro (de concurso e do antigo Departamento de Estudantes do Integralismo), Jaime de Azevedo Rodrigues, percorreu os corredores da Casa, congratulando-se pelo ocorrido aos gritos de Sursum corda! Uma das figuras mais simpáticas, brilhantes e sedutoras que conheci na carreira, o Jaime transmudou-se desgraçadamente para o lado errado depois da guerra. Já Embaixador, terminou melancolicamente a carreira em 1964. Em abril daquele ano, seguindo a nova versão do nacionalismo terceiro-mundista que se alimentava tenazmente de anti-americanismo, ele efetuou um verdadeiro sacrificium intellectus ao se alinhar com a Esquerda. E foi cassado após insistir contra todos os conselhos amigos, inclusive do Chanceler Vasco Leitão da Cunha, numa declaração ostensiva a favor do governo Goulart que acabava de ser derrubado.

PREFÁCIO DE CUNHO AUTO-BIOGRÁFICO
Terça-feira, 30 de Outubro de 2001


Sempre foi um sério problema para autores de obras de filosofia, psicologia ou mesmo teologia - que procuram impressionar de maneira satisfatória o curioso mas desprevenido leitor - saber como dar um início apropriado a seu livro. Alguns simplesmente anunciam o tese principal com um surdo tambor - bombo acompanhado de fanfarras, destinadas a libertar do torpor os que se atreveram a enfrentar o gênio. Arthur Schopenhauer, por exemplo. Logo na primeira frase de sua obra principal, o grande pessimista alemão proclama com grandiloquência: 'O Mundo é minha Representação' (Outra possível tradução é 'O Mundo é minha Idéia'!). Ora, o mundo é e não é minha idéia. A realidade está dentro de mim ou fora de mim? Mais certa é a dúvida hamletiana: qual é a verdadeira essência dessa realidade? quem sou eu? sou ou não sou? onde está o Eu como consciência de si-mesmo num mundo objetivo cujos contornos apenas superficialmente conhecemos?
No Ecce Homo, escrito 'com dinamite' autobiográfica nos derradeiros meses de sua lucidez (1888), e obra já extravagante pela loucura no extremo de ironia, enceta Friedrich Nietzsche o Prefácio com a declaração estrondosa: 'Antecipando que me será necessário, dentro em breve, endereçar à humanidade o mais grave desafio que tenha recebido, parece-me indispensável dizer quem eu sou'... Segue-se uma série espantosa de queixas pela ignorância geral em relação a seu próprio valor, eivadas de ressentimentos amargos pelo pouco sucesso dos livros que publicara, mas compensadas por auto-elogios: 'Por que sou tão sábio', 'Por que escrevo livros tão bons', 'Por que sou tão inteligente'. Seguem-se outras afirmações fantásticas: 'Sou discípulo do filósofo Dionísio. Prefiro ser um sátiro a ser um santo'; 'Sou um nobre de puro sangue polonês'; 'Meu estilo é a arte mais diversa que qualquer homem tenha jamais tido à sua disposição', 'Voltaire foi um grandseigneur do espírito e é isso, precisamente, o que igualmente sou', 'Parece-me que segurar nas mãos um de meus livros é uma das distinções mais raras que qualquer pessoa a si mesmo possa conferir. Acredito mesmo que deve tirar os sapatos nessa ocasião'. O livro vai por aí adiante, com afirmações da mesma natureza. A paranóia é evidente. A intuição da loucura próxima também: 'Estou envergonhado desta falsa modéstia'; 'Todos os traços mórbidos me faltam. Mesmo em períodos de enfermidade severa não me tornei mórbido... nos setenta dias do último outono estive criando ininterruptamente nada que não fosse de primeira categoria. Que homem algum será capaz disto realizar outra vez ou já antes realizou, carregando-lhe a responsabilidade por todos os próximos milênios?'.

Vejamos o que disseram outros pensadores, ao se depararem com a problemática que se resume na fórmula de confronto 'Eu e o Mundo'.

René Descartes fundamentaria sua filosofia racionalista com um simples a priori: penso, logo existo: Cogito, ergo sum. Pode parecer um pouco presunçoso que ouse alguém metafisicamente provar a Existência real através da certeza de seu próprio pensamento. Mas por que não? A priori sou eu. Sou eu que penso e que existo, mesmo quando solitário no meio de um deserto, no alto de uma montanha, ou em meu quarto a portas fechadas. De outra forma integrou Descartes suas memórias entre o Inconsciente onírico e o Consciente racional claro, preciso e metódico, de quem se tornou o maior Mestre, na obra central de sua vida, o 'Discurso do Método para bem Conduzir a Razão e Procurar a Verdade nas Ciências'. Ele acentua de entrada que 'o Bom Senso é a coisa melhor partilhada do mundo' (Le bon sens est la chose du monde la mieux partagée). Não tarda, porém, a assinalar, no Capítulo II do livro, que a própria concepção dessa coluna fundamental do Racionalismo foi por ele forjada em decorrência de três sonhos, absurdos e extravagantes como todo sonho, registrados quando de uma viagem à Alemanha durante a Guerra dos Trinta Anos. Ora, todo sonho surge necessariamente de um mundo subliminar, infro ou supra-racional, um mundo ausente de qualquer senso comum ou qualquer império da racionalidade. Um sonho interpretado não é certamente um método para bem conduzir a razão, nem para procurar a verdade com idéias claras e precisas. O importante é que, através dos sonhos, reconhece Descartes a existência de uma instância a que damos hoje o nome de Inconsciente, a qual estabelece o relacionamento entre o Eu pensante, res cogitans, e o mundo exterior, ou seja, o universo espacial objetivo, res extensa.

Mas recuemos ainda mais atrás na história, mil e seiscentos anos! Mais ortodoxo, evidentemente, é Agostinho. O santo Bispo de Hipona abre suas 'Confissões' - a primeira verdadeira Autobiografia e talvez a mais admirável de toda a história da literatura - com invocações e louvor ao Senhor - e não poderia ser de outro modo no monumento extraordinário que foi a obra do maior pensador cristão. Notável pela mocidade boêmia e irresponsável e como prelúdio ao relato do confronto do homem com a Divindade, introduz Agostinho, no texto puramente biográfico e meditativo, exposto da maneira ao mesmo tempo mais brutal, profunda e sublime, considerações sobre a metafísica do Tempo. A descoberta do Tempo! É a primeira vez que o Tempo se torna objeto preciso da investigação filosófica e isso influenciará, num sentido decisivo e irreversível, a pesquisa da mente humana num sentido de consciência da própria consciência do Eu. Agostinho aos poucos se dá conta da essência irreversível do Tempo na memória do passado, na observação do mundo presente e na capacidade de antecipação do futuro. Ali estão os três momentos do Tempo: o passado, o presente, o futuro - uma dimensão reta num movimento irreversível. O que já figura como esboço em Platão e Aristóteles se torna, sob a pena mágica de Agostinho, a primeira afirmação do Tempo como auto-biografia. Seguindo aquela 'rota da alma em direção a Deus', itinerarium mentis in Deum tal como por S. Boaventura foi chamado, tão relevante na história do Cristianismo por haver introduzido elementos platônicos básicos na teologia que a Igreja construía, Agostinho reconhece que foi intuitivamente, o que quer dizer como uma Graça, um relâmpago aquilo que nele, como divino e Santo Espírito, penetrou. O que o converteu e o iluminou foi 'a luz eterna e imutável', como que transcendentalmente emanada do Céu. Daí por diante, sobre tais alicerces agostinianos, num fundamento subjetivista e introspectivo erguido sobre o edifício monumental da filosofia clássica, grega, romana e helenística, se desenvolveria o pensamento ocidental em suas etapas medieval, renascentista, iluminista, empirista e moderna. De fato, a influência da filosofia grega e helenística perdurou durante a Idade Média e, menos de mil anos depois das reminiscências de Agostinho, outro grande pensador católico, Dante, baseando-se aliás principalmente no 'Consolo da Filosofia' de Boethius, repetiu novas e admiráveis 'confissões', em sua Vita Nuova (1293).

De outro calibre filosófico e moral são as 'Confissões' de Rousseau. O genebrino logo ali proclama, nas primeira linhas desta masturbação auto-promocional, sua originalidade, o conhecimento dos homens que possui, a genialidade de sua intuição e os méritos excepcionalíssimos com que foi dotado: 'Je forme une entreprise qui n´eut jamais d´exemple, et dont l´exécution n´aura point d´imitateur. Je veux montrer à mes semblables un homme dans toute la vérité de la nature; et cet homme, ce sera moi... Moi seul. Je sens mon coeur et je connais les hommes. Je ne suis fait comme aucun de ceux que j´ai vus; j´ose croire n´être fait comme aucun de ceux qui existent'. Notem que, enquanto a aparente paranóia de Nietzsche no Ecce Homo se expressa com um misto de doidice e sarcasmo, dirigido contra si-mesmo - o alemão era um solitário, um introvertido extremo - o marketing hagiográfico que Rousseau inaugura é mero sintoma de desmedido autismo e incomensurável hipocrisia. O texto do primeiro grande escritor revolucionário que, conscientemente, contribuiu para a edificação da modernidade se enquadra, aliás, com perfeição, no que Eric Voegelin qualifica como a Revolução egofânica. Egofânico, no bom e mal sentido, é o espírito distintivo de nossa época - contraponto necessário de uma civilização inteiramente voltada para a investigação, o conhecimento e o poder sobre a natureza. De natureza egofânica igualmente pronunciada é a frase presunçosa com que Oswald Spengler deu início a seu 'O Declínio do Ocidente' (der Untergang des Abendlandes): 'Nesta obra se acomete, por vez primeira, o intento de predizer a história'. Depois do anuncio pomposo, Spengler explica sua intenção: 'Trata-se de vislumbrar o destino de uma cultura, a única que se encontra hoje no caminho da plenitude: a cultura da América e da Europa Ocidental'. E acrescenta modestamente, para que ninguém disto duvide, que ninguém antes dele empreendeu resolver um problema de tamanha envergadura e transcendência histórica. O que ocorreu, entretanto, é que todas suas antecipações se revelaram falsas: o Ocidente não está em declínio, mas domina a civilização global; a China não 'sofre a história', mas é um dos agentes mais ativos dos acontecimentos mundiais; a física não foi liquidada, mas produziu as maiores descobertas e as mais consideráveis aplicações tecnológicas no desenvolvimento das ciências; e não foi a Alemanha (nem tampouco a Rússia) que ergueu o Imperium mundi profetizado, mas são os Estados Unidos que presidem à Nova Ordem Espontânea global. A América se tornou a potência hegemônica num mundo de convivência democrática liberal - esse mesmo país que Spengler imaginava dever desagregar-se por força de sua confusão racial. O exemplo é típico da imaginação tresloucada de todos, ou quase todos, os auto-proclamados profetas e promotores de utopias socialistas, fascistas ou nacionalistas, que a perversa Ideologia gerou.

Vejam o contraste entre os delírios egocêntricos desses pensadores, entre os que mais influenciaram o espírito da modernidade, e os termos humildes com que Sir Karl Popper inicia a Introdução à sua própria filosofia. Pode esta ser lida na obra em dois volumes, editada em 1974 numa coleção intitulada The Library of Living Philosophers. Diz-se que, em virtude de um verdadeiro tabu ou espécie de etiqueta tradicional, não se deve penetrar mais a fundo na pesquisa do sentido de uma determinada filosofia enquanto vivo esteja seu autor. Estou absolutamente convicto da correção da tese de Nietzsche que não há filosofias, há apenas filósofos... No caso, por respeito protocolar à tradição, é com humildade que Popper redige o capítulo de 156 páginas no qual descreve a evolução de seu próprio pensamento. Tentando esclarecer e debater os temas em torno dos quais se debruçou como um dos mais eminentes filósofos do século, o pensador anglo-austríaco principia com as palavras: 'Eu tinha vinte anos quando me empreguei como aprendiz de um velho mestre-marceneiro de Viena cujo nome era Adalbert Pösch, e com ele trabalhei de 1922 a 1924, pouco depois da Primeira Guerra Mundial'. E logo a seguir confessa: 'Acredito que mais aprendi sobre a teoria do conhecimento com meu querido mestre omnisciente Adalbert Pösch do que de qualquer outro de meus professores. Nenhum tanto fez para me tornar um discípulo de Sócrates. Pois foi esse mestre que me ensinou não só quanto pouco eu sabia, mas também que qualquer sabedoria à qual poderia aspirar não consistiria senão em me tornar mais plenamente consciente do infinito de minha ignorância'. Não é este, de fato, um maravilhoso exemplo de confissão socrática, de humilde sabedoria?

Filósofo moderno de igual influência porém, a meu juízo, inferior a Popper na contribuição que realizou para o pensamento do século, Bertrand Russell assim se refere, no prólogo da Autobiografia publicada em 1967, às 'três paixões, simples mas supremamente fortes, que governaram minha vida: o anseio de amor, a procura do conhecimento e uma invencível compaixão (pity) pelo sofrimento da humanidade'. Ninguém imaginaria tais palavras na pena de um pensador que viveu mais de noventa anos de uma existência que se tornou notório pelas irritantes extravagâncias e incoerências de relacionamentos sexuais, comportamento, opiniões e posturas políticas. O positivista matemático tinha lá seus sentimentos profundos quando lamenta '...o mundo de solidão, pobreza e sofrimento (que) torna uma farsa o que deveria ser a vida humana'. Somos forçados a respeitar o homem que é tido como o maior filósofo inglês do século XX, não obstante suas notórias leviandades. Mas vejam só: em 1948 ele publicou um ensaio aconselhando os americanos a um ataque nuclear preventivo contra a URSS, que lhe teria liquidado com as veleidades revolucionárias e imperialistas, deixando-a prostrada com uma centena de milhões de vítimas. Vinte anos depois, já diante do confronto atômico e do 'equilíbrio do terror' (MAD - Mutual Assured Destruction), Russell desencadeou uma campanha anti-americana em torno do slogan imbecil better red, than dead. Sua tese era que, considerando a óbvia inevitabilidade de uma troca de mísseis atômicos entre as duas super-potências, bem como a superioridade de uma organização socialista sobre o capitalismo vigente, melhor seria o Ocidente entregar-se imediatamente ao domínio totalitário do Kremlin do que arriscar o que antecipava como o fim da civilização.

Um outro escritor e professor de filosofia inglês, Sir Anthony Kenny, de Oxford, admirador e principal discípulo de Ludwig Wittgenstein, considera este filósofo, discípulo de Russell etambém anglo-austríaco como Popper, o maior do século e Wittgenstein começou a vida como engenheiro, foi soldado na Iª Guerra Mundial, estabeleceu-se na Inglaterra. Lecionou em Cambridge onde adquiriu prestígio. Em seu Tractatus Logico-Philosophicus, Wittgenstein procura analisar, através de um estrito e absolutista método lógico, o Eu, o 'Penso logo existo' de Descartes e o solipsismo inerente a toda filosofia subjetivista. Nos ítens 5.621 e nos que se seguem, 5.63 e 5.631, o vienense genial declara: 'O mundo e a vida são um/ Eu sou meu mundo (O microcosmo)/ O sujeito pensante e apresentador (thinking, presenting subject), não existe tal coisa./ Se escrever um livro ´O mundo como o encontrei`, também teria de ali registar meu corpo e esclarecer que membros obedecem à minha vontade e quais os que não obedecem, etc. Seria isso então um método de isolar o sujeito ou, melhor ainda, de mostrar que num sentido importante não há sujeito: o que quer dizer, em tal livro dele menção alguma poderia ser feita'. O aforismo de Wittgenstein, frequentemente citado: Wovon man nicht reden kann, darüber muss man schweigen - 'Sobre aquilo que não podemos transmitir pela palavra (ou aquilo de que não podemos falar), devemos calar (ou manter silêncio)', parece óbvio. Não é, porém, tão simples. É mesmo quase impenetrável. Voltaremos a falar sobre esse filósofo, embora discordando do que sobre ele afirma Sir Anthony Kenny e de grande parte do que, mui penosamente, lhe consigo entender da obra. Wittgenstein, aliás, não escondeu certos traços místicos e desmentiu a maior parte das interpretações que sobre sua filosofia da Lógica positivista e da Linguagem foram divulgadas.

Muitos grandes sábios e cientistas exerceram profissões modestas e paralelas à sua ilustre carreira no amor da sabedoria. Sócrates era um boêmio ocioso; Jakob Boehme, sapateiro toda a vida; e Einstein funcionário dos Correios de Zurique quando elaborou a Teoria da Relatividade. Marceneiro - uma profissão, vale recordar, honrada por Jesus Cristo - quando iniciou a aprendizagem no campo da epistemologia, da teoria das ciências, da filosofia política liberal e luta contra o historicismo e o determinismo, Popper teve o mérito de desmistificar as falácias absolutistas, o marxismo, o freudismo, o hegelianismo, o próprio darwinismo radical, que se defendem da crítica detrás de uma muralha de tautologias. Um exemplo de como argumenta pela negatividade é sua afirmação de que o importante, em filosofia política, não é como se seleciona os bons governantes, mas como nos livramos dos maus sem violência sangrenta.

Detenho-me, agora, no exemplo de outro guru liberal, Isaiah Berlin. Falecido em 1998. Berlin, um dos grandes nomes do pensamento político moderno, tinha 86 anos quando, em fevereiro de 96, recebeu uma carta de um professor chinês que lhe pedia um sumário de suas idéias. Qualquer outro logo jogaria a carta na cesta de lixo. A resposta de Berlin cobre vários episódios autobiográficos e o relato da evolução de sua meditação sobre alguns dos mais importantes temas de filosofia política de nossa época - particularmente a distinção entre liberdade negativa e liberdade positiva, com privilégio concedido à primeira. O ensaio de Berlin é curto mas eminentemente instrutivo para a abordagem dos problemas intratáveis que afetavam nossa sociedade ao final do século.

Os que mencionamos acima eram, ou de simpatias socialistas, ou pioneiros do Liberalismo atual. Nossa curiosidade se dirige agora para um filósofo francamente conservador e inspiração mística. É outra das sumidades filosóficas contemporâneas no terreno político e religioso, Eric Voegelin. Ele também começou a ditar suas 'Reflexões Autobiográficas' com mais de setenta anos. Traçando pormenorizadamente o fluxo das cogitações que o absorveram desde os 18 anos de idade, quando cursou a Universidade de Viena, e paralelamente à sua produção como escritor e professor, destacou Voegelin, do mesmo modo como os colegas acima mencionados, o relacionamento do desenvolvimento filosófico do Ocidente com os desastrosos acontecimentos políticos concretos que os obrigariam ao exílio e migração para outras plagas de um continente mais acolhedor. Einstein, Voegelin, Leo Strauss, Hayek, Popper, Berlin, Thomas Mann e outras sumidades no campo da filosofia, da física, da economia e da literatura - quer tenham ou não sido judeus - foram traumatizados pela experiência dos horrores da IIª Guerra Mundial, um episódio central na história humana que determinou o caminho trilhado em seu trabalho de meditação filosófica. Voegelin sofreu um outro exílio: está quase inteiramente ausente dos tratados e histórias da filosofia moderna. Como intróito à Amnesis, sua Autobiografia, ele nos transmite no entanto um apropriado e relevante conselho de Agostinho - uma citação do De Vera Religione: 'No estudo da criatura não devemos exercitar uma curiosidade vã e perecível, mas ascender àquilo que é imortal e eterno'... Oxalá saibamos seguir esse sublime conselho! A meu ver, o máximo filósofo da história no passado século, particularmente na majestade incomparável dos cinco volumes de sua 'Ordem e História', Voegelin representa o respeito e a ênfase na continuidade espiritual da evolução da humanidade que se tende hoje, com desprezo, a desconsiderar como 'conservadorismo'. Pela Revelação (intuitiva) e a Filosofia (meditativa e cogitativa), aproximamo-nos em lento e penoso caminhar tendo como meta a Verdade transcendental.

Ao contrário de Descartes, se é ele o fundador da filosofia moderna, refere-se Carl Gustav Jung, psicólogo das profundidades inconscientes e investigador dos aspectos irracionais da psique humana, não a reminiscências de juventude que lhe determinaram o caminho a seguir no penoso caminhar. As de Jung são semi-conscientes visões infantis que datam do segundo e terceiro anos de vida! Ditadas à fiel Secretária Aniela Jaffé quando Jung já percorrera mais de oitenta anos de existência, os episódios externos e a introspeção psíquica inextricavelmente se confundem no relato mnemônico da Autobiografia - 'Memórias, Sonhos Reflexões'. O Inconsciente (Unbewusst) está sempre presente. É o pano de fundo. Bem no início da obra, um sonho ocorrido quando na infância mal saída do berço, e tendo como motivo central um enorme phallus, impinge como imagem esmagadora que o vai atormentar por toda a existência e terá influência marcante sobre sua obra e idéias. Diante da evidência que, naquela tenra idade, jamais poderia haver observado um pênis em ereção, concluiu Jung que se tratava de um 'arquétipo'. O sonho possui, aliás, certas conotações sacrílegas. A nebulosidade luciferiana é inerente a muitas das intuições psico-teológicas do grande cientista suíço que o fará penetrar no terreno pouco explorado e engimático do gnosticismo. Mas seria esta a melhor maneira de convencer o leitor, leigo na matéria, de que o que está ali escrito constitui uma reflexão idônea sobre o valor da Psicologia Analítica do Inconsciente Coletivo?

'Memórias, Sonhos, Reflexões' foram publicadas pela primeira vez em 1961, no mesmo ano de sua morte. Na época, servia eu como Cônsul Geral em Zurique e frequentava regularmente o Instituto C.G. Jung, ainda localizado no próprio centro da cidade. Em suas reminiscências, Jung principia com as seguintes palavras: 'A história de minha vida é a da própria realização por Si-mesmo do Inconsciente (self-realization of the unconscious). Tudo no Inconsciente procura manifestar-se externamente, e a personalidade também deseja evoluir para fora de suas condições inconscientes e sentir sua experiência como um todo. Não posso empregar a linguagem da ciência para esboçar esse processo de crescimento em mi-mesmo, pois não me posso sentir (experience myself) como um problema científico. O que somos em nossa visão interior (inward vision), e o que parece ser o homem sub specie aeternitatis, só pode ser expresso por intermédio de mito. O mito é mais individual e exprime a vida com maior precisão do que a ciência. A ciência trabalha com conceitos de medidas que são demasiadamente gerais para fazer justiça à variedade subjetiva de uma vida individual. É assim que agora empreendo, nos meus oitenta e três anos, a tarefa de relatar meu mito pessoal'.

De modo similar, é também com 83 anos que inicio esta abordagem auto-biográfica, a ela juntando um mito pessoal, memórias, sonhos e reflexões sobre diversos temas filosóficos e políticos. Na própria capa ilustrada deste livro figura uma mandala - simbolizando um mito pessoal. Nela combino uma imagem tradicional, retirada de um quadro de pintura medieval de Deus no ato de criação do Universo e do Homem, com a representação surrealista das galáxias na visão de Max Ernst. Na estética moderna, Ernst bem traduz a irracionalidade ou, por outra, a suprarracionalidade que procura, na alma moderna, abordar os campos só na aparência opostos da realidade física e da nossa realidade interior Inconsciente.

No caso de Jung, Popper, Berlin, Voegelin e também no de Hayek, sua produção mental, que resume o trabalho de uma vida inteira de reflexão, se prolongou até uma idade em que já se arregimentavam entre os que nos consideramos cronologicamente mais enriquecidos. Somos, quiçá, merecedores do descanso ou cultivo de nossos caprichos, birras ou manias de velhice. No entanto, por que ir tão longe? Quase noventa anos tem Mário Vieira de Mello, meu amigo e colega, que procura em seus livros de filosofia seguir aquele conselho de Agostinho, repetido por Voegelin. Foi ele, Mário, quem também me revelou o pensamento de Voegelin e, em sua obra ainda tão pouco reconhecida, 'Desenvolvimento e Cultura', quem me convenceu dessa verdade tão simples e tão descurada em nosso pensamento sociológico: a falta de uma sólida ética social é o principal entrave ao florescimento de uma autêntica cultura em nossa terra.

Mais de oitenta também carrega nosso Roberto Campos na idade. Campos é um spoudaios, um sábio venerável no sentido de Aristóteles. Seus artigos semanais e suas coletâneas, 'Lanterna na Pôpa', 'Antologia do Bom-Senso', etc., fazem jus à reputação que granjeou de ser, provavelmente, o homem mais lúcido do Brasil, tanto no terreno frio da ciência econômica - a dismal science - quanto na análise apaixonada dos obstáculos existentes à integração de nosso país à modernidade. A leitura dos escritos de 'Bob Fields' foi um dos fatores que me incentivou a procurar entender algo de economia. A ciência pode ser horrenda, como alegava Carlyle. Bem mais horrendas, porém, são as consequências de seu desconhecimento. O drama está claramente exposto nas iniciativas historicamente tresloucadas e absurdas que tantos de nossos governos tomaram, século passado, e nas tolices repetidas por tantos de nossos homens, ditos 'inteligentes', que nos impedem de saltar sobre as barreiras do sub-desenvolvimento inerente à sociedade patrimonialista.

'Liberals live longer' - diz uma piada atribuída a Hayek e vulgarizada nos meios liberais internacionais. Vivemos mais talvez. Sofremos, como quaisquer outros, os achaques da velhice, mas nos valemos de mais longa experiência. A experiência é preciosa e Wittgenstein, corretamente, a enaltece no capítulo 13 da Resenha de sua obra, empreendida por Anthony Kenny, em que são tocados os temas do Ceticismo e da Certeza. É graças à experiência que podemos acabar julgando com mais correção dos sucessos e loucuras de nossos contemporâneos poderosos.

Um amigo um tanto ou quanto ingênuo, porém sincero em sua cordialidade, me felicitou o outro dia com as palavras: 'Gostaria de chegar à sua idade, com igual lucidez'... Não percebeu a gafe. Será que não estou realmente ameaçado de irreversível decrepitude? Já não estarei gagá, para merecer tal elogio? E o que escrevo ainda faz sentido, à luz do que prevalece como temas dignos de pesquisa e meditação filosófica neste início de milênio? Escrevo, contudo, o que penso e tenho pensado muito há dez, vinte, cinquenta anos. Valho-me, com certeza, da experiência de longas meditações atormentadas, diante de espetáculos a que assisti como 'observador engajado'... 'Pode alguém desmentir o efeito da experiência em nosso sistema de suposições ou presunções (assumptions)?', pergunta Wittgenstein. O filósofo da linguagem e da lógica não hesitou, no fim da vida (ele morreu em 1951, com 62 anos), a escrever ensaios sobre temas como 'Ética, Cultura e Valor'. E ousou mesmo, algumas vezes, pronunciar a palavra 'Deus'... Ora, Ética, Cultura e Valor são as colunas que me sustentam, nesta etapa avançada da existência, ao procurar transmitir tudo o que tenho pensado sobre tão elevados tópicos. Ao alcançarmos essa idade, já conseguimos explorar, com alguma pequena, hesitante e vaidosa eficácia, os sistemas de causa e efeito, as distinções entre o Bem e o Mal, os critérios de Verdade e Mentira, e o conflito dos Valores. E, sobretudo, já nos damos perfeitamente conta do que seja a existência. Foi esta definida, há pouco mais de cem anos, por um médico, poeta e humorista americano do século XIX, Oliver Wendell Holmes (+1894). Pai de um ainda mais célebre juiz da Corte Suprema dos EUA, de mesmo nome, e inspirado ao que consta pela Mãe, uma calvinista rigorosa que morreu aos 93 anos, argumentava Holmes que 'é a vida uma enfermidade fatal (fatal complaint), eminentemente contagiosa'...

O aforismo merece ser memorizado. Com a dura mas valiosa experiência de uma centúria tremenda como foi a nossa, ora terminada e da qual ativamente participamos, dispomos talvez de algo valioso para contar à nova geração, crescida em décadas menos atormentadas, mais fáceis, confusas e permissivas. Um século que foi o mais sangrento e desastroso da história da Humanidade, é igualmente um daqueles cuja memória, possivelmente, permanecerá como dos mais criativos nos reinos da ciência e tecnologia, de maiores e mais extraordinária conquistas no poder do conhecimento humano, de mais rápido e quase explosivo crescimento demográfico e econômico, de mais consideráveis avanços na globalização do planeta e de profunda e deplorável crise moral. Um século do qual emerge a promessa do triunfo da liberdade. No qual se descobre o aprofundamento da consciência humana, adolescente, para seu destino transcendente. E se vive, quiçá, a suprema virtude da esperança...

A época deixou fundas cicratizes na mente daqueles que, no Velho Mundo, viveram e sofreram, refletindo-se naquele outro, o Novo Mundo, que os abrigava da tormenta. Afetou do mesmo modo aqueles que, como nós, brasileiros - gente pouco séria, amantes de carnaval e futebol, alegres adolescentes, cordiais, tolerantes, sentimentais, impulsivos, irresponsáveis; só interessados em nós mesmos e no nosso mundo particular, imediato, formado por nossos amigos e familiares - recebemos passivamente os contrachoques dos terremotos que sacudiram o planeta inteiro. Como diplomata, vivi décadas em postos nos quatro continentes; assisti a alguns dos grandes eventos da história contemporânea; convivi com guerras, revoluções e violências; amontoei um patrimônio de reminiscências de gente ilustre. E isso também exige expressão. Requer testemunho. Advoga uma interpretação própria dos fatos observados e vividos. Pede memorial na perspectiva de nossa própria experiência. Que é, precisamente, o que vamos aqui empreender.

A Necessidade Criadora

A questão primária que se apresenta ao princípio da disquisição é a de saber se um inquérito filosófico, do tipo cogitado, será propriamente válido. Válido em primeiro lugar como expressão de uma necessidade íntima, de um imperativo pessoal, de uma urgência independente do impulso espontâneo de defesa de idéias, opiniões, convicções ou pontos de vista arraigados, embora constante e teimosamente atacados pelo irresistível ceticismo que o cansaço da velhice muito agrava. Será que o que vamos escrever interessa o mundo abstrato dos leitores desconhecidos? Merece ser acolhido com simpatia pelos amigos concretos com os quais vamos dialogar pelo Verbo? Será o livro lido ou treslido, será meditado ou mofará numa prateleira de livraria, merecerá críticas pelos jornais ou terminará vendido num sebo, virgem de qualquer atenção?

A um nível que quase ousaríamos qualificar de espiritual - ocorre a exigência de criação e expressão imposta pelo thymos, ou seja, pelo desejo de reconhecimento e afirmação como expressão legítima da personalidade que aspira a uma curta, curtíssima imortalidade ideal. Não que devamos esquecer a observação algo cínica de Henri de Montherlant, segundo a qual 'não se alimentam os escritores de carne ou frango, mas exclusivamente de elogios'. A publicidade e o reconhecimento são apenas justas compensações. Não deveríamos colocá-las no início da refeição, pois são apenas hors d´oeuvres... A substância vem depois do banquete. Escrevemos de fato, quando autênticos, tanto para os outros quanto para nós mesmos. Ao salientar o valor especial da atividade expressiva pela palavra escrita, que se recorde a frase profunda de Saint-John Perse, aplaudido poeta que, durante muitos anos e sob seu verdadeiro nome de Alexis Léger, foi diplomata, Embaixador e Secretário Geral do Quay d Orsay. Prêmio Nobel de literatura, afirmava Saint-John Perse que a resposta adequada, quando alguém pergunta: 'Por que V. escreve?', deve ser a mais breve possível: 'Para melhor viver'... À la question toujours posée: 'Pourquoi écrivez-vous?', la réponse du poète sera toujours la plus brève: 'Pour mieux vivre'. Perse alimentava uma visão trágica da vida e compreendo suas angústias. Outro grande poeta francês, talvez o mais eminente do século XIX, Charles Baudelaire, igualmente atormentado por seus fantasmas de volúpia, depressão e morte, explicava: 'il faut travailler, sinon par goût, au moins par désespoir, puisque, tout bien vérifié, travailler est mon ennuyeux que s´amuser'... Que o trabalho seja uma maneira de escapar do tédio e da angústia, sobretudo o trabalho intelectual, é bem conhecido dos deprimidos. Não só a tarefa do escritor mas o simples prazer da leitura. Afirmava Montesquieu jamais haver sofrido algum tormento que uma hora de boa leitura não houvesse sarado...

Neste contexto, uma frase de Graham Greene é igualmente relevante: 'Escrever é uma forma de terapia'. O romancista inglês e personalidade polêmica cuja obra, em certa época, me fascinou, acrescenta em Ways of Escape: 'Às vezes me pergunto como é possível que aqueles que não escrevem, compõem ou pintam conseguem escapar da loucura, da melancolia, do medo pânico, inerente à situação humana'. Em que pesem suas ambiguidades ideológicas, recentemente explicadas pela circunstância de haver carregado a dupla máscara de intelectual de esquerda católica e agente do Serviço Secreto de Sua Majestade anglicana, Greene nos transmite o sentimento inexorável que, amiúde, nos força à expressão pela pena, a palavra ou as várias formas de arte - uma sublimação, uma catárse.

Minha própria atitude se aproxima da de George Orwell que, em um de seus ensaios, assegura-nos: 'escrever um livro é uma luta horrível, exaustiva, algo como um ataque de alguma dolorosa enfermidade. Ninguém jamais empreenderia tal coisa se não impelido por uma espécie de demônio ao qual não se pode nem resistir, nem compreender'. Orwell foi um dos que melhor exorcizou um dos mais tremendos demônios de nosso século, o totalitarismo. E por falar nesses espíritos que povoam em multidão a atmosfera infernizada da modernidade, vem-me à lembrança o famoso daimonion de Sócrates. Era um 'bom' demônio ou, pelos menos, um espírito ambíguo que o impelia a agir e ensinar, nas ocasiões decisivas da existência, de conformidade com os mais rígidos padrões morais, até o ponto de arriscar a vida. Ele foi de fato executado - uma vítima inocente das paixões políticas e religiosas; um sacrifício menos cruento do que o de Cristo, certo - mas assim mesmo havendo suficientemente impressionado os primeiros pensadores cristãos a ponto de alguns chegarem a sugerir sua santificação.

Se válido é tal conselho terapêutico na literatura, na música, na pintura, seria igualmente precioso em filosofia. Acresce talvez um impulso pedagógico. Haveria, na filosofia, o desejo de compartilharmos com os outros, amigos ou desconhecidos anônimos, dos ensinamentos de sabedoria que, por ventura, estimamos com ou sem razão haver adquirido - em alguns casos como que por chamamento de uma força irresistível, um daimonion ou bafo do Espírito do Além, leve aragem como a de Isaías, ou ventania de tufão - que sempre, como dizem os Evangelhos, 'sopra para onde quer'... Verdade: pode a transmissão ser aí puramente verbal. Três dos homens que, por seu exemplo e pregação, maior impacto tiveram sobre a história da humanidade, Sócrates, o Buda Siddharta Gautama e Jesus Cristo, nada escreveram, nada produziram em forma material, não deixaram escritos, apenas falaram. Ensinaram, porém, a discípulos que nos transmitiram sua mensagem iluminadora. Em seu aspecto ético/existencial, pode a filosofia ser privilegiadamente comunicada de modo puramente simbólico, pelo exemplo e a palavra - e, por motivos de tal índole, tanto a vida quanto a obra dos profetas são relevantes. A de Sócrates, no caso, foi paradigma da lição que deixou a seus discípulos, especialmente Platão. Pode também ser invocada em versos e é na literatura poética e de ficção que nos vamos deparar - como em Dante e Shakespeare, em Milton, Goethe ou Eliot, em Cervantes ou Dostoievsky - e, no Brasil, em Machado de Assis ou Carlos Drummond de Andrade - com alguns dos pensamentos mais profundos com que se enriquece a cultura humana, ainda que não formalmente expressos segundo uma metódica disciplina, hoje quase integralmente acadêmica.

O caso de Nietzsche é peculiar. Muitos lhe recusam o qualificativo de filósofo. Acham sua obra um simples produto de literatura, o que seria igualmente o caso de Kierkegaard. Mas em Dostoievsky, a forma do romance 'policial' permitiu ao russo alguns dos pensamentos filosóficos mais extraordinários do século XIX, a ponto de alguns lhe atribuírem a expressão antecipada do Cristianismo do novo milênio. As maneiras de fazer filosofia são, afinal de contas, muito variáveis. Conhecido professor americano, descreve Alasdair MacIntyre a obra de Agostinho e Anselmo como de 'filosofia como oração', a de São Tomás e Scotus Erigena como tomando a forma do debate intelectual escolástico, ao passo que a de Dante seria 'filosofia como poesia', a de Spinoza 'filosofia como geometria' e a de Hegel 'filosofia como história'. Freud e Jung são também considerados mais como escritores de ficção do que como cientistas. Freud nunca recebeu o Nobel, cujo galardão passou anos esperando, mas foi premiado com o Prêmio Goethe, o mais eminente da literatura na Alemanha. Jung nem isso.

O suíço, cuja ciência analítica da alma humana foi uma companhia quase constante em 60 anos de minha vida, muito insistia no esforço criativo de seus pacientes como método terapêutico. Expressar-se é certamente uma forma de cura mental. É o que pode dar sentido a uma vida introvertida na qual, de outro modo, seríamos vitimados pelos fantasmas sombrios e conteúdos depressivos que rodopiam, como encapuzados terroristas, em torno de nossa psique ou se escondem em nossa 'Sombra', como a que Jung nos descreve. Gustave Flaubert afirmava algo semelhante a Greene e Jung, mas não encontro os termos exatos que usou. Quando sofria de seus humores neurastênicos, recorria à caneta para deles se livrar. Estudos de psicólogos de várias tendências concorrem na idéia do valor insubstituível da capacidade criadora que pode dar sentido à nossa breve e penosa passagem pela existência, livrando-nos dos espectros casmurrentos que nos cercam e reduzindo as perplexidades que nos trazem as ofensas, pecados, arrependimentos, frustrações, inibições, agressões, insultos e inferioridades com que tropeçamos no áspero caminho da viagem... Jung estabelece um correlacionamento íntimo entre a expressividade criadora do paciente e a ação psicoterapêutica do analista. O sábio de Zürich muito insiste na força de sua vocação como médico - o que já não era, por exemplo, o caso de Freud. Como quer que seja, terapia ou enfermidade, argumentava Camus que escrever é 'por em ordem nossas obsessões'. Mormente, acrescentaria eu, nossas obsessões metafísicas sobre o sentido do absurdo da vida, da morte e do mundo onde divagamos.

O psicoterapeuta é essencialmente um médico da alma e essa virtude representa a que dignificou Sócrates como educador e filósofo - sem que se possa distinguir os dois aspectos da personalidade do mais sábio de todos os ateniense, de todos os gregos e, quiçá, de quase todos os humanos. Quando invocava a maiêutica como método próprio de ensino da filosofia, lembrava Sócrates a profissão de sua mãe que era parteira. O termo grego maieutikos se origina em maia, 'mãe, ama, parteira'. A imagem é que ele, Sócrates, simplesmente ajudava seus jovens discípulos a de sua própria mente extrair verdades eternas que já lá naturalmente se encontravam em estado, digamos, de embrião. Outro elemento fundamental do socratismo, formulado por Platão e repetido nas teses de Voegelin, é a crença que as perturbações da alma individual refletem e, ao mesmo tempo, influenciam as desordens, perversões e crises do grupo social a que pertencemos. Acredito muito nessa idéia e pretendo por ela orientar-me neste esboço.

Muitos pensadores célebres têm afirmado não se importarem se são lidos ou não. Se serão reconhecidos ou não. Seria essa a melhor atitude, mas não seria também a mais difícil? Que o objeto criado corresponda ou não ao que o público espera e aprecia; ou ao que nosso próprio senso crítico pode ou não aprovar - nada disso importa. O que vale é ceder a um ímpeto irresistível de criação que se satisfaz por si mesmo. Um grande número de escritores, mormente entre os mais inseguros, imagina deva sua genialidade receber um reconhecimento póstumo. Em alguns casos, é verdade que tal reconhecimento não se revela em vida, o que é uma tragédia da existência como foi para Kierkegaard e Nietzsche, por exemplo. Nietzsche compreendeu que algumas de suas reflexões eram inoportunas, estavam fora de sua época (Unzeitgemässe Betrachtungen, 1873), não pódiam ainda ser compreendidas. Essa ausência quase total de reconhecimento em vida lhe afetava terrivelmente o amor-próprio e muito contribuiu para o colapso mental que encerrou sua vida ativa. Permitam-me novamente lembrar Flaubert, desabusado como de costume: 'A menos que se seja um cretino, morre-se sempre na completa incerteza de seu próprio valor e do valor de sua obra'. Tal incerteza é nossa sina, é a dúvida perene do pensador e escritor um pouco mais sério que nunca pode adivinhar se é ou não cretino - e se será ou não incluído na galeria do Imbecil Coletivo composta por Olavo de Carvalho....

O que nos importa é o ato em si, o trabalho de gestação, o parto espiritual! Sentimo-nos então como que transportados a um outro mundo, a uma outra realidade, a outra esfera celeste transfigurada por nossas imagens e pensamentos, a visão na perspectiva de um outro universo além daquele em que, na modorra, vivemos a vida banal de todos os dias. Um Universo transcendente, além do da cosmologia? Talvez façamos filosofia quando, conscientemente, procuramos vislumbrar os contornos desse universo através das brumas espessas da própria ignorância. Pois 'o amor da sabedoria' é algo que, fundamentalmente, independe de estudos acadêmicos e pode ser descoberto, em alguns casos, até mesmo no meditar de um velho caboclo analfabeto. Passou o tempo em que só um 'professor de filosofia' podia ser filósofo. Repitamos: Sócrates era um vagabundo de pés descalços, filho de uma parteira, que passeava pela Ágora de Atenas fazendo perguntas idiotas aos jovens ociosos e criticando os heróis da pátria, Milcíades, Temístocles, Péricles, que haviam construídos muralhas, armado esquadras, edificado monumentos, mas se esquecido da defesa da Justiça e da Liberdade. Jakob Boehme era um sapateiro, já o dissemos. E Nietzsche só escreveu grande filosofia depois de largar a cátedra que ocupava na Universidade de Basiléia, para percorrer a Itália e a Engadine suíça como turista erudito que, com dinamite ou a golpes de martelo, escrevinhava compulsivamente seus aforismos explosivos em pedaços de papel. Quanto ao caboclo nosso irmão, lembro-me de haver lido um dia, na Rio/Brasília, na traseira de uma jamanta - onde os caminhoneiros costumam constelar sua sabedoria ambulante - a seguinte frase memorável: 'Para que tanta prosa se no fim é a morte?'. Não é digno do Eclesiastes?

Tudo isso justificaria a tese de Karl Popper, já acima qualificado como um dos maiores pensadores do século, que propunha a existência de três Mundos. Interpreto a tese popperiana do seguinte modo. O primeiro mundo é o mundo da realidade objetiva, fora de nós - o espaço exterior em três dimensões, observado pelos sentidos, vivido na Ação e investigado pelas ciências naturais. O segundo mundo é o que existe em nós mesmos - no 'Eu' de nossa consciência, no universo subjetivo de nossa memória, ações presentes, sentimentos, emoções e expectativas futuras; é o mundo que se estende na dimensão do tempo e persiste no temps durée de Bergson - o Tempo que corta perpendicularmente o primeiro mundo em movimento linear irreversível, no ponto exato em que Eu, presentemente, me encontro hic et nunc. E o terceiro mundo dos que contempla Popper é o de nossas teorias e criações intelectuais. É aquele universo mental, abstrato que, transmitido pela palavra escrita, ouvida, gravada ou representada, configura um universo espiritual que existe em nós e fora de nós, nos sobrevive e permanece após também ter sido salvo do passado que já se foi, em livros, monumentos, quadros, partituras, filmes, fotos, discos e memória megabytes de computador - mundo no qual acrescentaríamos as Artes e que representaria a própria permanência ou sobrevivência da cultura humana. Diziam os romanos: littera scripta manet - a palavra escrita permanece. Os chineses clássicos possuíam tamanho respeito pela palavra escrita em seus ideogramas, dezenas de milhares deles acumulados durante séculos, que sentiam um verdadeiro constrangimento na destruição de qualquer papel em que aparecesse algo escrito. Cuido de novamente mencionar Popper. Sir Karl acentuava que, se por um cataclismo qualquer, natural, ecológico ou bélico, a civilização viesse a desaparecer, sobrando contudo uma única biblioteca bem guarnecida, a Library do Congresso em Washington por exemplo, com seus quinze ou vinte milhões de livros, ou a do British Museum, ou qualquer das grandes universidades ocidentais, poderia a Humanidade, em poucos anos, recuperar o nível de civilização a que havia anteriormente atingido.

Afirmemos que, nos termos de Jung, cria o Inconsciente um liame entre o insignificante e transitório Eu consciente, do presente 'Aqui e Agora', e aquela entidade eterna omnipotente e personalizada a que se dá o nome de Deus e com a qual nos é facultado o diálogo - geralmente por intermédio do Inconsciente, como nas intuições fundamentais da Revelação e nas visões vertiginosas dos profetas. Em termos de memória coletiva, o Terceiro Mundo de Popper não é a mesma coisa. Popper é um positivista, não nos esqueçamos. No meu entender, seu Terceiro Mundo representa a cultura universal, consistindo naquela parte concreta, temporal e terrena, de um Sentido mais vasto, em eterno crescimento com as 'almas' de todos os homens que já viveram e através de cuja memória não mais Eu, mas Nós, todos nós, humanos, a Humanidade, nos movemos através da história em direção a um Fim último, desconhecido mas cuja definição progressiva configura, precisamente, o propósito do Espírito. Como Voegelin parece entender, seria a Filosofia o instrumento intuitivo pelo qual as sucessivas Revelações que de si mesmo fez o Ser transcendente nos atingem e educam. As Revelações nos ajudam a conceber esse Fim. Assim planejamos às escuras o caminho a trilhar para alcançá-lo. Eis por que toda grande filosofia deve, simultaneamente, ser uma Psicologia, uma Teologia, uma Cosmologia e uma Ética.

Ora, qualquer uma dessas veneráveis disciplinas deve começar, como sabiamente aconselhava Sócrates, pela obediência ao sagrado imperativo do Apolo de Delfos, o conhecer-se a si-próprio - Gnothe seauton. Imperativo que igualmente colocava no início de sua meditação religiosa, com o conselho de não a procurarmos lá fora, mas introvertermo-nos, pois é no interior do homem que habita a verdade:

Noli fora ire, inteipsum redi; in interiore homine habitat veritas.



ANAMNESIS

Obedeçamos pois ao princípio introspectivo, abeberado junto à fonte de Castália cujas límpidas águas permitiram à pitoniza vaticinar a sabedoria de Sócrates. O autor é, neste caso, um brasileiro, carioca, nascido em 1917 - ano fatídico que foi aquele em que terminou a maior batalha da história, Verdun, setecentos mil mortos; se iniciou a Revolução russa, que instalou no poder o regime soviético, sessenta milhões de mortos; e entraram os Estados Unidos na Grande Guerra, dez milhões de mortos, preparando-se para a posição de potência hegemônica do século XX. Num contexto de algum modo ordenado com idéias cartesianamente 'claras e precisas', procurarei salientar a correspondência entre as posturas filosóficas e ideológicas, adotadas como contraponto das peripécias da história do planeta, e o decorrido durante os mais de sessenta anos que entremeiam os albores de minha sensibilidade política e o crepúsculo fatídico ora atingido. Foram sessenta anos que tornam tarefa imperativa e urgente traduzir metodicamente os milhares de páginas, escritas e acumuladas ao Deus dará, na memória e no papel, em algo que faça sentido.

O problema psicológico da constelação familiar que me educou é desde logo, neste contexto, relevante. Minha Mãe era filha de um artista português, Frederico Nascimento, originário de Setúbal, que viera ao Brasil dar concertos de violoncelo, casara no Rio Grande do Sul e aqui permanecera, lecionando no Instituto de Música do Rio do qual se tornaria Diretor, praticamente até morrer. Foi mestre da maior parte dos grandes compositores brasileiros. Desse lado da família, foram meus tios incorrigíveis boêmios. Todos morreram cedo, como acontecia na época do Romantismo luso-brasileiro, de tuberculose - e um deles nos deixou com dois irmãos adotivos. Contrabalançando a disciplina paterna, deparei-me portanto com o exemplo de um liberalismo artístico que minha Mãe fortemente corrigia, quando necessário, com as estrituras de um código moral raramente violado. O ambiente de estúrdia sem periculosidade pendia francamente, desse lado, para a atmosfera psíquica em que dominava o intuitivo, o afetivo, o incoerente, o musical e o estético.

O componente político e religioso do complexio oppositorum não era banal. Originária do litoral norte de São Paulo, S. Sebastião e vale do Paraíba, a família de meu Pai, Gonçalves de Araujo Penna, era enorme (tive mais de quarenta primos irmãos). Tipicamente pequeno-burguesa, algo provinciana e conservadora, donde fortemente católica (um primo foi bispo e uma prima superiora de convento do Sacré Coeur) - ela gerou contudo um setor radical (um almirante linha-dura, Levy Reis, e um guerrilheiro urbano, Daniel Aarão Reis no período repressivo do general Médici). Desse lado, o pedigree mais relevante é o da avó paterna, Joana de Meira. Segundo ouvi de um provável primo longínquo, o general Meira Mattos, os Meira procedem de um tronco galego (da Galícia espanhola) mas são também descendentes de um dos primeiros povoadores do Brasil, João Ramalho, cujos rebentos se estenderam de São Vicente para aquela área paulista.

Meu pai na adolescência fora republicano. Contava-me que, ainda garotinho, costumava correr atrás da carruagem do Imperador, a partir do Largo de São Salvador onde morava a família, quando Pedro II ia visitar a Princesa Isabel e o conde d´Eu no Palácio Guanabara. Dava então um heroico 'Viva a República' - grito que Sua Majestade acolhia, detrás de suas venerandas barbas brancas, com um sorriso galhofeiro de boa vontade e um paternal aceno da mão. O pendor republicano e autoritário paterno iria combinar-se com uma grande admiração por Floriano. Estava no sangue, se poderia dizer. Um irmão mais velho, Antonio de Araujo Penna, foi como estudante de medicina aprisionado pelos marujos rebeldes no combate da Ponta da Armação, ao tempo da Revolta da Esquadra. O florianismo estendeu-se ao positivismo e converteu-se, na vida de meu pai, em amizade e admiração pelos sucessores de Júlio de Castilho, especialmente Pinheiro Machado. Apoiou também o Marechal Hermes da Fonseca, ainda que amigo de Rui Barbosa. Veio mais tarde o interesse, superficial embora, por temas relacionados com o pensamento de Augusto Comte - divagações positivistas que foram estimuladas durante sua permanência em Paris.

Embora sem qualquer comprometimento político, mas por convicção invariável e temperamento favorável aos poderes constituídos, inclusive o poder algo arbitrário e policialesco à época do Presidente Artur Bernardes - meu pai não hesitou em se entusiasmar com a revolução de 30, dita 'liberal', uma fraude que trouxe ao poder o chefe castilhista gaúcho Getúlio Vargas. Lembro-me claramente desse período de agitação que se agravaria nas três ou quatro décadas seguintes - o ciclo turbulento da grande crise do sistema político brasileiro, a lenta e árdua transição, longe de encerrada, de um regime patrimonialista autoritário, incompetente, corrupto e bom-moço, herdado do colonialismo português, para um sistema democrático de modelo norte-americano. Em 1932, recordo acaloradas discussões em casa, com referência à repressão do movimento constitucionalista de São Paulo.

Comecei portanto a vida na atmosfera criada pelo temperamento autoritário, de pavio curto e veleidades positivistas de meu Pai, com seus preconceitos castilhistas concernentes às vantagens da 'ditadura republicana', sua admiração pelo Marechal Floriano e os ensinamentos de Oliveira Viana sobre o valor instrumental do governo forte, militar se necessário, no estágio de desordem em que se encontrava - e, aliás, até hoje se encontra o Brasil. Bem no centro do contencioso ideológico do século, foram décadas de progressiva evolução na vaga direção do liberalismo de que, a princípio, não me dei conta. Mas quem não evoluiria de tempos em tempos, mudando de opinião num tal largo decurso cronológico, ainda que sempre orientado numa constante direção? À medida que crescia em idade e hierarquia, mais impaciência me causava a irracionalidade estúpida do Dinossauro burocrático, o Leviatã de corpo imenso, cérebro minúsculo e reações extremamente lentas a qualquer estímulo. A concretização da negativa em seguir o 'caminho da servidão' por Hayek denunciado, iria ocorrer muitas décadas depois, já aposentado. A irritação que sempre me causou a irracionalidade e irresponsabilidade de nosso povo - 'ce ne sont pas des gens sérieux' do polêmico aforismo gaullista - me inspiraria, mais tarde, a tentar uma explicação ou justificativa do caráter nacional, sem porém deixar de me colocar em atitude contenciosa com a realidade que era chamado a considerar, quando enfrentando não a intelligentzia, mas a burritzia tupiniquim...

O Catolicismo de meu Pai era superficial, o que quer dizer, pendia muito mais para o mundano (no sentido de la bonne société), do que para o místico - em contraste considerável com o que então se chamava de atitude 'livre pensadora' da família de minha Mãe. A ausência de religiosidade do componente materno correspondia à de seu próprio Pai lusitano, o que contribuíu para praticamente me privar de educação religiosa. Uma tal ausência pode, às vezes, ter menos consequências do que uma reação radical à opressão das beatas. Lembremos que dois dos mais eminentes 'gnósticos' do século passado e do atual foram Nietzsche e Jung, ambos filhos de pastores protestantes. Consequentemente, minha própria jornada religiosa foi ziguezagueante, contraditória e atravancada.

Social e culturalmente, o ponto chave foi a circunstância que, nos dez primeiros anos de vida, vivi num ambiente de elegante bem-estar e fartura burguesa, acumulados por meu Pai. Era ele dono de uma indústria farmacêutica homeopática que se ampliou com a substituição de importações ao tempo da Iª Guerra Mundial. A residência onde nasci, um pequeno 'palacete' com torrezinha e tudo, à Avenida Oswaldo Cruz, então uma das mais aristocráticas do Rio, era acrescida de uma velha casa em Petrópolis, na rua Ipiranga, hoje tombada, onde fugíamos da canícula carioca.

Eu tinha dez anos de idade quando meu pai nos levou, toda a família, para a Europa. Permanecemos três anos em Paris, de 1927 a princípios de 30, e durante esse período excursões ocasionais à Itália, Suíça, Alemanha, Bélgica, Holanda e Espanha infectaram-me com o vírus da aventura turística de que sofro até hoje. Na verdade, posso penetrar em meu próprio Inconsciente e descobrir uma espécie de procura irreal obstinada do Graal, que deve estar escondido alhures, em algum recanto obscuro de um qualquer dos cinco continentes. Em meus sonhos, paisagens desconhecidas de alguma terra ignota em que penso haver vivido, em outra encarnação, são temas recorrentes, imagens oníricas de sempre. Tomei, de qualquer forma, um gostinho de Europa, um sabor de civilização que jamais me largou. Foi influência decisiva na escolha da diplomacia, a única carreira que, à época no Brasil, granjeava uma abertura, digamos existencial, à cultura universal.

Em Paris, logo naturalmente desenvolvi o gosto pela cultura e o conhecimento da língua francesa que já principiara a conquistar no Lycée Français, no Rio de Janeiro, e com uma governanta que esteve agregada à família de 1927 a 1987, durante sessenta anos! Na capital francesa, cursei o Liceu Janson de Sailly, localizado no elegante bairro de Passy, rive droite naturalmente. No Janson, adquiri alguma experiência na língua e cultura, juntamente com o gosto pela história - disciplina cuja aprendizagem foi decisivas à vocação para a carrière, com a formação intelectual e alguma erudição francófila que posso reclamar. Em princípios de 1930, entretanto, a crise econômica e a desvalorização cambial, reflexos da Grande Depressão e dos problemas do café, obrigaram meu pai ao melancólico retorno ao Rio de Janeiro, tendo eu então doze anos. Algo mais traumatizado ficara, porém, com a ruptura da família e a separação semi-litigiosa de meus pais - minha mãe, irmã e os dois irmãos adotivos permaneceram em França por mais três anos.

Chegando assim à puberdade e adolescência, ia se caracterizando o interesse emergente por outras áreas da política, da psicologia e do pensamento filosófico. Foi nesse período, dos 14 aos 18 anos, que comecei a ler Freud. Eu mantive uma lista cronológica de tudo que leio durante praticamente toda a vida. Posso assim avaliar as variações das tendências de minha curiosidade. A psicanálise me impressionava de modo ambivalente, tanto como fascínio quanto pelo desagrado com o redutivismo obsessivo do sexo, destilado pela obra de Freud. Principiavam a desenhar-se, concomitantemente, os aspectos negativos do complexo de Édipo. Mais apropriadas contudo, na realidade, me pareciam as teses dissidentes de Alfred Adler sobre o 'complexo de inferioridade' e as reações do 'protesto viril', pois a extrema introversão (inata ou adquirida?) me escarmentava com uma timidez quase doentia - situação a que melhor se adaptava a hipótese adleriana, inspirada em Nietzsche. A leitura da obra de Bergson encetou a fascinante aventura de incursões cada vez mais ativas no campo do que já se poderia qualificar como um arremedo de pensamento filosófico. Tambem na época, além de leituras de história e literatura vária (uma mania de H.G.Wells por exemplo, que durou alguns anos), muito lí Keyserling. Na época, o pensador teuto-russo gozou de certo prestígio, hoje está quase olvidado. Suas 'Meditações Sul-americanas', no entanto, configuram uma análise das melhores que foram jamais feitas sobre o Brasil, nossa mentalidade e cultura.

Foi também por essa época de delírios imaginativos da adolescência que me entusiasmei pela ciência em geral e a astronomia em particular, graças a um livro de divulgação popular da ciência pelo astronomo e publicista Camille Flammarion. Cheguei a construir uma espécie de pequeno telescópio, com uma luneta montada em aparelhagem de Mecano. A Lua mais me atraía como objeto de pesquisa visual e divagações futuristas de viagens 'espaciais' ao satélite, do que como 'atalaia ofélica dos viajores perdidos' da imaginação poética. Muitos anos mais tarde, o problema dos OVNIs, dos E.T.s e da pluralidade dos mundos habitados voltou a intereesar-me e escrevi um livro de ficção, de tom humorístico, com o título URANIA, para o qual não encontrei ainda editor. A ciência (para satisfação de minhe Mãe, que fora amiga de Charles Richet, um dos grandes sábios do século, descobridor da anafilaxia e Prêmio Nobel em 1913) permaneu como curiosidade paralela no correr da vida.

Entretanto, a consciência política só principiou a brotar aos sobressaltos em 1935, após o Vestibular para a Faculdade de Direito, então localizada num pardieiro da rua do Catete. Com entusiasmo passageiro, eu havia lido uma obra do socialista francês Jean Jaurès - assassinado em agosto de 1914 por ser germanófilo. Na Faculdade - e já então com 17 anos - descobri a existência de uma crescente dicotomia ideológica, um verdadeiro maniqueísmo de horrendos resultados históricos, pois deixou um vírus que contaminou o século. A década dos 30 iria configurar o violento confronto dos 'extremismos', como assim eram então classificados, que se radicalizou com a Guerra Civil espanhola, um dos estopins da IIª Guerra Mundial. No Brasil, facultou a ditadura varguista… A sedução da parte mais considerável do corpo discente pelo canto de sereia do romantismo dito de 'esquerda' - o comunismo que não gostava de se identificar como tal - foi seu reflexo saliente na Faculdade. Eles acompanhavam os professores Leônidas de Rezende, Hermes Lima e Castro Rebelo em sua gororoba positivista/marxista. Leônidas de Rezende era o mais popular. Suas aulas de Introdução à Ciência do Direito faziam uma teimosa distinção simplória entre o que ele chamava os 'bons filósofos', os monistas, e os 'maus filósofos', os dualistas. Entre os bons monistas, defendendo as Termópilas da ideologia, destacavam-se Demócrito, Lucrécio, Spinoza, Bruno, alguns enciclopedistas franceses, creio, Rousseau e depois Marx, Engels, Comte, Darwin, Trotski e Haekel, um biólogo de segunda categoria que despertava enorme interesse no emérito catedrático. Entre os 'maus' dualistas se alinhavam, naturalmente, Platão, Aristóteles, Santo Tomás e, na modernidade se não me engano, Kant, Bergson e alguns outros - todos atirados ao Aqueronte do obsoletismo reacionário. Um outro grupo de estudantes, formados em ordem unida à 'direita', se congregava em torno do professor 'nacionalista' Alcebíades Delamare, cognominado 'o Pátria Amada'. Um terceiro grupo, provavelmente o mais numeroso e com certeza o mais prudente, abstinha-se de tomar partido: era o dos neutros, democratas ou, ocasionalmente, os varguistas e candidatos a emprego público, que brilhavam pelo silêncio total e pesado. Posteriormente aos eventos de 1935, foram Hermes Lima, Castro Rebelo e Leônidas demitidos da Universidade. Hermes Lima, porém, chegou a ser Primeiro Ministro, Chanceler e Ministro do Supremo no Governo Goulart, em 1962/63. Nas eleições para o Diretório Acadêmico foi eleito uma cintilante figura que já se distinguia nos estudos, na retórica e na empáfia. Seria, mais tarde, meu colega no Itamaraty. Tendo entrado para a carreira em concurso ulterior, eu só o conheceria pessoalmente em 1953/54, em condições particularmente polêmicas, ambos Secretários de nossa Missão junto às Nações Unidas em Nova York. Recordo igualmente de uma bem concorrida conferência de Gilberto Amado no Centro Oswald Spengler - que presumo se destinava a angariar simpatias para o eterno Chefe do Governo Provisório, prestes a enfrentar um dos mais sérios desafios à sua liderança.

Foi ao final desse primeiro ano acadêmico de 35, ou mais exatamente no dia 27 de novembro, que se registrou a chamada 'Intentona' comunista, de importância decisiva na evolução de minhas convicções políticas. Não me vou estender sobre as origens do movimento, o que não cabe nestas memórias. Registro apenas que, nessa época, vivia minha mãe, seus dois sobrinhos, irmãos adotivos, e minha irmã Maria Cecília, numa rua da Urca, Ramon Franco, que, saindo da Avenida Pasteur, se defrontava com o quartel do 3º Regimento de Infantaria, sediado num antigo pavilhão de exposições da Praia Vermelha. Eu morava com meu pai em Copacabana. Por volta das duas e meia da manhã, fomos despertados por um telefonema de minha mãe que, apavoradíssima, anunciava estar sua casa recebendo balaços do tiroteio infernal que arrebentara no quartel próximo. Dizia-se temerosa pela própria vida e a de seus filhos. Deitados todos no chão da sala de visitas, assim se protegiam da metralha.

O dia estava escuro, chovera pela manhã. O caminho barrado no Mourisco pela artilharia legalista que bombardeava os rebeldes. Só à tarde, por volta das dezesete horas, me foi possível alcançar a Urca e visitá-los. A casa apresentava, efetivamente, o estrago de buracos de bala e toda a área da Avenida Pasteur oferecia o espetáculo lamentável de um campo de batalha - galhos no chão, vidros quebrados, um automóvel destruído e queimando, sujeira por toda a parte e, no fundo, na perspectiva da própria avenida Pasteur, a cúpula do edifício do quartel em chamas. Acabava de passar, naquele momento, um grupo de oficiais revoltosos. Aprisionados e acompanhados pelas tropas do comandante da Vila Militar que suprimira a rebelião, o general Eurico Gaspar Dutra, futuro Presidente, os rebeldes não pareciam acovardados. Estavam maravilhados com a farra. O sangue os embriagara…O que mais me irritou porém, ao sair da casa materna, ainda traumatizada com o drama vivido, foi encontrar um grupo barulhento de colegas da Faculdade, conduzidos pelo acima aludido Presidente do Diretório Acadêmico, às gargalhadas diante do espetáculo teatral que haviam presenciado. Eu estava reagindo, ao contrário, com indignação. A brutalidade inédita do conflito me parecia absurda. A reação emocional foi agravada quando assisti à passagem de soldados feridos que enfermeiros militares e civis tentavam carregar até uma ambulância próxima. A vista do sangue me nauseou - um sintoma frequente na adolescência, encobrindo quiçá uma agressividade recalcada. A repulsa pelo ocorrido se agravou, dia seguinte, ao ler nos jornais sobre o alegado assassinato de seus colegas de quartel que dormiam, pelos oficiais revoltosos que assim pretendiam no assegurar o sucesso do golpe.

A 'Intentona' teve consequências históricas relevantes. Detrás das polêmicas que provocou, sabemos hoje, graças à documentação obtida em Moscou após o colapso da URSS em 1989/91, que o movimento fôra preparado com destacada inépcia. Líder do golpe, o camarada Luís Carlos Prestes havia persuadido os dirigentes do Comintern que, mergulhado na desordem após a Revolução de 30, estava o Brasil maduro para uma revolução de estilo jovem do Exército, liderada pelos 'tenentes', aderiria ao chamamento carismático do bolchevista ou mexicano. Não deviam esperar qualquer reação militar, eis que a oficialidade 'Cavaleiro da Esperança' e derrubaria o desprestigiado Presidente da República. Assim mal preparado, o putsch no Rio de Janeiro foi conduzido por uma dúzia de cabecilhas que, na Escola de Aviação do Campo dos Afonsos e no quartel da Praia Vermelha, foram facilmente desbaratados, respectivamente pelo então coronel Eduardo Gomes e pelo general Dutra. No Nordeste, a repressão foi ainda mais fácil. Em Natal, um rico 'coronel' e futuro Senador, Dinarte Mariz, liderara uma centena de jagunços, arregimentadas das fazendas vizinhas, os quais em meia hora puseram a correr os mal armados e comandados pobres diabos que haviam ocupado a capital do Rio Grande do Norte. Ficção ou não, o assassinato dos colegas que dormiam no quartel do 3º Regimento ao se iniciar o levante, repercutiu de modo profundamente negativo entre as Forças Armadas, gerando um trauma saudável, até hoje não arrefecido. Sem imaginar o erro cometido, os partidário do líder do PC criaram um mito diametralmente contrário ao da Grande Marcha da Coluna Prestes, injetando um anti-vírus que para sempre imunizou grande parte do Exército do credo totalitário. É possível que, sem o 27 de novembro, não teríamos tido uma oficialidade tão visceralmente anti-comunista quanto aquela que, décadas mais tarde, derrubaria os epígonos calhordas do esperançoso Che Guevara brasileiro, junto com Goulart, Brizola e companhia. A repressão da Aliança Nacional Libertadora serviu, além disso, ao espertíssimo Getúlio para, na surdina, preparar sua versão particular da 'Ditadura Republicana' castilhista - assegurando-se do apoio da 'direita', no Exército e no movimento Integralista, para o próprio golpe que cuidadosamente aprontava.

O sentimento de revolta diante do ocorrido com um levante de objetivos tão contestáveis se externou, dois ou três meses depois, pela minha inscrição na Ação Integralista Brasileira. Do movimento do Sigma participei até novembro de 1937 - durante dois anos portanto. Foi um período em que frequentava superficialmente a Faculdade e me encontrava, simultanea e pesadamente, ocupado com os estudos intensivos para o concurso do Itamaraty. O desvio para o caminho do suposto 'fascismo' tupiniquim, vestindo uma camisa verde e aos gritos de 'anauê!', não teria sequelas duradouras em minha mente, como veremos a seguir. Teve-as, porém, na carreira. Adquiri na Casa a reputação de 'fascista reacionário' que me acompanhou durante os quarenta e tantos anos seguintes.

Na realidade, a alternativa de um coletivismo belicoso, uniformizado e algo ingenuamente patrioteiro, para combater um outro, terrorístico, cafajeste e desclassificado, só podia conduzir a um impasse. A verdade é que, nesses dias de 1935, começava a medrar uma idéia que exigiria décadas para florescer em minha mente: a que o caminho a trilhar seria repleto de repugnantes contradições entre o Leviathan - o Estado burocrático, totalitário e interventor, o 'mais frio de todos os monstros frios' como o descreveu Nietzsche, de um lado - e o Behemoth da multidão revolucionária, arruaceira, ululante e destruidora do outro. Fortaleceu-se em mim, na verdade, uma entranhada ojeriza a esses aspectos, antitéticos mas complementares, da famosa 'rebelión de las masas' a que se referiu Ortega. Não sei o que é pior, se a visão de cem mil nazistas perfilados em perfeita formação geométrica diante da Cruz Gamada num campo de Nuremberg, para o congresso do Partido (ou espetáculos semelhantes nos desfiles militares da Praça Vermelha em Moscou, ou do 'Exército Popular' da Coréia do Norte em Piong Yang); ou a de uma multidão vociferante de cem mil baderneiros percorrendo uma artéria urbana, gritando slogans, quebrando janelas, enfrentando a polícia (que, geralmente, 'reage com brutalidade', como argumentam os locutores de televisão) e procurando derrubar De Gaulle no Quartier Latin ou Castello Branco na avenida Rio Branco. Este último tipo de espetáculo só por duas vezes me entusiasmou: quando um jovem estudante dissidente deteve um tanque na praça da Paz Celestial, em Beidjing, e quando o ditador Ceaucescu foi vaiado pela multidão, poucos dias antes de ser detido e fuzilado pelo exército em Burareste. A política, a meu ver, é isto: a arte de navegar entre Scylla e Charybdis, o que quer dizer o Leviathan do Estado absolutista e o Behemoth da multidão desembestada. Acabei reconhecendo o trágico dilema. Algumas vezes temos que utilizar os préstimos de um dos monstros para derrubar o outro. Behemoth para derrubar Ceaucescu, por exemplo; Leviathan para derrubar a canalha, como o fizeram Franco, na Espanha, e Pinochet no Chile. O recurso é, contudo, invariavelmente perigoso, extremamente perigoso...

Não pretendo haver compreendido Nietzsche. Li o 'Zarathustra' em estado de semi-embriaguês intelectual, numa adolescência solitária e tímida. Em sua 'Genealogia da Moral', Nietzsche bem descreve a repressão institucionalizada que a Moral do Rebanho, Herdenmoral, impõe não apenas à 'psicologia de massas' do Fascismo, como querem os fátuos gurus ideologicamente condicionados pelo Neo-marxismo da Escola de Frankfurt, mas à psicologia de massas de todo totalitarismo, esquerda ou direita - de linha mussoliniana, hitlerista, leninista, maoísta, fidelista ou chavista. Talvez a aversão simultânea a toda baderna desordeira e a toda submissão à estupidez da rotina burocrática plantava o germe de uma eventual conversão libertária - sendo entendido que o preço da liberdade está, justamente, na disciplina de uma ordem interior, admitida e responsável. A Ética da Responsabilidade de que falou Weber, Verantwortungsethik.

Recordo um pequeno episódio que, com o passar dos anos, hoje me diverte pelos seus paradoxos. Meu 'Chefe' no Departamento de Relações Internacionais da AIB era o Antonio Gallotti, personalidade admirável que se ia tornar, futuramente, um advogado famoso, o rico e poderoso Presidente da Brazilian Traction, a 'Light' de augusta memória. Com ele e com seu 'vice', o hoje igualmente notório Gerardo Mello Mourão, fomos ao Hotel Glória para entrevistar um intelectual ianqui, Samuel Putnam. Depois de explicarmos os propósitos do Integralismo, o prestigioso tradutor da literatura brasileira, manifestou-nos amigavelmente a opinião que o valor supremo era a Liberdade. Ao sairmos da entrevista, comentamos como anacrônico era o tipo - sem nos darmos conta, evidentemente, que poucos anos depois estaríamos nós mesmos, Gallotti e eu, convencidos da justeza de sua postura… Putnam, no entanto, já era ou se tornou marxista, uma contradição...

Mas voltemos à cronologia dos eventos. O golpe de 10 de novembro de 1937 foi um dos planos maquiavélicos mais bem arquitetados que regista a história, não só a do Brasil mas de toda a América Latina. Não cuido de me deter aqui sobre o episódio. Basta lembrar que, logo depois de 'decretado' o Estado Novo, um outro decreto ditatorial aboliu todos os partidos e todos os movimentos políticos, inclusive a própria Ação Integralista Brasileira que sustentara as ambições do ditador. O movimento foi eliminado sem dar um pio. Nada de autenticamente 'fascista' nessa passividade… Dei-me conta então de quão tola, ridícula e humilhante havia sido minha própria participação na 'marcha dos 50.000' que, dez dias antes do golpe, haviam percorrido o trajeto da praça Mauá a Botafogo, entrando pela ruas das Laranjeiras e Pinheiro Machado, e desfilando aos gritos de 'Anauê!' diante do palácio Guanabara. Lá na sacada estava o gordinho genial, com seu eterno 'sorriso da Gioconda', ladeado pelo general Newton Cavalcanti. O comandante da guarnição da Vila era o mesmo que a ingenuidade de nossos 'chefes' havia convertido num cripto integralista, pronto para sustentar a AIB com mão forte, caso algo atrapalhasse a antecipada 'tomada do poder'. Registro apenas o sentimento de desgosto, frustração e certa dose de ira pela 'traição' do Getúlio, sentimento que veio imediatamente à tona na mesma noite de 10 de novembro, quando o Pai dos Pobres fez seu discurso monótono, justificando seu 'Estado Novo' patrimonialista-castilhista-personalista - sem uma palavra siquer de agradecimento pelo apoio que recebera daquele que transformara, da noite para o dia, em palhaço impotente, Plínio Salgado, o fracassado 'Condestável' do Brasil integral.

Os ressentimentos explodiriam em maio do ano seguinte. O malogrado putsch, comandado por um oficial que nem mesmo era integralista, o capitão Fournier, contra aquele mesmo palácio Guanabara perante o qual havíamos desfilado seis meses antes, foi um exemplo prodigioso de golpe de mão inacreditavelmente mal concebido e executado. Mais aguda humilhação secretamente ressenti quando, pouco tempo depois desses eventos, fomos todos, os funcionários do Itamaraty como os de outros ministérios, 'convidados' a participar de outro desfile, desta vez no campo do Fluminense, contíguo ao palácio, para homenagear o ditador o qual, na ocasião, abriu o sorriso galhofeiro em larga e satisfeita gargalhada: tinha razões de sobra para isso…

A monumental rasteira que o caudilho, no qual ia o Brasil 'depositar sua fé e esperança', perpetrara, não só contra o Integralismo, mas contra os 'liberais democratas' (Armando Sales Oliveira, o coronel Euclides de Figueiredo e Otávio Mangabeira, entre outros, que contra ele conspiravam, incluindo maragatos e chimangos como Flores da Cunha e talvez mesmo João Neves da Fontoura e Borges de Medeiros), comportou o primeiro desapontamento memorável de minha carreira de 'observador engajado'. Custou-me décadas para perceber o que se passara. No fundo, o Getúlio não fora só culpado de introduzir no país o autoritarismo positivista de Júlio de Castilhos, antes confinado ao Rio Grande do Sul. Acoplado com o caudilhismo gaúcho, de indisfarçáveis raízes hispânicas e perversas consequências no reforço trazido ao patrimonialismo e clientelismo tradicionais de nosso sistema político, 'o Pai dos Pobres' (e 'mãe dos ricos'…) criara um poderoso precedente sebastianista que legitimou o corporativismo institucionalizado e até hoje nos afeta, sessenta anos depois. O Jânio utilizou o paradigma de modo inepto e tresloucado. O calhordíssimo Brizola carregou posteriormente o fantasma, ladeando o Lula. Este Neanderthal ainda tenta fazê-lo.

Mesmo no Brasil, em que pese nosso temperamento mais cordato e submisso, conhecemos pela primeira vez a figura do caudilho-tipo na pessoa deste 'Dr.' Getúlio. (Incidentalmente, 'Dr.' foi o máximo título nobiliárquico concedido pela República, como o de 'Duque' no Império, que só Caxias recebeu. Na República tivemos dois Doutores, Getúlio e Ulysses, ambos responsáveis pelos dois maiores monstrengos constitucionais de nossa história, as Cartas de 1937, a 'polaca', e de 1988, a dos 'miseráveis'). Me havendo deixado virtualmente seduzir, na adolescência, pelo apelo do coletivo e contaminar de ideologia - passei depois longos anos para me imunizar e purificar do vírus das multidões, organizadas ou caóticas. Não que dedicasse uma particular admiração, fidelidade ou devoção reverente por qualquer dos políticos que se projetaram na ribalta. Nenhum jamais para mim representou qualquer tipo de figura paterna ou 'Grande Irmão' que atraísse os eflúvios libidinosos das massas, como Freud sugerira em seus ensaios de Psicologia Coletiva. Pouco igualmente cheguei a bem conhecer ou compreender o Getúlio. Mais perplexo ainda ficava ao assistir, no noticiário visual então transmitido pelo cinema, a histrionice aterrorizante do Führer alemão, a teatralidade meridional, algo ridícula, do Duce de ópera italiana, ou a figura do tártaro enigmático, o Tio Zéca Stáline. Tiveram eles vários epígonos, no Brasil e alhures, mas todos passaram a me causar verdeiro asco.

Quanto à única oportunidade de contacto direto mantido com o 'Dr.' Getúlio, vale a pena descrevê-la. Em meados de 1940, pouco tempo antes da partida para o primeiro posto no exterior, fui promovido 'por antiguidade'. Era uma promoção automática, resultante do aumento dos quadros do pessoal que não comportava qualquer favor a mim concedido pelas autoridades. Mas por simples questão de boa educação, resolvi acompanhar ao Catete os outros colegas, da promoção 'por merecimento', para 'agradecer' o nobre e generoso ato de Sua Excelência. No palácio, fomos sendo apresentados, um a um. Todos os nomes nele despertavam alguma recordação pessoal: Fulano, filho do Almirante X, 'meus parabens, jovem Secretário, tua promoção foi muito merecida'; Sicrano, 'ah! teu Pai é grande amigo meu, lá de Pelotas, como vai ele? Recuperou-se de sua enfermidade?'; Beltraninha, 'o Pai de Você não é aquele juiz no Amazonas, não é? Sei quem ele é… Parabens, minha filha. Faça uma bela carreira...'. E assim por diante, Getúlio continuou, dezenove Segundos e Primeiros Secretários, todos encantados. Mas quando chegou minha vez, o munificente Grande Irmão empacou: 'Meira Penna? Meira Penna?'. O nome evidentemente não lhe despertava qualquer tipo de conexão de política, compadrio ou amizade. Passou adiante, sem dizer outra palavra.

De fato, meu Pai havia sido amigo de quase todos os Presidentes da República Velha, frequentara o Palácio do Catete como fazia a alta sociedade carioca daquela época. Mas a conexão se rompera com a Revolução de 30. Minha presença entre os rebentos da ilustre aristocracia patrimonialista federal (os 'Príncipes da República' como se vangloriavam os vaidosos) era meramente circunstancial. Eu fizera concurso e nele fora aprovado, sem necessidade de qualquer pistolão. Não precisava enquadrar e suspender na parede o Decreto assinado por Sua Excelência. Estava completamente fora da vasta e complexa tessitura de favores e obrigações clientelistas que constituiam a infra-estrutura do Poder, de estilo patrimonialista, sobre o qual se sustentava o homem predestinado no qual 'o Brasil deposita sua fé e esperança' (para usar as expressões do DIP). Pertencia a uma nova figura abstrata que principiava a surgir. Era a do 'profissional' independente e futuro 'tecnocrata', recrutado por concurso e destinado a preparar a emergência do país como democracia liberal nas décadas futuras.

Fui aos poucos forçado a admitir que, não só minhas simpatias se viravam cada vez mais para o lado dos liberais da futura UDN mas que, talvez sem exatamente ter consciência do que fazia, Getúlio Vargas teve pelo menos um mérito incontestável: preservou-nos de atropelos bem mais graves, caso houvesse permitido o livre crescimento no Brasil dos dois irmãos inimigos, das duas ideologias complementares de 'esquerda' e 'direita', cujo confronto nos poderia haver conduzido a trágicas aventuras durante a guerra mundial que, a passos largos, se aproximava do outro lado do Atlântico. Dos males, o menor. Antes um caudilho um tanto borocoxó e necessariamente mortal, com seu charuto e barriguinha de coronel dos Pampas, bem alimentado, do que um déspota sanguinário e eficiente, do tipo de um Lênine, um Stáline, um Hitler, um Mao, Pol Pot, Kim Ilsung ou Fidel.

Outras figuras 'carismáticas', que ulteriormente se manifestaram em nosso cenário político, também falharam. Carlos Lacerda por exemplo. Homem de admirável encanto e inteligência - com quem tive algum contacto quando apareceu em Nova York, auto-exilado em 1955, e depois em seu sítio de Petrópolis nos anos 60 - Carlos Lacerda sempre me deu a impressão de ser excessivamente impulsivo, incoerente e ambicioso para merecer a suprema liderança que tão obstinadamente perseguiu. Foi finalmente tragado pelo próprio regime militar que tanto contribuira para estimular - e cuja teoria justificadora ouvi, com meus próprios ouvidos, desenvolver num seminário na Universidade de Columbia, Nova York, perante um auditório assombrado e escandalizado, composto principalmente de exilados e perseguidos de outras ditaduras de generais latinos. Lacerda pretendera - imaginem só! - que os militares brasileiros seriam os únicos capazes de impor a democracia no Brasil, porque só o Exército era o partido da classe média. Em 1967/69, a questão foi posta à prova. A hipótese falhou...

Na análise que empreendi da evolução paralela de minha atitude e posicionamentos no terreno da política interna brasileira, face à situação internacional, confesso que custei a me dar conta que estava enfrentando uma problemática bem mais complexa do que inicialmente avaliara. Para combater um totalitarismo, eu havia originariamente simpatizado com outro movimento, de ideologia igualmente autoritária e estatizante. Tinha que repensar toda a questão e repelir as simplificações apressadas. Talvez fora essa necessidade o que me conduziu ao interesse pela filosofia política, enquanto as experiências subjetivas me inspiravam algo como o clima do 'existencialismo' - uma dicotomia permanente na atitude ora extravertida, ora introvertida.

Nosso século é, essencialmente, um século político. A política tudo invadiu, tudo orientou, tudo contaminou, sobretudo num sentido de mentira e propaganda, violência brutal e confrontos de opinião. Leviathan e Behemoth de mãos dadas foram os Mestres da Mentira que, como intuiu Kafka, se tornou a Ordem universal. A ideologia configurou a religião-ersatz ou pseudo-religião civil de uma época de imanentização da ética e coletivização igualitarista, ao nível da mais baixa vulgaridade. O parricídio simbólico fixou a obsessão da idade. Não é só que 'Deus morreu e fomos nós que o matamos', como propunha Nietzsche. O fenômeno dominante da psique coletiva consistiu em destruir a imagem simbólica da ordem patriarcal e, como resultado, tivemos o movimento revolucionário em seus aspectos mais grosseiros, com o surgimento de um Grande Irmão, mais cruel e detestável do que jamais se revelara o Patriarca de antanho. Mesmo no Ocidente democrático, a rebelião contra a antiga Ordem hierárquica, implícita na postura liberal, uma atitude em última análise positiva, veio de cambulhada com componentes anárquicos e niilistas, gerados pelo complexo homicida ambivalente (o de Édipo...), bem mais salientes do que a face construtiva da ética da responsabilidade individual, exigida pela conjuntura

Depois da Idade das Guerras e das Revoluções, estamos entrando na Idade do Crime. La Rebelión de las masas acarretou, eminentemente, uma submissão servil e masoquista aos grandes tiranos criminosos. A ideologia nacional-socialista contem em seu bojo a ignóbil aceitação do chicote do Grande Irmão. Na realidade, dominou o Grande Feitor, capataz, cacique ou feiticeiro representativo da imagem-ideal do ídolo tribal, o King Kong fantasmagórico com que, em seu 'Totem e Tabu', pretendeu Freud explicar o Complexo de que, coletivamente, sofreria a Humanidade. Como conciliar a liberdade almejada com o desejo de ordem e segurança que, na aparência, só o coletivismo garante através de um Estado forte? 'Direitos naturais', 'direitos do homem', 'direitos adquiridos', certo. Mas como assegurá-los sem os riscos da arbitrariedade estatal? Foi o tema que procurei cobrir, talvez sem grande sucesso, na obra 'O Dinossauro', publicada em 1988. Impecavelmente apresentado pela editora T.A. Queiroz, porém mal distribuído e privado de divulgação nos media, a obra foi um triste fracasso editorial. Uma das teses originais que aí defendi é a do contraste entre os dois desejos ou impulsos básicos do homem, o de segurança e o de liberdade. O paradoxo salientado é que a vontade de segurança a fim de evitar a guerra de todos contra todos, fundamentando o Estado, se coloca na origem do Contrato Social de Hobbes, ao passo que a liberdade figura no de Rousseau. Ora, o Leviathan do primeiro conduzirá ao Liberalismo moderno enquanto a Rousseau é corretamente atribuída a gestação, pela influência que exerceu sobre os Jacobinos franceses, do totalitarismo de nosso século. O livro pretendeu constituir uma análise do monstruoso Estado moderno com sua religião civil, seu 'patrimonialismo selvagem', sua burocracia corrupta, sua Nomenklatura e a 'Nova Classe' de intelectuais de esquerda que se transformavam em 'intelectuários' (o termo magnífico inventado por Gilberto Freyre para designar o intelectual que deseja tornar-se funcionário público, ou o funcionário que pretende ser promovido a intelectual), todos sedentos de poder e bem remuneradas mordomias.

Volto aos pontos relevantes deste currículo, retornado ao fio da meada autobiográfica.

Na Carreira

Foi ao final do ginasial no Liceu Francês, preparando-me para o vestibular da Faculdade de Direito por falta de outra opção, que surgiu a proposta, espontaneamente apresentada por minha irmã, de ingressar na carreira diplomática através de concurso. O carioca tem vocação automática para o serviço público. Faz-se um esforço inicial para receber o decreto de nomeação (na época eram ainda assinados pelo próprio Presidente da República!) e, daí por diante, tudo correrá sem tropeços, com os vencimentos religiosamente pagos ao final do mês: há mais de sessenta anos que isso me favorece, sem interrupção. O contracheque é a única instituição estável na notória instabilidade institucional do país... E, no Itamaraty, a não ser que se morra antes, cause um desfalque demasiadamente escandaloso ou seja notoriamente deficiente mental, grandes são as probabilidade de atingir o último degrau, o de Embaixador. Por isso, há hoje mais embaixadores do que Secretários em princípio de carreira...

A sugestão da diplomacia, dada por minha irmã, abria a oportunidade de viajar pelo mundo, oferecendo suficiente lazer para leitura e estudo. Depois de três anos de preparo para o concurso de 37, com estudo intensivo que me afastava de maior envolvimento político, venci a prova com apenas vinte anos de idade, numa turma de dez entre 105 candidatos, dos quais cinco se me tornaram amigos de toda a vida: Manoel Pio Correa, Carlos Silvestre (Bubu) de Ouro Preto, Jaime Azevedo Rodrigues, Arnaldo Vasconcellos, Luiz de Souza Bandeira e Manoel Antonio de Pimentel Brandão. Este último era o mais antigo de todos pois o conheci em 1927, em Paris, filho que era do então Conselheiro de nossa Embaixada em França. Posteriormente, foi Mário de Pimentel Brandão Chanceler do Getúlio, no período mesmo de nosso ingresso na 'Casa'.

Fui nomeado para o serviço diplomático em fevereiro de 1938, e a ele fielmente servi durante 43 anos, através dos vários escalões da carreira. Na véspera da nomeação, incidentalmente, em clamorosa demonstração do nepotismo e caráter patrimonialista do regime vigente, dez outros cavalheiros, escolhidos por 'concurso de circunstâncias', entraram 'pela janela', atrasando logo de início nossas expectativas de futuras promoções. Sem às vezes poupar-lhe críticas, que foram mal interpretadas por outros colegas, digamos, mais 'disciplinados' ou submissos; e sem chegar ao cinismo daquele de quem ouvi, certa vez, o franco desejo de 'viver longe do Brasil, mas à custa dele...' - confesso que uma de minhas grandes frustrações na profissão que Carlinhos de Ouro Preto, um dos chefes mais brilhantes sob os quais servi, comparava a uma prostituição de luxo - sempre foi a de alimentar sérias e recalcadas dúvidas quanto à utilidade e valor moral da mesma. Das três funções diplomáticas principais, Representação, Observação, Negociação, foi a segunda que soberbamente me condicionou para o suntuoso, porém arriscado, turismo cultural. Mas a Representação é o que preeminentemente justifica a nossa diplomacia - e minha Persona sempre foi algo embrionária, insegura e mal desenvolvida…

Entre 1938 e 1940, minha aprendizagem levou-me à Divisão de Atos Internacionais, uma sinecura que acabou sendo chata, e à Divisão Política. Ali servi em dois momentos particularmente interessantes de nossa história diplomática. A primeira, 1938/39, foi a Campanha de Nacionalização levada a cabo no Sul (Santa Catarina e RGS) para a redução das 'colonias' alemãs onde a língua, a cultura e a reivindicação de nacionalidade criava um perigoso núcleo para inserção do imperialismo nazista. Não obstante o interesse germânico em criar uma intensificação do comércio bilateral que, em 1938, tornou a Alemanha o principal fornecedor de nosso país, a arrogância e falta de habilidade do embaixador Ritter provocaram quase um rompimento de relações entre o Rio e Berlim.

Em fins de 1940 parti para o primeiro posto. Acompanhado de meu pai e irmã, Maria Cecília, que desejavam fazer a volta ao mundo, embarcamos num navio japonês, o Brasil Maru, que nos carregou ao Japão. Era o inverno, e o Império do Sol Nascente em Tóquio, Nara e Kyoto, envolto em brumas, deixou-me uma impressão de mistério de que com dificuldade custou desfazer-me.

Outro 'Maru' nos levou à Índia, via Xanghai, Hong Kong, Singapura e Bombaim. Senti em cheio o impacto do Call of the East que, outrora, seduzia a juventude aventureira do Ocidente. Calcutá era meu destino. Fora para ali designado com a missão, a primeira em minha folha de serviço, de administrar um Consulado de carreira normalmente atribuído a um Primeiro Secretário ou Conselheiro. Minha rota ia topar, todavia, com outra pedra imprevista. A Moira caprichosa a colocara no caminho - para adicionar algumas outras dúvidas e perplexidades no contencioso com uma realidade que, erroneamente, eu calculara limpa, racional e facilmente manipulável. O governo inglês recusou-me a concessão do Exequatur, formalidade exigida para que eu pudesse exercer as funções consulares previstas: a de carimbar vistos em passaportes e firmar despachos de juta exportada para nossas sacas de café. A iniciativa antipática teria sido inspirada por um Secretário da Embaixada da Grã-Bretanha no Rio, David Scott-Fox, de quem por nova ironia do destino me iria tornar amigo, ele e sua mulher francesa, a bela Brigitte, muitos anos depois, em Ankara e Nova York. As informações desabonadoras a respeito deste vosso humilde servidor teriam procedido de informantes brasileiros de origem inglesa, e os motivos teriam sido minhas simpatias germanófilas, agravadas no momento pela áspera desconfiança do governo de Churchill com as ambiguidades do Presidente Vargas e as alegadas demonstrações de personalidades brasileiras (Góis Monteiro, Felinto Müller, o próprio Gaspar Dutra?), supostamente favoráveis a um eventual conluio com o Eixo. Não nos esqueçamos que a Grã-Bretanha enfrentava o momento mais terrível da Guerra, a blitz nazista, e derrotas na Grécia, Creta e Líbia. Churchill não dava quartel!

A permanência na Índia foi, por consequinte, curta. Viajei rapidamente por esse sub-continente extraordinário, tão notável por seus gloriosos monumentos de arte e história, quanto pelo espetáculo deprimente da superstição e miséria humana. A arrogância impérial inglesa era flagrante. Não obstante, poucos anos mais tarde já me havia convencido do fato de oferecer a Inglaterra o grande exemplo e modelo político para o mundo, cabendo um lugar especial a Londres como a cidade mais civilizada da terra. Acontece igualmente que alguns de meus mais fieis amigos foram diplomatas ingleses, Milo Talbot, Kenneth James, Steve Lockart e sua mulher, Ângela, John Hickman e Bill Harding, este último embaixador britânico em Brasília nos primeiros anos 80, incluindo o episódio da Guerra das Falklands.

A cultura e literatura inglesas também acabaram superando, em meu afeto, a francesa que tão poderosa havia sido na infância e adolescência.

O Itamaraty transferiu-me para o Consulado Geral em Xanghai, onde cheguei em maio de 1941. Como Vice-Cônsul, seria o único auxiliar do brasileiríssimo Cônsul Geral James Philip Mee - a repartição funcionando numa salinha de seu próprio apartamento. No grande porto chinês, uma das metrópoles cosmopolitas mais excitantes e curiosas do planeta, permaneci seis meses de movimentada aventura, quando fomos colhidos pelo ataque japonês a Pearl Harbor. Os nipônicos, cujas tropas cercavam o chamado Settlement - a Concessão Internacional de que era o Brasil, curiosamente, um dos garantes e administradores teóricos - ocuparam sem combate toda a cidade na noite de 7/8 dezembro 1941. Exatamente no mesmo instante estavam bombardeando a esquadra americana do Pacífico. No próprio porto de Xanghai, afundaram depois de vinte minutos de bombardeio, uma canhoneira inglesa. O ronco dos canhões de um velho encouraçado, o Idzumô, às três da madrugada, me acordou para a realidade do que antecipara, sem me dar conta das consequências, a Guerra do Pacífico.

Em fevereiro do ano seguinte, tendo se reunido no Rio de Janeiro uma Conferência de Ministros das Relações Exteriores de todo o continente americano, foi decidido o rompimento de relações com o Eixo. O Brasil acompanhou imediatamente a decisão, sob a batuta do Oswaldo Aranha, notório partidário dos Aliados que Getúlio, oportuna e convenientemente, colocara na chefia do Itamaraty. As conseqüências em Xanghai não se fizeram tardar. As autoridades japonesas nos visitaram no mês de março, aliás muito cavalheirescas, sendo encerradas as atividades do Consulado Geral e lacrada a sede. Fomos transferidos para um hotel na própria 'Concessão Francesa' (obediente ao governo de Vichy), onde residíamos. Ali permanecemos em regime de semi-internamento até junho daquele mesmo ano de 42. Fomos então embarcados num navio italiano, o 'Conte Verde', e, via Oceano Índico, 'trocados' com os diplomatas japoneses que vinham da América do Norte e Sul em Lourenço Marques, hoje Maputo, no Moçambique, então colonia portuguesa. De Lourenço Marques, fomos recambiados ao Rio pelo navio sueco Gripsholm - uma viagem sem novidades em oceanos infestados de submarinos de diversas bandeiras, todos respeitosos - felizmente! - da grande cruz branca de neutralidade que o barco ostentava.

Curta mas imensamente gratificante foi a experiência desses dois primeiros postos - não obstante marcada por graves crises pessoais, altamente emocionais, de teor romântico, mas cujo relato não cabe neste contexto. No inverno de 42 assistiu-se à grande calamidade da fome em Xanghai. Constava que, numa só noite, quatrocentos mendigos haviam morrido de fome e frio pelas ruas da grande cidade, recolhidos na manhã seguinte. Eu mesmo tropecei num cadáver coberto de neve e assisti à agonia de outro faminto, a cujo lado aguardava um colega para lhe arrancar as roupas e sapatos furados. A fome em Xanghai não teve a gravidade do Rapto de Nanking de princípios de 1938 - o episódio singular que é considerado o mais mortífero de toda IIª Guerra Mundial, quando, com o intuito de obrigar a China a render-se pelo uso do terror indiscriminado, as tropas japonesas que acabavam de ocupar a capítal de Chiang Kai-chek foram desencadeadas em fúria homicida e massacraram entre duzentos a trezentos mil, da população civil da cidade. O comportamento do ocupante nipônico em Xanghai serviu, no entanto, para incompatibilizar-me definitivamente com a imagem utópica e romântica que desde a adolescência havia acariciado do Japão. O exótico Império do Sol Nascente, com seus samurais entre as perfeitas paisagens de verdura, castelos com telhados arrebitados e cerejeiras em flor, geishas extraordinárias de encanto e ternura, dramas heróicos de bravos bushi que Kurosawa, depois da guerra, iria personificar, nobres cegamente obedientes à fidelidade devida ao Xôgun - tudo isso se desmanchou diante da realidade de brutalidade gratuita de que havia sido testemunho.

Um curioso sentimento também permaneceu, algo traumático, desse episódio. Fizera amizade com alguns oficiais do Regimento de Marines que guarnecia o Settlement internacional. O Regimento partira para as Filipinas uma semana antes de Pearl Harbor e, segundo soube mais tarde, combatera na defesa de Bataan e Corregidor, detendo por seis meses o avanço nipônico no arquipélago. Dos oficiais que conheci, poucos sobreviveram com vida ao combate e à 'marcha da morte' dos prisioneiros em Bataan, após a rendição. A meditação existencial, algo melancólica, sobre a sorte que o destino nos reserva se torna aguda quando me vejo, numa foto do evento, entre os convivas de um rega-bofe, oficiais americanos, russos brancos exilados na China, moçoilas jovens e sedutoras em profusão de nacionalidades - cada um dos quais a guerra de modo diverso afetou, às vezes tragicamente.

Dados meu envolvimento com o Integralismo, entranhado anti-comunismo e deplorável ignorância do verdadeiro sentido da ideologia nazista, eu havia antecipdoi, no princípio da Guerra, que a 'necessidade' histórica iria conduzir o conflito ao triunfo da Alemanha, maneira prática de eliminar o 'perigo vermelho'. Muitos 'conservadores' do período, entre os mais sábios, pensavam do mesmo modo, poucos se dando conta da psicopatologia coletiva que Hitler representava. Eu havia lido Spengler em 1934. Um forte sentimento germanófilo dominava amigos da família e certos setores do governo do Getúlio, o que se manifestaria pelas palavras do próprio ditador no famoso discurso de junho de 1940, a bordo do encouraçado 'Minas Gerais'. Usando de sua célebre tática esperta de gangorra ideológica, Getúlio estava abrindo as portas a uma eventual colaboração com o Eixo - posição da qual rapida e sabiamente recuou em fins de 41, depois de Pearl Harbor! O rompimento com o Eixo e eventual envio da Força Expedicionária à Itália foram as consequências. No próprio Itamaraty, em sua grande maioria simpático à causa democrática aliada, só alguns grupos individuais diminutos favoreciam o Eixo. Quando um submarino nazista torpedeou um encouraçado de Sua Majestade britânica em Scapa Flow, em fins de 1939, meu amigo, colega e companheiro (de concurso e do antigo Departamento de Estudantes do Integralismo), Jaime de Azevedo Rodrigues, percorreu os corredores da Casa, congratulando-se pelo ocorrido aos gritos de Sursum corda! Uma das figuras mais simpáticas, brilhantes e sedutoras que conheci na carreira, o Jaime transmudou-se desgraçadamente para o lado errado depois da guerra. Já Embaixador, terminou melancolicamente a carreira em 1964. Em abril daquele ano, seguindo a nova versão do nacionalismo terceiro-mundista que se alimentava tenazmente de anti-americanismo, ele efetuou um verdadeiro sacrificium intellectus ao se alinhar com a Esquerda. E foi cassado após insistir contra todos os conselhos amigos, inclusive do Chanceler Vasco Leitão da Cunha, numa declaração ostensiva a favor do governo Goulart que acabava de ser derrubado.

A lição amarga do episódio de Calcutá, o espetáculo de miséria e humilhação da população chinesa em Xanghai sob ocupação nipônica, a amizade que eu mantivera com os jovens oficiais americanos do Regimento de Marines e o corpo consular aliado em Xanghai, a violência e arrogância explícitas dos ocupantes e o noticiário inicialmente alarmante das estrondosas vitórias dos japoneses no Hawai e Indonésia, Malásia e Singapura (cinco encouraçados americanos afundados em Honolulu e mais dois ingleses em frente à costa malaia), assim como a notícia do primeiro e considerável revés dos exércitos nazistas em sua ofensiva contra Moscou e Leningrad, em fins daquele mesmo ano de 41 - tudo isso fez-me, lenta mas radicalmente, mudar de campo nas minhas simpatias e expectativas quanto ao curso da guerra. Em princípios de junho já me sentia mentalmente mais alinhado com os anglo-americanos. Havia sido realizado um bem sucedido reide aéreo contra Tóquio, de puro efeito moral; e em Midway fora vencida a batalha naval decisiva da guerra no Pacífico: quatro grandes porta-aviões japoneses afundados. Naquele mesmo verão de 42, Stalingrado e El-Alamein reverteram o caminho que tomariam as hostilidades: o Eixo estava perdido. O que me preocupava era a sorte da Europa. Como intuitivo, minha angústia já sentira a problemática da Guerra Fria...

O primeiro período crucial na carreira e na vida foi, conforme se verifica, enriquecido por essas experiências da guerra e as emoções que a acompanharam. Um simples exemplo: tirei férias em Atenas em 1946, o país mal saira do conflito com as guerrilhas comunistas que continuavam a escarmentar o Norte, Macadônia e Trácia. De Atenas para Salônica, onde tomei o trem de volta a Istambul, fui num barco superlotado. Quinze dias depois, o mesmo barco, no estreito da Eubéia, bateu num mina e afundou: trezentos mortos. Tive um pânico cronologicamente às avessas... Mas o processo conflitivo se prolongou nos quarenta anos seguintes de Guerra Fria e deu origem à visão heraclitana que cultivei, de um mundo sempre cambiante e em confronto polêmico. Num de seus fragmentos, acentua Heráclito que 'a guerra (Polemos) é pai e rei de todas as coisas, e de alguns faz Senhores e de outros Escravos'. Nietzsche e Jung me chamaram a atenção para a relevância de Heráclito entre os pre-socráticos. Embora raros foram os aforismos que dele sobreviveram, são sempre significativos pelas idéias profundas que transmitem em linguagem algo hermética, criando um fascínio que igualmente me atingiu. Anos depois, me interessei por Darwin e a teoria da Evolução pela seleção natural. Os igualitaristas sociais de nossa época, que tanto falam nas teorias 'científicas' do socialismo marxista, não parecem se dar conta que científico mesmo é a questão da concorrência vital e seleção entre formas e indivíduos desiguais. Escrevi então um texto, a que dei o título de POLEMOS, ainda não publicado, à espera de revisão e de Editor

Sobre esse tema uma citação de Hegel pode ilustrar algo em que bastante diversas foram minhas conclusões, frente à dialética absolutista da contradição do filósofo alemão. Recordemos a impressão decisiva que, sobre o jovem Hegel, deixou a visão espantosa de Napoleão Bonaparte, montado em seu cavalo branco e passando ao lado da cidade de Iena, onde Hegel então lecionava, após a vitória arrasadora sobre os prussianos. O Imperador dos Franceses se lhe agigantou na imaginação. Era uma espécie de personificação concreta do Geist que pretenderia posteriormente interpretar. 'Cada homem singular não passa de um elo cego na cadeia da necessidade absoluta através da qual o mundo se constrói por si-mesmo (sich fortbildet). O homem singular somente pode elevar-se ao domínio (Herrschaft) sobre uma porção apreciável dessa cadeia, se descobrir a direção na qual a grande necessidade deseja mover-se e desse conhecimento aprender a pronunciar a palavra mágica (Zauberworte) que evocará sua forma (Gestalt)'. De extrema presunção, a frase de Hegel interpreta corretamente nossa insignificância perante os acontecimentos da história, mas também explicaria por que motivo Voegelin acabaria descrevendo o sibilino pensador Idealista como um mestre feiticeiro de magia negra, de influência nefasta sobre a época moderna. Na verdade, nem eu, nem qualquer pessoa no mundo sabia ou sabe em que direção a 'necessidade' hegeliana se iria movimentar, depois da guerra, e muito menos conheceria a palavra mágica do profetismo historicista. A idéia é aberrante! O que constitui a essência da história é, precisamente, sua imprevisibilidade, resultante da intencionalidade de milhões de atores nos eventos.

Minha 'conversão estratégica' definitiva em direção a um projeto de 'Nova Ordem Internacional' que só no fim deste século começa a se delinear, ocorreu em 1944/45. Eu já fora então removido para Ankara, na Turquia, que como capital neutra no meio do cataclismo concentrava uma elite do serviço diplomático mundial. Tive ali um esplêndido chefe que muito estimei e muito me ensinou, Carlos (Carlinhos) de Ouro Preto. De novo, alguns fatores pessoais, de natureza afetiva, contribuíram, junto com os puramente racionais, para um novo alinhamento mental com a sorte do Ocidente. A situação me enchia de perplexidades, resultantes da obrigação de externar uma opinião favorável ao papel da URSS na guerra ('our gallant Russian allies'...), em tão óbvia contradição com a obstinada postura anti-marxista. Mal podia esconder um sentimento de pânico diante da eventualidade da ocupação de toda a Europa e Ásia pelo Exército Vermelho. Mas era obrigado a guardar silêncio… Enfim, árduo é hoje naturalmente, para quem não foi contemporâneo dos eventos, avaliar a paixão com que se acompanhava então o noticiário da guerra e se 'torcia' pelos diferentes lados da monstruosa contenda, a mais gigantesca de toda a história da Humanidade. Notai que o economista austríaco Friedrich Hayek, o pai do Liberalismo moderno, escreveu seu 'O Caminho da Servidão' em 1944, manifestando suas perplexidades e ansiedade, em relação ao que se passava, semelhante àquilo que, difusamente, me perturbava no mais profundo de minhas cogitações. No entanto, só trinta anos depois eu iria ouvir seu nome descobrir essa obra, assim como a de Ludwig von Mises.

Os quatro postos asiáticos com que iniciei a carreira, Calcutá, Xanghai, Ânkara e Nandjing, atrairam minha atenção para a filosofia e a história do Oriente. Fascinou-me, inicialmente, o pensamento chinês, em particular o Taoísmo. O Confucianismo, não obstante sua importância para a compreensão da estrutura social e moral da China e dos países que se encontram sob a égide da cultura chinesa, sempre me pareceu dogmático e autoritário. Representou realmente o pináculo de uma filosofia apropriada ao patrimonialismo burocrático - ou, se quiserem, ao 'Despotismo Oriental' de Witfogel que tanto atenção desperta em Ricardo Vélez Rodriguez ... No Taoísmo encontro, ao contrário, um tipo de pensamento condizente com minhas preferências libertárias e com os princípios da 'psicologia das profundidades' de Jung, a tudo isso juntando um toque de misticismo que sempre muito me agradou. Durante a estada na Turquia, foi a história do continente eurasiático o que me monopolizou a atenção. A princípio o relacionamento entre a história da Europa e os acontecimentos na Ásia, nos últimos três mil anos, parecem extremamente confusos. Mas pouco a pouco torna-se claro que, desde a Grécia antiga, choques e contra-choques, e influências mútuas fertilizam o terreno onde, nos séculos modernos, se manifesta o que hoje chamamos a Globalização.

Desse período no Oriente procedem os dois primeiros livros que escrevi, Shanghai, Aspectos Históricos da China Moderna (1944) com prefácio do embaixador Leão Veloso, velho 'chinês' e então Secretário Geral do Ministério; e O Sonho de Sarumoto, o Romance da História Japonesa (1948). Essa segunda obra já aproveitava idéias da psicologia de Jung para a análise das lendas e mitos cosmogônicos, na tentativa de interpretação do caráter nipônico. Salientava a ambivalência na mentalidade dos japoneses, numa linha semelhante à que foi explorada por Ruth Benedict em seu livro The Sword and the Chrysanthemum, obra que teria tido influência decisiva no comportamento dos Estados Unidos em relação ao Japão no pós-guerra. O uso de uma velha lenda chinesa a respeito do relacionamento de pagens e concubinas da Corte imperial, à procura do Elixir da Longa-Vida em benefício do Primeiro Imperador Ch´in, com macacos nas ilhas do Sol Nascente - dando assim origem ao povo nipônico - levou-me a suspender qualquer divulgação do livro: simples medida de discrição e prudência diplomáticas. Eu tinha em vista a nova imagem que o Japão para si mesmo criara, após os traumas terríveis de Hiroshima, da derrota e da ocupação, comandada pelo pseudo-Xôgun MacArthur que lhe impuzera uma Constituição sob medida.

Esse o pano de fundo de minhas preocupações ao término da Guerra, com o bombardeio nuclear do Japão e a rendição do Império. Ao ser removido para Nanking (Nandjing), voltando à China, e pouco antes de deixar a Turquia, notei pequenos indícios que os aliados ocidentais se davam conta do desafio ao mundo livre lançado pela Rússia de Stáline. Foram a atitude do general Patton, que desejava ocupar a Tchecoeslováquia antes dos russos; o desembarque de tropas inglesas em Atenas antes mesmo do final da guerra, para evitar a vitória da guerrilha comunista na Grécia; e o célebre discurso de Churchill em Fulton, nos EEUU, em que lançou o formidável conceito de 'Cortina de Ferro'. Coração e cérebro procuravam coincidir com a aparente 'necessidade histórica' hegeliana... Não era mais Spengler, era Toynbee que estava agora com a razão... E eram Toynbee e Spykman, um geo-político americano, que me dediquei a ler, enquanto me enfronhava na visão global, em escala secular e gigantesca, do relacionamento indireto da história da Europa com a história da Ásia oriental, através da Sibéria e do Oriente Médio, pelos hunos, os mongóis e os turcos.

Em março de 1947, o Presidente Truman proclamou a doutrina que levaria seu nome. Logo em seguida, foi lançado o Plano Marshall. Ao deter a expansão do poder soviético na Europa, o governo americano inaugurava o que veio a ser chamado de 'Guerra Fria'. A presença do encouraçado 'Missouri' no Bósforo, para alardear o apoio que os USA concediam à Turquia de modo a que estivesse habilitada a resistir às pretensões de Stáline em relação aos Estreitos e às províncias orientais de Kars e Ardahan, limítrofes com a Armênia, consolidaram minha determinação de partir para um alinhamento mental com o Ocidente democrático sob liderança americana, contra o mais sério desafio totalitário que se sucedia ao do nazismo. Visitei em Istambul o barco famoso onde fora assinada a rendição do Japão.

Foi também por essa época que me dei conta do seguinte: com um PIB equivalente a 50% da produção mundial ao final da guerra, e o monopólio da bomba atômica, os EUA estariam habilitados a impor seu império sobre o mundo, se assim fosse o desejo do povo americano. Não tinham por que temer coisa alguma dos soviéticos. Por que então não foi erguido o 'Império americano'? E por que a intelligentsia ocidental, inclusive a da própria intelectualidade yankee, se inclinava para o lado da ideologia totalitária de Esquerda, que simplesmente blefava em termos de poder? O mistério me atormentaria nos 50 anos seguintes...

Um pequeno episódio merece ser aqui relatado. Ele ilustra o terreno de combate que escolhera para participar do novo enfrentamento que, nos 40 anos seguintes - até a queda do Muro de Berlim e o colapso do Império soviético no annus mirabilis de 1989 - dividiria a Humanidade. Por volta de maio ou junho de 47, em Milão, na viagem de retorno ao Brasil em trânsito para Nanking, na China, fui apresentado a um colega que, com a mulher, se encaminhava para seu primeiro posto. Convidei-os para almoçar em frente ao Duomo e, durante toda a refeição, o futuro ilustre escritor, lexicógrafo e acadêmico Antonio Houaiss, era ele, o próprio!, fortemente apoiado pela esposa, defendeu com grotesco entusiasmo o direito da URSS de realizar, precisamente, aquilo que Truman tencionava impedir, valendo-se, como trunfo, do armamento nuclear em seu poder. Os argumentos do Houaiss seguiam ao pé da letra a 'Linha de Moscou'. Mas o que sobretudo me impressionou era a total indiferença com que recebia a contradição de meus argumentos, sustentados em quatro anos de vivência na Turquia e melhor conhecimento da história do que o revelado por aquela inteligência, de indiscutível brilho mas tão medíocre arcabouço ideológico. Duas vezes cassado pelos militares (em 48 e em 64), Houaiss terminaria a carreira como Embaixador 'honoris causa', paraninfo de uma turma do Instituto Rio Branco, Ministro da Cultura e figura de proa da Academia Brasileira de Letras. Foi a primeira vez que obtive a oportunidade de constatar a inutilidade de toda discussão com marxistas. Era como se estivesse falando com marcianos: não existia uma língua comum. O estudo posterior que faria da ideologia, tema que nunca abateu em meu interesse, foi provavelmente inspirado por esse contato imediato do primeiro grau com um adversário de mente e aspecto extra-terrestre.

Muitas décadas ainda decorreriam antes que eu chegasse à conclusão de que, embora de bom senso a longo prazo fosse o caminho trilhado, não era exatamente aquele que a atmosfera 'politicamente correta' do pós-guerra iria gerar. Continuando a lutar contra a corrente, adquiri simplesmente a reputação de 'fascista' e passei a ser evitado como se portador de uma moléstia contagiosa. O Marxismo festivo dos 'companheiros de estrada' contaminava profundamente a 'intelectuária' ocidental e os brasileiros, talvez por força de nossa aguda sensibilidade, éramos presa fácil da Nova Ordem da Mentira que a tentação totalitária exercia. Sempre foram, aliás, aqueles que estavam infectados pela Síndrome da Deficiência Imunológica Adquirida à Ideologia os discriminadores, não os discriminados; os censores, não os censurados; os liberticidas, não ‘as vítimas da ditadura´; e os autores da violência, não os que sofriam torturas...

No Itamaraty, aliados ao nacionalismo que eu cultuara nos anos 30, a Esquerda ia aos poucos se apoderar das rédeas do poder. A casa ainda não caira nas mãos dos 'barbudinhos' - mas não iria tardar. Seu nacionalismo, que julgo sincero, imaginara a maneira de obviar o crescimento do que julgavam ser o 'detestável' poder do liberalismo e do capítalismo americano por uma hábil chantagem em que jogavam com as ambições imperiais do comunismo soviético. Talvez acreditassem mesmo na eventualidade de uma 'Revolução Mundial'... A própria noção de Terceiro Mundo nunca deixou de me parecer apenas uma imagem dessa operação do 'maquiavelismo dos pobres'... Contudo, alea jact est: no Brasil como no mundo já a sorte fora lançada... Entrementes, meus desapontamentos e perplexidades de 1937/54 se iriam repetir, com lastimável regularidade. Eles grandemente contribuiram para meu 'amadurecimento' com a perda progressiva da virgindade mental, nas ilusões que o romantismo da adolescência havia gerado.

ENFRENTANDO O DINOSSAURO (Tyrannossaurus Leviathanicus Rex)

Lembro-me claramente do dia, em maio de 1945 e estando em Ankara, quando em mim principiou a emergir a convicção de que a Nova Ordem Internacional seria a de sociedades liberais e democráticas, em que teria o indivíduo preeminência, não a coletividade. O indivíduo concreto, não o Estado abstrato com milhões de cabeças. As décadas seguintes foram de angustioso enfrentamento com os desafios teóricos e práticos do poder político, na dúvida sobre se correta ou não se colocava minha intuição. E se essa Nova Ordem comportaria ou não uma liderança americana, sem a qual mergulharíamos, ou na anarquia ou sob a bota soviética? E se a América repetisse a experiência histórica da Espanha, da França, da Alemanha, da Rússia e da própria Grã-Bretanha em seu império ultra-marino, com a metamorfose do Imperialismo? Era a questão que me puz a debater e que se aguçou, posteriormente aos eventos de 1989/91 (queda do Muro de Berlim, Perestroika, desintegração do Império soviético, libertação da Europa oriental, crespúsculo do socialismo), com a Globalização liberal deste final de século.

De 1944 a 47, como já mencionei, estive na Turquia.. Ali conheci uma funcionária da Embaixada dos Estados Unidos com quem me casaria em 49 - depois de transpor alguns problemas burocráticos e religiosos. A legislação do serviço diplomático, na época com influência 'dutrista', proibia o matrimonio de funcionários da carreira com cidadãs que não fossem brasileiras natas, repito natas - uma restrição que normalmente só afeta a nacionalidade do Presidentre da República. A legislação do State Department levantava objeções do mesmo estilo, embora menos restritivas. Essa intervenção do Estado na vida particular do cidadão atrapalhou-nos durante alguns anos.

Na China permaneci um ano meio como Encarregados de Negócios em Nanking (Nandjing), então a capital do governo dito 'nacionalista' de Chiang Kaichek, o Kuomintang, e alguns meses em Xanghai, acompanhando as peripécias da Guerra Civil que terminaria com a vitória dos maoístas. Fui então transferido de volta ao Rio de Janeiro, partindo em abril de 49, quando as forças comunistas já se aproximavam daquele grande porto.

A viagem de navio de Xanghai ao Rio (a segunda que fazia, sete anos depois da primeira) durou três meses! Naquela época ainda se viavaja por esse meio confortável e civilizado, ainda que lento… Conheci a Tailândia, a Malásia, a ilha Maurício, o Kenya e a África do Sul e, em permanência de dez dias em Buenos Aires, tive oportunidade de assistir a uma recepção na Embaixada do Brasil onde, pela primeira vez, eram recebidos o general Perón e Evita - bela, magra, elegantíssima e já apresentando (mas 'Don´t cry for me, Argentina!'…) os sinais da moléstia que pouco tempo depois a iria carregar. Em fins de 49, Dorothy e eu nos casamos, em cerimonia religiosa informal - para contornar a proibição formal do Dutrismo contra exogamia diplomática.

Dois anos na Secretaria de Estado (de meados de 49 a meados de 51), sem outras grandes novidades na carreira, cabe apenas mencionar dois eventos gravados na Anamnesis. Arrebentou, em fins de junho de 1950, a Guerra da Coréia, com a invasão da República da Coréia, apoiada pelos Estados Unidos, pelas tropas do Norte. Uma gafe cometida pelos soviéticos, que estavam boicotando as reuniões do Conselho de Segurança da ONU sob a alegação que o lugar da China estava sendo ilegalmente ocupado pelo representante de Chiang Kaichek, então refugiado em Taiwan, permitiu aos americanos obterem o apoio do organismo internacional, sem a eventualidade certa de um veto soviético. No Rio, a Escola Superior de Guerra estava em fase de formação e, imediatamente, solicitou ao Itamaraty a presença de um funcionário para explicar aos recém-designados estagiários o que se passava na Ásia oriental. A Divisão Política do Ministério, onde estava eu servindo, me indicou para a tarefa. Protestei, argumentando que não conhecia a Coréia, apenas a China e o Japão. 'Não reclama, Peninha', contestaram-me:'Você que é 'chinês' é quem esteve mais perto da península e é Você que fala'. Foi assim que, pela primeira vez em minha vida, tive o ensejo de fazer uma conferência, e sobre um tema que me deram dois dias para estudar. Na própria ESG achei curioso que os militares presentes pareciam muito mais interessados em desvendar a questão da legitimidade ou não da Resolução do Conselho de Segurança, na ausência de um dos membros permanentes, do que no vasto quadro geopolítico e estratégico em torno do qual especulava o texto que eu havia elaborado. De qualquer forma, saí-me bem. O outro episódio curioso foi a posse no Catete do recém-re-eleito Presidente Getúlio Vargas. Em frente ao palácio, uma multidão colossal de petebistas, estivadores, favelados e carnavalescos cantavam uníssonos um Samba sobre o Velinho que voltava ao Poder (do qual iria ser derrubado, já morto, quatro anos depois). Eu estava designado para acompanhar o Embaixador da China (Taiwan) e, com dificuldade, alcançara o palácio através da multidão eufórica, barulhenta e fedorenta. Nunca me esquecerei do espetáculo. Foi provavelmente na ocasião que, sem querer, fiz a conexão entre o Leviathan e o Behemoth.

No exterior novamente, em 1951, fui servir uns dez meses como encarregado de negócios em San José de Costa Rica e um ano em Ottawa, no Canadá. A Costa Rica foi um curto e agradável intermezzo: o pequeno país, que se intitulava 'la Suiça centro-americana', é curioso porque, muito embora provinciano, se desenvolveu como uma democracia com alto índice de alfabetização e educação geral. Seu privilégio, na época colonial, foi ter sido isolada e pobre (embora denominado 'costa rica') numa meseta montanhosa de bom clima onde se estabeleceram camponeses ibéricos. Não atraiu os burocratas espanhóis e a população local não tinha dinheiro suficiente para comprar escravos. Foi assim obrigada a trabalhar e preparar-se para o self-government. Eis o segredo do milagre!

No Canadá já fora promovido a Primeiro Secretário e estava oficialmente casado (isto é, no civil). Referência especial cabe a meu chefe em Ottawa, o embaixador Heitor Lyra, de quem me tornei também amigo e admirador, grande diplomata e historiador de alto gabarito moral e intelectual. Foi também nessa época que perdi meu Pai, um acontecimento que, como previne Freud, pode ser um dos mais pungentes na vida de um homem.

Só interessa, no entanto, aos fins deste livro à la recherche du temps perdu… - notar que tive uma experiência importante de perto de quatro anos como Conselheiro na Missão Brasileira junto as Nações Unidas (1953/56) em Nova York. Ali nos nasceram os dois primeiros filhos. Além dos inúmeros atrativos culturais e outros que nos proporciona a Big Apple, a vida na 'capital do mundo' me ensejou a oportunidade de seguir cursos na Universidade de Columbia, e uma introdução valiosa ao problema das relações internacionais e criação de uma Nova Ordem Mundial.

A ONU se me apresentou, antes de mais nada, como uma extraordinária Vanity Fair, uma feira de vaidades e recinto da mais despudorada demagogia, com a luta de punhais na escuridão pelo prestígio e a promoção. Em poucos lugares do planeta tão flagrante é a expressão da tolice e irracionalidade da espécie humana. Não creio que a Organização internacional venha um dia a prefigurar um 'governo mundial', como pensam alguns utopistas românticos. O Estado-mundial hipotético ou Confederação global do próximo século será, no meu entender, conduzido por uma espécie de Conselho de Estado de líderes das grandes potências, algo como os G-7 hoje configuram - numa hierarquia em que, no topo, se situará o Presidente americano - primus inter pares no Conselho Supremo da Humanidade. Estimo venha um estadista brasileiro a sentar-se, um dia, em tal Conselho - eis o máximo a que atinge minhas ambições patrioteiras… As Nações Unidas funcionariam, nessa perspectiva antecipatória, como mero recinto de assembléia geral parlamentar, no sentido literal da expressão (parlamentar - do francês parler, falar): um cenáculo para livre expressão dos anseios e preocupações da opinião pública global, em sua extrema diversidade linguística, étnica, religiosa, ideológica e cultural - levando em conta, evidentemente, que na 'aldeia global' do futuro a facilidade de comunicação deverá engendrar uma Opinião Pública mundial como expressão máxima do Poder. O perigo do democratismo esquerdizante moderno reside precisamente nisso: é o único ponto em que podemos visualizar, com alguma potencialidade de correção o profetismo spengleriano de um Cesarismo de âmbito universal.

Num sentido ainda bastante primário, assim como tribuna da demagogia funcionava a Organização internacional nos anos 50. Em plena Guerra Fria, o delegado soviético era o notório Vischinsky, que foi o promotor dos célebres Processos de Moscou, utilizados por Stáline para se desfazer de todos seus antigos camaradas bolchevistas e limpar qualquer ameaça à sua sanguinária tirania. A palavra mais comum utilizada pela Sovietskaya Delegatzya era simplesmente nyet!, não, não (e veto no Conselho de Segurança) , enquanto o recinto da Assembléia Geral, do Conselho Econômico e Social e das Comissões Especializadas servia para as manobras mais servis e hipócritas do Terceiromundismo em formação - seduzindo os delegados mais incultos com a tentação do brilho populista. Salientavam-se alguns funcionários de carreira, melhores afeitos a esse tipo retórico e vulgar de 'diplomacia parlamentar' a qual, no meu entender, possuía apenas o valor algo duvidoso de válvula de segurança verbal para as tensões do mundo em processo de globalização. Recordo haver assistido a um Chanceler brasileiro, funcionário de carreira por falar nisso, comportar-se com a empáfia superficial de pavão verboso, e cozinheiro obsessivo de sua panelinha política, desprovida de qualquer valor intrínseco, que tão bem caracteriza os 'legislativos' mais populistas do Terceiro Mundo, particularmente da área latina que, sarcasticamente, no Itamaraty qualificávamos de Cucaracholândia. A Assembléia Geral da ONU era sobretudo um palco, um show em que os delegados, para si próprio e para seus respectivos países, procuravam simplesmente a glória da ribalta - através de manifestações demagógicas e auto-promocionais para consumo pela imprensa e TV, nacionais e internacionais.

Na época, estando o planeta ainda dividido pelo desafio do totalitarismo comunista, alguns dos principais paladinos dos 'direitos humanos' eram, por exemplo, representantes de nações como a Arábia Saudita, o Afeganistão ou algum vago 'cucaracha' - em que ainda sobrevivem a escravidão, a submissão das mulheres, o trabalho forçado de crianças, a violação dos direitos políticos dos cidadãos e o despotismo policialesco. Jamais consegui atinar qual o propósito de tal atividade, que se expressava através de 'Resoluções', 'Recomendações', 'Relatórios', 'Convenções Internacionais', Compte-rendus de Conferências e outros montões de monstruosa papelada que ia morrer nos arquivos de distantes repartições públicas. A utilização da ONU como agência turística e sinecura dos favorecidos pelos grupos de poder dominante, com o crescimento teratológico da burocracia internacional, eis outro aspecto negativo que não tardou a me impressionar pelo óbvio.

Meu velho pendor, mais revolucionário do que reacionário, pela autenticidade me pôs frequentemente em conflito com meus 'chers collègues' estrangeiros. Atritos sérios com colegas e chefes da Missão tiveram um preço mais pesado. Um portentoso antigo catedrático de direito constitucional da USP e ex-Ministro da Justiça, presente durante curto período como membro da Delegação à Assembléia Geral, a quem fui designado para servir como assessor, chegou a ponto de denunciar-me como 'suspeito de comunismo e getulismo' (isto em 1953, sendo Getúlio Vargas Presidente da República!), porque tentei por todos os meios, lícitos e mesmo ilícitos, impedir que ele pronunciasse, em francês quase incompreensível, um bestialógico de retórica ultra-nacionalista - que considerei capaz de comprometer com o ridículo o prestígio da Delegação brasileira. Indo frontalmente contra o que já era então 'politicamente correto', ele acusava a ONU de ser o novo 'Império do Mundo', encarnação do mal, ponta de lança de uma conspiração global contra o Brasil (cui bono? seria o caso de nos perguntar) e violadora da sagrada soberania dos Estados Membros. Foi certamente um dos mais paradoxais contenciosos em que me meti durante aquele período.

Também pela primeira vez estava servindo numa repartição, altamente competitiva, em que se multiplicavam as oportunidades de tensões, conflitos de natureza ideológica, rivalidades profissionais e a natural erosão de todo relacionamento entre chefe e subordinados. As ciumeiras, os ressentimentos, as intrigas, a formação de 'panelinhas' eram escolhos que devíamos enfrentar e deles procurar escapar, sem ferimentos graves. O atrito mais grave que registrei foi com o colega, o mesmo precisamente, o antigo Presidente do Diretório Acadêmico da Faculdade de Direito a que me referi mais acima, a propósito do episódio da 'Intentona' de 27 de novembro de 1935. Nossas relações principiaram a deteriorar-se quando ele, declaradamente de 'esquerda', forneceu ao velho borocoxó, catedrático da Faculdade de Direito da USP, os argumentos requeridos para denunciar a ONU como imperialista a partir do texto do artigo 2º, § 7° da Carta, o que assegura a absoluta integridade e soberania dos Estados Membros e é, por conseguinte, aquele que mais frequentemente é violado. O oportunismo, hipocrisia e lambujerm do colega é o que me exasperou, a ponto de chegar às vias de fato... Ele, além disso, me atingira no que era o péché mignon de todo diplomata que se prese, a vidade de melhor falar francês do que ele, baseada nos meus estudos em frança e no resultado do Concurso de 1937 que fizera.

Muita oportunidade tive de aprendizagem nesse terreno, sem sempre saber aproveitar os ensinamentos. Em matéria de 'política como arte', minha incompetência se tornava fragrante... Pela primeira vez, ja com perto dos quarenta anos, comecei a me dar conta que nem tudo seria um mar de rosas na carreira que escolhera. Não era um 'bom diplomata', no sentido ambivalente que o termo comporta (). Não deixei, porém, de ali estabalecer sólidas amizades com alguns colegas que, nos anos seguintes, me acompanhariam pelos diversos degraus da carreira: Henrique de Souza Gomes, João Frank da Costa, David Silveira da Mota e Sizínio Pontes Nogueira.

A experiência seguinte foi mais criativa. De 1956 a fins de 59 fui Diretor da Divisão, posteriormente Departamento Cultural do Itamaraty - cargo que me proporcionou contatos do maior interesse com personalidades da literatura e das artes brasileiras e estrangeiras, ao tempo da construção da Nova Capital. Enquanto trabalhava na Missão em Nova York, eu havia frequentado a Universidade de Columbia, naquela cidade, cuja biblioteca colossal me concedeu a oportunidade de coleta de dados para o primeiro livro de alguma relevância que publiquei em 1959, 'Quando Mudam as Capitais'- uma análise crítica de história e geopolítica, juntamente com o pano de fundo cultural, de quinze grandes cidades que foram localizadas, planejadas e edificadas no decorrer dos milênios, nos cinco continentes, para servirem como sede de governo (Akhetaton e Alexandria, Constantinopla, Peking, Nara e Kyotô, Madrid, Versailles, S.Petersburgo, Washington, Ottawa, Pretoria, Nova Delhi, Ankara e Canberra). Desse trabalho e da posterior convivência com o empreendimento de construção de Brasília, resultou meu entusiasmo pelo projeto de transferência da capital brasileira pois considerava o Rio de Janeiro, pelas peculiaridades de sua presença à beira-mar e seduções das belas praias tropicais, como criador de uma atmosfera hedonista imprópria para a seriedade da função governamental. Até hoje estou convencido desse argumento, assim como da importância da transferência da administração federal para o interior do país do ponto de vista do estímulo que exerceu sobre o desenvolvimento do Planalto Central e centro-oeste do país. Entretanto, em vários textos escritos na época sobre o tema insisti na idéia esperançosa que a transferência da capital teria o efeito indireto de reduzir o tamanho e poder da burocracia monstruosa que guarnece o poder federal. Meu liberalismo incipiente já se manifestava em tais expressões de desgosto com o Dinossauro, assim desmentindo aqueles que, quarenta anos depois, ainda me consideram um 'cristão-novo' do Liberalismo.

A visita de algumas personalidades ilustres ao Brasil, como Lin Yutang, Aldous Huxley e André Malraux, o convite para a qual de mim partira, assim como a colaboração na presença de grandes nomes das artes, arquitetura e crítica de arte modernas, Alexander Calder por exemplo, Gropius, Enzo Tange, Philip Johnson e outros arquitetos ilustres, todos interessados no evento inédito que foi a construção da nova capital do Brasil, facultaram-me um contacto direto com o Presidente Juscelino Kubitschek. Criei sincera admiração por esse político. Embora para alguns péssimo administrador dos dinheiros públicos, JK se destacou na história como extremamente aberto em matéria de relacionamento com personalidades eminentes do mundo artístico e cultural, e transmitiu ao Brasil seu invencível otimismo no momento crucial em que se iniciava nossa revolução industrial e emergíamos como potência econômica. Em que pesem seus defeitos, foi um dos grandes Presidentes que teve o Brasil.

Antes de terminar meu comando do Departamento Cultural, ocorreu a Operação Pan-americana (OPA) promovida por J.K., a conselho de alguns de seus assessores e do empresário poeta Augusto Frederico Schmidt, com o alegado benemérito propósito de atrair o interesse do governo de Washington no sentido de nos conceder ajuda adequada, acelerando nosso desenvolvimento, juntamente com o do resto da América Latina. Foi um fracasso. Teria servido contudo de inspiração para a Alliance for Progress de Kennedy, outro fracasso. Um dos argumentos para persuadir os americanos da conveniência de contribuir para nossos esforços foi dos mais estranhos, como um tiro que sai pela culatra. O Embaixador Schmidt, numa reunião com delegados americanos, lembrou-se da declaração que Kruschov havia feito, algum tempo antes, anunciando a seus adversários capitalistas que, em breve, a URSS os iria 'enterrar' e que, em 1970, doze anos depois aproximadamente de seu discurso, a produção industrial soviética iria sobrepujar a americana. Uma palhaçada em suma. Schmidt anunciou que estudos de um 'laboratório de pesquisas econômicas' do Itamaraty, comandado pelo embaixador Miguel Osório de Almeida, havia de fato confirmado, com dados informatizados, a correção dessas projeções dos russos. Os americanos evidentemente não gostaram da brincadeira. Não me parece, de fato, de boa diplomacia, anunciar a um vis-à-vis com quem se negocia que, 'se Vocês não me derem dinheiro, eu me passo com armas e bagagens para o campo de seus inimigos'. Em matéria de maquiavelismo, é um recurso de chantagem que me parece excessivamente primário. De qualquer forma, foi também por ocasião da OPA que me senti mais discriminado e excomungado por meus colegas, embora muitos deles amigos, por motivos exatos que nunca atinei mas que, indiscutivelmente, deviam ter origem em discrepâncias de natureza político-ideológica. No mesmo momento, Araújo Castro era promovido a Ministro, pouco depois a embaixador, tornando-se então Ministro do Exterior em curto período do crepúsculo do governo Goulart e terminando a carreira, na chefia de nossas duas maiores missões, ONU e Washinton, onde morreu. Foi nesse posto que lançou o slogan retórico até hoje cultuado pelos seus discípulos barbudinhos, assim como pelos militares de linha dura que dele inicialmente desconfiavam: 'O Brasil está condenado à grandeza!'.

Ao terminar a década, fui promovido a ministro de segunda classe - promoção que constitui a etapa mais árdua de avanço na carreira. A escalada me obrigou, após haver sido 'bigodeado' duas dúzias de vezes por colegas mais 'moços' na Lista de Antiguidade, a recorrer com extremo desagrado a um pistolão imbatível, o da então Diretora do Museu de Arte Moderna, esposa do dono do jornal 'Correio da Manhã' e prestigiosa amiga do Presidente da República, Niomar Muniz Sodré Bittencourt. Contrariando, porém, as más línguas - que foram ouvidas e repetidas até nos jornais - a promoção não resultara da publicação de 'Quando Mudam as Capitais'. Como disse um dos intrigantes: 'ele escreveu sobre Brasília sem falar em Juscelino'. Não escrevera, na verdade, pelo simples motivo que Brasília não era o tema principal da obra, e fora ela composta antes de 1956, quando JK anunciou sua intenção de levar o governo federal para um novo local no Planalto Central.

Fui servir como Cônsul Geral em Zurique de 1960 a fins de 63, quatro anos. Durante o período, tive oportunidade de seguir os cursos no C.G. Jung Institut de psicologia, naquela cidade suíça. Eu conhecera, muito rápida e superficialmente, o próprio professor Karl Gustav Jung em 56, numa ida oficial à Suíça, em cuja ocasião aproveitei para uma rápida excursão à residência de verão do grande psicólogo em Bollingen, um castelo 'feito à mão' junto ao lago de Zurique. Ao frequentar o C.G. Jung Institut, aprofundei-me na análise pelo método que, segundo os princípios da escola, conduzem ao Processo de Individuação. Como figura central do complexo do Eu, deve a consciência procurar alcançar o Selbst, o Si-mesmo escondido no âmago do Inconsciente. A experiência junguiana foi da maior relevância em minha vida e no desenvolvimento da própria estrutura de pensamento, cuja expressão procuro alcançar nestas páginas. Mas duas décadas ainda iam passar antes que as tumultuosas Paixões da Alma, de que tratava Descartes, chegassem a um mínimo de controle pela Razão. Serenidade mesmo, talvez só a alcancemos no Céu...

Uma experiência particular no estágio suiço se destaca na memória, a propósito do desenvolvimento de meu pensamento. É comum nas biografias que se mencione um momento crucial de inspiração que determina a evolução ulterior, espiritual ou intelectual, da pessoa atingida por tal 'iluminação'. Casos famosos foram o de São Paulo no caminho de Damasco; o de Agostinho na visão de Óstia; o de Jacob Boehme ao ser ofuscado pelo reflexo de um raio de sol num pedaço de metal, enquanto trabalhava na sua profissão de sapateiro; o de Descartes quando teve seus três sonhos famosos ao dormir 'dans un poèle'; a de Rousseau ao ler o anúncio do concurso proposto pela Academia de Dijon enquanto passeava pelo bosque de Vincennes, em Paris; o de Nietzsche, em Sils-Maria, a que se refere brilhantemente ao descrever o valor da intuição para a criação filosófica - isso só citando alguns exemplos. Muita gente muito menos inspirada a realizar grandes obras do pensamento igualmente regista seu 'mito' particular, no sentido de uma imagem decisiva que sintetiza toda sua 'cosmovisão'. Aristóteles deve ter experimentado um desses momentos especiais, em sua vida, quando nos revela, num dos fragmentos autobiográficos que dele herdamos, que 'quanto mais me encontro comigo mesmo e solitário, tanto mais me torno um amante do mito'. A palavra 'mito' sgnifica, em tal contexto, uma imagem, fábula, 'estória' ou relato sintético de algo de excepcional importância existencial.

O meu 'mito' tomou forma por volta de 1961 ou 62, depois de leituras de várias obras de Jung. Cuido de destacar um texto de seu 'Psicologia e Alquimia' em que descreve o sentido do símbolo da cruz +. Esse é também sinal de adição matemática, indicador de um ponto geográfico e arquétipo quadrangular em torno do qual se desenha uma mandala. Entre os dados da anamnese que o símbolo evoca se encontrava a referência de Lúcio Costa ao desenho fundamental de Brasília, lido em seu projeto para o Plano Piloto, de dois eixos que se cruzam em ângulo reto, indicando o local no Planalto Central onde seria construída a nova capital. O ponto importante contudo, na imagem mitológica, é a teoria de Jung sobre as quatro funções da consciência, dispostas em dois pares do opostos perpendiculares, Intuição X Percepção, Sentimento X Pensamento (Fig.1). Eu acabava de ficar fortemente impressionado - não chego a dizer, traumatizado - em minha análise com o Dr. Carl A. Meier (um dos principais discípulos de Jung, a que farei referência pouco mais adiante), ao descobrir que era o lado afetivo, e não o lado intelectual, que servia de componente subsidiário da intuição, função dominante, em atitude introvertida, no 'complexo' psicológico característico de minha psique consciente. A qualidade 'metafísica' da imagem da quadratura do círculo mandálico, para a qual minha atenção auto-analítica havia também sido atraída, configurava um símbolo complexo de totalidade e de tensão no esquartejamento efetuado pelos arquétipos em conflito. De um ponto de vista 'religioso', como poderei me expressar, a Cruz no círculo continha ainda uma evocação da sentença de Kierkegaard de ser o Cristianismo a cruz do pensamento humano, tendo a palavra 'Cristianismo' uma conotação de pano de fundo inconsciente na vivência de nossa Cultura ocidental, tão seriamente ameaçada (inclusive no Brasil que sofria da crise posterior à renúncia de Jânio e culminaria em março de 1964). Isso, mesmo no caso de pessoas agnósticas ou sofrendo de dúvidas em matéria religiosa. O desenho que resume a intuição mítica, na fig. 1, foi criado naquele momento de meditação. Altamente aprofundada ao subir as encostas que, em Herrliberg - um subúrbio sobre o lago de Zurique, onde residia, separavam nossa casa da estação ferroviária onde todas as tardes desembarcava, procedendo da repartição consular na cidade onde trabalhava - a visão foi aquela de que deixo aqui estas breves indicações: o meu 'mito' particular, cujos traços pertinentes serão desenvolvidas na medida das necessidades destes ensaios.

Depois dos quatro anos de Zurique (1960/63), fui embaixador por curto tempo na Nigéria. Passei um ano em Lagos, no intuito não só de conquistar uma embaixada, ainda que comissionado, mas como preparação para um eventual exílio caso a tribo do Jango, Brizola & Cia. fosse bem sucedida em seu projeto insosso de transformar o Brasil numa imensa Cuba. A experiência pouco aprazível nesse país africano em formação, sempre à beira da anarquia e da luta tribal, serviu-me pelo menos para esclarecer minha própria postura diante da questão racial no Brasil. O capítulo 'Preto no Branco' da obra 'Em Berço Esplêndido' (1972) resume a tese, de inspiração junguiana, que traduz minha abordagem dessa problemática social tão importante para nosso país. O centro de minha experiência nigeriana foi a comunidade dos Brazilian Descendants. Era a composta, no seio da nação iorubá da Nigéria ocidental, pelos descendentes de escravos que haviam retornado à terra de seus antepassados após a Abolição. Muito úteis aos ingleses que então se estabeleciam como colonizadores naquelas bandas africanas, por serem cristãos e terem experiência como artesãos, formavam uma espécie de classe média que se articulou durante o estabelecimento em Lagos (o próprio nome é português) e ali enriqueceu. Antonio Olinto e Ademar Ferreira da Silva, campeão olímpico, ambos adidos culturais à embaixada, muito contribuíram para minha compreensão do papel dos africanos na formação do complexo cultural brasileiro.

Só voltei à pátria amada, idolatrada, depois da Contra-revolução de 64, cujo fácil triunfo acolhi com entusiasmo. Frequentei então durante dez meses a Escola Superior de Guerra (1965), no período áureo dessa instituição civil-militar. A tese que, segundo os preceitos da Escola, lhe submeti ao final do curso, transformou-se num livro, 'Politica Externa - Segurança e Desenvolvimento' - creio que a primeira monografia, na Brasiliana, dedicada inteiramente ao tema da nossa política exterior. Não me trouxe certamente popularidade entre os colegas. O maior elogio que recebi, um único comentário e apenas de um deles, é que eu tinha muita coragem ao escrever um livro como esse... Nem vantagens me granjeou junto às autoridades que se convertessem em benefícios imediatos para a carreira. Posteriormente, exerci as funções de Secretário-Geral adjunto para a Europa Oriental e Ásia (66), sendo Juracy Magalhães Ministro de Estado e o embaixador Manuel Pio Correa Secretário Geral. A promoção a Ministro de Primeira ocorreu em retribuição a esse esforço. Diria que foi o período brilhante, o único de minha carreira, o mais satisfatório também do ponto de vista de meu relacionamento com a situação política reinante no país.

No período militar de 63 a 80, confiança e aprovação integral só depositei mesmo em Castello Branco. Depois do Curso Superior de Guerra de 65, convenci-me que o grande mérito dos generais-presidentes foi haverem drasticamente repudiado, logo de início, o surgimento de qualquer liderança carismática que, essa sim, de armas na mão, nos teria conduzido a perigosas aventuras, como aconteceu com muitos de nossos vizinhos. Já na ESG e em 67, quando Castello foi substituído por Costa e Silva, me havia reconciliado com a idéia que a solução militar 'instrumental' a nossos problemas, no sentido de Oliveira Viana e Carlos Lacerda (na perspectiva do que dele ouvira no seminário da Columbia University aludido mais acima), não iria funcionar. Parece-me que Castello foi a única personalidade da política do momento que teria compreendido as nefastas consequências do personalismo patrimonialista brasileiro. Em 67, as ambições discordantes eram imensas: Lacerda e J.K., além dos derrubados pelo levante de 64, e um punhado de quatro estrelas verde-oliva, competiam na pretensão de alcançar a suprema magistratura. Por falta de apoio de seus colegas de arma, Castello não pôde realizar o projeto de, naquele mesmo ano ou talvez em 68, se houvesse permanecido no governo, presidir ao que, finalmente, só se efetivou em 85: a eleição indireta de um sucessor civil, com alguma legitimidade. Um qualquer dos políticos que ele imaginava teria permitido, já no novo período, encaminhar a nação para o 'milagre econômico' do quinquênio seguinte. Em vez disso, tivemos Costa e Silva, de fim melancólico; depois Médici que, pessoalmente sem grandes luzes, conduziu soberbamente o 'milagre'; em que pese a brutalidade da guerrilha urbana e da repressão policial-militar; e, em seguida, o prussiano Ernst von Geisel que, ao merecer os aplausos por levar adiante o projeto de Abertura, o comprometeu indelevelmente com seu monstruoso estatismo e o desastre do 'pacote de Abril' que deformou o federalismo.

Mas o que julgo haver sido a falta fundamental do regime militar foi não haver então realizado a reforma política que tanto se impunha, como até se hoje se impõe. Em seu 'A Ordem Política nas Sociedades em Mudança', bem acentuou Samuel Huntington - o prestigioso filósofo político da Escola de Governo de Harvard a quem tive o prazer de ouvir num seminário naquela Universidade, de que participei em meados dos anos 80 - que, 'no mundo em modernização, quem controla o futuro é quem organiza sua política'. Na verdade, o grande mistério da história política das nações sempre me pareceu residir nesta questão. Sempre devemos avaliar em que me medida interagem os episódios estocásticos, de pura sorte; o fundamento psico-cultural e a decisão coletiva consciente, expressa pelas urnas, no resultado final da dialética entre a vontade governamental e os acontecimentos imperativos. O destino nos tem sido ingrato. É um dos aspectos mais intrigantes do mistério acima referido que certas nações só excepcionalmente encontrem os líderes que merecem, melhores do que elas próprias, enquanto outras são favorecidas, como ocorreu, por exemplo, no episódio da Revolução Gloriosa, na Inglaterra; ou com os 'Pais Fundadores' no momento da Independência dos Estados Unidos; ou ainda na segunda metade do século passado na Argentina, com homens como Sarmiento e Alberdi, pelo gênio oportuno de seus governantes.Ao contrário, nem a França ao tempo da Revolução de 89, nem a Alemanha na década dos trinta, gozaram da mesma sorte excepcional - o que foi desastroso para as duas nações e para o mundo. Eis por que a pergunta clássica de nossa geração e de quase todas as anteriores, 'que país é este?', nunca encontrou resposta satisfatória em nossa mente. É no âmago do próprio espírito desta nação que jamais conseguimos penetrar, nem adequadamente com ela nos corresponder.

Entrentanto, também é verdade que jamais perdi as esperanças secretas sobre seu futuro, conservando certo otimismo sobre a maneira 'natural', ou o 'jeito' para a solução dos conflitos, que nos permitiram regularmente superar sem grande violência ou transtornos as frustrações que as crises sucessivas provocam em nossa existência coletiva. Meu relacionamento com o Brasil jamais foi de natureza racional, foi antes intuitivo e afetivo. Um otimismo que se mantem, não obstante a dura experiência histórica, vivida por mais de meio século de observação engajada, de alcançarmos um dia, por uma sorte imprevisível, aquele momento mágico definido por Huntington. Será que um dia organizaremos adequadamente nossa política?

. Não é o governo, é a iniciativa privada, deixada às suas próprias condições, que nos pode levar para o Primeiro Mundo. O fruto das sucessivas dores de cotovelo, desilusões e frustrações ideológicas, ao assistir ao fracasso de tentativas várias de 'arrancar do poço' a nação, superando a estrutura arcaica do clientelismo, do Estado paternalista e do regime patrimonialista incapaz e corrupto, herdado da época colonial, me inspirou no trabalho de análise psicológica ou interpretação do caráter brasileiro que empreendi na obra 'Em Berço Esplêndido'. Publicada em primeira edição em 1972, foi seguida de várias outras, explorando o mesmo filão: 'Psicologia do Sub-Desenvolvimento', 'O Brasil na Idade da Razão' e 'Utopia Brasileira'. Uma reedição ampliada e atualizada que conjuga esses quatro livros está atualmente no prelo. Roberto Campos gosta de citar nosso admirável Eugênio Gudin quando confessou, já com perto de cem anos de idade, de haver sido continuamente traído pela amante que sempre tão apaixonadamente amou, sem lhe poder corrigir a entranhada irresponsabilidade e caprichosa afoiteza.

A conclusão final a que cheguei é que, sem uma base moral, uma sociedade não pode funcionar adequadamente. Muito menos pode uma economia prosperar. O Estado de Direito (rule of law) num regime democrático, é condição necessária, não é condição suficiente para servir de argamassa a uma sociedade. A noção é vulgar. Precisamos não apenas de leis escritas mas da Lei moral. Preguiça, passividade, impunidade, romantismo, bom-mocismo, que mais devemos superar? Érico Veríssimo reparou, muito corretamente que é, 'nessa simpatia, nesse nosso bom-mocismo... que reside nossa desgraça como nação'. A idéia que as sociedades se erguem sobre uma Ordem moral está implícita no grande edifício filosófico que foi construído na Grécia pelos pre-socráticos, a escola de Sócrates com Platão e Aristóteles, de onde passou para o Cristianismo, mormente através de Agostinho de Hipona. Na Bíblia, tanto entre os Profetas hebraicos quanto nos Evangelhos e nas Epístolas de São Paulo, se proclama não será mais a Lei gravada na pedra, mas a que está inserida no coração... Recorde-se então as sábias palavras de Edmund Burke. Ao definir essa exigência, o grande orador liberal britânico avisava que 'os homens estão preparados para a liberdade civil na proporção exata de sua disposição a controlar seus próprios apetites com cadeias morais… A sociedade só pode existir se um poder de controle sobre a vontade e os apetites for colocado em algum lugar; e quanto menos houver desse poder dentro de nós, tanto mais haverá fora de nós. Pois está ordenado na eterna constituição das coisas que os homens de mente destemperada não podem ser livres. Suas paixões forjam suas próprias algemas'. É uma citação célebre que gosto de repetir… Em seus 'Quatro Ensaios sobre a Liberdade' (de 1969), Isaiah Berlin lembrava Aristóteles em conexão com a definição do que seja liberdade negativa. Para Aristóteles, como seres morais só estaríamos no gozo perfeito de nossa liberdade quando agimos de tal modo que os fins morais possam ser tão completamente realizados quanto possível. O ponto me parece evidente pois numa sociedade absolutamente entregue à anarquia, o crime naturalmente prosperará e não poderemos gozar da oportunidade de liberdade que uma sociedade ordeira proporciona. Quando no Rio ou em S.Paulo deixamos de sair à rua, à noite, por medo de sermos assaltados, nossa liberdade está sendo coibida pela situação hobbesiana que ali se manifesta.

A meditação sobre esses temas de indiscutível relevância conduziu-me ao enfrentamento com os dilemas da Ética, que aos benevolentes leitores submeterei a seguir. Não posso, todavia, deixar de aqui mencionar um velho e querido amigo e colega, Mário Vieira de Mello. Lá fazem disso quarenta anos que Mário me apresentou, numa tarde radiosa em que percorríamos o Alhambra de Granada, quando em viagem que juntos pela Espanha e Portugal realizávamos com nossas respectivas, o esboço da obra que publicaria sob o título 'Desenvolvimento e Cultura'. Nesse trabalho, hoje injustamente pouco lembrado, ele coloca a problemática brasileira em termos claros de rígida sistemática platônica. Inspirada sem dúvida no 'existencialismo' de Kierkegaard, qual seja na Alternativa 'Ou Isto ou Aquilo' (Enten Eller) que o triste dinamarquês propôs entre o Estético e o Ético - com uma terceira opção ocasional e transcendente para o Religioso - a tese de Mário sobre a 'questão do Brasil' é, basicamente, de ordem moral. Muitos outros pensadores compatriotas já disso se hão dado conta, Gustavo Corção por exemplo, sem talvez esquecer os dois Prados, Paulo e Eduardo, Sérgio Buarque de Holanda, Tobias Barreto, Jackson de Figueiredo, Miguel Reale e alguns dos 'católicos conservadores' do passado. Estou convicto que, sem o saber, foi esse substrato moral que igualmente me atraiu, na adolescência, à arregimentação artificial do movimento integralista. Mais recentemente, outros pensadores nos acompanham na convicção da preeminência do elemento moral. Menciono particularmente o grupo que, com Antonio Paim à frente, veio a constituir a Sociedade Tocqueville, fundada em 1986. A mesma urgência de descobrir uma hipótese satisfatória foi o que me conduziu, por sugestão de Màrio, à leitura de Eric Voegelin, à sua 'Nova Ciência da Política' e à 'Ordem e História', monumento extraordinário com seus alentados cinco volumes.

A antinomia da atitude estética contra a atitude ética pode parecer demasiadamente radical e eu próprio não condeno, hoje, o esteticismo brasileiro. Nele não reside, certamente, a fonte única do mal. Considero-o, pelo contrário, um elemento enriquecedor de valores preciosos na linha do 'dionisismo' de Nietzsche, para nossa eventual contribuição à cultura global. Há nele potencialidades de renovação do culto da Beleza e da Forma que nos vem da Grécia, do Renascimento italiano e da herança francesa, pendor que Hermann Keyserling, no final dos anos vinte, já anunciava com simpatia em suas 'Meditações Sul-Americanas'.

Sob a inspiração do daimon de Sócrates - ou do Lúcifer gnóstico que nos seduziu com a fruta do conhecimento do Bem e do Mal - lançaremos sugestões esparsas em torno da problemática dos comportamentos numa perspectiva ética. Mas antes de penetrar com o maior respeito nesse Santo dos Santos da reflexão filosófica, devem nossos passos novamente voltar atrás, reconduzindo-nos cronologicamente ao ponto em que deixei o relato da evolução autobiográfica. Os anos na diplomacia, percorrendo o mundo e assistindo in loco a alguns dos principais dramas da centúria - a IIª Guerra Mundial na China e na Turquia, 1941/45; a Guerra Civil na China em 1947/49; o conflito árabe-israelense, 1967/70; e os tremores anunciadores do colapso iminente do 'Império do Mal' na Polônia, 1979/81, - todos esses eventos foram seguidos paralelamente à 'observação engajada' do desenvolvimento político em nossa própria terra. A leitura de Weber, de Aron, de Mises e Hayek, coincidiu com o desenvolvimento pontilhado de constantes turbulências em nosso país. Foram elas numerosas: 1924, 1930, 1932, 35, 37, 45, 54/55, 61, 63/64, 68/69, 85, 88, 89 e 98... a lista parece interminável, repetitiva, monótona, sempre acompanhada de brados desmemoriados, protestos retóricos e exclamações impulsivas sobre 'a maior crise que o Brasil já atravessou'… Muitas vezes me provocam um tédio irresistível. O que ia eu enfrentar, no momento atingido por este relato, era mais grave do que tédio…

De 1967 a 70, fui embaixador em Israel e, cumulativamente, em Chipre. De novo, muitos daqueles que me conheciam consideraram a nomeação para Israel como uma espécie de punição. Na verdade, Costa e Silva e seu Chanceler Magalhães Pinto fizeram questão de se desvincular daqueles que haviam servido Castello Branco . Um único colega, Wladimir Murtinho, me felicitou pela oportunidade de ir observar uma das mais extraordinárias experiências sociais do século enquanto muitos diplomatas estrangeiros, com os quais mantinha relações mais estreitas, me parabenizavam pela demonstração de confiança que revelava o Governo brasileiro ao me indicar para o posto, tão no centro das atençõoes mundiais, na ocasião em que ocorria a vitória israelense na chamada Guerra dos Seis Dias. O caráter altamente estimulante e de alto pendor cultural da sociedade israelense, eufórica naquele momento de triunfo, me forçou a uma revisão de julgamento em relação aos judeus. Considero hoje essencial qualificar nossa civilização como judeo-cristã, eis que certamente é a Bíblia, incluindo o Velho e Novo Testamentos, o Livro comum, de máximo e fundamental valor, na perspectiva ética e metafísica da cultura que hoje integra o planeta inteiro. A atmosfera da Terra Santa, particularmente no período de Terrorismo e guerrilha larvada que se seguiu àquele conflito, deixou-me predisposto a um novo desafio introspectivo, a que me referirei pouco mais adiante. Até certo ponto, creio que o ambiente realmente estimulou a crise 'mística' que estava prestes a sofrer.

NEKYIA E APOKATASTASIS -

a Descida aos Infernos, Retorno e Regeneração

Na base do quadro familiar que registrei ao iniciar este esboço autobiográfico, passei a adolescência e juventude na convicção, afinal de contas perfeitamente normal para a idade, que havia resolvido os problemas da existência e me devia considerar um homem racional ou, como uma colega, certa vez, sarcasticamente me lançou ao rosto, 'civilizado e pronto para o self-government'. As experiências da Guerra nos três primeiros postos fizeram fragorosamente ruir o monumento de minhas descabidas pretensões - ó vaidade das vaidades, tudo é vaidade! particularmente na ribalta da política e da diplomacia! Cabia agora conscientizar um novo patamar no 'processo de individuação'.

Acentua Jung que, na Primeiro Metade da Vida, devemos satisfazer as exigências da Natureza e só na Segunda estamos prontos para oferecer uma contribuição à Cultura. Até por volta da década dos 60, eu pretendia sem grandes transtornos me haver consolidado na nova etapa existencial. Ao entrar, porém, na idade perigosa dos quarenta e, depois, na etapa dos cinquenta anos, em que os fantasmas da velhice e a angústia da morte se aproximam e tecem suas artimanhas, os choques com a realidade exterior refletiram-se em crescentes turbulências interiores. Fiquei desabusado de injustificado otimismo. Senti-me estar caindo, pouco a pouco, num poço sem fundo e, em Israel mesmo, retomei contacto com a análise Junguiana graças à amizade de um suiço israelense, formado no Instituto de Zurique e estabelecido em Haifa, o Dr. Gustav Dreifuss. Confessa o Hamlet de Shakespeare, com palavras de desengano:

…O God! O God!

How weary, stale, flat, and unprofitable

Seem to me all the uses of this world.

Fie on´t!

Uma crise religiosa, precipitada quiçá pela atmosfera mística da Terra Santa, acompanhou o que se passava no setor da realidade objetiva, comportando tentativas fracassadas de traduzir em atos e empreendimentos práticos os mandamentos da moral cristã e da dogmática católica. Nessa época irrequieta, ainda brinquei ocasionalmente com a imagem utópica de uma Ordem eclesiástica que restabelecesse a tranquilidade, no mundo tão atordoado dos anos 60/70. A inauguração do Quinto Império? As paixões da alma não se deixam, porém, tão facilmente reduzir e esfriar.

De volta ao Brasil (1971/73) após a permanência em Israel, embrenhei-me na experiência catastrófica de pretender contribuir para a educação brasileira a partir de uma função burocrática. Aberrante quixotismo! Ao oferecer meus serviços ao Ministro Jarbas Passarinho, em cujas mãos se encontrava o MEC, enfrentei o espetáculo constrangedor da desordem e ineficácia burocrática nesse setor chave do governo da nação - em que o Ministro, como os outros antes e depois dele, igualmente se confundiram. O pior foi um breve e deplorável estágio como Diretor-Geral da Embrafilme. O desenlace coincidiu ou agravou uma rebordosa emocional provocada pela ruina de minhas expectativas profissionais na carreira e o questionamento existencial aguçado, justamente, pelo trauma provocado pela morte de minha irmã, após longo sofrimento de câncer, e logo a seguir pelo desaparecimento de minha Mãe. É sabido que a morte de seres familiares e queridos é frequentemente acompanhada de terríveis sentimentos de culpa, que agravam a atmosfera depressiva.

Não cabe aqui entrar em pormenores sobre os episódios decepcionantes que se sucederam. A parte interessante num horizonte de análise junguiana foram os sonhos então registados - muitos deles anunciando ou descrevendo o que se passava nos subterrâneos da psique. Cuido apenas de mencionar essa triste 'Temporada no Inferno'. Ao voltar desconcertadamente ao ninho, como se poderia dizer, no meu Ministério, o distúrbio foi aguçado nos dois primeiros invernos passados nas frias brumas e longas noites de Oslo. Ali servi, e cumulativamente na Islândia, de 1974 a 77. Em que pesem as condições positivas da embaixada, foi neste terceiro e último período de ausência do Brasil, antes de me aposentar, que atravessei a etapa mais perversa da Existentialeangst - crise tanto mais lastimável quanto apreciei Noruega e Islândia por sua extraordinária beleza natural, a cortesia e alto nível cultural de seus povos, e simpatia acolhedora que de modo algum merecem um julgamento negativo. A depressão e angústia existencial foram objeto das meditações de Kierkegaard, no século passado, e de Heidegger no nosso, introduzida como conceito nuclear da sua filosofia, qualificada, precisamente, como 'existencialista'. Mas será o caso de repetir as palavras de Graham Greene, outro depressivo, colocadas em seu romance 'O Poder e a Glória': esse tipo de sofrimento nos traz apenas a fealdade, o fedor, o bulício da multidão. No entanto, toda dor, todo sentimento profundo, toda intuição excepcional não são suscetíveis de expressão verbal. O sofrimento, físico ou mental, pode apenas ser transmitido ao 'Outro' de modo extremamente primário, e é essa barreira, semelhante aliás à do amante que, à amada, deseja manifestar a grandeza de sua paixão mas não consegue senão balbuciar palavras comuns, frases banais, gestos ou expressões fisionômicas superficiais, o abismo usual que se levanta no relacionamento entre o Eu e o Tu. Wittgenstein, esse estranho filósofo, às vezes hermético, às vezes místico, outras vezes brusco, disse uma frase que tem merecido frequente citação: Wovon man nicht reden kann, darüber muss man schweigen - 'Aquilo que não podemos transmitir pela palavra, ou aquilo de que não podemos falar, devemos manter silêncio ou calar'. A sentença, que consta de seu Tractatus Logico-Philosophicus publicado em 1921, depois de dez anos de matutações lógico-positivistas, exprime a essência do pensamento do anglo-austríaco sobre o problema da linguagem. A linguagem é feita para permitir a superação da barreira que existe entre nós - entre Eu e Você. Mas Wittgenstein demonstra a existência de uma fissura quase intransponível entre as palavras e a realidade subjetiva de nossos estados de espírito. Sua filosofia da linguagem foi elaborada em torno desse problema. A racha entre a sensibilidade e o mundo objetivo, como vamos verificar mais adiante, explica as teses sobre o perspectivismo e a relatividade das interpretações, propostas por Nietzsche. Sobre a impórtância do perspectivismo nietzscheano iremos insistir. Talvez ficasse Descartes mais próximo da verdade em seu Cogito se apenas afirmasse patior, ergo sum - 'Sofro, logo existo'... Maior certeza ainda obtemos ao dizer moriturus, ergo sum... O sofrimento, a dor, física e mental, a morte, são certamente, no meu entender, o que de mais certo e seguro conhecemos, em matéria de realidade existente ou expectativa futura.

Na psicologia de Jung, fala-se na Nekyia. Frequente e abundantemente analisada, consiste no confronto decisivo com nossa própria Sombra. A Auseinandersetzung, fenômeno que amiúde nos afeta quando transitamos para a 'Segunda Metade da Vida', coloca-nos francamente em face da nossa própria mortalidade. Argumentando com o negativo, tomamos então consciência ofuscante de nossas inevitáveis frustrações, perplexidades, sofrimentos e destino fatal. Só que, em meu caso particular, o fenômeno ocorria em forma mais aguda e idade relativamente mais adiantada do que o normal. A Nekyia é também uma Katabasis tal como é descrita no Livro XI da Odisséia, quando 'desce' Ulysses à caverna profunda ad inferos para consultar o sábio Tirésias sobre seu trágico destino. Tirésias lhe anuncia uma cópia imensa de sofridas aventuras que terá de enfrentar antes de, finalmente, conseguir retornar ao lar e à família, em Ithaca, sua terra natal. Um outro famoso exemplo é o da descida de Dante ao Inferno, com que inicia a 'Comédia'. Perdido numa floresta escura, encontra Virgílio que o conduzirá depois ao Purgatório, até por Beatriz ser finalmente conduzido ao Paraíso.

Nel messo del cammin di nostra vita

Mi tritrovai per una selva oscura,

Ché la diritta via era smarrita.

Acredita Jung que o motivo mitológico se apresenta em toda a Antiguidade e, praticamente, em todo o mundo. Ele descreve o processo no capítulo (VI) de suas memórias intitulado 'Confronto com o Inconsciente', cobrindo o período imediatamente posterior ao rompimento com Freud, a Iª Guerra Mundial, em que esteve mobilizado no Exército suiço, e os distúrbios mentais que o atingiram no princípio dos anos 20. O pensador suíço chegou a temer a iminente escuridão de uma psicose esquizofrênica, até emergir com sua própria visão criativa e uma nova interpretação da psicologia das profundidades. Nos casos que diríamos 'normais', sofremos um processo pelo qual o Eu consciente se introverte e penetra nas camadas abissais do Inconsciente, extraindo de sua experiência motivos simbólicos, ditos 'arquetípicos', impessoais e relacionados com o puramente coletivo.

No meu caso, registrei um sonho muito característico, quando ainda em Israel (1969), em que me encontrava num automóvel numa estrada no meio de uma imensa floresta tropical, fechada, e subitamente descobria um cavalo que estava sendo atacado por milhões de aranhas negras e se debatia na teia. Do barranco descia uma mulher. Mas o automóvel continuava seu caminho e se safava da emergência. O automóvel simbolizava, evidentemente, a consciência em que 'Eu' me encontrava, antecipando uma solução positiva no desenrolar do drama. O cavalo representava meus próprios ímpetos cegos, desejos impulsivos e ambições, todos eles presos na imensa teia em que me iria envolver, com as aranhas enormes à procura de presas nos meandros da burocracia e da política em cuja rede fatal corria o risco de me perder ao voltar ao Brasil (a floresta tropical).

Na realidade, como descrição simbólica da luta mitológica do Herói, São Jorge, Perseus, o Rei Artur, contra o Dragão da Maldade, o processo de Nekyia dramaticamente configura um percurso no vale das Sombras da Morte. Em Oslo registrei outra série de sonhos, ou melhor seria chamá-los de pesadelos, em que me sentia mergulhar num abismo terrível de conflitos, guerra nas selvas, assaltos, sangue, cadáveres, vingança e terror. Objetiva e paralelamente, dois acontecimentos exógenos me afligiam. Sob o governo Geisel, foi o Itamaraty entregue à turma que se tornou, subsequentemente, conhecida como a dos 'barbudinhos', embora no focinho não ostentasse seu chefe, o Ministro Azeredo Silveira, a ampla pilosidade de estilo marxista que veio a distinguir alguns de seus principais colaboradores. Entusiásticos promotores da diplomacia definida como 'terceiromundista' e legitimada pela Teoria da Dependência, a expressão 'barbudinhos' teria sido cunhada por um embaixador americano, Motley, nascido no Brasil, que recorria a seus amigos das Forças Armadas quando, junto ao Itamaraty, encontrava empecilhos às suas démarches pelos obsessivos preconceitos 'anti-imperialistas'. O segundo evento era o que se passava em Angola, onde os comunistas do MPLA se apossaram do governo de Loanda, foram logo sustentados militarmente pelos russos e os cubanos, e reconhecidos pelo governo brasileiro, assim obrigando Jonas Savimbi e sua UNITA a se refugiar nas florestas do sudeste, onde receberiam ajuda dos Sul-africanos. Anos mais tarde, ou seja exatamente em setembro de 1988, visitei a África do Sul a convite do embaixador sul-africano, amigo meu, e estive também em Jamba, que servia de capital ou quartel-general de Savimbi, inacessível em pleno cerrado no sudeste de Angola.

Em outro sonho relevante que tive, já agora em Oslo, como embaixador na Noruega (1975), havia referência aos acontecimentos de Portugal e de Angola. Os cubanos apareciam como os 'adversários' no arquétipo da sombra. E ocorria literalmente uma visita a uma morgue em que não era permitido olhar para a face dos cadáveres - como na lenda da visita de Orfeu aos infernos, à procura de Eurydice, sua falecida esposa, ocasião em que não podia olhar para trás. Nessa última cena, registrava-se a lembrança de uma visita que eu realmente fizera, dois anos antes, ao departamento de anatomia patológica do Hospital de Base, em Brasília, e debaixo de um lençol, com os pés para fora, estava o corpo de um diplomata americano que morrera em acidente ou crime poucos dias antes.

Descrevi o movimento ideológico que contaminou amplos setores da opinião mundial como de natureza 'nacional-socialista'. Defendi o uso desse termo apropriado numa obra de 1985, reeditada em 94, sob o título 'A Ideologia do Século XX', pois o sistema dogmático de pensamento combina um nacionalismo, entranhadamente anti-americano, com veleidades confusas de coletivismo e autarquia econômica, sob uma filosofia que poderíamos considerar como inspirada em Rousseau. O Terceiro-mundismo diplomático objetivava um suposto não-alinhamento, favorecendo, na realidade, a parte adversária no confronto mundial. O método era o da chantagem: 'ou Vocês me ajudam, ou passo para o lado de seus inimigos'… Seus primeiros sintomas haviam ocorrido na chamada 'Operação Pan-americana', ao tempo da Presidência JK (1958/59), na qual se distinguiu Araujo Castro. Homem de grande inteligência, ironia e fortaleza de caráter, ele estava destinado a se tornar o paradigma da jovem diplomacia brasileira nos anos sessenta e setenta.. Foi também a primeira vez em que me senti, claramente, colocado no ostracismo por meus colegas de Casa.

No segundo período do 'não-alinhamento', destinado a superar a 'dependência' da 'nação marginal' em relação ao 'Centro' capitalista, uma tal política foi direcionada pelo próprio Geisel, assistido por seu pernicioso Chanceler, obstinadamente empenhado em comprometer nosso relacionamento com os três países com os quais estamos mais intimamente associados, os Estados Unidos, a Argentina e Portugal. Geisel, filho de imigrantes sem compreensão ou contacto com as raízes brasileiras, a meu juízo desgraçou o país com efeitos que perduram até hoje, pela política centralizadora e estatizante que colocou mais da metade do PIB brasileiro nas mãos incompetentes e corruptas do Estado patrimonialista.

No âmbito externo, a 'Revolução Cultural' dos anos 60 e 70 parecia demonstrar ser correta a afirmação da 'Esquerda' de que o mundo caminhava para o coletivismo igualitarista e totalitário. No Vietnã, os americanos haviam registrado um inédito desastre, antes político do que militar, enquanto sofria toda a sociedade ocidental as repercussões da grande subversão sexual que abalava os próprios fundamentos da moral familiar de nossa civilização. Trinta anos depois procurei consolidar minhas observações sobre esse aspecto da conjuntura numa obra de título 'O Jardim das Delícias', ainda não publicada. Em várias outras partes do mundo, tinha-se a impressão que um vasto movimento de flanco através do Terceiro-Mundo servia a Leonid Breshnev para promover a extensão do Império comunista, sem desafio direto ao poderio nuclear americano. A Europa estavas sendo 'finlandizada'. E em Angola, adiantara-se o Brasil a outras nações para favorecer o partido que, através do apoio de mercenários cubanos, iria permitir a colocação do poder naval soviético no Atlântico Sul, bem em frente às nossas costas. Misturando as preocupações políticas com meu próprio conflito profissional e pessoal, o que se projetava sobre o futuro era a evolução de meu pensamento filosófico do anti-coletivismo, puro e simples, para uma atitude mais sofisticada que, por etapas sucessivas nas duas décadas seguintes, me iria conduzir à abordagem do liberalismo moderno - de Locke, Adam Smith, Burke, os Pais Fundadores americanos, Tocqueville e Acton, a Berlin, Aron, Popper, Mises e Hayek.

Em suma, a experiência por que passei foi deplorável. Após longas tentativas de me libertar do pesadelo, que se prolongou até o ano de 1977 quando fui servir em Quito, no Equador - a saída da depressão consistiu no projeto de vigorosa e crescente dedicação ao estudo e à produção ensaística. O caminho da cura me foi, muito suave e francamente, indicado por um Mestre e amigo, o professor Carl Albert Meier, já acima mencionado. Meier fôra meu 'analista' em Zurique, à época em que frequentei o Instituto Jung. Fizera análise como parte da aprendizagem propedêutica nessa prestigiosa instituição. Eu costumo visitar regularmente Zurique. É a cidade mais bem organizada, confortável, rica e segura (ainda que, não necessariamente, uma das mais divertidas…) da Europa. Aproveitando a ocasião de uma longa entrevista, numa visita ocasional, o Dr. Meier sugeriu-me ser a solução do problema do restabelecimento do equilíbrio emocional e espiritual, com a redução da 'tensão dos opostos', possivelmente encontrada no trabalho intelectual criativo. Muito devo a esse médico e professor que, na famosa Escola Politécnica de Zurique - também a alma mater de Einstein, Pauli e outras sumidades da ciência moderna - foi herdeiro da cátedra de psicologia que Jung ocupara. Posteriormente fundador do Instituto C.G. Jung de Psicologia em Küsnacht, subúrbio da cidade, esse suíço sólido e confiável para mim representou uma espécie de guru, psychopompos ou 'condutor da alma', como Virgílio a de Dante na Divina Comédia que é a vida.

EPÍLOGO PROFISSIONAL

Quando de 1979 a meados de 81 servi em Varsóvia, como último posto da carreira, considerei-me preparado para o derradeiro capítulo que a Comédia nos reserva. Assisti na Polônia, primavera de 1981, aos primeiros sucessos do movimento da Solidarnosz que iria, oito anos depois em toda a Europa oriental, eliminar o comunismo e desencadear o movimento geral destinado a derrubar o Muro de Berlim e desintegrar o Império soviético. O escândalo da dívida polonesa, contra a qual me rebelei com indignação (a dívida que ainda permanece na casa dos quatro bilhões de dólares, foi o mais desastroso empreendimento externo que nos custou a política terceiromundista de 'não-alinhamento'), configurou o fogo de artifício final nos 43 anos de minha atividade profissional no Ministério das Relações Exteriores. Em julho de 81, com 64 anos de idade, celebrei a aposentadoria, e bem me recordo da sensação de alívio e liberdade que me proporcionou quando, de automóvel, parti para a Europa ocidental, a caminho do Brasil.

O modo relativamente indolor com que me safei de uma possível recaída, nessa etapa final perigosa, pode também ser em parte atribuída à residência em Brasília. Nessa cidade, ou mais especificamente, em minha 'mansão' batizada de Castália no bairro denominado Parkway, encontrei o ambiente adequado ao prosseguimento intensivo da produção intelectual - livros, artigos de jornal, conferências, etc. É Castália, incidentalmente, a fonte de Apolo em Delfos, de onde segundo a tradição grega emergia a água lustral em que se desalteravam os 'amantes da sabedoria'. O termo foi usado por Hermann Hess para designar o país utópico em que localiza 'O Jogo das Pérolas de Vidro', obra que lhe valeu o Prêmio Nobel. Por coincidência, estava lendo o 'Magister Ludi' ao construir a casa onde hoje resido. Ao retirar-me para Castália, constatei que prudentemente seguia o conselho terminante de Voltaire: 'il faut cultiver son jardin'… Toda minha vida, profissional e paralela, adicionada a quase mais vinte anos de meditação no refúgio da aposentadoria, me haviam facultado a acumulação de um patrimônio de experiências e conhecimento com o qual posso alimentar a esperança de, eventual e subrepticiamente, extrair-me da Caverna de Platão...

Como atividade subsidiária, exerci de 1982 a 89 o magistério na Universidade de Brasília, no Departamento de Relações Internacionais e Ciência Política. O Magistério tem a virtude de nos remoçar com o contato direto da juventude, além da satisfação espiritual que nos proporciona ao cumprir o dever de transmissão cultural. Infelizmente, o ensino universitário brasileiro está afetado por vícios profundos que, no correr dos anos, acabaram por me desencantar da expériência. As greves constantes, a indisciplina dos jovens, a desordem administrativa e a contaminação geral do ambiente pela ideologia pseudo-marxista se adicionaram àquela frustração.

Passei então a colaborar com um grupo privilegiado de amigos com os quais fundamos a Sociedade Tocqueville. Logo a seguir transitei para uma já organizada instituição que, ao contrário da Sociedade, estava provida de fundos, já tinha sede em sete cidades brasileiras e exerce esforçada atividade de divulgação do ideário de Mises e Hayek. É o Instituto Liberal. Ali, como Presidente do IL de Brasília, me enriqueci com relacionamentos tão preciosos quanto os da Tocqueville. Donald Stewart, Og Leme, o admirável e dinâmico grupo de jovens empresários de Porto alegre, o professor Nelson Lehmann da Silva, meu colega em Brasília, deram-me o privilégio de sua amizade e colaboração numa tarefa tão ingrata quanto patriótica e verdadeiramente 'Liberal', com L maiúscula.

Após a descrição dos aspectos exteriores mais relevantes da biografia, chegado é o momento para aprofundar-me no contraponto interior ou subjetivo dessa mesma - em breve resumo conclusivo... Todo o processo descrito nas páginas anteriores coincidiu, de fato, com uma lenta e profunda transformação de convicções e posicionamentos intelectuais. Progredí, creio. Ou, pelo menos, assim o espero. Evoluí aos poucos de uma postura 'ortodoxa', de conteudo dito 'conservador', já condimentado com forte dose de dúvidas e ceticismo - que se manifestava pela obediência respeitosa ao Patriarca Soberano, símbolo e detentor do poder temporal, e à venerável Mater et Magistra da tradição brasileira, senhora do poder espiritual - para o ideário do Liberalismo. Isso, tanto em matéria política, quanto para o 'livre pensamento' em matéria religiosa. Considero-me hoje membro da comunidade a que se refere o filósofo polonês Leszek Kolakowski - que conheci em Londres, em 1980, e revi subsequentemente em Brasília, a dos 'Cristãos sem Igreja', nos limites entre o agnosticismo e a Gnose... Explorei com uma curiosidade que, felizmente, jamais definhou, o máximo que me foi concedido obter através da leitura e pesquisa de um largo espectro do pensamento moderno, no terreno da história, da filosofia política, de assuntos sociais em geral e de filosofia pura, desde o mal chamado 'existencialismo' até a filosofia da ciência e a teologia. A partir da aposentadoria, os eventos interiores se desenvolveram paralelamente ao rápido encaminhamento da questão da modernização e globalização planetária, com o marco histórico do annus mirabilis de 1989. Coincidiram tambem com um enfarte.

Sem gravidade, a crise cardíaca foi minha maneira de homenagear, no stress, a queda do Muro de Berlim, o desmoronamento como um castelo de cartas do 'Império do Mal' e, no Brasil, o acontecimento inédito de haver sido barrado o caminho eleitoral ao candidato dos botocudos. Realmente não sei se o stress colaborou na etiologia do mal das coronárias mas me abstive, desde então, de participação direta em qualquer atividade que implicasse contato mais direto com política partidária. Com uma única exceção. Colaborei na frustrante Campanha do Plebiscito em favor da alternativa da monarquia parlamentarista a qual, em que pese seu aparente obsoletismo, continua me parecendo o método mais racional e eficiente de governo, tal como demonstrado pelos países da comunidade britânica, neerlandeses, escandinavos, Japão e Espanha.

O afastamento em relação ao venerável passado eclesiástico, porém agora insustentável, foi progressivo. Procurei cuidadosamente evitar um pecado, tão comum na velhice, de deblaterar contra o presente, invocando as delícias do que se passava na 'minha época'... O abandono da Santa Madre, a ser semanalmente frequentada, se deu suave e tardiamente, com prudência e respeito, já no final da década que marcou o colapso do regime militar no Brasil. E por dois motivos. Passei a considerar como irracional a obstinada atitude do clero, em matéria de controle da natalidade, e a suspeitar estivesse ele, pela 'mão estendida' sem prudência, sendo progressiva e perigosamente infestado pelo Marxismo da chamada 'teologia da libertação' - algo que melhor chamaria uma 'teratologia da opressão'. Afinal de contas, se é verdade que a distribuição da renda em nosso país é, não necessariamente injusta mas desigual, grande parte da culpa se deve ao alegre expansionismo reprodutivo das classes mais pobres, particularmente entre adolescentes das favelas urbanas e áreas rurais atrasadas. Qualquer incentivo à proliferação irresponsável deve ser condenado e foi esse erro, justamente, o que sempre atribuí ao clero católico. As raízes do igualitarismo de esquerda no Brasil são românticas. Elas devem ser investigadas, em última análise, nas masturbações mentais de Rousseau, uma alma danada que há muito detesto. A insistência no conceito de 'justiça social' não passa de um álibi para a consciência do intelectual que, reconhecendo embora o desgoverno do país, nada quer ou pode fazer para remediá-lo.

Nessas condições complicadas, entrei em dissidência com a situação religiosa do país. Os aspectos extravagantes do aggiornamento e as mesaventuras da 'Nova República' com a Constituição dos Miseráveis sob o lamentável governo dos três primeiros presidentes civís, agravaram meu descompasso com o que geralmente acontece no setor público do país. Fortaleceu-se a convicção que sofre a Igreja eflúvios de macumba ideológica aos quais deliberadamente deixa de resistir, enquanto a elite intelectual toma a Cuba de Fidel, o Iraque de Saddam Hussein ou a Líbia de Ghadafi como modelos - essa mesma elite que chegou a venerar a Albânia estalinista como paradigma do ideal de 'não-dependência'. A gota dágua coloca-se, provavelmente, na ocasião em que, penetrando no limiar de uma igreja para a Missa de Natal, me defrontei com uma imensa estrela vermelha. Ora, fui educado na convicção empírica, reforçada pela meditação sobre a importância dos símbolos, que toda estrela é branca, inclusive a 'Nova' que, segundo se supõe, teria conduzido os Reis Magos a Bethlehem faz lá disso dois mil anos. A aberração era inaceitável. O vermelho da estrela agiu como a capa de um toureiro sobre um animal enfurecido. Para piorar as coisas, numa missa anterior que assistira, o sacerdote estrangeiro, já inspirado na atmosfera dionisíaca que melhor explode nos festivais de rock do padre Rossi, transformara o sacrifício eucarístico num carnaval de atabaques, pandeiros e tambores - tudo mais condizente com o culto venéreo do deus Eros do que com o da Segunda Pessoa da Santíssima Trindade.

Duas obras exprimiram então minhas perplexidades, ressentimentos e protestos - 'O Evangelho segundo Marx' e 'Opção Preferencial pela Riqueza'. Os títulos definem por si mesmos o conteúdo dos arrazoados desenvolvidos. Uma certa nostalgia e sentimento de remorso em relação à Mater et Magistra, pela 'traição' que eu secretamente sentia estar perpetrando, acompanharam a iniciativa de auto-excomunhão. Por outro lado, desprezo, uma irresistível ojeriza e mesmo nojo, foi o que desse momento em diante se destacou na minha atitude mental em relação ao Estado e à política. Desenvolvi a tese que o episódio da tentação de Cristo no deserto é da maior relevância para uma correta interpretação do Cristianismo. Registrado nos Evangelhos, o indignado repúdio de Cristo à oferta demoníaca do poder político sobre todos os reinos da terra, no Vade Retro, Satana, impinge na necessidade de suspeitar sempre da corrupção do Poder - seguindo nisso o famoso aforismo de Lord Acton - sem esquecer, todavia, que a toda sociedade se impõe o dever de assegurar aos cidadãos a solidez do Estado de Direito, caso tencione viver em liberdade. Liberdade e Segurança são exigências contraditórias do homem. Consequentemente, diante do dilema, ou na metaxy como diria Voegelin, na tensão dos opostos entre Ordem e Liberdade, entre Segurança e Desenvolvimento, prospera a noção de uma ética da responsabilidade individual que satisfaça às exigências da modernidade global.

O tema do impacto revolucionário de nossa época foi objeto de uma obra que me exigiu intenso trabalho pela pesquisa efetuada, publicada em 1998 sob o título 'O Espírito das Revoluções'. A idéia básica é que o fenômeno revolucionário que absorveu as energias dos povos do Ocidente e, por contágio, do Oriente também, e tamanhas calamidades tem causado, se pode compreender como uma procura dolorosa da idéia de liberdade. Quando essa procura, como sói acontecer tão frequentemente, toma um caminho falacioso que conduz ao descarrilamento, surge o totalitarismo homicida, desde suas formas primárias no Jacobinismo da Revolução francesa até aquela 'tentação totalitária' registada em nosso século e tão exaustivamente analisada por Roque Spencer Maciel de Barros. O caminho certo, aquele que só a partir de 1989 brilhou em toda sua clareza é aquele que foi definido por Hannah Arendt como o da institucionalização da Liberdade, tal como se consolidou na democracia constitucional dos povos anglo-saxões que vivem hoje sob um 'estado de direito' (the rule of law). O livro define, em suma, a 'Revolução Gloriosa' que, de 1689 a 1989, estendeu o tipo de democracia liberal e economia de mercado pelo mundo avançado e enriquecido. Lá pela época que terminava o meu trabalho conheci Olavo de Carvalho. Dele me tornei amigo e li toda a obra, notável pelo ardor de seu ataque à intelectuária de Esquerda e pelo incomparável humorismo que utiliza como arma afiada em tal combate.

Os reflexos místicos de tais cogitações seculares seguiram um curso paralelo e perduraram nas profundidades abissais da alma, superficialmente encobertas pelo rastejante ceticismo de que é a velhice terreno fértil. Uma idéia básica que orienta toda a obra que estou procurando desenvolver é a de um fenômeno generalizado de rebelião contra o que poderíamos qualificar como o arquétipo do Pai. Em seus vários aspectos políticos, sociológicos, teológicos e mesmo sexuais, a ênfase deve ser colocada nesse caráter caleidoscópico do processo revolucionário. Na base de tudo está a realidade da 'Síndrome da Morte de Deus', tal como foi proclamada nos loucos berros de Nietzsche: 'Deus morreu e fomos nós que o matamos'. As consequências dessa descoberta, que em fins do século passado deveria ter sido óbvia, apareceram com terrível acuidade em nossa século: 'Deus morreu'. Proliferaram, porém, todos os demônios de que é a natureza humana capaz de gerar. Uma explosão de dinamite era como Nietzsche descrevia suas tremendas intuições relativas às consequências da transmutação de todos os valores, implícita na 'descoberta' do homicídio teológico. Foi a revolta contra o Pai, a tese que Freud explorou com sua noção de Complexo de Édipo, coletivamente transposta para as ciências sociais em suas obras derradeiras de 'metafísica' psicanalítica, o que teria gerado a necessidade do homem moderno atender às suas ilações, no campo da política, da teologia e, sobretudo, da moral. Se Deus não existe, como postulam alguns, como postulam muitos, o diabo com certeza figura com indiscutível preeminência nos anais de nossa centúria. Nessa perspectiva, Lúcifer Sabaoth tornou-se objeto particular de minha atenção e pesquisa.

Mantenho a crença possua a humanidade um destino transcendente. Nossa presença no universo talvez não dependa apenas das Moira (ou Moirae), deusas caprichosas e estocásticas, desprovidas de qualquer sentido racional em seu comportamento e sua ação sobre os humanos. Depende de algo mais, que ignoramos mas sentimos existir. A fé e esperança em tal transcendência compensariam o desesperado niilismo provocado pela consciência da nossa divina orfandade. Nossa ignorância é o que cumpre enfatizar, ao nos dar conta da realidade - a realização de que estamos diante de um Deus absconditus ou Deus ignotus o qual, como aconselhava o mui sábio filósofo e cardeal Nicolau de Cusa (+1464), devemos reconhecer a partir da confissão da docta ignorantia, a grande virtude, tão rara, que creio caber ao verdadeiro filósofo. A vida é um mistério e, nessa constatação, José Severiano de Rezende, conforme a interpretação de sua obra na pesquisa realizada por José Maurício de Carvalho, abriu o caminho dos 'tradicionalistas' brasileiros de princípio do século para a presença do existencialismo em nossa filosofia.

O problema central que então devemos, certamente, formular é o mesmo que Nietzsche, com seus aforismos escritos a marteladas, levantou, sem lhe dar resposta. Como pode uma sociedade ordenada sobreviver, quando em vão procuramos justificação superior para os imperativos morais do comportamento? Pois a não ser quando são nossas ações meramente rotineiras, com a repetição fastidiosa das mesmas atividades impostas pela vida prática, sempre estamos nos comportando de acordo com determinados padrões éticos. O termo grego ethos é isto mesmo: comportamento, hábito, caráter. Em Sócrates primeiramente, depois em Platão e Aristóteles, e em São Paulo, Agostinho e os Santos Padres da Igreja do final da Idade clássica à Idade Média, e em Kant, no apogeu do pensamento europeu, em Nietzsche há pouco mais de cem anos, em Jung e Voegelin, suficientemente próximos de nós para que eu os tenha pessoalmente conhecido, e em muitos outros filósofos e teólogos da modernidade - surge a questão dos fundamentos da Moral numa emergência em que o Deus absconditus se faz lembrar pela sua discreta ausência, senão mais do que óbvia abstenção ou eclipse.

Sócrates foi condenado à pena capital - que disso nos recordemos enfaticamente! - sob o pretexto que desprezava os deuses de sua cidade. A impiedade ou mesmo o ateísmo compuseram os artigos de seu indigitamento pela assembléia da democracia ateniense. Ora, Sócrates apenas declarara que, em seus ensinamentos aos jovens, dava lugar preferencial à procura dos fundamentos éticos do comportamento, à idéia de justiça, à beleza e ao bem (o ideal do Kalogathos), aos métodos de seleção dos melhores governantes, etc. - pois dos deuses pouco podemos saber. A paideia socrática era ética, a pedagogia da idéia de Justiça e da idéia do Belo e Bem moral. Kant foi mais além. Seu imperativo categórico transforma a divindade em mero sustentáculo metafísico de uma transcendência abstrata, cujo verdadeiro conteúdo na 'coisa em si' (Ding an sich) jamais poderemos alcançar. Jung sempre foi acusado de Gnosticismo, particularmente numa pequena obra do filósofo e místico israelense Martin Buber que escreveu, não sobre a Morte, mas sobre 'O Eclipse de Deus'. Jung teria transformado Deus em simples 'arquétipo' do Inconsciente Coletivo, dando-lhe o nome de Selbst, o Si-mesmo.

É bem verdade que Jung não escondia sua Gnose e foi um dos principais responsáveis pela renovação do interesse da pesquisa moderna pelas divagações desses espiritualistas entusiásticos dos primeiros séculos de nossa era. Ficou célebre a resposta que, em março de 1959, dois anos antes de morrer, ofereceu a um entrevistador da BBC de Londres, John Freeman, que era também editor da revista New Statesman. Freeman lhe perguntara se acreditava em Deus. 'Eu sei' (I know) foi a réplica imediata do psicólogo suiço. 'Não preciso acreditar, Eu sei'. O 'Eu sei' é uma fórmula francamente gnóstica e significa que ele, Jung, se valia de um conhecimento direto e incontroverso da presença da divindade dentro de sua própria psique, quaisquer que fossem as condições da realidade externa. O que verdadeiramente interessava Jung era a alma humana. A Psychê é a instância suprema da qual, como jamais cansou de insistir, depende toda a história, toda a civilização, todo o destino da Humanidade nesta época de tão tremendas mudanças.

E Voegelin? Vou dar-lhe mais destaque nesta altura do discurso porque bastante relevantes são suas idéias para referência ao momento em que atingi em minha própria 'consciência transcendente', tão repleta de questões e dúvidas, melancolia, angústias e esperanças sempre normais no último estágio da vida. Estando em posto em Zurique, por volta de 1962 ou 63 fui a Munique, em cuja Universidade ele estava lecionando, depois de lhe solicitar uma entrevista que ficou bem marcada em minha memória. O pretexto para o encontro fôra meu declarado propósito de traduzir a obra 'A Nova Ciência da Política' em que Voegelin derrama seu fel sobre os gnósticos e acusa o gnosticismo de haver contaminado, em sua versão ideológica contemporânea, a intelectualidade com as utopias e os eflúvios revolucionários violentos que a caracterizam (essa obra, como se sabe, foi posteriormente publicada, pela Editora da Universidade de Brasília, em uma versão extremamente defeituosa). Eu alimentava, àquela altura, minhas próprias dúvidas ansiosas sobre as lucubrações gnósticas de Jung. De qualquer forma, a entrevista acabou se perdendo em um debate ocioso sobre os arquétipos junguianos que me deixou profundamente frustrado. Tive, aliás, a impressão de ser Voegelin um personagem de maus bofes, introvertido, impressão que não é de modo algum corroborada na leitura de suas últimas obras. Destas, a que me mais me impressionou foi Anamnesis, escrita em alemão, traduzida para o inglês e publicada em 1978, com vários capítulos dos anos 60. As 'Reminiscências' voegelinianas se caracterizam, juntamente, por sua abertura, seu bom humor, clareza e humanismo - em profundo contraste com a imagem da Persona que me deixara em Munique.

O ponto relevante na perspectiva em que aprecio o impacto em mim causado pelo pensamento desse que o professor Anibal Bueno, catedrático no Departamento de Filosofia e Humanidades no Morehouse College, em Atlanta, considera corretamente como um dos mais profundos e importantes pensadores de nosso século - diz respeito à tese de Voegelin sobre a 'experiência noética'. A experiência vital assim qualificada de 'noética' consiste no questionar que emerge como resultado do conhecimento, por nós adquirido, de não estar o Ser do homem fundamentado em si-mesmo (experience of questioning rising from the knowledge that man´s being has not its ground in itself). A palavra ground, em alemão Grund, não é de fácil tradução. O termo being, em alemão Sein, muito empregado em filosofia existencial, tampouco tem um sentido que captamos com facilidade, por sua vastidão e profundidade. Tal como entendo, a idéia que desejaria Voegelin transmitir é que nossa base existencial é de natureza transcendente. A experiência noética acima referida implica, no argumento em pauta, uma permanente procura da origem das coisas. A impossibilidade de alcançar um conhecimento concreto de tal origem conduz à criação de mitos interpretativos. Um deles é o que figura no livro da Gênese em que consta: 'Deus disse: haja a luz!' (Gênesis 1:3). Lúcifer, numa interpretação gnóstica, é precisamente o Sabaoth que 'traz a luz' (do latim Lucis + ferre), o mesmo que, no momento crucial da 'tentação' no Paraíso, prometerá a Eva e Adão 'vossos olhos se abrirão e sereis como Deus, conhecendo o Bem e o Mal' (Gênesis 3:5). Em outras palavras, é aquele que nos proporciona a luz da consciência. Esse episódio relatado em tal forma mítica nada mais faz, em suma, do que fundamentar a natureza transcendente do imperativo ético em sua escolha inevitável do Bem e do Mal.

A frase hebraica com que principia o livro da Gênese: 'No princípio (bereshit) criou Deus o Céu e a Terra' exige igualmente uma interpretação psicológica adequada. Há uma diferença fundamental, me parece, entre o Bereshit e o Big-Bang da física moderna. Este é uma simples 'hipótese de trabalho', eventualmente falsificável segundo as exigências de Popper. Configura o esforço lógico da ciência moderna no sentido de ir recuando no tempo cósmico, a partir da observação empírica - realizada aliás muito recentemente, ou seja, há pouco mais de 60 ou 70 anos - de que as galáxias se afastam umas das outras a velocidades crescentes, quanto mais distantes estejam. Imagem mitológica, na interpretação de psicologia analítica, e hipótese de trabalho na pesquisa científica seriam as alternativas que caracterizariam a experiência noética do homem, ao exigir um encadeamento de causas originais e singulares, na dupla perspectiva da introspecção e da investigação objetiva do Universo.

Num livro igualmente recente do eminente biólogo, paleontologista e divulgador científico de Harvard, Rocks of Ages (1999), Stephen Jay Gould propõe o princípio que denomina NOMA (em inglês, 'nonoverlapping magisteria'). Quer dizer que não devemos opor, porém respeitar os magistérios respectivos da ciência e da religião, trabalhando cada um em sua esfera própria, sem mútua interferência. Ora, acontece que do inevitável encadeamento de que fala Voegelin resulta, como acentua, a possibilidade de descarrilamentos, tais como aquilo que se chama 'as provas da existência de Deus'. O uso do termo 'descarrilamento' é muito comum na obra voegeliniana. Outro termo por ele usado é metástase, para indicar a evolução cancerosa que tomou a Ideologia ao tentar se transformar numa pseudo-religião civil, com sua própria ética imanente, no desejo ilícito de preencher o vácuo exitente após o deicídio.

Em suma, sabemos que nosso 'fundamento existencial' (Ground of Being) não está em nós mesmos. É portanto transcendente. Dessa constatação implícita, creio eu, na maneira como Sócrates/Platão e Kant abordam a questão noética, podemos deduzir que a 'existência' ou inexistência de seres divinos ou de Deus não podem ser provadas. Deus não necessita, tampouco, de qualquer prova, pois a 'verdade' de um 'mito' consiste em ser inadequado. Ele é inadequado como símbolo da experiência imediata, a priori, de que o Ser não está fundamentado em si-mesmo. Sofremos quando muito, inspirados talvez por uma Graça inexplicável, pela intuição, ou o sentimento, ou pela intelligence du coeur dos franceses, a certeza que algo acima de nós nos impõe essa ou aquela convicção, e este ou aquele comportamento em determinada emergência. Jung repetidamente insiste, no correr de sua obra, que Deus é uma realidade psicológica, algo dentro de nós, algo que tampouco pode ser provado ou desmentido.

Assinala Voegelin, entretanto, que tais 'provas' ociosas da Existência de Deus, ou de qualquer premissa ideológica como a do Materialismo Histórico ou da Libido sexual freudiana, têm sido sugeridas desde algumas insinuações do próprio Aristóteles, de tal forma que Kant demonstrou serem baseadas em falácias. Como explicar então o fenômeno que se insista, teimosamente, em querer provar, ou a existência ou a inexistência de Deus? Voegelin acentua que uma forma sui-generis de mito surge quando o nous, a razão trancendente tal como ele a concebe, é demovida de sua verdadeira posição como 'transcendência' e se transforma numa ratio imanente ao próprio mundo, hipostasiada como fonte autônoma da verdade.

O que realmente todo esse raciocínio voegeliano quer exatamente significar, confesso não poder alcançar a ponto de transmiti-lo aos prezados leitores destes ensaios numa linguagem de amena leitura. Voegelin, obviamente, não aceita a Revelação cristã como fonte única, repito, como fonte única, da verdade. A filosofia seria o instrumento mais poderoso de perseguição da divina Aletheia, mais poderoso do que aquele que pode ser manuseado para desvendá-la pela metafísica ou pela hermenêutica dos textos das Escrituras. Estou pronto a concordar com essa postura. É como resultado de tal conclusão que chego à idéia de propor então, como cúpola de todo o edifício da ética numa Teoria final das Virtudes, a presença daquelas três soberbamente proclamadas por São Paulo, as três, Fides, Spes, Caritas ou Amor - virtudes ditas 'sobrenaturais'. Uma melhor denominação, quer me parecer, seria a de 'virtudes transcendentes'.

Por curiosidade podemos recordar que vamos encontrar uma discussão da 'táboa de valores' que funciona como esqueleto racional da ética num autor inesperado, José Maria da Silva Lisboa, Visconde de Cairu. Mencionado por Antonio Paim e José Maurício de Carvalho, Cairu 'tem grande importância como um dos primeiros estudiosos do liberalismo no Brasil'. Foi estudioso da obra de Adam Smith e tradutor do famoso 'Inquérito sobre a Natureza e Causa da Riqueza das Nações' (1776), o marco fundamental do Liberalismo moderno. Mas também, como Smith que foi professor de ética e escreveu uma 'Teoria dos Sentimentos Morais', o Visconde 'esteve seguro do caráter ético-normativo das doutrinas econômicas' - algo que é tão difícil a nossos críticos contemporâneos do Liberalismo de compreender e aceitar. Na sua táboa de valores morais, Cairu dividia as virtudes em individuais, domésticas, sociais e teologais. Oportunamente, ao final do trabalho sobre Ética que estou empreendendo, colocarei a minha própria versão desse esquema das virtudes, já esboçado, todavia, na figura 1.

Em minha própria concepção da 'táboa das virtudes', encareço a segunda, a Virtude de Esperança - Spes em latim, Élpis em grego. São Paulo privilegia o Amor, talvez com razão. Não quero discutir preferências. Em geral concordam as pessoas que acima de tudo está o Amor, mas como sou um intuitivo com certo grau de otimismo existencial coloco a Esperança em posição primária. Tudo que, entretanto, podemos fazer em matéria de investigação filosófica de assuntos transcendentes, é esperar que nossa 'experiência noética' esteja no caminho certo e se projete de modo adequado, sobre o futuro . Esperança pois,

Cette petite Espérance qui n´a l´air de rien du tout.

Cette petite fille Espérance.

Immortelle

dos imperecíveis versos de Péguy no 'Pórtico do Mistério da Segunda Virtude', é o que invoco.

Tal o material e o humor com que passei a elaborar a ensaística filosófica nesta altura da vida e... nesta altura do presente ensaio. A esperança que me anima de dizer algo que faça algum sentido. Algo que justifique o trabalho. Algo que vos possa oferecer...


Fonte:

http://pensadoresbrasileiros.home.comcast.net/MeiraPenna/prefacio_autobiografico_2.htm







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