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Contos-->O complô da camisinha -- 08/12/2002 - 22:32 (Pedro Wilson Carrano Albuquerque) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
O COMPLÔ DA CAMISINHA

Conheci Raimundo num trem da Central do Brasil. O meu vagão estava lotado, motivo por que me encontrava em pé quando houve o primeiro encontro, inicialmente com a aproximação de nossos corpos e depois com a troca de palavras.
Tornamo-nos amigos e amantes, freqüentando, amiúde, um hotelzinho da Lapa ou o apartamento de uma alcoviteira.
Ele era casado e nunca escondeu o seu estado civil, mas isso não me incomodou. Afinal, estava totalmente desimpedida e não tinha de prestar contas a ninguém sobre o meu comportamento. E os homens aceitáveis são cada vez mais raros, verdadeiras peças de museus, não se podendo, assim, desperdiçar as oportunidades surgidas à nossa frente.
Muito conversamos sobre o nosso dia a dia. Descobri, desse jeito, a profissão de meu amigo: empregado de luxuoso motel de alta rotatividade.
Eram interessantes os casos que chegavam ao seu conhecimento no ambiente de trabalho e que ele me transmitia com todos os detalhes possíveis, esperando, com isso, deixar-me excitada para o amor.
Falou-me de clientes que o mandavam entrar em seus aposentos para servi-los, não demonstrando qualquer vergonha por estarem nus. E dos que se banhavam em vinho, na hora da transa, deixando a roupa de cama completamente encharcada da bebida. Não faltavam, também, as brigas entre maridos e esposas, quando um dos cônjuges seguia o outro e comprovava a sua infidelidade.
Raimundo referia-se constantemente a um casal que aparecia pontualmente no motel nas manhãs das quartas-feiras. Chamava a sua atenção a aparente riqueza do homem, que dirigia, em suas visitas, diferentes automóveis de luxo: Mercedes, Ferrari, BMW, etc. Pagava sempre em dinheiro (certamente não queria deixar pista de sua passagem pelo motel), com polpudas gorjetas.
Segundo Raimundo, a companheira de diversão ou romance do cavalheiro era a mesma: uma mulher de cerca de quarenta anos, muito bonita e bem vestida, aparentando ser gente da alta sociedade.
Meu amigo soube, certo dia, ao aguardar o pagamento da conta, que a mulher era casada, pois ouviu uma sua afirmação de que tinha muito medo da descoberta de seus encontros pelo marido, o que acabaria com a sua vida. Ela teria, então, recebido do amante a promessa de que agiria com muita cautela e que não contara e nem contaria a ninguém, mesmo ao melhor amigo, o que estava ocorrendo entre eles.
O romance das quartas-feiras devia ser muito ardente, se verdadeiras as narrativas de Raimundo. Disse-me ele que o casal deixava nos depósitos de lixo, após cada encontro, três ou quatro camisinhas usadas, como havia verificado nas ocasiões em que providenciara a limpeza do apartamento utilizado, geralmente a suíte real.
Enquanto isso, os meus relacionamentos carnais continuavam. E sempre com Raimundo, de quem eu gostava muito. Não tinha, portanto, do que reclamar. Minha única frustração era não ter trazido ao mundo um filho para cuidar e me chamar de mãe.
Cheguei a aventar nas conversas com meu amante a possibilidade de ele engravidar-me, prometendo-lhe, se tal ocorresse, não perturbar sua vida conjugal. O parceiro, contudo, não abriu mão do uso de preservativo, alegando não suportar, caso viesse a ter um novo filho (ele já possuía duas meninas e um garoto), ficar longe da cria e deixá-la sem o nome do pai. Além disso, eu não teria, segundo ele, as condições financeiras necessárias à criação da criança, diante do baixo salário recebido em casa de família.
E a minha vida foi seguindo o seu curso, sem novidades, até o dia em que tomei conhecimento, pela televisão, da gravidez de uma artista com o uso de inseminação artificial. Naquele mesmo momento me perguntei: por que não usar uma das camisinhas deixadas no motel pelo casal das quartas-feiras e tentar ser mãe com o sêmen nela depositado?
O desenvolvimento de meu plano resolveria muitos problemas: eu teria um filho e meios para sustentá-lo, com ação de paternidade contra o pai, que não poderia ser contestada em face de sua comprovação pelo exame do DNA e da inviabilidade de a amante do futuro progenitor poder atestar a seu favor sem prejudicar a sua dignidade e a vida de casada.
Fiquei orgulhosa de minha argúcia, fato alvissareiro para alguém como eu, de poucos estudos, que não conseguiu sequer concluir o primeiro grau.
O próximo passo foi convencer Raimundo a participar do complô. Após demonstrações de carinho e muita conversa levei-o a dar seu apoio à concretização de meu desejo.
Ele já havia informado que o homem era boa-pinta, rico e elegante, faltando apenas saber seu nome completo e endereço para comprovar a sua verdadeira situação econômico-financeira.
Obter tais dados foi mais fácil do que eu supunha. Raimundo conseguiu com um policial amigo, a partir das placas dos veículos de propriedade do pretendido pai de meu rebento, o nome e endereço completo do homem, além da constatação de sua prosperidade.
Meu colaborador na arriscada manobra também me ajudou a compreender todo o processo de inseminação artificial, comprando várias publicações a respeito do assunto. Recebi, também, a orientação de uma conhecida que trabalhava como auxiliar de enfermagem em uma clínica de abortos.
Esperei ansiosa, em uma tarde de quarta-feira, com a minha fecundidade a todo vapor, que Raimundo me trouxesse a camisinha solicitada. E ele trouxe, numa caixa de isopor, com pedras de gelo, não uma, mas duas camisas-de-vênus cheias de um líquido cremoso que, à primeira vista, não aparentava conter o milagre da vida.
A auxiliar de enfermagem ajudou-me a impulsionar o precioso material, com uma seringa apropriada, em direção ao óvulo que o esperava pronto para a fecundação.
Concluindo a história, digo que fiquei grávida de Antenor, o pai da criança, que contestou a paternidade até quando pôde, alegando nunca me ter visto em sua vida, principalmente na quarta-feira em que afirmei ter com ele encontrado. Entretanto, não apresentou álibi comprovando estar em lugar diferente do motel e o exame do DNA deu resultado positivo, o que me levou a ganhar a ação de paternidade, sem mais possibilidade de recurso.
Tornei-me mãe, como desejava, e tenho uma boa pensão para cuidar de meu filho, até agora o único herdeiro da enorme fortuna de Antenor. Além disso, conto com um carinhoso amante para alguns momentos de prazer. O que mais eu posso desejar?


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