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Artigos-->A PRÓ-ARTE, A ESCOLA LIVRE DE MÚSICA E OS CURSOS DE FÉRIAS -- 08/11/2011 - 15:41 (Luiz Carlos Lessa Vinholes) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos

A PRÓ-ARTE, A ESCOLA DE MÚSICA

E OS CURSOS INTERNACIONAIS DE FÉRIAS DE TERESÓPOLIS

 

L. C. Vinholes

 

Samuel Moraes Kerr, paulista, ex-aluno da Escola Livre de Música de São Paulo, da Pró-Arte, nela ingressou no primeiro semestre de 1957. Estudou com Hans Graf (piano), Roberto Schnorrenberg (harmonia, história e coral), Antonieta Moreira Leite (análise) e Damiano Cozzella (solfejo). Foi membro ativo participando dos eventos promovidos pelo Grêmio Bela Bartók, e foi contemporâneo de Clara Swerner, Isaac Karabtchevsky, Felipe Silvestre, Henrique Gregori, José Luiz Paes Nunes, Norma Graça, David Machado, Paulo Herculano, entre outros. É Bacharel em composição e regência pela Faculdade de Música e Educação Artística do Instituto Musical de São Paulo (1978) e Mestre em Artes pelo Instituto de Artes da Unesp (2000). Aperfeiçoou seus estudos de regência com Robert Shaw na Meadow Brook School of Music, nos EUA; foi duas vezes premiado no Primeiro Festival Latino-Americano da Canção Universitário, em Santiago do Chile (1967); e, como barítono, integrou o quarteto vocal Mestres Cantores (1968) ao lado de Henrique Gregori (contra-tenor) Diogo Pacheco (tenor) e Paulo Herculano (baixo). Destacou-se como organista, cravista e regente de corais em São Paulo e no Paraná.

 

Por ocasião do lançamento do CD do projeto “Cancioneiro da Imigração”, em novembro de 2004, dedicado às Associações Alemãs em São Paulo, reunindo informações esparsas e entrevistando Flordinice Dultra e Silva, Lídia Hortélio, Isolda Bassi Bruch e Henrique Gregori, Samuel produziu texto relativo aos antecedentes e atores com papel decisivo na criação da referida Escola que, pela sua abrangência, merece ser divulgado para os que desejam conhecer a história da instituição que, nas décadas de 1950 e 1960, foi responsável pela formação de músicos - interpretes e compositores -, que se destacaram no cenário musical de São Paulo, do Brasil e do exterior.

 

Eis o que Samuel Moraes Kerr registra sobre a Pró-Arte e a Escola que freqüentou:

 

A Pró-Arte, Sociedade de Artes Letras e Ciências foi fundada em 1931 e a Escola Livre de Música de São Paulo, da Pró-Arte, foi criada em 1952 e a partir de 1956 denominada Seminários de Música da Pró-Arte.

 

Mas tudo começou em 1924, no Rio de Janeiro, com a chegada de um jovem alemão chamado Theodoro Heuberger, nascido em Munique em 13 de janeiro de 1898. Heuberger era pintor e um animador cultural e foi a convite de um pintor e diplomata brasileiro, Navarro da Costa, cônsul-geral do Brasil em Munique, que Heuberger veio ao Brasil para organizar a I Exposição de Arte e Artesanato Alemães no Rio de Janeiro, naquele ano de 1924. Essa exposição foi um sucesso e foi montada também em São Paulo, Santos e Campinas.

 

Heuberger aqui ficou e tornou-se um representante da Alemanha no Brasil, fazendo vir do seu país, importantes mostras de pinturas, artes gráficas e design, renovando o ambiente artístico da então Capital Federal.

 

Foi com esse propósito que ele instalou no Rio a “Galeria Heuberger”, exibindo pela primeira vez no Brasil obras de Barlach, Klee, Feininger, Kokoschka e outros. Da sua galeria é que se originou a “Casa e Jardim”, empresa de móveis e artefatos que divulgava o artesanato alemão bem como apresentava criações de artistas brasileiros.

 

Em 1931, Heuberger, com a colaboração de Maria Amélia de Rezende Martins[1], cria a Sociedade Pró-Arte, com a finalidade de divulgar as Artes, as Letras e as Ciências, realizando concertos não só no Rio de Janeiro e São Paulo como em várias cidades brasileiras. Era o “Anel da Pró-Arte” visitado por caravanas artísticas em pioneiras temporadas musicais.

 

Apontados os nomes de Theodoro Heuberger e Maria Amélia de Rezende Martins, vamos a um próximo e muito importante nome.

 

Em 1937, em 16 de novembro, aporta no Rio de Janeiro, Hans-Joachim Koellreuter.

 

Creio que não há necessidade de nos estendermos sobre a vida e a formação musical de H. J. Koellreuter, mas só lembrarmos que ele, nascido em Freiburg, na Alemanha, chega ao Brasil com 22 anos, formado pela Staatliche Akademische Hochschule für Musik de Berlim e pelo Conservatoire de Musique de Genebra, em flauta, piano, musicologia, composição e regências coral e orquestral. Dentre seus professores Kurt Thomas, Paul Hindemith e Hermann Scherchen. Vale também lembrar que antes de se estabelecer no Brasil, desenvolvia na Europa carreira como flautista e já trazia no seu curriculum indicadores da sua inquietação como artista, ao fundar, em Berlim, o Arbeitskreis fuer Neue Musik (Círculo de Música Nova) que lhe causou problemas com a política cultural nazista e a participação na fundação do “Cercle de Musique Contemporaine”, em Genebra.

 

No mês de fevereiro de 1937 havia se apresentado como flautista em concerto em Lausanne, Suíça, com obras de Darius Milhaud onde o compositor francês, além de acompanhá-lo na sua Sonatina para flauta e piano, tocou 3 das “Saudades do Brasil”.  Em fins de outubro Koellreuter embarcava no navio Augustus, em direção ao Brasil.

 

Nos seus primeiros anos brasileiros, atua como flautista, professor no Conservatório Brasileiro de Música, trabalha como gravador numa tipografia no Rio de Janeiro que prestava serviços para Edições Arthur Napoleão e depois em São Paulo, para a Editora Magione, e começa por marcar a sua atuação fundando o Movimento Música Viva e rodeando-se de muitos alunos em cursos particulares, alunos com Guerra Peixe, Claudio Santoro, Edino Krieger...

 

No ano seguinte à sua chegada, Koellreuter é apresentado a Theodoro Heuberger que o convida para realizar recitais de flauta que se estendem por 3 anos, em temporadas da Pró-Arte, estabelecendo-se entre eles, uma relação de trabalho e amizade que vai definir rumos para a história da música no Brasil.

 

Em 1939, chega ao Brasil a cantora austríaca, Hilde Sinnek, famosa pelas suas atuações em Bayreuth, onde começou sua carreira, tão jovem que recebeu o apelido de “baby de Bayreuth”. Logo se estabeleceu como professora de canto no Rio de Janeiro e, em 1941, passou a ensinar no Conservatório Brasileiro de Música, definindo a carreira de muitos cantores brasileiros.

 

Nas férias de janeiro do ano de 1949, Hilde Sinnek convidou seus alunos para uns dias de convívio musical em sua casa em Teresópolis e pediu que o professor Koellreuter fosse conversar com eles sobre música. O sucesso desse encontro lhe fez recordar os Festivais de Salzburg. A beleza da paisagem serrana de Teresópolis, a oportunidade de estudo com uma personalidade como a de Koellreuter, as atuações dos cantores em mutuo aprendizado, as apresentações em saraus diários, despertou em Hilde Sinnek o entusiasmo por recriar em terras brasileiras os famosos cursos de verão de Salzburg.

 

E lá foram, Hilde Sinnek e Koellreuter falar com o empresário Heuberger, dono das “Casa e Jardim” no Rio, São Paulo, Porto Alegre e Teresópolis e fundador-diretor da Pró-Arte e visinho da Hilde em Teresópolis. Os estudantes brasileiros não precisariam ir até Salzburg para conviver com a música numa paisagem deslumbrante em suas férias de verão.

 

De 3 de janeiro a 15 de fevereiro de 1950, Koellreuter, com o apoio de Theodoro Heuberger, funda, organiza e dirige o Curso Internacional de Férias Pró-Arte, em Teresópolis, iniciando uma prática que vai se tornar tradicional naquela cidade e que será difundida por entre outras cidades brasileiras. Naquela época o acesso à cidade serrana de Teresópolis era muito difícil, tornando o mês de estudo um verdadeiro retiro musical.

*

Durante a década de 1940, Koellreuter transita entre São Paulo e Rio para atender seus alunos do curso que ele chama de “Cursos Independentes de Composição Musical”. Entre esses alunos está Ana Gregori. Sua família muda para São Paulo e Nininha (Ana) vai estudar piano com as Irmãs de Santa Marcelina e seu talento de compositora é despertado. A família Gregori ao cuidar do desenvolvimento musical da filha, fica sabendo de um professor alemão que vinha do Rio para dar aulas de composição. Foi assim que se aproximaram do professor Koellreuter. Dona Esther, mãe de Nininha, o recebe em sua casa e Henrique Gregori se lembra da primeira aula da irmã e da figura marcante do professor fumando cachimbo. Lembra-se também do estranhamento que causou na família o estilo de composição que Koellreuter propunha. O desenvolvimento da aluna foi tamanho que seus trabalhos de composição a levaram ao Festival Danau Eschiengen, ao lado de Luigi Nono e Stockhausen. Ana Gregori tornara-se compositora nas mãos de Koellreuter.

 

Como eram muitos os alunos de Koellreuter em São Paulo, dona Esther Gregori ofereceu sua sala de música para que ele ali atendesse todos os seus alunos. Mais uma vez recorremos às lembranças do Henrique Gregori para contar que ele, ainda garoto, abria a porta da casa para receber Jorge Wilhein, Eunice Catunda, Ulla Wolff, Roberto Schnorrenberg, Damiano Cozzella...  Em 1945, Henrique também começa a ter aulas e é nessa classe de iniciação musical com outras crianças que ele rege pela primeira vez.

 

Os Cursos Internacionais de Férias de Teresópolis continuam em 1951 com sucesso crescente, reunindo músicos de várias partes do Brasil. Koellreuter, desde 1949 já estava novamente residindo em São Paulo intensificando suas atividades nesta cidade de tal forma que, em 1952, depois de realizado o III Curso de Teresópolis, é instalada na Rua Sergipe nº 271 a Escola Livre de Música da Pró-Arte, uma sede para o desenvolvimento do ideário de Koellreuter.

 

Samuel Moraes Kerr finaliza seu artigo registrando os nomes e os períodos dos diretores da Escola Livre de Música por ele lembrados: H. J. Koellreutter (1952-1956), Roberto Schnorrenberg (1957-1960), Arthur Hartmann (1961-1964), Gilberto Tinetti (1965). Maria Helena da Silveira e Yolanda Borgoff (1968).

 



[1]Pianista e camerista, integrante do Trio Pró-Arte, ao lado de George Rétyi-Gazda (violino) e Jacques Ripoche (violoncelo). 

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