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Artigos-->INTERCÂMBIO CULTURAL E ARTÍSTICO NAS RELAÇÕES BRASIL-JAPÃO -- 22/03/2007 - 11:30 (Luiz Carlos Lessa Vinholes) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
INTERCÂMBIO CULTURAL E ARTÍSTICO NAS RELAÇÕES BRASIL-JAPÃO CENTENÁRIO DO TRATADO DE AMIZADE, DE COMÉRCIO E DE NAVEGAÇÃO 05.11.1895 - 05.11.1995
L.C.Vinholes


Nota de 22 de março de 2007: este artigo foi escrito no primeiro trimestre de 1995, por encomenda da Comissão responsável pela programa das comemorações do Centenário do Tratado de Amizade, de Comércio e de Navegação, assinado pelo Brasil e Japão em 5 de ovembro de 1895. Por atrazos de caráter burocrárico alheios ao autor, deixou de ser publicado como previsto. De maneira resumida, figura às páginas 17 a 36 da Revista Iberoamericana nº 33, Vol. XVII, nº 2, do segunda semeste de 1995, do Instituto Iberoamericano da Universidade Sofia, de Tóquio.

ARTIGO

"Animados pelo desejo de aprofundar a compreensão mútua" e "visando o desenvolvimento de suas diversas relações culturais", os Governos brasileiro e japonês resolveram celebrar, em 23 de setembro de 1940, o Convênio de Intercâmbio Cultural entre o Brasil e o Japão, com troca de ratificações ocorrida no Rio de Janeiro em 5 de novembro de 1941, exatamente quarenta e seis anos após a assinatura do Tratado de Amizade, de Comércio e de Navegação, hoje centenário.

Aproximadamente vinte anos depois, em 23 de janeiro de 1961, os dois Governos, "inspirados nos altos ideais da Carta das Nações Unidas e nos tradicionais laços de amizade que unem os seus Povos", resolveram concluir, em Tóquio, um Acordo Cultural que substituiria o referido Convênio, visando a "promover e estreitar as relações culturais e a compreensão entre os dois Países", cuja troca de ratificações ocorreu em Brasília, em 8 de outubro de 1964.

Há quem aponte que a vontade de maior aproximação cultural teria sofrido uma significativa desaceleração nos quase vinte anos que separam os dois documentos. Isto se levado em consideração o fato de que a troca de ratificação do Convênio ocorreu um ano e um mês após a sua assinatura e a do Acordo três anos e nove meses após ter sido celebrado. Se tal era o que se podia observar no nível do Poder Legislativo, a realidade mostrava que as duas sociedades estavam mais do que preparadas para intensificar os seus contatos e dispostas a se conhecerem cada vez mais.

Examinando o texto destes dois últimos documentos e cotejando com o do Tratado, verifica-se que, neste, muito provavelmente a palavra "amizade", constante do seu título e do início do Artigo I, contempla também uma aproximação cultural e artística que só ficou explicitada nos referidos documentos de 1940 e 1961. No de 1940, quando menciona-se, nominando, "as belas artes, a música, a literatura, o teatro, a cinematografia, a fotografia, a rádio difusão e o desporto" e neste último quando singulariza-se que o objetivo deve ser alcançado "especialmente, por meio de: livros, periódicos e outras publicações; conferências, concertos e espetáculos teatrais; exposições de arte e outras exposições culturais; rádio, televisão e outros meios de difusão para o público, filmes culturais, científicos e educativos". Nada consta do texto do Tratado que trate explicitamente de cultura e arte.

O período de cem anos transcorrido desde que o Brasil e o Japão assinaram o seu Tratado, formalizando compromissos e viabilizando entendimentos sob o ponto de vista do relacionamento comercial, pode ser dividido em duas grandes fases.

A primeira, que transcorreu desde a data da assinatura do Tratado, em 1895, até o início do Segundo Conflito Mundial, durante o qual, por um período de sete meses e dezenove dias (16.09.44 - 28.04.45), os dois países estiveram em lados opostos. A segunda fase é a que se inicia com o término da guerra, em 1945, e que se prolonga até os nossos dias.

Em ambas as fases, o enfoque deve ser diferente e os registros para a história resultarão em elencos de eventos distintos.

Esta periodicidade talvez possa ser explicada com base na teoria do economista e estatista russo Nicolay Kondratev, segundo o qual os grandes ciclos de prosperidade econômica se repetem a cada meio século e, quem sabe, levam consigo também os segredos das etapas do comportamento entre os países para a implementação e o incremento das suas relações culturais e artísticas.

Antes de iniciar a apreciação do tema deste trabalho nos referidos cem anos, é mister lembrar que a aproximação entre os dois países havia ocorrido antes mesmo da assinatura do Tratado.

O Cruzador Almirante Barroso da Marinha de Guerra do Brasil Império, comandado por Custódio de Mello, realizou, em meados da década de 1880, uma viagem de circunavegação levando a bordo os guardas marinha da Escola Naval que completariam o seu curso em 1886.

Registrando os eventos desta viagem, Custódio de Mello escreveu o livro intitulado Vinte e Um Mezes ao Redor do Planeta, publicado em 1889, no qual dedica interessante e informativo capítulo à sua estadia no porto de Yokohama, durante quatorze dias, em julho de 1885.

Além das informações típicas de um diário de bordo, Custódio de Mello registra suas impressões a respeito do que viu e ouviu no Japão e do que ocorreu durante os encontros de que participou com autoridades japonesas e estrangeiras que lá estavam.

Fato relevante é que a bordo do Almirante Barroso, como um dos guardas marinha, se encontrava o Príncipe Augusto Leopoldo de Saxe-Coburgo e Bragança, segundo filho de Luiz de Saxe-Coburgo e da Princesa Leopoldina, irmã da Princesa Isabel.

Em 27 de outubro de 1888, o Jornal do Comércio do Rio de Janeiro publica a relação dos participantes desta viagem e dela consta o nome do Príncipe Augusto Leopoldo, já como 2o. Tenente.

Yokohama era, ao lado de Hyogo, hoje Kobe, Nagasaki, Niigata e Hakodate, a grande porta de contato do Japão com o exterior, pois ficava a pouca distância da sede do Governo Imperial, Yedo, atual Tóquio, e era ligada por pioneiro "caminho de ferro" construído com tecnologia britânica.

Graças aos bons ofícios do Encarregado de Negócios de Portugal, José Loureira, Custódio de Mello, acompanhado do Príncipe Augusto Leopoldo e por mais sete oficiais, obteve audiência do Mikado, o Imperador Meiji.

Vale a pena transcrever algumas linhas do livro de Custódio de Mello que, à página 165, registram parte do que ocorreu durante a mencionada audiência: "Sua Magestade saudou-nos muito amavelmente e por intermedio do mestre de cerimonias, que dirigia-nos a palavra em francez, perguntou-me qual o itinerario da nossa viagem, assim como disse-nos que muito desejava estabelecer com o Brazil relações de commercio e amizade; e como lhe perguntasse eu, sempre pelo orgão do visconde de Hojikata, porque não mandava ao nosso paiz um navio de guerra, respondeu-me que era muito longe, e então redarguindo-lhe que tão longe ficava para os brazileiros o Japão quanto o Brazil para os japonezes, riu-se Sua Magestade ao ouvir do mestre de cerimonias a objecção que lhe vinha de fazer. Ao principe D. Augusto, que era um dos oito officiaes, perguntou o Mikado pela saude do ex-imperador, depois de o haver Sua Alteza comprimentado da parte deste".

No dia seguinte ao da audiência com o Imperador japonês, o Conde Tsugumichi recebeu os brasileiros em sua quinta em Tóquio, onde estiveram presentes "todos os ministros, o principe Sanjo Sametoni, o governador de Yokohama e outros magnatas". A comitiva visitou ainda, com a intermediação do diplomata português, o arsenal e estaleiro da Marinha japonesa, na cidade portuária de Yokosuka.

Retribuindo as atenções recebidas, Custódio de Mello ofereceu a todos os seus anfitriões e pares um banquete a bordo do Almirante Barroso, no dia 29 de julho de 1885, data do aniversário da Princesa Isabel.

A partida do Cruzador Almirante Barroso de Yokohama com destino a Shangai, via Nagasaki, onde também aportou, ocorreu a 1 hora e 56 minutos da tarde do dia 4 de agosto de 1885, assim terminando a sua visita ao Japão e a primeira e última de um membro da Casa Imperial brasileira ao Império do Sol Nascente, marcada por memorável encontro com o Mikado. É evidente que esta viagem de circunavegação se realizou atendendo a determinação e aos interesses do Imperador D. Pedro II, desejoso de intensificar relações com os países amigos e iniciar contatos com outros, inclusive o Japão.

Neste valioso documento que é o livro escrito por Custódio de Mello está registrado que, antes da sua visita, uma outra unidade da Marinha brasileira, a Corveta Vital de Oliveira, lá esteve, em 1879, também em pleno reinado de D. Pedro II. O Comandante da Corveta e seus oficiais foram recebidos pelo Almirante Visconde Enomoto Takeaki, Ministro da Marinha que, em 1885, exercia o cargo de Ministro da Instrução Pública, tendo recepcionado também o Cruzador Almirante Barroso na sua estadia em Yokohama.

No mesmo ano da publicação do citado livro de Custódio de Mello, o positivista Marechal Deodoro da Fonseca inaugurava a República e o Império brasileiro e seus feitos passariam para a história.

É evidente que a assinatura do Tratado teve como prelúdio uma série de encontros e entendimentos entre as duas partes, fatos estes que ocorreram longe das respectivas capitais dos dois países, Rio de Janeiro e Tóquio, mas sim naquela que desfrutava, à época, do conceito de centro mundial dos mais importantes eventos políticos e que irradiava também idéias relativas a valores culturais e artísticos.

Foi na Paris de 1890 que, depois de rápida passagem pela Alemanha, Gabriel de Toledo Piza e Almeida regressou como Enviado Extraordinário e Ministro Plenipotenciário do Senhor Presidente dos Estados Unidos do Brasil junto ao Governo da França, "país no qual havia completado sua instrução científica".

A correspondência entre os representantes do Brasil e do Japão acreditados em Paris, mostra que, desde meados de 1893, o Ministro Piza e o Visconde de Nomura tratavam da ida de uma missão brasileira ao Japão para negociar o Tratado "de amizade e comércio". Entretanto, o Presidente Prudente José de Morais e Barros, primeiro Presidente civil brasileiro, empossado em 15 de novembro de 1894, decidiu que o documento seria assinado em Paris e autorizou que as negociações fossem retomadas pelo Chefe da Legação do Brasil com o Ministro Arasuke Sone, Enviado Extraordinário e Ministro Plenipotenciário, também em Paris, de sua Majestade o Imperador Meiji.

Cumpre registar que, antes da data da assinatura do Tratado, era muito reduzida a literatura sobre o Japão disponível em línguas ocidentais. Nos anos de 1877 e 1889, foram publicadas na França, entre outras, as obras "Le Japon de nos jours", do enigmático jurista francês George Bosquet, e duas obras abordando temas relativos ao Japão e as singularidades de sua cultura e sociedade, intituladas "Madame Chrysanthéme" e "Japoneries d Automne", de autoria do oficial de marinha Pierre Loti, que permitiam uma tênue aproximação com a realidade japonesa. Estando entre as melhores obras sobre o Japão, teriam elas sido do conhecimento dos diplomatas brasileiros sediados em Paris e responsáveis pelas negociações do Tratado? E se o fossem, teriam sido subsídios válidos à uma maior e melhor compreensão dos parceiros da referida negociação? A "Madame Chrysanthéme", por exemplo, nunca foi conceituada como um trabalho de substância. O escritor Afrânio Peixoto, quase uma década depois do seu lançamento, refere-se a ela como um trabalho que "fez fé, mercê o estilo xaroposo e do esnobismo dos diletantes que aí acharam todas as fantasias estafadas sobre o Japão".

Examinando o lado menos burocrático das negociações do Tratado, é possível imaginar que, nos encontros informais havidos entre as partes interessadas, o Senhor Gabriel de Toledo Piza e Almeida certamente foi um dos primeiros brasileiros a ser informado da diferença entre hashi (ponte) e hashi (pauzinhos com que os japoneses comem) pelo atencioso Senhor Sone Arasuke. Muito provavelmente, as explicações não chegaram a detalhar ainda os casos de hashi (extremidade, ponta) e hashi (bico de ave). Sem dúvida, num primeiro momento o interlocutor brasileiro deve ter achado tudo muito igual e não deve ter imaginado que um século depois os dicionários brasileiros teriam verbetes relativos a samurai, issei, nisei, caqui, caquizeiro, xintó, xintoísmo, saquê e substantivos tais como, gueixa, sushi e shoyu de uso corrente entre brasileiros iniciados em coisas do Japão.

Por outro lado, o Senhor Arasuke foi certamente um dos primeiros a ficar sabendo que saudade é uma palavra peculiar ao idioma português falado no Brasil e, assim, teve a oportunidade de enriquecer o vocabulário de origem ibérica utilizado no Japão desde o século XVI que se tornou corrente, principalmente na região sul do país, onde chegaram os navegadores lisboetas, ensinando o uso de bobora, kapa, buranco, bisqueto, karuta, bidro, etc.

Quase dois anos depois da assinatura do Tratado, chegaria a Yokohama o Vice-Cônsul Aluísio Azevedo que dedicaria dois anos e dois meses da sua permanência naquele porto também para redigir o texto intitulado O Japão, que só viria a público em 1987, graças à iniciativa e dedicação de Luiz Dantas. Anos mais tarde, em 1902, um outro diplomata brasileiro, Jacinto Ferreira da Cunha, durante sua permanência em Nápoles, publicou as suas Memórias de um Cônsul no Japão.

Depois do livro de Custódio de Mello com capítulos específicos sobre o Japão, foram estes os primeiros trabalhos de autores brasileiros que tiveram a intenção de mostrar ao Brasil o que era o Japão do século XIX, repleto de tradicões e de mitos, mas empenhado em modernizar-se, em inserir-se no contexto do mundo ocidental, em acrescentar à sua realidade o que via de útil e de positivo naquele mundo do qual se mantivera isolado por mais de dois séculos.

A redação da minuta do Tratado, assim como ocorria e ainda ocorre com outros documentos desse gênero, muito pouco teve de novidade, uma vez que um quase-padrão foi usado como parâmetro. Nas correspondências trocadas pelos negociadores e entre estes e seus respectivos governos, há referências ao tratado similar do Japão com o México e ao que há pouco havia sido assinado com a Inglaterra, ambos servindo de subsídio.

Entretanto, assuntos específicos foram objeto de acerto e de negociação e isso, de alguma forma, não só reflete interesses afins e distintos de cada uma das partes em busca de consenso, mas também, certamente, mostra as singularidades dos aspectos culturais do país de cada um dos negociadores. Logicamente, tomando cultura na sua acepção mais ampla.

Na correpondência de 27 de julho de 1895, do Ministro das Relações Exteriores Carlos Augusto de Carvalho à Legação em Paris, é dada orientação quanto ao texto do Tratado na qual deve ser destacado o seguinte parágrafo: "Atualmente o interesse que temos em tratar com o Japão é a emigração que não é comércio que por isso poderia parecer excluída da ação consular. Eliminei portanto aquelas palavras e a sua eliminação não prejudicará os interesses comerciais que permitirá venha estabelecer-se, porque os cônsules são principalmente destinados a proteger seus interesses".

Ao interessar-se pela emigração dos japoneses que só teria início formal em 1908, o Brasil atendia não apenas a seus objetivos relativos à mão-de-obra destinada às grandes fazendas paulistas, mas também estava viabilizando que, com aqueles que decidissem tentar nova vida em terra dos brasis, chegassem à terra brasileira os elementos característicos da cultura e da arte de um povo que até então, para a quase totalidade dos brasileiros, permanecia nos antípodas geográficos e, assim, também nos culturais e artísticos.

A importância do fluxo imigratório japonês para o Brasil é tema suficiente para prender a atenção de inúmeros pesquisadores e estudiosos e, dificilmente, serão esgotadas as possibilidades do seu tratamento. À medida em que o tempo passar, deverão ser aprimorados os conceitos e aprofundadas as pesquisas que visem equacionar as influências e as consequências da presença dos japoneses no Brasil e dos resultados de suas vivências, refletindo-se no próprio Japão. Estudos têm sido feitos não só no Brasil mas também no exterior. Permito-me, apenas como exemplo, citar "A crise da Imigração Japonesa no Brasil (1930-1934)", publicada em 1990 pelo Instituto de Pesquisa de Relações Internacionais da Fundação Alexandre de Gusmão, de autoria do diplomata brasileiro Waldemar Carneiro Leão; e o intitulado "La migración Japonesa en Brasil (1908-1958), Contornos Diplomáticos", de autoria do Professor José Thiago Cintra, publicado em 1971 com o patrocínio do Centro de Estudos Orientais, no âmbito das Jornadas 70, do Colégio do México.

Durante as negociações em Paris, ficou claro também que o Governo brasileiro desejava, como costume é na maioria dos casos, que o Tratado tivesse a vigência inicial de cinco anos. Mas o Japão, de sua parte e por razões que não são esclarecidas, mas que provavelmente se justificavam por um visão futura de longo prazo com vistas à emigração de seus súditos, manifestou desejo de que o Tratado fosse por doze anos, o que foi aceito pelo negociador brasileiro após a autorização expressa de 12 de setembro de 1895. Coincidência ou não, 5 é o número da "meia dúzia" japonesa nos jogos de objetos e 12 ou a dúzia é número intimamente ligado à cultura e ao pensamento ocidental cristão do qual, na época, há quase três séculos, o Brasil já fazia parte. Doze são as horas do dia, os meses do ano, os apóstolos de Cristo. Mas também, nada tendo a ver com a cristandade - ou tem? -, são, por exemplo, os vestidos da noiva japonesa e os signos do calendário oriental.

Foram muitos os que pensaram que a chegada dos emigrantes japoneses ao Brasil no início deste século criaria condições favoráveis à uma grande influência cultural que poderia, até mesmo, pôr em risco a tranqüilidade da sociedade brasileira. Outros acreditaram apenas que a influência cultural e artística seria, sem dúvidas, marcante. Nem uma cousa nem outra aconteceu neste primeiro século de relacionamento entre os dois países e, sem sombra de dúvidas, acredita-se que não acontecerá no próximo. No Japão, país que desconhece a imigração plural desde os primórdios da sua formação, ninguém teve a menor preocupação com uma eventual influência brasileira.

No Brasil, os japoneses foram e ainda continuam a ser um bloco fechado. E isso não é privilégio deste seguimento da sociedade brasileira. Outros também se comportaram da mesma maneira, embora, por razões de afinidades maiores, tenham sido absorvidos e se integraram com maior rapidez. Não se pode deixar de ressaltar a presença significativa dos descendentes de sangue japonês que desempenham papel importante em todos os ramos e em todas as áreas específicas do mercado de trabalho da sociedade brasileira, inclusive no âmbito da cultura e da arte.

Durante os anos de sua presença no Brasil, o que os japoneses criaram para si foi um imenso mercado para os produtos vindos do seu país de origem, inclusive os de caráter cultural e artístico. E como espectadores avulsos, sempre tiveram a presença de brasileiros de outras origens interessados na singularidade, no exotismo e nos valores da cultura japonesa, sem dúvida a mais representativa de todas as que, vindas do Oriente, chegaram à Pindorama. E aqui não é esquecido o mercado maior e mais amplo para os produtos industrializados, de interesse mais universal, que, de alguma forma, são reflexos de sua cultura de origem.

É lógico que, de maneira modesta, os elementos culturais e artísticos cultuados pelos imigrantes japoneses pouco a pouco foram conhecidos por uma plêiade de brasileiros que tiveram oportunidade de identificar alguns centros focais, principalmente em São Paulo e, também, no Paraná e Pará. No restante do país, ainda hoje, as coisas do Japão são muito pouco conhecidas e uma eventual influência cultural e artística ou um intercâmbio mais significativo nestas duas áreas é ainda bastante tênue.

Um dos fatores mais inibidores nos contatos entre brasileiros e japoneses tem sido claramente o idioma. Sem viabilidade de aplicação prática e imediata, sempre foram muito poucos os não-japoneses que se interessaram pelo estudo do japonês. Uma das grandes exceções conhecidas foi o Professor José Santana do Carmo, de saudosa memória, que com dedicação e esforço pessoais chegou a dominar a língua japonesa, falando, lendo e escrevendo-a. Sua única visita ao Japão, realizada por conta própria, ocorreu em 1960, quando já aposentado. Da mesma forma, no Japão foram sempre poucos os japoneses fora dos quadros oficiais que conheciam o português a ponto de servir como uma ponte de ligação entre os dois países. Merecem ser citados outros brasileiros que falaram o japonês e conheceram o Japão com proficiência: Mozart Varella, bolsista na década de 30 e ex-gerente da Real e da VARIG em Tóquio nos anos 60; Querubim Bueno Camargo, ex-diretor de escola de Marília, em São Paulo, bolsista do Ministério da Educação do Japão e profundo conhecedor do texto original do romance Genji, de Murasaki Chichibu; e, finalmente, Elias Antunes, também bolsista, intérprete da Embaixada do Brasil em Tóquio, um dos co-fundadores da Rio Doce Ásia K.K., em Tóquio e, hoje, Diretor Industrial e de Desenvolvimento da ALUVALE. Só na década de 60 é que se concretizaram os esforços de brasileros e japoneses, para intensificar o estudo e o conhecimento no Japão da língua portuguesa falada no Brasil. Esta mudança marcante deve-se, em grande parte ao trabalho desenvolvido, inicialmente, no seio da Universidade Sophia, em Tóquio. Até então, o português estudado no Japão era o de Portugal e o seu conhecimento parecia servir a outros interesses que não ao relacionamento entre os dois países e ao intercâmbio cultural e artístico entre os dois povos.

No Brasil, as escolas de língua japonesa, reunidas em uma grande federação, sempre foram mais um instrumento para manter os decendentes dos emigrantes a par da língua e dos costumes dos seus ancestrais e facilitar o diálogo entre as gerações dos japoneses residentes nos trópicos do que locais onde a sociedade brasileira como um todo tivesse oportunidade de aprender o idioma do País Sol Nascente.

A mais significativa ponte para uma aproximação maior entre brasileiros e japoneses foi sempre, e principalmente nas décadas de 50 a 70, o cinema japonês. Mas isto ficou reduzido a São Paulo, onde funcionaram os cinemas freqüentados por pequena platéia de brasileiros de outras origens e que, com olhos esbugalhados, encantavam-se com a riqueza de novidades que presenciavam.

Nas últimas décadas, o que se vem notando é uma ampliação dos contatos entre os dois povos, não mais ficando apenas restritos aos interesses da colônia. A facilidade de acesso entre os dois países, facultada pelas linhas aéreas, condutoras inclusive de informações, tem possibilitado visitas, convívio e experiências. Antes, quando apenas havia o recurso da navegação, o contato entre brasileiros e japoneses era mais raro, custoso, difícil e demorado, pois as viagens diretas, na melhor das hipóteses, levavam de 30 a 40 dias.

A curiosidade de ontem tem dado lugar a uma aproximação mais pragmática e de maior profundidade, e isto verifica-se examinando o número de trabalhos produzidos por especialistas de ambos os lados.

É mister destacar alguns trabalhos que refletem não apenas acuidade e profundidade, mas também independência marcante e uma visão renovadora no tratamento dos diversos aspectos dos diferentes assuntos abordados. Estes trabalhos são de autoria de brasileiros e japoneses, ligados às instituições vinculadas aos interesses brasileiro-japoneses ou agindo independentemente. Destaque-se, como pioneira, a Associação Japonesa de Estudos Luso-Brasileiros (AJELB), vinculada à citada Universidade Sophia e que organizou, ainda na década de 60, os Colóquios de Estudos Luso-Brasileiros. Nos Anais desta Associação não só estão nomes representativos de brasileiros e japoneses que se preocuparam em melhor conhecer e divulgar a cultura brasileira no Japão, mas inclusive trabalhos do maior interesse para bem entender o idioma falado no Brasil. Apenas para registrar os nomes de pioneiros destes estudiosos brasilianistas lembre-se o Padre Vendelino Lorscheiter e o dos professores Yasuhiko Sano e Mineo Ikegami.

Entre os independentes do lado brasileiro interessados em aprofundar seus conhecimentos no tocante ao Japão e, assim, criar uma nova ponte para a aproximação brasileiro-japonesa, citaria o arquiteto João Rodolfo Stroeter com sua magnífica monografia sobre a "Modernidade da Arquitetura Tradicional Japonesa", abordando aspectos técnicos e de caráter estético relevantes que singularizam, numa visão ocidental, a arquitetura tradicional do Japão; o economista Wellington Dantas de Amorim, com sua esplêndida dissertação sobre "Contraste e Contato: Aspectos do Relacionamento Econômico entre Brasil e Japão", apresentada à Faculdade de Estudos Sociais Aplicados da Universidade de Brasília, em maio de 1991; a tese "A Assistência Oficial Japonesa ao Desenvolvimento e seus Resultados no Brasil" (1992), da diplomata brasileira Cláudia D Angelo; e também a tese da antropóloga Ruth Cardoso sobre o tema "Estrutura Familiar e Mobilidade Social - Estudos dos Japoneses no Estado de São Paulo" (1972), recentemente lançada em forma de livro, em versão bilingue, po-wa (significando português-japonês), na tradução de Masato Ninomiya.

Uma das obras da maior importância para o entendimento cultural e artístico entre o Brasil e o Japão é, sem a menor sombra de dúvidas, o trabalho de tradução que o poeta e escritor Haroldo de Campos, com a "colaboração especial de Darci Yasuco Kusano e Elza Takeo Doi", empreendeu durante muitos anos e que foi publicada em 1993, com belíssima capa e ilustrações da pintora Tomie Ohtake. Trata-se do texto de Hagoromo, de Motokiyo Zeami, um dos mais importantes autores do teatro No da mais antiga tradição japonesa. A tradução da peça que Haroldo de Campos sintetiza chamando-a de "poema-dança em palavras e pluma" é acompanhada por textos que permitem conhecer as características deste teatro, a metodologia empregada para o processo de tradução e uma série de notas que se constitui em subsídios valiosos.

Não gostaria de deixar de mencionar o importante papel que a Aliança Cultural Brasil-Japão, de São Paulo, desempenha na divulgação da cultura e da arte japonesa no Brasil, inclusive na ótica brasileira. E não sendo possível mencionar todos aqueles que, de uma forma ou de outra, se envolveram e colaboraram no entrosamento cultural e artístico entre o Brasil e o Japão, permito-me distinguir a figura singular de Kikuo Furuno, ex-funcionário da Embaixada do Japão no Rio de Janeiro, poeta, jornalista e bancário, e que na sua permanência na Capital paulista, nos seus últimos anos de Brasil, foi admirado pelo seu relacionamento amigo e pelo seu vasto cabedal intelectual. Destaque-se seu livro intitulado "500 anos até Brasília", suas traduções para o japonês de "A Mulher que matou os Peixes", de Clarice Lispector, "Conto de Escola e Outros 4 Contos", de Machado de Assis, "Vidas Secas", de Graciliano Ramos, e "A Selva", de Ferreira de Castro.

A maior aproximação entre as sociedades brasileira e japonesa, referida em parágrafos acima, é ainda beneficiada com a recente leva dos chamados "dekassegui" que, além de irem ao Japão em busca de oportunidades de trabalho e de ganho mais gratificante, vão também conferir o que sabiam apenas de ouvir falar ou mediante elementos escassos e nem sempre de maior autenticidade. Em alguns casos, o resultado esperado será uma maior aproximação, mas em outros apenas o distanciamento cauteloso. Tanto numa como noutra experiência o resultado é claramente positivo, por ser autêntico e levar ao conhecimento da realidade. Os "dekassegui" vão conhecer o Japão atual e não aquele regionalizado das informações compartimentadas das culturas e costumes das regiões e/ou das províncias, informações estas difundidas e divulgadas em família ou mediante as associações dos "kendinkai". Os "dekassegui" vão ainda dar oportunidade aos japoneses que nunca estiveram no Brasil de conhecer as gerações de descendentes dos emigrantes que, embora mantenham as aparências físicas dos japoneses, são de formação, de mentalidade e de comportamento distinto: brasileiros. Permito-me registrar aqui uma citação constante de trabalho de autoria de Rokuro Koyama, publicado em 1949, citado no estudo sobre "Shindo-Renmei: a Contradição entre a Instituição Social e a Meta Cultural dos Japoneses no Brasil", assinado por Chiyoko Mita, da Universidade de São Paulo e hoje na Universidade Sophia de Tóquio,, onde se lê: "Um universitário da segunda geração japonesa afirmou numa revista: Nós niseis, podemos respeitar mas não amar o país do Crisântemo". A socióloga Mita comenta: "O país do Crisântemo significa evidentemente o Japão; a terra natal de seus pais. Isto quer dizer que eles, os niseis, respeitam o Japão como o país de seus pais, porém, seu sentimento patriótico é mais em relação ao Brasil onde eles nasceram".

Cada vez mais os elementos estereotipados de ambas as culturas dão lugar àqueles mais autênticos e atuais, os canais oficiais e oficiosos perdem a egemonia da condução do intercâmbio e do relacionamento cultural e artístico para serem simples facilitadores, e o resultado já é e será, cada vez mais, uma maior afinidade entre brasileiros e japoneses mediante um diálogo mais direto e de vivências mais intensas. Resultado mais duradouro e gratificante, menos formal e padronizado.

O século de intercâmbio cultural e artístico entre o Brasil e o Japão, entre seus dois povos, inclusive de outras formas de entrosamento, não é o que está passando, mas sim o que está por ser vivido e que será aquele em que as barreiras das distâncias e das línguas serão mais facilmente transponíveis, e no qual os interesses serão complementares, em que as exoticidades de ambos os lados darão lugar a uma visão mais clara, real e autêntica.

E tudo isso será ainda mais facilitado quando a sociedade japonesa tiver oportunidade de ter presente a seu lado um bom número de brasileiros, inclusive de niseis, para poder aquilatar por si mesma a realidade daquilo que antes lhe era permitido conhecer apenas por meio da literatura e de informações epistolares, parciais e incompletas, quando não tendenciosas e distorcidas.

Observe-se que desde 1908, quando chegaram a Santos os primeiros 871 imigrantes, a presença dos japoneses e seus decendentes no Brasil alcança hoje cerca de 1.200.000 habitantes. E, em contrapartida, a presença de brasileiros no Japão, que no final da década de 50 não chegava a duas dezenas, hoje soma apenas cerca de 150.000.

De maneira alguma seria equivocado contemplar a década de 1960 como a que assistiu aos primeiros intensos contatos de caráter cultural e artístico entre o Brasil e o Japão e que também, de alguma forma ou de outra, influenciaram a cultura japonesa e permitiram que esta manifestasse uma abertura na sua forma tradicional de apreciar o Brasil e, assim, passar a ter uma visão mais global e exata das características da sociedade brasileira e do que ela produz.

Foi nos anos sessenta que aconteceram os primeiros momentos relevantes da presença brasileira em Tóquio e no Japão. Exemplos, que mais adiante serão de alguma forma detalhados, compondo um mosaico pluritemático à guisa de subsídio para futuros pesquisadores, foram: a Exposição de Poesia Concreta Brasileira no Museu Nacional de Arte Moderna de Kyobashi, em Tóquio; o magnífico Pavilhão do Brasil, de autoria do arquiteto paulista Manuel Koschusko Corrrêa na Feira Internacional de Tóquio, em 1963; a criação da Associação Japonesa de Estudos Luso-Brasileiros (AJELB), em 1967, e, no mesmo ano, a realização do primeiro Colóquio de Estudos Luso-Brasileiros; os Seminários de Estudos Brasileiros organizados pela Universidade Sophia, sob a liderança do Padre Vendelino Lorscheiter; a assinatura, em 1963, dos documentos para efetivar o elo entre as primeiras cidades irmãs dos dois países: Pelotas e Suzu; a chegada de uma plêiade de bolsistas que, nas diversas universidades desempenhavam o papel de disseminadores de informação sobre o Brasil; a presença de intérpretes da música popular brasileira nascente: a bossa nova; e por que não lembrar também a presença das coristas e bailarinas, principalmente as que saíram de Santos, alegrando a vida das casas noturnas e transmitindo, com suas músicas, danças e fantasias, sabor e picardia típicas da cultura brasileira, desta forma atendendo a curiosidade de um público predominantemente masculino, sempre ávido por novidades, maneiras acintosas e provocativas; a presença de arquitetos qualificados que intercambiavam idéias e informações com seus pares em Tóquio e Osaka; o meio ano de programas diários bilíngües de música e poesia brasileiras transmitidos pela Rádio Kanto; a viagem pioneira do Trio Tambatajá, integrado por Arlindo, Natal e Odécio, percorrendo o Japão de Norte a Sul; os primeiros vôos da Real e da VARIG, trazendo revistas e jornais ainda com tinta fresca; a visita do Navio Escola Custódio de Mello em 1968; a participação brasileira na criação ou expansão de grupos artísticos com sede no Japão (ISPAA); a estada dos escultores Franz Weissmann e Mary Vieira, ela tendo um artigo especial ilustrado com fotos dos seus trabalhos na revista "Graphic Design" no. 26/67; a abertura da Galeria de Artes na Embaixada do Brasil em Tóquio; o Prêmio Especial outorgado ao pintor Wesley Duke Lee, na VII Bienal Mainichi de Tóquio, em maio de 1965; o desempenho surpreendente dos atletas brasileiros nos Jogos Olímpicos de Tóquio; as primeiras apresentações de peças de autores brasileiros em palcos japoneses; etc. Até mesmo o Acordo de Cooperação Técnica entre os dois países é da década de 60.

Não é por acaso que os eventos e fatos acima mencionados ocorrem na década imediata àquela em que o Brasil havia eleito o Presidente Juscelino Kubitschek, que tomou posse em 1956 com a determinação de tornar realidade o plano de construir uma nova Capital no centro do Brasil; de olhar o futuro do país mais além do que o horizonte do seu mandato, com planos de longa duração, planos estes que, se não foram seguidos à risca, pelo menos influenciaram de maneira decisiva a implantação da rede rodoviária, a construção de uma siderurgia mais diversificada e competitiva, a implantação de fábricas produzindo automotores e máquinas agrícolas para o aproveitamento racional e intensivo das áreas agricultáveis, a incrementação do uso do potencial hidrelétrico dos rios brasileiros e, finalmente, a criação de uma universidade na nova Capital, também com feição nova. E foi ele mesmo que, em memorável visita, foi dizer ao povo japonês que "estava surgindo uma nova época na história do Brasil". E não seria demasiado registrar aqui, apenas como indicativo histórico, que justamente no final do ano 1895, quando se concretizaram as negociações do Tratado entre o Brasil e o Japão, é que ficou determinado, por uma comissão especial, que a melhor localização para a futura Capital brasileira ser construída seria a que ficava entre os rios Gama e Torto, exatamente onde hoje está Brasília.

Como tem sido apontado tantas vezes, apesar das diferenças de língua, tradições e costumes dos brasileiros e japoneses, a presença de uma colônia numerosa e laboriosa, localizada em pontos os mais diversos e diferentes do território brasileiro tem permitido, desde que os primeiros imigrantes do Japão, em 18 de junho de 1908, deixaram o Kasado Maru e desembarcaram no porto de Santos, um paulatino e seguro intercâmbio de informações e de vivências que, de forma singular, aproxima os dois povos e solidifica a amizade que ambos souberam construir. A chegada destes imigrantes atendia ao primeiro compromisso do contrato assinado em 1907 entre o Secretário de Agricultura de São Paulo Carlos Botelho e a Companhia Japonesa de Imigração Koukoku, para trazer 3.000 emigrantes no período de três anos, para trabalharem nas fazendas de café da Região da Alta Mogiana. Para a mesma Região chegaram pelo Ryoguru Maru, em 1910, mais 447 famílias perfazendo 906 pessoas. Entre 1912 e 1914 chegaram ao porto de Santos oito navios japoneses trazendo 13.289 pessoas que se esparramaram pela região de Sorocaba e Alta Paulista, depois pelo Estado do Paraná e, finalmente, também pelo Estado de Minas Gerais onde passaram a cultivar outros produtos que não o café. Nestas regiões, portanto, ocorreu o primeiro encontro de brasileiros e japoneses que resultaria em troca de experiências culturais e artísticas no âmbito do tradicional cadinho brasileiro. Lá também começou o interesse pelos aspectos relacionados às questões políticas, econômicas e sociais, não devendo ser esquecidas as filosófico-religiosas. A saga dos imigrantes japoneses no Brasil deu lugar a trabalhos de fôlego dos escritores Tatsuzo Ishikawa (1964), Fusako Tsunoda (1966) e da jornalista Yasuo Fujisaki (1976).

Com eles emigraram também a ikebana, o judo, o sumi-e, o shodo, o haikai, a singular cozinha do shoyu, do sashimi, do sushi, do sukiyaki, do misoshiro que, em algumas cidades e regiões do Brasil, foram incorporadas e amalgamadas às outras tradições anteriormente chegadas de mais perto, em tempo e distância.

As manifestações culturais japonesas ganham adeptos interessados em aprender e em ampliar seus conhecimentos. A ikebana, sem dúvida acolhida com objetivos práticos, tem demonstrado ter seguidores hábeis e de sensibilidade apurada, a maioria mulheres. Não importam as escolas e nem a diversidade dos materiais, pois até mesmo no Japão a diversidade tem sido a característica dessa atividade artística. Ainda podem ser considerados como fazendo parte de grupos eleitos os que se dedicam à arte dos arranjos florais à moda nipônica. Como também são poucos os que no Japão apelam para os recursos da tradição européia dos buquês, das corbelhas, das grinaldas, manifestações estas afins com a tradição de influências ibéricas no Brasil.

LITERATURA E POESIA

No âmbito da literatura, verificou-se no Japão dos anos 50 e 60 um interesse marcante pela produção brasileira, tendo surgido um bom número de obras de autores brasileiros em tradução para o japonês, incluindo peças de teatro, contos, romances e poesia. Para constar deste registro, devem ser lembrados os nomes de Raquel de Queiroz, Clarice Lispector, Guilherme Figueiredo, Pedro Bloch, Haroldo de Campos, Agostinho Olavo, como autores brasileiros com obras traduzidas para o japonês. Cite-se o romance Inocência, de Alfredo D Escragnolle Taunay, na caprichada tradução por Kazuteru Kobayashi.

O mesmo aconteceu com algumas obras de literatura japonesa vertidas para o português, diretamente do idioma de origem, ou com base em textos em inglês ou francês. Aqui, devem ser lembrados Yukio Mishima, Ryunosuke Akutagawa, Yasunari Kawabata e Kenzaburo Oe.

Mas entre o Brasil e o Japão, no campo da literatura, especificamente no que diz respeito é poesia, ocorreram dois movimentos de interesse maior. Um relativo ao haicai que, além de ser produzido em japonês pelos imigrantes que se instalaram no Brasil, passou a ser, desde os anos 30, objeto de estudo e prática por parte de intelectuais-poetas brasileiros. O outro movimento importante no intercâmbio cultural Brasil-Japão foi o da poesia concreta, surgida em São Paulo na década de 50, com os irmãos Augusto e Haroldo de Campos e Décio Pignatari, e que, na década de 60, entrou no Japão e passou a interessar aos poetas de vanguarda de todos os quadrantes do país, chegando mesmo a provocar a criação de grupos e de publicações especializadas, assim como a realização de exposições com obras de japoneses, brasileiros e de autores de outras nacionalidades.

O haicai e a poesia concreta se constituem em elementos de troca de influências mútuas nos movimentos poéticos do Brasil e do Japão.

Haicais Brasílicos

No que diz respeito ao haikai, não é mais possível deixar de reconhecer o grande número de brasileiros interessados nessa forma de expressão literária de tradição japonesa. É bem verdade que este interesse não sintoniza com o conhecimento pleno que todos deveriam ter da singularidade do haikai, na sua forma e concepção originais, nem com a sua projeção histórica, principalmente a mais contemporênea. Mas deve-se compreender o quanto é difícil transferir de uma cultura à outra, principalmente quando elas têm poucas afinidades, uma forma de expresso tão característica. Seria o mesmo que exigir dos japoneses escrever sonetos, obedecendo métricas e rimas. Não é por acaso que os mais corajosos poetas da vanguarda japonesa neste século deixaram a sua tradição e abraçaram o verso livre. O professor Yasuhiko Sano, em resenha sobre o livro Folhas de Chá, com haicais de Oldegar Franco Vieira, transcreve comentário do haicaista Kazuo Sato que diz: "hoje em dia, o haiku no Ocidente e o no Japão parecem andar independente e paralelamente, sem nenhuma ligação, porque o estudo do haikai no Ocidente vai somente de Basho até Shiki e os haicais feitos por poetas ocidentais têm como modelos as traduções estrangeiras das obras clássicas japonesas". Rebatendo e amenizando o comentário acima, o professor Sano conclui dizendo que "o importante para nós é poder saber como as mudas do haicai japonês foram transplantadas para terras brasileiras, onde elas têm desabrochado em flores com perfumes diferentes".

As inúmeras edições de coletâneas de haicais brasileiros mostram a dedicação e o afinco com que alguns dos seus adeptos trabalham os tercetos em língua portuguesa. Não deixaram de experimentá-las personalidades de nossa literatura, entre elas Manuel Bandeira, Guilherme de Almeida e Afrânio Peixoto. Continuam a surgir, cheios de entusiasmo e coragem, outros pretendentes a este clube singular. Conste destas notas a antologia "100 haicaístas brasileiros", organizada por Roberto Saito, Masuda Goga e Francisco Handa, patrocinada pela Aliança Cultural Brasil-Japão, em esmerada edição de Massao Ohno.

Certamente a primeira coletânea de haicais de autor brasileiro foi "Roteiro Lírico (Haikais)", de Jorge Fonseca Junior, publicada em São Paulo, em 22 de outubro de 1939, com o sugestivo subtítulo "Haikais brasílicos", para a primeira parte do livro. Fonseca Junior é também autor do opúsculo "Do haikai e em seu louvor", editado no mesmo ano pelo Grêmio Cultural Brasileiro-Nipônico de São Paulo. Na introdução da sua antologia, o autor prenuncia o futuro desta forma poética em terras brasileiras quando diz "Oxala passem também os nossos poetas a servirem-se dos recursos de expressão do haikai, atravéz de cujas dezessete sílabas métricas, tudo, magicamente, se faz sentir". Comenta ainda: "a índole original do haikai anda em união íntima com a naturêza que lhe cerca a produção; assim, penso que o que nele existe de verdadeira, legitimamente variável, serão seus motivos ornamentais, os aspetos da naturêza circunstante por ele refletidos ou interpretados". Finaliza suas considerações augurando, com sua contribuição, "o evento tão de desejar quanto mais possível próximo, de uma real, e fecunda e esplêndida incorporação do haikai à nossa literatura". Fonseca Junior foi um vate. Sua previsão parece concretizar-se paulatinamente.

Eis aqui três "haikais brasílicos" de Fonseca Junior:

Para o sol que morre,
o algodoal estende, grato,
um lençol imenso...


Dentro de uma jaula,
não pode ver toda a lua
a onça recém-presa...


O mamoeiro, farto,
acende ao do céu, na terra,
um cacho de sóes...

Este último dedicado a Kyoshi Ando.

Registre-se ainda o haicai com o motivo da primavera, atribuído é Kimiko Hirota, no seu diálogo com o Secretário Pablo Ortega, do romance "O Senhor Embaixador", de Érico Veríssimo:

Libélulas? Qual!
Flôres de cerejeira
Ao vento de abril.

Não pode ser esquecida, nessa passagem de verificação das influências culturais e artísticas entre o Brasil e o Japão no campo literário, a figura singular do pernambucano Pedro Xisto Pereira de Carvalho, que, na década de 50, foi o primeiro encarregado do Serviço Especial de Ligação do Governo do Estado de São Paulo com o Ministério das Relações Exteriores e outras fontes de interesse Cultural e Comercial. Sua afinidade com a cultura japonesa, quando dialogava e convivia com seus amigos japoneses, data desse período de atividades oficiais e, portanto, de muito antes de ter sido enviado a Tóquio para exercer a função de Adido Cultural do Brasil ou, como eufemisticamente algumas vezes é tratado essa função, de Encarregado dos Assuntos Culturais na década de 70. Em janeiro de 1949, o Diário Nippaku, um dos jornais japoneses da Capital paulista, já publicava o seguinte haicai de sua autoria:

Ás aves do céu
(país das espigas cheias)
o primeiro grão

lembrança explícita do vaticínio "misu ho no kuni", de Amaterasu, conforme o Kojiki "Registro das Coisas Antigas").

O mesmo haicai é conhecido na variação de 1959:

País das espigas.
O primeiro grão, as aves
do céu. Teu haikai.

Por ocasião do Cinqüentenário da Imigração Japonesa, em 18 de junho de 1957, Pedro Xisto comemora o evento a seu modo com o seu haicai:

o sol renascido
além do mar: sobre o monte
vive em flor e brasa

Em frutífero convívio, em São Paulo, com a figura extraordinária e singular de Kunito Miyasaka, como haicaísta Ikubeshun, homem de empresa e cultura, economista, bancário e poeta de quem muito se lembram os japoneses do Peru, do Paraguai e de São Paulo, Pedro Xisto ganhou o pseudônimo japonês de Kashimoto Hakuseki, de que muito se orgulhava. Muito se envaidecia desse pseudônimo quando descobriu que o ideograma para haku poderia ser escrito de maneira a lembrar claramente o Brasil.

Não tenho receio de afirmar que, em termos de qualidade e de experiências gratificantes, são raros aqueles que conseguiram alcançar o nível do trabalho de Pedro Xisto com seus haicais. Destaque especial merecem os publicados em Tóquio, em 1960, na pequena antologia editada pela Shin Nippaku Shushu intitulada 8 haikais de Pedro Xisto. Ou ainda os haicais das antologias editadas em São Paulo haikais e concretos e caminho, seu último e magnífico legado. 8 haikais de Pedro Xisto foram musicados pelo compositor brasileiro H. J. Koellreutter em 1962 e por ele logo apresentados em memorável concerto no Instituto Goethe de Tóquio.

Ao lembrar o nome de Kunito Miyasaka, como autor de haikai impregnado de valores da sua segunda pátria, deve ser registrado aquele com o qual fixou para a posteridade toda a história da imigração dos agricultores japoneses no Brasil:


kusa wakeno
iminjyugoya
kaki no mura

Seria injusto deixar de mencionar o trabalho que tem sido feito por muitos pesquisadores e estudiosos brasileiros e japoneses no tocante ao conhecimento e é prática do tanka no Brasil. Esta modalidade de poesia tradicional japonesa tem como um dos maiores expoentes o escritor Takuboku Ishikawa que mereceu a atenção de Masao Yamaki, professor visitante do Curso de Língua e Literatura Japonesa e ex-diretor do Centro de Estudos Japoneses da Universidade Estadual de São Paulo. Contando com a cooperação do poeta Paulo Colina, foi traduzida para o português a obra de Ishikawa intitulada Itiaku no suna, de 1910, ou "Um Punhado de Areia", que, em 1991, teve a sua quarta edição em português viabilizada pela Aliança Cultural Brasil-Japão/Massao Ohno *Editores. Uma das razões que levou o Professor Yamaki a proporcionar ao público brasileiro o acesso à obra de Takuboku Ishikawa foi acreditar que "a linguagem usada na expressão do seu sentimento, sempre simples, clara e atual, teria melhor acolhida e compreensão dos não-japoneses, em comparação, por exemplo, com o haiku ou haikai".

Poesia Concreta Brasileira e o Japão

Além da influência da bossa nova na música popular japonesa, resultado de intenso intercâmbio de músicos e intérpretes de ambos os países, no campo da literatura, a poesia concreta brasileira teve um papel importante no pensamento da vanguarda dos poetas japoneses a partir da década de 1960.

O primeiro contato ocorreu no último quadrimestre de 1957, quando o poeta concretista Haroldo de Campos trocou correspondência com o poeta japonês Kitasono Katue (1902, Ise, Mie - 1968, Tóquio), o criador da "teoria da ideoplastia", teoria esta de certo modo afim com o objetivismo de William Carlos Williams, e com o imagismo. Haroldo de Campos conheceu o nome de Kitasono quando trabalhava na tradução da obra "17 Cantares de Ezra Pound".

Kitasono não só era o líder do Grupo VOU por ele criado em 1935, mas também o editor da revista do mesmo nome que publicou o seu primeiro número em julho daquele ano.

O poema tanchona kukan, de Kitasono, foi traduzido para o português por Haroldo de Campos, com o auxílio do Professor José Santana do Carmo, e publicado no Suplemento Literário do jornal O Estado de São Paulo, de 10 de maio de 1958. Esta versão em português apareceu nas páginas 15 e 16 da revista VOU no. 63, de setembro de 1968.

Um novo acontecimento marcante no relacionamento entre os poetas dos dois países foi a Exposição de Poesia Concreta Brasileira, no Museu Nacional de Arte Moderna de Kyobashi, em Tóquio, entre 16 e 14 de abril de 1960, por mim idealizada e montada com a colaboração do arquiteto João Rodolfo Stroeter. Este evento só foi possível graças ao interesse e apoio do Diretor do Museu, Senhor Atsuo Imaizumi, delegado da representação japonesa à IV Bienal de Arte Moderna de São Paulo, em 1959. Naquela oportunidade, ele conheceu o nascente movimento da poesia concreta brasileira. A mostra interessou a numeroso público e revistas e jornais do Brasil e do Japão, inclusive o Asahi Shinbun de Tóquio, 25 de abril, e o Correio Paulistano, de 30 de julho, deram cobertura à mostra.

Seguiram-se exposições em Osaka, na Biblioteca Pública da Universidade de Tenri, em Niigata e Kanazawa. Contatos foram feitos com poetas dos Grupos New Anthropology, Pan Poesie, ambos de Tóquio, SABI, de Kobe, DA e HI, de Niigata, e ALMÉE, de Fukuoka. A revista de arte DESIGN publicou em sua edição de dezembro de 61, a Antologia de Poesia Concreta Brasileira, em magnífico layout do arquiteto carioca Alex Nicolaef, e, em junho de 1965, a revista Graphic Design publica outra antologia de poesia concreta brasileira., ambas com o apoio do poeta e "designer" Shukuro Habara. Devem ser citados, entre outros, os poetas Iwamoto Shuzo, Fujitomi Yasuo, tradutor de E. E. Cummings, Kazuko Shiraishi, Yukinobu Kagiya, Reiko Horiuchi, Akito Osu, Tatsushi Okunari, Toshihiko Shimizu, Toyokiyo Uchida, autor do exemplar poema Kuroi Roka, Hiro Kamimura, Shutaro Mukai, até chegar a figura singular de Seiichi Niikuni, o mais concretista de todos os poetas japoneses que se interessaram pelo movimento concretista brasileiro, autor da antologia ZERO ON (1963). Sob a liderança de Niikuni foi fundada a Associação para Estudos da Arte, ASA, na realidade para estudo e divulgação da poesia concreta, inicialmente a brasileira e, numa fase posterior, a da França, Alemanha, Itália, Inglaterra e a dos Estados Unidos. Com a sigla da Associação passou a ser editada uma revista periódica cujo primeiro número veio a público em 1965.

Outros eventos de importância foram a Exposição Internacional de Poesia Concreta, em abril de 1964, no Sogetsu Kaikan, em Tóquio, a realizada em julho do mesmo ano na Galeria Nunu, em Osaka, e, em agosto/setembro de 1965, a do Museu de Arte Homma, na cidade de Sakata.

Traduzi para o português a antologia Kemuri no Chokusen, de Katue Kitasono, e o poema-livro Servidão de Passagem, de Haroldo de Campos, teve seu texto traduzido para o japonês, por Seiichi Niikuni. Estes trabalhos foram lidos, no original e nas suas respectivas traduções, durante a exposição de abril de 1964, mencionada no parágrafo anterior, e seus textos foram distribuídos ao público. Kemuri no Chokusen foi publicada em São Paulo, em 1982, pela revista Através, da Editora Fontes. Com base no texto em francês publicado pela revista Les Lettres no. 31, dirigida por Pierre e Ilse Garnier, Kitasono traduz e publica no no. 95, da revista VOU, de julho de 1964, o Plano Piloto da Poesia Concreta Brasileira, de 1957.

Uma nova tradução para o japonês do referido Plano Piloto foi feita por Seiichi Niikuni e publicada no no. 3 da revista ASA.

No Brasil, exposições como a histórica Semana Nacional de Poesia de Vanguarda (1963), organizada em Belo Horizonte pelos poetas Afonso Avila e Affonso Romano de Sant Anna, suplementos literários dos jornais Correio Paulistano e O Estado de São Paulo, o Jornal das Letras do Rio de Janeiro e revistas especializadas, como a Noigandres, divulgaram a poesia concreta japonesa durante os anos 60 e 70.

Uma prova da presença da poesia concreta na literatura japonesa de vanguarda é o fato de que poema concreto de autoria de Seiichi Niikuni foi incluído em livro usado nas escolas japonesas e que um dos poemas concretos/visuais de Shukuro Habara figura à página 148 do livro de língua nacional japonesa para as escolas do segundo grau, publicado em fevereiro de 1993. De nenhuma maneira foi difícil aos poetas japoneses assimilar os princípios da poesia concreta, uma vez que a língua japonesa com seus recursos ideogramáticos facilitou perceber o que de novo surgia na nova linguagem poética.

Os poetas Niikuni, Fujitomi, Shimizu e Kitasono foram citados em artigo sobre poesia concreta publicado no The Literary Suplement do The London Times (1964). A poesia concreta japonesa foi objeto de referência por Haroldo de Campos, professor da Universidade de São Paulo, no seu trabalho intitulado Tendências da Literatura Contemporânea apresentado no Colóquio Brasil-Japão, ali realizado em 1967.

Registre-se também os férteis contatos que Seiichi Niikuni manteve com Ilse e Pierre Garnier com os quais chegou a escrever poemas concretos a quatro mãos, depois que os poetas brasileiros proporcionaram o seu contato com o casal de poetas franceses.

Registre-se ainda que em fevereiro/março de 1980, organizada pelo poeta Shutaro Mukai, foi realizada em Ulm, na Alemanha, a Japanische Konkrete und Visuelle Poesie com obras dos seguintes autores: Yasuo Fujitomi, Shukuro Habara, Yutaka Ishii, Motoyuki Ito, Michio Jimbo, Hideo Kajino, Hiro Kamimura, Katue Kitasono, Shutaro Mukai, Seiichi Niikuni, Hiroaki Nishino, Toshihiko Shimizu, Koichi Shinozaki, Chima Sunada, Shihachiro Takahashi, Shuntaro Tanikawa, L. C. Vinholes, Ryojiro Yamanaka e Shoji Yoshizawa, ao todo 18 japoneses e 1 brasileiro.

Antes de conhecer Niikuni, tive o privilégio de conhecer Katue Kitasono em meados de 1958, de participar das reuniões do Grupo VOU e de lá conhecer outros poetas interessados nas linguagens de vanguarda e de, em inúmeras ocasiões, apesar da sua personalidade introspectiva e introvertida, trocar idéias e ouví-lo falar da poesia japonesa e do seu interesse principalmente pelos poemas plásticos que tanto ocuparam a mente e o tempo de Kitasono.

MÚSICA

Bossa Nova

Nos início da década de 60, chegavam ao Japão as primeiras notícias sobre a nova tendência da música popular brasileira. Vinha dos Estados Unidos na forma de um disco gravado por Stan Getson, com capa de Manabu Mabe, mas que não parecia convincente para a curiosidade de alguns músicos e estudiosos. Distinguiram-se nessa busca de informações mais exatas e autênticas: o clarinetista Sadao Watanabe e o musicólogo Toyo Nakamura. Queriam eles saber se bossa nova era apenas um ritmo ou se tinha algo mais. E tinham razão quanto a esta dúvida e estavam certos quando imaginavam que outros valores além do ritmo eram responsáveis pela singular criação brasileira.

Sadao Watanabe foi um dos pioneiros na pesquisa e no estudo da bossa nova. Teve encontros com brasileiros residentes no Japão (o café México de Shinjuku era um dos pontos de encontro), queria conhecer discos gravados no Brasil, buscava partituras. Foi esta dedicação e este entusiasmo que o levou a ser convidado a se apresentar pela primeira vez no Rio de Janeiro, no final da década de 60, ao lado do Zimbo Trio.

Mais tarde, novamente ampliando e atualizando os seus conhecimentos e interesses, Watanabe voltou ao Brasil, visitando Rio e Salvador em março/abril de 1994 para uma série de gravações e entrevistas para o seu programa "Em busca das raízes do samba", na NHK, Rádio Nacional do Japão. Seus contatos foram com Hélo Pinheiro, a garota de Ipanema, também conhecida dos japoneses, e Tom Jobim que ele havia ouvido em sua passagem pelos Estados Unidos, em 1967, ocasião na qual esteve também com Sérgio Mendes e Baden Powell. A cada ano aumentava o número de músicos e intérpretes brasileiros com os quais Watanabe se relacionava, entre eles César Mariano e Toquinho.

Memorável foi a apresentação de Watanabe e Elis Regina, em Tóquio, em 1978, a quem, posteriormente, ele viria a dedicar a canção intitulada "Saudades de Elis".

As rápidas visitas ao Japão de algumas figuras diretamente ligadas ao Movimento Bossa Nova não podem deixar de serem mencionadas. Levaram elas as novidades do que ocorria na Cidade Maravilhosa, mais especialmente no Bar das Garrafas em Copacabana, local considerado o reduto-berço da nova música brasileira nascente. A caprichosa Maysa esteve no Japão em inúmeras ocasiões nos anos 59 a 61 e Nara Leão participou em Tóquio, em 1964, de memorável recital por ocasião de movimentado desfile de moda com a apresentação dos tecidos da Rhodia, ao qual compareceram estrelas do cinema e da música japonesa tradicional e de vanguarda, além de personalidades do mundo econômico e financeiro.

Influência significativa foi também a resultante da publicação em dois números da revista Latin American Chanson & Rytmos, em meados de 1963, da tradução para o japonês pelo musicólogo Toyo Nakamura do artigo sobre bossa nova, de autoria de Brasil Eugênio da Rocha Brito, originalmente publicado pelo Correio Paulistano, em outubro de 1960.

Hoje, não se pode mais deixar de reconhecer a influência da bossa nova na música popular japonesa. Em recente reportagem publicada pelo Correio Braziliense, em Brasília, a estupenda cantora Leila Pinheiro, popularíssima também nas platéias do Japão, fez uma declaração que merece ser reproduzida: "Uma vez fui acompanhada num show em Tóquio por um quarteto formado por músicos japoneses. Se eu fechasse os olhos poderia imaginar tratar-se de instrumentistas brasileiros. Não havia diferença".

Exposição de Música Contemporânea Brasileira

Com vistas a divulgar a obra dos compositores brasileiros de música clássica, foi organizada, em abril de 1977, na Galeria de Arte da Embaixada do Brasil em Tóquio, a Exposição de Música Contemporânea Brasileira, com a apresentação de 300 partituras e 70 discos LP das obras de 97 compositores que neste século influenciaram e definiram as diferentes correntes da música brasileira.

Por ocasião da referida mostra, foi também distribuído ao público material informativo sobre a história da música brasileira, extraído da publicação bilíngüe francês-inglês "Arte Brasileira", editada em 1976 pelo Ministério das Relações Exteriores.

Associação Villa-Lobos do Japão

Desde 1981, graças ao maestro Chiyuki Murakata, o Brasil tem em Tóquio um canal permanente de divulgação da música clássica brasileira, principalmente da de Heitor Villa-Lobos. A Associação Villa-Lobos do Japão, presidida pelo maestro Murakata, por ocasião dos concertos que realiza periodicamente em efemérides especiais, divulga não só a obra sinfônica e camerística do compositor que lhe empresta o nome, mas também a de outros autores brasileiros, levando ao público, em catálogos confeccionados com esmero e seriedade, informações biográficas, análises críticas e técnicas das obras apresentadas, enriquecidas por farto material fotográfico. Em 1987, a referida Associação organizou uma série de cinco concertos para comemorar o centenário do nascimento do seu patrono, o que se constituiu, no âmbito mundial, em um dos eventos mais importantes naquela efeméride.

TEATRO

Na área das representações cênicas, em ambos os países foram realizados eventos que, de maneira muito efetiva, serviram de ponte para o intercâmbio cultural e artístico. Não foram poucas as ocasiões em que o público brasileiro, principalmente o de São Paulo, teve oportunidade de conhecer expressões características do teatro japonês. Nos últimos anos, figuras importantes, quer do clássico Kabuki e Noh e das formas e expressões contemporâneas, têm visitado o Brasil. A presença do teatro brasileiro no Japão é significativa e isto deve-se, em grande parte, a Jun Shimaji, Jiro Izumi e aos demais integrantes do grupo Budo no kai, conforme se verá a seguir.

Teatro Brasileiro no Japão

No que diz respeito ao teatro brasileiro, cumpre registrar que foi a partir de agosto de 1958 que o grande público japonês tomou conhecimento da existência desta atividade artística no Brasil, com a apresentação da peça "A Raposa e as Uvas", de Guilherme Figueiredo, pelo grupo Budo no kai, no teatro Asaki Kaikan, em Osaka, na tradução de Jun Shimaji, que também usa o pseudônimo de Jun Makihara.

Além desta peça, foram ainda apresentadas no Japão "O Anjo", na tradução de Ayako Hashimoto, hoje Ayako Takagi, com a presença do autor Agostinho Olavo, pelo grupo Gekidan Hanshin, dirigido por Jun Shimaji e Jiro Izumi, no teatro Yoyogi Shogekidyo (1966), em Shibuya, Tokyo; e "As Mãos de Eurídice", de Pedro Bloch, em tradução, a quatro mãos, por Jun Makihara com minha parceria, apresentada em junho de 1967 pelo ator Asao Sano, pertencente ao grupo Gekidan Mingei, dirigido por Jyukichi Uno, inaugurando o teatro Underground Sasori-za, também em Tokyo, nome este escolhido pelo escritor Yukio Mishima que, tendo assistido a obra a aplaudiu e fez positivos comentários a respeito. Foram inúmeras as apresentações das duas peças de Guilherme Figueiredo e Pedro Bloch nas mais distantes regiões do Japão.

"A Raposa e as Uvas" teve ainda uma outra tradução de Shozo Asakawa, assim como a de Jun Shimaji, baseada na versão em russo das apresentações no Festival de Teatro de Moscou, em 1957. Interessaram-se ainda por esta peça, entre outros, os grupos teatrais Gekidan Bungei-za, de Toyama (1959); Haguruma-za, de Yamaguchi (1961); Kumono-kai, de Nara (1965); Gunzo-za, de Tokyo (1966); Gekidan Kyogei, de Kyoto (1966); Seikatsu Butai, de Fukuoka (1975); Emsemble Kanasawa, de Kanazawa (1976); Gekidan Kyogei/Engekishudan Dora, de Kyoto (1977); e Rakurin-za, de Tokyo, que dela realizou 165 representações em 1972 (135) e 1973 (30) para escolas das mais diferentes regiões do Japão.

Foram diretores das apresentações de "A Raposa e as Uvas" Shiro Okakura, figura singular e festejado co-fundador do grupo Budo no kai, Kiyoshi Nagata, Yoshihisa Higasa, Kiyoshi Seki, Shojin Masunaga, Taijiro Ohno que, em 1958, quando membro do citado grupo Budo no Kai, desempenhou o papel de escravo etíope, Yutaka Takao e Tetsuyuki Nakagishi. É desnecessário dizer que as apresentações dessa peça de Guilherme Figueiredo receberam merecida cobertura pela imprensa e, em alguns casos, até mesmo o patrocínio de importantes jornais.

Nas décadas de 50 e 60, o interesse pelo teatro brasileiro era tão marcante que até mesmo os alunos da Universidade de Línguas Estrangeiras de Tokyo, orientados pela Leitora Nina Atsuko Mabuchi, apresentaram, no original, as peças "O Protocolo", de Machado de Assis, e "Noite de São João", de Luiz Carlos Martins, sendo que, deste último autor, a peça "O Judas em Sábado de Aleluia" serviu de texto de leitura na Universidade Nanzan, em Nagoya, e "O Anjo", de Agostinho Olavo, na Universidade Takushoku, sob a orientação do Leitor Nelson Massatake Yoshikae e do professor Nishio Hagemu. "O Protocolo" teve uma edição de 1.000 exemplares preparada e distribuída pela Embaixada do Brasil em Tóquio.

Exposição de Cenografia Brasileira

Contando com o co-patrocínio do jornal Mainichi Shinbun, da "Mitsubishi Eletric K.K." e da Comissão Nacional Japonesa para a UNESCO, realizou-se em janeiro de 1965 a Exposição de Cenografia Brasileira, no Edifício San-Ai, em pleno Centro de Tóquio. Foram mais de cem "croquis" de cenários e figurinos reunidos por Agostinho Olavo, incluindo trabalhos de Tomaz Santa Rosa (1909-1956). Foram distribuidos 5.000 catálogos ilustrados. Além de farto noticiário na imprensa, o artigo ilustrado do cenógrafo japonês Ryutaro Mitsubayashi, publicado na conceituada revista mensal Biditsu-Techo, divulgou amplamente a referida mostra, que foi, no mesmo ano, levada às cidades de Shizuoka e Osaka.

Antologia de Teatro Brasileiro

A repercussão das peças de teatro brasileiro apresentadas pelo Japão a fora foi tão significativa que a revista Teatro brindou seus leitores com a publicou de "A Raposa e as Uvas" (1958), "O Anjo" e "As Mãos de Eurídice" (1967).

Desde meados dos anos 60, foi cogitada a publicação de uma antologia de peças brasileiras para atender a demanda dos interessados em teatro e das companhias profissionais e amadoras desejosas de estudar e apresentar obras de autores brasileiros. Esta idéia se concretizou em junho de 1977, quando a já citada revista "Teatro", dirigida por Takashi Nomura, também professor de literatura contemporânea na Universidade Aoyama Gakuin, em Tóquio, colocou é disposição do público a tão esperada publicação.

Desta antologia, hoje esgotada, figuram, além das peças acima mencionadas, a obra "O Protocolo", de Machado de Assis. Não figuraram, apesar de já estarem traduzidas para o japonês, as peças "O Problema", de Pedro Bloch, "O Homem do Sótão", de Agostinho Olavo, ambas traduzidas por Ayako Hashimoto, "Lampião", de Raquel de Queiroz, em tradução de Takeo Homma, e "Vestido de Noiva", de Nelson Rodrigues.

ARTES PLÁSTICAS
Os Artistas Nipo-Brasileiros

Sem a menor dúvida, as artes plásticas sempre foram um campo fértil para viabilizar o relacionamento cultural e artístico entre o Brasil e o Japão. Basta lembrar o movimento dos grupos Seibi (1935), Quize (1948) e o contemporâneo Salão Unkyo; nomes que, hoje, dispensam maiores citações, entre eles os dos pintores Seiji Tomioka, Yoshiya Takaoka, medalha de prata no Salão Nacional de Belas Artes (1939), Flávio Shiró Tanaka, Tikashi Fukushima, Kazuo Wakabayashi, Tomoshige Kusuno, do escultor Yutaka Toyota, com uma das suas esculturas dedicada ao centenário do Tratado, a ser instalada em parque da área nobre de Minato-mirai, em Yokohama; e os de Manabu Mabe e Tomie Ohtake. Estes dois últimos dispensam qualquer referência. Desconhecido da maioria daqueles que acompanham a trajetória de Tomie Ohtake é o fato de que uma das suas primeiras exposições individuais foi realizada, em 1955, na Escola Livre de Música da Pró-Arte, em São Paulo, onde eram estudados e pesquisados diversos aspectos culturais do relacionamento com o Japão. Por oportuno, registre-se também que por esta Escola, dirigida pelo compositor H. J. Koellreutter, um estudioso da música do Oriente e da do Japão em particular, passaram, entre outros, a saudosa compositora okinawense Kikuko Kanai (1954), autora da trilha sonora do filme "A casa de chá do luar de agosto" e emissária especial ao IV Centenário da Cidade de São Paulo, e o dançarino Masami Kuni (1956), formado em filosofia pela Universidade de Tóquio, que introduziu no Brasil as idéias e concepções da chamada "creative dance", aprendida nos seus estágios na Alemanha e aprofundada no seu estúdio em Kinuta-machi, em Tóquio. Os ensinamentos de Kuni foram absorvidos pelos grupos que atuavam na referida Escola e, mais tarde, pelos da Universidade Federal da Bahia.

Não se pode falar de uma influência dos artistas plásticos nipo-brasileiros na cultura brasileira, mas, sem dúvida, não é difícil admitir que eles se consolidaram e criaram o seu espaço e, hoje, individualmente, fazem parte do que de melhor existe nas artes plásticas no Brasil.

Ryokai e Maria Ohashi

Talvez uma das primeiras realizações de intercâmbio nas áreas das artes plásticas, entre o Brasil e o Japão tenha sido o relacionamento e as atividades do pintor japonês Ryokai Ohashi e de sua esposa brasileira, também pintora, Maria Ohashi, na década de 30. Ela, filha do Diretor da Escola de Belas Artes de São Paulo, vai à França para continuar seus estudos e lá encontra e casa-se com Ohashi. Ambos mudam-se para o sopé do Monte Rokko, em Kobe, visitam o Rio de Janeiro e retornam para Kobe, onde ela ensina pintura às jovens e senhoras japonesas. Maria Ohashi permaneceu no Japão durante a II Guerra Mundial. Com a morte do esposo, ela voltou para São Paulo, onde residiu até o final dos seus dias. São raros os óleos de Ryokai Ohashi com temática brasileira e a quase totalidade de suas obras é desconhecida no Brasil. Um dos seus trabalhos mais significativos é uma vista do Pão de Açúcar, com predominância do verde, hoje na coleção particular do Professor Nishio Hagemu, seu companheiro de viagem ao Brasil.

ISPAA

Na década de 50, surgiu um relacionamento entre pintores brasileiros e japoneses independentemente de qualquer providência oficial que ainda produz frutos admiráveis. Em 1954, a revista francesa l Art d aujourd hui publicou, em páginas contíguas, fotos do atelier do pintor brasileiro Sanson Flexor e obras do pintor japonês Kenzo Tanaka. Em continuação, buscando capitalizar naquela oportunidade, Tanaka, num gesto amigo, enviou para Flexor alguns dos seus trabalhos. Em junho de 1957, Flexor mandou para Tanaka uma de suas obras abstratas, uma tela a óleo baseada nos seus princípios teórico-geométricos.

O outro grande passo foi a criação, em 1962, em Toyonaka, da Sociedade Internacional de Artes Plásticas e Audiovisuais - ISPAA, que até hoje tem como seu Presidente o mesmo Kenzo Tanaka e como objetivo "reunir as mais diferentes tendências e correntes, nas mais diversas manifestações da criatividade artística, levando em consideração e respeitando as tradições culturais de cada país". Dela os artistas brasileiros foram os primeiros participantes estrangeiros e a sua primeira mostra, realizada em Kobe em 1963, teve no seu catálogo mensagem do Embaixador Décio de Moura e a participação dos brasileiros Fernando Lemos, Hércules Barsotti, Maria Bonomi e Willys de Castro.

Em 1968, o Museu de Arte Contemporânea de São Paulo, abrigou a VI Exposição Internacional da ISPAA, com obras de brasileiros, japoneses e coreanos, trazidas por Kenzo Tanaka que, na ocasião, conheceu o atelier de Flexor, mas não encontrou o amigo que viajara a Paris.

Em dezembro de 1993, comemorando o 35o. aniversário de fundação da ISPAA e seu relacionamento com artistas brasileiros, foi realizada no Museu de Arte de Brasília uma mostra de esculturas e obras do estilo sumi-e, de 13 artistas a ela pertencentes, como homenagem a Sanson Flexor. A mostra foi patrocinada pela Secretaria de Cultura do Distrito Federal e a Fundação Athos Bulcão. No final da mostra, Tanaka, que visitava o Brasil pela segunda vez, em nome dos demais participantes, anunciou a doação de todas as obras para o Museu e a Fundação.

Nas exposições coletivas realizadas no Japão e em outros países da Ásia, a ISPAA, em diferentes ocasiões, foi o fórum para a participação de obras dos brasileiros Sanson Flexor, Franz Weissmann, Vasco Prado, Zorávia Bettiol, Vera Barcellos, Raul Porto, Arthur Luiz Piza, Edith Behring, Wesley Duke Lee, Lily Hwa, Danúbio Gonçalves, Dietlinde Koeberle, Regina Silveira, Flávio Pons, Maria de Lourdes Sanchez, Anestor Tavares, Luiz Brasil, Paulo Portella, Odetto Gersoni, Alberigo Lutron, dos poetas concretistas Haroldo e Augusto de Campos, Décio Pignatari, Pedro Xisto, Ronaldo Azeredo, José Lino Grünewald, Edgard Braga, Eusélio Oliveira, João Adolfo Moura, Luiz Angelo Pinto, Pedro Henrique Leão, Mário da Silva Brito, Alcides Pinto, Dora Ferreira da Silva e Roberto Thomas Arruda.

Fundação Brasil-Japão de Artes Plásticas

Os que acompanham o intercâmbio artístico Brasil-Japão, certamente conhecem o trabalho vitorioso realizado por pintores brasileiros e japoneses sob a égide da Fundação Brasil-Japão de Artes Plásticas que organizou sua primeira exposição em 1973, em São Paulo, reunindo nomes expressivos de ambos os países. Do lado japonês limitar-me-ia a mencionar Seiji Togo, Junji Yoshii e Hiroshi Kado. E do lado brasileiro, Aldemir Martins, Manabu Mabe, Yoshiya Takaoka, Alfredo Volpi, Siron Franco, Rubem Valentin. Dentre as dezenas de obras apresentadas nas Exposições (conjuntas) de Belas Artes Brasil-Japão, todas elas, tanto de um lado como de outro, dentro das linhas estéticas do pensamento figurativo ocidental, singularizaria duas telas de Hiroshi Kado: uma mostrando um bando de borboletas descendo do alto do Corcovado e, como numa grande passarela, transformando-se em um bloco de mulatas sambando em plena Copacabana; a outra, de pujança e força, com um empinado potro, em plena Esplanada dos Ministérios, em Brasília, tendo ao fundo o característico céu azul da Capital brasileira e, como elementos icônicos, os prédios do Congresso Nacional e da Catedral.

Como homenagem a este grupo de artistas plásticos, transcrevo trecho da mensagem que Seiji Togo assinou no catálogo da mostra de 1975: "os pintores brasileiros simbolizam o próprio Brasil, moço e viçoso, e sentimos o rigor da sua postura que jamais negligencia o seu progresso".

Galeria de Arte da Embaixada do Brasil

São poucos os que lembram e menos ainda os que sabem que, em novembro de 19, a Embaixada do Brasil em Tóquio, visando ter um espaço permanente para apresentar obras de arte brasileiras ao público japonês, inaugurou a Galeria de Arte do Brasil com mostra de 24 óleos do pintor nipo-brasileiro Kazuo Wakabayashi, que, tendo emigrado para São Paulo em 1961, passou a ser uma figura representativa nas artes plásticas do Brasil.

Uma outra exposição de caráter singular, promovida pela referida Galeria, foi a dos 32 desenhos de Lourdes Cedran. O crítico de arte e físico brasileiro Mário Shemberg, no catálogo da mostra, chamava a atenção para o fato de que nesta série de desenhos, iniciada em 1971, Lourdes mostrava uma grande mudança no estilo de sua arte, associando-se às suas manifestações paranormais, utilizando símbolos dos cultos mágicos de origem africana e indo-americana e, até mesmo, lembrando mandalas asiáticas e a arte tântrica do século XV. Esta exposição interessou sobremaneira o calígrafo e professor de filosofia da Universidade de Tóquio Faure Harada que escreveu extenso trabalho estético-filosófico, mais tarde traduzido para o português com a colaboração do monge budista Ricardo Mário Gonçalves, mas que, até o momento, permanece sem ser publicado.

Na mesma Galeria, foram ainda realizadas, e freqüentadas por numeroso público interessado em conhecer aspectos característicos da cultura e da arte brasileira, a exposição de música contemporânea já mencionada e uma exposição de cartazes das principais atrações arquitetônicas e turísticas do Brasil, posteriormente doados para escolas da região de Tóquio.

ARQUITETURA
Casa do Estudante Brasileiro

Em 1961, dois arquitetos brasileiros que se encontravam no Japão, foram incentivados a fazer um projeto para o que poderia vir a ser a Casa do Estudante Brasileiro.

O projeto visava aproveitar o oferecimento de Yutaka Shiino, Editor-Proprietário do Burajiru Shinbun, de doar o terreno que possuía nas proximidades da estação de Oimachi, em Tóquio, se nele fosse construído um centro para acolher os estudantes e divulgar a cultura e a arte brasileiras.

Luzia Helena Carlos de Oliveira e Manuel Koschiusko Corrêa, então bolsista do Ministério da Educação do Japão, deram início ao que chamaram de "Estudo para uma Residência para 15 estudantes - 10 rapazes e 5 moças". O projeto previa uma futura ampliação dos dormitórios no primeiro andar, e suas oito magníficas plantas incluam uma vista da área de entrada, salas de recepção e estar, com o jardim interno cercado por paredes de vidro, e uma vista externa, com ajardinado é altura da calçada. Estas plantas mostrando uma integração dos espaços externos e internos, dão ainda hoje uma idéia clara do que poderia ter sido este inteligente projeto modular se tivesse tido a sorte de merecer apoio.

Foram infrutíferas as buscas de apoio oficial em ambos os lados para concretizar o projeto. Os que se opunham diziam que, se concretizado, o projeto "não permitiria a rápida integração dos estudantes ao ambiente japonês para aprender a língua e os costumes", e o ambiente "correria o risco de se tornar uma espelunca".

Eram poucos os que acreditavam que a presença de brasileiros no Japão, preparados pela sua formação e aptos pelos seus ideais e juventude, deveria ser aproveitada e valeria mais a ambos os lados se eles fossem considerados viabilizadores de um intercâmbio de informações para maior entendimento entre os nacionais de ambos os países. Hoje o Brasil poderia ter em Tóquio a sua "Casa do Estudante Brasileiro" e a sociedade japonesa um centro irradiador de informações e subsídios de interesse mútuo, tivesse sido aproveitado o oferecimento do grande amigo dos brasileiros que sempre foi Yutaka Shiino.

Palácio Internacional dos Congressos

Em novembro de 1962, o Governador da Província de Kanagawa, Iwataro Uchiyama, divulgou o projeto para o Palácio Internacional dos Congressos de Hakone, a ser construído às margens do Lago Ashi, nas proximidades do Monte Fuji.

O arquiteto convidado para fazer o projeto foi Wilson Reis Neto que havia trabalhado em Brasília com Oscar Niemeyer e que encontrou nas montanhas e no sol os dois elementos símbolo do Japão e que serviriam de base às soluções arquitetônicas do seu trabalho para Hakone, incluíndo, entre outras espaçosas dependências, o Salão dos Congressos com capacidade para 2.000 pessoas, um Planetário, a Biblioteca, a Galeria de Exposições Especiais, os escritórios e acomodações para os congressistas, heliporto, concha acústica, marina, parques e passeios circundantes e a Capela Universal ecumênica, com vitrais de Fernando Lemos, pintor primeiro-prêmio de desenho na IV Bienal de São Paulo, que se encontrava no Japão com bolsa da Fundação Gulbenkian. Foram também colaboradores de Wilson o arquiteto Manuel Koschusko Corrêa e uma plêiade de jovens intérpretes, tradutores, desenhistas e maquetistas japoneses.

A disputa política entre Kanagawa e Nara para sediar os futuros eventos internacionais foi vencida pelo Governador da histórica Capital do Japão, e, assim, o projeto de Wilson Reis Neto ficou apenas no magnífico catálogo produzido pelo Governador Uchiyama, na maquete que, durante muitos anos, enfeitou o salão da sede do Governo da Província de Kanagawa, em Yokohama, e nos "blue prints" que foram elogiados até mesmo pelas revistas especializadas nos Estados Unidos.

Pavilhão do Brasil na Feira de Tóquio

Em 1963, o Brasil participou da Feira Internacional de Tóquio. A tarefa de erguer um pavilhão representativo e, com ele, criar um ambiente e propício à mostra brasileira foi dada ao já mencionado arquiteto Manuel Koschusko Corrêa que contou com a experiência e competência do pintor Fernando Lemos. Com farto material fotográfico, foi exibido o que de melhor representava a cultura e a arte do Brasil e os itens que figuravam da pauta das exportações brasileiras, sem faltar o balcão para o tradicional cafezinho. Uma arquitetura inteligente e econômica chamou a atenção dos profissionais japoneses: eram duas paredes circulares, uma pouco menor do que a outra, com seus lados côncavos virados um para o outro, criando um amplo espaço de circulação fácil. Na área externa do pavilhão, à esqurda da entrada principal, erguia-se sobranceira a escultura de Roberto Burle Marx, confeccionada em seções longitudinais de tubos de aço, verticalmente plantadas em espelho d água coberto por minério de ferro oferecido pela Companhia Vale do Rio Doce. Hoje, esta escultura é sentinela permanente no jardim da fachada do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, também de autoria de Burle Marx. O renomado arquiteto Kenzo Tangue foi um dos que admirou a simplicidade das linhas do Pavilhão do Brasil em comentário elogioso feita ao Embaixador Décio de Moura.

Tomando o haicai como instrumento válido para a manifestação de sentimento por parte de um representativo seguimento da sociedade brasileira, em junho de 1968, não por simples coincidência mas por absoluta sintonia com o espírito que sempre orientou a filosofia e a arte de Manuel Koschusko Corrêa, o poeta Pedro Xisto foi buscar nesta forma poética a maneira mais apropriada para prestar homenagem póstuma a este arquiteto. E é sua memória escreveu:

chuva verde chuva
ar rubro ar rubro ar
laje negra laje

Chancelaria e Residência da Embaixada em Tóquio

Uma outra oportunidade surgiu para que, em caráter definitivo, a arquitetura brasileira se fizesse presente em terras do Japão. O arquiteto Ruy Ohtake desenha, em 1982, e, no ano seguinte, constrói o prédio da Chancelaria da Embaixada, na dinâmica região de Kita-Aoyama, no bairro Minato, em Tóquio. É uma combinação de cores, de materiais e de formas articuladas que refletem cultura brasileira em meio ao casario de dois ou três pavimentos e aos prédios resultantes de uma tradição diferente, enfileirados em ruelas sinuosas. Sobre este trabalho, elogiado inclusive pelo jornal The New York Times que, em 1992, considerou-o como "uma das preciosidades da moderna arquitetura de Tóquio", o arquiteto-autor faz a seguinte descrição: "O edifício de 5 pavimentos é marcado por uma fachada curva, reforçada pelas linhas verticais do caixilho vermelho, e tem como contraponto, uma outra curva em sentido contrário, acentuada pela cor amarelo-gema. Com isso foi criada uma pequena praça fronteiriça à Embaixada, favorecendo, inclusive, a perspectiva do edifício".

Nos mesmos anos foi concebido e realizado o prédio da Residência do Embaixador do Brasil, em Yoyogui, que Ohtake carateriza como "um amplo ambiente em que se misturam, harmonicamente, a madeira, o concreto, a pedra e o vidro, remete à generosidade do espaço da arquitetura brasileira".

Na região de Kansai, Ruy Ohtake criou ainda, em 1989, o "edifício-escultura, fundamentado na dialética de curvas e sinuosidades" para o Pavilhão do Brasil na EXPO 90, em Osaka. Sobre ele os promotores da feira manifestaram-se dizendo ser "como um gesto - de síntese formal, funcional e estética muito fortes". Dele escreve o arquiteto brasileiro "desprovido de intencionalidades monumentais, o projeto se constitui em duas curvas opostas e ligadas por um plano inclinado definindo dois espaços: um aberto para programações de eventos e música, e outro fechado, para pequenas exposições de artes plásticas e artesanato".

Arquitetura e os Jardins Japoneses no Brasil

Como contrapartida é presença da arquitetura brasileira no Japão, encontra-se uma infinidade de prédios e jardins japoneses construídos inclusive com projetos de arquitetos e paisagistas brasileiros nos mais diferentes pontos do Brasil. Estes ambientes servem, sem dúvida alguma, como pontos de referência e de fonte de subsídios para o intercâmbio de conhecimentos específicos entre os interessados dos dois países, quer na área específica da arquitetura, quer em outras áreas afins ao produto desta profissão. Refiro-me especificamente aos templos e jardins que, no seu estilo peculiar, trazem mensagens e facilitam aproximações de caráter espiritual, religioso e social.

Para registrar aqui alguns dos prédios e jardins japoneses mais conhecidos construídos no Brasil, inicio lembrando que, em 1942, das mãos do arquiteto-carpinteiro Kazuo Hanaoka, surgiu o prédio da Fábrica de Chá Tóquio, que ficou conhecido por Casarão do Chá, construído em área adquirida entre 1924/25 por Fukashi Furihata, no bairro Cocuera, em Mogi das Cruzes, SP, para abrigar as instalações e escritórios no Brasil da Companhia Sociedade Katakura Gomei Kaisha, tradicional produtora de seda na Província de Nagano, no Japão, e que aqui se dedicaria à fruticultura e à produção de chá.

Em 1954, como um dos eventos comemorativos ao IV Centenário da Cidade de São Paulo, foi inaugurado, no Parque Ibirapuera, o Pavilhão Japonês, projeto do arquiteto Takashi Suzuki, renomado professor da paulista Universidade Mackenzie. Externamente, este Pavilhão é uma réplica da Vila Imperial de Katsura, em Kyoto e conta com salas para cerimônia de chá, para aulas de ikebana e um pequeno museu com peças de porcelanas, armaduras e objetos de arte tradicional japonesa.

Do mesmo arquiteto é também a réplica do templo Kinkakuji, o Pavilhão de Ouro de Kyoto, construída em Itapecirica da Serra, SP, e aberta ao público desde 1982.

Os três projetos acima mencionados incluem belos jardins no estilo japonês e tem características da arquitetura e do paisagismo dos Períodos Muromachi (1358-1573) e Edo (1603- 1867) e da Era Meiji (1867-1912).

Podem ser citados ainda outros jardins no estilo japonês construídos no Brasil: o jardim miniatura da Rua Galvão Bueno, em São Paulo, o da cidade de Caldas Novas, no Estado de Goiás, o de Ipatinga, em Minas Gerais, sede da Usiminas, siderúrgica resultante de uma "joint-venture" de capitais brasileiros e japoneses; e, também, alguns jardins em propriedades particulares, como o da residência do pintor Manabu Mabe, na Capital paulista, deleite de seus amigos, artistas ou não.

CIDADES IRMÃS

Hoje são inúmeros os eventos promovidos em ambos os países em decorrência do relacionamento fraterno entre cidades irmãs brasileiras e japonesas, e seus objetivos são os mais variados, não deixando de atender também ao interesse de intensificar o conhecimento mútuo e um cada vez mais profundo intercâmbio cultural e artístico entre seus munícipes. Não só as cidades, mas também alguns Estados brasileiros e Províncias japonesas, a exemplo do Rio Grande do Sul com Shiga, celebraram compromissos de fraternidade.

Pelotas e Suzu

Em abril de 1962, foi cantado pela primeira vez o Hino da Escola Primária de Ohtani, na cidade de Suzu, com letra do poeta Iwamoto Shuzo, por mim musicada com melodia que mescla a plasticidade de expressão japonesa com o ritmo sincopado característico da música brasileira.

Um ano depois, Pelotas e Suzu, por aprovação unânime de suas respectivas Câmaras Municipais, assinaram um pacto que as tornaram as primeiras cidades-irmãs entre o Brasil e o Japão. Eram Prefeitos os Senhores João Carlos Gastal e Riichiro Okamura. Não tardou para que os estudantes de ambas as cidades dessem início a uma intensa troca de correspondência que, coroando a dedicação de trinta anos de relacionamento fraterno supervisionado pelas professoras Terezinha Mallmann Louzada e Akiko Naka, resultou na visita de um grupo de dez estudantes japoneses a Pelotas, em dezembro de 1993.

O Vice-Prefeito de Suzu, Saburo Kawahara, foi a primeira autoridade daquela cidade-irmã a visitar Pelotas em 1968. Em 1988 o Prefeito Mikindo Hayashi também esteve em Pelotas e, em maio de 1995, o Vice-Prefeito Ryuoko Tabata que, juntamente com o Prefeito de Pelotas e outras autoridades, plantou uma cerejeira e uma camélia, símbolos do Japão e de Suzu, em amplo terreno central destinado à construção do Jardim de Suzu, do mais apurado estilo japonês, com projeto do pintor Kenzo Tanaka e do paisagista Tadao Tsujiguchi, com o envolvimento da Faculdade de Arquitetura da Universidade Federal de Pelotas. Este projeto foi idealizado por ambas as cidades para comemorar o centenário das relações amistosas entre o Brasil e o Japão.

Em 1965, na Escola Superior de Iida, em Suzu, foi introduzido, para pesquisa e adaptação, o feijão preto brasileiro com sementes levadas de Pelotas e que lá recebeu o nome de "pero-mame", em homenagem à esta cidade. A tentativa de cultivo teve como pretensão verificar a possibilidade de oferecer uma alternativa para o tradicional azuki da culinária japonesa.

A exemplo destas primeiras cidades-irmãs entre o Brasil e o Japão, logo celebraram também um elo de irmandade Porto Alegre e Kanazawa, capitais do Estado do Rio Grande do Sul e da Província de Ishikawa, onde estão localizadas Pelotas e Suzu.

Em abril de 1966, o Embaixador do Brasil em Tóquio, Álvaro Teixeira Soares, esteve em Suzu e Kanasawa o que se constituiu na primeira visita feita por um Embaixador brasileiro à região do Mar do Japão, no Oeste japonês.

RÁDIO E JORNALISMO
Burajiru Shinbun

Na década de 50, circulava em Tóquio o Jornal Brasil, tendo como Editor-Proprietário Yutaka Shiino, uma das pessoas mais interessadas em divulgar no Japão notícias e assuntos relativos ao Brasil, numa visão positiva e pragmática.

O Senhor Shiino utilizava os melhores jornais da imprensa brasileira para deles extrair o material para as edições do seu semanário e, para financiá-lo, lecionava o português, idioma que dominava plenamente, e contava, ainda, com recursos de algum auxílio de companhias japonesas interessadas e, até mesmo, da Embaixada do Brasil em Tóquio, auxílios estes que retribuía com o oferecimento de exemplares do jornal.

Certamente, em nenhum momento, o Senhor Shiino que foi também idealizador da não concretizada Casa do Estudante Brasileiro, objeto de registro em outra parte deste texto, teria imaginado que hoje, com a presença dos "dekassegi", os brasileiros no Japão, os japoneses que dominam o idioma falado no Brasil e todos aqueles que se interessam por assuntos brasileiros têm à sua disposição vários semanários em língua portuguesa.
O Morador da Rua das Palmeiras

Deve ser mencionado Hideo Aragaki, para o Brasil, uma das figuras mais interessantes do jornalismo japonês desde a década de 30. Morou no Rio de Janeiro, na rua Paiçandú, que ele sempre preferia chamar de rua das Palmeiras. Famosas ficaram algumas das suas contribuições para a coluna Tensei Dingo (Voz de Deus Palavra dos Homens), publicada pelo combativo jornal Asahi Shinbun. Foi sempre defensor de ideais liberais e um grande amigo e apreciador do Brasil, das suas cousas e da sua gente, testemunhas são os jornalistas brasileiros que estiveram no Japão nos últimos anos de sua vida. Regressou a Tóquio pouco antes do início da II Guerra Mundial e a direção do Asahi houve por bem mandá-lo, às Filipinas. Aragaki era um dos integrantes do quarteto de amigos do Brasil que se completava com Nishio Hagemu, citado em outros parágrafos deste texto, Soichi Oya e Yoshizo Kawamori.
Canta Brasil

Em 1963, a Rádio Kanto, com estúdio e antenas em Yokohama, levou ao ar, diariamente e por um período de seis meses, o programa intitulado Canta Brasil. Este programa, de meia hora de duração, patrocinado pela Companhia Shell, apresentava o que de melhor havia na música popular brasileira daquela época, principalmente as primeiras obras do movimento "bossa nova", e, em cada um deles, era incluída a leitura de textos originais de poemas de autores brasileiros, entre eles Carlos Drumond de Andrade, João Cabral de Melo Neto, Cecília Meireles, Augusto Frederico Schmidt e tantos outros.

INFLUÊNCIAS RELIGIOSAS

Os que conhecem a história do Japão não ignoram o que ocorreu em meados do século XVI com a chegada dos portugueses interessados no comércio a na catequese dos japoneses. Sabem também o que se passou com a rivalidade surgida desde que os holandeses se fizeram presentes nos portos do Japão. Este país assistiu a perseguição daqueles que haviam abraçado o cristianismo. Nagasaki teve os seus primeiros mártires cristãos. A Era Meiji viu prosperar as denominações cristãs dissidentes. Tudo isto ocorreu muito depois de ter sido prática entre os japoneses da terra de Yamato a religião nacional do shinto e, desde o século VI, o budismo que, da continental civilização chinesa, chegou a Nara, trazendo não só religião, mas também conhecimentos e cultura. Durante séculos, permitindo uma interação de crenças, os japoneses ora valem-se do xintoísmo para as cerimônias relativas ao nascimento e ao casamento e ora praticam o budismo por ocasião dos rituais da morte e do culto aos seus entes queridos. Não bastasse a prática desta verdadeira simbiose, na última metade deste século, um surto de novas idéias religiosas faz do Japão um cenário variado e interessante.

A experiência japonesa, com outras características e idiossincrasias, tem sido vivida também pelos brasileiros desde os tempos mais remotos de sua história. O amálgama das crenças autóctones dos nativos com as manifestações religiosas européias e africanas, chegadas depois dos primeiros anos do 1500, fez o Brasil tornar-se um cadinho singular, com católicos que freqüentam umbanda, espíritas que se batizam e casam nas igrejas católicas, etc. E se isso não bastasse, depois do Kasado Maru proliferaram, não só entre os membros da numerosa colônia nipo-brasileira mas também entre os brasileiros de todas as origens, os cultos e as manifestações das chamadas shinshukyo. Além do budismo e do xintoísmo, são conhecidas e praticadas em todos os quadrantes do país, com incidência maior na Região Sudeste, principalmente as "novas religiões" Seicho-no-ie, Messiânica, Tenri-kyo, Mahikari e Sokkagakai.

Se o cristianismo europeu, concomitantemente com sua chegada ao Brasil, exerceu marcante influência sócio-cultural no Japão, hoje, para uma parcela da sociedade brasileira, não pode ser desconsiderada a presença de certas práticas religiosas de origem japonesa. São testemunhas vivas os templos que se estabelecem e se erguem por todo o Brasil, com seus modestos festivais e com suas publicações muitas vezes inigmáticas à grande maioria dos novos crentes.

ESPORTE

O Brasil faz agora com o futebol o que o Japão fez há algumas séculos com o karate, o sumo e outros esportes que, hoje, são-lhe característicos. O Brasil introduziu o esporte criado pelos ingleses e, em menos de dois séculos, não só é o único tetracampeão mundial, mas também o país reconhecido como o mais representativo para esta forma de competição esportiva. Nos jornais e revistas do Japão, nos cartazes colocados no interior dos veículos de transporte coletivo e nos programas das rádios e TV, o Brasil aparece com seus craques e é reconhecido, sem conotação pejorativa, como o país do futebol. Pelo Japão passaram Pelé, Zico, Falcão, Leão e tantos outros que, como jogadores e/ou técnicos, com seu trabalho e suas atividades pedagógicas, se tornaram heróis de multidões satisfeitas, sendo Alcindo, Rui Ramos e Dunga os mais novos ídolos do futebol brasileiros jogando na terra das cerejeiras.

A influência do futebol brasileiro na formação de um público interessado em uma forma alternativa de lazer é reconhecida pelos especialistas japoneses.

No Brasil, embora em escala muito menor, os japoneses introduziram o judo e, mais recentemente, o beisebol. Em ambas as modalidades, são inúmeros os atletas brasileiros que se distinguem pela sua habilidade e competência, entre eles as figuras singulares de Aurélio Miguel e Rogério Sampaio, medalhas de ouro nas Olimpíadas de 88 e 92. Vale a pena lembrar que do beisebol incrementado pela colônia japonesa saiu José Augusto Pett, o primeiro brasileiro a participar do beisebol profissional norte-americano.

No campo do esporte não pode, de maneira alguma, ser esquecida a figura de Airton Senna, que se tornou um ídolo dos apreciadores da Fórmula 1 no Japão.

AGRADECIMENTO

Ao término deste trabalho que, conforme foi dito acima, teve apenas a intenção de ser um mosaico de informações sobre fatos, eventos e pessoas que, de uma forma ou de outra fazem parte da história das centenárias relações entre o Brasil e o Japão, no que diz respeito à cultura e às artes, talvez útil como subsídio a outros que com mais vivência, tempo e capacidade possam tratar deste tema com melhores resultados e mais acuidade, desejo registrar meus agradecimentos àqueles que colaboraram na busca de dados e informações para maior exatidão do que aqui foi tratado. Espero não ter esquecido de nenhum nome e registro os de Angela Fonseca Souza Assis, do Serviço de Documentação da Marinha, no Rio de Janeiro; Ruy Ohtake e suas colaboradoras Liliane e Rose; Paulo Napoleão Nogueira da Silva, editor da revista Mundo Monárquico; Sílvia Escorel, Mariana Isidoro dos Santos Freitas, Lúcia Monte Alto Silva, do Arquivo Histórico, e Luiz Antônio M. Ewbank, Curador do Museu Histórico Diplomático do Palácio Itamaraty, no Rio de Janeiro; e, finalmente, a Helena Maria e Juliana Maria Ferreira, que com paciência e disciplina fizeram a revisão do texto.

* (L. C. Vinholes, músico e poeta, funcionário do Ministério das Relações Exteriores, ex-adido cultural em Tóquio e Ottawa).

ALGUMA CRONOLOGIA DO TEXTO ATIVIDADES CULTURAIS E ARTÍSTICAS NO CENTENÁRIO DO ACORDO DE AMIZADE, DE COMÉRCIO E DE NAVEGAÇÃO, ASSINADO ENTRE O BRASIL E O JAPÃO EM 05 DE NOVEMBRO DE 1895.

00.07.1885 - O Guarda Marinha Príncipe Augusto Leopoldo Saxe-Coburgo e Bragança, neto do Imperador D. Pedro II, visita Yokohoma a bordo do Cruzador Almirante Barroso.

27.10.1888 - Jornal do Comércio, do Rio de Janeiro, publica relação dos participantes da viagem de circunavegação do Cruzador Almirante Barroso, com estadia em Yokohama, incluíndo o Príncipe Augusto Leopoldo.

00.00.1890 - Chega a Paris o Ministro Plenipotenciário do Brasil na França, Gabriel de Toledo Piza e Almeida, que negociaria a etapa final para a assinatura do Tratado de Amizade, de Comércio e de Navegação Brasil-Japão.

22.10.1890 - Apresentação das credenciais, em Paris, do Ministro Gabriel de Toledo Piza e Almeida, Chefe da Legação do Brasil na França.

15.11.1894 - Empossado, no Rio de Janeiro, o Presidente Prudente José de Morais e Barros.

27.07.1895 - Instruções do Ministro das Relações Exteriores Carlos Augusto de Carvalho é Legação do Brasil em Paris, com respeito aos interesses nos assuntos de emigração e comerciais.

12.09.1895 - Autorizada a Legação do Brasil em Paris a aceitar a vigência de 12 anos para o Tratado, proposta pelo Japão.

05.11.1895 - Assinatura, em Paris, do Tratado de Amizade, de Comércio e de Navegação Brasil-Japão.

18.06.1908 - Desembarque, em Santos, dos primeiros emigrantes do Japão, vindos no navio Kasado Maru.

23.09.1940 - Celebrado, no Rio de Janeiro, Convênio de Intercâmbio Cultural Brasil-Japão.

05.11.1941 - Troca de ratificações do Convênio de Intercâmbio Cultural Brasil-Japão, ocorrida no Rio de Janeiro.

07.09.1957 - Primeira correspondência do poeta concretista Haroldo de Campos ao poeta da vanguarda japonesa Katue Kitasono.

16.04.1960 - Inaugurada no Museu Nacional de Arte Moderna em Kyobashi-Tóquio a Exposição de Poesia Concreta Brasileira.

00.00.1960 - Publicada em Tóquio a antologia "8 haikais de Pedro Xisto".

23.01.1961 - Assinatura, em Tóquio, do Acordo Cultural Brasil-Japão.

31.01.1961 - Término do mandato do Presidente Juscelino Kubitscheck de Oliveira, iniciado em 31.01.1956.

00.11.1962 - O Governador da Província de Kanagawa, Iwataro Uchiyama, divulga o projeto do Palácio Internacional dos Congressos de Hakone, de autoria do arquiteto Wilson Reis Neto.

08.10.1964 - Troca de ratificações do Acordo Cultural Brasil-Japão, ocorrida em Brasília.

BIBLIOGRAFIA
- Aluísio Azevedo/Luiz Dantas - O Japão. Roswitha Kempf Editores. São Paulo, SP, 1987.
- Jorge Fonseca Júnior - Roteiro Lírico. São Paulo, SP, 1939.
- Anais – IX Colóquio de Estudos Luso-Brasileiros. 1975, Tóquio.
- Anais - X Colóquio de Estudos Luso-Brasileiros. 1976, Tóquio.
- Anais - XII Colóquio de Estudos Luso-Brasileiros. 1978, Tóquio.
- Cultura Japonesa - Aliança Cultural Brasil-Japão. São Paulo, Rio de Janeiro e Curitiba.
- Érico Veríssimo - O Senhor Embaixador. Porto Alegre, Editora Globo, 1965.
- Kikuo Furuno - Numa Campina Verde-Mar Distante. Aliança Cultural Brasil-Japão/Massao Ohno. São Paulo, SP. 1991. - Waldemar Carneiro Leão - A crise da Imigração Japonesa no Brasil (1930-1934) - Instituto de Pesquisa de Relações Internacionais da Fundação Alexandre de Gusmão. 1990.
Comentários

Marcos  -

Continue assim........... parabens

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