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Ensaios-->Análise canção: " REBENTO" de Gilberto Gil -- 10/12/2003 - 15:57 (PAULO HENRIQUE COELHO FONTENELLE DE ARAUJO)
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REBENTO

Rebento, substantivo abstrato,
o ato, a criação, o seu momento,
como uma estrela nova e seu barato
Que só Deus sabe lá, no firmamento.

Rebento, tudo que nasce é rebento,
Tudo que brota, que vinga, que medra,
Rebento raro como flor na pedra,
Rebento farto como trigo ao vento.

Outras vezes rebento simplesmente
No presente do indicativo,
Como a corrente de um cão furioso,
Como as mãos de um lavrador ativo.
Às vezes, mesmo perigosamente,
Como acidente em forno radioativo,
Às vezes, só porque fico nervoso,
Rebento,
Às vezes somente porque estou vivo.
Rebento, a reação imediata
A cada sensação de abatimento.
Rebento, o coração dizendo “bata”
A cada bofetão do sofrimento.
Rebento, esse trovão dentro da mata
E a imensidão do som desse momento.

Gilberto Gil


A primeira observação que desponta na letra da canção “Rebento” de Gilberto Gil é o seu caráter metalinguísitico. Buscou o autor, a partir das origens, possibilidades de significação e desdobramentos poéticos da palavra “rebento” definir o próprio ato da criação.
A palavra “rebento” é classificada nas duas primeiras estrofes como substantivo abstrato e na terceira e última estrofe usa-se o signo como verbo. As duas acepções relacionam-se respectivamente ao resultado de uma inspiração artística e também ao ato de rebentar - variante do verbo arrebentar que significa: estourar; explodir; quebrar violentamente e aparecer .
As utilizações da palavra “rebento”, contudo, não se esgotam nas referências gramaticais acima indicadas - marcadamente expostas no primeiro e no nono verso - e vão, dentro de uma rede de imagens dispostas de forma gradual, definir o ato da criação artística e consolidar esta ocorrência através de uma imagem correspondente, de forte impacto, que sintetiza tanto o substantivo abstrato como o verbo e encerra o texto: “trovão dentro da mata/ E a imensidão do som desse momento”.
Mas há outros recursos que enfatizam os dois significados. Note-se que o substantivo abstrato, na sua categoria nominal, relaciona-se com cenas estáticas. O rebento inspiração é, portanto, “estrela nova” , “Deus no firmamento”, “flor na pedra”. Em contrapartida, o rebento verbo relaciona-se com um dado acontecimento sofrido pelo próprio eu – lírico “ rebento simplesmente” que tenta definir o que se passou em imagens que expressam movimento, tais como a quebra da “corrente de um cão furioso”, “o coração dizendo bata” e “bofetão do sofrimento”. Na verdade, não há apenas uma síntese das duas categorias gramaticais geradas pela mesma palavra; o que o autor expressa também é que tanto a inspiração como o ato de criar surgem dentro do seu “ coração dizendo bata”. A síntese inspiração/criação seria um processo íntimo.

Outro recurso, em íntima relação com um dos significados (algo que arrebenta, explode, aparece) e enfatizando-o já no plano do significante – mais adequado à linguagem musical que completa a obra - é o uso do fonema bilabial oclusiva sonoro (b) e da alveolar oclusiva surda (t) com um outro fonema em contraponto, que suaviza a “explosão” dos fonemas oclusivos: a bilabial nasal sonora (m). Note-se que a referência a estouro, inicia o poema, no verso 01, na seqüência da bilabial (b) e alveolar (t) expressa em três palavras: “rebento, substantivo abstrato”. No momento seguinte, no segundo verso, a bilabial nasal (m) em “momento” realiza o contraponto e fecha-se a primeira definição de rebento, substantivo abstrato.
O esquema de contraponto prossegue por todo o texto e é funcional se pensarmos na harmonia que a letra deve manter com a composição musical. Um poema formado exclusivamente pelo fonema bilabial (b) tornaria o texto truncado, prejudicando a assimilação da música cantada por Gilberto Gil. Nos versos finais o contraponto já ocorre imediatamente, no verso 07: “rebento raro como...” , no verso 09: “rebento simplesmente” , no verso 21: “bofetão do sofrimento” e no verso final “E a imensidão do som desse momento” – seqüências da bilabial nasal (m) que realizam um paralelo com o primeiro verso do poema acima detalhado.
Há outros esquemas formados a partir da sonoridade das palavras e que também colaboram para a conexão letra e música: a rima é um deles, embora sem uma alternância lógica nos versos.
Por fim, há uma terceira acepção da palavra “rebento” não exposta no poema ( que fala de inspiração e movimento). É “rebento” o produto da criação, rebento, na tortuosidade da palavra que, em certas regiões do país é sinônimo do filho em relação à mãe que o gerou; rebento, como algo que o autor poderia explicar como o texto ali exposto, o seu atual rebento poético que foi gerado e é um “substantivo concreto”.

O poema de Gilberto Gil as três significações possíveis do ser “ rebento“ estão, portanto, sob controle de um contexto no qual se encaixam para justificar uma concepção íntima e libertadora da arte.



 

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   Amanda  08/02/2014 09:17
Havia pensado nessa 3ª acepçao, e achei legal ler essa análise tao bem feita.    



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