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Artigos-->OS NOMES DA MINHA ILHA -- 07/05/2006 - 22:12 (José J Serpa) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
Os primeiros povoadores da Ilha das Flores instalaram-se nas fajãs mais acessíveis do mar. O mar era o cordão umbilical que os ligava à pátria e à família que tinham ficado lá do outro lado...



Era a única esperança de regresso, a certeza dum socorro, era o elo de ligação ao passado, à própria identidade. As casitas que construíam eram voltadas para o mar com janelitas abertas à esperança duma vela que lhes viesse lembrar quem eram e lhes matasse as saudades da terra, dos parentes, dos costumes...



Até os contactos com os outros povoadores, de fajã para fajã, eram feitos por mar, que os caminhos de terra eram, não só inexistentes, mas impossíveis.



Ainda hoje, apesar duma paisagem totalmente humanizada, a Ilha das Flores nos impressiona profundamente com os seus picos e morros, os seus rochões, as suas ribeiras, as suas caprichosas formações rochosas. O Pico do Touro, o Pico da Sé, o Pico da Burrinha, o Morro Alto, o Morro dos Frades, o Rochão do Junco, o Rochão das Feiticeiras, a Ribeira da Lapa, a Rocha dos Bordões ainda não tinham nome, eram apenas barreiras temíveis a guardar os mistérios do interior.



Quem pudesse saber quando e porquê foi dado a cada lugar o nome que tem, teria acesso não só à cronologia da colonização da ilha, mas sobretudo ao drama humano que se foi desenrolando com a humanização da paisagem. A casa velhinha dos meus avós foi construída na Terra da Velha, na Costa do Lajedo. Quantas vezes eu me tenho perguntado quem era a velha em cuja terra meu avô construiu a sua casa... Outra propriedade que durante gerações desempenhou papel importante na economia e na identidade da nossa família fica num sítio chamado Curral de Joana. Quem terá sido esta Joana cujo curral serviu de ponto de referência para os vizinhos nomearem os seus prédios?



Há lugares cuja própria fisionomia aponta com clareza para a razão do nome que têm. O Pé-da-Rocha e O Castelo, por exemplo, são lugares, lá para o sul da ilha, que tiraram o seu nome da morfologia local. O Pé-da-Rocha fica mesmo ao pé da rocha do Pico e O Castelo é uma formação rochosa tão sugestiva do nome que tem que parece que já nasceu com ele.



Mas e os outros? Os milhares de nomes de lugares da ilha de que se perdeu o significado? Essa colecção enorme de caixinhas hermeticamente fechadas, que guardam ciosamente a narrativa de episódios da história da ilha, que contém contos individuais, dramas, tragédias? A Terra da Catrina Velha, o Outeiro de Conde, a Hortinha de Bastião, o Cerrado do Bravo... Quem é que encontra a chave de cada uma dessas caixinhas que encerram a história dessa Catarina de quem só se sabe que era velha, desse conde que assim se sumiu nas dobras do tempo que foi, do Sebastião que fez ali a sua horta? Quem foi o Bravo de quem agora nos resta só o cerrado? Que bravura era a dele? Um homem corajoso que arrancou aos sorvedouros do mar algum desgraçado que se ia afogar? Um marginalizado, bisonho, barbudo que renegou o contacto social e se encerrou no seu cerrado?



Meu Deus, como eu gostava de conhecer e depois revelar todo o mistério encerrado nos nomes da minha ilha! Mas para muitos deles, talvez a maioria só nos resta uma chave — a imaginação.





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