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Infanto_Juvenil-->Morte e vida de Maria Emília -- 16/04/2018 - 11:01 (Adalberto Antonio de Lima) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos







Os gêneros literários não morrem. 
Passam pela metamorfose da evolução do homem 
e do mundo. Eclodem e tornam-se eternamente vivos.
 
 
Tinha sete anos, e  se lembra de quase todas as estórias que sua avó contava.  A avó passava a mão na cabeça da netinha e dizia: ‘Durma, Princesa, durma... Vou retirar os monstros dos teus olhos. Pode dormir agora. Eles já se foram!’  
Dormia, não sem antes reclamar: “Eles estão voltando, vovó! Os monstros estão em meus olhos e não me deixam dormir. Conte uma estória!”

— Posso contar outra vez A Lagoa Encantada?
— Não, aquela não! Tenho medo da carimbamba.
— Já contei todas  que sabia!
— Pode ser inventada, vovó!  Pode ser inventada.
— Todas as estórias são inventadas, minha filha!
— Então invente uma!

E Corina contou:
A fada da sabedoria foi convidada para um congresso que deveria acontecer, nos primeiros dias de vida de uma pequena formiga albina. A formiga seria um fardo para o formigueiro, por isso, deveria ter sido arrancada e jogada fora, quando ainda ovo. O destino da pequena formiga estava prestes a transformar-se num exílio de vida ou numa pena de morte, mas, por sorte, a fada madrinha postou-se no meio da assembleia e vaticinou: ‘Esta menina será frondosa como uma palmeira, e quando soprar o vento Norte, navegará os sete mares e será muito aplaudida. O som de seu trompete será um acalento para a alma de quem dela se aproxima, e toda a Terra conhecerá seus feitos. ’ 

Houve profundo silêncio, no mundo encantado das formigas, em seguida, a rainha decretou:  ‘A partir de agora, a formiga albina se chamará Beethoven. Providenciem a orquestra, organizem o espetáculo, quero ouvir o último momento da quinta sinfonia. ’

— Beethoven existiu de verdade, vovó?
— A formiga Beethoven, só existiu na imaginação de seu criador, mas o compositor existiu. A nova sinfonia de Beethoven, por exemplo, faz um bem enorme a minha alma. Por certo, minha filha, gerações futuras, haverão de usar a boa  música para estimular o cérebro humano a se reorganizar.

Teve vontade de dizer que o menino Davi tocava harpa quando, o rei Saul se sentia perturbado por maus espíritos, e logo que Davi tomava a harpa, Saul acalmava-se, sentia-se aliviado e o espírito mau o deixava.   Pareceu que a avó falava de um menino sem parte do cérebro, que  aprendeu a ler e a escrever, ouvindo músicas. Mas, como  poderia saber de Herman, se ele ainda  não nasceu? Como saber se não será abortado?  Muitos morrem antes de nascer!... 

Como morre uma pessoa antes de nascer, a boneca de Ravenala  não compreendeu. Talvez Corina falasse de seu filho Ludovico que tinha  um buraco no cérebro, viveu sete anos e aprendeu a tocar cavaquinho.  Ou falasse mesmo de Beethoven! Não necessariamente da formiga, mas do alemão filho de dona Magdalena. 

— Beethoven tinha um buraco no cérebro?
— Não! Ele tinha um cérebro privilegiado.
— Não entendi.
— Desculpe-me, Maria Emília! Esqueço que sua cabeça é de pano.
— Branquela!
— Cuidado com o preconceito racial. Em nosso país, isso é crime. Também é crime quebrar um ovo de tartaruga, mas é permitido matar um feto humano.
— Maria Emília... Maria Emília... Alô, alô...

O diálogo interrompeu-se como se a operadora móvel houvesse derrubado a linha, deliberadamente. 
Passos arrastados aproximam-se do quarto. 
— É vovó! Finja que dorme!...
— Já estou fingindo.

O trinco deu um estalo e a porta do quarto se abriu. Corina vê Emília embrulhada em panos de dormir. E o telefone fora do gancho, como se fora atirado com ímpeto ao chão.

— Não se ponha o sol sobre a tua ira, disse Ravenala, ao perceber que Emília estava zangada.
— Conversando com nuvens roxeadas, minha filha?
— Não, vovó! Emília está aborrecida comigo.
— Por que Emília está brava contigo?
— Dei uma palmada no bumbum dela.
— Amanhã pedes desculpas a Emília!
— E se não houver amanhã? Se o sol tiver preguiça de acordar? Tenho medo do escuro!
—É necessário que o dia velho descanse e desperte renovado. É preciso que o galo cante três vezes para despertar o homem que dorme. 
 — Não deveria haver noite! Vultos vagueiam. Vampiros e lobisomem passeiam na escuridão.
— Isso é lenda!
— A carimbamba também é lenda? Tenho medo da carimbamba.

A lenda se constrói com retalhos da realidade e já não se sabe mais onde termina uma e começa a outra. Muitas vezes,  a ficção avança os muros da realidade ou a realidade penetra o labirinto da ficção. O que hoje é ficção, amanhã pode ser realidade. A ficção é uma verdade que ainda não aconteceu.
Ravenala insiste.

— A carimbamba existe?
 — Quando se acredita numa coisa, ela passa a existir de verdade. Mas a carimbamba só existe em teus medos. E agora que se casou com a mocinha camponesa, o encanto foi quebrado.
— E a velhinha?
— Bem, a velhinha faz parte da técnica utilizada pelo autor, para que a história nunca acabe, continue viva e passe de geração para geração. A ficção mostra-se  tão real, que  personagens dos contos de fadas saem dos livros e vão morar em mundos reais, como a tua  boneca. Sabe de onde ela  veio?
— Emília  me falou que seu pai era  um homem bom, e foi preso, porque escrevia livros. Se eu escrever um livro, também serei presa?
— Não dê crédito a tudo  que diz uma boneca. Agora, durma, Princesinha.

Corina retirou-se. Seus passos lentos se afastavam, até desparecerem do alcance auditivo da neta.

— Pode acordar,  Emília! A vovó já foi.
— Quero dormir e não consigo!
— Conte carneirinho.  
— Não sei contar carneirinho...
— Conte assim: Um, dois, três...Galinha pedrês...Quatro, cinco, seis...Tem ovo no indez...
 Zzzzzzzzzzzzzzz...
— Emília, Emília!...
Zzzzzzzzzzzzzzz...

***
Adalberto Lima, trecho de Estrela que o vento soprou.






Adalberto Lima




Enviado por Adalberto Lima em 15/04/2018



 

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