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Artigos-->A DUALIDADE HUMANA EM A HORA E A VEZ DE AUGUSTO MATRAGA -- 03/01/2005 - 13:38 (Elias dos Santos Silva) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
Elias dos Santos Silva



RESUMO



O presente artigo analisa a concepção dialética do homem verificada no conto “A hora e a vez de Augusto Matraga”, do escritor mineiro Guimarães Rosa, objetivando demonstrar a visão rosiana do indivíduo como um ser que antagoniza a si próprio, perenemente, condição que faz emergir o homem in totun e cuja concepção explica e determina a hora e a vez do personagem central. Utilizando o método crítico-comparativo de abordagem textual, o artigo conclui que “A hora e a vez de Augusto Matraga” é um exercício de grande envergadura sobre a eterna dualidade humana, já pela profundidade e esfericidade de Matraga, já pela inequívoca dialética psicológica e moral que permeia a vida e as ações do personagem.



Palavras-chave: Contradição - Bem x Mal - Dialética.



INTRODUÇÃO



Guimarães Rosa e sua literatura de pequenas gentes, grandes personagens, inscrevem-se em um devir histórico que tem legado aos povos (pelo menos à minguada parte letrada dos mesmos) algumas das mais belas páginas do fazer literário que diferencia os mestres das letras dos garatujadores de todos os tempos.

Isso se verifica, entre muitos outros exemplos, em “A hora e a vez de Augusto Matraga”, o último dos contos de Sagarana, no qual se cristalizam o choque e o amalgama entre os complexos meandros da alma humana, do homem como antítese de si próprio, bem como os dicotômicos ângulos da práxis antropológica aplicada à literatura.

Tendo por base essas considerações, o presente objetiva analisar a dialética de Rosa presentificada no conto tomado para exame, com vistas a trazer a lume a síntese de um homem (Augusto Matraga) cuja tese é o Mal e cuja antítese é o Bem, facetas que se somam, se antagonizam e se mesclam de modo a formar um elemento único, embora profundamente humano e esférico, capaz de amar e sofrer, humilhar e impingir sofrimento aos seus semelhantes.

Evidentemente, não é pretensão do estudo aqui apresentado exaurir os muitos ângulos possíveis de análise da obra, tanto quanto não é seu propósito dar a última palavra sobre a dialética rosiana, mas tão somente oferecer um breve contributo pessoal às discussões que já tiveram lugar sobre a obra do criador de Nhô Augusto Esteves e Diadorim.



A hora e a vez de Augusto Matraga: um resumo despretensioso



Augusto Esteves ou Nhô Augusto ou Augusto Matraga é um fazendeiro à beira da falência que, não obstante, ainda procura manter seus ares de coronel do sertão mineiro. Cercado de capangas, dono de uma personalidade voluntariosa e arrogante, Esteves, já no início do conto, aparece em cena tomando posse brutalmente do seu espaço social: acotovela e pisa os pés de alguns matutos que assistiam, entre eufóricos e animalizados, ao leilão de duas mulheres atrás da igreja. Valendo-se de sua posição, Esteves arremata Sariema, mulher decaída e pouco atraente, esbofeteando, de passagem, um capiau que dela se enamorara. Pouco depois, despacha a mulher, sem qualquer cerimônia, por não julgá-la atraente e segue adiante, procurando formas de demonstrar sua valentia. É justamente nesse percurso que recebe a notícia, por intermédio de Quim Recadeiro, de que sua esposa o espera para irem juntos à fazenda Morro Azul, outra de suas propriedades. Esteves manda dizer que não vai com a mulher e a filha e continua seu giro à procura de confusão. Dionóra, a esposa, lamenta mais essa desfeita do marido, mas não deixa de pensar em Ovídio Moura, homem que a corteja há tempos e com o qual acaba por fugir quando o encontra na viagem para Morro Azul. Recadeiro retorna para o Arraial da Virgem Nossa Senhora das Dôres do Córrego do Murici com a notícia da fuga da mulher de Nhô Esteves, além da informação de que os capangas deste agora servem ao Major Consilva, antigo desafeto dos Esteves. Augusto, antes de seguir atrás da mulher e da filha, vai até à fazenda de Consilva, onde é brutalmente agredido pelos capangas do desafeto, acabando por ser esfaqueado, espancado e ter seu glúteo direito marcado a ferro pelos jagunços. Esteves atira-se numa ribanceira, onde é encontrado e tratado por um casal de negros por meses a fio. Após um longo período, no qual Esteves muda radicalmente sua percepção da vida, os três se dirigem a um distante sítio do ex-coronel, no qual vivem por muitos anos, durante os quais a principal ocupação de Nhô Augusto é trabalhar, por si e pelos outros, e rezar, continuamente. Um dia, chegam ao arraial Joãozinho Bem-Bem e seus cangaceiros, sendo hospedados por Augusto Esteves, que confraterniza e mesmo se sente tentado pelo estilo de vida dos meliantes. Pouco depois, o próprio Esteves parte do arraial, montado em um jumento, que aceita como cavalgadura por julgá-lo um animal abençoado. Tempos depois, bem próximo ao Arraial de Murici, defronta-se novamente com Bem-Bem e seus capangas e, por saber que estes vão matar o filho de um velho, acaba por enfrentá-los a tiros e facadas. Tanto Bem-Bem como Esteves morrem no duelo final quando, enfim, este último vê chegar sua hora e vez.



A dialética: algumas considerações conceptuais



Elemento fundamental para a compreensão de uma das facetas do conto de Rosa, a dialética pode ser concebida sob quase tantos pontos de vista e ângulos de análise quanto soem ser os estudiosos que se dedicam ou se dedicaram a delimitar seus contornos conceptuais. Não obstante e até mesmo por necessidades didáticas, cumpre esclarecer o que entendemos por dialética e qual a concepção de que fazemos uso neste artigo, tarefa para a qual podemos nos valer do pensamento de Hegel (2000, p.15), segundo o qual



A mais alta dialética do conceito (...) é produzir e conceber a determinação, não como oposição e limite simplesmente, mas compreender e produzir por si mesma o conteúdo e os resultados positivos, na medida em que, mediante esse processo, unicamente ela é desenvolvimento e progresso imanente. Essa dialética não é (...) senão a alma própria do conteúdo, que faz brotar, organizadamente, seus ramos e seus frutos. (...) a legitimidade de um sistema filosófico só se instaura como tal desde que, nesse sistema, incluam-se o negativo e o positivo do objeto, e na medida em que tal sistema reproduza o processo pelo qual o objeto se torna falso, em seguida, voltar à verdade.



Assim sendo, por dialética entendemos não a fórmula simplista de negação sintética como resultado do confronto entre tese e antítese, mas sim um sistema que traz em si elementos opostos que se antagonizam em caráter perene, dando lugar a novos eventos derivados que contradizem tanto a proposição, quanto à sua negação, sem deixar de encampá-los e, ainda, sem deixar de negá-los, num contínuo e indissociável exercício de proposição/negação do novo e do diverso.

Hegel (1997, p. 36), mais uma vez, procura explicar esse perpétuo antagonismo salientando que



Se algo existente não pode, em sua determinação positiva, abarcar ao mesmo tempo sua determinação negativa e manter firme a uma e outra, isto é, se não pode ter em si mesmo a contradição, então não é esta a unidade vivente mesma, não é fundamento, antes sucumbe na contradição.



Conquanto o filósofo alemão se refira, no caso em tela, a idéias e elementos situados no plano da abstração, não é inapropriado remeter suas asserções para o âmbito humano, mais precisamente para a compleição psicológico-moral do homo sapiens, dado que se a perfeição não é humana, também não o é a demonização total do indivíduo. Temos, pois, assim, um silogismo primário: todo homem é fruto do pecado e do divino, logo, ser homem é ser anjo-demônio, em caráter perpétuo, posto que, se for anjo, não será tanto e, da mesma forma, sendo demônio não se enquadra no gênero humano.

Nietzsche (2000, pp.303-304), ao abordar a natureza do conhecimento, das convicções e mesmo das crenças do indivíduo, é ainda mais oportuno ao avaliar a questão da dialética onipresente nos homens e nas idéias que produzem ao afirmar que



A crença fundamental dos metafísicos é a crença nas oposições dos valores. Nem sequer aos mais cautelosos dentre eles ocorreu duvidas já aqui no liminar, onde no entanto era mais necessário: mesmo quando se juramentaram ‘de omnibus dubitandum’. Pode-se, com efeito, duvidar, em primeiro lugar, se há em geral oposições e, em segundo lugar, se aquelas vulgares estimativas e oposições de valor sobre as quais os metafísicos imprimiram seu selo não seriam talvez apenas estimativas de fachada, apenas perspectivas provisórias, talvez, além do mais, a partir de um ângulo, talvez de baixo para cima, perspectivas de rã, por assim dizer, para emprestar uma expressão que é corrente entre os pintores? Com todo o valor que possa caber ao verdadeiro, ao verídico, ao não-egoísta: seria possível que tivesse de ser atribuído à aparência, à vontade de engano, ao egoísmo e ao apetite um valor mais alto e mais fundamental para toda a vida. Seria até mesmo possível, ainda, que o que constitui o valor daquelas boas e veneradas coisas consistisse precisamente em estarem, da maneira mais capciosa, aparentadas, vinculadas, enredadas com aquelas coisas ruins, aparentemente opostas, e talvez mesmo em lhes serem iguais em essência.



Tendo em vista tais considerações, é possível formularmos uma crença rosiana primordial, qual seja, se existe virtus, este somente existirá à medida que existir sua face reversa, logo Bem e Mal são unos, inseparáveis, ou, como se verifica no conto de Guimarães Rosa, é preciso que Nhô Augusto não seja mais nada ou, ainda, que seja um amálgama de faces contrárias para, somente então, ter sua hora e vez.

Partindo dessas asserções, propõe-se a seguir um breve esquema de tese, antítese e síntese, tendo por base as afirmações de Kant (2000) sobre a dialética.



Tese



Nhô Augusto, Coronel de maus bofes, chefe de jagunços e pai de família apenas no sentido formal, é, basilarmente, um homem mau, cujo comportamento busca reafirmar, a todo instante, seu caráter brutal, desrespeitoso e francamente belicoso.



Prova



Augusto Esteves é, nos tempos iniciais da narrativa, virtualmente, um homem mau, perpetrador de maldades e valentias tanto mais crudelas quanto o serem, basicamente, desnecessárias. É assim, por exemplo, que decide, no leilão realizado atrás da igreja, nos primórdios do conto, arrematar a pouco atraente Sariema, reificando-a sem qualquer constrangimento ou remorso. Do mesmo modo, é dispensável sua brutalidade para como capiau que da mulher se enamorara:



(...) E sua voz baixava, humilde, porque para êle ela não era a Sariema. Pôs três dedos no seu braço, e bem que ela o quis acompanhar. Mas Nhô Augusto separou-os, com uma pranchada de mão:

— Não vai, não!

E, atrás, deram apôio os quatro guarda-costas:

— Tem areia! Tem areia! Não vai, não!

— Ë do Nhô Augusto... Nhô Augusto leva a rapariga! — gritava o povo, por ser barato. E uma voz bem entoada cantou de lá, por cantar:

Mariquinha é como a chuva:

boa é, p’ra quem quer bem!

Ela vem sempre de graça,

só não sei quando ela vem...

Aí o povaréu aclamou, com disciplina e cadência:

— Nhô Augusto leva a Sariema! Nhô Augusto leva a Sariema!

O capiauzinho ficou mais amarelo. A Sariema começou a querer chorar. Mas Nhô Augusto, rompente, alargou no tal três pescoções:

— Toma! Toma! E toma!... Está querendo? (ROSA, 1965, p.321)



Temos, nesse excerto, uma amostra da personalidade de Esteves, de sua sempiterna disposição para a brutalidade injustificada, para prejudicar, humilhar ou atentar contra a vida de seus semelhantes. Prepotente, cruel e machista, Esteves vislumbra nos entreveros com pessoas mais frágeis um modo capaz de reafirmar sua “valentia”, seu poder e sua masculinidade.

Exemplo dessa afirmação é que a mesma Sariema que dera origem à agressão de Esteves contra o capiau é, logo em seguida, rechaçada pelo Coronel, por ser muito magra, aspecto que coloca em evidência não o desejo sexual ou qualquer outro fator emocional equivalente como mote para a disputa encetada por Esteves, mas sim sua arrogância, pura e simplesmente. Ele procede dessa forma apenas por que pode fazê-lo.

Nhô Augusto, contudo, não manifesta uma tal visão apenas em relação a mulheres e homens estranhos, mas também para com sua mulher legítima:



Lá em baixo, esbarrou com o camarada, que trazia recado de Dona Dionóra: que Nhô Augusto voltasse, ou ao menos desse um pulo até lá — à casa dêle, de verdade, na Rua de Cima, — porque ainda havia muito arranjo a ultimar para a viagem, e ela — a mulher, a espôsa — tinha uma ou duas coisas por perguntar...

Mas Nhô Augusto nem deixou o mensageiro acabar de acabar:

— Desvira, Quím, e dá o recado pelo avêsso: eu lá não vou!... Você apronta os animais, para voltar amanhã com Siá Dionóra mais a menina, paira o Morro Azul. Mas, em antes, você sobe por aqui, e vai avisar aos meus homens que eu hoje não preciso dêles, não.

E o Quim Recadeiro correu, com o recado, enquanto Nhô Augusto ia indo em busca de qualquer luz em porta aberta, aonde houvesse assombros de homens, para entrar no meio ou desapartar. (ROSA, 1965, p.323)



Como se verifica nos trechos acima, para Augusto Esteves, sua mulher, sua filha e a própria condição de homem casado, nada mais significam que meras formalidades, às quais o protagonista atende quando julga necessário ou quando tem necessidade de se comportar como marido ou pai. Conclui-se, pois, que estar casado, ter família, em Esteves, é algo que beira à mera convenção, nunca ao genuíno prazer de formar um ramo genealógico.

Ao mesmo tempo, é mais importante para o personagem atuar de forma consone com os ditames machistas de seu tempo, isto é, como participante de brigas ou como uma autoridade capaz de fazer cessar os conflitos, comportamento que se coaduna à perfeição com o estereótipo machista tupiniquin.



Antítese



Augusto Esteves, destituído de família, dos seus bens e de sua posição política e econômica, é apenas uma sombra do que fora. Brutalmente agredido e torturado, permanece vivo graças aos desvelos de um casal de negros e à sua progressiva fé em Deus e nas rezas que passam a se constituir seu guia na vida. Nasce, pois, um novo homem, para quem a prática da bondade, da humildade e do trabalho passam a se constituir os veículos que permitem sua comunhão com Deus.



Prova



O brutal espancamento de que é vítima na fazenda do Major Consilva, assim como a eminente proximidade do fim, levam Augusto Esteves a uma profunda reflexão sobre sua vida e, em especial, sobre os erros e pecados que até então praticara. De certa forma, sua semi-morte pode ser encarada como uma espécie de rito de iniciação antropológico, pois Esteves renasce para uma nova vida: é um “morto” que revive, e através da ressurreição, torna-se outro.



E somente essas coisas o ocupavam, porque para êle, féria feita, a vida já se acabara, e só esperava era a salvação da sua alma e a misericórdia de Deus Nosso Senhor. Nunca mais seria gente! O corpo estava estragado, por dentro, e mais ainda a idéia. E tomara um tão grande horror às suas maldades e aos seus malfeitos passados, que nem podia se lembrar; e só mesmo rezando. (ROSA, 1965, p.336)



Esteves, a partir de sua longa e penosa recuperação, tanto física quanto espiritual, deixa de ser Nhô Augusto para ser apenas Augusto, o homem em contrição, a quem as recordações de seus atos brutais e repassados de tal e qual insanidade é mais dolorosa que as feridas que prostram seu corpo no chão de barro da cabana, por meses a fio.

Sem o saber, Nhô Augusto passa por um complexo processo psicológico determinado pela dialética, a saber: a mudança da percepção sensível à percepção interna ou, como explica Husserl (2000, p. 198)



(...) Para qualquer um, a este domínio [refere-se à percepção sensível – grifo nosso] pertencem não somente as coisas externas, mas também o corpo próprio e as atividades corporais, tais como andar e comer, ver e ouvir. Por outro lado, as vivências designadas como internamente percebidas são principalmente as ‘espirituais’, tais como pensar, sentir, querer, etc., bem como, sem dúvida, tudo também que, tal como as vivências, é localizado no interior do corpo e não se relaciona com os órgãos externos.



Ora, Nhô Augusto, antes da terrível prova que quase lhe dá cabo da vida, é todo do mundo físico, uma vez que suas sensações mais fortes (comer, fazer sexo, brigar, etc.) pertencem a esse plano. Ao quedar prostrado meses sucessivos no doloroso processo de cura, o que antes ocupava o centro de sua vida passa a segundo plano, cedendo espaço, dialeticamente, à emersão do Augusto-interior.

Augusto se torna, pois, a partir de sua fuga de Murici, um homem extremamente devotado ao bem, à religião e à busca pela salvação de sua alma, encontrando no trabalho e na solidariedade poderosos lenitivos para seu sofrimentos morais e, ao mesmo tempo, a força-motriz de sua libertação moral e espiritual:



Trabalhava que nem um afadigado por dinheiro, mas, no feito, não tinha nenhuma ganância e nem se importava com acrescentes: o que vivia era querendo ajudar os outros. Capinava para si e para os vizinhos do seu fogo, no querer de repartir, dando de amor o que possuísse. E só pedia, pois, serviço para fazer, e pouca ou nenhuma conversa. (...) Quem quisesse, porém, durante êsse tempo, ter dó de Nhô Augusto, faria grossa bobagem, porquanto êle não tinha tentações, nada desejava, cansava o corpo no pesado e dava rezas para a sua alma, tudo isso sem esforço nenhum, como os cupins que levantam no pasto murundus vermelhos, ou como os tico-ticos, que penam sem cessar para levar comida ao filhote de pássaro-preto – bico aberto, no alto do mamoeiro, a pedir mais. (ROSA, 1965, pp.338-339)



Temos, nesse comportamento de Augusto, a presentificação do processo de expiação dos pecados cometidos, assim como uma peregrinação de nítido caráter religioso cuja meta é a cidadela divina, onde habitam os que trilham a senda da justiça. Nesses anos que decorreram desde a fuga de Murici, Augusto é, essencialmente, um homem bom.



Síntese



Augusto não é mais Nhô Augusto, mas também já não é mais tão somente Augusto: ele é, agora, Augusto Matraga, um homem que não mais renega seu passado violento, mas sim que aprendeu a conviver com ele, bem como a conciliá-lo com sua vida presente.



Prova



Se durante os seis ou sete anos que mourejou no arraial do Tombador como forma de expiar suas culpas e afastar as tentações, Augusto é apenas Augusto, um homem de bem e do bem, o encontro com Tião da Thereza, primeiro, e com Joãzinho Bem-Bem, em seguida, é o fator que desencadeia o processo de complexificação e amalgamento do Coronel e do Beato.



Mas, daí em seguida, ele não guardou mais poder de espantar a tristeza. E, com a triusteza, uma vontade doente de fazer coisas mal-feitas, uma vontade sem calor no corpo, só pensada: como que, se bebesse e cigarreasse, e ficasse em trabalhar nem rezar, haveria de recuperar sua força de homem e seu acerto de outro tempo, junto com a pressa das coisas, como os outros sabiam viver (ROSA, 1965, p.340).



O fragmento acima é particularmente eloqüente na demonstração da síntese entre o Augusto do Mal e o Augusto do Bem, posto que o personagem já não olha para seu passado com a vergonha e a contrição de outrora, mas sim com uma espécie de saudade, derivada da compreensão que, com exceção dos atos brutais e dos erros que cometera, Augusto se sentia, então, (e possivelmente o fosse, de fato) um homem.

Sua metamorfose de Augusto em Augusto Matraga, contudo, não se dá, como já ocorrera quando de sua conversão, sem luta, sem recaídas e sem temores: as rezas continuam, as penitências se acumulam, o trabalho por si e pelos outros torna-se ainda mais intenso.



E assim nêsse parado Nhô Augusto foi indo muito tempo, se acostumando com os novos sofrimentos, mais meses. Mas sempre saía para servir aos outros, quando precisavam, ajudava a carregar defuntos, visitava e assistia gente doente, e fazia tudo com uma tristeza bondosa, a mais não ser. Até que, pouco a pouco, devagarinho, imperceptível, alguma cousa pegou a querer voltar para êle, a crescer-lhe do fundo para fora, sorrateira como a chegada do tempo das águas, que vinha vindo paralela: com o calor dos dias aumentando, e os dias cada vez maiores, e o joão-de-barro construindo casa nova, e as sementinhas, que hibernavam na poeira, esperando na poeira, em misteriosas incubações. Nhô Augusto agora tinha muita fome e muito sono. O trabalho entusiasmava e era leve. Não tinha precisão de enxotar as tristezas. Não pensava nada... (ROSA, 1965, p.342)



Cria força o novo Augusto, erigido a partir dos choques e entrechoques do Mal com o Bem, do Coronel e do Beato, amalgamam-se seus lados contrários, os espelhos de sua alma passam a se fundir e criar uma nova imagem, que nega o prepotente e o humilde, o arrogante e o serviçal, o cruel e o bondoso. Matraga nasce, então, em toda a sua plenitude (o rito de iniciação antropológico se repete).

Nesse contexto, a partida de Augusto Matraga da casa em Tombador, sua viagem sem direção, seu estado de espírito e seu bem-estar com a vida em geral nada mais são que reflexos e conseqüências da síntese entre o valentão e o devoto. De fato, Nhô Augusto, o Coronel, não poderia ser, tendo em vista seu passado e seu temperamento, um simples agricultor, tanto quanto Augusto, o bondoso, não poderia acompanhar os bandoleiros de Bem-Bem sertão afora em tiroteios e matanças. Augusto Matraga, porém, em sua condição de homem-síntese e de negação de seus homens-pai, pode afastar-se da vida brutal do matador e da vida servil do lavrador saindo pelo mundo, sem direção.

É como Augusto Matraga que o personagem encontra-se com Joãzinho Bem-Bem no arraial do Rala-Côco e é, evidentemente, como o homem-negação que fica sabendo que seu conhecido deseja matar um dos irmãos do assassino de seu capanga Juruminho.

Matraga, o bom, reza pela alma de Juruminho e faz contrição por sua alma, além de admoestar a Bem-Bem para não ser malévolo contra os ritos da religião. É, ainda, Matraga, o bom, quem o exorta a liberar o pai do assassino de Juruminho da pesada dívida de sangue que Bem-Bem deseja cobrar.

Matraga, o mau, se interpõe entre o cangaceiro e a sua pretendida vítima, desafiando-o abertamente. Matraga, o mau, promove uma grande escaramuça com os bandidos, matando ou ferindo três dos mesmos, além de trocar punhaladas com seu chefe, terminando por matá-lo.

Dessa forma, a hora e a vez de Augusto Matraga, vaticinada pelo padre ainda na cabana de pau-a-pique onde o ex-Coronel se restabelecera, não é, em absoluto, nem a hora da prevalência do Bem, nem do Mal: é uma síntese das personalidades de Augusto, do seu caráter violento e de sua conversão religiosa. Quem mata Joãzinho Bem-bem e salva o velho e sua família não é o Coronel ou o Beato, mas sim um homem nascido a partir da fusão de ambos e que nega tanto a matriz divina, quanto a diabólica.

Fica claro, dessa forma, que a hora e a vez de Augusto Matraga somente ocorre quando da fusão do Anjo-Demônio, que, como ser híbrido, não pertence à esfera do mal absoluto, nem do bem supremo, mas sim a uma nova fase do homem-personagem, qual seja a do “brigador justo”, o que quer que isso signifique na perspectiva psicológica, moral e social.



CONCLUSÃO



Conforme se evidenciou na análise que ora é apresentada do conto de Guimarães Rosa, a dialética é um recurso inequívoca e magistralmente empregado pelo literato para fazer emergir as várias faces da complexa e esférica personagem-título e, principalmente, para explicar quando e por quê se dá sua hora e vez.

É óbvio que este é apenas um dos processos de criação empregados pelo autor, não se constituindo, sequer, no principal deles, mas apenas um modo de demonstrar o árduo e sofrido percurso que Augusto Matraga percorre antes de ter, enfim, o direito de mostrar-se in totun, como perfeito ser humano e personagem literário.

Dessa forma, o final surpreendente e grandioso do conto pode ser concebido, entre outras alternativas, como a reafirmação do caráter pluralizado e múltiplo do homem, bem como das possibilidades de evolução e aprimoramento imanentes ao ser humano, independente dos fatos e eventos que marcaram sua trajetória.

Nesse sentido e ainda que uma tal proposição incorra em uma ousadia temerária, acreditamos que o conto, especialmente o seu final, parece trazer a lume a compreensão ampla e dialética de Guimarães Rosa da natureza do homem, ao mesmo tempo em que revela um inegável otimismo do escritor para com a redenção do indivíduo, mesmo que esta se dê sob a eterna dualidade de um ser que traz em si as luzes do Céu e as trevas do Inferno.



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS



HEGEL, Georg Wilhelm Friedrich. Estética: a idéia e o ideal – Estética: o belo artístico ou o ideal. Tradução de Orlando Vitorino. São Paulo: Nova Cultural, 2000. (Coleção Os Pensadores).



HUSSERL, Edmund. Investigações lógicas. Tradução de Zeljko Loparic e Andréia M. Altino de Campos Loparic. São Paulo: Nova Cultural, 2000. (Coleção Os Pensadores).



KANT, Immanuel. Crítica da razão pura. Tradução e notas de Valério Rohden e Udo Baldur Moosburger. São Paulo: Nova Cultural, 2000. (Coleção Os Pensadores).



NIETZSCHE, Friedrich. Obras incompletas. Tradução e notas de Rubens Rodrigues Torres Filho. São Paulo: Nova Cultural, 2000. (Coleção Os Pensadores).



ROSA, Guimarães. A hora e a vez de Augusto Matraga. In: ____________. Sagarana. 7. ed. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 1965.







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