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Ensaios-->Raimundos & Planet Hemp: o som que vem dos intestinos -- 21/01/2000 - 10:04 (José Maria e Silva) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
RAIMUNDO & PLANET HEMP

O som que vem dos intestinos

Com uma guitarra na mão e palavrões na cabeça, roqueiros transformam a música popular numa caixa de descarga dos instintos


Não faz muito tempo, um violão em seresta anunciava o luar. E uma canção, em versos de gala, balbuciava o amor. Roqueiros aprendizes, discípulos de Beatles ou de Elvis Presley, ponteavam gírias inofensivas, em suas tímidas guitarras, e o erotismo, quando havia, era um exercício de adivinhação. Um jovem Roberto Carlos ousava dizer à namorada que tudo que era dela, da cabeça aos pés, pertencia a ele. E era criticado por tanta ousadia. Um pouco mais tarde, ousaria cantar as camas e seus segredos, falando de cavalgadas e lençóis macios. Mas só isso bastava para escanda-lizar. Hoje, as românticas canções de Roberto não servem nem para motel — podem ser cantadas em igrejas, de tão inocentes. Em seu lugar, impera a pornografia sem fronteiras, que faria corar ao próprio Marques de Sade e espantaria até Pasolini.
O que haveria de pensar um pai caso ouvisse um rapaz dizer à sua filha: “Fico imaginando seu rabo quente me dizendo sim”? Ou que flagrasse o rapaz insistindo com ela: “Se eu fosse um cara amargo, arrombava esse cu doce”? Pois, ou não sa-bem, ou fingem não saber, mas é isso o que meninos e meninas de dez, doze, quinze anos, com pai e mãe em casa, estão ouvindo todos os dias, muitas vezes por iniciati-va da própria família. Frases como as citadas infestam a música popular que se ouve nas rádios, do pagode ao rock, passando pelos raps dos morros cariocas e quase chegando à música sertaneja, que é ainda um pouco mais comedida. O disco Lavô, Tá Novo, dos Raimundos, onde essas frases se encontram em Sereia da Pedreira, pode ser comprado em qualquer esquina — e tem sido bem comprado, aos milhares, por sinal. O disco, como os demais do gênero, compraz-se em transformar estrume em som e vendê-lo como música.
Grupos como Os Raimundos são considerados inovadores pela crítica roqueira. A exemplo de Chico Science e Nação Zumbi, credita-se a eles o mérito de terem integrado os ritmos nordestinos ao rock. Entretanto, o primeiro a ligar a cultura nor-destina na tomada e dar a ela a ferocidade dançante da música urbana foi Alceu Va-lença, em meados da década de 70. E Alceu, um advogado com passagem pelo jornalismo, domina bem a palavra, ao contrário dos Raimundos, que apenas sabem violentá-la, como fazem em Cabeça de Bode, uma das faixas de Lavô, Tá Novo: “Em uma noite bem suada / Eu acordei de madrugada / Com uma fome de comer / Alguma coisa forte / Fome da porra e que agonia”.
Num crescendo, os palavrões se enfileiram: “O meu jantar ia ser a parte do a-nimal / Que é mais dura que meu pau / Só sendo rango de homem não fode / Meta o pau na aranha e coma a cabeça do bode”. Espécie de canção-manifesto, em que Os Raimundos se utilizam do bode, um animal abundante no Nordeste, para falar de sua trajetória, Cabeça de Bode tem algumas frases que os rapazes do grupo devem ter achado lapidares, quando as excretaram na garagem de casa: “Tomamos muita porrada no decorrer desses anos / Com o suor de nossos corpos chegamos onde es-tamos”. Depois de afirmarem que espalham “idéias” de Norte a Sul, Leste a Oeste, Os Raimundos arrematam: “Pra segurar a onda tem que ter as manha”. A concordân-cia estropiada chega a ser irrelevante em meio à indigência de toda a letra.
Gritadas pela histeria da guitarra, surradas pelo rufar da bateria e sacudidas pe-los resmungos do baixo, o indefectível trio de todas essas músicas, as palavras se ati-ram nas canções dos Raimundos. E são sempre as mais pesadas que abrem as faixas, como em Pitando no Kombão: “Porra, era tudo doido da porra no kombão / Buceta, só se falava de buceta no kombão”. Nessa, como em outras músicas, o grupo mostra que droga não é exclusividade do Planet Hemp, e também faz a apologia da maco-nha. Em outra faixa, a grosseria começa pelo título: Esporrei na Manivela. E o primei-ro verso repete a dose: “Entrei no trem, esporrei na manivela / Cobrador fila da puta me jogou pela janela / Caí de quatro com o caralho arregalado”. Depois, com uma doentia aversão a qualquer tipo de autoridade, o grupo leva o escracho para a dele-gacia: “O delegado me mandou tomar no cu / Tomei no cu, mas tomei no cu errado / Quando eu menos percebi era o cu do delegado”.
Outra característica que fundamenta essa nova cantiga de escárnio é a transfor-mação de toda mulher em objeto. Roqueiros e pagodeiros transformam as mulheres num vaso, não o vaso bíblico, receptáculo do amor de Deus e do homem, mas um vaso sanitário, onde purgam as excrescências de uma cultura que celebra a violência do berro, do murro, do estupro. Reinterpretando Freud com uma linguagem de ba-nheiro público, Os Raimundos cantam: “No coletivo o que manda é a lei do pau / Quem tem esfrega nos outros / Quem não tem só se dá mal”. Em outra faixa do disco, O Pão da Minha Prima, há uma aparente solidariedade com uma moça, vítima de um sedutor, mas essa empatia com a mulher se esvai no extremo mau gosto com que encerram a música: “Mas o viado do padeiro é um cabra muito safado / Pra co-mê a minha prima se fingiu de namorado / E a ainda forçou a coitadinha a soltar a tarraqueta / Eu disse: não dê a buceta pro xoxo pão”.
Repetindo os Mamonas Assassinas, grupo supostamente infanto-juvenil que ce-lebrava até a curra em suas músicas, também Os Raimundos cantam o estupro. Tora Tora, a começar pelo próprio título, é um louvor explícito à violência sexual. Confi-ram: “Se ela tá gemendo é porque eu sou um cara legal / Se ela tá tremendo é que ela gostou do meu pau / Se ela tá gritando é que ela tá querendo mais / Se ela tá berrando é hora de meter por trás / Tora Tora / É isso aí moleca doida / É que a moçada da minha área / Só pára quando salta a bola do olho”. Reparem que os dois versos finais deixam evidente uma concepção sérvia do sexo — para Os Raimundos, o sexo não é uma busca individual do prazer, mas uma lavagem étnica. O grupo sa-craliza um bárbaro costume dos bandos, o de violentar as mulheres alheias — coleti-vamente.
Se no rock o sexo sabe à sangue, no pagode, o tempero é mais ameno. Entre-tanto, os pagodeiros também fazem da mulher um objeto de cama e mesa. O grupo Boquinha da Garrafa, cujas letras servem apenas para coreografar o rebolado de suas louras e mulatas, em Ou Dá, Ou Desce, um título sintomático, canta: “Pensou que me enganou / Ia dá não deu / Agora vai dar com dor”. Mais adiante, insistem: “Dá, dá, dá / Dá com dor”. Os Virgulóides, que fizeram sucesso com a música Bagulho no Bumba, também apelam para uma filosofia de oficina mecânica: “Raimunda / Teu pé de barriga lascada / Até parece capô de fusca / Tanajura que de quebra / Ainda requebra / Rebola nas bola”. O refrão persiste: “Ô, Raimunda / Joga essa bunda pá gente”.
Além dessa apologia do sexo feito à força, esses grupos reduzem a mulher a um par de nádegas em movimento. A palavra bunda e seus derivados (bundinha e bum-bum, especialmente) é repetida a cada refrão. Na aparente inocência desta palavra tão macia, que amolece a língua portuguesa, reside uma corrosiva realidade — no passado, muitas seitas e religiões já negaram alma à mulher; agora, é a música popular quem lhe nega um cérebro.

Apologia da maconha

Em arte, há mais coisas entre o grotesco e o sublime do que sonha a vã filosofia de muitos artistas. Talvez por isso, o rock nacional tenha eleito a irreverência como uma razão de ser. Os Raimundos e o Planet Hemp são dois exemplos sintomáticos de que os rebeldes desse final de século procuram desesperadamente uma causa. Para Os Raimundos é o sexo; para o Planet Hemp, a maconha. O Planet Hemp, que constantemente se vê às voltas com a lei, devido à apologia que fazem das dro-gas, chegam a utilizar a imagem de uma criança para vender a idéia de que maconha faz bem. Uma menina, quase um bebê, com um vestidinho de babado, molha um pé de maconha na contracapa do disco Usuário.
Com um pseudo-intelectualismo que se desmente nas mesas de sinuca da capa de seu disco, o Planet Hemp grita aos ouvidos do país: “Foda-se as leis e todas as regras eu não me agrego a nenhuma delas.” A primeira lei que agridem é a gramática, mas não por uma sublimação estética — o verbo corretamente conjugado — fodam-se — daria algum ritmo ao verso. Tentando enfiar, na cabeça dos jovens, à força dos gritos, que maconha é um excelente combustível para o cérebro, eles se justificam: “Sem se informar você vai se fudê”. E revelam a “informação” que possuem: “Os negros já fumavam erva antes da África deixar, mas os senhores proibiram por fazer eles pensarem”. Além da delinqüência gramatical e da falsidade histórica, os rapazes do Planet Hemp revelam-se autobiográficos — é provável que somente sob o efeito de drogas seja possível ostentar tanta bobagem com tamanha arrogância.
Dividindo o país em duas nações, a dos marginais dos morros cariocas, de quem fazem a apologia, e os de “sangue-bom”, que representam não apenas o po-der, mas qualquer outra forma de instituição, o Planet Hemp compromete a qualida-de de sua música com uma histérica filosofia de muro, a única que parecem dominar: “Para os sangue-bom: “Foda-se! Foda-se! Foda-se! Se não gostou, também que mor-ra, que morra, que morra”. Numa insistência doentia, reiteram, em praticamente todas as letras, o suposto bem que a maconha faz. E enfatizam: “Não tenho o que escon-der, fumo maconha sim”. E na música instintiva que produzem é difícil imaginar que o eu da frase é apenas uma criação estética e não uma afirmação de conduta.
Todavia, como nem só de maconha se faz a cabeça do Planet Hemp, a exem-plo dos outros roqueiros, eles vivem também de sexo. Em Disfarçada, com uma vio-lência que choca só de ouvir, eles começam condenando a frivolidade de uma mu-lher, mas o fazem de um modo que só não pode ser definido como mais frívolo ainda porque a violência não pode ser frívola. Depois de chamar de “boneca fantasiada” a menina de que falam na música, o Planet Hemp grita: “Já disse que te odeio / E se não disse, puta, / Veja como estou. / Você é uma puta disfarçada / E não serve pra mim.” O final da música é um contra-senso: “Eu só quero a sua buceta / Ou brincar com as suas tetas / Eu nunca tentaria ferir você / Mas você fudeu a minha alma / A-gora eu vou te fu-d / Você é uma puta disfarçada / E vai se arrepender”.
Ainda bem que o próprio grupo se encarrega de explicar o primarismo de seus versos. Na música Futuro do País, o Planet Hemp diz, em relação aos excluídos, que “dar uma esmola não é a solução”, e reiteram o lugar-comum: “Eles precisam de cul-tura e boa alimentação”. Se isso não ocorrer, o Planet Hemp anuncia um futuro que já chegou: “Qualquer dia desses voltaremos a ser colônia”. As guitarras distorcidas e o inglês estropiado do Planet Hemp mostram que não é só na gramática que os ro-queiros transgridem o verbo errado — eles também o conjugam muito mal na história. Até agora não perceberam que o Brasil, culturalmente, já voltou a ser colônia. Gra-ças a eles próprios. (José Maria e Silva)

Cantigas de escárnio

Quando empunham suas guitarras e esvaziam a cabeça dos palavrões que nela habitam, os roqueiros vendem a imagem de revolucionários, que se insurgem contra os costumes. Provavelmente, os mais cultos entre eles e também seus fãs imaginam que o palavrão foi inventado década de 60. Mas o palavrão se perde na origem das lín-guas, assim como o erotismo, que pode ser encontrado tanto nos versos do poeta alexandrino Dioscórides, do século III antes de Cristo, quanto no Cântico dos Cânti-cos bíblico, atribuído ao rei Salomão.
Na língua portuguesa, os palavrões aparecem em poemas 300 anos mais velhos que os versos barrocos do poeta Gregório de Matos, o Boca-do-Inferno. O verbo foder, com a mesma acepção que tem hoje, já era utilizado pelo poeta galego Afon-so Eanes de Coton, que viveu no século XIII e era casado com Maria Mateu, prova-velmente uma lésbica. Em seus poemas, pênis era piça (versão muito próxima do pa-lavrão de hoje) e vagina era cona. Em versos crus, Eanes dizia para uma mulher cha-mada Marinha que aparece em uma de suas cantigas de maldizer: “Com os colhões te tapo o cu”.
Essa poesia de escárnio, que teve em Gregório de Matos seu grande expoente no Brasil, nunca foi norma — era sempre a exceção. O próprio Gregório, menos pelas dificuldades técnicas que pelos obstáculos morais, não publicou esses poemas satíricos, que andavam de mão em mãos pelas tavernas da antiga cidade de São Sal-vador, então capital do Brasil. Séculos antes dele, na antiga Roma, Ovídio (43 a.C. – 18 d.C.) foi exilado em parte por seus versos eróticos de A Arte de Amar. Ou-tro romano, Catulo (84 – 54 a.C.), também escreveu versos eróticos, que ele pró-prio considerava “obscenos”.
Mas não é preciso ir tão longe para ver que o erotismo ou a pornografia nunca chegaram a assumir o caráter quase ideológico que assumem, hoje, com os roqueiros dos morros do Rio, dos mangues de Recife e das desnudas ruas de Brasília, para citar apenas três cidades entre as muitas que produzem o pop-latrina. Por incrível que pareça, o precursor mais imediato dessa música talvez seja o doce Chico Buarque, que já foi uma espécie de namoradinho do Brasil. Quem não se lembra da Geni, que dava para qualquer um e em quem se jogava bosta?
Na época, a pornografia de Chico, revestida com palavras nobres, que acentu-avam o contraste entre o sublime e o grotesco, era um libelo contra a opressão em tempo de abertura. Sua Ópera do Malandro era uma crítica ao Brasil oficial. Antes da crueza de sua música, o sexo aparecia na música popular de forma mais velada e, quando de modo explícito, não era propriamente como um elemento erótico, mas como um jogo lúdico. Karolina com K ou Samarica Parteira, interpretadas por Luiz Gonzaga, são dois bons exemplos.
Até mesmo os cantores eminentemente pornográficos, como Manhoso ou Ge-nival Lacerda, não veiculavam em suas músicas o sexo pelo sexo — procuravam dis-farçar a pornografia com o riso e, para isso, usavam o cérebro, num jogo lúdico. Com muita malícia, Manhoso, numa de suas músicas, comparava o rico e o pobre e lem-brava que, enquanto o rico se deita em sua “cama acolchoada”, o “pobre deita numa cama de pau duro”. Dicró, da linhagem de Moreira da Silva, também explorava o sexo em seus pagodes. Num deles, o ouvinte é intimado a virar poeta e completar a rima, que é insinuada pela malícia. E é essa falta de malícia que faz com que o novo rock, por mais que se esforce, não seja uma sátira, mas es-cárnio em estado bruto.
Comentários

Eliete Silveira Martins  -

Continue assim........... parabens

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