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Crônicas-->Romance altruísta -- 13/06/2019 - 21:42 (Lorde Kalidus) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos

Estava tudo acabado, finalmente. Um mês de sufoco, numa tentativa quase que interminável de se conseguir colocar um fim naquele relacionamento que parecia ter sido feito para durar até o fim da existência dos dois. Tudo era bom, perfeito e agradável como, talvez, só a vontade divina seria, caso ele acreditasse que lá em cima existe uma. Os gostos dos dois eram os mesmos, ela parecia estar sempre pronta para tudo e ele contaria com ela com o que quer que fosse. E foi justamente a forma com que ela o amava, de forma incondicional e irrestrita, pronta para somar esforços não importando o quão dificultoso isso pudesse ser, que acabou se tornando o motivo para que tudo viesse a acabar.

Dez anos atrás ele a conheceu em seu bar favorito. Ela não pensou duas vezes ao vê-lo sozinho em sua mesa e mandou uma caneca a mais da cerveja que ele estava tomando, a sua favorita. A conversa foi se mostrando produtiva depois disso, falaram sobre a insatisfação com a política, a aversão ao futebol, ao carnaval e outros aspectos que mostravam que ambos pareciam ter nascido no país errado. O sexo se mostrou razoavelmente bom e a sintonia que surgiu fez com que dois desconhecidos logo se tornassem as pessoas mais próximas do mundo e, alguns meses após encontros, discussões e brigas esperadas, viagens e tudo que se espera de alguém de convívio satisfatório, decidiram finalmente morar juntos.

Ele jamais soube de qualquer traição da mulher. Nada que lhe fizesse suspeitar de alguém do trabalho, de algum rolo na academia ou de alguma ocasião em que teria saído com alguma amiga como subterfúgio para, na verdade, se deitar com outro homem. Ele mesmo era extremamente desinteressado por outras mulheres preferindo, muitas vezes, um bom livro ao próprio ato sexual. Não se sentia menos homem por isso, era apenas uma questão de escolha. Entretanto, talvez a forma como se dedicasse tanto à leitura e, consequentemente, à reflexão, tenham feito com que decidisse dar um fim em tudo, não apenas no relacionamento.

A existência em si havia perdido o sentido. Não podia mais fazer parte de um cenário onde passaria a vida dedicando-se ao que quer que seja para, anos mais tarde, apodrecer debaixo da terra e só então descobrir o que quer que estivesse à sua espera quando deixasse este plano, terreno ou espiritual, dependendo do ponto de vista. Entretanto, por mais que quisesse deixar tudo para trás, ainda havia a mulher que amava e que demonstrava, tanto na prática como na teoria, que ele era a razão de tudo que ela fazia. Havia se tornado refém daquele relacionamento, e teria que dar um fim nele, fazer com que ele mesmo deixasse de ser tão importante assim, para que pudesse, finalmente, partir sem magoar quem mais dava sentido à continuidade de tudo.

Os meses foram passando e ele, da forma como podia, arrumava modos de fazer com que tudo se tornasse insuportável. Enfatizava tudo o que não gostava nela e acabava fazendo com que isso acabasse se destacando de forma que o que era quase imperceptível, talvez ignorável, se tornasse o pior dos crimes; um elogio a outro homem, um copo que não havia sido lavado, algo que não houvesse sido trazido do supermercado, uma conta que viesse um pouco mais alta. O que até então era o paraíso aos poucos pareceu ter vestido uma máscara cujo objetivo era ocultar sua verdadeira identidade, se mostrando um verdadeiro inferno. Finalmente, o dia do diálogo chegou, ela havia decidido que era hora de seguir adiante e encerrar o relacionamento e, segundo ela mesma, já há algum tempo havia conhecido alguém, com quem estava indo morar. Era o fim.

E lá estava ele, agora, sozinho em casa em pleno domingo à tarde. Nada a fazer, não pensava no que ela poderia estar fazendo e, embora tenha estranhado o fato de não ter recebido sequer um telefonema ou mensagem na rede social da agora ex-mulher depois de tanto tempo juntos, já não dava mais importância ao fato. Ela estava com alguém que iria cuidar dela, fazer com que o esquecesse, se é que já não o fez, e ele já não possuía mais qualquer amarra que o conectasse a este mundo que, para ele, já não possuía mais sentido algum. Caminhando até a geladeira, ele abre uma cerveja, que sabe ser sua última, e coloca a caneca sobre a mesa de centro, abrindo a gaveta da estante e pegando um revólver, de numeração raspada, que deixa ao seu lado até que termine de consumir a bebida.

Ele limpa a boca, com a lembrança do líquido gelado descer refrescante pela garganta e, inevitavelmente, pensa no quanto a imaginação é fértil quando posiciona a arma debaixo do próprio queixo e se lembra que um calor totalmente oposto ao da cerveja está a poucos segundos de passar pela mesma boca por onde o álcool passou. A associação é tão estúpida e irônica que ele começa a rir, e morre sem saber se puxou o gatilho por vontade ou pelo reflexo, que fez com que a mão se fechasse em meio à risada. 

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