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Erótico-->O Nefilim - Capítulo 6 -- 10/08/2019 - 13:05 (Lorde Kalidus) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos

Os dias seguintes foram de dúvida e apreensão. De manhã cedo, Rafael vai para a escola e, ao passar pelo parque, procura pelo estranho bizarro que há poucos dias, descobriu ser seu pai. Sua mente ainda balançava um pouco quando pensava no quanto parecia ser poeticamente justo que ele houvesse nascido de tal maneira, concebido durante uma despedida de solteira que se revelou ser, ao mesmo tempo, a realização de uma fantasia do homem que seria seu pai. Não se lembrou sequer de perguntar à mãe se ele seria estéril e se por isso não teriam tido outros filhos. Seja como for, admite que não conseguia mais ver o pai adotivo da mesma maneira, chega a parecer patético estar lado a lado com ele na mesa como o chefe da família depois da cena que sua mãe descreveu. Um homem que sente prazer vendo outro, superior fisicamente a ele, possuir sua mulher. Parece piada.

- Realmente, uma piada. Pelo menos diante daquilo que mortais acreditam ser certo ou errado, embora não existam ambos. Mas é como acontece, devido à sua preferência por códigos de ética que não conseguem seguir e que são necessários pra que não devorem a si mesmos.

- Você? – Rafael reconhece a voz de imediato. O estranho surge do nada, do lado do rapaz, acompanhando-o na caminhada em direção ao colégio.

- O próprio. E, pelo jeito, sua mãe já te contou exatamente como eu sei tanto sobre você e o mais importante de tudo... como você foi concebido.  

- É, ela me disse. Eu ainda tô com uma certa dificuldade pra entender, cheguei até a me perguntar se não foi um castigo pelo fato de eu levar a vida que eu levo, comendo tudo quanto é mulher de outros caras e, mais recentemente, até as mães delas...

- Castigo? E o que te faz pensar que algo como o castigo divino existe? Mesmo porque o que você descobriu aconteceu antes que você se tornasse o que se tornou, não depois. Lembra? Mas eu não estranho o fato de você pensar assim, considerando o nicho moral e até religioso em que foi criado. Claro que isso tudo é coisa que se passa a evitar tão logo se ache coisa mais interessante pra fazer, mas, enfim, é como as coisas são.

- Mas quem é você? E como pode ser tão forte assim? Isso é o que a minha mãe não explicou. Ela disse que você ia me explicar tudo quando fosse a hora certa, como se fosse soar estranho demais se eu ouvisse da boca dela.

- Realmente ia. Seja como for, vamos conversar em outro lugar, eu prefiro debater certos assuntos de estômago cheio. E tem uma lanchonete na Castelo Branco que eu adoro visitar de vez em quando.

- Mas a Castelo é longe pra caralho e eu tenho que ir pra escola. Não é melhor a gente simplesmente... – Antes que Rafael possa dizer qualquer coisa ele, simplesmente, se vê sentado à mesa de um restaurante em um posto de gasolina, em frente ao homem que há poucos minutos descobriu ser seu pai.

- Mas que caralho...?

- Se comporta, odeio gente que faz escândalo. E isso não foi por mal, eu sabia que ia te pôr em choque, mas me pareceu ser uma forma boa de aquecer sua mente pra o que eu estou próximo de te contar.

- Mas... você transportou a gente pra esse restaurante e, há pouco tempo, a gente tava lá no meu bairro...

- Eu já tava aqui, na verdade. Passei no bairro porque sabia que você tava indo pro colégio e eu tinha que te buscar pra gente ter essa conversa. Achei que já era hora de você saber quem você é... e também quem é seu pai verdadeiro.

- Na verdade, eu fiquei sem chão quando minha mãe me contou da despedida de solteira. Nunca pensei que ela e o meu pai, marido dela, sei lá... não consigo nem falar direito com ele de uns dias pra cá, depois que soube os detalhes...

- É, acho que sua mãe perdeu um pouco os parâmetros depois que eu contei algumas coisas pra ela... É difícil no começo, quando se descobre que tudo aquilo que se acreditava ser sagrado e certo acaba se revelando uma farsa mas, como eu já disse antes... É como as coisas são.

- Já é a segunda vez que você fala em coisas sagradas... por que tá tocando tanto no assunto?

- Ah, tá chegando, café e pão de queijo fresquinho. Perfeito. Muito simples, guri... você soube que eu comi sua mãe de uma forma que só um exército inteiro poderia fazer e deve saber que fiz isso muitas vezes depois, algumas sem seu pai sequer saber, e viu que eu consegui te arremessar como um saco de bosta, mesmo você tendo todo esse tamanho. Mas deixa eu te dizer que eu não sou um super-homem ou o resultado de alguma experiência científica bem-sucedida, eu já nasci assim e, no que diz respeito a quem você conhece como Deus, bom... Eu sou a primeira criação Dele.

- Primeira...? Mas o que isso quer dizer?

- Quero dizer que, antes Dele ter criado os céus, a terra, os anjos e o que quer que seja, Ele criou a mim. Eu sou o filho mais velho, o que comanda e treina Suas legiões e que alguns, querendo me transformar em algo que seria um exemplo do que não deveria ser feito, disseram ter sido expulso do céu, juntamente a uma legião de anjos, que se tornariam o que existe de pior e cujo propósito seria a destruição da criação de Deus. Pura balela usada pra se manter no cabresto gente que precisa de algum conceito abstrato pra se consolar quando tudo está perdido pra eles e que, no seu egoísmo e no seu desespero, não percebem que a espinha dorsal da crença que conhecem por Cristianismo é sua própria maldade.

Quando Rafael pensa que já havia ouvido tudo, percebe que ainda estava longe de se surpreender totalmente ou, ao menos, se surpreender como agora. Seja como for, as palavras do homem só servem para aumentar mais ainda sua curiosidade sobre ele.

- Você tá me dizendo que é o diabo?

- “Diabo” é uma forma como os mortais, mais precisamente a igreja, quiseram que eu fosse chamado. Uma espécie de bicho papão para assustar as criancinhas. Acharam que era necessário que houvesse um lado bom e um lado mau ou ao menos que as pessoas acreditassem que existe um não para que deixassem de ser más, pois o desígnio humano é a maldade, mas para que conseguissem reduzir essa malignidade inata a um nível o mais baixo possível oferecendo, assim, uma troca: retidão de caráter por salvação da alma. Mas a grande verdade é que não há pecado, salvação ou mesmo inferno pra onde você vá depois de morto, mesmo porque, se eu sou o príncipe deste mundo, onde mais seria o inferno, senão aqui?

- Então, você é Lúcifer?

- Outro nome que foi inventado, tanto que é em latim e não em hebraico ou grego. Não que os outros não fossem, afinal eu tinha que ser chamado de alguma coisa. Seja como for, você já leu a Bíblia, ainda que sem o discernimento necessário e talvez sem todo aprofundamento que deveria, mas com certeza notou que o nome “Lúcifer” não aparece nela uma única vez. E, como se isso não bastasse, o que se chega mais próximo de um anjo rebelde que teria sido expulso dos céus é uma parábola, sobre um personagem que não é sequer descrito com precisão, ao passo que todos os personagens que aparecem têm nome e estória própria. Então, se eu sou quem dizem, por que somente eu não teria?

Uma garçonete se aproxima da mesa e deixa os cafés e os pães de queijo. Rafael praticamente não nota a chegada da mulher, interessado como está no assunto comentado pelo pai desconhecido.

- Você tá me contando umas coisas que eu nunca soube antes, mas, tenho que admitir... Baseado em tudo que eu li, faz sentido, sim... Mas eu não entendo bem como a coisa funciona.

- Logo você vai passar a entender tudo. Um mortal teria maior dificuldade, pois estão apegados demais a essa baboseira religiosa pra ver as coisas como elas são. E, por que não dizer, se soubessem de toda a verdade, não conseguiriam aceita-la, já que a única coisa que mantém seres humanos com a cabeça no lugar é o medo da punição ou a esperança da redenção. Se soubessem que não existe mais nada além disso aqui e que já estão no inferno, teriam que sair nas ruas de fuzil. Seja como for, matariam uns aos outros, mesmo que estivessem de mãos nuas, pois isso, no seu íntimo, é tudo que pensam em fazer.

- O inferno é aqui? É isso que você tá dizendo?

- É apenas uma questão de pensar pra que se veja que não pode ser de outra forma; tudo que é bom tem de ser ensinado, enquanto o que seria considerado ruim segundo os códigos de ética humanos, já nasce no instinto, como se sua própria natureza fosse a autodestruição. Isso falando resumidamente e sem dividir por escalas que evoluem de acordo com a idade, poder aquisitivo e quociente intelectual de cada indivíduo ou grupo de indivíduos. Os exemplos seriam tantos que não teria como falar de cada um deles. E não bastasse isso, os problemas criados por eles mesmos são tamanhos que precisam se apegar a esperanças vãs de salvação por saberem, no fundo, que seu pior inimigo são eles mesmos. E sua necessidade de salvação é tamanha que seu grande conceito de bondade é sacrificarem alguém que nada deve em nome de suas faltas, lavando com o sangue alheio aquilo que é feito por eles.

- Tipo... O próprio sacrifício de Jesus Cristo já seria uma forma de mostrar que a crença toda é baseada no egoísmo e na busca da própria salvação e mais nada?

- Óbvio... Até porque o próprio Jesus só pensava na própria salvação quando aceitou a crucificação, já que sabia que seria castigado se desobedecesse nosso Pai. Mas o que são doze horas de aflição pra, depois, passar a eternidade desfrutando de tudo que existe de melhor no universo? Nada com um bom investimento... O que seria dele se não tivesse aceitado? Se bobear, teria sido condenado a nascer aqui...

- E vocês se conhecem? Digo, você já viu Jesus Cristo?

- Claro, diz o demônio, tomando um gole de seu café. Ele saiu ganhando, óbvio, eu sempre tive que fazer o trabalho sujo, mas também tenho meu lugar garantido lá em cima. É só lembrar de Jó, que Ele me entregou o infeliz pra fazer o que eu quisesse com ele, só pra depois dizer “tá vendo, trouxa, ele continua fiel a Mim, e eu fodi com a vida dele de verde e amarelo entregando ele pra você”. Se fosse um amigo meu, eu ia ter perdido a aposta e tido que pagar a cerveja, diz ele, rindo. O foda de ser o mais velho é que Ele sempre me põe pra fazer o que tem de pior e ficar com fama de ruim. Mas quem tá preocupado com o que os erros pensam...

- Erros?

- Humanos. Graças a eles pode-se saber que Deus não é perfeito. Até porque Ele se arrependeu da criação e mijou água em cima de todos num momento de raiva. E, depois disso, eles passaram a acreditar que eu havia trocado o sacrifício de Cristo pela humanidade, como se, caso eu fosse realmente o que pensam que eu sou, eu precisasse devolver algo que já seria voluntariamente meu.

- E aqueles que vendem a alma pra você? Satanistas? – Ele ri novamente.

- Não lembro de ter comprado nada... Muitas vezes chegava o que eles queriam, mas, a grande verdade é que não tem diferença entre quem vende a alma pro diabo e quem declara amor a Deus, salvo o fato de que os cristãos se acham alguma coisa só pelo fato de acreditarem que o Deus deles é quem vai ganhar no final. Tem que rir pra não chorar, falam em humildade mas são a soberba em pessoa. E dizem que quem caiu do céu por causa da soberba sou eu. Mas, no final, tudo é quase como na política, em que o candidato perdedor ganha um ministério e paga a cerveja pro vencedor. Exceto pelo fato de que, aqui, tá todo mundo em família.

- E todas as teorias sobre apocalipse, fim do mundo e tudo o mais? Conversa fiada?

- O apocalipse acontece desde que o mundo existe, mas um bando de idiotas adora fantasiar coisas sobre a minha volta, sobre eu ser desacorrentado e fazer tudo que tem de pior nesse mundo. Desacorrentado como, se eu sempre andei solto por aqui e fiz tudo o que queria, além de ser o síndico de tudo isso? Esperança? Alguns têm, mas se esquecem que ela caminha com o desespero e só é necessária quando ele já tomou conta de tudo. É aí que entra o sacrifício na cruz, a esperança nada mais é que alguém pagando por tudo o que aconteceu de ruim, suas dívidas sendo pagas por quem não deve nada, por um laranja. O Cristianismo não é mais que o que mortais chamariam de malandragem, só que santificada.

- E a minha mãe, como se conheceram?

- Ah, ao longo da história eu me envolvi com várias mortais. Sua família foi circunstancial, mas eu já vinha observando os dois há muito tempo. Despertaram meu interesse e pareceu ser uma boa farra. Então, por que não aproveitar a deixa? E agora, aí está você.

- É, aqui estou eu... E o que vai ser de mim agora? O que eu vou fazer da vida, se já não me encaixo mais na minha casa, depois de saber tudo o que sei e perceber que tudo que você me diz é verdade?

- Esse assunto é pro nosso próximo encontro... Por ora, você assimila o que eu te disse. Espero que tenha gostado do café.

E, num piscar de olhos, Rafael está, de repente, em frente à escola e em meio aos outros colegas, que não notam sua súbita aparição. O diabo desapareceu, deixando evidente que, em breve, os dois se encontrarão de novo. 

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