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Cartas-->Carta a Uma Amiga -- 29/09/2008 - 10:35 (Dolores Marques) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
A estabilidade é das coisas mais raras amiga. Gostava de poder dizer-te que para se atingir esse estado, são necessárias muitas mudanças, difíceis mas urgentes rumo a um novo caminho. O conhecimento de nós próprios.
Nunca soube o que era estar, ser em plenitude, dar-me sem medos, de sofrer.

Lá na minha aldeia, vivi esse estado, essa intensa plenitude. Cantava e o meu eco difundia-se por entre as serranias que me abrigavam do resto do mundo. Olhava o céu e via rasgos no céu azul, aviões que mais pareciam aves gigantes, que me conduziam o olhar a terras distantes, ainda por desbravar. Imaginação não me faltava quando num num fim de tarde depois da escola, com as teorias, os ensinamentos da História de Portugal e via-me por essas terras a viajar rumo ao desconhecido.
Nasci na aldeia de Moção em Castro Daire na Beira Alta, completei lá a quarta classe, assim como os meus dois irmãos, junto de uma avó materna e uma tia. Foram os meus melhores anos - a minha infância. O contacto com a natureza; as montanhas, o rio, os campos, a água a correr pelas pedras da calçada. Uma tia e uma avó que nunca foram á escola, mas que me transmitiram os seus valores, gente simples, de trabalho árduo da terra. Com a minha tia Carmo aprendi a comunicar com todos os seres vivos. Falava com as pedras, as plantas, a água os milhos, os feijões, as couves, os pássaros, o vento, a chuva…. Contava-me histórias umas de encantar, outras de amedrontar. Passavam de geração em geração, aquelas histórias que todos conhecemos. A minha avó Lívia era uma força, dentro da sensibilidade no feminino. Trabalhava a terra e não desistiu nunca de viver a vida intensamente, apesar das dificuldades daquela época, em que ficou só, após a emigração do meu avô para o Brasil. Um homem de nome Herculano que não conheci, por lá ficou e faleceu num acidente trágico. Lembro o ano em que iria regressar, após uma ausência de 28 anos, foi no inicio do verão, e as expectativas eram muitas. Tudo ficou num vazio, após a notícia da sua morte, em que ardeu o local de trabalho com ele dentro.
A imagem ainda presente, a descer a calçada com os olhares postos em mim. Eu de vestido branco rendilhado até ao joelho. Uma fita de cetim preta em forma de laço junto ao peito. A minha mãe fazia os meus vestidos. Gostava deles todos, porque rodava e eles faziam um balão. Até isso me deliciava – este envolvimento que me prendia isolando-me do que me rodeia. Um momento só meu em que faltou conhecer uma parte de mim. Ficou-se pelo sentir e pela força da minha imaginação.

Cheguei a Lisboa e lembro de perguntar à minha mãe se faltava muito para chegar. Ela responde “já estamos em Lisboa”. Uma tristeza invade-me alma. Lembro o azul do céu, as estrelas nas noites que sobrevoam as serras, o nascer do sol com os seus raios gigantes, o perfume que se solta no fim de tarde, e a minha aldeia sempre…
Aqui respira-se…vive-se numa comunhão com a natureza e o seu esplendor.
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