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Contos-->Aprisionado pelo desejo -- 29/06/2019 - 16:14 (Lorde Kalidus) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos

Como sempre ocorre após o sexo, vem aquela sensação de torpor, de cansaço, mas de um cansaço relaxante, como se tudo que o incomodasse houvesse deixado seu corpo. Embora soubesse que logo tudo o que partiu estaria de volta e ele novamente iria precisar repetir o ato fosse com a mesma mulher ou com qualquer outra para novamente expulsar o demônio que, como Legião, decidiria retornar ao lar de onde foi expulso, a sensação era ótima.

Joana cai no sono tão logo tudo termina. Leonardo faz a cena de sempre, permanece deitado, pensando na vida, tentando esquecer que possui uma outra existência além daquela que se limita às paredes do apartamento da mulher que ocasionalmente o diverte. Mas sabe que não vai ter sucesso algum, uma vez que a sensação de repulsa por quem há pouco o enlouquecia é uma prova de que o que mais quer neste momento é voltar, justamente, à vida que parecia esquecer alguns minutos ou horas atrás, quando tudo para ele era pura semelhança a orgias, farras e bebedeiras.

Respira fundo deitado na cama que não lhe pertence, mas que lhe é ocasionalmente cedida, juntamente ao corpo e ao desejo de sua dona, e se pega mais uma vez dizendo a si mesmo que seria a última vez, que não voltaria mais e que algumas horas de prazer, por maior que fossem, não compensavam aquilo. Mas também sabia que isso se dizia agora, saciado de tal maneira que qualquer prazer corporal, por maior que fosse, não poderiam nunca ser colocados na mesa como moeda de troca. Entretanto, passados alguns dias, ele provavelmente vai procurar por Joana mais uma vez para tê-la de forma ainda mais selvagem e depravada que hoje.

Percebendo que não aguentaria permanecer mais tempo ali, ele caminha até a sala, onde tudo sempre começa, e pega as roupas. A mulher permanece dormindo e ele se veste tão rápido quanto pode, deixando o apartamento. Uma sensação de vazio e satisfação tomam conta dele, que caminha até seu carro, estacionado logo à entrada do prédio, e faz com que ele dirija de volta até o bairro onde mora. Neste momento nada é mais importante do que estar em sua casa, descansando e deixando de lado as horas que se passaram há pouco.

Chegando em casa, a cachorra o recebe, com o mesmo carinho que já é de costume. Leonardo retribui, logo em seguida caminhando até a sala de estar, vendo que Helena ainda não retornou do trabalho. Caminha, então, até o quarto, onde se prepara para o banho, como já é de se esperar depois de ter passado a tarde com Joana e, enquanto a água cai sobre seu corpo, começa a lembrar dos momentos em que sua luxúria agressiva se derramou selvagemente sobre a mulher, levando ambos à loucura. A falta que ele imaginou levar alguns dias para sentir já começava a se manifestar.

Após o banho, o repouso. Sofá ajeitado, música ligada, uma cerveja, porção de salgadinhos. Naquele momento tudo aquilo parecia ser mais importante para ele do que segurar os quadris daquela mulher que há pouco o fazia agradecer por ser homem e fazê-la gozar até ficar com as pernas trêmulas, de modo que ela não tardasse a procura-lo de novo, pedindo por mais. Mas ele agora não queria saber de Joana ou de qualquer outra mulher com quem ocasionalmente se envolve, somente seu lar e a simplicidade que ele lhe oferece pareciam ser importantes naquele momento.

E por que as procurava? Um sem número de mulheres encontradas rede afora, que em face de relacionamentos frustrados atuais ou anteriores não tardavam a ceder aos encantos de palavras que, ao menos aparentemente, mostravam algo que ameaçava lhes devolver a esperança. Algumas buscando algo definitivo, outras simplesmente tentando confirmar que ainda podiam fazer com que alguém sentisse algo por elas. E ele, viciado no ato sexual como era, não podia deixar passar a oportunidade de se satisfazer quando uma mulher que lhe interessasse mostrasse que havia uma oportunidade de desfrutar de seus favores.

Quanto a Helena... sem dúvida a amava. Não hesitaria em dar sua vida por ela, sabia que suas obrigações como marido e homem implicavam tanto nisso como na manutenção de seu lar, mas quem disse que desejo é uma coisa que responde a dogmas, crenças ou mesmo a convicções pessoais? Que o sexo fosse uma necessidade física como comer, beber ou dormir é até aceitável, mas seria realmente necessário que por ser algo prazeroso ele se tornasse uma prisão, algo que faz daquele que usufrui de alguns minutos do prazer que ele proporciona um refém, um escravo que só poderia tê-lo com uma única pessoa?

Maldito senso de moral cristã, ele pensa. Ter passado pela igreja faz com que Leonardo tenha chegado à conclusão de que realmente ele e o carpinteiro de Nazaré não teriam como se entender. O próprio casamento é algo prático, se pensarmos unicamente que ele se resume a ter alguém que cuide de você quando está doente, que está por perto pra dividir as contas, as responsabilidades, mas e o preço disso? Pode o prazer de alguém ser domesticado a ponto de pertencer a uma única pessoa como se não existisse mais ninguém que nos despertasse a curiosidade de ao menos se aproximar? Ele há muito já havia concluído que não. Outro motivo porque desenvolveu ódio pelo Cristianismo é o maldito condicionamento a que foi submetido desde a infância, que o leva a ter o maldito livro como código de conduta e o força a sentir uma culpa que sequer deveria existir, simplesmente por satisfazer um impulso que já nasceu com ele. Nem pensa em se separar ou se afastar de Helena, mas fica óbvio para ele que não é nenhum crime grave continuar a ver outras mulheres, principalmente se deixar de fazê-lo para satisfazer o ego de um Deus cuja existência é comprovadamente uma farsa, e cuja lei possui alicerces tão frágeis que se tornam a própria prova de Sua imperfeição.

Embora viver esta aparente mentira seja algo desconfortante, este é um preço com o qual ele já se acostumou... e que há muito já não se importa de pagar...


 

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