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Contos-->Baratas humanas -- 29/06/2019 - 16:08 (Lorde Kalidus) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos

Marcos acordou há mais ou menos dez minutos. Ele permanece deitado, pensando, ainda que discretamente, sobre como os odores e sensações trazidos por uma cama estranha podem ser deliciosamente revigorantes. E a dela era espaçosa, os lençóis certamente haviam sido trocados há pouco tempo e a habilidade, bem como a voracidade que ela demonstrou horas antes, fazem com que ele se pergunte se ela deixou tudo arrumado simplesmente por asseio pessoal, por zelo por seu próprio lar, ou porque imaginava que talvez fosse receber a visita de alguém como ele neste final de semana. Não que fizesse alguma diferença, a sensação de conforto era imensa e, a despeito deste ou daquele motivo, não era de sua índole julgar ou acreditar que deveria legislar sobre os prazeres de quem quer que fosse.

Uma gostosa sensação de cansaço o faz lembrar de como a noite começou. O tédio e as luzes da cidade o chamaram para as ruas, como já é de se esperar que aconteça numa sexta à noite. O clima estava fresco, como se um tímido inverno pedisse permissão à primavera para adentrar o território de sua posse por algumas horas, e tudo que ele tinha em mente era um bar, uma porção de salame ou frango e uma caneca de uma boa cerveja. Uma mulher, talvez, não é santo ou faz questão de sê-lo, abraçando sem pudor a algum a ideia de que o sexo é uma necessidade tão comum de seu corpo quanto comer, beber, dormir e respirar. Esperançoso de que talvez pudesse terminar a noite nos braços de alguma desconhecida ou até mesmo de alguém que lhe tivesse trazido bons momentos há algum tempo, ele terminou de se arrumar e deixou seu apartamento.

Propositadamente, mora no centro. Não possui vida familiar ou intenção de investir em uma futuramente. Embora isso não seja uma causa pela qual lute com unhas e dentes e possa acabar mudando de opinião, já que não seria sábio dizer o contrário, sempre teve a convicção de que uniões monogâmicas, por mais úteis que sejam, nada mais são que convenções que visam unicamente domesticar os instintos dos seres humanos, que não passam de vermes que precisam de uma cartilha de regras ditadas por uma religião ou um sistema penal porque não são evoluídos o suficiente pra viverem em paz uns com os outros se for de outra maneira. Já ouviu muitas vezes de conhecidos, parentes, de amigos até, que o casamento e os filhos fazem parte da vida, mas nunca viu nenhum deles realmente continuar a viver depois dessa fase, o que lhe leva muitas vezes a questionar esses conselhos, uma vez que toda a noção de felicidade reside mais no que nos fazem acreditar que deve nos deixar felizes do que em nossos próprios conceitos de felicidade. Ou, por que não dizer, em um conceito de moral falido que na maioria das vezes é invocado quando se quer evitar algo, alguém ou se reclamar de algo que nos trouxe algum prejuízo.

Eis que, após deixar seu apartamento, caminhou pelas ruas do centro até chegar à Augusta, onde adentrou um dos pubs que gosta de frequentar na localidade. Dia de um jantar diferenciado, não hesitou em pedir aquele hambúrguer de picanha com vários tipos de queijo, maionese artesanal, cebolas à milanesa e uma caneca de uma cerveja bock inglesa. Pagava caro, mas já havia aceito que vivia numa reles desculpa que alguém, num momento de embriaguez, resolveu chamar de País, e que deveria pagar um preço alto pelo que havia de melhor e que aquele mijo fabricado aqui e vendido além da conta não poderia lhe proporcionar o sabor que seu paladar exige.

Em meio a tudo isso, conheceu Roberta. Alguma troca de olhares, o típico sorriso que mostra aceitação, mas, ainda assim, o velho medo de ser considerada fácil demais e que revela ainda que a cantada teria de ser razoavelmente boa e o papo valer muito a pena. Nada de inesperado. Em um dado momento, se trombaram pelos corredores do bar e tudo começou. Os dois se acomodaram ali pelo balcão, ela deixou a entender que estava tão disposta quanto ele e, tão logo tivessem se cansado de falar da vida cotidiana, de relacionamentos passados, de um namorado que havia mostrado não ser tudo o que se esperava, os dois pagaram a conta e ela pareceu convencida de que seria interessante leva-lo até seu apartamento, ali perto. Morava com uma amiga, com quem fazia faculdade, as duas vindas do interior, mas a mesma pareceu ter se enrolado com outro rapaz da mesma forma que ela e iria passar a noite fora. Marcos não perdeu a oportunidade e pediu que Roberta a agradecesse mais tarde.

Nenhum dos dois perdeu tempo ao chegarem ao pequeno apartamento e se amaram como se há muito não soubessem o que era isso. Horas depois, quando se quedaram exaustos, entre alguns intervalos, e o sono finalmente tomou conta dos dois, ela o beijou carinhosamente e se despediu, não dizendo mais nada depois que sua cabeça tocou no travesseiro. Marcos demorou um pouco mais para dormir, mas logo a seguiu.

Por volta das cinco horas ele se levanta, colocando as roupas e se preparando para partir. Deixa seu número de telefone na estante, mas não espera ligação ou lembrança da mulher. Embora ache que o prazer físico é algo que deve ser prolongado e experimentado sempre que possível, seja com a mesma pessoa ou com outras, deixou há muito tempo de acreditar que a outra parte pense da mesma forma e passou a se condicionar a partir daquele momento a não nutrir qualquer expectativa quanto a Roberta.

Sai sem fazer barulho. A princípio sua ação pode parecer típica do aproveitador que deixa a mulher para trás após conseguir aquilo que queria. Ele não teria do que se sentir culpado se assim fosse, afinal, a mulher faria o mesmo se fosse sua vontade. Ele é capaz de fazer esta distinção, embora viva numa sociedade acéfala onde se é vítima em potencial unicamente por se ser mulher, idoso ou criança, como se estes não mentissem, traíssem, matassem ou pudessem ter todo um passado edificado em ações condenáveis. Só os homens são culpados, é a grande verdade da vida. Não lhes bastasse serem naturalmente escolhidos por serem o braço forte da existência, a culpa de tudo sempre seria o traço que os definiria.

O sol do sábado de manhã aos poucos aparece. Para alguns seria a metáfora de uma nova esperança ou assim eles fariam uma força incomensurável para acreditar, apenas porque desmoronariam em sua própria ausência de fé se não o fizessem. Mas a ausência de perspectivas é algo que ele já aprendeu a aceitar, e pensa nisso enquanto desce a Augusta e o clima frio só lhe faz pensar em seu apartamento, um café da manhã e algumas horas em sua cama. Já faz tempo, embora a duras penas, que percebeu que não há trono no céu em cuja direita ele irá se sentar um dia, que vivemos unicamente em torno de nossas vontades e necessidades e que as regras são criadas unicamente para domestica-las, uma vez que a então chamada imagem e semelhança de Deus não saberia se portar sem elas. Seria Ele um monstro por cria-los assim, ou simplesmente uma falha? Quem falha a tal ponto pode ser considerado perfeito?

Ao redor dele, baratas humanas de várias castas diferentes iniciam seus trabalhos no dia que se inicia. Aquele café da manhã e o aconchego de seu lar lhe parecem, agora, mais bem-vindos do que nunca... 

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