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Contos-->Restos -- 29/06/2019 - 16:04 (Lorde Kalidus) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos

Rodrigo havia descansado o dia todo, com exceção do treino da manhã. Não considerava a academia algo que o deixasse cansado ou mesmo uma obrigação, pois lá é onde cuidava do corpo que seria seu passaporte para a cama das mulheres que tanto deseja. Aos vinte e dois anos, trabalha numa repartição pública na capital, tendo deixado os pais no litoral sul após sua chamada para tomar posse no cargo. A família faz falta, mas ele espera conseguir voltar ao seu local de origem devidamente transferido em breve.

Treinos de manhã cedo, a partir das seis da manhã, expediente das 9h00 às 17h00, salário do qual não pode reclamar comparado ao do emprego anterior e baladas aos sábados à noite, como já seria de se esperar de alguém de sua idade. Saindo do chuveiro e se arrumando para partir, ele se lembra que em uma dessas ocasiões conheceu Sabrina e que, desde então, seu número de saídas à noite tem sido vantajosamente reduzido.

Ele simplesmente não teria como dizer não àquela mulher. Corpo impecável, esculpido sob medida pelos aparelhos da academia e uma alimentação regrada. Os papos eram bons, mas ele não acharia ruim se fossem um pouco piores. E, como não poderia deixar de ser, era casada. Não que não houvessem mulheres solteiras no mundo, mas, a grande verdade é que há um bom tempo ele veio a descobrir que sempre existe alguém na vida de todas as pessoas. Seja aquele homem ou mulher que se vê diariamente e com quem, embora não se troque sequer uma palavra, se compartilha uma relação muitas vezes mais duradoura do que a que se tem com quem se acorda lado a lado todas as manhãs, seja com alguém com quem se tem um contato mais ou menos limitado mas que atiça a imaginação de tal forma que o pudor não nos permitiria expressar.

Ele, é claro, tem em sua vida algumas pessoas que se encaixam nessas categorias. Colegas de trabalho com quem ele adoraria passar uma noite após o trabalho, ou trocar carícias rápidas e diretas durante a hora do almoço ou em algum lugar do escritório. Uma juíza com quem trabalhou em alguma ocasião lado a lado, aquela advogada que foi procurar um processo no cartório, talvez a moça que trabalhe na mercearia ou a passageira do ônibus que ele viu uma única vez.

Conheceu Sabrina em uma visita aos novos barzinhos da Augusta. Ela simplesmente não desviava seu olhar e, quando se encontraram na rua, ele resolveu arriscar uma investida. Ou ao menos acreditou estar arriscando. Seu desempenho o levou a crer que quando a mulher realmente quer estar com o homem não existe assunto chato, performance ruim ou palavra mal colocada que ela não vá se esforçar em ajuda-lo a arrumar. O marido, claro, acabou se tornando assunto da conversa e ela não tardou a dizer que as constantes viagens dele a trabalho a incomodavam. Não que fosse muito diferente quando estivesse em casa, pois na cama ele nem de longe poderia ser comparado aos atores pornô de dotes e atuações que lhe tiram mesmo o fôlego. Mas, independentemente disso, não podia se dar ao luxo de ser hipócrita. Fazia seu papel de esposa, mas precisava de alguma recompensa, no mínimo uma compensação por isso, e, no intuito de manter a estabilidade do lar, não dizia ao marido quantos membros de outros homens ele já havia saboreado por tabela. Entregava-se, sim, a outros homens e não tinha pudor algum quanto a isso. Só exigia discrição e sigilo absolutos, pois a sociedade é feita de imagens e ela não tinha intenção de sujar a sua ou a do boi que lhe ajudava a manter uma imagem de família feliz.

Quanto a Rodrigo... já ouviu todo tipo de baboseira sobre relacionamentos, especialmente quando se trata de mulheres casadas. É nisso que pensa enquanto se veste e se prepara, pensando que daqui a pouco Sabrina vai passar de carro em frente ao banco para pegá-lo, já que este final de semana o marido vai estar viajando novamente, Europa talvez. Ele não se incomoda de ser o outro, do fato de que o titular, o marido, é quem lhe deu o nome e que é com ele que ela divide a cama e acorda todas as manhãs. Por que deveria achar ruim? Esposos e esposas não têm um décimo do poder que os amantes realmente têm, pois é com eles que as esposas realmente satisfazem suas fantasias, se entregam de corpo e alma, fazem tudo o que nem sonhariam em fazer em casa. O marido pode ser regra, mas nem de longe vai ser a assunção da verdade sobre a alma da esposa que, sempre que possível, se entrega de forma despudorada e submissa a outro homem.  Existiriam outros a quem ela se entrega? Que importa isso? O sexo é bom, os presentes são ótimos, ninguém é dono de ninguém, o que poderia ser melhor? Não se sentia inferior por não ser o homem da casa, pois, no fim, todos somos restos, alguns de forma superior ou inferior.

Enfim arrumado, ele deixa o apartamento, descendo as escadas até a saída.  Do outro lado da rua percebe o carro de Sabrina, que já espera por ele, com um sorriso no rosto típico de quem precisaria que a noite durasse duas vezes mais que o normal. De forma contida, ele retribui o sorriso. 

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