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Contos-->O último vínculo -- 29/06/2019 - 16:03 (Lorde Kalidus) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos

Tarde nublada de agosto, o inverno parece finalmente ter se lembrado que é sua época de trabalhar. Uma chuva fina que engordura ruas cansadas e aborrece os que passam por elas, não só pelo incômodo toque como por não resolver nem de longe o problema de falta de água que há meses atormenta São Paulo. O centro é uma mulher enjoada e prepotente, que desconta em quem pode seu descontentamento pelo clima do dia movimentado, seja quem depende do transporte público ou parado no trânsito ainda mais lento ou seja qual for a sorte de problemas espalhados pela cidade.

Humberto é oficial de justiça. Agradece por não ter que ficar no Fórum hoje, pois não conseguiria ficar trancado dentro de lugar algum numa tarde como esta. Gosta do emprego e é grato por ele da maneira como pode, mas hoje decidiu que apenas iria pegar algumas intimações e citações e depois iria pra casa. Não é dia de ficar indo a presídios, não estava disposto a esperar ou a ter que explicar a um preso semianalfabeto um número incontável de vezes a respeito de uma data em que ele teria de se apresentar perante o juiz. Hoje iria para casa, nada de esperas ou aborrecimentos, tudo o que queria era sentar em frente à televisão com pipoca e refrigerante e descansar a tarde toda.

Em parte, isso é o que ele queria. Estar em sua sala de estar mobiliada a duras penas junto com a esposa no sofá macio, sentir o gosto gritante da manteiga na pipoca e beber aquele refrigerante de cola gelado no copo que fez questão de comprar especialmente para consumi-lo. Copo de vidro, óbvio, já lhe bastava beber em copos de plástico quando ia a fast foods viciantes, como se ter o gosto da bebida destroçado pelo plástico dos copos fosse um segundo preço que pagasse para consumir o lanche que tanto gosta.

Horas mais tarde, ele guarda os instrumentos de trabalho no banco de trás e parte com o carro, agradecendo por ser ainda pouco depois da hora do almoço e o trânsito ainda não estar tão sofrível quanto vai estar algumas horas depois. Enquanto dirige, Humberto pensa e, como de costume, enquanto pensa, ele sofre. Pensa na vida, no trabalho, nos amigos e, como não podia deixar de ser, em Valquíria.

Humberto não pode se queixar da vida, ao menos financeiramente falando. Casado há cinco anos com Valquíria, ele não se cansa de dizer que a esposa é um achado. Sempre está a seu lado, cuida da casa e ajuda a pagar as contas suando a camisa com seu cansativo emprego de professora. Amor à primeira vista, ele se lembra de ela tê-lo cativado de tal forma que ele percebeu na primeira meia hora em que conversaram que passaria a vida toda com ela. Namoraram durante dois anos, ambos em situação difícil, ele se preparando para o concurso de oficial e ela terminando a faculdade de Letras para se tornar professora, como queria. Assim que ambos conquistaram seus empregos começaram a economizar para comprar seu apartamento e se casar. De lá pra cá tudo aparentemente deu certo, as brigas de costume, que logo terminavam como se nem houvessem acontecido. Ele não tinha do que se queixar da esposa e o relacionamento dos dois mantinha um clima de romance como no filme Love Story.

Mas, apesar de tudo, ele não é totalmente feliz. O casamento vai bem, mas ele constantemente se vê pensando sobre a futilidade da vida e de sua própria existência. Nascer, passar por mais ou menos privações, aprender mais ou menos com a vida e, finalmente, morrer. Tudo parecia sem sentido para ele. A própria felicidade, o conceito dela e sua obtenção mostravam como o ser humano é um viciado, escravo de suas próprias necessidades, sejam elas drogas, sexo ou diversões comumente aceitas. Muitos não têm tempo ou paciência para pensar nisso, talvez, se tivessem, acabassem dando fim às suas próprias vidas, e o próprio Humberto pensa nisso diariamente. É exatamente neste ponto que o funcionário público entra em conflito com seus próprios sentimentos e a esposa, que é aquilo que ele mais ama no mundo, se torna também o que ele mais odeia. Ele pensa em como seria fácil acabar com seu tormento, seja através de pulsos cortados, enforcado ou com um tiro na cabeça, mas pensa também que isso seria abandonar quem mais ama e que não conseguiria aceitar este tipo de covardia. Não o suicídio, pois nem de longe acha covarde quem opta por sair de cena sem nunca ter pedido para estar nela, mas abandonar a mulher que o ama, que é fiel a ele e que diariamente demonstra ser incapaz de viver sem ele. Ela se torna uma âncora, um entrave, uma barreira que faz com que ele se torne incapaz de abandonar a existência que tanto repudia, tornando-se quase um instrumento de um destino sádico que parece interessado em aprisiona-lo segundo sua vaidade.

Às vezes ele se pega pensando em como gostaria que o comportamento da esposa fosse o avesso do que realmente é, se ela fosse uma megera insuportável, um traste do qual ele ansiasse por se livrar, ou se ele pudesse descobrir uma traição ou ainda mais que uma, mas desde que a conhece não consegue saber de qualquer dolo ou mesmo culpa que fosse sobre seu comportamento. Nenhum vizinho que a tenha acusado, alguma marca no corpo que seja, nada. Tudo que vê no dia a dia é apenas amor, que aparenta se renovar dia após dia e, consequentemente, mantê-lo preso a esta anedota de humor negro que a vida insiste em ser.

Ele se perde dirigindo e ouvindo sua música, cujo som parece se mesclar ao pensamento existencialista que faz morada em sua mente. Logo está em casa, passando pelo portão da garagem e apressando-se em estacionar. Deixa as intimações em seu carro e caminha até o elevador, ansioso por chegar em seu apartamento. Hoje é o dia em que Valquíria não dá aula no período da tarde, o que faz com que ele espere que ela esteja em casa.

Estranhamente, Humberto encontra a porta destrancada. Entra em casa normalmente, ouvindo vozes temorosas na sala, e logo em seguida dois ou três garotos passam correndo através dele. Ele estranha tanto a atitude dos jovens como o fato de estarem ali, uma vez que Valquíria não recebe alunos em casa. Um deles esquece a camiseta e, em meio ao cenário, ele tem a atenção voltada para o quarto, onde ouve gemidos familiares, embora agora soando mais alto do que ele costuma ouvir, e percebe ainda o ranger da cama através da porta fechada. Ao abri-la se depara com Valquíria na cama, de quatro, recebendo um jovem forte, alto, mas que visivelmente é adolescente. A esposa se surpreende ao ver o marido e o amante, surpreendido, não esconde o susto, tentando arrumar explicações para o ocorrido, assim como a esposa, enquanto Humberto, embora surpreso pelo que ocorreu, observa a mulher, que se perdia entre as palavras, dizendo que não fez por mal, que aquilo não era nada, entre outras explicações que ele não fazia muita questão de ouvir. Surpreendentemente, para a esposa, ele começa a rir e sai do quarto, indo em direção à cozinha, deixando estarrecidos tanto o provável aluno quanto a mulher. Sem saberem o que fazer os dois permanecem no quarto enquanto Humberto abre a gaveta de talheres, puxando de seu interior uma faca de cortar carne. Apavorada, a esposa lhe pede que não faça nada precipitado, que não teve a intenção de magoá-lo enquanto o rapaz, nu, foge pela porta da sala. Valquíria se apressa em fechá-la e bloqueá-la para que o marido traído não vá atrás do jovem, temendo ainda por sua própria vida. Mas tudo que o marido faz é beijá-la na testa e no rosto, dizendo-lhe então obrigado, como se, naquele momento, ele houvesse removido o último vínculo com a vida, a última barreira que o impedia de deixar este mundo. Em seguida se ajoelha perante a mulher, como que numa última demonstração de gratidão, e enterra a faca no próprio peito. Não vê mais nada em seguida e, a despeito da dor, morre com um sorriso.

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