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Contos-->A loira do metrô -- 29/06/2019 - 16:00 (Lorde Kalidus) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos

A segunda começa, como de costume, com o lamento dos carros, que parecem seguir o exemplo de seus donos e copiam suas lamúrias pela semana laboriosa e pouco promissora que começa. A crise parece cada vez mais faminta, ladrões governam, aqueles que não contribuem com nada ganham cada vez mais direitos e todos estes itens são sustentados pelo trabalho daqueles que vivem para pagar impostos e manter a máquina social funcionando enquanto são obrigados a deixar de lado, ao menos parcialmente, aquilo pelo qual trabalham.

Elisângela não liga para qualquer destes itens. Pelo menos não é sua preocupação neste exato momento. O relógio tocou há poucos minutos e ela agora está escovando os dentes e pensando no dia que virá adiante. São 06h00 e, após lavar o rosto, ela já está usando a roupa de academia que aperta suavemente o corpo arduamente trabalhado todos os dias antes do trabalho.

O marido faz a barba enquanto ouve as notícias na tv, um ritual muito semelhante ao que o pai dela, e provavelmente o sogro, praticavam. Este é mais um detalhe que passa pela mente dela quase que imperceptivelmente, rapidamente comentado à mesa enquanto ela e o homem com quem divide o lar e a cama tomam seu café. Os dois jogam conversa fora, falam sobre o que ouvem no noticiário e questões de trabalho, entre outros assuntos típicos de pessoas casadas. Ela sai antes dele, uma vez que deverá pegar o ônibus e o metrô para chegar ao serviço logo depois do treino de musculação. Um beijo carinhoso e o casal feliz mais uma vez se despede para permanecer separado até o final do dia.

Deixando sua casa ela caminha até a academia, localizada em uma grande avenida logo acima, a poucos metros de onde mora. Cumprimentando discretamente o instrutor atrás do balcão ela caminha sem demora até o vestiário e guarda sua bolsa no armário, indo logo em direção aos aparelhos. Há meses vem treinando com o intuito de adquirir massa muscular e, consequentemente, coxas grossas, glúteos firmes e deixar todo o restante de seu corpo de forma proporcional. Os resultados vêm aparecendo e ela vem se tornando alvo de comentários, a despeito dos demais frequentadores da academia darem a entender que estão mais interessados em qualquer outro assunto que estejam debatendo, com destaque para o futebol. Sem perda de tempo com qualquer conversa paralela, Elisângela vai de um aparelho a outro e permanece atenta ao relógio. Vez ou outra, algum paquerador contumaz aparece, puxa conversa, só faltando se declarar ali em meio a todos. Ela se mostra gentil, mas não abre nenhuma porta, como não poderia deixar de ser, haja visto que morava perto da academia e, como todos já sabiam, era casada. Muitos ali conheciam o marido e, a despeito de lhe despertar um interesse considerável até, preferia manter-se alheia e não dar a entender ser adepta de qualquer conduta que pudesse manchar sua reputação e, consequentemente, a do marido. Mulher, sabe bem ela, só de andar certo já está errada, já é malvista, inclusive por outras mulheres. O que dizer quando é dado algum motivo para que acabem sendo mal faladas.

Terminado o treino ela vai direto ao vestiário. No banho volta a bater a ansiedade por estar logo a caminho do trabalho, mas não é lá que se encontra o que a deixa tão ansiosa, mas no trajeto. Durante seu treino controlava o horário como podia, não apenas por não querer se atrasar para o serviço e estar lá antes das nove, mas também para o seu passatempo secreto, que lhe dava maior motivação para enfrentar o dia a dia e até mesmo a motivá-la a ir trabalhar.

Despede-se do instrutor da forma mais discreta possível, como se faria com qualquer pessoa que fizesse parte de seu dia a dia e que não fosse necessariamente importante. Educada, porém não dava entrada para que qualquer um a abordasse, é o que diziam dela. Talvez nas fantasias de alguns já houvesse deitado com eles, é algo que uma mulher pode notar até mesmo na forma com que um homem a observa, mas isso não lhe importava. Hora de pegar o ônibus e sair rumo ao trabalho uma vez mais.

Poderia pegar o ônibus até Santana mas preferia pegá-lo até o Belém. Na Bresser o trem estaria lotado, como já é de se esperar de um dia de semana na parte da manhã. Vários proletários a caminho de seus respectivos locais de trabalho, todos eles enchendo um trem com espaço insuficiente para todos, o que resultaria em passageiros apertados uns contra os outros, exatamente como ela quer que seja.

Tão logo o trem se aproxima da estação referida, ela deixa seu assento, permanecendo em pé a uma distância segura da porta, mas que lhe permitirá estar em meio aos passageiros que irão se acumular tão logo ocorra uma parada na estação. Assim que os ocupantes começam a procurar um local melhor para permanecer ela passa a observar da melhor forma possível cada um que entra, buscando, assim, um que lhe desperte o interesse. Não demora muito e nota alguém que caminha para o outro lado do vagão, enquanto ela passa a se movimentar de forma a chegar até ele da forma mais rápida possível em meio aos ocupantes do trem. Durante o curto trajeto percebe mãos bobas tocando suas nádegas firmes e, embora o toque soe um tanto indesejado, ela não manifesta oposição, sempre mantendo no foco o homem que visualizou entrando no trem.

Ajeitando-se como pode e com o máximo de discrição possível, Elisângela segura-se na barra de ferro e busca manter seu equilíbrio, mantendo-se à frente do homem que a levou a estar naquela parte do trem. Sem chamar a atenção, logo ela encosta uma das nádegas na virilha do estranho e, ajeitando-se, pode sentir seu membro tocando-a próximo de seu ânus. Ela se move vagarosa e discretamente, não permitindo em hipótese alguma que a expressão em seu rosto entregue o que faz ou suas intenções. Em um determinado momento olha para trás, com um olhar alheio ao ocorrido e percebe que o homem, embora surpreso, parece já ter entendido o que ocorre por ali. Ela pisca, sorrindo levemente, e em seguida joga a mão para trás, aproveitando o fato de que permanece escondida pelos transeuntes, e acaricia o membro do passageiro que, a esta altura, já agradece tê-la encontrado dentro do metrô. Ela respira fundo e busca disfarçar novamente, mantendo sua postura séria, sem demonstrar a alegria que sente por perceber que o passageiro atrás de si possui uma ferramenta de tamanho que supera as expectativas. Cautelosamente, ela pega seu celular e novamente olha para o estranho, acenando com a cabeça e deixando logo a entender que queria seu número, que ele prontamente fornece. Ela sorri, guardando o telefone em seguida e descendo na próxima estação, deixando a entender que ligaria para o homem.

Ao desembarcar ela busca uma das cadeiras do metrô e se senta, procurando guardar em sua agenda o telefone do estranho, como já fez inúmeras outras vezes todos os dias em que sai para trabalhar. E, da mesma forma que em outras vezes, ela irá ligar para o passageiro que sequer conhece e ambos vão conversar durante toda a hora de almoço, tão logo ela tenha acabado de se alimentar, de forma que ela possa conhecer melhor o dono do membro que tanto lhe chamou a atenção. E, no seu próximo dia de folga, ela estará de pernas abertas para o estranho, de quatro, sentada sobre seu mastro ou de joelhos diante dele, não apenas se realizando mas também permitindo que ele faça o que bem entender com ela. Será assim com o que acabou de conhecer pela manhã, com outro que conheceu antes ou que conhecerá após ele à tarde e assim se repetirá o ritual todos os sábados enquanto seu marido joga futebol com os amigos.

Culpa? Ela não diria que o sente. Segue apenas seu próprio desejo, como é feito por qualquer um e não tem medo de admitir isso, pelo menos para si própria, pois já aceitou há muito tempo que vivemos em prol de nossas vontades e necessidades. E sexo nada mais é que mais uma delas, assim como beber, comer e dormir.  Tocar no assunto com quem quer que seja seria suicídio social, haja visto que seria uma puta para homens e mulheres, independentemente do quão próxima fosse de uns ou de outros. Eles a usariam para conquistar favores sexuais, elas fariam dela o centro de suas fofocas mesmo sabendo que em muitas circunstâncias já flertaram ou se deitaram com outros homens, quer pertencessem a outras mulheres, incluindo suas próprias amigas, ou não. Sendo assim, como não poderia deixar de ser, mantem sua tara em segredo.

Como já se esperava que acontecesse um dia, casou-se. Filhos? Um dia, quem sabe, pois fazem parte da vida. E toma todas as precauções para que sejam de seu marido, a despeito do sexo pouco proveitoso, quase eunuco, oferecido por ele. Constituiu patrimônio, uma reputação que se pode dizer respeitável entre as pessoas que fazem parte de seu cotidiano, um emprego de gerente em uma livraria respeitável, tem um marido com emprego ótimo e bem remunerado, mas já passou da idade de fazer da vida uma ilusão. A união é das melhores, mas nem de longe pensava em deixar que o sexo fosse o alicerce principal dela, haja visto que poderia conquistar tais favores de quem quer que fosse. Contanto que fosse homem e possuísse algo entre as pernas que lhe satisfizesse, haveria negócio. E, no intuito de descobrir sobre o assunto, faria uso de suas andanças pelos vagões lotados do metrô, abordando como acaba de fazer qualquer desconhecido que lhe interessasse.

Amaria sempre o mesmo homem, mas buscaria a satisfação com qualquer um que lhe despertasse o desejo. E manteria sempre o sigilo de forma que não manchasse seu lar ou atraísse atenções negativas, haja visto que não há mácula sobre o que quer que seja até que está seja desvendada pelos olhos de terceiros. Bela por fora, meretriz por dentro, talvez fosse como a chamariam se soubessem a verdade sobre seu ser. Não importa. A integridade de sua casa seria mantida e sua fome por prazer seria saciada. Se o marido a notaria mais larga ou uma ou outra marca em seu corpo que para ele, até então, seria puro e intocado pelas mãos de outros homens, isso seria um assunto com que ela lidaria facilmente a cada ocasião. Faz parte da manutenção de um lar cuidar para que um marido apaixonado continue assim e não busque pistas ou fatos que, para sua mente, não devem existir.

Tão logo registra o número do estranho na agenda de seu celular ela se levanta, caminhando até a saída da estação. Seu olhar é alheio a tudo que ocorre à sua volta, sua postura é firme e, aos olhos de quem a conhece ou a pensa conhecer, inatacável. Logo ela está em seu local de trabalho, pensando apenas nos afazeres que deverá iniciar ou dar continuidade, enquanto seu inconsciente não a deixa esquecer dos telefonemas da hora do almoço. À noite ela estará em casa novamente, colocará a conversa em dia com o marido e, ao amanhecer, dará novo início ao seu ritual diário. Enquanto isso, em algum lugar, haverá alguém conversando em uma roda de amigos sobre como foi abordado por uma loira sedutora, de olhos azuis, dentro de um vagão de metrô, embora duvide que ela realmente chegará a ligar, da mesma forma como ocorreu com muitos antes dele. 

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