Usina de Letras
Usina de Letras
                    
Usina de Letras
121 usuários online

 

Autor Titulo Nos textos

 


Artigos ( 56938 )
Cartas ( 21165)
Contos (12589)
Cordel (10045)
Crônicas (22167)
Discursos (3133)
Ensaios - (8976)
Erótico (13389)
Frases (43457)
Humor (18418)
Infantil (3758)
Infanto Juvenil (2649)
Letras de Música (5465)
Peça de Teatro (1315)
Poesias (138108)
Redação (2919)
Roteiro de Filme ou Novela (1053)
Teses / Monologos (2399)
Textos Jurídicos (1924)
Textos Religiosos/Sermões (4811)

 

LEGENDAS
( * )- Texto com Registro de Direito Autoral )
( ! )- Texto com Comentários

 

Nossa Proposta
Nota Legal
Fale Conosco

 



Contos-->O último copo de conhaque -- 29/06/2019 - 15:59 (Lorde Kalidus) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos

Clóvis estava ali, sentado no chão da sala de estar de seu apartamento já fazia uma hora. Por algum motivo não quis sentar-se ao sofá, como se não quisesse sujá-lo com os conteúdos de sua alma escarlate, que há pouco começaram a escorrer de seu braço. Apesar da apatia em que sua alma se encontra este pensamento o faz rir. Em pouco tempo não terá mais que se preocupar com o que quer que seja, quanto mais com o tecido do sofá no qual nunca mais irá se deitar, a menos que consiga deixar um testamento legível o bastante constando que gostaria de ser enterrado sobre ele. Já viu milionários serem enterrados em Ferraris, mas nunca ouviu falar de alguém que houvesse sido sepultado sobre um sofá, por mais confortável ou especial, independentemente do motivo que o fosse. Lhe parecia tão estúpido quanto a vida em si providenciar enterros espetaculares para divertir infelizes que em pouco tempo sequer se lembrariam quem foi enterrado, até porque o morto em si não iria se divertir de forma alguma com o que estaria acontecendo.

Começo de mês, o salário de servidor público estadual não havia caído na conta ainda. Não havia limite no cartão de crédito ou saldo o suficiente no banco, mas queria passar seus últimos minutos tomando um copo de uísque. Não iria acontecer, o pouco que tinha não bancaria mais que uma garrafa de conhaque. Mais um estrago em toda a ilusão que a vida lhe havia feito acreditar, desta vez no mito do último pedido de um condenado. Sequer um último copo de seu“doze anos” favorito lhe seria concedido, pois era trabalhador, cidadão decente, não um fardo para a sociedade que estaria condenado ao corredor da morte. Se  vivesse em um país sério e houvesse praticado um crime considerado hediondo iria para a cadeira elétrica e talvez pudesse até pedir uma última refeição, mas ali era o Brasil e a pena de morte não existia e não são vistos com bons olhos aqueles que pagam seus impostos em dia.

Tomou a precaução de abrir a garrafa e servir-se antes de fazer o corte no pulso do braço esquerdo. Não quis cortar os dois braços pois não teria como voltar a servir-se caso os tendões dos dois lados estivessem cortados, como iria controlar as mãos? Ele ri novamente ao pensar em como isso lhe faz pensar que, ao contrário do que ouviu uma vez, nem tudo depende da própria vontade. Como mexer as mãos, por mais que se queira, com os tendões cortados? Malditas frases feitas e seus autores, não estariam eles mais interessados em tentar esconder-se de seus próprios temores por trás dessas frases, fazendo não com que os outros acreditassem nelas mas, sim, com que eles próprios se esquecessem que, na verdade, a vida não é esta dádiva maravilhosa, este mecanismo perfeito que eles mesmos pregam ser?

De fundo ouve “a saucerful of secrets”, do Pink Floyd, lançado em 1968. Não conseguiria pensar em uma trilha sonora melhor para aquele que está se tornando o último momento de sua vida, aquele em que todos seus erros, acertos e percepções parecem passar diante de seus olhos enquanto o sangue parece não ter pressa em adentrar aquele estranho caminho aberto para fora de seus trajetos normais. Não sentia dor, com exceção daquela causada pelo rápido e profundo corte da navalha salvadora que, numa ingratidão inconsciente, ele praticamente esqueceu, deixando-a de lado, concentrado apenas nos goles do conhaque que descem por sua garganta. Lembrando-se do revólver dentro da cômoda ele logo percebe que não teria como tê-lo usado para dar um fim mais rápido às coisas. Quarenta e cinco anos passados neste mundo não poderiam ser abreviados de tal forma, seria completamente desprovido de etiqueta apelar para algumas gramas de chumbo para se despedir de forma repentina. Isso sim seria uma covardia, não sair do palco desta peça sinistra, desta piada de humor negro que é a vida, e onde ele nunca pediu para estar. Não se lembra em hipótese alguma de já ter sido um espermatozoide vagando pelo útero de sua mãe brigando com outros para chegar até um maldito óvulo que resultaria em transformá-lo em mais um dejeto escarrado por Deus. Este, aliás, caso exista, deve estar enjoado de rir neste exato momento.

Não conseguia pensar numa lógica para a existência regida por um Deus que lhe obrigasse a permanecer neste mundo estúpido e cruel para simplesmente aprender sobre toda forma de sofrimento humano possível. Obviamente todos ou pelo menos sua grande maioria correu em busca de Seu auxílio, implorando por seu amor e seu perdão como uma forma de se livrarem de suas próprias inadequações, de seus próprios erros, embora ache que o próprio homem é um erro em si. Se o ser humano é realmente a imagem e semelhança de Deus, como não crer que Ele, na verdade, é o pior dos monstros e que o diabo nada mais é que um bode expiatório que existe unicamente para levar a culpa por tudo? Um filho unigênito para responder por tudo que é feito de ruim, um anjo caído para levar a culpa pela mesma coisa, cordeiro e bode como algo único no fim. Como fica fácil servir ao Pai sempre acreditando que os pecados seriam perdoados sem saber que, na verdade, tanto quem vende a alma ao diabo como quem busca amar a Deus, na verdade, buscam apenas algum tipo de paraíso no fim. E Clóvis novamente volta a rir.

Quando ele se lembra de que aquele que quiser vir após Jesus deveria negar a si mesmo, tomar sua cruz e segui-Lo, pensa em como se deixou enganar por esta passagem. Não lembra exatamente onde na Bíblia a leu, mas sabe que está lá. Como alguém nega a si mesmo? Negação de si mesmo não existe, uma vez que tudo que se faz tem como combustível apenas o livre arbítrio, sua própria vontade, ninguém entra na igreja carregado ou com uma arma apontada para a cabeça. Como se nega a si quando se faz apenas o que se decide fazer e se está em determinado local fazendo determinada coisa apenas porque se decidiu fazê-lo? Da mesma forma que o suposto amor de Jesus pela humanidade não seria, em primeiro lugar, um amor por si mesmo, uma vez que Lhe agradava sacrificar-Se e fazer a vontade de Seu Pai Eterno quando morreu por Ele e pelos seres humanos? Não era esta, então, uma forma do Filho Unigênito de Deus evitar para Si um castigo eterno e uma condenação ao inferno? Estranho ninguém ter parado para pensar nisso ainda.

Consequentemente as ações humanas não poderiam tomar rumo diferente, bem como as ações e emoções praticadas e sentidas por eles. O amor dos pais, dos filhos, dos casais, novamente as frases feitas que acabam surgindo inevitavelmente invocando algo que mostra que, no final, não apenas os organismos humanos são altamente viciados por tudo que não presta e lhes deixa contentes como também a mente, o espírito humano, vive unicamente na busca eterna pela felicidade, da mesma forma que o dependente químico busca incessantemente pela droga. E assim como o primeiro precisa dela para acalmar sua procura, os seres humanos precisam buscar pela alegria para não permanecerem em seu estado normal, a apatia, e começarem a se lembrar de si mesmos e da pobreza moral que é sua existência. A mente vazia é a oficina do demônio, mas, a grande verdade é, diabólico é tudo aquilo que nos desagrada, inclusive a verdade sobre nós mesmos.

Alheio agora a toda busca por felicidade, a toda necessidade de esperança, uma vez que ela e a ilusão são apenas concubinas do desespero em maior ou menor grau dependendo das circunstâncias, ele agora encontra-se ali, enchendo o copo no chão, com apenas uma das mãos, haja visto que a outra agora encontra-se tão morta quanto em breve ele estará, e volta a consumir uma dose dupla de conhaque. Sabe que a garrafa não vai durar, mas segue o protocolo e coloca a dose dupla na quantia certa no copo de uísque, numa alusão melancólica à bebida que preferia estar consumindo. Se reserva este direito, pois agora é um moribundo a poucos minutos de seu fim e não vai pedir desculpas por insultar a bebida que desce pela garganta, quer ela seja ou não sua única companheira naquele exato momento.

Companheirismo... esta palavra lhe traz lágrimas tanto quanto lhe traz mais risos que são amortecidos pelo copo que se junta à sua boca. Amigos que pensou ter, amizades de longa data até, mas amigos, ao contrário da frase que diz serem uma única alma dividida em dois corpos, só conhecem lealdade até a hora em que aparece algo melhor para se fazer. Namoros, casamentos, todas estas instituições, permanentes ou não na melhor forma que o coração humano permitiria durar, ele presenciou. A quase sagrada, beirando até mesmo a incorruptibilidade do lar, sempre se mostraram unicamente uma superfície que muitas vezes quem mais a defendia fazia questão de defecar sobre ela. As esposas com quem ele passou tardes inesquecíveis praticando ações que seus maridos sequer imaginavam que conhecessem, os colegas de trabalho cuja masculinidade seria inquestionável que se transformavam em mulheres nas mãos de travestis, as filhas que se prostituíam, se drogavam ou que, às escondidas ou não, abriam as pernas da mesma forma que suas mães, muitas das quais trouxeram a Clóvis momentos memoráveis... Hoje tudo é posto na balança e lhe faz crer não que a linha entre o bem e o mal é fina, mas sim que não há bem ou mal, somente o próprio mal, como essência humana, em graus maiores ou menores, e que o único amor existente é o amor próprio, até mesmo quando se dá a vida por quem se ama, pois é preferível, muitas vezes, perder a própria vida a perder a pessoa amada. Mas, independentemente disso, somos nós mesmos sempre os primeiros beneficiados por qualquer sacrifício feito.

Ciente, portanto, de que não há dedos que possam ser apontados em sua direção, que não há promotor neste universo capaz de acusa-lo, haja visto que, moralmente falando, estão todos falidos, ele torna a encher o copo e bebe os últimos goles de sua garrafa, já sem se preocupar com o que os próximos meses, que para ele não existirão, irão lhe trazer. O apartamento e o carro serão tomados, seu nome será protestado pelo cartão de crédito, que não chegará sequer a saber de sua morte, nenhum herdeiro será beneficiado, pois qualquer filho que ele possa ter tido deve ter nascido de alguma mulher casada que, por razões óbvias, não pôde jamais reclamar pensão. Tudo o que foi construído com seu trabalho, inclusive sua vida, desaparecerá, e ele se permite uma última risada, que é engolida pelo último gole de conhaque que, como num sincronismo mortal, acaba entrando por sua garganta quase que simultaneamente ao último jorrar de sangue de seu braço. Ele não se despede, talvez não o faria mesmo que tivesse tempo para isso. Apenas observa tudo ao redor, vendo o sol se pôr do lado de fora e vendo como isso parece ser uma metáfora do que vem a seguir e de como a própria existência humana se assemelha a um eterno crepúsculo. 

Comentários

O que você achou deste texto?        Nome:     Mail:    

Comente: 
Perfil do Autor Seguidores: 1Exibido 24 vezesFale com o autor