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Crônicas-->Mara e Maíra -- 31/01/2008 - 10:54 (Renato Rossi) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
Mara e Maíra são irmãs gêmeas. Gêmeas idênticas, destas que mesmo a mãe confunde e deixam todos atônitos tentando descobrir quem é quem. Seria assim, como ocorre com os gêmeos idênticos, não fora um pequeno detalhe.

Mara e Maíra desconheciam o fato e jamais imaginaram a existência uma da outra. Se tal situação não é comum, também não é única. Gêmeas separadas aparecem nas novelas de vez em quando e na vida real também se ouvem histórias semelhantes. Mas a explicação geralmente está com a mãe. Nem poderia ser diferente.

Se parece aceitável que Mara e Maíra não suspeitassem da existência uma da outra, é difícil compreender que a mãe delas, que criara Maíra como filha única, também desconhecesse a existência de Mara. Algumas vezes cometia o ato falho de chamar Maíra por Valéria, o que jamais teve explicação. Maíra já não se incomodava e ria com a situação. Dora, a mãe, também já se acostumara com o fato a despeito da ausência de explicação. Valéria, dizia, parecido com Maíra. E ria da esquisitice.

Gestadas e paridas em tempos em que ainda não havia ultra-som, a gravidez transcorreu normal a menos do fato de que Dora e Jaime esperavam um rapagão enorme e não uma menina delicada como ocorreu. Duas meninas? Algo jamais pensado. A mãe estranhava o peso excessivo, mas se orgulhava do porte do que seria um varão. Já tinha até nome: João Carlos.

Só Tia Clara, irmã de Jaime, ficava falando que devia haver algo errado. Parece que são dois, quem sabe três, ficava dizendo toda vez que a encontrava. Mas quem dava atenção à Tia Clara? Sempre tão falastrona, contando histórias inverossímeis e fofocando como podia. Toda família tem uma Tia Clara, acho que é uma provação a que todos devemos nos submeter. Um desafio à nossa paciência e tolerância.

Maíra com seus vinte e sete anos, faculdade e mestrado terminados, prepara-se para um casamento. Não está bem certa, mas segue se preparando.

Entrou em uma loja e, sem imaginar ou esperar o que estava por acontecer, viu-se em frente de Mara. Por sua vez, Mara, em frente à Maíra. Assim, simples assim, uma olhou para outra e, não fora a roupa, achariam estar em frente a um espelho. Ficaram assim estupefatas pelos mais longos instantes de suas vidas, tentando entender como poderiam ser tão parecidas se nenhuma delas tinha, pensavam, irmãs, gêmeas ou não. Olharam-se de cabo a rabo, de rabo a cabo, de cima abaixo, de lado, de ponta cabeça, de todo jeito que puderam imaginar. Tirando a cor do cabelo, tudo exatamente igual, inclusive a pinta no antebraço direito e outra, souberam depois, no bumbum. Banda esquerda.

Bem, elas não sabiam como, mas não poderia haver dúvida. Mara e Maíra são irmãs, compartilham tudo, inclusive o DNA, mais tarde conferido. Decidiram manter o fato em segredo até que pudessem esclarecer. Mas continuaram encontrando-se clandestinamente.

Mas como?

Maíra jamais ouvira qualquer conversa ou indício de tal ocorrência. Temeu não ser filha dos pais que a criaram, mas, viva o exame de dna, conferiu, descobrindo nada ter de anormal. Tentou puxar conversa com pai e mãe juntos e separadamente e nenhum indício apareceu. Ela não entendia. Seus pais não têm tragédias a contar, tinham uma vida tranqüila de classe média alta, perfeitamente equilibrados, criaram Maíra como uma princesa, como se dizia. Nenhum incidente significativo, nenhuma desavença que não aquelas que acontecem em qualquer casa, absolutamente nada que permitisse imaginar o abandono ou extravio de uma criança, muito menos a existência de uma irmã gêmea por assim dizer, não declarada.

Mara por sua vez, crescera em um orfanato onde, de uma ou de outra forma cresceu e se desenvolveu, estudou e saiu para uma vida normal. Não tem grandes traumas, às vezes visita a instituição e ajuda como pode sobretudo dando carinho às crianças em suas horas de folga. Tornou-se amiga das irmãs que a criaram e, aos vinte e sete anos, já formada e empregada se encaminhava para o que chamamos de uma vida normal. Só não conseguia explicar algumas dores de cabeça que sentia de vez em quando e um sonho recorrente em que médico e enfermeira faziam um parto. Tinham uma atitude que ela não sabia descrever.

Ela tentara descobrir sua origem. As irmãs do orfanato não puderam ajudar muito. Os registros eram omissos e a memória de Irmã Liberata já não era muito confiável. Ela só dizia que Mara fora trazida ao orfanato por um médico que disse que a criança era filha de uma paciente que não poderia criá-la. Mais não disse e jamais voltara. Irmã Liberata, entretida com a criança, mal pode notar no homem que se dizia médico. Não perguntou nome ou origem. Apenas percebeu um pequeno broche na lapela do costume bem cortado. Era uma roda dentada, que depois veio a identificar como o símbolo do Rotary. Vinte e quatro dentes. Mas as conversas com Irmã Liberata eram cada dia mais difíceis. Idade avançada, confundia as pessoas e dava informações desencontradas. Como poderias estar certa sobre o número de dentes no símbolo? Mara não tinha um desejo obsessivo de encontrar sua família, colecionava as poucas informações que obteve e tentava entendê-las com serenidade. Não ficara traumatizada ou o que seja que as pessoas sentem nesta situação. Era grata ao orfanato e às irmãs. De outro lado, tinha o desejo de, se possível, saber mais.

Ocorreu que o médico, Dr. Carlos Antônio, nome duplo como nas novelas mexicanas, sem a possibilidade de ter filhos, prometera à mulher uma criança de modo a completar a felicidade familiar.

Mancomunado com uma enfermeira a ele dedicada há muitos anos, ao receber a segunda criança, escondeu-a. A mãe, feliz com o que pensava ser a única filha, em meio à dor e à emoção não percebeu. Não reclamem. Ela não percebeu, coisas que acontecem para dar margem à literatura e às tragédias. Naquele tempo, os pais não assistiam aos partos. Ficavam na sala de espera fumando um cigarro atrás do outro, outro atrás do um como se fossem chaminés fumegantes de uma maria fumaça. Assim eram os pais. Ansiosos fumegantes como retratados nos desenhos animados, charges e filmes.

Mãe, pai e filhas foram todas enganadas pelo obstetra que engendrou toda a história que, contada assim, parece coisa de novelista. Naquele tempo, sem ultra-som e poucos exames pré-natais, o médico ao perceber serem gêmeos, ficou quieto, guardando o conhecimento só pra si.

Não culpem a mãe e nem o pai. Eles faziam tudo direitinho e foram cruelmente enganados pelo médico e sua assecla que, naturalmente, apaixonada por ele, tudo fazia para conquistá-lo, sonhando ela própria em criar a criança junto com ele.

Aconteceu que a mulher do médico, ao receber a criança pensou ser ela filha natural do médico, recusou-se a recebê-la.

Rejeitada, Mara acabou criada em um orfanato e só conheceu Maíra por uma destas coincidências só encontradas em crônicas de final de tarde de domingo.

Naturalmente que Janete faria melhor. E mais comprida.


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