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Contos-->Choro de viola no alpendre -- 12/08/2017 - 02:44 (Adalberto Antonio de Lima) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
IV

Na fazenda Campo Grande, a aurora chega, quando o bezerro apartado berra,  suplicante, pedindo uma gota do esguicho morno guardado nas tetas da mãe. O fazendeiro se levanta antes que  o galo cante: — ‘Evem diiia... Evem diiia... Evem diiia...’ — canta o galo. Naquele tempo, chovia. O sol se escondia semanas a fio e os meninos se banhavam nas águas barrentas do rio.
 A noite cai. 
Vem o sono nas pálpebras do relógio de parede. Nove batidas compassadas e já é hora de dormir. E, mal descansa, outra vez o  sol desponta medroso no topo da serra. Pia o pinto catando migalhas no chão. O gato mia. Euzébia tange a galinha que bica comida na mesa. ‘Sai trem desgramado, vai quebrar a imagem do santo!' Logo a tarde vem. Pálidos raios do ocaso tocam suavemente as brancas asas de uma garça no crepúsculo das lembranças. 
Em noites de lua clara, a peonada se reunia no alpendre para ouvir estórias que Generoso  contava, e as músicas que ele cantava ao som de sua  viola. Corina morria de paixão, ouvindo “Saudade de Mirabela”, que o marido, inventado de cantor, tocava na viola que Zé Coco fazia, com as próprias mãos, e um toco de canivete. Naquele dia,  Generoso Batista  disse aos cafuçus:  ‘Hoje não toco.’ Foi quando Tunico Oliveira se manifestou recitando Ferreira, em pé de verso, guardado na memória desde a mocidade. 
Dim dão, Dim dão...
 
João Grilo foi um cristão que nasceu antes do dia,
criou-se sem formosura, mas tinha sabedoria
e morreu antes da hora pelas artes que fazia. 
 
Nasceu de sete meses, chorou no bucho da mãe;
quando ela pegou um gato ele gritou: ‘não me arranhe’
não jogue neste animal que talvez você não ganhe.
 
— Atalho o frango ‘nêgo’ mole!
— Não me interrompa, patrão! Ainda quero trastejar uma cantiga que assuntava pai imitando seu Leandro Gomes do Pombal. 
 
Quando cachorro falava, gato falava também
Gato tinha uma bodega como hoje o homem tem
Onde vendia cachaça encostado ao armazém. 
 
Com a balança armada para comprar cereais
E na bodega vendia, bacalhau, açúcar e gás
Bolacha, café, manteiga, miudezas  e tudo mais.
 
O peru vendia milho, o porco feijão e farinha
Com um cacho de banana, mais tarde o macaco vinha
Raposa também trazia um garajau de galinha. 
 
Guariba vendia escova que fazia do bigode
Urubu vendia goma, porque tem de lavra e pode
A onça suçuarana vendia couro de bode.
 
A meninada ria. Corina aplaudia,  mas, naquela noite, Nhá não serviu café nem chá. Recolheu-se cedo, rezou o terço, e encomendou a Nossa Senhora do Carmo  os cuidados  com Onofre. ‘Criei aquele desnaturado até os dezessete anos. Fugiu de casa, e me empreguei na cozinha de  dona Corina, ganhando como paga só o bocado de comer. Tudo para  não me apartar do  menino, e aquele moleque, agora taludo, nem sequer me pede mais a bênção. Vive triste pelos cantos como se arrastasse nos couros o mal da tristeza. Cruz, credo! Toma conta dele, Virgem Maria.’
A lua se esconde, e o véu da noite adianta o ponteiro das horas. Tunico Oliveira  se despede e sai.  Demais camaradas também se vão. Vaqueiro Onofre roça as canelas, abrindo carreiro no meio do  colonião. Cachorro Graudez o acompanhou até a casa. E  lua descansa sobre  uma nuvem pesada de sono.
***
Adalberto Lima, fragmento de Estrela que o vento soprou.

 
Adalberto Lima
Enviado por Adalberto Lima em 12/08/2017
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