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Roteiro_de_Filme_ou_Novela-->LIVRO: "AS CRIANÇAS DO GENERAL MÉDICI e outras histórias" -- 11/09/2017 - 00:07 (PAULO HENRIQUE COELHO FONTENELLE DE ARAUJO) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos



































AS CRIANÇAS DO GENERAL MÉDICI



e outras histórias






Autor: Paulo Fontenelle de Araujo





Para Giovanna e André.

28/09/2010



Índice:



1 – Copa do mundo

2 – As crianças do General Médici

3 – Meu fim de semana

4 - A morte dos anões

5 - A terra da meleca

6 - A maça

7 - O presente

8 - O viajante

9 - A fera da avenida Nove de julho

10 - Rosa

11 - O ano do bebê

12 - Dois peixinhos

13 - O maçarico

14 – Ovos cozidos

15 - Unhas

16 - A máquina do tempo

17 - O aniversário de Lúcia

18 – No meio do campeonato

19 – Finos telhados

20 – Sem língua

21 – Encontro selvagem

22 - As peladas

23 - O quebra-cabeças

24 – Conversa de menino

25 - A órfã

26 - A afogada

27 – No tempo dos psicotapas

28 – Em 1975

29 - Tanta adolescência e nenhum James Dean

30- Quando os celecantos provocam maremotos

31 – Dez anos em 2005





1 – Copa do Mundo



Ontem, o Brasil foi campeão da Copa do Mundo de 1970. O céu ficou cheio de balão lá no céu.

O Brasil então ganhou da Tchecoslováquia, da Romênia,

da Inglaterra, do Peru, do Uruguai e da Itália.

O Carlos Alberto levantou a taça porque era o capitão do Brasil.

Eu tenho sete anos e chamava a Tchecoslováquia de Seteslováquia.

Eu achava que o Brasil ia ganhar de sete a zero da Seteslováquia.

Aí o Brasil ganhou de 4 a 1, eu aprendi o nome certo e tudo ficou bom.





































2 - As crianças do General Médici



Em 1971, quando eu estava na segunda série do primário, o presidente do Brasil, general Emílio Garrastazu Médici, visitou a minha cidade e eu fui convocada para recebê-lo no aeroporto junto com as autoridades da região.

Lembro-me de que, antes da visita, eu havia sido eleita Miss Caipirinha na festa junina da prefeitura. Recebera medalha da aluna mais estudiosa das escolas do município e, diante de tantas vitórias, julguei a escolha perfeita.

O presidente da República viria até mim e a cidade comemoraria a safra recorde na produção de batatas. Aliás, se não me falha a memória, foi esse o provável motivo da visita: as batatas. Nossos tubérculos farináceos eram exportados para mais de cinco países.

Não me lembro bem o mês e o dia da semana, uma quarta ou quinta-feira de setembro.

Havia muitos seguranças na pista de pouso. Examinaram o buquê que eu trazia. Provavelmente desconfiavam de uma bomba entre as flores do campo. Não sei.

Informaram-me que o ramalhete seria entregue para a primeira-dama, logo na descida da aeronave. Sim, eu tenho certeza. A destinatária do embrulho florido era a mulher do presidente general... se ele viesse acompanhado da esposa.

Pensando bem, não foi a safra recorde de nenhum legume que justificou a presença do homem ali. Minha cidade nunca produziu muitas batatas. Ela era conhecida por ser a terra natal de um famoso personagem da República Velha. Um senhor de nome estranho que fez bonito na Europa durante a conferência pela divisão da África, e o General Médici, provavelmente, esperava honrar algum princípio republicano, visitando o túmulo do tal político.

Sim, foi isso, o presidente havia nascido no fim do Segundo Império, lutara na Guerra do Paraguai, e por isso amava a República e o Marechal Deodoro e amaria também a minha cidade, homenageando um túmulo.

Tantas homenagens e agora percebo... ninguém me contou se ele gostou de alguma coisa ou experimentou a famosa cachaça da cidade. Não me recordo agora o nome da cachaça. Tinha nome de uma flor.

As crianças trocadilhavam o nome do presidente. Criavam uma imagem caótica, alegórica. Chamavam o homem de “General Milho Garrafa Azul Médico”. Tratava-se de uma brincadeira inocente.

Os detalhes da visita. O avião atrasou-se e durante duas horas, postei-me na área de desembarque. Ali eu me senti a legítima representante dos estudantes brasileiros.

Segurei as flores que me segredaram ser uma oferenda para a esposa do presidente... Isso eu já disse, mas também afirmaram, durante a espera, que o presidente nem esposa tinha e não gostava de flores.

Essa última declaração deixou-me ansiosa, delirante e, no meu devaneio, julguei que, para um general do Exército, ex-combatente da Guerra do Paraguai, o melhor presente seria mesmo a bomba procurada pelos seguranças.

O prefeito decretara feriado municipal. As escolas compareceram às festividades atrás do cordão de isolamento. A visita tinha muita relação também com certo planejamento do ensino primário ou o fim do analfabetismo adulto. Sim, o analfabetismo adulto foi citado pelo prefeito e marcaria o discurso presidencial.

Diziam que o presidente não gostava de discursos, que os seus pronunciamentos eram redigidos pelos assessores. Eu pensei nisso na hora. O homem não gosta de nada. Como eu cumpriria minha missão? Era a minha missão entregar o ramalhete de flores.

Agora não sei se tinha algum outro presente, a camisa do antigo time de futebol da cidade.

A camisa era o outro presente. Eu sei disso porque o presidente Médici pelo menos parecia ser fã de futebol. Ele sempre era filmado no estádio do Maracanã, assistindo aos jogos da seleção. Segurava o radinho de pilha na orelha. Conferia os resultados da loteria esportiva.

Eu olhava aquele velhinho pela tevê e imaginava como ele poderia ser o construtor da Transamazônica: a maior estrada do mundo. Vi uma foto na capa da revista “Realidade”. Realidade era o nome da revista.

Sempre falavam da Transamazônica. Hoje eu nem sei. Sumiu na floresta? No mapa do Brasil, era uma cicatriz. A professora contou, a estrada podia ser vista da Lua. Igual à Muralha da China.

Às onze da manhã, o avião presidencial começou a sobrevoar a região. Fez muitos círculos no espaço aéreo da minha cidade (tão pequena e tinha espaço aéreo) e tantas voltas deram que pensei na hipótese da aeronave não pousar sem antes verificar as intenções da população.

O avião parecia um morcego prateado. Cintilava quando subia... Mas a espera foi insuportável porque o dia estava muito quente.

Mais tarde esclareceu-se que o general esperava a presença do não menos ilustre Senhor Governador do Estado. O velho de terno azul que chegou cercado por policiais.

Depois estenderam o tapete vermelho e a escadaria onde o avião deveria parar. O tapete era tão vermelho e macio que imaginei o presidente pisando uma extensa língua. A boca seria a porta da aeronave. Eu e as autoridades seríamos os dentes.

Alinharam-me na segunda ou terceira posição para o cumprimento. Sentia-me deslocada, todos estavam nervosos e quando o avião finalmente pousou... eu desmaiei... em cima do tapete. Acho que as flores foram entregues por outra menina de plantão.

Não pude contar para ninguém ter recebido em minha cidade o presidente Médici, mas hoje penso na minha sorte. Imagine o meu comprometimento. Eu talvez carregasse a pecha de colaboradora da ditadura. Cortariam os meus cabelos. Poderia ser apontada na rua, xingada de cadela sardenta, não sei.





“Muito me orgulha entregar estas flores para um homem que eu tanto respeito e admiro e cujas grandes obras muito têm contribuído para o progresso do meu país.”



Essa frase decorada é a única lembrança realmente consistente daquele dia. Algo pitoresco...do mesmo modo que...vislumbrar uma batata... germinando dentro de um copo.





























3 – Meu fim de semana



O meu fim de semana foi legal, mas minha mãe ficou brava. Ela mandou pintar o muro da nossa casa porque os comunistas desenharam a faca.

Gente comunista gosta de desenhar e gritar. Até a minha avó sabe disso. Ela viu os comunistas pintarem a faca. Depois gritaram e correram. Minha avó não correu. Eu vi o desenho.

Eu tenho uma irmã. Ela tem cinco anos, eu tenho oito e irmãos brigam e gritam... Brigam de vez em quando. Eu nunca pensei em virar comunista.

Minha mãe parece comunista.











































4 - A morte dos anões



Sempre aos sábados, Paulo, cinco anos de idade, seguia a mãe por aquela feira livre no bairro de Moema. Feira comprida, cheia de cacarecos, meio circense, percorria muitos quarteirões, virava em uma rua sem nome e beirava os trilhos do bonde de Santo Amaro.

A mãe de Paulo escolhia ali suas dúzias e experimentava nacos de frutas, oferecidos pelos feirantes na prova da garantia do produto.

O menino observava o comércio e mal chegava ao nível das prateleiras. Sabia, no entanto, a organização do lugar: na entrada gelavam os peixes, depois rolavam as laranjas e bem no meio espalhavam as outras frutas. (Aliás, para os olhos de Paulo, bananas e peixes assemelhavam-se pela enorme variedade. A banana-maçã estava para a sardinha e a banana-prata poderia ser a corvina).

Depois chegavam as verduras. Na virada da rua... pouca gente aparecia nas tendas de miudezas. Ali o cliente encontraria tampas de liquidificadores, panelas, roupas. Saca-rolhas eram pendurados ao lado de lenços roxos e, no meio do quarteirão, o periquito do realejo puxava a sorte de uma caixinha.

A prateleira das roupas combinava com a barraca das alfaces.

Memorizar aquele mercado a céu aberto foi algo muito fácil. Aliás, o arranjo semanal dos feirantes ajudou Paulo a decorar o nome das ruas do seu bairro, o nome dos colegas de escola, o horário dos programas da tevê, a data de nascimento dos tios, tias, primos.

Mas em janeiro de 1969, no extremo da zona frutífera da feira de sábado, Paulo presenciou a cena que lhe escureceu o mundo, como se puxassem sobre a sua cabeça a lona grossa das barracas. Perto da prateleira das abóboras e de um ajuntamento de caixas vazias, vislumbrou dois anões mendigando no meio-fio. Os anões cantavam e tocavam sanfona.

A canção vinha lamuriante. “Foi lá no sertão de Goiás...”. Paulo espreitou os dois anões gordos. Anões abóboras, sem dentes, carecas... e cantavam. As barrigas saltavam das camisas, no ritmo da canção, lá no sertão de Goiás.

O menino abriu os olhos, apavorado. Imaginou o lá: o sertão dos anões. Homenzinhos de umbigos suados e pés tortos. Os dedos dos pés estavam tão abertos quanto o leque da sanfona.

Paulo então notou que o cheiro ruim da feira – sempre emergia do asfalto quando as barracas eram desmontadas – concentrava-se ali, ao redor dos anões. E que a música, a banguela das bocas, o chapéu das esmolas, as moedas, as cabeças rodavam dentro de um labirinto. Saiu correndo. Procurou a mãe. Não sem antes ouvir o “Foi lá no sertão de Goiás...”.

Passou o dia impressionado. Os polegares dos anões apertavam as teclas da sanfona. Devagar. Inchados. A cena era do além-mundo.

À noite não quis dormir. Entrou enfiado na cama. Não beijou a mãe. Puxou os lençóis para juntar o espaço. Escondeu-se sob os travesseiros e dormiu com dificuldade.

Acordou de madrugada com a boca seca. Pensou em chamar a mãe. Chamou e ela não respondeu. Acostumou os olhos na escuridão. Gritou o nome do pai e nem ele.

Esperou. Os olhos conseguiram definir a grande cômoda de quatro gavetas. O móvel veio da casa dos avós e era perfeito, intacto, sem manchas. Mas o que poderia insinuar a madeira, sugerir o verniz? Se a mãe comprara melancias, os anões não deveriam ter dentes. Uma gaveta abriria e isso seria o chapéu das esmolas. Só faltavam as músicas, o espanto e os anões apareceram. O barrigudo da sanfona estava em pé e o outro deitado. Os dois alojados em cima da cômoda. Ninguém gritou. Estavam mortos.

O menino detectou como resultado da noite que os homenzinhos morreram. Morreram. A morte existia. As pessoas chamavam de falecimento. Sumir para sempre e aos poucos, quando o morto encolhe a cabeça, o corpo, os dedos e depois adquire a condição de ser apenas um... anão.

Compreendeu enfim, ele também morreria. Começou a chorar.

Morrer. Acontece mesmo. Isso de viver é um mercado ao ar livre. As pessoas escapam por todos os cantos. Ele morreria, apesar do calor da coberta, da proximidade do quarto dos pais. A morte viria de forma tão infalível quanto a hora da xepa no fim da feira. Paulo chorou e dormiu sufocado.

Durante a semana, pensou muito sobre a morte. Ela podia furar seus dedos. Foi levando o medo até quarta-feira, quando abriu o jornal do pai e viu a foto da manchete: dois homens mortos pela polícia.



– São terroristas! Não olhe para isso! – ordenou o pai.



O filho não obedeceu à ordem e mirou os cadáveres. Outros dois anões, homúnculos mortos. Dois gêmeos esticados, dois bonecos deitados na foto impressa. Pareciam estar vivos. Disfarçavam bem. Mortos e furados. A polícia os matara. No preto e branco. Estendeu o jornal no chão. Olhou, olhou. Depois dobrou a folha para olhar mais tarde.

E passou dois dias examinando a foto medonha, acompanhando a reação dos defuntos que vinha com uma mesmice, uma preguiça, todo o desprezo de bandidos. Corpos flexíveis. Até piscavam, às vezes um olho, depois o outro. No terceiro dia, cansou-se do exame e a morte tornou-se o jornal de quarta-feira.

No sábado voltou à feira. Os anões cantores desta vez se apresentavam atrás das prateleiras de banana. Muita gente apreciava o espetáculo. A mãe percebeu o interesse do filho e deu-lhe vinte centavos para oferecer aos músicos. O menino examinou, havia uma cabeça na moeda.

Paulo mirou o chapéu das esmolas, foi chegando, afastou pernas adultas. Perdera o medo. Parou diante dos anões. Colocou a moeda no chapéu cor cinza opaca. Olhou ao redor. O muro, atrás do espetáculo, era cinza como uma lápide.

O menino respirou fundo. Compreendera algo. Admirou as caretas dos homenzinhos. Quis agradecer aos músicos por serem anões, por estarem mortos e ainda insistirem em cantar. Os anões sorriam. Perto dos vivos cantavam “...fui eu e o Chico Mineiro, também foi o capataz...”.

Os homúnculos cantavam em uníssono. Paulo acenou quando a mãe puxou-lhe para casa. O dia era de sol, e todos morreriam em Goiás.





































5 - A terra da meleca



Clayton habitava a Terra da Meleca. A Terra da Meleca era engraçada. Tão engraçada quanto tentar responder quando se deve aplicar injeção em bunda de formiga? Quantas cataporas cabem no nariz? As pipocas da panela riem antes de explodir? Tão engraçada quanto dizer, “Tome vitaminas de sais minerais com B12!”.

A Terra da Meleca era isso: engraçada. A secreção nasal de Clayton raspava o ladrilho do banheiro. Clayton ria e fazia cocô. O cocô era hilariante e isso porque lembravam os ovos da geladeira.

Os ovos da geladeira gostavam de cair na risada. Risadas de pintinhos que escapavam das omeletes fritas pela mãe.

Clayton vivia a meleca e estava dentro dela quando vestiu a calça xadrez curta, com meias até o ovo do joelho. Somente com essa roupa se podia entrar na ninhada de meninos e meninas chamada escola.

A meleca também estudava na escola. Somente assim se justificava o grude dos chicletes nos tijolos, no carpete da diretoria, nas mesas coloridas da sala de aula, nas portas dos banheiros.

A meleca tornara a escola engraçada, principalmente na entrada, pois Clayton sentia-se melhor sentando na penúltima carteira da fileira do lado da parede do que na primeira carteira da fileira da janela, em frente à Dona Maria. Quem sentava ali era Regininha, que, muito falante, decerto não poderia viver na Terra da Meleca.

Às dez horas da manhã, soava a campainha do recreio. Depois, Clayton bebia a caneca de leite com chocolate. O leite da escola nunca se transformaria no refrigerante gaseificado das bolhas soltas em um copo, mas depois do primeiro gole, já se podia estalar a língua e rir do bigode espumoso das meninas.

E as canecas de ferro então, apareceram as brancas, as descoradas, as enferrujadas. Mais engraçadas as canecas sem alça que vinham quentes. A queimação espetava as mãos e as canecas caíam na risada. Os alunos as chutavam. Viravam canecas de futebol.

Clayton tomava o leite e se lembrava do gorila de suspensórios. O desenho do bicho foi a maior piada da tevê. Gorila barrigudo, boca de penico.

Após a merenda, o habitante da terra da meleca caminhava pelo terreno da escola, quando descobria objetos pré-históricos: palitos de sorvete chupados pelo vento, cabeças de “pregossauros”, cadarços absolutamente perdidos dos sapatos.

Ele sabia, coisas inteiras eram concentradas e o mundo não fazia diferença. Os pedaços das coisas, as cabeças de prego, ao contrário, pediam ajuda. Deviam ser recolhidos e conservados para crescer e assim faz a mãe canguru quando guarda os filhotes e cacarecos de mãe na bolsa da barriga.

No fim do recreio a Regininha não sabia que brincava no tanque de areia movediça.

Duas horas depois, Clayton voltava para casa. Um dia viu na tevê os astronautas do foguete Apollo 11 no meio do oceano sendo salvos por homens-rãs que pulavam na água. Não se via de onde... pulavam na água. Clayton se lembrou do que a professora dissera sobre o planeta Terra. Ele é redondo, igual a uma laranja. Então pensou, os caroços que a terra cospe, são os tais homens-rãs. Clayton pediu laranjas.

Certa tarde choveu e, após a chuva, uma taturana atravessou o quintal. No dia seguinte, outra chuva igual e, quando estiou, duas taturanas passearam pelo terreno. O menino supôs que melecas de muitas patas nascem depois de qualquer aguaceiro. Estranhamente chamavam as taturanas de “lagartas de fogo”. Melhor seriam “lagartas molhadas”.

Depois das lagartas, o fato mais meleca do mundo foi a história do soldado de madeira de barriga gorda, que era igual a um pino de boliche.

Clayton rememorou o jogo – aquele das bolas de ferro com três furos – e imaginou que dentro da cada oco de cada bola caberiam muitas outras, bolas de meleca puxadas do nariz.

O boneco do boliche era um soldado triste. Uma cabeça de madeira tão sem função no mundo que seria melhor abrir um buraco para guardá-lo dentro. Tapá-lo até ele sorrir e ficar feliz.

Clayton enterrou o boneco, socou a terra, esperou passar a noite e, no dia seguinte, ao desenterrá-lo, viu o pino ali, no mesmo posto do buraco. Agora finalmente satisfeito da vida, na posição de guerreiro da cratera.

Nada mais espantaria o soldado. Nem um batalhão de formigas.

A constância do amigo soltou em Clayton a mesma cara de alegria de quase todos os bonecos. E ele riu muito, e tanto, até saliva escorrer-lhe da boca.

Clayton descobrira a lealdade. Amigo espera amigo, e nem precisam de mapa. Nunca fugiriam das trincheiras. O boneco tornou-se o seu companheiro. O pino de boliche estourado.

Assim passavam os dias até aquele recreio, o da merenda dos ovos cozidos sem sal. Ovos cozidos são insuportáveis sem o grude do sal. Quem sabe por isso – pela falta da meleca – Clayton não retornou à sala de aula depois do intervalo. Escondeu-se no banheiro, julgando ter criado a grande arte da trapaça. Não estar onde devia estar e estar sobre a privada da segunda cabine.

Ele aguardou o rebuliço dos alunos diante da sua carteira vazia. A diretora cutucaria os buracos da escola. A professora explicaria o esconde-esconde para a mãe. Tantas desculpas encheriam a trincheira fedida do banheiro.

O soldado do reino da meleca esperou a bagunça. Nada aconteceu. Abriu a porta. Examinou o local, as torneiras, o mictório, os vitrôs emperrados. Nenhuma procura por ele, o camuflado. Voltou. Andou pelo local. Pisou na poça de urina da primeira cabine. “Droga!” Xixi fedia, e por isso mesmo deveriam cumprir a missão, buscar o último combatente da tropa. Ninguém gritava “Alô, câmbio! Alô, câmbio!”.

Clayton surpreendeu-se com a indiferença do primeiro ano C. Não a compreendeu. Como não observaram a falta da cabeça, na penúltima carteira da parede, perto da porta?

As aulas continuaram sem atropelos. Clayton saiu do banheiro, avistou o pátio deserto. Decepcionou-se. Algo saíra errado. Nem um espantalho em plantação de milho nem a ponta vermelha dos foguetes chamam mais a atenção do que sumiço de aluno. Voltou ao banheiro, esperou. Ele não estava nem quente, nem frio. Aguardou bestamente.

Pensou que deixaram de procurar porque o dia estava quente e amarelo. O dia era um tijolo. Pensou mais carregado, nem se os seus dedos fossem espremidos nos furos da maior bola de boliche do planeta, ninguém escutaria o grito de dor.

A imagem da bola de boliche surgia do desenho do gorila. O gorila tinha agora um rosto de gorila. Muito tempo depois, Clayton se entregou à inspetora da escola. E a mulher, seguindo as obrigações do cargo, avisou:



– Olha, da próxima vez tu vai levar um psicotapa na cabeça!



A inspetora chamava tapas na nuca de psicotapas. Poderiam traumatizar a vítima para sempre. A mulher não era do tempo das “bolachas”.

O psicotapa pairava sobre as cabeças.

Voltou à sala quase na hora da saída. Os alunos riam. Ele riu também. Riu sem olhar para os narizes. Os narizes também riam na Terra da Meleca. Os narizes levantavam as cabeças. Ninguém reparava os rabiscos do chão.

Mas os alunos riam da criancice de Clayton e ele, que não se sentia uma criança, acreditou, naquele momento, que sempre fora o que não devia ser. E além disso, os dois dentes da frente amoleceram. Os dentes poderiam se perder e torna-lo um cabeça de prego. Ora, vejam vocês, um cabeça de prego!

Clayton não era mais tão inteiro como pensava e, por isso, apenas por isso, a Terra da Meleca acabou.













































6 - A maçã



Giovanna formou uma fila de passageiros atrás da sua sapatilha branca. O nevoeiro que permanecera ativo até as oito da manhã já se dissipara. As aeronaves poderiam decolar e aquela – da escada na qual Giovanna calculava o tamanho dos degraus – a levaria ao encontro do pai.

Giovanna subiu, foi instalada pela mãe em uma poltrona no meio do corredor, e procurou a babá que rezava na porta, com medo de avião.

A criança olhou pela janelinha. A asa apontava outros aviões, e ela contou os tratores e os funcionários que caminhavam pela pista. Cinco, sete, oito, nove funcionários. A contagem dava um sono.

O voo seria passear dentro das nuvens. A avó lhe falara sobre a viagem. Garantiu que no céu existiam anjos e castelos e, quando chegassem na cidade de Santiago do Chile, encontrariam o papai. Ele poderia estar em um castelo ou saber montar cavalos.

Giovanna pensava muito em cavalos e sonhava tornar-se uma grande “amaionese” para, junto com o pai, andar em potros de crinas coloridas.

Há muitos meses Giovanna não via o tal pai. Lembrava muito pouco daquele homem. O seu rosto tão próximo, tão quente, aparecia nas horas em que o sono não vinha. “Durma, minha filha”. A voz também surgia em suas recordações. A criança aprendeu a palavra "grossa" para identificar o timbre da voz do pai. Seu pai tem uma fala grossa, igual ao motor do avião.

A aeronave decolou. A menina imediatamente procurou os anjinhos. Espremeu o nariz contra a janelinha. Olhou para o céu, olhou para a terra. Parou seu olhar em uma nuvem. Nada. A babá fechou a janela. Ela tinha que dormir. A menina então examinou o teto do avião.

A aeromoça perguntou se o neném do voo queria uma maçã do amor. “Quero!”

A maçã do amor era a própria fruta, coberta de caramelo vermelho. A menina comeu e mordeu o palito. Os dedos ficaram doces. Ela os lambeu. Lambeu a palma das mãos. Lambeu olhando para a babá.

A babá também mordia os dedos e balançava a cabeça. Disse que iria vomitar. Trouxeram o saco de vômito. Giovanna já vira muito vômito, mas a babá apenas soprou o saco. Soprou, soprou, e as pessoas dormiram.

Giovanna não dormiu. Ficou olhando e esperando. Desceu da poltrona. No fim do corredor tem um banheiro. Caminhou pela aeronave. Todos dormiam. Foi até o banheiro e não viu as aeromoças. Não havia mais aeromoças. Queria fazer “xixi”. Não sabia como abrir a porta. Puxou uma alavanca e o avião abriu a maior janelinha do mundo. Não havia vidro separando e o avião lá no alto. Giovanna não acreditou. Soltou um “aaah!”. Ali estava o céu sem nada para atrapalhar. Azul! Azul dos sapatos novos que sumiram na mala. A mesma cor das estrelas pintadas em seu caderno de cera.

A menina quis chegar à beirada. Olhar para baixo. Pisou devagar. Pertinho. Pertinho e um sopro morno passou entre as suas pernas. E seguiu-se outro sopro e outro. Depois vieram os relinchos e o galope forte no teto.

Giovanna colocou a cabeça para fora e viu cavalinhos correndo, disputando o primeiro lugar - da largada, no início da aeronave, até a chegada, em cima das janelinhas do piloto. Não carregavam jóqueis, os potrinhos. Apenas disparavam. Alguns trotavam da asa direita para a asa esquerda. “É o carrossel do dia da roda-gigante!” O avião espalhava pôneis sobre a fuselagem e os bichinhos nem se incomodavam com o vento.

A menina então ficou tonta. Não vomitou como a babá, mas escorregou. Caiu sobre a sela do menorzinho vermelho. Ele mergulhou no espaço. O avião ficou pequeno. Sumiu.

Giovanna tornara-se enfim a “amazona” que prometera se transformar. E acenou para rebanhos das ovelhas, das pequenas vacas que mugiam. Acenou e caiu novamente. Ela despencava, despencava e rodava.

Acordou, deitada sobre o sofá de uma sala sem som. Puxou as cortinas da janela, no momento em que dois aviões passeavam, embaixo um tratorzinho amarelo. O sol apertava os olhos. Giovanna quis fechar a sala. As cortinas agora não saíam do lugar e os puxadores pareciam as crinas dos potros. Sumiram. O que aconteceu? O trote com o pônei não fora sonho. Não fora sonho. Achou um arranhão nas pernas. Talvez o machucado fosse a prova do passeio. O potrinho a deixara ali.

Examinou o recinto, e na outra ponta do sofá brilhava uma maçã do amor. Giovanna esqueceu os cavalinhos. Ao lado da maçã viu o quepe do comandante do avião e um casaco de botões dourados. A fruta pertencia ao comandante, porque se encontrava perto do seu quepe, e a proximidade impedia a mordida no doce.

Giovanna entendia a lógica da proximidade. As coisas pertencem ao primeiro da fila. É dono quem está em cima. A distância retira a força. Por isso ela viajava para encontrar o pai, antes do pai encontrar outra única filha.

Ajeitou-se no sofá. Os sapatinhos saíam dos limites do canapé. A ex-amazonas levantou os sapatos. Lembrou-se dos cascos dos potrinhos, e isso lhe deu um impulso. Pegou a maçã. Agora a maça estava longe do comandante.

Giovanna admirou a cor vermelha da guloseima, a superfície lisa e brilhante da fruta do amor. “Que bonita!” As mãozinhas amassaram o invólucro protetor. Suspirou. E se ela lambesse o plástico? Lambeu. Puxou o plástico. Mordeu o doce. Mordida de coelho. Arranhou o caramelo. Outro pedacinho.

Mas havia caído tanto tempo, havia galopado tanto, por que não teria direito a três mordidas? E para cada cambota no céu – e foram tantas – não valia mais um bocadinho? Comeu, comeu, comeu e quebrou o palito na boca. Sobraram o quepe e o casaco do capitão.

Giovanna imaginou a chateação do homem pela mastigação da maçã. Era “uma para cada passageiro”.

Escutou passos. Alguém avisava sobre a próxima decolagem. O comandante entrou na sala, vestiu o casaco de botões dourados, colocou o quepe e procurou a maçã.

Quando a menina vislumbrou o uniforme, e estava tão perto, sentiu o medo que lhe vinha à boca desde o dia da polícia, quando o pai fora embora de casa.

O comandante abaixou-se, percebeu a boca lambuzada do neném do voo, passou a mão nos cabelos da menina e declarou sem gravidade:



– A maçã era para você, querida. Não se preocupe.



Giovanna respirou aliviada. O homem não gritara, não a levara para longe. Ele devia saber que seu pai, seu único pai a esperava na cidade.

A mãe entrou no recinto. A babá saiu de outra porta. O aeronauta despediu-se das três. Desejou bom término de viagem, apesar das muitas escalas.

As “muitas escalas” lembravam algo pontudo. A cara da polícia.

Aterrissaram à noite em Santiago do Chile. O pai esperava a família no saguão. Giovanna correu, abraçou o homem. Ele continuava alto, e a voz grossa de dentes brancos tinha muito tempo. Giovanna se lembrava, aquele tempo antigo, quando podia ver a voz do pai. A voz batia nas paredes. Um galope de sapatos.

O homem examinou a filha. Beijou-lhe a testa. Cheirou. Ela lhe contou a aventura da maçã e de como o dono da fruta não a expulsou do avião. O pai acreditou. Sentou a criança no colo e narrou ali mesmo a história de Adão e Eva. Deus os expulsou do Paraíso por causa da maçã do amor, igual à do avião.

Giovanna pensou em um paraíso dentro do avião com poltronas e sacos de vômito. Depois, perguntou sobre a lonjura da nova casa.

O pai tentou explicar-lhe que fora expulso da outra casa por ordem do governo. “Governo?” Uma gente que agora mandava em tudo e sentiam-se donos de todas as maçãs carameladas do Brasil. Não dividiriam com mais ninguém.

Na hora, quis revelar ao pai sobre o passeio com o pônei, as nuvens, mas veio o medo. De que o pai informasse às terríveis pessoas do governo sobre os cavalinhos do céu e eles quisessem prende-los.

Alguns cavalinhos tinham o couro caramelado, igual às maças do voo.



























7 - O presente



As mães esperavam os filhos para abrir o seu presente do dias das mães. Elas não sabiam, mas receberiam um cartão. Elas abririam o mimo e contemplariam maravilhadas – na face interna da dobradura – o coração da criança contornado por um fio de lã vermelha e abaixo os dizeres:



São Paulo, 10 de maio de 1970. Parabéns pelo seu dia, mamãe!



Os alunos do primeiro ano A da Escola Peri e Ceci, porém, ainda finalizavam o “Cartão Especial do Dia das Mães”. Prontamente haviam recortado a cartolina branca, dobrado, costurado o coração e, agora, pintavam sobre a capa um jardim florido.

A professora mostrou na lousa que margaridas e rosas eram boas flores para serem plantadas no jardim do cartão. Margaridas são mais bonitas.

– Orquídeas são feias. Não gosto de flor de boca aberta - disse a professora.



A classe escolheu margaridas para o jardim. Margaridas por causa das pétalas.

Eduardo concordou e desenhou muitas margaridas. Caprichou. Cada pétala de uma cor. Aproveitou e também soltou borboletas coloridas. Aqui e ali no céu branco do cartão.

As borboletas desenhadas eram quase idênticas à mariposa que ele capturara naquela mesma semana. Eduardo viu a mariposa e julgou ter descoberto uma espécie rara de lepidóptero e isso pela cor opaca, os pelos, o corpo grosso e abrupto como um charuto voador.

A borboleta surgira atrás da cortina da sala. Ele se aproximou, fechou a voadora dentro de um copo para asfixiá-la. Esperou e o inseto nem ligou. Então optou pelo esmagamento. Usou o caderno. A opção foi acachapante. O charuto saiu pelo rabo da mariposa.

O menino sentiu pena, mas colou a “amiga”, com as asas abertas, em uma folha grande de caderno. Pendurou a espécie na parede e começou e terminou ali a “Grande Coleção de Borboletas do Brasil”.

E foi naquela hora que Eduardo ouviu a avó gritar:



– Matar mariposa faz mal, meu filho. Mariposas são bruxas... saem disfarçadas para enganar a gente. Querem chegar nas clareiras do mato e cozinhar bruxarias.



O menino tanto se impressionou com a história que despejou a “coleção de mariposas” no fundo da lixeira. Depois, comprimiu o corpo enfeitiçado com bastante lixo. Mesmo se a malvada quisesse, não levantaria.

O colecionador retornou ao seu “Cartão Especial do Dia das Mães”. Contou cinco borboletas e parou. Inventou um quadro de margaridas pregado no jardim das margaridas. A mãe adoraria.

Examinou o presente. Pensou em esverdear o vento. E quando o vento pintou o cartão; quatro meninas da sua turma sobrevoaram o desenho.



– Que nojento!



– Não se pinta margarida assim! Está tudo errado!



– Margarida amarela tem que ser amarela. Se você quiser margarida vermelha, tem que pintar vermelho.



– Mesmo se for margarida azul, as pétalas... são azuis. Olha o que você fez...



Eduardo não ligou para a bronca. Continuou.



– Não se pinta flor desse modo! Você é estúpido!



– Nós vamos chamar a Dona Vera!



- Dona Vera, olha as margaridas do cartão do Eduardo! Pintou tudo diferente.



A professora chegou, mirou o desenho e aprovou o protesto das alunas:



– Está errado... Ficou feio... o colorido... você nem respeitou o circulo. Tem que pintar dentro da pétala... Olha o jardim das colegas!



Eduardo abriu os cartões bonitos. Depois examinou a própria obra... De fato, ela perturbava. As cores boiavam sobre a cartolina como legumes em uma sopa.



O seu cartão estava horroroso.



- Apaga tudo que ainda dá tempo – disse a professora.



Eduardo se martirizou por não entender o acabamento máximo das coisas. Aquela margarida do seu desenho... a maior... com pétala roxa, outra verde, duas vermelhas, uma azul. O centro da margarida! Marrom! Não tinha sentido o marrom.

As cores não combinavam. O roxo deve ser roxo para sempre e completamente, principalmente, roxo.



Examinou novamente o que produzira. Margarida não é farol de trânsito, mas porque não pode ter muitas pétalas e muitas cores?



– O cartão dele vai estragar o presente de todo mundo.



Eduardo não entendia. Quis puxar uma tromba azul de elefante. Quis lembrar de qualquer bicho imaginário. Buscou apoio na professora. Virou-se. A professora atendia outro aluno. Ela piscava os olhos. A mestra usava enormes cílios postiços. O menino confundiu-se.



– Vai que está quase na hora.



Eduardo engoliu a ordem. Pintar novamente? Era muito tarde para redesenhar o presente, replantar o jardim. A mãe esperava no portão. Baixou a cabeça. Voltou à carteira. Pegou a borracha, riscou o cartão engoliu o choro, guardou os lápis. Depois mordeu a mão direita, retirou novamente os lápis do estojo. A mãe merecia o trabalho escolar. Voltou a desenhar.

Qual o problema de pétalas coloridas? Cores não são inimigas de margaridas.

Eduardo quis se livrar do problema. Rascunhou mariposas em uma clareira do cartão. Pensou em criaturas escuras, meio aves, meio insetos, totalmente bruxas eram a professora e as quatro alunas esvoaçantes.

Decidiu não entregar o cartão à mãe. Não aquele cartão, o das mariposas. Elas iriam para a lixeira da escola. A lixeira imunda do fundo da escola, sempre cheia de cascas de bananas, cascas de ovo, pão, folha de caderno....

Eduardo jogou e ficou olhando. Ainda não estava bom. Ele deveria fazer como a mariposa da coleção. Jogar lixo sobre a bruxaria. Esmagar as alunas e a professora de cílios estranhos. Revirou a sujeira. Amassou bem. Não estragaria o presente de ninguém, mas elas estariam debaixo dos ovos.

O menino percebeu que também achatara o coração de lã vermelha. Pensou. Porque não usaram lã amarela? Ninguém sabe a cor do coração. Ninguém sabe a forma. No próximo Dia das Mães, desenharia um caule embaixo de um coração verde-abacate. Talvez embaixo do coração-abacate.

Saiu da escola. A mãe esperava no portão com cara de mãe. Ele precisava de uma justificativa para a ausência do presente. Qual a desculpa? Olhou para a mãe e saiu:



- Mamãe, eu odeio matemática.





































8 - O viajante



Após o almoço, a mãe de Carlos gostava de fumar cigarros sem filtro e ler fotonovelas na cama, encostada em três travesseiros.

Carlos bem reparava o comportamento. Ela fumava um maço durante a leitura. Sempre lia a Revista “Grande Hotel”. A mãe lia e repetia histórias antigas e, quando parava, contava moedas para mais cigarros.

Todo mundo fumava. O menino não entendia mesmo eram as fotonovelas.

Na verdade, ele nunca apreciou o gênero. Tentou ler um caso: “A traição de Jéssica”. Não passou da segunda página. Irritou-se com a quadradura de tudo, o preto e branco das fotografias, a paralisia dos atores. Duros, duros como bonecos.

O pai encaixotou a coleção. As fotonovelas foram lembranças que não doeram.

A mãe morreu de câncer, em agosto de 1970. O pai, após a viuvez, deixou o filho sob a proteção da sogra e viajou pelo país.

“Uma viagem, após se vivenciar a morte de ente querido, ajuda a diminuir a saudade, meu filho.” Essa foi a justificativa do pai. E Carlos compreendeu que ele precisava desenrolar os miolos da cabeça e por isso viajou para muito, muito longe. E quando chegou ali, quando viu uma sucuri digerindo a capivara, resolveu voltar para casa.

O pai esteve no Pantanal de Mato Grosso. E mostrou para o filho a fotografia da Sucuri. A digestão da cobra era a maior elevação do local, quase uma montanha.

As outras fotos do pai não ajudaram. O homem nem criara outra boa história. As fotos dos macacos mostravam somente macacos.

O pai apenas chegou em casa, resgatou o órfão, contratou uma empregada doméstica para cozinhar e arrumar a casa, voltou a trabalhar, falar com os amigos. Decidiu continuar a vida.

No entanto, o problema da morte da mãe sobrou na mente de Carlos como uma fotonovela inacabada. Havia muitos quartos e quadrados vazios para preencher.

O órfão não dormiu após o almoço. A Prefeitura de São Paulo podava a seringueira da calçada. Soltava a serra elétrica. O aço raspava o que aparecia. O menino foi olhar. Galhos caíam, caíam e, quando o corte terminou, ele examinou o talo. Não imaginava que a seringueira fosse tão magra.

A árvore, agora sem folhas, era um tronco anêmico. E o menino deduziu que a mãe também fora uma árvore anêmica. Ele não via a doença, porque a presença materna cobria tudo. Igual à sombra da seringueira antes da poda. Pegava a rua.

E, quando ele chegava da escola, a mãe abria as janelas e esperava o realejo passar. Gostavam da música.

Um dia a mãe cansou-se e chamou o filho para achar o homem do realejo. Encontraram um homenzinho. O sujeito assobiou, estalou os dedos e um periquito saiu da gaiola para puxar o papelzinho da sorte. O periquito era amigo do homem pequeno. A mãe parecia amiga do filho e, de repente, ela esqueceu o tamanho do companheiro.

O filho abriu o portão. Atravessou a rua para buscar a mãe, parou, voltou. Hoje é quarta-feira. As lembranças passeiam aos domingos.

A poda findou-se na limpeza. Os dois homens jogaram os galhos no caminhão.

Carlos sentou-se no meio-fio e examinou a flora da vizinhança. Na rua, cresciam as três figueiras imensas. Elas produziam figos ásperos, de aspecto tão antigo como fezes de mamutes. Diziam ser venenosos.

Mais à esquerda, no jardim da vizinha alemã, havia uma árvore torta de chegar ao chão. A árvore sustentava em seus galhos dezenas de penduricalhos. Pareciam bolas de natal atrofiadas. Há pouco tempo, apenas relacionara os tais enfeites à existência de borboletas na região. Sentiu nojo no dia. Hoje, gostaria de entender aquela metamorfose. Gostaria de compreender pelo menos os insetos.

O cupim... a natureza o preparou para inúmeros riscos. Jamais considerou a sua inutilidade de roedor no meio da madeira. Nem deforma o que come. No armário da lavanderia, por exemplo, vivia uma enorme família de cupins, mas o móvel ainda tinha forma de armário.

Carlos procurou outras árvores. Viu em cima das casas, longe dali, um conjunto de imponentes eucaliptos. Imaginou a floresta. Saiu de casa para conferir. Talvez encontrar a mãe, escondida exatamente ali, na mata.

Atravessou a rua. Dobrou à esquerda na Barão de Jaceguai. Caminhou duas quadras e passou pela casa do louco. O louco tinha quinze anos. Usava calças verdes com suspensórios. Da esquina, era possível vê-lo em seu quintal. A grade de lanças rodeava o muro baixo. Ele parecia viver em uma jaula. O garoto tornara-se atração turística. Diziam maluco, coitado é doente.

A casa também soltava no quintal dois cachorros vira-latas. E o comportamento do biruta tinha a mesma fúria de suas mascotes. Os três rosnavam com as patas sobre o muro. O louco, mais versátil, também inventava caretas, catava as fezes dos amigos e jogava nos turistas.

Carlos correu, atravessou a rua Rui Barbosa. Alguém latiu. Todos latiram.

Na hora, o órfão intuiu que o menino poderia não ser tão doido. Afinal, usava suspensórios para não lhe caírem as calças. Deixar cair as calças seria perder totalmente a cabeça.

O mendigo do bairro, o Fritz, segurava as calças. E olha que ele era muito louco. Todo mundo sabia. Um louco da guerra mundial. Soldado alemão louco. Não esmolava. Não pedia comida.

Andou mais quatro quadras. “Ela se tornou esgoto”, disse em voz baixa quando viu a canalização do córrego para a nova avenida.

Nos últimos dias da defunta, abriram um encanamento em seu corpo. Ele vira por acaso. A mãe deitada e o orifício no pescoço, por onde entrava o tubo. Devia haver muito sangue ruim lá dentro.

Ela estava tão magra, escavada, oca. Buracos não gritam: “Carlinhos”!

O bairro mudara muito nos últimos anos. Ali em cima, ano retrasado, Carlos presenciara a construção de outra avenida, e o bonde sumira. Mesmo a igreja do bairro desaparecera. Houve o incêndio e sobraram apenas a torre escura e o sino.

Três quadras após o córrego, o garoto chegou à floresta que vislumbrara de casa. Apenas um quarteirão de grandes árvores. Carlos se decepcionou quando concluiu não saber o motivo do seu passeio. Queria desvendar o mal que se escondera dentro da mãe; enfrentar a escuridão da mata; atear fogo em folhas secas.

Um avião sobrevoou a região. O órfão olhou para o céu e ali estava o aeroporto de Congonhas. O aeroporto sempre fora sinal de boas mudanças. Viagens aéreas trazem ao lar todos os perdidos no mundo. Trazem até cachorros sem dono.

Seguiu o fluxo dos pousos, e aeronaves baixavam em São Paulo. Chegou enfim à margem da avenida Rubem Berta. Não atravessou. Beirou a via e por ali, no meio fio poeirento, quis catar pacotes vazios de cigarros estrangeiros.

Encontrou uma caixinha branca, marca “King”. Cigarros Rei. As aulas de inglês resolviam. Havia muito tempo conhecia os cigarros King. Guardou o maço no bolso para um dia mostrá-lo à mãe.

O Boeing da Varig passou sobre uma parede quadriculada. Aquilo marcava o início da pista de pouso.

O menino prosseguiu e surpreendeu-se quando viu o hangar da Vasp. Dali, à noite, piscavam as luzes de um para-raios. Do seu quarto, a muitas quadras, Carlinhos podia enxergá-las. Flashes fotográficos. Pequenos estalos, vermelhos, verdes, azuis. O conjunto de cores deixara-o confiante durante a internação da mãe. Se para-raios interrompem raios, iriam interromper o câncer da mãe.

Ele desejou assim, a mãe retornaria, por causa das luzes do hangar da Vasp.

Carlos finalmente chegou ao início de sua rua. Circulara pelo bairro e agora caminharia em direção à casa sem dona. Esperaria o pai viúvo. O pai comeria macarrão da Dona Maria. Perguntaria a ele sobre a escola e fumaria jogando as cinzas sobre os restos do jantar. Mamãe não gostava do hábito.

Voltaria para uma casa, onde algo aconteceria. Ao sair sentia-se broca... agora regressava pensando em luzes.

Cantou o “jingle” do comercial da Martini. A canção afastava as lembranças ruins. “Hoje é dia de viver, o tempo ficou para trás, o que importa é sabor, só Martini traz...”. E vinha o refrão: “Qualquer hora, em qualquer lugar...”.

Sete dias depois, a Ligth instalou luzes artificiais sobre os postes da rua. Foi incrível. As luminárias irradiavam uma claridade diferente. Deixava o rosto meio azulado, meio roxo, como um sutil hematoma.

Carlos se impressionou nos primeiros dias e depois de tanto roxo, tanto azul, concluiu: no futuro, o câncer de pele tornaria fosforescente a epiderme dos homens. Não haveria mortes.

(A mãe não presenciou a mudança. Pobre mulher sem luz noturna.)

Pensou em outras possibilidades. Surgirão abcessos ativados, corpos acessos sem curtos-circuitos. A luz se espalharia.

O doente de câncer carregaria tumores luminosos. Talvez fosse algo ainda mais evoluído.

No futuro, todas as pessoas seriam faróis.



















































9 - A fera da avenida Nove de julho



Eliseu estava com o pai dentro do ônibus Santo Amaro-Centro quando o túnel da avenida Nove de Julho, correu a sua escuridão de túnel .

O menino apavorou-se com a extensão do breu. Saltou os olhos pela janela e cheirou fundo o gás carbônico exalado pelos carros. Troço imenso, o interior daquela caverna. O fedor, uma garganta. Certamente algum bicho sanguinário já dormira ali. Isso antes dos veículos, antes da construção da cidade de São Paulo.

No retorno para casa, pai e filho encontraram novamente o túnel. O trânsito vinha devagar. Arrastava a lataria dos automóveis que pareciam paralisados de medo. Entraram na toca. Eliseu lembrou -se da ida e concluiu que a antiga fera ainda habitava aqueles subterrâneos. Sim, morava ali e certamente caçava para comer.

O coletivo parou. Eliseu observou os ladrilhos oleosos que revestiam as paredes da gruta. O felino provavelmente raspara ali a gordura do seu lombo, do corpo nutrido.

O menino percebeu que em qualquer lugar, no fim do engarrafamento ou do meio da escuridão, a fera surgiria. Dos bueiros, viria para morder pneus do ônibus. Agora mesmo poderia estar triturando a borracha, mastigando as calotas. A carne de uma criança de cinco anos valeria um tira-gosto. Precisava fugir.

O lotação decidiu sair da fila, buscou a segunda pista, fez a curva e, no fim do túnel, acelerou em fuga, descendo a ladeira, rumo à zona sul da cidade. Escapara milagrosamente.

No sábado seguinte, novo passeio. O pai trouxe o filho para comprar sapatos no centro da cidade. O centro caminhava lotado de pés, pernas e rostos intactos. Vendiam-se sapatos, bengalas e chapéus.

Na ida, antes do centro, Eliseu encontrou a caverna da Nove de Julho e dessa vez buscou as pegadas do bicho. Procurou as vítimas. Leões ou tigres sempre deixam restos da caça. Juntam montanhas de esqueletos.

O ônibus vinha lentamente e não se via o rastro do animal mas, de repente, ouviu-se um som que se debateu nas paredes. Multiplicou-se. Não era o acionar das buzinas, nem o estouro dos escapamentos. Foi um urro amplificado de fera. Um rugido que envolveu o ambiente. Eliseu soube que a garganta do monstro vibrava. Os caninos seriam vistos em instantes. O menino apertou os ferros do assento. Chegaria a hora do bote. Fechou os olhos.

E o ônibus novamente manobrou, disparou os pneus, e um berro imenso soltou-se no espaço.

Mais uma vez fugira por pouco. O ninho do carnívoro ficara para trás. Eliseu saíra do túnel, mas escapara somente para assistir o terror do lado de fora. Ver cabeças petrificadas jorrarem água pelas bocas. Serem restos de uma refeição do monstro e ele, decerto, encostava a língua naqueles lagos. Ainda bebia o suco das vítimas.

Os delegados, a polícia, os bombeiros poderiam proibir tantos devoramentos.

Na volta do passeio, sentou-se nos bancos da frente. Calçava sapatos novos e enfrentaria o felino. Não queria lutar com o bicho. Amarrar suas patas. Não queria matá-lo, enforcando-o (no jeito Tarzan de matar o leão). Queria encará-lo.

Quando o ônibus Centro-Santo Amaro alcançou a entrada da escuridão, o menino vinha pronto para o embate visual – seu olho no olho do lince – contudo, nessa hora, reparou que havia dois acessos, duas cavernas de ida e vinda. Entendeu o mistério. Jamais encontrou o animal, pois o gato imenso sempre esteve do outro lado.

O ônibus passou sem pressa, e Eliseu alertou-se para as sobras arrotadas pela besta-fera. O bicho arrotara uma hélice de avião (alguém pregou no teto) e havia papéis e galhos e calotas e pedaços do asfalto cuspidos.

As marcas de pneus freados atestavam a aparição da fera.

Eliseu não avistou o felino e jamais o veria nitidamente, pois, mesmo à noite – quando os caçadores viessem – as luzes dos carros camuflariam o olhar do carnívoro. Ele seria o Aero-Willys de garras retráteis. O Dodge- Dart que abocanha as zebras

“O felino dorme de madrugada”, pensou. Por isso há tantos cachorros andando à noite pela cidade.

O ônibus afastou-se. Os sapatos passaram no teste de coragem.

No domingo seguinte, quando esquecera a história do túnel, Eliseu foi ao cinema. O pai o levara para assistir a um documentário sobre o mundo animal. O filme mostrava a intrincada sociedade dos animais, onde os machos marcavam territórios através da urina. Chamavam as fêmeas pelo cheiro.

Eliseu viu e não viu o filme, porque a maior aberração foi o lance entre a caranguejeira e o besouro. Filmaram a cena. O pequeno cascudo matava a aranha, introduzia o corpo do animal em um buraco e injetava nas entranhas da bicha dezenas e dezenas de ovos, futuras larvas, novos besouros.

O menino apavorou-se. Estremeceu. Sentiu um frio cortante entre as pernas e o medo vinha da caranguejeira, a peluda venenosa que tomara conta do cinema. O besouro não a matara. Muitas patas não morrem. A aranha conhecia os seus próprios disfarces e sua saliva.

Na hora Eliseu recolheu os pés na poltrona. Sentiu-se acuado e, quando chegou em casa, passou a catar pelos em sua cama.

Veio então a semana calorenta. Nem tinha sentido sair de casa. Chatear-se na escola. Ali somente desenhava o polvo, a barata, o rato dentro do foguete. E foi na quarta-feira, no meio do recreio, as meninas gritaram que tem uma aranha debaixo do escorregador, professora!

O menino não acreditou. Assistira ao filme. E as imagens saltaram da tela.

Caminhou até a área dos brinquedos. Bichos estranhos poderiam vazar pela areia grossa ali acumulada. Aproximou-se e viu. Ela, quase parada, desafiando o sol. A mesma caranguejeira do filme. A carcaça esticava as pernas. Lentamente, pinças peludas catavam grãos. As pontas escuras das pernas pareciam soltar pequenos crânios. A aranha não tinha sentido e alguém a chamara.

Eliseu percebeu que o seu medo foi o chamariz. Ele expelira a peçonhenta da areia. Ela estava ali para conferir o medroso.

Essa divagação grudava no menino, quando a professora surgiu. Fez careta, gritou, buscou a diretora para tirar uma coisa horrível do parquinho das crianças. A diretora ordenou ao zelador a captura do bicho. O sujeito cumpriu a ordem e mostrou o aracnídeo dentro de um vidro de biscoitos. O nojo das crianças foi geral.

Eliseu confirmou então a suspeita. Ele, um guri de cinco anos, e também o seu xixi de cinco anos, chamaram a venenosa.

Voltou apreensivo para casa. Lembrou-se da fera do túnel e de como pensara nela com um pavor tão grande a ponto de congelar-se sob o assento do ônibus.

O medo de Eliseu cumpriria sua maldição. Ele convocaria a besta do túnel.

Sim. O felino escapara da caverna. Ele rugia e mordia o ar. Cheirava na brisa o fedor do couro de sapatos novos.

O bicho corria. Não respeitaria os faróis. (Os monstros apenas conhecem o sinal verde.) Ninguém multará a fera. Seu focinho quente logo chegará à rua Dom Pedro II. O menino procurou não pensar. Não urinar.

Ligou a TV e sintonizou o rugido. O túnel corria em sua cabeça. E chegava o cheiro de óleo. Na África, as leoas caçavam e injetavam veneno através da saliva. Os leões pastavam mais pacíficos. A fera da avenida seria outro animal, uma deformação, o “basferonte”!

A tevê mostrou um comercial do Posto Esso. Repetiam o slogan: “Ponha um tigre no seu carro!”.



O tigre no seu carro! Eliseu percebeu - o slogan agourento informava o inevitável - ele seria a próxima vítima.











































10 - Rosa



Rosa morava em minha casa, e no rádio a música dizia haver algo “debaixo dos caracóis dos seus cabelos.”

Um dia Rosa fugiu de casa. Disseram que se tornou hippie e viajou. Viajou de carona para outros países. Quando voltou, trouxe uma tartaruga chamada Verônica e um sagui com o nome de Chiquinho.

Rosa não gostava que o macaco entrasse em seus cabelos, debaixo dos seus caracóis.

A música não falava de saguis debaixo dos caracóis.













































11- O ano do bebê



O sol descia pesado. Everaldo suava tanto que mesmo o pouco vento da tarde colava a poeira da rua sobre a sua pele. O menino não estranhava. Coçava-se. A coceira vinha diariamente, com poeira ou não, bastava aproximar-se da escola e... bomba.

Coçou-se novamente. Esfregou o pescoço com as unhas.

Mas hoje a urticária estava terrível. As unhas de Everaldo precisavam ser mais esfoliantes para diminuir a irritação. Everaldo arranhou os braços. Queria que sangrassem. Fincou quatro dedos no couro cabeludo. Parou. Olhou para o sol.

O sol vinha de longe e fincava o seu pé quente na cidade. O menino caminhou meia quadra. Parou novamente, soprou o peito, enxugou a testa na camisa.

Tanto calor não foi previsto pelo homem do tempo. Coçou-se. Calor de borbulhar asfalto, cozinhar bife sobre a lataria dos carros.

Everaldo logo concluiu, resignado. A causa provável da sua comichão não era o sol. A alta temperatura, a coceira, o pouco vento vinham do fato medonho ocorrido no dia anterior. Nascera em São Paulo o bebê-diabo.

Ah, ouvira a história nos corredores da escola. Alguns alunos leram o “Notícias Populares”. O filho do capeta nascera na periferia. O jornal informou e a cidade detalhou os absurdos: “O bebê tem chifres!”; “Saiu do corpo de uma defunta grávida!”; “O parto foi um exorcismo!”; “As enfermeiras quiseram esfaquear a mãe”.

Um desenho da criatura acompanhava a notícia. Não bem um desenho, um esboço apenas, do anjo do mal que puta que se pariu. Sim, se pariu, porque diabo não poderia ter mãe com formato de mãe. Mãe do capeta é incubadora superlotada de óleo fervente, mala sem alça, caixa com espaço para cascavel. O menino esfregou os dentes no pulso direito.

Perguntou as horas a um velho. Muito cedo, meu Deus. Nunca chegou tão cedo à escola. Madrugar dentro da classe provocava comichão de 1o grau elevado ao quadrado. Voltou para sua casa.

Não sabia se deveria ir para a escola hoje. Poderia faltar. Quem saberia? Alguém tocou a campainha. Souberam.

No portão, duas mendigas pediam comida. Colaram o rosto na grade do portão. Arrastavam um saco branco. Não havia fruta em casa. As mendigas insistiram.



– Minha mãe não está! Volta mais tarde!



As mulheres grunhiram algo. Riram do susto da criança. Depois sentaram na calçada, abriram o saco e despejaram no asfalto a fornada pães duros amealhados na provável peregrinação pelo bairro.



– Esfrega para amolecê – orientou a pedinte mais alquebrada, que friccionou um naco de pão francês no poste de luz.

O menino viu a proeza. A maltrapilha raspava o pão na coluna de concreto. O pedaço esfarelava-se, mas o miolo sobrava intacto e escuro como besuntado por uma manteiga de fumaça. Depois a mulher comia o troço. Parecia comestível. Um bolo.

As duas mulheres repetiram o ritual muitas vezes. Everaldo decorou a missa. Primeiro raspar a pedra de farinha até o ponto limite do pão, depois comer, lamber os dedos e deitar no chão.

“Mais um pouco as mulheres beliscariam o asfalto”, pensou, assombrado.

O bebê-diabo induzia as pessoas a confundirem fuligem com maionese.

Esperou o fim do almoço das mendigas e saiu. Desceu a rua em direção à escola. Coçou-se e teve a certeza: o ano de 1974 seria o prenúncio da vinda do Anticristo. E certos fatos confirmavam o que o dia rebentava.

Em janeiro último, os jornais e a televisão anunciaram a passagem do cometa Kohoutek. O rabo do cometa ocuparia o céu noturno. Atingiria a terra.

Não seria ele, o cometa, a estrela do mal prevista por Nostradamus?

Os pergaminhos do Mar Morto, o Apocalipse de São João, o tarô e até a astrologia previram a passagem do Kohoutek. O cometa do fim do mundo, a tomada elétrica universal que, subitamente puxada, desligaria as pessoas.

A profecia dizia, inclusive, que o primeiro país a desaparecer seria o Chile. As pessoas se tornariam zumbis e subiriam a Cordilheira dos Andes.

Everaldo lembrou-se: tanta blasfêmia e, no final, o cometa mal brotou no céu. Veio só a faísca. Não acendeu nem vela de macumba. Acenderia o aniversário do capeta.

As mendigas atravessaram a rua. Uma empurrava a outra.

Voltou a refletir sobre o cometa. Certamente uma força do mal. E o tamanho fora irrelevante. O cometa pequeno apenas sinalizava que o diabo chegaria em uma condição de bebê. O universo não tinha lógica. O rabo do elefante não pode divulgar o tamanho do paquiderme.

Outra tragédia, fora o incêndio do edifício Joelma. Morreram duzentas pessoas. A moça saltou da cobertura segurando uma sombrinha aberta. Pensou em flutuar como um paraquedas. Se paraquedas sustentavam o peso de paraquedistas, por que sombrinhas não sustentariam mocinhas? Caiu direto, coitada. Desespero ou influência do bebê-diabo? Agora solto pela cidade, batizado pelos incêndios. Antes tivessem percebido o rabo do cometa. Agora é tarde.

Everaldo saiu de casa. Caminhou depressa. As mendigas continuavam na rua. Andavam descalças, as perdidas. Os pés das mendigas eram pães duros bem raspados pelo Diabo. Capeta padeiro, do pão que ele mesmo amassou.

O menino também considerou como fato marcante a epidemia de meningite que se alastrou por São Paulo no início do mês.

A epidemia chegou e as histórias também. A vizinha falou de uma amiga doente. O açougueiro disse que estava com medo de vender carne e os colegas de escola contaram a história de um sapateiro. O sujeito não deu bola. Não ligou para coisa e foi sentindo uma coisa dura no pescoço. O homem endureceu. Virou poste de rua.

O inusitado foi que a doença não aparecia e todo mundo estava infectado. Doença de capeta que não divulga os seus feitos. Tão estranho. Por que os jornais não falavam dos mortos? Então ninguém morreu? Ou todos morreram e isso de esconder a morte também seria outra obra do filho do coisa-ruim.

No dia que chamaram a vacinação, a fila comprida varou o bairro até o aeroporto de Congonhas. E estávamos em agosto, mês de cachorro louco.

Everaldo pensou em como atenderiam as pessoas infectadas, caso a epidemia fosse maior, mais sinistra e derrubadora. Seria o tratamento dos vampiros? Furar o coração com estacas? Furar os doentes “cabeças de ferro”, para não assombrarem?

A estaca no coração era suplício antigo. Tão velho quanto o capeta. O anjo caído foi expulso do céu por querer ser Deus. Um Deus mais potente do que o principal. O coisa-ruim queria ser um Maverick. Potente. E olha que já tinha bandido com o nome do carro, o tal do Serginho Maverick. O diabo, decerto, invejava o nome do bandido.

Um grupo de alunas voltava para casa. Elas segredavam algo e riam excitadas. Decerto, falavam sobre o bebê.

As mulheres não compreendiam a seriedade. Misturavam o assunto do demônio parido à programação diária de namoros. O diabo teria a mesma importância dos mexericos. Segredos espalhados por bilhetinhos durante a aula: “Marcelo está namorando a Priscila.”; “Você viu? A Carla veio sem sutiã”; “Você trouxe o desenho do filhinho do capeta? Que engraçado o rabinho”.

Quanta pobreza na vida das mulheres. Coitadas. Somente os homens avaliavam o diabo solto no calor.

Everaldo assustou-se quando o carro de bombeiros passou com a sirene ligada. Os bombeiros procuram tragédias e até Deus os escuta.

Deus poderia ouvir-lhe também, lamentou. Ele rezava diariamente. Deus não o atendia. Rezava o pão nosso de cada dia e não entendia. O enigmático das orações atestava a chegada do bebê.

Mas seus pensamentos também andavam estranhos nos últimos meses, fixando-se teimosamente nos quadris das meninas. Suas bundas que iam e voltavam e sentavam.

O capeta queria que as coxas das meninas rasgassem a calça azul marinho. Se é para rasgar, porque não rasgam, porque não descosturam?

Os alunos foram aparecendo no pátio da escola. Vários traziam o jornal do dia anterior com a manchete do nascimento do bebê- diabo em São Paulo”.

Todos puderam testemunhar a figura. Perceberam o sorriso malicioso, quase didático, do maldito. Os alunos o imitavam perfeitamente, levantando uma extremidade da boca, olhando para o nosso rosto. Sorriso do tipo universal, propício para velórios, batizados, casamento de padres. Universal como uma sombrinha em dia de sol forte.

O desenho circulou. Outro aluno passou o jornal na bunda. Até alguém trazer a manchete da hora desmentindo a história. Foi uma brincadeira! O bebê não existia!

Everaldo ouviu aquilo e não acreditou. O bebê não existia? Brincadeira para os leitores? Mas e a substância do mal? A presença da entidade explicara o mundo. Esclarecia o raio na cabeça... o cadáver preto e branco da 2a Guerra.

Ontem dormira mais tranquilo. Não sentiu calor.

Agora ele deveria raspar a cabeça em um poste. Raspá-la igual ao pão das mendigas. Até chegar novamente ao ponto limite de compreensão do mundo.

Respirou. Buscou refazer-se do susto e distinguir as pisadas do capeta. Pensar. O grande arranjo do mal não consistia exatamente em negar-se, distorcer-se, encaixar as consciências distraídas na possibilidade do caos? Não seria adequado para tão escuso objetivo, utilizar as prensas dos jornais?

O menino parou no meio do pátio. O calor descia pelo mastro e dissolvia a bandeira do Brasil. Agosto quente.

O diabo trabalhava no jornal que noticiara seu nascimento.

A meningite voltaria e os meninos ririam até dentro de malocas.

Quando Everaldo concluía o seu raciocínio, a sirene de fechamento dos portões foi acionada. Everaldo nunca notara. A sirene disparava um uivo comprido, igual ao lamento dos lobos nos filmes da madrugada. A tevê parecia uma matilha.

O diabo, o cão, a besta, o rabudo, o “dois chifres”, chamava os fiéis alunos para o início de outro dia de aula.

O capeta, sem dúvida, não perderia a própria missa.





12 – Dois peixinhos



Quando o irmão nasceu e chegou, os três gatos pretos da vizinha miavam no quintal. O coro dos gatos tinha algo de choramingo de bebês.

Rubens captou a cena, enquanto a mãe encostava a mala atrás da porta. Ela não brincou. Brincara tanto nos últimos meses de gravidez e exatamente quando chegava da maternidade chegava daquele jeito besta.

A mulher colocou o embrulho no berço, espremeu o coelho de pelúcia na gaveta, abriu as janelas, empilhou o crochê no armário e chamou Rubens, seis anos, para mostrar-lhe o irmão (o conteúdo do embrulho azul) que acabara de nascer.

Rubens não entendeu o neném deformado, quase sem braços, com a cabeça saindo de algo que não parecia um peito.



– Aconteceu algo terrível, meu filho. Mamãe não percebeu.

Rubens logo soltou os dados. Gatos iguais aos da vizinha comeram a criança. Ele era rápido nas deduções: gatos que miam tal qual recém-nascidos devoram recém-nascidos.

A mãe falou dos castigos dos céus. Estava gorda e flácida. Da barriga saltava uma sobra de pele. O menino olhou o tamanho da pança e imaginou um segundo parto, que se emendaria ao primeiro, para completar o corpo do irmão. Primeiro, o tronco e a cabeça. Em seguida, os membros superiores: os braços, as mãozinhas, as peças encaixáveis. Tudo muito simples.

O pai, prostrado sobre o sofá, ouviu a teoria do filho. Tentou explicar:



– Não haverá outro parto, menino. Isso é um efeito expansivo. Durante a gravidez, a barriga da mãe cresce porque o neném cresce, e depois... quando ele nasce, o ventre não perde o espaço que foi do bebê. A barriga volta aos poucos ao normal. Sua mãe não é um elástico. Entendeu?



Não entendeu. O pai sempre foi muito detalhista às vezes. Lecionava biologia no colégio. Falava de abelhas e dos cantos dos “cigarros” durante a noite.

No dia seguinte, Rubens empacou na questão dos pequenos braços do irmão. Quis procurar alguma imagem que lhes dessem continuidade. Pensou em balões de gás desinflados. Pensou em um criatório de pequenas salsichas. Pensou, principalmente, na explicação do pai. Se a gravidez acabara, se o bebê veio despedaçado, nesse caso, a culpa era somente dos gatos. Talvez gatos tenham realmente comido o neném.

As questões sempre se resolviam. O garoto tinha essa capacidade. Descobrir os mistérios. Sim, as mordidas dos felinos explicava tudo, menos o motivo. Por que logo o irmão tornou-se comida de gato? O irmão tinha um gosto, um cheiro, um sabor?

E vieram os banhos do bebê. Certo dia, Rubens se aproximou. A mãe deixara o pequenino sem roupa, estirado sobre a cama do quarto. Ela examinava o filho. Seus olhos espetavam a criança. E espetaram tanto que a mulher mordeu a língua, e soltou um lamento de dor. Chorou por cima daquele corpo miúdo. Pediu desculpas pelo descuido. Não deveria ter tomado o maldito remédio.



– Mamãe não queria isso.



A mulher levantou a criança como uma oferenda para Deus. “Eu aceito, senhor.”

O bebê, tão perto do brilho da lâmpada no teto, arregalou os olhos. Ficou hipnotizado como um peixe diante da isca luminosa.

Rubens, em instantes, completou a sua versão para os fatos. A luz chama a atenção dos peixes. Lembrou-se da minhoca luminosa no documentário da tevê. Os gatos devoraram o bebê porque o irmão era o peixe da maternidade.

Os gatos da vizinha miaram por causa do cheiro de peixinho. Sim, outros gatos saborearam o principal, mas eles queriam os restos. Comer a cabeça da sardinha.

Saiu correndo para ver o desenho. Há alguns meses, vislumbrara gravuras de sereias em uma revista. A mulher metade peixe. E ficara tão impressionado que seu impulso foi desenhar as metades. Esquematizar a parte rabo, escamas e a outra do tronco humano, dos braços, da cabeça de mulher e das tetas enormes.

Desenhou a sereia na parede do seu quarto, atrás do armário, longe da mãe. Ficou perfeita, mas, depois, não entendeu o impulso criativo. Hoje, o banho do irmão revelou o que fora aquele estímulo.

Rubens se fascinara com as sereias porque ele, Rubens, já estivera na metade peixe, sendo metade gente. Hoje esquecera que fora um peixe frio fora d’água fria.

O menino passou a nadar em aquários imaginários. Chamava o irmão de peixinho. Chamou tanto até a mãe, importunada, levantar a hipótese absurda, coisa de gente sem cérebro: "Seu irmão não é um peixe, mas um dromedário”.

Rubens foi rápido: os gatos haviam comido o cérebro da mãe.













13 - O maçarico



Quando o jardineiro eliminou os cupins do abacateiro, mexer com fogo passou a ser uma brincadeira constante. E Tiago bem se recorda do dia, da árvore que nem mais gerava folhas. Estava morta, diziam. Poderia despencar.

O jardineiro veio, cortou o tronco pelo meio, puxou a casca, escavou e desvendou a obra subterrânea, a cidadela dos vermes. Milhões.

O homem expôs a descoberta ao relento, pediu jornais velhos e comprimiu os papéis no vão central da árvore. Depois, derramou querosene e acendeu. O tronco podre abriu-se em fogo, e essa foi a queima inicial na vida do menino. Lindo fogo.

Assim que o tronco virou carvão, Tiago pegou gosto pelo negócio dos incêndios: armar fogueiras, ligar o forno, ver a brasa no churrasco, deslumbrar-se com o instantâneo da explosão das caixas de fósforos.

Imaginava a cena em câmara lenta cada palito transmite ao vizinho sua descarga. Mesmo cem palitos, todos se comprometem para o resultado e, no final, quando o fogo cessa, os palitos permanecem unidos, colados e torrados. Prontos para o enterro.

Outro dia. Ele e mais dois incendiários encontraram um frasco de desodorante. Dos fechados sob pressão. Aerossol.

O frasco indicava o perigo de furá-lo ou aproximá-lo de calor ou fogo. Fogo. Alguém sugeriu saber o que aconteceria. A pressão liberada desequilibraria o ambiente. Anularia a força da gravidade.

Pensaram no terreno baldio onde jogavam bola. Criaram a fogueira. Enviaram o tubo na brasa, saíram de perto e esperaram.

O desfecho foi satisfatório. O desodorante explodiu e subiu. Subiu muitos metros. Tornou-se um foguete. O foguete da Expoex, a exposição do Exército que vira na cidade.

O frasco voltou aberto e deformado. Por dentro, o aerossol era meio dourado. Olharam o estrago. Transformara-se em uma escultura de cara de mulher. Parecia a Taça Jules Rimet, da Copa do Mundo.



– Olha como ficou! – comentou quando pegou a taça. Levou-a para casa. Bacana.



O álcool também transmitia muitas possibilidades para bom fogo. Álcool Zulu tinha o maior nome inflamável. Graduação 92.

Tiago gostava de ler embalagens. Envolvia-se na graduação alcoólica de certos líquidos. A pinga variavelmente possuía 52% a 54% de álcool. A cerveja tinha 5%.

Resolveu usar o álcool para outros fins. Idealizou o maçarico portátil. A garrafa de plástico, comprimida pelo meio, expeliria um fino jato do líquido inflamável. Caso houvesse o acionamento, o jato de fogo permaneceria contínuo e seguro pela tampa da garrafa. Serviria como solda.

Escondeu-se no banheiro para testar a invenção. Morava em um sobrado com quintal e garagem, mas o espaço do banheiro, a torneira, os ladrilhos, a banheira branca eram meio laboratório.

Furou a tampa da garrafa com prego. Apertou. Saiu um jato fino. Perfeito. Depois, acendeu dois fósforos. Apertou a garrafa novamente. No primeiro jato, o fósforo apagou. Uma segunda vez. Sem efeito. Desistiu, abriu a porta, e o irmão menor brincava de carrinho no corredor. Não dorme nunca.

Tiago deveria decorar a tabuada do sete, a do oito e a do nove para a escola. Foi para o quarto.

Sete vezes nove é igual a sessenta e três. Nascera em 1963. Fácil. Matemática era a mais inflamável das matérias. Sete vezes dez é igual a setenta. Oito vezes dois é igual a dezesseis. Nove vezes seis, cinquenta e quatro. Cinquenta e quatro é graduação alcoólica da pinga.

O soldador voltou ao banheiro e imaginou escrever o seu nome em álcool, nos ladrilhos do chão. Imaginou as letras inflamadas. Um luminoso em gás néon. Também não deu muito certo, o álcool era muito evaporativo. Na última letra, a primeira já sumira do chão.

Retornou a ideia do maçarico. Acendeu o fósforo, comprimiu o plástico, acertou o jato e funcionou. Explosivo. Direto no rosto do irmão.

O fogo pegou na criança e também se fragmentou no banheiro como uma granada. O irmão berrava. Tiago bateu na cabeça do pequeno para apagar a chama.

Olhou ao redor. O fogo pulara na porta. A cortina do banheiro escorria pelos ladrilhos.

O incendiário quis salvar a casa. Correu até a cozinha, encheu a panela de água. Derrubou-a na escada. E o irmão pulava. Puxou a cortina. Jogou-a sobre a banheira, abriu a torneira. Apagou a cortina, mas não sabia como apagar o irmão.

A mãe de Tiago, que estava na vizinha, escutou um choro, um cheiro... e correu. Não teve tempo para o grito. Puxou o menor, enrolou-o em uma toalha e saiu para o hospital. Não sem antes ameaçar o incendiário. Ela o esfolaria quando voltasse.



– Você me paga, moleque!



Tiago então temeu pela vida. Havia desfigurado uma criancinha. Tão pequena. Nunca dormia. Não precisava de solda o irmão. A mãe e o pai lhe surrariam para cozer a pele. Pior. Viriam para decepá-lo. Cortar o seu corpo bem no meio. Só encontrariam a cidadela dos cupins.

Escondeu-se no quarto dos fundos, fechou as janelas, apagou as luzes. Fugir seria inútil. Precisaria almoçar e jantar. Dependia dos pais para viver. Dependia dos pais até para comer salsichas. Essa última constatação foi tão humilhante que a expectativa da surra alastrou-se definitivamente em sua pele. Era questão de tempo.

Começou a chorar e chorou durante muito tempo. Imaginou o irmão sem o olho esquerdo, a pele derretida sobre o nariz. Seria o Corcunda de Notre Dame, do filme.

Nove vezes seis é igual a sessenta e três ou cinquenta e quatro? Precisava decorar a maldita tabuada.

A mãe chegou. O irmão tinha uma faixa branca na cabeça. A empregada perguntou sobre as queimaduras:



– Sorte eu ter sido ligeira. O neném poderia ficar deformado, meu Deus – disse a mãe.



A mulher reclamou com a doméstica por deixar o álcool tão à vista. Perguntou pelo criminoso. A doméstica apontou o quarto dos fundos.



– Passou a tarde chorando. Quase teve um troço.



A mãe foi atrás do rebento inconsequente e encontrou-o de cócoras, atrás da porta. Descascava a tinta da parede com a unha do polegar direito. Tiago se levantou choroso e solene:



– Se a senhora quiser pode me bater. Eu mereço.



A mãe apenas o abraçou.



– Nunca mais faça isso, meu filho. Veja o estado do seu irmão... quase sem pele...



Tiago olhou o menino – a cabeça enfaixada, o iodo sobre o nariz – e o abraçou também. A mãe e os filhos estavam unidos. O pequeno bateu a testa na cintura de Tiago.



Naquele momento, o incendiário conectou-se a sua brincadeira favorita. Não pôde evitar. O três estavam unidos. Unidos e torrados como palitos em uma caixa de fósforos detonada.













































14 – Ovos cozidos



Todas as manhãs, os alunos cantavam o hino nacional. A escola não esquecia o ato cívico, o que sugeria uma ordem direta do próprio presidente, o General Médici. No entanto, nada patriótica era a baciada de ovos cozidos da merenda. Vinham frios e sem sal. O que deixava os alunos tristes.

Depois de muitos anos (talvez por decisão presidencial, decreto municipal, ordem da Diretora ou pelo bom-senso da merendeira), colocaram uma colher de sal perto da baciada.

Dali para frente o ânimo foi outro. Os alunos acreditaram mais no hino nacional, cantado na entrada, pois o recreio estava garantido.

Os alunos poderiam pingar o ovo cozido da merenda, no precioso sal do Brasil.





































15 - Unhas



Tinha que ser logo no dia em que toda a sua família estava em sua casa. Um vento forte fechou a porta do quarto na ponta do dedo médio esquerdo de Oswaldinho, seis anos de idade.

Waldinho gritou, saiu correndo, encontrou a mãe e chorou. Suplicou à mulher que lhe salvasse o dedo. A mãe soprou, soprou, passou mercurocromo, cobriu o machucado com ‘band-aid”, beijou o dedo, as mãos do filho, beijou e despachou o garoto.

A dor, de fato, passara, mas o menino parou na ferida. Ficou remexendo o machucado. Tirava o “band-aid”. A unha surgia. Diferente, roxa, dobrada. Mostrou para a tia, exibiu para os primos. Apontou o sangue coagulado.

O pai chegou em casa. Examinou o dedo e perguntou se o filho chorara.



– Homem não chora. Não quero filho maricas, chorando por bobagens.



Os primos riram.



– Maricas? – envergonhou-se. Não era maricas e, se um dia na vida chorou, foi porque a pancada doera. Ninguém fica muito homem depois do primeiro dedo espremido na portada.



Oswaldinho usou muitos argumentos para assegurar a virilidade. Algo que ele mal entendia, senão que parecia algo bruto, mantido aos empurrões. Empurrar os outros. Chutou a porta e terminou por fechar o semblante miúdo, sem entender as teses do mundo masculino.

A mãe intercedeu, comentário mais besta do marido:



– Saí de perto!



Chamou o filho e consolou-o. Aquele seria um dia especial. A família iria ao circo.



– Você não vai deixar que este machucado atrapalhe o passeio, né?

O circo erguia-se longe, onde palhaços vendiam marionetes. A família acomodou-se junto ao picadeiro, e Oswaldinho, que ainda admirava o ferimento, passou a admirar a malabarista de maiô azul que entrou no palco.

A artista arremessou para o alto duas argolas douradas, deitou-se sobre a corda bamba, segurou os bambolês que jogara, com a ponta dos pés, girou os círculos e abriu as pernas em leque, enquanto o assistente encaixava ali mais duas, mais três, muitas argolas imediatamente rodopiadas.

As pernas da malabarista pareciam hastes de um carrossel. Giravam. E elas eram inquebráveis, flexíveis, lisas, magras.

De tanto se impressionar, Oswaldinho excitou-se, e seu pequeno pênis cresceu. Já sentira antes. Aquilo embaraçava a sua vida. Ele não entendia. Ajeitou a cueca. Meteu as mãos nos bolsos da calça. Não cedia. Não cedia. E tão forte foi o gesto de acomodar o sexo em seu devido lugar que a unha machucada despregou-se e caiu.

Oswaldinho entrou em parafuso. O pênis tornou-se irrelevante. A unha valia mais. Escapou. Achou a casca no chão. Apavorou-se. Inutilizara o dedo. Dedos precisam de unhas ajustadas. Unhas precisam estar encaixadas nos dedos.

A malabarista terminou o show, contorcendo-se para a reverência final. Ela tinha o controle de seus encaixes, e o menino assustou-se com o padrão desmontável da artista.

Sem dúvida, meninas têm outra fixação. As pernas pareciam avulsas e sem roscas. Rolam pela casa. Desconjuntadas, iguais a pernas de bonecas.

No entanto, ele perdera a unha. Meninos deveriam ser criaturas pregadas até os fios dos cabelos.

Encontrou a unha e a apertou em sua cavidade natural. Fixou o “band-aid” e girou. A tampa do dedo nunca mais cresceria. A pancada tirara a cola? Viveria sem unha. Era desmontável agora. Talvez nem fosse mais homem.

Pensou em resolver o problema. Cogitou deixar o sangue coagulado sobre o dedo ferido. Adaptar ali um anel dourado. Sentiu-se o maricas.

O garoto desistiu de acompanhar o espetáculo. Apertou novamente o “band-aid”. A fita não perdera a aderência. A unha despencava. Nem cuspe grudava.

Quis guardá-la no bolso e tentar conectá-la mais tarde com cola (água fervida com maisena junta copo quebrado). Desistiu. No bolso ela racharia. Tão poucas as opções. Terminou por pressionar a unha no dedo com o polegar da outra mão e, se fosse necessário, pressionaria o dedo até o fim da vida.

O pai tossiu. O que ele pensaria diante do desmembramento do filho? Homens não perdem pedaços. Homens não choram. Ele queria chorar, mas a imposição paterna o impossibilitava de manifestar-se diante de desarranjos.

O espetáculo prosseguia. Quis esquecer o problema. Em vão. Um elefante descortinou o picadeiro, chutou duas bolas imensas salpicadas de estrelas. A domadora colocou a cabeça sob a pata do paquiderme. Pata imensa, unhas irremovíveis, cravadas.

Por fim, chamou-se o público para a última apresentação do dia: o Globo da Morte. Dentro de uma gaiola redonda, do tamanho do circo, dois motociclistas soltariam piruetas. A plateia aplaudiu.

As motos roncaram alto e voltearam o interior do globo. Oswaldinho abriu a boca e esqueceu o dedo, o “band-aid”, a unha solta. As motos giravam. Suas rodas raspavam o metal da gaiola como lixas motorizadas.

Um dos motoqueiros surgia de ponta-cabeça para, no instante seguinte, encontrar-se sob o capacete do outro motoqueiro. Eles sempre escapavam. Giros em grande velocidade e precisão. Máquinas sob o controle do homem. O público aplaudiu.



– Que bacana! – chamou a atenção do pai. – Olha, papai! O senhor tá vendo?



O pai respondeu que sim. Era bom estar ali no circo e pediu para o filho reparar no motor forte das motocicletas.

O motor das motocicletas trouxe o menino de volta ao drama da unha despregada. Olhou o dedo. A unha caíra novamente no meio do show. Desapareceu. Decerto avançara pela arena. A mãe colocara no seu dedo um esparadrapo inútil.

Oswaldinho se perdeu também. Tocou a ponta do dedo. Esponjosa. A mutilação fora irreversível. Impossível qualquer emenda. Na falta de opções, montou uma careta sofrida, humilhada para sempre, acabada mesmo. Poderia participar de um show de aberrações. Sentar-se junto à mulher barbada, aos irmãos xifópagos, aos anões de voz grossa.

À noite, o mutilado dormiu triste. Não tinha mais os dentes de leite. A mão seria outra boca banguela. Decidiu esconder a mutilação dentro do bolso, usar esparadrapo para disfarçar o dedo. O esparadrapo seria apetrecho de circo. Viveria debaixo da lona. Na farsa.

Foi com grande alívio que o farsante viu, depois de alguns dias de bolsos suados, a unha do dedo médio crescer novamente.

Oswaldo percebeu o ser excepcional que era. Um homem mais do que homem... um mágico. Mágico homem provisoriamente na condição de menino.

Mágicos constroem unhas nos dedos, fazem as mãos criarem lenços, tiram lenços brancos da cabeça dos pombos. Os pombos pousam no ombro do mágico.























































16 - A máquina do tempo



O tempo incomodava Marquinhos. Não o tempo atmosférico do calor e do frio. Incomodavam os acontecimentos, o andamento dos fatos, o presente, a atualidade.

Quando diziam: “Hoje em dia as coisas estão terríveis!”, ele concordava. Na verdade, o café da manhã veio intragável. E a notícia do assalto, saída do rádio – assalto a banco acontecia todos os dias –, devorava o relógio da cozinha. Seis horas e cinquenta minutos.

O tempo presente não atravessava a garganta. Não era possível engolir o dia 26 de março de 1971.

Marquinhos vivia para marcar o passado. O passado dos seus oito anos de idade. Algo distante. Às vezes ele o sentia como um balanço durante a noite.

Enquanto dormiam, ele retornava ao ano de 1966 ou 67. Somente naqueles anos as sensações valiam. Brotava das paredes um efeito de bem-estar e movimento. Havia a casa boa, ele sabia. Sua família funcionava ali dentro. O pai, a mãe e os tios arranjaram o Natal em 1966. Juntaram balões na festa junina de 67.

O menino ria das lembranças. As matracas de plástico rodavam. As tias derramaram os pudins naquele Natal, antes da morte da avó. Papai Noel chegou com o saco, e as crianças ganharam mil brinquedos.

Por que o mundo ficara ruim? O frio arrastando-se até a escola. Nem os roncos mornos dos aviões em Congonhas descongelavam os dias. Os adultos ficaram tristes. E por que a impressão de cabeças fincadas no chão?

E, quando subia na balança da farmácia, pesava os mesmos quarenta quilos.

Decidiu retornar à época das boas engrenagens. A idéia engatou-se quando viu um automóvel na contramão, acionou a ré e voltou, voltou duas quadras antes de dobrar a mão.

Marquinhos construiria a máquina que voltaria no tempo, na contramão.

A casa, aquela designada para que ele vivesse o tempo presente, possuía mil eletrodomésticos. O pai os comprara pelos tais crediários. A tevê anunciava a geladeira de 48 meses, o fogão das 36 parcelas, a televisão dos 24 pagamentos. Mas ninguém atentara para as outras hipóteses de funcionamento dessas máquinas. A operacionalidade não descrita nos manuais de instrução.

O menino cismou na mecânica dos utensílios. Descobriria o ponto automático. A viagem ao passado seria a informação de um botão. Quem sabe de manivelas. Bastaria acionar a ventoinha interna e pronto, o hoje seria anteontem do ano retrasado ou mais remotamente.

Parou na máquina de lavar roupa. Um engenho branco, entre o tanque e a parede. Leu as instruções e soletrou: en-xa-guar; cen-tri-fu-gar. Palavras bonitas. Lembravam fuga. Viagem rumo a antigos pedaços do tempo, quando a segunda-feira não se esfregava sobre os outros dias da semana.

Examinou o reservatório. Subiu no aparelho, e a estrutura metálica da máquina esfriou as pernas do viajante. Sim, as rótulas dos joelhos já estavam em outra dimensão.

Levantou a tampa. No meio havia um cilindro de ferro. Ele deveria abraçá-lo. Seu corpo giraria no escuro. No meio da água, o fluido mágico dispararia o estrondo do sabão em pó e “Omo! Total!” Marquinhos retornaria ao passado (no processo, seria lavado e torcido) e chegaria no dia da festa. Seus pais antigos elogiariam a façanha, cantariam novamente, e o viajante tomaria só um gole de quentão, menino.

Decidiu entrar. As pernas passaram, mas a barriga entalou. Marquinhos tornara-se um menino gordo. Os colegas da escola comentavam a falta de fôlego. Tentou primeiro a cabeça. Não houve jeito. Desistiu da máquina de lavar. Pensou na geladeira.

A geladeira apresentava outra dinâmica. Ele raciocinou. Examinou a vedação e pensou estar diante de uma cápsula do tempo. A jornada seria possível, contudo o tripulante passaria muito frio, pois a geladeira, antes de deslocar as camadas do espaço e tempo, rompia barreiras térmicas, conservava alimentos, fabricava gelo em forminhas e, somente depois de tantos afazeres refrigerados, levava o passageiro ao pretérito, pretérito mais que perfeito.

Sim, refrigeradores escondiam pequenos dinossauros em suas gavetas. Aquilo, embalado e sem cabeça, nunca foi um frango. A pré-história podia ser manipulada: cinco anos, cinco milhões de anos. Dependia da temperatura.

A certeza da viagem, contudo, chegou-lhe diante da evidência de que a lâmpada interna do aparelho apagava quando a porta fechava. O fato obviamente indicava que a função era dissolver passageiros em outra dimensão de luz.

O cientista calculou o espaço disponível. “Cabe uma pessoa.” Tocou as prateleiras geladas. Precisavam sair.

Imaginou a jornada. Sonharia com focas amestradas e descongelaria em 1967; antes, 1966.

A viagem no frio exigia o uso da malha de lã. Correu para apanhá-la. Procurou também o cachecol pré-histórico. Distraiu-se com outras providências e, quando retornou à cozinha, a mãe atual despejava compras sobre a mesa e recolhia pacotes de carne ao refrigerador. A carne pingou sangue.

A mãe do hoje impediu a viagem, apenas para sangrar a geladeira. Ele quis falar, a voz não saía. Teria que esperar o dia seguinte, pois a casa e a geladeira encheram-se de carnes estranhas. Amanhã seria domingo.

Domingo passava aquele incompreensível programa de auditório pela tevê. Ali as pessoas se metiam a cantar. Tentavam cantar e ganhar a linha completa de produtos para o banho, ou um jogo de jantar para seis pessoas, ou uma televisão de 12 pagamentos.

Se fosse mulher, a melhor “caloura” receberia uma gargantilha de ouro, à venda na loja tal em 24 pagamentos.

No dia seguinte, pressentiu, estaria longe antes de o primeiro calouro soltar a voz no palco. Foi dormir e, inexplicavelmente, acordou quase sem opções.

Refletiu sobre usar a televisão da sala como transporte pelos canais do tempo. A tevê transmitia um páreo direto do Jockey Club. Parou e contemplou a corrida. Cabeça por cabeça de cavalos no início. Venceu, por vários corpos de vantagem, o cavalo de número sete. Nenhuma coincidência. O vencedor desfilou para o público, enquanto o narrador calculava a estratégia do animal rumo à vitória.

Marquinhos percebeu que o pai e a mãe haviam saído de casa. Não explicaram o motivo da saída tática. Saída de cavalos.

O jóquei vencedor foi entrevistado. Um sujeito baixo, magro. Respondia as perguntas fixando os olhos em um ponto da arquibancada, atrás do repórter.

E somente ali Marquinhos soube que presenciara o “Grande Prêmio Brasil de 1971”. O jóquei vencedor olhava para a frente porque via o amanhã. Os jóqueis e os quadrúpedes gostam do futuro e por isso correm.

O futuro não chegaria. Nem havia largado.

Marquinhos gostava do ontem. Isso o tornava diferente dos cavalos, dos jóqueis e dos seus pais.

Torceu o seletor. Deixou chuviscos no televisor, e dali saía um ruído tão primitivo, um ronco tão roncador, que somente poderia ser o chamariz para a volta.

Contemplou a falta de imagem na tevê. Os chuviscos soltavam milhões de anos de formigas saltadoras. Tocou o vidro. Atrás, retirando-se a tampa, abrir-se-ia o tubo de passagem, a piscina luminosa onde quem mergulhasse ganharia cinco, dez anos.

Desparafusou a proteção traseira do televisor. Examinou. Encontrou o tubo e as válvulas luminosas. Esperou a dispersão da luz no ambiente. Aguardou o derramamento das lembranças de fogueiras no jardim, bandeirolas atravessando o quintal, chapéus de palha com bigodes de carvão no rosto dos meninos. Os balões eram válvulas de papel subindo, subindo. Abraçou a tevê.

Ficou assim muito tempo. As 22 polegadas do aparelho aqueceram e nada aconteceu. Decerto havia algum interruptor, instalado pela mãe atual, que não admitia perder a novela das oito.

Matutou outra saída. Encontrou muitas questões. Os adultos resolviam questões. A mãe tingia os cabelos. Escolhia a tintura. O pai decidia tomar vinho aos domingos. A bebida tingia a língua.

Crianças não acertavam nem a cor das calças. Apenas remoíam os problemas, e os meninos, principalmente, viviam cheios de vermes. Isso reclamava a diretora da escola. O banheiro da escola tornara-se um intestino grosso.

Parou no portão de casa, examinou a rua, o atalho para o clube do bairro. Às duas horas da tarde, viu as duas empregadas da casa dos alemães indo ao baile. Elas usavam botas negras. Falavam dos namorados. “Doméstica só gosta de namorar.”

Marquinhos não entendia a namoração das mulheres. Depois as compreendeu. Queriam esquecer o trabalho exaustivo. A barriga no tanque, o umbigo pregado. Elas mexiam com vasilhames enormes. Guardavam muitos quilos de roupa suja. Sujeira encalacrada que vinha e desaparecia. A roupa voltava ao estado original.

Ah, não era bem a máquina de lavar, o veículo do tempo, mas as bacias da lavanderia.

Marcos correu até a lavanderia e separou a maior bacia da casa – assemelhava-se a um disco voador. Esse seria o transporte. Encheu a vasilha de água, vestiu seu calção de banho e imaginou que o motor para a nave deveria ser um engenho que criasse deslocamentos temporais.

Fuçou a garagem. Examinou a ferrugem e encontrou um ferro elétrico quebrado. Bom. Ligou a tomada do eletrodoméstico no receptor perto do tanque.

Puxou a bacia e deduziu que, se conectasse o ferro na água e se ele, Marcos, o tubo de ensaio, entrasse na bacia... algum efeito superquente iria evaporá-lo dali.

As horas sairiam da condição sólida, mover-se-iam no sentido anti-horário, e o transportariam para o ano daquela festa, quando o tempo não precisava de máquinas e nada estava perdido.

Marquinhos, nove anos, calouro, viajante, cientista, posicionou-se para a operação. Deixou a bacia no chão. Entrou nela descalço. Segurou o fio do ferro com a mão esquerda. O fio curto não permitia a conexão. Não tocava a água.

O viajante então ajustou a bacia sobre a cadeira da garagem. Vacilou, e o ferro caiu dentro da água. A ação da corrente elétrica foi instantânea. O curto-circuito explodiu a tomada. O menino pulou longe, bateu as costas no muro e caiu no chão.

A viagem no tempo não aconteceu. A eletricidade mostrou-se um redutor temporal, o agente paralisante. Para sempre no ano de 1971.

Marquinhos permaneceu estirado no quintal. O sol sumiu no poente. Isso não significava nada. A terra girava no universo tal qual um frango no espeto. E dentro do frango as pessoas viviam. A casa girava. O sono puxava o dia de ontem. O menino acordava naquele horário. Caminhava até a escola. A sala de aula pingava a rotina do sem fim. A gordura da merenda grudava nas camisetas. O frio das manhãs penetrava nos ossos, gelava as pernas durante a execução do hino nacional. Todos bocejavam o mesmo a ar quente pelas bocas.

Somente a língua da professora mexia-se durante a chamada. Mexia-se com a rapidez de serra elétrica:



– Marcos de Souza!

– Presente.







































17 - O aniversário de Lúcia





Quando Lúcia, dez anos completados em agosto, entrou no Jardim Zoológico de Brasília, correu, virou à esquerda na primeira alameda, seguiu o rugido dos leões e perdeu-se dos familiares.

Melhor agora, a excursão seria dela e também da sua saia xadrez de zebra, da camisa branca igual ao cisne, dos brincos de bolinha dourada para os beija-flores.

O resto da família: o pai, a mãe, os três irmãos eram orelhas sem adornos.

A garota aguardara ansiosa este domingo no zoológico. Ali vestiria o casaco do leopardo. Imaginou a Savana Africana. O rinoceronte correria atrás do próprio chifre. Os avestruzes engoliriam garrafas de Coca-Cola.

Tantos comportamentos bizarros existiam dentro das jaulas, bem desconfiava, embora o mais sensato no meio da estranheza fosse esquecer a vergonha de aniversariar no vazio. Completar dez anos de idade para ninguém e mosquitos. Sem qualquer festa, bolo e amigos. Sem os dez anos que precisam de doces para se consumir.

Pelo menos no zoológico ela se sentiria bem. Eles não tinham obrigação de comparecer em aniversário de gente.

Ela encontrou a área onde pulavam os macacos. Alguns surgiram de pequenas ilhas no meio do lago. Lúcia viu e também quis se pendurar por um rabo. Balançar ora assim, ora assado. Igual ao símio meio amarelado. O maior, da Floresta Amazônica.

A placa informava o latim do primata e listava a dieta. Comia bananas. O macaco tinha cara de cachorro e o rabo grosso espiralado. Os caçadores poderiam usá-lo no tiro ao alvo. A mosca do alvo seria o fim do rabo. Ficou olhando. O símio se agarrou nos galhos de uma árvore. Subiu no tronco, correu para o galho mais alto. Brincava. Não esperava visitas. Macaco decidido a não se incomodar.

Afinal, dúvidas não podem existir dentro de bananas nanicas. Macaco não tem idade para se preocupar. Não precisa de aniversário. Quando nasceu ganhou o rabo.

O fato é que Lúcia completara dez anos e nem a família, os tios, os primos puxaram a data. A mãe não encomendou os brigadeiros. Faltou dinheiro.

O pai deu-lhe uma bola amarela semelhante a tetas de vaca. Brinquedo de praia, ele explicou. E a aniversariante, no limite, quase beirando as onze horas da noite, pensou em festa-surpresa. Os parentes estariam escondidos atrás das portas. Não encontrou ninguém. Nem a tia-madrinha. Ela deveria ser presa, em jaula de “monstra”, para ser cuspida pelos turistas.

No dia, examinou muitas vezes a cozinha, onde o bolo estaria coberto de chocolate sobre a bandeja prateada. Não viu a calda de açúcar fácil derreter no forno. Abriu o forno. Não compraram os suspiros. Não haveria festa.

Engoliu o descaso. Entrou no quarto para dormir. Os olhos acordaram inchados pelo choro. O rosto ficara branco e poroso. Foi tomar café e viu o sorriso do elefante na caixa de Sucrilhos. Paquidermes têm boa memória.

Pensou no zoológico. Animais não esquecem. Pediu, pediu para os irmãos pedirem e convenceu o pai a passearem no lugar.

A bicharada brincava. Apareceu uma girafa. Ela volteou o pescoço várias vezes. O torcicolo estava no alto e ela nem se importava. Lúcia admirou a imponência periscópica do animal. A girafa nem desviou o olhar para a família humana que surgia. Os pais brincavam com a filha:



– Aquela girafa parece a Suzana!



A Suzana poderia ter dez anos de idade. Certamente, anos comemorados em casa com bolo e convidados.



– Olha outra Suzana escondida ali atrás!



A verdadeira Suzana envergonhou-se e bateu no braço do pai.

Lúcia quis entrar na brincadeira das comparações pueris. Menina comprida vira girafa. Qualquer mulher de olhos grandes já nasceu irmã da coruja.

A família continuou:



– Você tem a mão de orangotango, papai.



Lúcia riu e percebeu que os corpos humanos sustentavam peças de quebra-cabeça, encaixes de animais. Narizes escondem elefantes e tamanduás.

Aproximou-se da família. Antes deveria se apresentar: “Boa tarde, eu tenho dez anos”. Seria importantíssimo, dali para a frente, indicar a idade. Se chegassem a inquiri-la “seu nome?”, “endereço?”, antes anunciaria a idade não comemorada no dia 23 de agosto. Dez anos, mesmo sem a certidão de nascimento da festa.

A vida concentrava-se nas festas de aniversário. Faltava uma peça agora, embora para alguns homens sobrassem narizes.

A família amiga das girafas saiu de perto. A menina prosseguiu a visita. Entrou em outra alameda, subiu em um muro de pedregulhos, vislumbrou o lago de água barrenta do hipopótamo fêmea com o filhote.

O hipopótamo e a cria caminhavam esmagando o mundo. Bocejaram dentes enormes, mergulharam na água e boiaram com facilidade. A mãe e filho conversariam muito na língua dos hipopótamos. Imaginou a gorda a pedir desculpas ao rebento pelo excesso de gordura. Explicar que, apesar da banha, a pele do menino não arregaçaria nunca, por mais hipopótamo que ele fosse. “É herança de família, meu filho, mas, note a façanha, você flutuará na água, leve como um balão”.

Lúcia fantasiou a sensação do filhote dentro da piscina. Confirmava as razões da mãe hipopótamo. Ela abriu os braços. Quis mergulhar. Boiar. Um segurança gritou: “Desça daí!”. Apitou. A aniversariante assustou-se. Saiu correndo. Entrou no viveiro das cobras.

Quantas cobras enroladas! Espaguetes atrás da vitrine. Devem dormir e sonhar venenos.

O veneno participa do aniversário da serpente. É ingrediente do bolo. Ela não conhece outro suco para ajeitar o gosto da massa.

Lúcia quis o bolo da anfitriã. Cobras não comem bolos de maracujá e não dão beijinhos.

Antes não imaginava a festa venenosa. Esperava a comemoração tradicional, com começo, meio, velinha e fim. E na saída, as pessoas levariam lembrancinhas. Poderiam ser apitinhos ou línguas de sogra.

Alguém apontou a cascavel da outra sala. A única víbora em atividade. A cobra mirou o público e soltou a língua bifurcada. A língua de sogra, o brinde do aniversário estava ali.

Não era possível esquecer o aniversário perdido. A década completada no espaço. Mais tarde espetaria na faca o presente do pai. A bola de borracha.



– Cada tentáculo colorido marca um ponto diferente. É um jogo – disse o pai.



Chegou à quadra das aves. Pensou na mãe. A mãe atropelava os filhos como o pouso dos albatrozes. Saiam da frente e cresçam!

A aniversariante seguiu vendo javalis, ursos e bisões. A anta morava sozinha, na margem oposta do lago. “Isolem-me! Eu sou a anta! Tanto faz como tanto fez. Pareço um porco. Não quero aniversário. Os porcos quiseram e viraram churrasco!”

“Nem churrasco de aniversário” – pensou Lúcia.

Interessante foi o viveiro das tartarugas gigantes. Viveiro festivo, embora imóvel sob o sol. A imobilidade não ajudava a solenidade. A quantidade dos visitantes, porém, criava o ar celebrante.

Contou quinze tartarugas em posição normal e uma com a carapaça virada. Subira em cima de outra e desequilibrou-se. Terminou de pernas para o céu. Vomitava. Possivelmente a aniversariante.

Lúcia quis chamar os vigias do zoo. Naquela posição, a tartaruga morre sufocada. Não os encontrou.

Voltou ao viveiro. A agonia do quelônio comovia. O vômito vertia da sua boca. Nunca vira agonia maior, e o mundo humano não ajudava, não impedia o mal-estar. A cabeça do réptil girava, buscava um esforço. Balançar-se tal qual um barco sem lastro, até emborcar.

Tartarugas vivem muitos anos. Perdem a idade. Duzentos aniversários, nem sabem. Lúcia saltou o muro, correu até o anfíbio e endireitou o casco.



- Nenhum problema, amiga. Pode voltar pra festa.



Procurou entender a justificativa da mãe de que faltara dinheiro. Não tinha dinheiro? Desculpa mastigada por pais com dentes ruins. Leões sem dente.



Chegou ao espaço do leão. Seu terreno ficava longe do público, depois de um lago. Ali o leão resfolegava sozinho, deitado. Lúcia quis imitar o som daquela respiração. Entrar no corpo do corpo do felino, rugir. O leão rugiu.

Grande poder de persuasão. Os outros animais respeitavam o rei dos animais. A festa acontecia diariamente. Quem ousaria reclamar a falta dos docinhos?

O aniversário martelava. A mãe não confirmou a lista de participantes. Ela a preparara com dois meses de antecedência. Poderia ter enviado os convites às amigas da escola. Elas levariam os últimos discos. Tocariam músicas na vitrola. Falariam dos colegas de escola. Alguns poderiam comparecer.

Os meninos, avestruzes em seus pescoços finos. Chegou ao pasto dos avestruzes. Dois deles correram balançando as asas. Brincavam o pega-pega. Meninos em todos os pescoços.

Riu e pensou em se comunicar telepaticamente com os animais, com os alunos da escola, os primos. Avisar que, se houvesse outra natureza, outra possibilidade de festa, Lúcia, da 4a série B, liberaria a degustação dos doces antes do bolo. Não seria mais falta de educação. De verdade. O que valem os brigadeiros? Os brigadeiros soltos... ou a fuga. Fugir de casa? Ir plantar couves para os babuínos.

A ex-aniversariante, por fim, encontrou o tanque das ariranhas. Animal diferente, meio foca, meio peixe, meio mundo submarino da televisão. Faltava o ralo para a entrada dos golfinhos.

Lúcia subiu a grade. Embaixo, três ariranhas nadavam na piscina azul para sempre. Nadavam na doçura da água. Quis pular. Entrar na festa. O início seria a brincadeira de mergulhar muito, prender a respiração e pular de alegria puxando o ar. Depois abrir a boca para os peixinhos. Comer as pipocas jogadas pelas crianças.



Quem notaria a garota-foca, diante das bolhas? A garota sem aniversário, sem bolo – nem Pepsi-Cola trouxeram.

Lúcia foi perdendo o equilíbrio.



– Sua maluca, o papai tá te procurando. Ele tá louco da vida ¬– puxou-lhe um dos irmãos que a procuravam.



Lúcia lamentou não ter entrado no salão das ariranhas. Até chegar em casa, somente ouviu as reclamações do pai:



– Desmiolada! Parece criança.



Ela não era criança e não quis repetir a idade.



No dia seguinte, a fugitiva ainda não esquecera a desfeita. O dia 23 de agosto de 1977, o seu aniversário. E até o passeio martelava. Sobrara apenas a idéia do macaco-prego. Iria furar outro mundo. Nem o zoológico prestava.



De súbito, o noticiário da tevê destacou o acidente ocorrido na véspera: no Jardim Zoológico de Brasília, um menino caíra no tanque das ariranhas. Um sargento da Polícia Militar à paisana, que passeava com a família, salvara a criança. As ariranhas, porém, feriram o homem que morreu a caminho do hospital.



Lúcia arregalou o rosto. Outro aniversariante pulara em seu lugar. Ontem, no próximo pulo, na mesma hora, e quase fora assassinado. Outro aniversariante, com dez anos completados em agosto.



Ela pensou na atitude do sargento. Não tinha a obrigação, salvou a criança e também a salvaria. “Parabéns, Lúcia. Teu presente é o seu próximo aniversário. Não se aborreça mais pela falta de convidados”.



Certas pessoas se importam e arriscam a vida - pensou.



A festa do aniversário de Lúcia foi um resgate do poço das ariranhas.



(Lembranças para o cronista Lourenço Diaféria e para o sargento Sílvio Delmar Hollenbach que realmente salvou o garoto)

















































18 – No meio do campeonato



A dor surgiu durante a brincadeira. André chutava a bola no portão. Na pancada da esfera, o portão tremia, a bola voltava. O boleiro chutava novamente, a pelota ia e retornava.

O menino pensava: “Corinthians campeão!”. Chutava. A redonda partia, o portão de ferro vibrava. Uma hora, o portão e o abdômen da criança vibraram na mesma frequência. A bola voltou. Ficou a pontada perto do umbigo. Procurou a mãe.



– É uma dor fraquinha, mãe, aqui no umbigo.

– Daqui a pouco passa.



Não passou. Mas estabilizou-se, ficou no imperceptível, até o fim do Santos x Corinthians. .

O Corinthians empatou por um a um. Bola ciscada dentro da área, por isso o Santos marcou.

– O gol do Vaguinho foi de placa... Que choque besta é esse. Parece coçar dentro da gente.



O menino pensou no mundo dos intestinos que, quando vazam, derrubam o órgão vizinho. O futebol americano também é assim. Só derrubada. Nem existe bola.

Não quis mais pensar em quedas, faltas. “Cama de gato” é a falta mais estranha do mundo.

Resolveu se deitar.



– Dói tudo aqui em volta.



A mãe diagnosticou prisão de ventre. Pode ser friagem. - É Frescura – disse o pai. Foram dormir. Sem questionamentos.

Ninguém dormiu. Na manhã seguinte, a dor se tornara tão constante e contundente quanto um chute na barriga.



– Passa quando eu me sento – afirmou.

– Vamos para o hospital!



A tia-madrinha do filho, funcionária do Inamps, colocara o afilhado como dependente em seu plano de saúde especial.



Entraram no hospital pelo pronto-socorro. A triagem aconteceu após duas horas. O menino driblava as dores. Tentava deslocá-la. Passava. Cruzava para o centroavante. Centroavante cabeção, só faz gol na sobra.

O pai comprou-lhe o jornal para distraí-lo. A seção de esportes comentava o empate do seu time, mas o gol foi tabela, passando pelos zagueiros. Chute cruzado. A bola, antes de entrar, resvalou no goleiro.

Corinthians o campeão de 1974.

O médico chegou e pediu para o corintiano deitar-se. Depois apertou sua barriga.



– Dói aqui?

– Dói, mas deitado não dói muito.

– Você não tem nada, apenas gases.



Pediu para o gasoso sair da maca e receitou bolinhas. Entregou as amostras grátis.



– Tome uma agora mesmo.

– Mas o meu filho mal pode andar.



A mãe desconfiou:



– Ele não pode ter simplesmente gases. Esse médico é louco! A saúde neste país não vale nada! Tem gente que morre na fila.



A mãe praguejava perto da saída, quando a enfermeira informou-lhe o erro na consulta. Não deveria ter sido ali. Constava na ficha um tratamento diferenciado do resto do público, em quarto particular. A madrinha tinha uma cadeira cativa.



– Desculpe o erro. O lugar do seu filho não é aqui. Por favor, dirija-se ao nono andar.



A criança segurava a dor. Pegaram o elevador que primeiro desceu ao subsolo. Entrou um sujeito que quis jogar conversa fora com o ascensorista:



– E aí Francisco? Ainda nessa vida? Em quantos anos você se aposenta?

– Mais catorze anos... Passa rápido.



André, onze anos, imaginou os catorze do ascensorista. A cabine cheia de claustrofobia, os gases soltos no mau cheiro e crianças fedendo, fedendo até o fim dos tempos.

O homem puxou a porta pantográfica. O ascensorista sim sofria como torcedor de time “saco de pancadas”. Mesmo quando vai empatar perde, no último minuto, no escorregão do goleiro.

A vida do jogador de futebol é diferente. Passa pelo túnel, o gramado se abre, as bandeiras se agitam.

Chegaram ao nono andar. Reservaram o quarto, e André foi encaminhado ao exame clínico. O pediatra foi criterioso. Primeiro, perguntou:



– Para qual time você torce?

– Corinthians Futebol Clube!



Depois o médico apalpou o estômago do menino. “Dói aqui? E aqui?”. No final, virou-se para a mãe e diagnosticou de bate-pronto:



– Pelo exame parece apêndice, minha senhora, mas não podemos descartar a hipótese de tumor maligno.



A mãe soltou um grito. As enfermeiras chegaram. A criança saiu de maca. Chamou pela mãe. Ela se postou no meio do corredor. Dura e sem uma bandeirinha.

André foi cercado por muitos aparelhos. Disseram para respirar através de uma máscara. “Não gosto de futebol americano.” Inspire! “Parece chiclete de tutti-frutti.”

Inspirou. Ouviu a galera distante. O coro da multidão aumentou. Alguém fizera o gol e ele não podia comemorar.

Acordou pregado. Dois esparadrapos grudavam o soro no braço esquerdo. Incomodavam. A mãe dizia:



– Foi o apêndice, meu filho.



A criança delirava. Dormia e acordava. Dormiu. Acordou. Passara o efeito da anestesia.



– Mais vinte horas e seu apêndice supurava. Você morreria de infecção generalizada.



As pessoas morrem de infecção generalizada. Morrem na geral, no fosso do estádio, onde a contaminação é mais barata do que o ingresso.

Levantou a gaze sobre o corte. Algo saíra de dentro do corpo. A barriga fora costurada porcamente. Costuraram um saco de batatas. Dormiu. Acordou.

O médico entrou e perguntou:



– Bom dia, corintiano.

– Eu estou com sede, doutor.

– Você não quer ver o seu apêndice? Olha aqui no vidro.



O menino olhou. Chegou mais perto. O apêndice parecia uma massa, mais redonda do que inchada, escamosa, fedia a formol. Quicava dentro do vidro. Pronta para o chute. Era uma bola. Seu apêndice virou bola de futebol!

Eu engoli um gol. Olha a bola de capotão.



Para os amantes do futebol, a lei do impedimento é a máxima complexidade.































19 – Finos telhados



Escalar o sobrado onde morava sempre fora fácil. Rogério encaixava a ponta do tênis esquerdo em um vão da parede, chegava ao tanque com o pé direito, segurava a calha com a mão direita e, no pulo, atingia o alto do muro com a sola do tênis esquerdo.

Após vencer o muro, Rogério erguia-se e estava diante do telhado - que era o teto do banheiro da empregada - subia naquela cobertura, levantava-se novamente, caminhava devagar, pisando as cerâmicas mais firmes para...no fim do trajeto, invadir o quarto da mãe pela janela.

Além dessa invasão, Rogério gostava de galgar corrimões de pedra; pendurar-se em varais, andar nos galhos da seringueira da rua e, principalmente, alcançar o alto das casas vizinhas, onde muitas vezes encontrava antenas para dobrar. Transformava-as em mosquitos gigantes.

Os vizinhos reclamavam do rastro destrutivo. “Alguém esburacou a casa de Dona Marta”; “Ainda quebra o braço! Ninguém reclama! Cadê a mãe?”; ”Ontem, as filhas de Dona Amélia viram o pirralho urinando do sobrado do seu Amadeu!”

Ele lembrava o dia. O xixi formou um arco. O jato dourado vergou. Foi atingir o chão, lá na frente.

O mijão morava com a mãe e a uma doméstica de 17 anos que dormia nos fundos, preparava o almoço e sabia aguentar a agitação do menino, que variava do chulé espalhado pela casa aos brinquedos quebrados dentro de sapatos.

A mãe, mulher desquitada, dona de um salão de beleza, conduzia a criação do filho de modo meio apático. Gritava, às vezes, e só.

Quando a questionavam pelo desleixo, justificava-se. O salão exigia tanta energia. Armar penteados, coordenar as manicuras, depilar mulheres histéricas. A educação do filho tornara-se algo secundário. Ele aprenderia na escola.

Por essas normas, o filho da cabeleireira crescia e, de escalada em escalada, terminou por quebrar o telhado do banheiro da empregada. Abriu uma fenda tão grande que passava uma cabeça.

Tentou consertar, mas percebeu que se equilibrava sobre a boca da caverna, a toca da nudez da Maria. Nunca a olhara como mulher sem roupa, pelada atrás da vassoura, completamente nua em frente ao apito da panela de pressão. Seria bom vê-la durante o seu banho.

O espião pulou para o quarto da mãe e idealizou como luneta, o longo cano de PVC que sobrara da reforma. O tubo poderia ser introduzido no rombo da telha, e o banheiro seria visível.

Dito e feito, quando a moça chegou, o menino apoiou-se na janela, adaptou o cano à fresta e adquiriu a visão total do recinto. Identificou chuveiro, privada, o bidê ao lado do espelho e o corpo da pelada destoaria das bacias brancas.

A menina tirou a roupa. Ela tinha dois bustos grandes, apontados. Ligou o chuveiro.

O menino notou que o fluxo vertical da água formava um ângulo de noventa graus sobre os peitos da moça. Ângulos retos e obtusos da matemática do quarto ano.

A lembrança da escola desnorteou o espião, embora ele tenha chegado ao primeiro segredo da nudez: as duas cores nos peitos da adolescente. Os mamilos nasceram mais claros do que a pele morena.

Deslocou o cano para uma vistoria mais detalhada. O vapor atrapalhava. A menina abaixou-se para ensaboar o joelho. O tubo viu a bunda da doméstica, aliás, viu o início do corte, que a dividia em duas fatias carnudas e revelava o segundo segredo. Pensou em abóboras. Riu da comparação. O banho continuou.

Passaram alguns minutos e, sem querer, o espião mexeu o cano. A espionada levantou o rosto e tentou entender a circunferência no teto. O que era aquilo? Saiu do chuveiro. Olhou e gritou quando percebeu dois olhos no teto. Gritou o nome do filho da patroa.

Ele puxou a luneta, escondeu o objeto embaixo da cama e julgou estar livre de problemas.

A doméstica reclamou com a patroa. Denunciou a intimidade devassada. Nenhum homem jamais a vira nua, nem o pai quando criança, que a mãe não deixava. Ganhava muito pouco. Iria embora.

A mãe fechou os olhos. Já estava aborrecida por ter recebido três cheques sem fundos. E, quando atendeu a demissão, pensou: “Mais uma descapitalização”. E perpetrada pelo próprio filho.

Ela quis pegar o cinto do ex-marido. Procurar o piolho pela casa e surrá-lo. Melhor solução, depilar a perna do filho com toda a cera quente disponível no salão Mas o estabelecimento exigia tanta energia. Secar cabelos. Conversar com mulheres malucas. Saber o andamento da novela das oito e as últimas fofocas. Caminhar pela fumaça compacta dos cigarros.

O filho tornara-se um problema menor.

Após assistir a doméstica em seu banho, Rogério entrou em um exílio mental. Criou chuveiros. Banhos sempre mornos. Lembrou-se que as pernas da menina se abriram no final. Ele viu os pelos. A coxa dela não terminava. A água passou entre os seios. Tudo naquele instante. A espuma pingava do queixo da criatura.

A mãe contratou uma senhora idosa para tomar conta da casa. Velhas não despertam sexualidade precoce.

Quando Rogério voltava da escola e antes da mãe chegar, ligava a TV no seriado “O Homem Biônico”. O homem tinha mais do que a perna esquerda sem chulé, mais do que o olho direito. Perna e olho implantados com superpoderes, biônicos. Aquela superveloz; o último via o detalhe a quilômetros de distância.

Um olho direito biônico faltou para Rogério durante o banho da amiga.

Ele ainda pensava na utilidade para a perna biônica.

























































20 – Sem língua



– Puxa! Então é assim que se beija? – pergunta Serginho ao colega mais velho.

– Foi o que me disseram...



Serginho abaixa a cabeça e olha para as suas unhas. Acabara de sair da aula de Educação Artística, onde manuseara argila e criara objetos absolutamente supérfluos. Contou três minhoquinhas de olhos furados, dois pequenos elefantes e quatro cabeças de negrinhos fumando cachimbos.



As unhas estavam impregnadas de barro. Sente-se ridículo e por isso pergunta:



– Você já beijou uma menina alguma vez?

– Muitas vezes...

– E foi língua tocando língua?

– Claro!

– Não parece muito legal.

– É que você nunca experimentou.

– Mesmo assim não parece legal.

– Você ainda tem mentalidade de criança... por isso não gosta – afirma o mais velho.

– Eu não disse não gosto, disse que não parece legal.

– E não dá no mesmo?

– Não, seu imbecil!

– Os hippies beijam pra caramba...



Os dois continuam a caminhar em silêncio. Serginho imagina o beijo. A língua até aquele momento fora uma massa disforme e vermelha, amortecia a dureza dos alimentos. Não havia qualquer sentido introduzi-la em outra boca. Tentar a acrobacia de passá-la entre dentes alheios. Não se contém diante do problema e volta a perguntar:



– E se na hora eu não conseguir beijar direito?

– Você dá um jeito.

– Que jeito?

– Qualquer jeito é jeito.

– Como qualquer jeito é jeito?

– Na hora você dá um jeito.

– E se eu não souber dar um jeito?

– Droga! É isto sempre acontece quando a gente fala essas coisas pra criança.



Serginho tem doze anos. Sua mãe sempre o ironiza. O filho chegara à idade da exatidão. Tudo precisava ser organizado e decodificado. A criança exasperava-se, mas a mãe conhecia-o bem.

Havia em sua mente a tensão pela ordem, ordem em cada espaço. O caminho da escola para casa, percorrido sempre do mesmo modo, sem pisar em certas calçadas, desviando dos riscos no cimento. As pessoas não podiam tocá-lo Voltou à carga inquisitória.



– Você não respondeu. E se eu não souber?

– Você aprende.

– Estas coisas você tem que chegar aprendido. Como é que faço?

– Pede desculpas e começa de novo.

– Pedir desculpas? Eu tenho que ir desculpado. E se eu quiser cuspir na hora? E se a menina quiser entrar na minha boca quando eu estiver no caminho? Quem decide a vez de quem?

– Pede desculpas e começa de novo. Não há outra solução.

– Não dá, cara. Eu vou passar vexame.

– Então treina no espelho do banheiro.



Silêncio.



– Essa é uma boa idéia.

– Aproveita o treino e tenta fechar os olhos. O barato é fechar os olhos.

– Ora, vai se danar! Eu sei fechar os olhos.



O menino chega em casa com o coração aos saltos. Olha-se no espelho. Conta as primeiras espinhas. Sente-se mais ridículo por pensar em beijar seu próprio reflexo.

No desespero, lembra do dicionário do pai. Procura “língua”: órgão muscular oblongo e móvel na cavidade bucal. Pesquisa “beijo”, que viu significar “ósculo”. Encontra “ósculo”, definido como “beijo”. Nem mesmo os dicionários são claros.

A questão do beijo envelheceu Serginho.



























21 – Encontro selvagem



A avó de Elza sempre rezava durante as tempestades. Rezava tanto e tão fervorosamente que criou um ritual, cuja repetição dos mesmos atos evitaria a proximidade dos raios e o destelhamento da casa.

Ela fechava as janelas, bebia um copo de água com açúcar, acendia velas no sopé da escada, perfumava as mãos com óleo canforado, colocava a cabeça sob os travesseiros e rezava o terço.

Elza, a neta, acompanhava a prece. Não pelo medo do destelhamento. Orava porque gostava do lento, calculado e coreografado cerimonial da avó. A anciã brincava de chá com bonecas. Bonecas terríveis os raios e trovões.

Naquele dia, a avó não estava e despencou uma tempestade perfeita para o ritual. Elza, treze anos, apresentou-se.

BUM! Os trovões balançaram o espelho da cômoda. Não havia ninguém em casa. Ela poderia vestir-se de grande dama. A matriarca que, na finalização das rezas de chuva, protege a si, aos parentes e afasta as descargas elétricas do sobrado da família.

A menina levantou-se, abriu o guarda-roupa, encontrou o rosário da avó. Um rosário de contas translúcidas, arroxeadas. Depois vestiu a camisola da mãe, calçou chinelinhos felpudos, passou nas mãos água-de-colônia e foi rezar na cama.

A tempestade descia carregada. Pingavam significados: os trovões seriam assustadores anjos caídos.

Elza se deitou, colocou os travesseiros sob a cabeça e pediu aos céus que o tenebroso fosse embora. Ergueu os braços para sinalizar o início de sua penitência e seguiu o rosário, cada conta o padre-nosso rezado baixinho. O baixinho lembrava o timbre das santas e das avós.

A neta encontrava-se nesse divagar, quase dormindo, quase sonhando, quando escutou o som da tevê na sala de estar. Ela deveria desligá-lo. O eletrodoméstico poderia explodir – isso a avó também dizia. Televisões explodem, ponta de faca chama a faísca de raio, pés descalços atraem a eletricidade do mundo.

Respirou impaciente, tirou o lençol – lá fora a tempestade corria solta – calçou os chinelinhos e foi desligar o aparelho.

Desceu as escadas sem perder os ares de grande dama. Fechou os olhos. Sua camisola azul esvoaçaria sobre a prataria da sala. Abriu a porta.

A tevê iniciara uma edição extra do noticiário nacional. Elza, a jovem senhora, quis saber do que se tratava. Mexeu a antena, quando mostraram a jaula onde tudo acontecera. A voz do repórter declarava com desespero:



“O leão Adamastor, animal do circo Grande Europa, em turnê pela cidade, devorou, agora à tarde, a repórter desta emissora, Cristina Pereira.”



A menina não entendeu a notícia. Devorar o quê? Comeram a carne de alguém? A história prosseguia.

Cristina era uma jornalista investigativa, famosa por sua audácia, apesar da baixa estatura. Entrara na jaula para terminar a matéria sobre “VIDAS NO CIRCO” e transformara-se em presa do leão Adamastor, uma mercadoria viva do circo.

Ninguém pôde fazer nada. O domador ainda estalara o chicote para espantá-lo, mas a chibata era curta e o felino nem notara, concentrado no ato de alimentar-se. Deixaram o bicho comer. Rápido.

O locutor da tevê comentou o incidente em “off”, lamentou a perda da colega, enquanto a câmera focalizava o leão estirado sobre o feno. Às vezes Adamastor bocejava, às vezes cheirava a pata.



Entrevistaram o dono do circo:



– Não cheguei a tempo. Lamento... O Adamastor é manso, muito manso. Estranhou a mulher. Não estava com fome. O bicho tem caninos, vocês sabiam? Ela insistira na reportagem. Entrou na jaula sem o consentimento do leão... Eu não tenho nenhuma responsabilidade... Repórter teimosa e ainda usava aquele perfume. O bicho gosta da essência: “Almíscar Selvagem”. Eu conheço bem.



Elza escutou a narração do ataque e impressionou-se. Enxergou chumaços de cabelo nos cantos da jaula. Seriam os cabelos da jornalista? Não se come cabelo.

Adamastor levantou a cabeça, balançou a juba, acomodou-se. Era muita azia. Digerir mulheres não é fácil. O leão bocejou.

A grande dama, de repente, perdeu as contas do rosário e começou a suar. A camisola grudou em suas pernas. Lembrou-se de antigas histórias. Bezerros são sempre fêmeas diante dos lobos. Cabritas são garotinhas. Lobos as mordem com mordeduras de bocas enormes para melhor engolir. Não deixam restos. Apenas os sapatinhos vermelhos.

O repórter terminou a notícia anunciando o sacrifício do leão raivoso. Elza mordeu os lábios. Aquele animal afetara sua postura de senhora da casa. E agora vão sacrificá-lo.

“A fera não tinha culpa”, pensou. Não tinha culpa.

Na hora dessa conclusão, Elza sentiu os dentes do gato mordendo-a de leve. Percebeu que ele a dominara e essa submissão agora parecia necessária. Raios são descargas tão pueris. Do tempo das avós.

Desligou a tevê para imaginar o enterro da repórter. A família velaria qual parte do leão? A mulher reduziu-se aos órgãos da fera. Não percebiam?

Se Elza fosse da família... escolheria os intestinos do bicho, o estômago e o focinho, o focinho áspero.

Adamastor agora estaria fechando os olhos. Fecharia-se inocente em um ronco profundo. Elza se perturbou. O som do roncador repercutiria sobre os móveis da avó.

Quis voltar ao medo da chuva, ao ritual, à brincadeira. A tempestade tornou-se mais caudalosa. Elza rezou, uma conta e outra ave-maria. Lá fora os trovões e faltavam quinze padres-nossos.

BUM! Na quinta oração, levantou-se incomodada, esticou as pernas. Percebeu a bobagem. Rezar embaixo de cobertas. O ritual da avó perdera a graça. Imaginou-se como o neném da casa. Era isso também. Pensou na repórter, a sua ousadia diante do leão. Um adversário muito superior e envolvente.

Abriu a janela, tocou a chuva que descia pelos telhados. Desceu as escadas, escancarou a porta da cozinha. Nunca se banhara na chuva. Parou. Sonhou. Entrou na tempestade e abriu a boca.

A chuva transformou-se em língua. Lambeu o corpo da menina, o rego dos pequenos seios. Quem notaria a calcinha molhada?

A tempestade engrossou. O vendaval abraçou aquele novo corpo. Ela se tornara a presa e se portaria como tal.

Elza acertou o ritual. Sempre como presas, as mulheres enfrentarão os carnívoros que vierem.

Outro trovão. O bichano estava perto.







22 – As peladas



Wagner gostava de assistir aquele futebol de várzea jogado aos sábados perto de sua casa. Mas futebol era uma qualificação insuficiente para todas as competições que o menino apreciava. no local, um terreno cercado por dois metros de muro e que envolvia, não só o espaço destinado às partidas, mas também um matagal de mamonas que crescia ao lado.

Em outras palavras, naquela terra dividida, o termo futebol era inadequado, porque havia uma regra imponderável: a mata espessa de mamonas participava do jogo.

Sim, eram as mamonas que permitiam tudo até o futebol. Por que não? Wagner já encontrara no mato, perto do muro, sete velas de cera vermelha. “Macumba de fim de semana” - disseram. Já vira nascer, por ali, uma bola “Rivelino” novinha. Levara-a para casa. E aconteceu também a ninhada de sete gatos apedrejados por meninos da favela da rua de baixo.

Quando os gatos foram mortos, o menino percebeu. O matagal permitiria qualquer lance.

E foi um lance das mamonas que fez a tal mulher aparecer. Esta é a explicação. A explicação de Wagner.

O Caramuru Esporte Clube, dono do terreno, vencia a equipe inimiga por um tento a zero. O gol saíra de falha na ponta esquerda, próximo à trave. Wagner quis encontrar o erro. Examinou a colocação dos jogadores. Bem postados. Com certeza faltou categoria. O goleiro jogava adiantado. Os beques estavam fora de forma. As barrigas cresciam.

O Caramuru tinha até sua própria torcida e quando aquilo entrou em campo, rolado pelo vento, pareceu ser o pedaço da bandeira do time.

Não era o pavilhão do Caramuru. O colorido mostrava outro ícone de adoração: uma foto de mulher pelada. O menino abriu os olhos e lembrou-se das revistas que escondiam nas bancas porque criança não podia ver bunda de mulher.

Agarrou a página. Abriu a pelada. Ela destoava do futebol de várzea. Como compreendê-la sem as referências do jogo como a dos goleiros com a perna esfolada. Como entender a mulher ali, nua? Seria macumba de agradecimento, sobra de despacho amoroso? (Neste momento Wagner pensou na intervenção do matagal de mamonas para o aparecimento da mulher. Não tinha outra explicação).

Wagner esqueceu o jogo e reparou os detalhes. Página 35 da revista “Ele e Ela”. A pelada foi atriz de novela.

Enfiou a estampa no bolso, entrou no matagal e fulminou os olhos azuis da atriz. Loira “tesuda”. Coxas intactas. As mamonas do terreno nunca as feriram.

A mulher levantou o véu. Espalhou as pernas e braços no meio da mata. Completamente indefesa.

Wagner cogitou que outros braços e pernas e, principalmente, os peitos fotográficos da atriz estivessem no baque do jogo, na plena disputa das tabelas.

O peladeiro procurou as páginas restantes. Subiu o muro. Esquadrinhou todos os pontos da cancha futebolística. Viu as regiões glúteas da superjogadora na lateral direita.

Wagner quis entrar no campo, salvar o corpo da mulher, juntar seus pedaços... A vergonha foi imaginar a atrapalhação. Se descobrissem, ele seria o “peladeiro”. Não sabe jogar bola, mas sabe procurar revista de sacanagem.

Acompanhou as folhas coloridas. A atriz voou para o meio de campo. Local inacessível, ponto do chute inicial da partida, círculo somente disponível para uniformizados.

Pior agora. Como poderia invadir a sacrossanta área? Sentir-se-ia despido, sem chuteiras e com uma perna de mulher na mão. O jogo de pelada versus o menino pelado.

Decidiu sentar sobre o muro e esperar. O Caramuru Futebol Clube marcou o segundo gol. Os jogadores se abraçaram e, quando o goleiro chutou a bola, os peitos da atriz amorteceram a esfera. Bem em cima. Mulher boleira, cada parte uma taça.

O menino aproveitou o gol. Correu e pegou as fotos. Muitas fotos. Não olhou para a torcida. Saiu do terreno. Dobrou a esquina e dobrou as páginas. Colocou-as no bolso, quando então percebeu: somente ele vira a mulher. Descobrira a bola do jogo e ninguém fora mais rápido.

Ele se tornara o verdadeiro peladeiro do mundo.

Encheu-se pela constatação da vitória. Agradeceria ao matagal de mamonas. Não com um despacho que ele não era macumbeiro. Agradeceria simplesmente.

Resolveu examinar rapidamente a fruta da vitória. A jogadora estava ali e levantou os braços. Mostrou os lábios. Ela não era a boleira, mas a meta.

O vencedor chegou em casa, entrou no banheiro, fechou a porta. Sentou-se sobre o vaso sanitário e vislumbrou o corpo da mulher campo aberto sem marcas de cal. Ela agora estava longe das linhas divisórias. Soltava os cabelos.

O menino olhou, olhou, pensou, olhou... tudo fora um jogo.

Ele percebeu que deveria iniciar o segundo tempo. Seria o tempo da “punheta” que os meninos comentavam? Punheta de foto de mulher pelada? Falavam nela até mais do que sobre futebol. Contavam vantagem. “Bati punheta a noite inteira”. Seria agora? A etapa decisiva da pelada, jogo de várzea no banheiro.

Wagner pressentiu que o segundo tempo começaria, mas de que jeito, qual a técnica? Chutar de bica? Então percebeu que nascera sabendo. Era na mão, que parece ameaçar, mas volta.

A loira ria e ria para provocar. “Quero ver se você acerta”.

Tentou do jeito imaginado. Parou. Voltou. Insistiu. Repetiu. Encarou a pelada. Ela ganharia. De súbito veio um puxão na barriga. Parou. O que sentira? Tinha que ser daquela forma? Sabendo que a mulher da foto tinha olhos e boca... e formar tudo na cabeça. Não esquecer. Outro puxão e o que saiu, quase rasgou o menino ao meio. Não acreditou que podia.

Wagner percebeu ( mesmo depois de muitos anos) que não conseguiria ficar ali sem ação, de bobeira, vendo a mulher passar, driblar seus olhos. Correr a bunda redonda pela defesa.

Guardou as fotos para mais tarde. E quando foi repetindo as investidas percebeu que as pelejas tornaram-se um campeonato... com novas fotos, outras pernas, outras mulheres... sempre a mesma estratégia vitoriosa. Organizou o calendário esportivo. Ejaculações as quartas, sábado e domingos. Toda semana.





































23 - O quebra- cabeças



Em 1972, Vanessa pouco sabia sobre os corpos dos meninos. Eram semelhantes ao seu, pensava, mas também diferentes. As pernas mais duras, braços ossudos, cotovelos que saíam dos uniformes.

Vanessa sempre foi curiosa, e os meninos, criaturas empinadas, chutavam as portas dos banheiros. Cuspiam. Ela queria chegar mais perto. O perto se tornara um arranjo complicado, porque mal os meninos brotavam no recreio, logo se escondiam nas frestas da escola. A ânsia por um exame minucioso dos seus corpos torturava a menina.

Precisava vê-los. Nem queria tocá-los. Cheirar apenas. Eles teriam outro cheiro. A escola não autorizava classes mistas.

A apreensão da garota durou pouco.

Em agosto daquele ano, apareceu um vendedor de enciclopédia em sua casa. A mãe deixou entrar. O homem oferecia “Uma obra moderna, ilustrada em cinco volumes!”

Vanessa folheou o quinto volume. Legal. Passou por alguns verbetes e encontrou a gravura do esquartejamento de Tiradentes.

O corpo do mártir da independência do Brasil surgia despedaçado: cabeça, tórax, a perna direita pendurada e um pé.

A menina assustou-se. No entanto, quis examinar o desenho. Não importava a cabeça. O que assombrou foram os músculos do braço direito, os pelos do peito, o pé do herói.

Leu o texto. “Tiradentes esquartejado”, quadro de Pedro Américo.

A mãe comprou a enciclopédia, e a filha levou o quinto volume para escola. Mostrou para as amigas.



– Quem pintou? – perguntaram.

– Pedro Américo.

– Foi isso mesmo que aconteceu?

– Foi. Enforcaram, esquartejaram, salgaram, e os pedaços foram expostos na cidade de Vila Rica.

– Será que doeu muito?

– Garota, se aquela vacina de varíola doeu e dói até hoje... Olha a cicatriz aqui... Imagine arrancar as pernas, os braços e as cabeças de alguém.

– Cabeças? Quem tem mais do que uma cabeça?

– Para! É jeito de falar... Ele sofreu muito.



Mas não foi a dor que se percebia da gravura. As colegas não captaram o inusitado. Havia um segredo no quadro. Os membros decepados, a perna, o braço solto eram tão independentes, leves. Não seria aquilo um jogo de quebra-cabeça? E a perna, lisa. Não fora depilada?

Os corpos dos meninos pareciam insípidos.

Examinou novamente a gravura. Sentiu algo cabeludo de interpretar. Um frio na barriga. Quis desvencilhar-se da sensação.

Lembrou-se da boneca, a Suzie. Foi antes do primário. Arrancara a cabeça oca da amiga para adaptá-la à bola do câmbio no carro do pai. Ele engatou a marcha e encontrou os cabelos da boneca. Gritou. Achou que fosse macumba, vodu. Sei lá. Brincadeira, pai.

A menina escondeu a enciclopédia. Tiradentes deveria ter sido muito bonito. Voltou à obra. Examinou a pintura e dessa vez fixou-se no peito do mártir. Como seria beijá-lo? Lá em Vila Rica, antes do enforcamento.

Sentiu-se inteligente admirando o corpo do morto ilustre, personagem da história do Brasil, dia de feriado, rosto na cédula de cinco cruzeiros.

Tão distante no tempo. Tiradentes tornava-se um homem apaixonante. Mas não era bem isso o que a provocava.

Você ama alguém para além da vida, ora. Às vezes, ama a lonjura. Compreendeu. Tiradentes tornou-se o corpo ideal de homem. E isso apenas por vir explicado aos pedaços.

Vanessa julgou estar doente. Não quis mais pensar no homem. Pensou.

Tinha aquela novela de tevê em 1968. Era a história de Tiradentes. Passou na Excelsior. Quem foi o ator?

Virou a página e admirou novamente a outra gravura. O mártir ainda adolescente, bonito, inteiro. Usava uniforme.

Nos dias seguintes, Vanessa analisara o nome verdadeiro do mártir. Procurara a data de nascimento. Leu o que dizia a astrologia.

Ela seria uma dentista igual a ele. Sem anestesia. Não poderia jamais perder a ordem do suplício. Ele foi enforcado, esquartejado e salgado. Nessa ordem sempre. Outra sequência seria possível?

Imaginou o martírio: esquartejado, salgado e depois enforcado. Tiradentes caminha para o patíbulo. O carrasco corta os seus braços e pernas. O condenado, vendo-se sem membros, chora e chama por sua mãezinha. Depois, o algoz joga sal grosso sobre as feridas e leva-o até a corda redonda, onde finalmente enforca a cabeça, já tão coitadinha e pendurada.

Vanessa riu e descobriu ali novas sensações. Pronto. O corpo masculino perfeito também estimulava a piedade perfeita. Se fosse amar alguém um dia, seria esta a sequência do amor. Primeiro a ideia de perfeição, depois a piedade.

Mentalizou outros enforcados. Vários meninos do ginásio.

No fim, tudo ajudou Vanessa a filosofar sobre o amor. Ele não tem perna, não tem cabeça.

A menina ainda se recuperava dessas primeiras descobertas quando, na semana seguinte, lançaram a moeda comemorativa do Sesquicentenário da Independência.

Cunharam em baixo relevo o perfil da cabeça de Dom Pedro I, atrás da cabeça do General Médici. Na verdade, o desenho sugeria uma sucessão de reinados. Do reinado do Dom Pedro seguiu-se à presidência do General Médici.

Vanessa ganhou a moeda do Sesquicentenário. Examinou o presente. Valia um cruzeiro e tinha aquelas duas figuras. Mas a imagem de Tiradentes também estava lá. Surgiu um sentido mais matemático para a história do Brasil. Vanessa percebeu.

A história do Brasil possuía pelo menos três cabeças perdidas.













































24 – Conversa de menino



A professora está atrasada. A bagunça se generaliza pela sala. O menino mais velho chega sobre a cabeça do menino mais novo e pergunta:



– Quantas vezes você deu o cu?

– Hein?

– Você sabe que para ser homem, homem de verdade, você deve dar o cu três vezes. É um conselho... Eu, para garantir, dei o meu quatro vezes. Estou pensando no quinto cu. E você?



O mais novo desvia o olhar. O mais velho ri. Ri muito e sentencia:



– Tem que dar, cara! Olha, estão te esperando. Se você quiser... o cu é fácil.



O mais velho sai. O outro respira fundo. Cretino.





Conversa de menino (fragmento)



A observação do menino branco para o amigo:



– Eu passei e vi a Maria Amélia se esfregando no negão... Não! Era preto mesmo. O maior amasso... Beijando feito namorada. Aí eu perguntei: “Pô! Tô cagado?”.











Conversa de menino



Dois meninos analisam o muro:



– Essa frase aí... “Cão Fila - Km 26.” Você sabe o que é isso?

– É um passarinho.

– Passarinho com nome de cachorro!

– É... Não tem o Vira-bosta?

– Vira-bosta?

–É... Tem um passarinho chamado Vira-bosta. Deve ter outro chamado Cão Fila ou vira-lata?

– E o Km 26?

– Também é passarinho.

– Passarinho com nome de quilômetro?

– Não tem o bardal?

– Bardal!?

– É, nunca viu bardal?... Os bardais na rua. Olha ali um! É passarinho e nome de óleo pra carro também.

– Não tem passarinho chamado bardal. É pardal. Bardal é que é o nome de óleo pra motor.

– Mesmo sendo óleo é passarinho.























25 - A órfã



Shirley conta dois medos na vida: medo de que o pai morra e medo de que ele seja infectado por um amor extraconjugal e saia de casa.

Essas apreensões chegaram sem avisar.

Até o mês passado, Shirley estudava na sexta série do primeiro grau da Escola João XXIII. Gostava de Ciências. Ganhou dez na matéria sobre os estados da água.

Mas, na precipitação de um domingo, temeu pela morte do pai. Insuportável morte sobre a cama. O pai derretendo velas. Morte através de inaceitáveis transformações: o corpo do pai se liquefazendo: cubo de gelo. E depois se solidificando: armadura do caixão.

E a precipitação estragou ainda mais o domingo quando Shirley imaginou a traição do pai, a infidelidade do pai no casamento. Se ele chutasse a mãe, o passo seguinte seria esquecer a filha.

As filhas deslembradas... A amnésia ocorre sempre na cabeça dos pais, inoculados pelo veneno das amantes. Esquecem até os filhos. Nem em flashback.

Shirley enumera dois pedidos em sua vida de ginasiana: o pai não pode morrer e não pode trair. Nunca.

Hoje é quinta-feira. Shirley acorda cedo, abre a porta do quarto principal e acha a respiração do pai sob os lençóis. Ele está vivo.

Ela vai à cozinha tomar café. Come bolo de fubá com manteiga. A manhã está quase ganha, e a família prossegue viva. Aviões passam longe. Na rua ouve-se o som de britadeiras. O leite está quente demais. Queima a língua. A dor faz lembrar o pai.

Ele precisa acordar. Paradas respiratórias são um segundo.

O pai surge de paletó na cozinha. Prepara o café. Nem repara na aflição de quem o ama. Senta, acende o cigarro, abre o jornal e tosse.

A menina apavora-se. A qualquer momento, ele cairá sobre a mesa vitimado por um aneurisma. Shirley nem respira, aguarda o fim da tosse.

O pai volta ao normal. Procura o lenço. A empregada chega. O pai sorri para a mulher. Seu nome é Aparecida e tem bunda. Sem nenhuma educação, os homens se dirigem às mulheres. “Tem bunda...”.

Muitas vezes aconteceu de o pai ser apanhado, admirando o corpo daquela bunda. Falta de respeito. Ele até parou de tossir. A doméstica carrega três vassouras e um balde. O homem ri e comenta:



– Que faxina, Aparecida!



A filha não gosta da expressão e avisa à mãe:



– Ele sorriu, mamãe.



A mulher inventa uma indignação para satisfazer a cria. Não admitirá liberdades com as empregadas. O pai ri e novamente tosse. A menina esquece a traição diante da provável síncope do pai.

O homem termina o café, pega o paletó, despede-se da mãe e sai. A filha espreme os olhos. O dono da casa continua vivo, embora tenha que desaparecer para trabalhar. Vai de carro.

O Corcel vermelho ano 74 é seguro. O pai é dono de uma firma de contabilidade. Sua sócia, Dona Laís, ficou magra e velha. Só entende de razonetes. Coitada da Dona Laís. Ninguém é amante de mulheres que usam razonetes.

O pai saiu há quinze minutos. Shirley deve terminar a lição de Ciências. Dez perguntas sobre a massa e o volume dos corpos.

A professora de Ciências é adorável. Hoje tem aula de Ciências. Na ida para a escola, Shirley desviará quase dois quilômetros para verificar o escritório de contabilidade do pai, onde encontrará tudo bem instalado. O pai estará vivo no trabalho e Dona Laís ali, ainda magra e velha.

A menina passa parte da tarde na escola. Concentra-se na aula. A professora explica que a água e o óleo não se misturam. Formam uma solução heterogênea. As soluções homogêneas, ao contrário, combinam os elementos. São princípios básicos de Química.

Depois do curso, Shirley volta para casa, toma banho e distingue a água quente do vapor. “Morrer é como evaporar. Se papai evaporar, eu nunca mais tomo banho.”

Shirley janta e pensa em visitar a melhor amiga. A homogênea Cristina. Conversar sobre a novela das oito.

São dezenove horas. A colega tem as mesmas dúvidas de Shirley. Como o homem pode enfiar o pênis na vagina da mulher? O certo é “pênis”. A “pica”, o “pau” são palavras sujas. Os meninos falam “pica”, e “pau”, e “cacete”. Falam “porra”. Toda hora, “vão se foder”. Debaixo da árvore, no meio do jogo de futebol. “Ah! Que se foda!”

Mas o que é “porra”, afinal? É igual a esperma? O pênis pulsa na hora que solta o esperma? São tortos os pênis?

As duas não reparam o quanto os assuntos se repetem. O mesmo chiclete todos os dias. “Eu escutei. Os meninos inventam apelidos para os seus ‘paus’. Um moleque da sétima série chamou o seu pênis de Elvis”.

As meninas acham graça. Elvis Presley. Aquele que morreu.

Shirley avisa: “Só aceito o sexo se for para algo maior. Ter dois filhos. Como fizeram os meus pais. Duas vezes”.

As meninas concordam sobre as regras do mundo. Shirley sai satisfeita. Volta para casa. Ela mora no final da rua, na subida. Ali os carros passam em segunda marcha. O pai voltará às nove horas. Estamos no mês do Imposto de Renda. Nesse mês ele demora.

Shirley sobe a rua. Cinco quadras. Devia ter prendido o cabelo. “Agora vou ter que lavar.” Separar a roupa para amanhã. Tem o trabalho de Português. Não queria telefonar para a Carolina e a Ana Virgínia. Aquela ruiva não tinha como ser mais piranha. Sempre se esfregando nos meninos.

De súbito, vislumbra o Corcel do pai. No banco do passageiro, vê a cabeleira loira. O pai carrega a amante loira. Ela volta correndo e explode a descoberta na cara da mãe.



– Era o carro dele. Eu tenho certeza!



A filha não aguenta. Espera o traidor para interrogá-lo. O pai chega e nega. Ela insiste. Ele novamente nega e irrita-se. Ela insiste, e a mãe, que até ali fora a solução neutra, entra no meio e pergunta:



– Afinal, era você ou não?



O pai ri.



– Anda dando carona para loiras?



– Não... Foi um amigo meu que usa chapéu branco. No escuro, parece peruca loira.



A filha fica aliviada com a resposta. As coisas estão sob controle. A família jantará. Depois assistirão à tevê. Após o programa humorístico vem a novela das dez, o noticiário. Às onze e cinqüenta estarão dormindo.

Shirley acorda às duas horas da manhã. Ouve ruídos que vêm do quarto dos pais. Eles conversam, e a mãe ri. É bom vê-la feliz.

Pensa no amigo do pai de chapéu claro. Um senhor de idade, com certeza... Nem se usa chapéu hoje em dia! Aquilo não foi chapéu! Chapéu loiro platinado. O pai mentiu. Era a amante dentro do carro. Mulherzinha loira. Veio para separá-lo da família. “Como fui estúpida! Eu deveria ajeitar o maior escândalo no corredor. Acabar com a piada... Mas papai precisa dormir. O tumulto pode lhe fazer mal.”

A menina decide dormir.

Pensa no Elvis e ri. “Menino estúpido”.



































26 - A afogada



Levaria quase meia hora para Carolina percorrer a praia e meditar. Quais os erros e acertos do ano de 1975? O ano terminaria no dia seguinte. Ela queria saber. Foi um tempo proveitoso?

Emagrecera oito quilos em nove meses. Oito quilos. A dieta exigiu força de vontade. Pouco açúcar. Nada de frituras. Habituar-se a caminhar pelas ruas do bairro. Sua grande meta sempre lhe beliscou: não seria mais o principal alvo das gozações dos meninos. Não mais a chamariam de baleia, de porca assassina...

Foi nessa mesma praia. Aqui começara a planejar a mudança. O contra-ataque à indelicadeza dos meninos.

Tornara-se cansativo vê-los no comando. Jogarem bola sobre a areia quente. Rolarem nos cantos como gatos quando se coçam. Empinarem os músculos para as meninas.

Carolina nem precisava ir muito longe para provar a escassez mental dos homens. A conversa de cinco alunos da 8a série. Listaram as vantagens do sexo masculino. Garantiram que, na próxima reencarnação, nasceriam homens novamente. Homens não engravidam, não são menstruados, são mais fortes, envelhecem depois. Podem urinar em qualquer lugar. “Olha aqui o ‘V’ de vitória desenhado no ‘mijo’!”

Ah, sempre percebera que o início do contra-ataque estava na beleza de uma mulher magra. Ela anula a reencarnação dos homens. Eles apenas abrem a boca quando a vitoriosa passa. E Carolina passaria.

Continuou sua avaliação sobre o ano. Desviou-se das cadeiras de praia. Espantou pombos. Endureceu as pernas quando as ondas bateram.

A festa na casa do avô em junho... também foi decisiva para o sentido da sua missão. Perder os quilos de baleia.

Naquele dia, os homens preparavam a carne para o churrasco. Por que no começo do mundo alguém impôs ser responsabilidade dos machos o manuseio do cru, do sangrento e das fogueiras? Por que as mulheres arrumavam as mesas e obrigavam as crianças a engolir gordura de bisão?

No churrasco, não soube onde se postaria. Ficou na ala das crianças. Respirava ali entre os pivetes, até o tio entregar-lhe o espeto de madeira. “O que são estas bolinhas furadas?” “Coração de galinha!” Alguém respondeu usando um singular impróprio. “Não! Aquilo era algo aterrador e plural”.

Enfileirados, atravessados, contavam-se centenas de minúsculos corações. Miseráveis corações de galinhas... “Não estavam ali as fêmeas do mundo? Por que não espetavam as cristas dos galos? Eles só nasceram para brigar em rinhas cheias de homens. Pobres galinhas... homens não sentem culpa”.

Durante estes últimos meses, Carolina decidiu de forma categórica que acentuaria as diferenças entre os sexos. A superação do mundo masculino seria questão de sobrevivência. Antes precisava emagrecer, e emagrecera. Eles notaram.

Magra. Carolina sentiu-se triunfante. Balançou a cabeça. Eles rogariam por sua atenção. Ela diria: “Vocês são seres deploráveis”.

Pisou mais forte na areia. Ela venceria a canalhice dos machos. Pensou na vitória. Levantou o queixo sobre os guarda-sóis abertos no fim da tarde. Linda estava a tarde.

Linda e uma bola resvalou em sua perna. Dois homens vieram correndo. Entraram no mar.

Outra partida de futebol! Homens e moleques, na disputa por uma bola. Mergulham. Pulam ondas. Avançam o limite desse ridículo esporte. Apenas canelas se batendo.

Um terceiro homem também correu. A bola sobrou. Os “jogadores” entraram longe no mar, para lá da arrebentação. Alguém gritou. Juntou gente.

Os três homens nadaram até um troço coisa flutuante. Carolina acreditou ser uma boia. Trouxeram a boia. A menina se aproximou. Viu o sujeito gordo que se afogara.

Cinco homens precisaram carregá-lo até o centro da praia. O afogado foi colocado de bruços. O calção arriado, as nádegas apareciam. O salva-vidas gritou algo sobre os pulmões. Homens e mulheres chegaram para ver a bunda do gordo.

Carolina sentiu pena do homem, dos seus olhos esbugalhados, o aspecto de baleia encalhada. Faltava apenas o espeto. Uma mulher berrou. Era a esposa. Urrou forte e mais alto do que a sirene da ambulância. Pediram para abrir. Levaram o “baleia”.

O corpo do gordo formou uma imensa cratera na areia. As paralelas dos pneus da ambulância rodopiaram a cavidade e sumiram atrás das barracas.

Carolina não acreditou no afogamento. Os homens, mesmo os grandes e obesos, pareciam caminhar sobre as águas. As mulheres, não. Elas eram as afogadas, as pedras.

Na verdade, a morte não distingue homens e mulheres. Acertaria algumas referências para o ano de 1976. Quais referências?

Sentou-se na areia, puxou pela memória alguma atitude cordial vinda do sexo oposto. Um sorveteiro passou. “Vai sorvete, freguesa?” Ela ainda abriu o isopor, depois recusou. Buscava qualquer atitude cordial vinda do universo masculino. O quê? A memória nunca foi muito boa. Um picolé de nada.

Tinha o Marcos, colega da escola. Em março ela foi à sua casa com duas amigas para o trabalho bimestral de Ciências. O menino almoçava e veio recebê-las após escovar os dentes e o hálito de hortelã do menino, a boca lavada, pareceu-lhe uma atitude tão preocupada. Ela até quis beijá-lo, mas julgou o hálito do colega perigoso, principalmente para meninas gordas. Não sabia o porquê. Talvez os dentes lustrados de Marcos estivessem prontos para morder.

Carolina lembrou-se então... naquele dia o seu desejo de emagrecer tornou-se muito, muito mais intenso. Ali não desejou vencer os homens... Na verdade, pensando melhor, o que ela sempre quis...Puxa! O que ela sempre procurou foi superar as mulheres. Atrapalhara-se no alvo. Talvez não pudesse admitir o óbvio. Como pôde esquecer o episódio?

A menina coçou o rosto. Estúpida. Você quis emagrecer para beijar o Marcos. E agora vem com essas ideias de vencer o sexo oposto quando o sexo oposto é o seu próprio sexo.

Mas o projeto para os homens também tinha alguma importância. Os homens precisam respeitar as gorduras do mundo. Meu Deus quantos desafios...

Pensou em uma saída que conciliasse os dois desejos. Nem todos os homens eram iguais.



Acho que há um prazer que somente a mulher magra pode conceder. Ouvi-la afirmar: “Eu gosto de hortelã, querido. Pode chupar...Antes de acabar passe a balinha pra minha boca ”.



























27 – No tempo dos psicotapas



– Dona Wanda era o terror em forma de gente. Lembra? No grito, organizava a entrada e a saída dos alunos. Lembra do quepe militar? E do apito? E a expressão de fúria... “Menino, quer levar um psicotapa?!” O psicotapa... O psicotapa seria uma agressão entre o tapa e a pancada... Deveria abalar moralmente. Por isso, a mulher foi designada para organizar as filas, subir no banco, olhar a pirralhada, manter o silêncio absoluto no pátio. Ela era a portadora do psicotapa... O psicotapa! Qualquer indisciplina... e ele criaria a neurose. Amansaria o cabrito chucro. Quando a mulher descia da vigilância e soltava o corretivo... a mão espalmada contra a nuca do infeliz... as crianças gelavam. Mas você reparou... depois de sete anos... Dona Wanda perdeu a autoridade. Ela, que em 1970 foi considerada inspetora-modelo... Pelo menos a TV Educativa filmou sua atuação. No final de 1976 era praticamente desprezada pelos alunos. Velhota, percorria o pátio como um leão sem dentes, um verdadeiro zumbi... Não era bem zumbi... percorria o pátio como alguém... que tivesse levado o psicotapa. Ah, e a Dona Ester? Lembra? Você era da outra sala. Dona Ester foi minha professora no terceiro ano. Mulher excêntrica. Você já viu aquelas pintas no rosto das atrizes do cinema mudo? É... ela pintava no queixo... Era parte do seu ser atriz de cinema. No meio do ano... setenta e dois... Dona Ester passou a reger nossa classe para a apresentação musical do dia da independência. A festa do Sesquicentenário da Independência. Aquela do governo Médici...pois é, cantávamos todas as manhãs. Nem aula mais havia. Não precisava. Era subentendido que acima da instrução, da matemática. Lembra da operação comutativa? Acima da ordem dos fatores não altera o produto... estava o dever de amar a pátria. Ganhamos até pandeiro de plástico que seria usado durante a exibição. Uma das músicas não tinha qualquer sentido... não me lembro. A outra era do “peixe vivo”. “Como pode o peixe vivo viver fora da água fria? Como poderei viver. Como poderei viver...”. É bem conhecida...e, finalmente, a marchinha obrigatória do “Eu te amo, meu Brasil. Eu te amo. Meu coração é verde, amarelo, branco, azul, anil...”. Você lembra? Quem não lembra? A marchinha da ditadura. Eu conheço gente que sente algo estranho quando falam dessa marchinha. No dia do espetáculo, muitas escolas da cidade estavam ali, no ginásio do Ibirapuera. O narrador apresentou cada nome. Levou um tempo de encher o saco... Os alunos agitavam os pandeiros. Parecia torcida de futebol. A televisão também veio, filmou nossa performance para a TV Educativa. Olha, cantamos muito e escutamos muito discurso e no dia seguinte, Dona Ester veio dizer o quanto detestou. Nossa classe destacou-se pela baderna, falta de espírito cívico e outras bobagens... Não era verdade. O intrigante é que talvez não houvesse ali uma piração. Pelo contrário, o seu esforço para defender preceitos nacionalistas poderia ser uma maneira de negá-los. A reafirmação raivosa e constante de um tipo de comportamento, talvez tenha como objetivo o seu enfraquecimento. Você agudiza as contradições internas, compreende?



– Me vê mais um chopp, garçon! Continua...



– Um dia, ainda em 1972, encontrei Dona Ester na rua, fora do ambiente escolar, do quadro negro, das janelas enfeitadas com decalques da cara do Duque de Caxias. Ela me viu, me cumprimentou com um beijo e eu me assustei. Não! Petrifiquei-me diante do que ela usava: uma calça de couro preto bem justa, jaqueta do mesmo tom, lenço vermelho no pescoço. O batom exato. Tão bonita e indiferente a imagem de professorinha atrás do jaleco branco. Perguntou-me o que eu fazia na rua, às cinco horas da tarde. Não sei se respondi. Poderia ter devolvido a pergunta. Eu nem pensava, imaginei as suas pernas comprimidas naquele couro. Aquilo tornou mais caótica para mim a materialização do corpo feminino. Devo ter arregalado os olhos, e Dona Ester percebeu. Despediu-se com outro beijo e saiu. Fiquei reparando... Ela caminhou duas, três quadras. Não olhou para trás, foi sumindo, entrando na paisagem... Hoje está tão grudada em minha memória, quanto o outro decalque da sala. Acho que o da Guerra do Paraguai... a batalha de Itororó ou Itararé.



– É... grande batalha. Peça mais um chopp. Eu vou ao banheiro.











































28 – Em 1975



Na sala de aula, através dos alto-falantes, a diretora pede aos alunos:



– A guerra do Vietnã acabou. Vamos fazer um minuto de silêncio, pelas as crianças que morreram nessa guerra.

– Quem foi que morreu? – pergunta um aluno.

– Não sei... Uns japoneses lá.







29 - Tanta adolescência e nenhum James Dean



– Nós não podemos suportar mais os grilhões que escravizam o povo, Sr. Presidente. O dorso dos filhos dessa terra foi por demais açoitado.

– Essa foi boa, você tirou essa da novela... Como é o nome? Tinha uma escrava branca no meio.

– Deixa eu falar. Nosso povo está morrendo, debaixo do tacão dos torturadores. Nós sabemos que existe tortura neste país, Sr. Presidente. Existe o pau-de-arara.



Os três adolescentes, Célio, Túlio e André, nunca puderam explicar o sentido daquela empreitada. Enviar uma mensagem gravada ao presidente do Brasil.

Aconteceu em um domingo chuvoso, quando ouviam música no quarto de Célio, filho único de um casal de advogados que não estavam em casa. O menino desatou a falar de sua aparelhagem de som: volume, decibéis, alcance, distribuição do som entre as caixas acústicas. Quando Túlio traduziu a música que tocava.



– Escutem o refrão. O cara diz “the life is a hole”. A vida é um buraco.



Os meninos se calaram. Notaram a verdade da tradução. A vida realmente é o maior buraco do mundo. “A life is a hole. “Hole” bem grande, uma verdadeira culatra.

No momento seguinte, os três, preenchidos de boas intenções cívicas, usavam a aparelhagem de som para verbalizar, através de uma fita cassete, suas impressões sobre o governo do General Figueiredo.



– É um representante da ditadura imposta ao Brasil desde 1964.

A ditadura da qual falavam parecia muito distante das rotinas do colégio que estudavam, contudo sabiam, o país vivia sob uma ditadura em 1979.



– Precisamos sair dessa culatra – afirmou André.



Combinaram: a fita-bomba seria entregue ao próprio chefe da nação. Ele escutaria a verdade.



– Deixa o microfone comigo. A miséria, Sr. Presidente, se alastra pelos campos, pelas cidades, e o senhor vive de costas para o país dentro de um gabinete suntuoso, nos labirintos do Palácio do Planalto.

– Sr. Presidente. A consciência do povo implodirá o sistema que o senhor chefia. Uma bomba que... Desliga aí que eu perdi a sequência – disse Célio.

– Uma bomba que explodisse e levasse para os grotões do inferno a canalha instalada nos quartéis – completou André.

– Interessante, mas o que é um grotão?

– Deixa eu ver no dicionário. Significa vale profundo.

– Isto não combina com inferno.

– Ah... agora já foi.

– Então sou eu, liga aí. Sr. Presidente, o povo unido jamais será vencido...

– Não, cara. Essa frase todo mundo usa. Parece refrão de escola de samba. Fale outra coisa... Quer ver: “O povo vai eliminar a aristocracia militar, vai lavar a sua humilhação no sangue, Sr. Presidente. As colunas de indigentes subirão a rampa do poder e comerão os brioches da liberdade e da justiça”.

– Nossa! Que legal!

– Brioche e aristocracia... O Túlio tirou do livro sobre a Revolução Francesa, não foi?

– Não interessa a origem... Analise o contexto.

– Nossa! Você tá demais!



Passaram duas horas gravando uma fita C-120. Não perceberam. O protesto foi mais duelo de retórica do que uma crítica ao sistema que, de fato, não conheciam.

Em 1979, os três locutores conheciam os programas esportivos da tevê, a música das discotecas, a pizza de quatro queijos, o fliperama curto-circuito na cabeça, o impacto de slogans de marca de tênis e bordões da época que prometiam muito. Um dia as meninas choveriam nas hortas de meninos adolescentes.

Terminaram os discursos na anistia aos presos políticos.



– Meu pai disse que é um movimento suprapartidário...

– Pra mim é nome de bebida: suco de laranja, anistia, pinga e groselha.



Mas sobrou o problema da remessa do “pacote” ao presidente do Brasil. Um artefato de natureza subversiva.

E se as vozes fossem analisadas pelo Serviço Nacional de Informações? E se o SNI fizesse a análise do material sonoro e criasse a matriz de probabilidades, que determinasse a região do país, a classe social dos manifestantes, a idade dos timbres instalados na fita cassete?

“Moram na cidade de São Paulo, idade mental de 17 anos. São moleques comunistas de classe média. O som é de boa qualidade, provavelmente o aparelho é desta marca japonesa. Investiguem as casas de som da cidade e procurem saber quem comprou citado conjunto estereofônico nos últimos seis meses. Esses fedelhos não perdem por esperar. Vamos enquadrá-los na Lei de Segurança Nacional.”

Enquadrar era termo mais perigoso daquele ano de 1979. Lembrava achar a hipotenusa que se – e somente se – fosse um ser vivo, teria a feição medonha, da medusa gerada nos infernos matemáticos.



Os três tremeram.



– Como vamos nos livrar desse pepino?

– Eu não sei, acho que é nossa obrigação...

– Deixa eu falar. Um aviso! Liga aí! Sr. Presidente, caso o senhor queira nos torturar, saiba bem, os nossos corações possuem a fibra dos grandes mártires e não descansaremos enquanto...

– Pode parar. A fita acabou quando você falou em fibra.



André encarregou-se do envio. Guardou o objeto durante alguns dias. Depois achou melhor apagar o petardo. Gravou um programa de sambas antigos em cima dos “discursos”.

Tinha aquele chorinho, “A vida é um buraco”, do Pixinguinha.





30 – Quando os celecantos provocam maremotos



Chamava-se Silvio e ganhou uma pipa de presente. Um losango verde com fitinhas azuis nas bordas inferiores.

Quis empinar o presente. Enrolou linha de costura em uma lata de óleo vazia. Pensou no visual. Correu ao terreno baldio próximo de sua casa.

Verificou o local. O calor da tarde havia misturado os vários odores que o ambiente produzira pela manhã. Cheiro de lama, capim e do esterco deixado pelos dois cavalos que ali pastavam. Mas o céu estava sem nuvens. O menino sentiu-se bem. Olhos abertos. Iriam voar.

Sílvio fixou-se no capinzal à esquerda. A pipa, o papagaio, a estrela, a arraia, o losango verde com arranjo de fitinhas azuis subiria por ali. O brinquedo ganhava vida e recebia nomes.

Examinou a lata. Latas são apetrechos valiosos nos “empinamentos”. Içar pipas demanda aparelhagem.

Vira a habilidade de outros meninos. Erguiam papagaios lá no alto. Tão lá no alto que os trecos pareciam botões de camisa.

Os moleques nunca emprestaram as linhas. Nem mesmo para um toque, uma puxada.

Sílvio levou a arraia até o ponto escolhido, desenrolou o carretel, correu contra o vento, ajeitou, esticou o fio, calculou a altura e não acreditou. Assustou-se. O troço subiu quarenta, cinquenta metros.

O empinador imaginou os mil lances que viriam. Sua respiração percorreria a linha. A alma, o coração, mais cuidadosos, olhos abertos, subiriam depois. A alma de Sílvio veria o rosto de Sílvio na outra ponta. Lá no chão. Quem seria o papel de seda?

Superlouco o equilíbrio no espaço. Planadores, aves, varetas pregadas em transparências sustentadas por invisíveis camadas de ar.

O papagaio subiu muito, e o menino dobrou as pernas diante dos cálculos da altura, da pressão atmosférica, da velocidade do vento. Tudo era matéria da escola, ficaram no chão.

Sílvio quis desistir da empreitada e guardar a pipa. Não percebeu, e ela estava perto do cabo de alta tensão no fim da rua. O cabo parecia quente o bastante para enredar carretéis, magnetizar quadrados, quebrar varetas.

Largou a lata e soltou a linha no que podia soltar, correu pelo meio do mato e a arraia nadou longe, sobre as redes de transmissão de energia. Foi a maior emoção.

Sílvio recuperou a lata e tranquilizou-se. A pipa foi salva. Estabilizou-a em uma distância segura para observar o fio elétrico do qual escapara. Olhou-o bem e contou o resto de sete quadrados e muitos pares de tênis suspensos pelos cadarços. Os tênis se chutavam. Até enforcados brigam por espaço.

O menino então caiu em si. Vencera a alta tensão. Sua arraia ganhou em voltagem com apenas um carretel de força.

A pipa voou para a esquerda. Aquilo se chamaria movimento de rotação. A linha seria o Meridiano de Greenwich, o grau zero, a referência para os pontos terrestres.

Sílvio caminhou pelo terreno. Soltou a linha até sobrar apenas o nó sobre a lata. Olhou para o lado e viu a agonia de outro papagaio. Ainda um papagaio. Ele se debatia preso no poste com meio metro de linha disponível. Raspava as arestas no concreto. Descansava, asfixiado, para em segundos, com um resto de força, tentar novamente escapar. Inútil. O poste mataria a suposta ave. Rasgaria a seda até expor o esqueleto final, a cruz de varetas para sempre exposta à chuva e ao vento.

Sílvio alarmou-se diante da hipótese do assassinato do seu amigo. Um toque e ele vinha. Se subisse, acenava.

Mas a possibilidade de morte era muito remota. A pipa losango verde com fitinhas azuis possuía linha reforçada. Outra linha curvava a vareta horizontal e a seda recolhia o ar. Todo o engenho proporcionava a sustentação e o voo.

A pipa pairou sobre o milharal de antenas. O menino queria liberar mais linha. Ver a sua casa e lá do alto toda a extensão do Córrego “Água Espraiada”.

Sílvio estava no auge quando sentiu que algo tomaria conta da abóbada celeste. Ele se deixou arrepiar, preparou-se para o susto, e outra pipa, um maranhão rubro-negro, saiu dos telhados.

O “maranhão” era uma “ave” tão grande. A pipa de Silvinho tornou-se algo simples demais. Transformou-se em página de jornal dobrada como um cone.

O maranhão rubro negro agiu. A rabiola imensa serpenteou no ar. Decerto algum menino comandava. Muita linha saía da engrenagem.

O gavião subiu, ficou pequeno, ao alcance de trovoadas, depois desceu rápido, manobrou para a esquerda, bicou o nada, olhou em volta, percebeu o papagaio primeiro da vida de Sílvio e cortou a linha. Decepou o fio de contato. Uma obra de puro esporte como tiro ao pombo.

A pipa contorceu-se, girou perdida sobre árvores longínquas, onde finalmente desapareceu.

Sílvio sentiu que perdera a cabeça. Puxou a linha, veio esterco. A linha grudava no barro. Enroscou-se aos cavalos.

Silvinho quis se mexer, encontrar o agressor e destruir a sua linha untada em vidro fragmentado. Por que ele fizera aquilo? Qual o prazer no cerol? A serventia da degola.

Terminou por entender o verdadeiro recado do incidente. Algumas crianças preferem suspirar. Mal conseguem sustentar um balão de plástico cheio de gás. Outras sabem voar, ganhar nacos do espaço com suas pandorgas e cortar pescoços.

Esse se tornara o segredo dos voos. Começar a decapitar, cortar pescoços, mesmo que não se identificassem os tipos de pescoços.

O degolado guardou o carretel e voltou para casa. O céu perde a graça, quando se descobre que o calor vem das gargantas.

No caminho, finalmente entendeu o sentido da frase que picharam naquele muro: “CELECANTO PROVOCA MAREMOTO”.

Ele vira a “degola”. Ela deveria ser matéria obrigatória no ginásio. Conjugar verbos que estrangulam o pensamento, descobrir o “x” da equação é decapitar cabeças.

Bustos de cera sempre permaneceriam de prontidão na sala vizinha.

Para a próxima aula: o corte.

































31 - Dez anos em 2005



Você é qualquer pessoa.

Eu acho que sou como outra pessoa qualquer, com sonhos, desejos. Eu sou como um negro e um branco. Sem diferenças. Acho-me inteligente, e, se alguém não acha, eu respeito. Eu tenho dez anos, mas ainda gosto de brincar.

Bem, eu quero é crescer, me formar na faculdade e ter um bom emprego. E acho isso bom pra mim. A outra coisa que eu quero é ajudar as pessoas com comida para quem tem fome, com água para quem tem sede.

O sonhar com alguma coisa é ser feliz sem machucar ninguém. Fazer coisas boas, nos valorizar também.

Sonhar de noite é mais ou menos o que você viu durante o dia: a vida que você leva. E sonhar acordado é você sonhar com algo que você quer, por exemplo, casar, ter uma casa própria, ou seja, realizar o seu sonho.

O sonho da minha prima é ser uma cantora famosa pelo mundo inteiro, como as cantoras japonesas da Hi Hi Puffy AmiYumi. Até tem desenhos sobre elas. É um sonho legal. Quem sabe eu faço dupla com ela.

As pessoas fazem planos para não se confundir na vida, não se atrasar, geralmente com os sonhos acontece isso, de dar errado. Sem um plano não dá certo.



O meu sonho é continuar como eu sou, tirando as partes da minha idade e do meu tamanho. O outro sonho é que meu avô não tivesse morrido.

A gente sabe qual é o nosso sonho quando a gente pensa nele e dá um bem-estar. É tão gostoso.

Esses sonhos se realizam quando a gente acredita nele, como nada que a gente acreditou antes. Aí se realizam.



Meu dia



Meu dia foi legal,

Mas agora a rua está vazia,

Apareceu a Lua

Sozinha,

Igual à rua.



Estou feliz.



Meu irmãzinho come mamão

e eu escrevo uma poesia.



O mamão está vazio,

Meu dia foi cheio.



GiGi

22/6/2005



(Esta criança não pertence ao tempo do General Médici)



























Perguntas ao autor:



Qual é o conceito que você gostaria de passar com o livro?



R: Demonstrar que as crianças também vivenciaram a ditadura militar no Brasil, principalmente a partir do governo Médici, quando a conjuntura social e política tornou-se mais rígida. Crianças que entravam na “idade da razão” ( sete, oito anos de idade) em 1970 e foram o principal alvo da doutrinação que se estabelecia, tendo por isso assimilado a cultura daquele período de exceção de uma forma difusa Tal interpretação do mundo determinou a alienação que se seguiu ao período.

Outros aspectos também aparecem em alguns contos do livro: mesmo sem a ditadura, de qualquer forma, crescer é algo muito complicado.



O que significou do ponto de vista do autor, o título do livro?



R: Uma maneira de enfatizar a importância da época em que os contos são narrados. De uma certa forma, naquele período da história do Brasil, a imagem grandioloquente do General Médici germinava na cabeça das crianças.



Quando pensa em uma imagem relacionada ao livro, em que tipo de imagem pensa?



R: Muitas imagens. A mais estranha seria de uma grande pedra, no meio de uma praia vazia, onde picharam a frase “Cão Fila - Km 26”.


























































 


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