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Crônicas-->Voto de castidade -- 18/07/2005 - 19:00 (Pedro Wilson Carrano Albuquerque) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
VOTO DE CASTIDADE


A mãe de Vicente decidiu, ao ficar grávida, que a criança em seu ventre, se menino, seria sacerdote católico, como era comum em várias gerações da família.

Assim, quando ele veio ao mundo, em 1803, foi entregue a Deus, tendo como padrinho, para selar o pacto, um tio bispo, também membro da Câmara dos Deputados.

Ainda criança, ingressou no seminário, submetendo-se à rígida disciplina imposta aos que ali se preparavam para o ingresso na vida religiosa.

Rapazinho, podia, de vez em quando, passar alguns dias na casa de um tio, e foi ali que teve a primeira prova de que seria muito difícil cumprir o voto de castidade.

Também pudera! Aqueles olhos de corça de Joana, escrava na plenitude de seus vinte anos, fariam pecar até um frade de pedra. E ainda havia o balançar ritmado dos quadris e o modo de falar baixinho, com um sorriso tímido e ao mesmo tempo provocador.

Foi a primeira vez em que teve uma mulher em seus braços. E o fez sem quaisquer cuidados, o que o levou, poucos meses depois, a descobrir-se pai de um robusto menino.

Joana escondeu o nome do homem que a fez mãe e o jovem pôde retornar ao seminário sem quaisquer problemas, pensando que poderia, naquele sagrado educandário, dedicar-se outra vez às orações, e somente a elas.

Ledo engano! A carne era fraca, fugindo de seu controle. Ansiava ter, mais uma vez, uma mulher sob seu corpo, embora procurasse, com grande esforço, afastar-se de tais pensamentos.

Tornou-se, enfim, um sacerdote, um soldado de Cristo, pronto para levar a fé e o amor a todos que o cercassem. E assim agiu, dedicando-se inteiramente à sua Igreja, com disposição dificilmente encontrada, a ponto de gastar com a construção de templos grande parte da fortuna que herdara de seus pais.

Em uma bela manhã de setembro, durante o café da manhã, conheceu Cândida, filha de indígenas da tribo Puri. Ela havia começado a trabalhar em sobrado situado em uma de suas fazendas de café, onde ele passava a maior parte de seu tempo.

Atacado por vírus que o deixou prostrado e febril, foi Cândida quem cuidou de seus males. E os carinhos e a atenção da mulher o conquistaram, trazendo à tona sua masculinidade recalcada.

Seguia as normas da Igreja, mas questionava, mais que nunca, o celibato dos padres. Defender a castidade era, no seu modo de ver, deixar de atender a uma ordem de Deus, que em seus primeiros contatos com o homem recomendara: “Crescei-vos e multiplicai-vos”.

E ninguém melhor que ele, que sentia na carne o chamado da natureza, podia afirmar o quanto era difícil para o ser humano sublimar os próprios instintos, quando se deparava com alguém que o amava, atraía e excitava.

Sucumbira na proximidade daquela que ao lado de seu leito revelava-se preocupada com sua saúde e o acariciava com mãos delicadas. Amaram-se tanto no sentido espiritual como no material, permitindo-se dar um ao outro o prazer que a união propiciava.

Passou a ser mais compreensivo no confessionário, principalmente com os que lhe dirigiam palavras de arrependimento por terem sido tomados pela luxúria, jurando não repetirem o mau procedimento. Sabia que eles, poucos dias depois, estariam novamente à sua presença, com os mesmos pecados que haviam repudiado.

Dez filhos originaram-se do amor de Vicente e Cândida, que levaram seu sangue para gerações futuras. Ele faleceu em 1863, logo após o óbito da amada, não suportando a dolorosa separação.

Apesar de seu respeito à fé católica e dedicação à propagação dos ensinamentos de Cristo, morreu deplorando a posição de sua Igreja, que nunca o perdoaria se soubesse da existência de seu amor, condenando-o, isso sim, pelo fato de ter recuperado a costela que lhe fora subtraída.


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