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Contos-->QUASE MEMÓRIA DE UMA RUA SEM MEMÓRIA -- 02/09/2006 - 11:27 (Délcio Vieira Salomon) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Quase Memória

de

Uma Rua Sem Memória

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Do Autor:

 

- Como Fazer uma Monografia - São Paulo, Martins Fontes.

- A maravilhosa Incerteza -ensaio de metodologia dialética sobre a problematização no processo de pensar, criar e pesquisar. São Paulo, Martins Fontes.

- Beira dos aflitos (sátira) - São José dos Campos, Vertente.

- Na mesma tecla - poesia, São Paulo, All Print.

- O cavalo de São Roque - quase memória - São Paulo, Livro Pronto.

- Dinâmica de Grupo e Desenvolvimento em Relações Humanas- DRH- coautor, Belo Horizonte, Itatiaia.

- UFMG: resistência e protesto- coautor, Belo Horizonte, Veiga.

- Da problematização no processo investigatório - tese de livre-docência (transformada no ensaio A maravilhosa incerteza).

 

Prontos e gravados em CD, sendo revisados para entrega à editora:

 

-Thauma  -  romance filosófico.

-Canto chão - poesia.

- Como dizia o poeta- registro em ordem alfabética, à guisa de antologia dicionarizada dos principais episódios, ditos e sentenças que poderiam servir para futuras citações dos 10 cantos de Os Lusíadas.

-Universidade transdisciplinar e biodiversidade- ensaio.

- A monografia na pósgraduação lato sensu - ensaio.

 

Dezenas de ensaios e artigos publicados na revista acadêmica Caminhosda APUBH-UFMG (Associação dos professores da UFMG) e no jornal Estado de Minas. Desses importa destacar:

 

- Ensino e pesquisa em função da extensão - 1990.

- Movimento docente: resistência e luta em defesa da universidade- 1991.

- Do sonho de Piaget à transdisciplinaridade no ensino universitário - 1993.

- O professor da UFMG e o movimento docente - pesquisa com o Prof. Carlos Eduardo Ataíde Castro - 1995.

- A escalada da violência e a conjuntura política atual - 1996.

- Autonomia universitária: concessão ou reconhecimento? - 1996.

- Por uma universidade da problematização - 2003.

- Reforma da universidade e biodiversidade - 2005.

 

 

Délcio Vieira Salomon

 

 

 

 

 

 

Quase Memória

de

Uma Rua Sem Memória

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

______________________________

FuRI

Santo Ângelo – RS

 

2010

Copyright© by Délcio Vieira Salomon.

 

Capa: Arte de Tony Hoffmann sobre aquarela de Dida, Uma Rua Sem Memória.

Diagramação: Camila S. Nilles.

Revisão: Inês Hoffmann.

Publicação: CULTUARTE.

Pedidos: Rua Pe. Anchieta, 439 – CEP: 97970.000

                ROQUE GONZALES / RS / BRASIL

                E-mail: nelson.hoffmann@yahoo.com.br

 

 

S174q Salomon, Délcio Vieira

          Quase memória de uma rua sem memória / Délcio Vieira Salomon. - Santo Ângelo : FuRI ; Florianópolis : LEDIX, 2010.

          336 p.

          ISBN  :978-85-7223-216-6

 

          1.Literatura brasileira – Memória 2. Autobiografia I.Título

 

                                 CDU: 869.0(81)-94

 

                                     Responsável pela catalogação:

Bibliotecária – Fernanda Ribeiro Paz CRB 10 / 1720.

 

 

 

 

Conforme a Lei, é proibida a reprodução total ou parcial desta obra, por quaisquer meios, sem prévia autorização por escrito.

 

 

 

À minha turma de moleques

da Rua Diamantina

na década de 30.

Sem eles minha infância não teria existido.

                                                        

 

 
 

 


Aos salesianos de Dom Bosco,

pelos momentos de descuido na aplicação

do sistema preventivo, o que me permitiu

ler muito, inclusive livros condenados

pelo “Index Librorum Prohibitorum”.

 

 

 
 

 


À memória (sem quase) de minha mãe

e de meu irmão Célio.

 

 

 
 

 


Em reconhecimento

a meu saudoso amigo e “guru”

Luiz de Carvalho Bicalho,

que me ajudou a descobrir

como reinventar  a vida.

 

 

                                                                              Em agradecimento

à mãe de meus filhos

 - Professora Níbia Cândido Ribeiro,

pelo incentivo e, particularmente,

pelo árduo trabalho de revisão.

 

 

                                                                     À Lena,

pela paciência

                                                               e compreensão diante das

 horas roubadas em nosso convívio

 para destiná-las à escritura.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A vida só é possível
reinventada.

 

(Cecília Meirelles)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Sumário

 

Apresentação...............................................................  11

Nota introdutória.......................................................... 13

1 — A rua, onde ficou a velha rua?............................... 17

2 — Com volúpia voltei a ser menino........................... 61

3 — É melhor sorrir e ficar calado................................  85

4 — Caminhas entre mortos....................................... 115

5 — São privilegiados diante do Senhor..................... 155

6 — Em verdade temos medo....................................  185

7 — Meus olhos são pequenos................................... 215

8 — Responder a mistérios......................................... 241

9 — Restava uma pedra no meio do caminho............ 269

10 — A verdadeira vida sorria longe........................... 297

Apêndice...................................................................... 331

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Apresentação

 

*Wilson Salgado

 

Malgrado alguns impactos, não foi surpresa, para mim, esta nova obra de Délcio. Cultura, precisão nos termos e estilo descritivo de alto nível. Vejo a recriação de sua vida em três períodos. O período histórico de sua infância encenado sob luzes vivas de uma ribalta, onde suas memórias me fizeram submergir nas minhas e poderão se transmutar em cenas de vida de todos seus leitores. O segundo, uma vereda realista em que os sonhos se espelham, mercê de nossa convivência por oito anos e vinte e quatro horas por dia de nossas vidas. Nessas trilhas deixamos bem delineadas nossas pegadas, respiramos os mesmos ares e nelas criamos e estreitamos laços, que, de amizade, se transfiguraram em sentimentos eternamente fraternos. No terceiro período nossos caminhos se bifurcaram e, lendo as memórias desses tempos não consegui esgueirar-me das amarguras e agonias que o torturaram. Nesse caminho espinhoso é que Délcio mostra, com cristalina transparência, os ferimentos, que, embora curados, deixaram indeléveis cicatrizes que nos remetem ao velho brocardo de Publílio Ciro: “Etiam sanato vulnere cicatrix manet”.

Notam-se, no entanto, no entrelaçado de sua vida, felizes lembranças de dirigentes que ele estimou, de bons amigos que com ele conviveram e dos princípios de uma cultura, que, só Deus sabe, teria ou não outra oportunidade de adquirir. Por certo são signos de que muitas de suas certezas, colocadas em uma balança de precisão, se encarnariam em dúvidas.

Seu livro deve ser lido como um paradigma de nossa própria vida, onde todos trilhamos caminhos tranquilos e confortáveis mesclados com outros eivados de espinhos, pedras e inevitáveis tropeços.

Vale a pena ler. Para mim valeu... e muito!

 

_________________

*Membro da ARL —

Academia Ribeirãopretana de Letras.

Colega desde o primeiro ginasial (1942)

  até o final da Filosofia, em Lorena, SP (1949).

Mais do que amigo, irmão. E sempre incentivador.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Nota Introdutória

 

Com este Quase memória de uma rua sem memória continuo O cavalo de São Roque. Como anteriormente, sinto-me na obrigação de esclarecer o motivo que me levou a escrever “quase memórias”, e por que assim as denomino.

Já na página de dedicatória de O cavalo de São Roque, confessei que estava publicando o livro em atendimento ao pedido/interpelação de minhas netas, Raissa e Tassila, então adolescentes: — “Vô, por que não escreve o que nos conta?”.

Essa é uma motivação externa. Mas há, sobretudo, uma motivação interna.

Despejo no papel lembranças que enfatizam a versão subjetiva dos fatos vivenciados, ora com alegria, ora com tristeza, quando não com temor de suas consequências. Como já disse: descuidadamente abri as portas do passado, mas sob a luz do presente.  Com o desejo insopitável de exercer reflexões sobre o que esse passado representou para mim até hoje. Ou, quem sabe, me lancei à procura de um elo perdido?

Por intuição considero este um gênero situado entre a memória e a ficção. O autor de uma quase memória usaria dados de sua recordação e até dados levantados em pesquisa documental, mas sua escritura não se prende ao dever histórico, com respeito à veracidade dos fatos, embora não se lhe possa atribuir o caráter de inventar, mentir, extrapolar o acontecido, distorcendo-o.

Se tal declaração é válida para os cinco textos que constituem O cavalo de São Roque, muito mais o é para as recordações de minha infância na Rua Diamantina, de Belo Horizonte, e de meu tempo de seminário salesiano, onde fiquei quinze anos, tendo sustado minha carreira, felizmente, um ano antes de receber o sacerdócio.

O fato de ter vivido o final de minha infância, a adolescência e a juventude enclausurado entre os muros de uma cidadela medieval, em pleno século XX, acredito ser motivo forte para deixar registrada rica experiência de vida, embora fortemente frustrante, diante do obscurantismo vivido. Diria até: mais que vivido, suportado.

Alguém poderia objetar que tal depoimento deveria ter sido feito logo após a saída da congregação salesiana e não agora, depois de mais de cinquenta anos.

Penso justamente o contrário. Se o fizesse naquela época deixaria de ser um depoimento sereno e amadurecido. Sem dúvida, carregado de mágoa e até de revolta. Fazendo-o hoje, sinto que minhas convicções se fortaleceram, e me julgo mais lúcido para externá-las.

Ademais, gostaria que o leitor me entendesse: não desejo que minha pessoa seja o objeto do que ele vai ler. Se me arvoro como narrador, o foco de meu discurso não sou eu, mas a própria Vida, ainda que em sua dimensão individual. Na esteira do processo de viver, é que fatos e acontecimentos se expõem e merecem ser contemplados.

Confesso que o tecido desse depoimento está frequentemente recortado por denúncias. Por isso devo esclarecer: jamais passou pela minha cabeça escrever para obter de quem me lê sentimento de solidariedade, muito menos de compaixão. Não me coloco como vítima. Por outro lado, não posso, honestamente, ser panegirista da vida que repudio até hoje ou de educadores que critico.

Tentei ser isento ao externar juízos de valor. Ao fazê-lo tive que enfrentar o conflito inerente ao contar histórias, vivenciar percepções, para delas extrair ensinamentos.

Daí a tomada de consciência de que na superação desse conflito, mais de uma vez me exponho e exponho minhas contradições surgidas quando procuro agir com justiça para com meus educadores salesianos e para comigo mesmo.

A velha questão: o mesmo fato ou a mesma pessoa, vistos de um ângulo são dignos de encômios; já, de outro, merecem rejeição.

Por isso, não nego que o leitor deparará com contradições em meu texto. Como haveria de me furtar a elas, se os próprios estímulos e a própria percepção, por não serem rígidos, nem lineares, tendem a sofrer mutações?

Em síntese, seja-me permitido parafrasear Ortega y Gasset, para declarar: eu sou eu e minhas contradições. Afinal a contradição faz parte da condição humana.

Tirante este detalhe, acredito que a voz de um velho, ao contar o que viveu, soa mais autêntica, pois tem como lastro a experiência que os anos lhe conferem, e com ela a decorrente autoridade.

O que me leva a colocar-me no lugar do vate lusitano para rematar: “Nem me falta na vida honesto estudo, / com longa experiência misturado / (…) coisas que juntas se acham raramente” (Lusíadas: 10, CLIV, 1229 – 1232).

Sem falsa modéstia, hoje sou capaz de declarar: graças à própria vida me considero um privilegiado que obteve, com o tempo, as duas coisas misturadas.

 

D. V. S.

 

 

                                                              

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

1

 

 

 

A rua, onde ficou

a velha rua, seu espaço de brincar,

seu aberto salão a céu aberto,

sem entrada paga, sem cambistas

e fiscais?

 

(Carlos Drummond de Andrade,

Ver e ouvir sem brincar)

 

 

               

 

Encontrei-me com ele. Por acaso. Estava tomando minha cerveja de fim de semana no bar habitualmente frequentado, quando ele apareceu. E me reconheceu. Era o Lalau.

Companheiro dos tempos de infância, há décadas. O mesmo tempo em que não nos víamos.

Tinha sido namorado de minha irmã, naquela época considerada a moça mais bonita de nossa Rua Diamantina, pouco depois trocado pelo estudante de medicina, Ivo Pitangui,   mais   tarde   também   por   outro   estudante   de

 

 

 

— 17 —

medicina da Rua Itapecerica, tendo este sido substituído por mais algum e finalmente por um colega de trabalho na Companhia de Seguros Minas Brasil, recém-chegado do Rio de Janeiro, com quem, afinal se casou, cumprindo, à sua maneira, arremedo da sina narrada por Carlos Drummond em seu poema “Quadrilha (João amava Teresa que amava Raimundo / que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili / que não amava ninguém…). Arremedo apenas. Sem o vazio do desfecho, porque, pelo que saiba, todos se casaram e bem, inclusive ela. Namorar era um esporte para sua idade adolescente.

 

Um russo morava naquela rua…

e um  louco por  ela  corria

 

Começamos a relembrar nossa Rua Diamantina. A retornar ao útero do tempo para encontrar referências perdidas. Ou escondidas sob as dobras de tantos dias, meses e anos acumulados.

E vieram “foucaultianamente”, em escavações arqueológicas, as perguntas inevitáveis: — Onde está fulano? E beltrano? Dona Silvéria obviamente já morreu, mas suas filhas Rute e Maria? Seu Chico Ferrão, alto funcionário público da Imprensa Oficial e apicultor nas horas vagas, também já deve ter ido “numa boa”, com sua simplicidade e argúcia, voando como suas abelhas, para encontrar a colmeia celestial. Lembra dele? Magro como tábua, mulato, meio encurvado, calça sempre escura, sustentada por largos suspensórios, cabelos grisalhos despenteados, rosto chupado de rugas, com a mão envolvida  em   erva   cidreira   a  recapturar enxame  fugido.

 

 

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Inesquecível.

Nonô, Pitoia, Terezinha, Maria, Zazá, Aristides, Chiquinho, Jandir, Hélio, Décio, Sílvio, Roberto, João… Boris? Este você tem de lembrar: morava na casa frente à sua, cabelos ruivos, rosto todo sardento, bem gordinho.

Dizia ser filho de russos, mas que seu pai era russo branco e não vermelho. A gente não entendia esta diferença. Como ele era muito branquelo, para mim russos brancos deviam ser como ele e russos vermelhos deviam ser de pele rubra, mas hoje sei que era para dizer que seus pais teriam vindo para o Brasil fugidos dos comunistas.

Pelo que se aprende com a História,os bolcheviques ou russos vermelhos ou simplesmente comunistas, antes mesmo de estourar a Revolução de 17, já eram combatidos pelos russos brancos ou anticomunistas. Vitoriosos os comunistas, e instalado o governo bolchevique, foi este encarniçadamente combatido por diversos exércitos de russos brancos, auxiliados por mercenários estrangeiros (soldados alemães, finlandeses, estonianos, lituanos, poloneses, tchecoslovacos, ingleses, franceses, japoneses, norte-americanos). Os massacres foram tremendos, de lado a lado. Em fins de 1920, os russos brancos e os soldados estrangeiros tinham sido definitivamente derrotados pelo exército vermelho. Mesmo que tivéssemos este conhecimento da História naquela época, nossa amizade pela família do Boris, notadamente por ele, não mudaria em nada.

Houve um dia em que estávamos brincando no passeio diante da sua casa, você não lembra? Ele subiu nas grades que protegiam o jardim frontal e quis andar em cima dos ferros. De repente escorregou  e  ficou  fisgado  na  coxa  por

 

 

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uma daquelas lanças pontiagudas da grade. Ainda vejo a sangueira que corria perna abaixo e o toucinho branco dividido em dois, parte exposta nas bordas da ferida e parte pendurada na ponta da lança. Pelas contrações dos músculos da face e o rolar silencioso das lágrimas, calculo que a dor devia ter sido muito forte. Não chorava alto, como provavelmente faria qualquer um de nós em seu lugar, e ainda teve força para atravessar mancando a rua e entrar em casa.

Semelhante dor (não igual, longe comparar!) devo ter sentido no dia em que enfrentei, em minha imaginação, um doido varrido que se tornara o terror da criançada em Contagem. Menos que cidade, a antiga Contagem das Abóboras era uma grande vila. Quase todas as ruas de terra batida.

Estava lá passando fim de semana, hospedado na casa paroquial. Naquele tempo a gente ia à Contagem de trem da Rede Mineira da Viação — a RMV ou a "ruim, mas vai". Saindo da Estação Ferroviária de Belo Horizonte, a composição, formada pela “maria fumaça” e mais uns seis vagões, parava no Calafate, depois na Gameleira, até sair definitivamente da capital. A viagem demorava mais de duas horas.

Era um sábado de manhã. No dia anterior tinha visto o louco e comigo muitas crianças saíram correndo com pavor de serem agarradas. Fucei ferramentas guardadas no quarto de despejo e encontrei abandonada uma sovela de sapateiro e a levei como arma, caso viesse ser atacado. Nos meus 9 anos de idade como toda criança, sem saber distinguir o real do imaginário, fantasiava iminente ataque do andarilho maluco sobre minha pequena e  frágil  pessoa.  Talvez  numa

 

 

— 20 —

espécie de ensaio, ou mesmo, me vendo, pelos olhos da imaginação, diante do tal louco, já com a sovela na mão, fiz a encenação de cravá-la, qual punhal, de baixo para cima, no agressor; mas acabei enfiando-a com toda força em minha coxa direita. Devo ter gritado de dor. Como estava sozinho na rua, tive de aguentar firme e voltar para a casa paroquial, contorcendo e mancando, a fim de medicar-me.

Por falar em louco, inesquecível ter visto um deles em nossa Rua Diamantina. Nossa turminha brincava, quando ele apareceu, cabelo desgrenhado, barbudo, sem camisa, descalço, berrando coisas ininteligíveis. Apavorados, todos corremos e ficamos no portão da casa do seu Chico Ferrão. Do outro lado da rua, existia a casa do Dr. Sebastião, um advogado, casado com uma das filhas do marchante Francisco Menezes. A casa era vizinha à minha. Construída por meu irmão de criação, o Antônio. A fachada da casa era de cimento chapiscado com pó de mica. Para nós, crianças, foi verdadeiro estupor, quando vimos o louco subir pela parede e usar as unhas da mão como ferramenta, para arrancar, numa só tentativa, a placa que estampava o número da casa.

 

Uma casa nada edificante

 

Foi também nesta casa que aconteceu o primeiro roubo em nossa rua. O Dr. Sebastião, sempre de terno e gravata, andava elegantemente, com uma bengala, que era verdadeira arma, pois, ao apertar um botão superior, detonava o tiro e, ao apertar o botão inferior, sua ponta expelia um punhal.

Todo este refinamento  de  arma  para  autodefesa  não

 

 

— 21 —

impediu que sua casa um dia fosse assaltada com o consequente desaparecimento de joias e uma fortuna em dinheiro.

Quem deu o alarme do acontecido foi a empregada. Segundo ela, estava sozinha na casa e saíra para fazer compra de carne, verdura e frutas. Ao voltar encontrou a casa revirada e viu que a janela da frente estava com a vidraça quebrada e, no chão da sala, enorme pedra.

Quando à tarde Dr. Sebastião chegou do trabalho, ficou sabendo do ocorrido. Chamou a polícia. Estávamos todos curiosos ao vermos a radiopatrulha na frente da casa. Comentários daqui e dali, até que alguém nos comunicou que um dos policiais, depois de estudar minuciosamente o local, desconfiou da empregada. Um assalto daquela envergadura não poderia ter ocorrido no curto tempo da ida da doméstica às compras. Interrogada duramente, não resistiu e, em prantos, acabou confessando que tinha simulado o assalto para roubar as joias e o dinheiro dos patrões.

Apesar de ser uma das casas mais bonitas da Rua Diamantina, não teve final edificante. Anos mais tarde, creio que depois da morte prematura do Dr. Sebastião, a casa foi vendida e, na década de 50, se transformara num dos “rendez-vous” mais chiques de Belo Horizonte.

Minha irmã e minha prima Lourdes me contaram que foram testemunhas de que o grande cantor mexicano Bienvenido Gandra — o do bigode assegurado em milhões de dólares - talvez em sua única vinda a Belo Horizonte, depois de show no Teatro Francisco Nunes ou no Paissandu, ali esteve em programa com uma das mulheres. Como nossa casa era vizinha do “rendez-vous” foi fácil  ficar  sabendo  da

 

 

— 22 —

notícia.

Além desse badalado acontecimento, soube, porque a notícia corria solta, que uma das “meninas” era amante de um padre bastante conhecido em Belo Horizonte. Sabia salvar as aparências para exercer com maestria a tríplice função de pároco, político e professor universitário.

Aquelas messalinas de fino trato eram discretas e bem reservadas, mantendo a casa sempre fechada. Nenhuma aparecia à janela ou à porta, muito menos dava escândalo, como era comum na zona boêmia.

 

Mandrake

trocado por uma dose de pinga

 

Ainda diante da casa do doutor Sebastião, uma tarde estava brincando. Aparece o Boris, e me chama para me mostrar a maravilha que tinha em mãos: um livrinho (tipo pocket book) que contava histórias do Mandrake, com ilustração em todas as páginas, e o mínimo de narração ao pé das figuras. Apesar de pequeno no tamanho, o livro era bem grosso. Ele me prometeu emprestar, logo depois de terminada sua leitura. Para mim foi uma grande surpresa. Só conhecia as aventuras do "grande mágico" no Gibi ou no Globo Juvenil, pelas histórias de quadrinhos em série, ao lado das proezas do Popeye, do Brucutu, do Tarzan, do Flash Gordon, do Mutt e Jeff (o primeiro, contumaz apostador de cavalos, o outro, magrelo e comprido, de bigodão e sempre de chapéu… quem sabe predecessores de o Gordo e o Magro?), os gêmeos Hans e Fritz e o gordo Capitão…

Não demorou uma semana e Boris me emprestou o livro. Num só dia o li  e  o  deixei  em  cima  do  baú  onde  se

 

 

— 23 —

guardava a roupa de cama. Esqueci, porém, de fazer a devolução no tempo aprazado.

O Boris me cobrou várias vezes. A última foi no bonde. Ele me descobriu e, na primeira parada, foi até o banco onde estava sentado para me ameaçar, se não lhe devolvesse o Mandrake.

Por vários dias seguidos, procurei desesperadamente o livro e não o encontrei. Horas e horas remexi todos os guardados e nada.Recorri chorando à minha mãe. Ela me ajudou a procurar e também não o encontrou. Como enfrentar o Boris? Mãe tentou comprar outro exemplar, mas estava esgotado. Calculou o preço do livro e me deu dinheiro a mais para repassar ao Boris, quando viesse me cobrar. Foi o que fiz, confessando a ele que alguém roubara o livro lá em casa. Ele ficou muito chateado, mas recebeu o dinheiro como recompensa.

Muito tempo depois, por acaso descobri o autor da façanha. Meu tio Chico, irmão de minha mãe, alcoólatra, era um leitor de tudo que lhe caia à frente. Gostava muito de palavras cruzadas e das histórias em quadrinho. Mas sua preferência era por uma boa pinga. Leu e como costumava frequentemente fazer, o vendeu, às escondidas, para pagar suas cachaçadas.

 

Tipo inesquecível

 

Esse tio era conhecidíssimo por causa de sua fama como jogador de futebol. Tinha o apelido de "Lourinho". Era exímio driblador e dono de portentoso chute. Canhoto, jogava na ponta esquerda do Terrestre Futebol Clube, time da  várzea.  Tradicional  adversário  do   Fluminense   Esporte

 

 

— 24 —

Clube. Frequentemente o vi jogar, porque ia ao campo, para vender pastéis, feitos por mamãe, juntamente com as laranjas descascadas, com as tampinhas já cortadas. 

Uma de suas características, como jogador, era fazer, com frequência, gol olímpico, ao bater o escanteio (naquele tempo a gente chamava de córner, em inglês aportuguesado, como designávamos o goleiro de golquiper, zagueiro de beque, lateral de halfe, volante armador de centeralfe, e atacante de centerfor…).

As bolas eram de couro e de câmara de bico, por isso não eram tão esféricas como as de hoje. Uma vez cheias, o bico era dobrado e amarrado junto da abertura, por onde a câmara era introduzida e por cima se apertava o manchão, para em seguida se trançar o cadarço de couro bem esticado e, com sovela, se ajustavam suas pontas, já cruzadas, entre a parte interna do couro e o manchão. Esta parte da bola naturalmente ficava mais saliente que o resto do esférico. A habilidade do Chico consistia colocar a bola com a parte do bico virada para o chão. Rodopiava-a como um pião e, quando ela estava girando, mandava o seu petardo. A bola ia volteando, com efeito, e como um pássaro mergulhava em parafuso no gol para desespero do goleiro.

Futebol era grande paixão da Lagoinha. Havia, no mínimo, três campos, todos de areia. Um era no terreno, onde se situam hoje o SENAI e alguns prédios vizinhos; começava às margens da Antônio Carlos e ia até a Rua Itapecerica (o campo do Terrestre F. C.). Outro, na região ocupada atualmente pelo Hospital Odilon Behrens e o Colégio Municipal de Belo Horizonte, era o campo do Fluminense E.C. O terceiro, do lado oposto, creio que em continuação   da  Rua  Borba  Gato,  onde  havia,  acredito,  a

 

 

— 25 —

única pedreira de Belo Horizonte, cuja exploração abriu grande área, então transformada em campo. Nesse último campo, nossa turminha gostava de jogar.

O futebol era um dos grandes divertimentos para nós, os moleques da Rua Diamantina. Não chegamos a formar um time propriamente dito, mas gostávamos de improvisar nossas peladas. Quando não era no campo, era na própria Rua Diamantina.

Nos meados de 1940, a família de amigo nosso, o Homero, criou o Garoto Futebol Clube. Foi construído um campinho junto a sua casa, na esquina de Rua Adalberto Ferraz com Av. Antônio Carlos. O Homero era verdadeiro craque. Não sei se, adulto, seguiu a carreira.

 

Um batedor de carteira

e um alemão de bananeira

na motocicleta

 

Associo, aqui e agora, o roubo do Mandrake ao batedor de carteira, o Roberto, metido a galã, bigodinho à la Clark Gable.

Fora dotado pela natureza para surrupiar carteira com habilidade: seus dois dedos da mão direita — o indicador e o médio — eram bem maiores que os demais. Ele pegava o bonde andando, e, no estribo tirava a carteira dos distraídos, de preferência os pendurados nos balaustres. Enfiava sorrateiramente aqueles dois dedos dentro do paletó do incauto, passava por trás de cada pendurado, e, mais adiante, saltava do bonde em movimento, sem ninguém ter percebido que ele levava consigo várias carteiras. Ah! esse você lembrou?  Filho  de  delegado,  tinha

 

 

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de lembrar.

Quase dois anos depois de ter ido para o seminário, meu irmão Hélio, a caminho de São Paulo, me visitou em Lorena. Entregou-me, enviado por minha mãe, um volumoso presente, enrolado num jornal, o Estado de Minas (deviam ser latas de goiabada, marmelada e barras de doce de leite). Curioso, aproveitei para matar a saudade e percorri os olhos pelas notícias. Na parte policial não é que deparo com a reportagem sobre a prisão do Roberto, "o mais refinado batedor de carteira de Belo Horizonte"?!

Perto da casa do Roberto morava o Alemão. Já rapaz, gostava de se exibir descendo a Rio Novo, com sua motocicleta empinada sobre uma roda só, ou então plantando bananeira em cima do guidom. Tinha fama de gênio, por causa de suas invenções. Uma delas foi o acendedor de cigarro: um dispositivo de pólvora colocado na ponta do cigarro. Era só puxar o fiapo de linha e o estalo da espoleta acendia o cigarro. Não sei como a Souza Cruz não patenteou aquela invenção!? 

 

Pela primeira vez vi a morte

 

Muita gente, muita coisa, impossível esquecer. Alguns certamente já se foram. Mas os que ficaram, por onde andarão? Será que tudo mudou muito? Será que ainda lá se brinca de “nego fugido”? Como se estivesse rebobinando a fita da memória ou recompondo pedacinhos de quinquilharias num caleidoscópio, cenas e mais cenas do passado voltavam em turbilhão dentro de mim.

A rua da minha infância era o personagem principal de todas elas. Juntas,  por certo,  pertenciam  ao  mesmo  filme,

 

 

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ator e personagem se fundiam sob o mesmo nome: Rua Diamantina do Bairro da Lagoinha em Belo Horizonte.

Ah!… O dia em que o Oldack morreu. O fato me marcou fortemente e por muito tempo. Ele devia ter doze anos. E eu no máximo nove. Morava na parte alta da rua, bem depois do cruzamento com Rio Novo. Para atingir a sala em que estava sendo velado, era preciso subir comprida escada. No caixão, sua cabeça parecia absurdamente enorme, de tão inchada. Ao lado, sua mãe desesperada chorava e gritava: — Fui eu que o matei. Não devia tê-lo espancado tanto, logo depois do almoço. Morrera de congestão cerebral. Era o que se dizia.

 

                                         Brinquedo perigoso

 

Foi também na Rua Rio Novo que aprontamos a brincadeira que quase resultou em tragédia. A rua, desde a Itapecerica, onde nasce, desce um quarteirão para atravessar a Antônio Carlos (a avenida que liga a Praça Vaz de Melo ou Praça da Lagoinha à Pampulha), e sobe para atingir a nossa Rua Diamantina e depois continua subindo até atingir os lados do Colégio Batista. A construção da Antônio Carlos coincide com esse tempo de recordação. No início ela se chamava Avenida Pampulha. Mais tarde é que a Prefeitura mudou–lhe o nome para Antônio Carlos.

Na época, todas as ruas eram precariamente iluminadas. Aquela noite a Rio Novo estava mais escura ainda, porque era lua nova.

Fizemos uma cobra de pano, amarramos a ponta de sua cabeça na linha de soltar papagaio, escurecida com cera preta, enrolada na  manivela.  João,  Jandir,  Pitoia  e  eu  nos

 

 

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escondemos atrás do muro da casa da esquina. Deixamos a cobra lá em baixo, onde já se tinham iniciado as obras para a construção da Avenida Antônio Carlos.

Na hora em que alguém viesse subindo começaríamos a puxar a linha para fazer a cobra rastejar. Apenas queríamos passar susto e rir da reação do assustado. Apontou um senhor, terno de linho azul claro, gravata e chapéu, jornal debaixo do braço (devia ser advogado!), na esquina da Avenida Antônio Carlos, bem perto da cobra.

Começamos a puxá-la. Mal a cobra rastejou, vimos o homem dar um salto para trás, largar o jornal, arrancar da cintura o revólver e atirar várias vezes na direção da cobra. Era a primeira vez que víamos o disparo de uma arma de fogo de verdade.Levamos tanto susto e ficamos com tamanho medo que largamos manivela, linha e cobra para trás e disparamos pela rua Diamantina afora. Só depois de muito correr, já passado o pânico, é que sentamos no meio-fio, junto a um dos postes de luz da Rua Diamantina, para comemorar o feito e rirmos do homem e de seu susto. Na realidade maior susto foi o nosso. Levantamos as mãos para os céus, por não ter o feitiço virado contra o feiticeiro.

 

                                               Meninos operários…

e o estrago de um pedregulho

 

Ao pinçar da memória lembranças da construção  da Antônio Carlos, cumpre frisar que nós meninos fomos não só testemunhas daquela grande obra do Prefeito Juscelino Kubistchek de Oliveira. Em certo sentido, fomos operários também.

Naquele  tempo  aterro  e  desaterro  eram  feitos  pelas

 

 

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mãos dos operários que recorriam às alavancas, picaretas, enxadões, enxadas e pás. Não havia o maquinário de hoje. A terra era conduzida por carroças puxadas por burro e carrocinhas por jumento.

Quase todas as tardes, depois que terminavam as aulas do grupo escolar, íamos para lá e fazíamos questão de conduzir as carrocinhas até o local do despejo. Os operários nos deixavam substituí-los e até nos incentivavam. Para nós era motivo de alegria e fazíamos daquele trabalho legítima diversão.

Num sábado de manhã durante nossas brincadeiras na Antônio Carlos aconteceu algo de desagradável.

Aproveitando o cascalho amontoado na avenida, com vistas ao futuro asfaltamento, meu irmão Délio e eu brincávamos de atirar pedrinhas um no outro.

Ele me atirou a pedrinha e correu na direção do túnel formado de imensas manilhas com mais de metro e meio de diâmetro e que desde aquele ponto, onde estávamos, ia dar na Praça da Lagoinha.

Já tinha ultrapassado umas cinco manilhas, quando de repente, escorregou e caiu. Pensei que fingiu para me assustar e no momento em que ia atirar a pedra, o vi gritar pedindo socorro. Não conseguia se levantar. Estava gravemente ferido. A ponta aguda de um daqueles pedregulhos penetrara em seu joelho.

Tive que ir ligeiro pedir ajuda em casa. Foi carregado e posto na cama. Mãe logo chamou médico e horas depois ele era levado para o hospital e foi operado, pois seus meniscos tinham-se rompido.

 

 

 

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Contra o poder dos adultos

 

Brincadeira de criança e para se vingar de quem era adulto, nada melhor do que a de atrapalhar o namoro na rua.

O footing, embora não tivesse esse nome, era o costume daquela época. A partir das sete horas da noite, enquanto estávamos brincando de “nego fugido”, pares de namorados passeavam pelas calçadas de nossa Rua Diamantina. Uns três, quatro casais, mantendo certa distância, um do outro, iam e vinham de mãos dadas.

Certo dia surgiu-nos a ideia de aprontar uma contra eles. De quem a autoria, não me lembro. Só sei que depois de concebido, o feito haveria de se repetir, no mínimo duas vezes por mês.

Nossa turminha enchia de água uma lata de banha de porco comprada na venda de Seu Juca. Colocávamos a lata justamente sobre o muro da casa do Dr. Sebastião, vizinha da nossa, por ser ali um dos pontos mais escuros da rua. Amarrado na lata, o barbante pintado de preto, era esticado até junto ao meio-fio, onde era preso a uma pesada pedra. Ficávamos escondidos para apreciar a cena. Não demorava longo tempo e lá vinha o primeiro casal de namorados. Quando se aproximava do fatídico barbante, prendíamos a respiração. O banho era fatal. Bastava o par de namorados esbarrar na linha esticada, a lata derramava toda a água sobre os dois. De longe dávamos gostosas gargalhadas, enquanto os romeus e julietas nos excomungavam com os maiores impropérios do mundo. O mínimo era invocar Herodes para a matança dos nada inocentes.

Deviam agradecer a Deus que nossa  pureza  de  criança

 

 

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não nos motivava a colocar urina e fezes dentro da lata. No fundo era só uma brincadeira sem maldade, mas que não deixava de revelar certa vingança de nossa limitação diante do poder dos adultos sobre nós.

Se não tínhamos a malícia de colocar fezes na lata, algum espírito de porco um dia as colocou embrulhadas em jornal, como se fosse bola de papel, bem no meio da rua.

Lá veio o Pitoia junto comigo caminhando e brincando de chutar o que via, sobretudo latinha e caixa de papelão. Ao ver aquela bola, não teve dúvida, deu-lhe um chutaço. Para sua infelicidade estava descalço e ficou com o pé todo lambrecado e a feder mais que fossa aberta. Sorte que para rir de sua desgraça só estava eu. Mais sorte ainda por não estar ali embrulhada uma pedra, como aconteceu mais de uma vez em nossa rua. Infelizmente entre gaiatos surge sempre um inescrupuloso para transgredir as normas gerais e alimentar as exceções.

Mas a notícia correu rápido pela nossa querida rua e o grande chutador teve de pagar o tributo da gozação por muito tempo, sob o apelido de "Pé de Merda": — “Pitoia Pé de Merda”!

 

De mocinho e bandido

 

João estava diante de mim com a cara toda salpicada de pólvora, fumaça saindo da boca e do nariz, resultado da perigosa brincadeira de “artista e bandido”.

Um de nós dois era o Tom Mix ou o Buck Jones. Ninguém gostava de ser o Roy Rogers, surgido muito depois daqueles dois. Para nós era meio efeminado, porque tocava violão e cantava, ora em cima do cavalo, andando  de  vagar,

 

 

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à frente de seus companheiros, ora na varanda do rancho da namorada. Mas a luta, os murros e o duelo a tiro custavam a aparecer.

Em nossa brincadeira de faroeste, se sorteavam os que seriam o “artista” ou "o mocinho" com seus companheiros e os que formariam o bando dos bandidos ou ladrões de gado. Havia também o “Chumbo Fino”, aquele velho do oeste que, depois de atirar, soprava e beijava a boca do cano de seu Smith. E concluía a façanha com a típica gargalhada safada. Pitoia o imitava perfeitamente: sua voz, sua risada, o franzir da sobrancelha e o piscar do olho de maneira malandra.

Naquela manhã João chefiava o bando de bandidos, formado pelos demais integrantes da “trinca” da Lagoinha.[1] Cada um assumia o seu papel e tratava de se esconder. Todos ficavam de tocaia. Dado o assovio, começava a perseguição.

No fundo, o brinquedo era modalidade pouco mais sofisticada do “esconde-esconde” e este, tanto quanto mais desenvolvido do “pude” do tempo de criancinha de dois, três anos. Para os teóricos da “ontogênese repetição da filogênese”, certamente, por sermos crianças, estaríamos ainda na fase do caçador das civilizações primitivas.

Artista ou bandido, a gente portava na cintura a famosa garruchinha feita por nós mesmos, com cápsula de bala de fuzil, bico cortado, fortemente amarrada com arame, em cabo esculpido a canivete, em gomo retorcido de goiabeira.

No dorso do curto cano fazia-se o furo, onde se encaixava a cabecinha do pau de fósforo. Enchia-se o tubo de pólvora e, ao rápido riscado da lixa da caixa de fósforos — desde aquela época a Pinheiro da Fiat Lux — sobre a espoleta improvisada, a pólvora explodia e com ela a bucha de papel socado era cuspida como se fosse bala, na direção apontada. Ao atirarmos, virávamos, em proteção, o próprio rosto para trás, à espera da explosão e do resultado provocado.

Estávamos João e eu cara a cara. Houve o estampido de minha arma e ele fora atingido. Por isso só via, diante de mim, seu rosto todo chamuscado de pólvora a soltar fumaça pelas narinas e pela boca. E eu, bestificado, o corpo tremendo de susto e medo dos pés à cabeça, preocupado mais com o estrago feito ao companheiro do que com o inconsequente "delito" cometido. Ao mesmo tempo feliz (como me ficou gravado dentro de mim esse conflito do bem contra o mal, ou melhor, da sorte contra a fatalidade!), porque o “revólver” dele mascara e o meu não…

Pólvora, seu uso e até sua fabricação na casa do Jandir, marcaram indelevelmente este tempo de folguedo. Com a mistura de duas porções de enxofre, quinze de salitre e três de carvão, tínhamos o nosso explosivo feito com nossas próprias mãos.

E saiamos correndo, de volta a casa, com um saquinho-de-sal cheio do produto, para fazer nossa “cabeça-de-negro” ou a “bomba-parede”. A pólvora era socada com jeito, cuidado e força calculada (para não explodir antes da hora em nossas mãos), junto com brita  moída  num  invólucro  de

 

 

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papel de jornal ou daquele grosso e cinzento dos pacotes de prego. A minúscula embalagem tinha de ser bem presa com barbante envernizado. Pronta a bomba e já encaixada na tira de couro do bodoque, também chamada contendor, a estourávamos nos muros, postes ou meios-fios da rua.

O estrondo produzia nossa alegria incontida. Aqueles artefatos eram muito melhores, muito mais barulhentos e mais divertidos do que os espanta-coiós, os traques, os busca-pés, os foguetes e as bombinhas de São João que podíamos comprar no armazém do seu Juca português.

                                              

                O maior papagaio do mundo

               

A gente era moleque, mas feliz, e ignorava o perigo daquelas algazarras. Igual à alegria de brincar de “mocinho” e estourar bombas, só a de soltar papagaio. Cada um, em sua casa, fazia o seu e disputávamos qual subia mais alto. Outras vezes, entrávamos em guerra: brigava-se por laçar o papagaio do outro e trazê-lo até a terra como o troféu da batalha.

Meus irmãos geralmente me ajudavam na fabricação e lá ia eu, correndo pela rua, empinando o mais novo e o mais bonito papagaio da rua, feito de varetas de taquara de bambu alisadas e papel de seda impermeável.

O segredo era de quatro saberes: primeiro, saber escolher o papel de seda impermeável; segundo, saber dobrar bem fininho e colar as extremidades do papel já cortado em forma de losango, para não pesar nem ser rasgado pelo vento; terceiro, saber fazer a barbela: não podia ser nem muito apertada, nem muito folgada, junto da vareta  central,  e  quarto,  saber  acertar  o  equilíbrio  entre

 

 

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tamanho e peso do rabo.

Certa vez, irmãos e irmãs e meu tio que viera morar conosco junto com vovó Belica, depois da morte de vovô João, fizemos juntos o maior papagaio da rua. Da rua só não, do bairro, da cidade. Pode-se crer: do Brasil, se não foi, até hoje, do mundo. Em toda minha vida nunca li nem ouvi alguém contar tal proeza. Pena que não havia o Guinness World Records na época. Ou, se havia, era por nós completamente desconhecido.

Tão grande que depois de pronto, só passou na porta da cozinha, de lado, em diagonal e encurvado, em direção ao quintal, onde ia ser empinado. As duas pontas laterais ainda rasparam respectivamente no chão e na quina superior da esquadria da porta.

No rabo do papagaio foi instalada uma lanterna de papel vermelho transparente, com cera derretida embebida em óleo até a metade. À tardinha, pavio já aceso, o empinamos.

O levantar voo foi facilitado, porque nosso quintal terminava num barranco bem alto. Como entre ele e a Av. Antônio Carlos, lá embaixo, havia aquele imenso vazio, o vento ergueu com facilidade o papagaio.

Tínhamos uma grande manivela de mogno preto, feita por papai e dele herdada como nosso supremo presente.[2] Era a maior, a mais bem feita e a mais cobiçada de todo o bairro da Lagoinha. O papagaio teve linha à vontade. O tanto que o vento estava permitindo e a manivela podia ceder. Afinal, ela foi feita enorme justamente para enrolar a maior metragem de linha possível.

Subiu rápido feito um avião. Escureceu e durante a noite toda, até irmos dormir, só víamos junto das estrelas sua luzinha brilhar. De madrugada, bem cedo todos estávamos acordados. Ninguém o via. A lanterna apagara. Mas a linha estava esticada. Não rebentara. Começamos a recolhê-la. E eis que surge iluminado pelos primeiros raios do sol o grande desbravador noturno do espaço aéreo. Respingado de sereno, mas inteiro, sem nenhum rasgão.

 

De bolinha de gude

e outros brinquedos

 

Não há como comparar a alegria que cada brinquedo nos provocava. A do jogo da bolinha de gude seria diferente das demais? Na verdade havia manifestação mais esfuziante quando havia correria. Mas não era maior do que os folguedos em que ficávamos parados ou mesmo sentados.

A bolinha de gude tinha um sabor especial, porque jogávamos a valer, não a dinheiro, mas em troca de outra bolinha de vidro. Cada bolinha jogada dentro do buraco, chamado “papão”, era de quem a tivesse “cricado”.

Meu irmão, mais velho do que eu e muito mais ladino, certa vez fez uma greta ao rés da cerca que separava nossa casa do passeio de terra batida (ainda não fora construído o muro). A arena onde brincávamos ficava situada em nível superior,    pois    a    casa    ficava    bem    abaixo.    A    greta

 

 

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desembocava num cano de borracha embutido no barranco e descia até uma panela encravada no terreiro, junto à quina do alpendre. Tudo coberto de terra, escondido. Para ninguém suspeitar. De vinte bolinhas usadas durante o jogo, no mínimo seis caiam na armadilha e iam enriquecer o arsenal de meu irmão.

Disputávamos também quem tinha mais força na “cricada”. Capaz de partir em pedaços a bolinha do adversário. O truque era saber escolher o tamanho e a qualidade da bolinha e armar o dedo polegar, já preso pelos demais dedos, com a curva do indicador para encaixá-la e, qual mola ao se desprender com força, soltar o tiro.

Quem sabe, nessa disputa de brincadeiras, darei o primeiro lugar de preferência, no campeonato da alegria, para o “jogo do pião”? Comprávamos pião no Mercado Municipal. Afiávamos sua ponta contra o chão de cimento ou com grosa, lima ou mesmo com lixa das bem grossas e íamos para o desafio.

No passeio de terra batida riscávamos a roda. Ao centro colocávamos a batata — o pião tipo cebola — que lá ficava para o alvo de nossa pontaria. Se não fosse atingida e continuasse o pião a rodar em volta do alvo, o adversário poderia lançar seu pião para “matar” o do outro ou acertar a batata.

Com o pião também exibíamos verdadeira técnica ou arte digna de circo, como a de lançar o pião e antes de ele tocar no chão puxá-lo para cair na palma de nossa mão ou em cima da unha do polegar, girando como se estivesse rodando no chão.

Não, não, mais do que o pião, o campeonato de futebol de botão  mereceria,  talvez,  a  taça  de  minha  preferência.

 

 

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Difícil de decidir.

Todos tinham seu time. O goleiro, uma caixa de fósforo recheada de chumbo derretido. Os dois beques, formados pelas tampas do Biotônico Fontoura (o elixir revigorante que nos revelou a historinha do Jeca Tatu de Monteiro Lobato), entupidas com cera socada. Os dois “halfers” e o “center-half”, botões dos grandes, roubados quase sempre dos sobretudos das mulheres para atender as exigências da competição. A linha era escalada com botões médios, escolhidos a dedo. Lixavam-se os botões por baixo e em determinado local de cima, à guisa de rampinha, para servir de “levantador da bola”.

O segredo para encobrir o goleiro era, ao apertar a palheta para o “chute”, com o dedo médio de cada mão, segurá-la presa por cima do botão. A palheta, geralmente era a argola de bico dos bebês ou, o que era mais comum, outro botão dos grandes, mas fino e bem lixado. O tiro saia, sem o botão quase sem se mexer.

Cada jogador tinha seu nome cortado à gilete dos jornais e colado por cima do botão e o goleiro era uniformizado com as cores do time escolhido. Geralmente Atlético, Palestra, América, Siderúrgica, Vila Nova, Sete de Setembro, Flamengo, Fluminense, Botafogo e Vasco.

Não me lembro de nenhum time de São Paulo. Fora de Belo Horizonte, certamente nosso referencial era unicamente o Rio de Janeiro. Seria aleivosia contra os paulistas por causa das desavenças políticas do “café com leite” ou, mais recentemente, por causa da Revolução de 30 e a derrota dos paulistas na sua pretensa e fantasiosa revolução constitucionalista de 32[3]? Provável. Evidentemente, durante este tempo de menino dos 7 aos 10 anos, não poderia jamais atinar sobre esta motivação política.

O certo é que somente jogadores mineiros e cariocas ficaram gravados em minha mente. Curiosamente hoje sou cruzeirense (influência de meu irmão mais velho, desde adolescente palestrino doente e, mais tarde, cruzeirense, apelidado de Raposão), mas naquele tempo devia ser atleticano, pois do Palestra só me lembro de Geninho e Caieira, mas do Atlético sabia a escalação praticamente inteira: Kafunga, Raul e Quim, Selado, Lola e Bala. Alcides (?), Paulista (?), Guará, Nicola e Rezende.

Os times, profissionais ou amadores, eram escalados desta forma: 1 - 2 - 3 - 5. Muitos anos depois é que surgiu a modificação WM criada pelo escocês Chapman com o objetivo de ocupar mais espaço no campo e dar mais dinamismo ao jogo. O W se referia ao desenho dos jogadores da frente e o M ao posicionamento da defesa e meio de campo. O sistema implicava a intercalação das pernas do M no meio do W. Parece que o introdutor desse sistema revolucionário no Brasil foi o técnico Martim Francisco, mas o modificou, criando o 1 - 4 - 4 - 2, quando treinava o time do Vila Nova, de Nova Lima, por sinal campeão naquele ano. Foi a origem dos sistemas que vieram nos anos seguintes: 1 -  3 -  4 - 3; 1 - 3 - 5 - 2… e outras variações, inclusive, a do famoso “carrossel holandês”.

Várias vezes meu irmão me levava para assistir ao jogo do Palestra no campo do Barro Preto.

Disputávamos o campeonato de futebol de botão no campo lisinho de nata de cimento, feito no quintal de seu Chico Ferrão, por seu filho mais velho, o Nonô, bancário do Banco da Lavoura, que, aproveitava o cargo, para trazer pedaços de goma de limpar tipos de máquina de escrever, com os quais se faziam as bolinhas para o jogo.

 

 

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Falar do Nonô, sem lembrar que ele gostava de cantar com voz trêmula imitando perfeitamente Orlando Silva, seu ídolo, seria grave lacuna, figurinha a faltar no álbum de lembranças selecionadas.

 

                Jogo da finca

 

Brinquedos, jogos, campeonato... nesse universo impossível não inserir o “jogo da finca”, disputado na estação das chuvas, para aproveitar a maciez da terra embebida de água.

Finca não era só o nome do jogo, mas também do ferrinho de dois palmos, geralmente retirado dos grossos arames ou dos ferros de construção amontoados no terreiro de casa. Sua ponta era afinada como o fazíamos com a do pião, no cimento grosso do piso. Com ela tínhamos que percorrer um labirinto traçado pelo adversário no chão. De fincada em fincada na terra, ia-se riscando o trajeto até atingir a meta proposta e completar o cerco já traçado. A vitória era de quem fizesse todo o roteiro, sem cortar a linha traçada, nem errar os alvos, muito menos deixar a finca cair deitada.

Nosso “jogo da finca” devia ser invenção nossa, pois era diferente do “jogo da finca” descrito pelo site da internet:

 

FINCA - Jogo de 2 participantes - Atira-se um estilete (feito de pedaço de madeira e ferro afiado na ponta, ou qualquer coisa pontiaguda como uma chave-de-fenda), no chão em um ponto determinado. O jogo se inicia fazendo-se dois triângulos um de cada lado em barro firme  ou  areia  da  praia  (de   preferência   após   chuva).

 

 

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Objetivo do jogo é jogar fincando no chão, alternando vezes, tentando dar a volta no triângulo do adversário e voltar ao seu triângulo. Ao fincar no chão, o jogador faz um risco de finco a finco ligando pontos, direcionando as linhas quebradas até que um consiga fechar, ou melhor ligar o seu lance ao ponto de partida. Observação: não pode fincar em cima da linha do outro ou passar por cima dela.

 

Bente Altas

 

E o Bente Altas? O campo era o espaço de uns 15 metros marcados por nós, na própria Rua Diamantina.

De um e de outro lado, colocávamos a casinha triangular feita de três pauzinhos escorados um no outro, e, ao lado dela, um pedaço de papelão. Dois jogadores de cada lado. Um, com uma bola de pano, feita com meia velha (mãe, a senhora tem para me dar meia de mulher veia? era a frase que dava origem à fabricação da bola e que servia de chacota entre nós) e o outro, com o pé pisando no papelão ou placa — símbolo da marca de partida da corrida. Quando a bola era atirada, o adversário ou defensor tinha de rebater com sem-pulo a bola, com o pé oposto ao que pisava a placa. O lançador ficava tomando conta da casinha, enquanto o outro saía correndo até o posto do adversário e voltava para fazer o ponto. Enquanto o tentava, o jogador, de posse da bola, provavelmente pega no ar, tentava desmanchar a casinha oposta. Quem conseguisse cumprir sua missão por primeiro ganhava os pontos estabelecidos.

Por muito tempo pensei que o Bente Altas era um jogo inventado  por  nós,   moleques   da   Rua   Diamantina.   Tive

 

 

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curiosidade de consultar a Wikipédia e eis o que ela nos oferece:

 

O Bente Altas é jogado entre duas duplas de meninos, que tiram sortes para decidirem quem ataca e quem defende. Cada jogador da dupla inicialmente escolhida como defensora posta-se ao lado de uma das casinhas — colocadas à distância de doze passos, uma diante da outra. Sempre mantendo um dos pés sobre a pá, protegem a sua respectiva casinha com o outro pé, chutando a bola de meia atirada por seu adversário do lado oposto. Caso a bola atinja a casinha, derrubando-a, as duplas invertem as posições de atacantes e defensores. Mas caso a bola seja chutada para longe, os dois defensores fazem tantos pontos quantas vezes trocarem de posição correndo entre uma base e outra: enquanto isso, seus oponentes devem correr atrás da bola, recuperá-la e lançar sobre uma das casinhas, desde, porém, que seu defensor esteja ausente da respectiva pá: durante a partida, se um dos defensores desejar se afastar da pá momentaneamente, só deve fazê-lo recitando a fórmula "Bente Altas, licença para um"! Se não tomar essa precaução, seu oponente pode derrubar a casinha, com a bola, se estiver de posse dela, ou com os pés, se não estiver. Se ambos desejarem se afastar, a fórmula será "Bente Altas, licença para dois"! O jogo termina quando uma das duplas atinge o número de pontos previamente pactuado, geralmente dez ou vinte por partida, ou então quando um dos atacantes tiver a sorte de apanhar no ar a bola que tenha sido chutada por um defensor. Nesse caso o atacante grita "vitória!", abraça-se com seu parceiro e comemora a antecipação do resultado. Esse é  o  maior  feito  que  os  jogadores  de

 

 

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Bente Altas podem almejar. Findo o jogo, outras duplas iniciam sucessivas partidas, formando um torneio que culmina com a consagração da dupla campeã. Outras regras podem ser acrescentadas por prévia convenção ou, ainda, variar regionalmente.

(<pt.wikipedia.org/wiki/Bente_Altas>)

 

Jogo da finca, Bente Altas e outros tantos folguedos de rua espelham, de um lado, nossa liberdade de ir vir, de correr e pular, de estar onde bem queríamos e, de outro, o tanto que nossa rua era agitada, sem a presença dos adultos a nos vigiar. Sim, éramos moleques a nossa maneira. Sempre em grupos e sempre aprontando.

Não pensem, porém, que nos limitávamos ao espaço amplo que a rua nos permitia. Belo Horizonte, na década de 1930, era bem provinciana e relativamente pouco habitada.

Ao redor de nosso bairro da Lagoinha havia locais amplos, onde matagais vicejavam e riachos corriam, alguns chegavam até a se alargar formando poços e pequenas lagoas. Sobretudo para o lado da Cachoeirinha, Aparecida e Pampulha. Era um convite para darmos escapadas e ir nadar.

Foi por isso que peguei “xistose”, o que vim a saber somente no final de 1949, quando, após terminar a Filosofia no Seminário Salesiano de Lorena, fui designado para trabalhar no Colégio São João de São Del Rey.

Como era época de férias escolares, aproveitei a viagem para visitar minha mãe em Belo Horizonte.

Ela me achou muito pálido, meio amarelado e com o ventre entumescido. Levou-me a meu padrinho, o médico Dr. Rufino da Costa Ramos, que desconfiou de que  estivesse

 

 

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com vermes. O doutor pediu exame de fezes. Foi constatado que estava supercarregado (16 cruzinhas) do protozoárioSchistosoma mansoni  produzido pelo caramujo “barriga d'água”.

Era preciso começar urgentemente o tratamento. Fui encaminhado ao Hospital do Radium e o médico que me atendeu era recém-formado, de nome Emanuel Borrocin.[4] Estava iniciando um tratamento novo, considerado na época o mais avançado, à base de tártaro. A droga era injetada em dose cavalar no organismo do infectado. Fiquei internado durante umas duas semanas, tomando a injeção diariamente e tinha que beber muito líquido. O hospital me fornecia somente suco de uva. Tomei tanto que desde então não suporto nem o cheiro.

Durante aquele período em que fiquei internado, só se falava num crime que abalou a cidade. Mais do que a cidade como um todo, o hospital em particular, pois havia um médico envolvido: o crime do Marcha a Ré.

Conforme me lembro, e o confirmo consultando a internet, o taxista Francisco Isoni, apelidado de Marcha a Ré, foi assassinado. Seu carro e seu corpo foram encontrados em pontos distintos da cidade. Motivo do crime: Marcha a Ré teria interceptado uma carta para uma amante, escrita por um médico e professor de Romualdo Neiva, também médico e que passou a tomar as dores do mestre. De posse dessa carta, o taxista passou a chantagear o professor. Romualdo Neiva e seu primo, o motorista José Abraão Guerra, foram apontados como suspeitos do crime. Romualdo ainda indicou outro motorista, Geraldo Gomes da Silva, como o assassino, e este confessou ser o único culpado. Parece que, defendido pelo grande causídico Evandro Lins, o principal envolvido, o Dr. Romualdo Neiva, acabou absolvido.

Quase preso…

 e um carnaval fatídico

 

Crime… prisão? Preso quase fui eu pela radiopatrulha. Estava brincando de patinete na Avenida Antônio Carlos recém-asfaltada. Quando começou o asfalto, nossa alegria era ver o “macadame” [5]— a grande novidade para nós! — alisando o asfalto.  

Naquele tempo havia determinação da Prefeitura de pegar menino que estivesse “molecando” na rua. Uma vez preso, era levado para o abrigo de menores João Pinheiro, onde os pais, caso quisessem, e depois de séria advertência, poderiam recapturá-lo ou lá ficava para ser reeducado.

Eis que surge ao longe a carrocinha da rádiopatrulha. Meu irmão gritou, advertindo-me da aproximação da polícia. Em pânico larguei na avenida o patinete e subi correndo a rampa que cortava o barranco do fundo de nossa casa. Mais tarde meu irmão de criação, o Antônio, recuperou o patinete que fora entregue pela polícia no armazém de “seu” Matos, situado na esquina de Antônio Carlos com Formiga.

Hoje me pergunto: Se havia esta ordem de pegar os “meninos de rua”, por que não aparecia a rádiopatrulha na Rua Diamantina?

Neste turbilhão de lembranças dos jogos que se confundem com a história de nossa infância, vi-me contagiado pela folia de carnaval.

A meninada na rua estava alvoroçada, pois ali, durante três dias seria a nossa festa, com bloco, fantasia, saquinho de confete, lança-perfume, serpentina.

Queria fantasiar-me e, ao mesmotempo, participar do bumba-meu-boi. Tinha de arranjar um arco de aço e nele fixar a máscara com a cara de boi e pendurar o pano colorido para cobrir as pernas.

A máscara foi fácil, pois junto com os irmãos a gente amassava a argila com a figura planejada e deixava secar, depois colocava papel de jornal molhado e a partir da segunda camada, a embebia de grude caseiro, feito com polvilho e farinha de trigo.

Mas o arco como consegui-lo? Eu mesmo tive a ideia, sem contá-la para ninguém. No porão, onde Antônio, meu irmão de criação, construtor licenciado, amontoava peças e mais peças de refugo das demolições, havia um barril. De posse  de   uma   torquês,   consegui   arrancar   o   arco   que

 

 

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contornava o barril. Mas era necessário fazer acabamento, e lá fui para o quarto do Antônio e retirei de sua caixa de ferramentas um martelo de quebrar pedra, pontiagudo e pesado.

Sem outro instrumento mais adequado comecei a martelar o arco para esconder a parte que ficara saliente e poderia me machucar o corpo na hora de pular o bumba-meu-boi.

Na quarta ou quinta martelada, com a mão esquerda segurando o arco, bati com toda minha força, mas, em vez do arco, o golpe me atingiu justamente o dedo polegar da mão esquerda. O ferimento foi grave. Perdi a unha e parte da ponta do dedo.

Só me lembro que, ao ouvirem o berreiro, meus irmãos correram para ver o acontecido. Um deles, o Célio, percebendo a gravidade do acidente, me colocou em suas costas e correu para a farmácia que havia na Rua Formiga. O farmacêutico fez o curativo e me enfaixou o polegar.

Até hoje guardo o resultado de minha imperícia. Fiquei com a ponta do dedo mutilada.

Foi o último carnaval de rua de minha infância. E, para minha tristeza, dele não participei.

Parece que Drummond presenciou a cena, pois retratou seu desfecho, quando escreveu aqueles versos que caíram como luva em mão ferida: Ninguém pergunta mais: / — Você vai brincar no carnaval? / Brincar, irmão, quem pode brincar / se perdida foi a ideia de brinquedo? (C. D. A — Ver e ouvir sem brincar).

Mas a época de carnaval já tinha marcado meus primeiros anos de criança.

Num domingo de carnaval, tia Geralda me fantasiou  de

 

 

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japonês. Devia ter cinco anos.

Estava com ela no bonde em direção à Praça Sete para ver o corso de carros abertos girando em torno da praça e percorrendo a Afonso Pena — a avenida central da cidade, com os foliões sentados nos paralamas ou, se o carro era aberto, em pé, jogando no carro da frente serpentina e confete. Além de contemplar aquelas cenas, iria participar das brincadeiras e folias de rua.

De repente me surge no estribo do bonde um rapaz e me arrebata o lança-perfume e o saquinho de confete que portava à mão.

Ao recordar esta cena e a do acidente do arco-de-barril, concluo que carnaval não era realmente meu hobby.

Desde os oito anos, era convidado por meu irmão mais velho, o Hélio, então com 17 anos, para ouvi-lo cantar os sambas e as marchinhas de carnaval que iriam fazer sucesso naquele ano.

Deitado na cama, com um libreto na mão repassava, cantando para mim, as músicas e comentava sobre as que mais lhe agradavam, as antigas e, sobretudo, as novas. Lembro-me de ter ouvido, além de Jardineira, Pierrô apaixonado, Vestiu uma camisa listada (sic!), marchas e sambas como O meu amor me deixou para semente, Inconstitucionalissamente, Adeus! Adeus!, Meu pandeiro do samba, Tamborim de bamba, Já é madrugada, O tique-taque do meu coração marca o compasso do meu grande amor, Maria o teu nome principia na palma da minha mão, Silêncio! Façam alas, Ordem, respeito e nem um grito de bamba!, Eu gosto muito de cachorro vagabundo que anda sozinho no mundo sem coleira e sem patrão, Anunciaram e garantiram que o mundo ia se acabar,  Já  me  disseram  que

 

 

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você andou pintando o sete, No tabuleiro da baiana tem vatapá, oi, caruru, mungunzá, oi, Meu coração amanheceu pegando fogo! Fogo! Fogo… e tantas outras canções inesquecíveis, a maioria lançadas por Carmen Miranda.

 

Como novilho esquartejado

 

Mas o grave acidente da martelada no dedo não foi o único a deixar marca no corpo e na alma.

Neste momento me vejo, criança de oito anos, como novilho esquartejado em gancho de açougue, dependurado na cerca enferrujada de arame farpado da chácara de seu Chico Ferrão, onde fora cair, ao brincar de “nego fugido”.

Corria do grupo perseguidor, chefiado pelo “capitão do mato”, morro abaixo. Na escuridão da noite, não vi a cerca e, quando atinei, já estava enrolado no arame e fisgado nas suas farpas.

Uma das pontiagudas pontas me entrara debaixo do queixo e outras me rasgaram os dois pulsos do braço e as duas canelas. Ficara bem ensanguentado, berrava e pedia socorro.

Dona Alzira, mulher do seu Chico, logo me tirou daquela crucificação e me carregou para dentro da cozinha para me lavar as feridas e estancar o sangue com água e sal, iodo e rodelas de limão.

Samaritana a cuidar do seu pequeno São Sebastião coberto de chagas vivas. Por não ter levado pontos, as marcas estão até hoje, debaixo do queixo, nas duas canelas e nos dois braços…

 

 

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1º de abril

 

Estou escrevendo e hoje é o dia 1º de abril — o dia da mentira. Esse dia me traz presente nossa vizinha, Dona Silvéria, que tinha fama de feiticeira.

Todo ano, no dia 1º de abril, nos pregava uma que a gente acabava esquecendo durante os trezentos e sessenta dias que separavam o mesmo dia de um ano para o seguinte. Por isso, a mesma peça era repetida e nós, crianças, não desconfiávamos.

Hoje posso rotulá-la de “pastel de mentira”. Ela fazia dezenas de pastéis e os colocava num balaio ou cesta. E da janela de sua casa acenava para os meninos que passavam e lhes oferecia aquela beleza de fritura de palmo e meio. Não falava se era de carne ou de queijo. Se perguntada, respondia: — Adivinha! Quando a gente atacava a guloseima com a fúria da gula de criança ficava logo decepcionado. O pastel era recheado de jornal. Ainda a vejo rindo às gargalhadas da decepção da garotada para exclamar: — Primeiro de abril!

Curiosamente os primeiros a caírem no conto da feiticeira corriam para chamar os demais companheiros de rua, com a intenção de fazerem eco à pasteleira e gozarem os metidos a espertos bradando em coro: — Primeiro de abril!

 

Brincando de papai e mamãe

e ouvindo rádio

 

Frequentando diariamente o velho e decadente sobrado do seu Chico Ferrão, gostava de brincar de “papai  e

 

 

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mamãe”, no quarto escuro do casal, rolando na cama, abraçadinho à Terezinha, sua filha mais nova, caçula como eu e cerca de ano e meio mais velha – ela devia ter 9 anos e alguns meses.

Enquanto nos agarrávamos nus e aos beijos na cama, seus pais, irmãos e demais frequentadores da casa ficavam conversando na sala, a escutar no rádio o programa do Compadre Belarmino ou a ouvir Carmen Miranda, Orlando Silva, Aracy de Almeida, Dircinha Batista, Marlene, Dalva de Oliveira, Francisco Alves, Carlos Galhardo, Nelson Gonçalves, Sílvio Caldas.

A caixa do rádio era de madeira envernizada e semelhante, no tamanho e no formato, a uma gaiola de passarinho. Ficava em cima do guarda-louça, bem perto da escarradeira. No meu tempo de menino, toda sala tinha escarradeira, cabideiro com porta-chapéus e espelho e, na soleira da porta, o estribo de ferro para tirar o barro da sola do sapato.

O rádio era uma raridade naquela época. Em casa ainda não havia. O do seu Chico Ferrão era um dos cinco existentes na Rua Diamantina.

Ao lembrar desse rádio, vem-me a associação com a anedota que seu Chico Ferrão, com jeito de capiau, mas espirituoso, contava para a gente, logo depois da aquisição do aparelho.

Certa vez, um caipira do interior veio à capital. Quando voltou para a roça, a família se reuniu junto ao pé do fogão para ouvi-lo contar as maravilhas vistas na cidade grande. Foi quando falou que a coisa mais admirável vista por ele fora o rádio, a grande novidade que acabara de ser inventada e que só na capital existia. Sua mulher tomada  de

 

 

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suma curiosidade perguntou como era o rádio. O caboclo pelejou para transmitir a ideia do rádio. Descreveu, descreveu, repetiu detalhes e nada de a mulher entender. De repente, já na quinta tentativa, vira para ela e diz triunfante: — Cê tá vendo sua máquina de costura ali, mulher?! Pois bem, o rádio, o rádio, o rádio… para completar, desapontado: o rádio… é completamente diferente.

Como ríamos da piada, mesmo repetida, no mínimo, de duas em duas semanas.

 

Rodando dentro de um pneu

 

De frente à porta daquele bar, próximo ao balcão, onde, de pé, estava saboreando a gelada cerveja, na minha imaginação surgia, como se fosse ali, a Rua Rutilo paralela à Rio Novo, ladeira inclinada que liga a Diamantina à Itapecerica, após cortar a Avenida Antônio Carlos[6].

Seu íngreme trajeto, frequentemente o fazíamos, não em passos de caminhantes, mas disparados, em desenfreada corrida, ou embutidos dentro dum pneu de caminhão, a rodar velozmente ladeira abaixo.

Sim, eu me via novamente o Bubu (o apelido a mim dado pela Chiquinha, desde criancinha de colo por causa do som emitido para pedir bico), filho de dona Zilda, moleque de rua, encurvado dentro daquele pneu, à espera do momento do tranco junto a um muro, para poder sair lá de dentro, são e salvo. Na maioria das vezes com a cabeça quebrada, ou melhor, com corte profundo e extenso no couro cabeludo, a merecer do farmacêutico uns pontinhos, mas não íamos atrás dele, nem ligávamos para a dor do machucado. O curativo era feito em casa, com iodo, algodão e esparadrapo.

No dia seguinte repetiria novamente a façanha, duas, três vezes à tardinha, porque de manhã tinha que estar no Grupo Escolar Silviano Brandão, educandário público e estadual.

 

Dona Amélia — a professora modelo

 

Como fui admitido no grupo jamais esqueci. Menino, sete anos mal completados, levado por minha mãe, me apresento diante da diretora, Da. Carolina, conhecida como dona Neném. O teste de admissão foi colocar uma folha de carta dentro dum envelope. Sinceramente nunca tinha feito aquela tarefa na vida, nem visto os adultos fazerem. Por intuição dobrei a folha em quatro partes e a introduzi no envelope.

Estava aprovado e, no dia seguinte, era admitido na primeira série para assistir às aulas de Da. Amélia. E ver a loiríssima Maria Helena, por quem todos os colegas, apaixonados, declaravam amor no quadro negro, à hora do recreio. Um coração desenhado e dentro dele o MH varado por uma seta. De volta do pátio, ao ver a declaração diariamente repetida, enrubescida e cuspindo impropérios, apagava  furiosamente  nossa  obra  de  arte.   Dona   Amélia

 

 

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fingia de brava e carinhosamente nos chamava à atenção.

Sei que fui um dia "plagiado" por Ataulfo Alves, ao cantar que saudade da professorinha que me ensinou o bê-a-bá e que nos deu tanta lição de vida.

A primeira e a última ficaram gravadas na memória a "ferro em brasa" para jamais jogá-las na cova do esquecimento.

Primeiro dia de aula. Eneida, uma de nossas colegas de sala, chamou a professora de “mamãe”. Demos, todos os alunos, em coro, prolongada gargalhada. Para nós ela estava trocando sua mãe em casa pela professora da escola. Bondosamente, dona Amélia reagiu dizendo: — Por que vocês estão rindo? Eneida é realmente minha filha. E é para mim muita honra que seja ela colega de vocês, porque ela é tão educada quanto vocês todos e vai me dar tantas alegrias quanto cada um de vocês.

Transmitida com tanta oxigenação para nossa autoestima, logo na primeira aula, esta pequenina lição nos revelou a mestra que sabe cativar o aluno desde o primeiro dia. Como gostávamos dela. Com amor quase filial e verdadeira idolatria.

A última lição foi já na terceira série e no dia em que o Arlindo, de família de favelados na Pedreira Prado Lopes, sempre com fama de “doido varrido”, cortou, com gilete de fazer ponta em lápis, a capa de chuva da diretora da escola, dona Neném. Certamente era de náilon, raridade para a época e por isso deveria custar uma fortuna[7]. Quase todos da sala sabíamos que era coisa fina.

A capa ficava dependurada no cabide do canto da enorme porta de vidro de quatro partes, que separava nossa

sala da outra. Ao abrir esta porta, as duas salas conjugadas viravam o auditório da escola.

No dia seguinte, viria o padre da paróquia vizinha ao grupo escolar, para preparar os alunos para a Páscoa. Daria aula de religião e atenderia em confissão todos os que o desejassem. Alguns iriam fazer sua Primeira Comunhão.

Minutos antes de encerrar o turno, entra na sala dona Neném e nos passa verdadeiro sermão, exigindo que o culpado se apresentasse ali naquele momento.

Como ninguém se apresentou, prometeu premiar quem o denunciasse. Vendo o silêncio soturno da sala, saiu com a solução digna de quartel: ela iria cobrar de todos os alunos a cota cabível a cada um, cujo total corresponderia ao valor da capa.

Não contente com esta ameaça, deixou-nos assustados. Caso não delatássemos o autor do delito, no dia seguinte iria perguntar ao padre se o culpado teria confessado o pecado.

Dona Amélia não se conteve e na frente da diretora e diante de todos nós, disse com voz firme: — Senhora diretora, isso não se faz, muito menos se insinua. O segredo da confissão é sagrado. Fora do sacramento da confissão é indigno de uma educadora, mesmo transtornada como está, coagir dessa maneira os alunos, sobretudo por serem menores. Pior ainda, a senhora acaba de pregar a todos nós uma lição negativa de moralidade. Jamais se deve estimular e muito menos premiar o delator. Se a senhora está preocupada com o preço da capa, eu assumo o compromisso de pagar em nome da própria escola. Pode mandar descontar o valor no meu salário.

Na semana seguinte, dona Amélia fora substituída por dona Santinha, que além de professora severa, chefiava uma agência dos Correios na Rua Formiga. Como educadora era bem medíocre e estava a léguas de distância da substituída.

Mas, entre a primeira e esta última lição, não posso deixar de contar episódio ocorrido logo depois que aprendi a ler.

Cheguei radiante a minha casa falando para todo mundo que já sabia ler.

Minha irmã mais velha reuniu todos da família para valorizar o grande acontecimento e mostrar a prova do feito alcançado. Pegou no jornal O Diário, que estava sobre a mesa da sala e abriu em determinada página, onde em letras garrafais estava escrito na ortografia da época um anúncio com o título: OPHICINA DE MECHANICA. E o recém-letrado leu com entusiasmo O-pi-ci-na de me-xa-ní-ca… A risada geral emoldurou o quadro em que se estampava frustrantemente minha primeira conquista na vida.

Qual raio de luz o tempo passou. Vinte anos depois do acidente referido como primeira lição de vida, dada por Dona Amélia, fui tirar minha carteira de identidade na Secretaria do Interior, na Praça da Liberdade.

Fui atendido por uma funcionária, atrás do balcão de recepção. Ao ler meu nome no meio da papelada, logo se dirigiu a mim: — Você foi meu colega no grupo Silviano Brandão, talvez não se lembra.

Conversa vai, conversa vem, ao frisar que considerava Dona Amélia a inesquecível mestra que todo adulto recorda como símbolo  de  professora  por  excelência  do  tempo  de

 

 

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criança, lembrei o episódio de sua filha ao chamar de "mamãe" à Dona Amélia e provocar a risada da turma. Para meu espanto a funcionária me declarou: — Pois eu sou a Eneida, a filha de Dona Amélia! Como é a vida. Vinte anos depois!

 

Esta sim é de amargar

 

Não sei se intelectualmente fui aluno que se destacasse entre os demais naqueles anos de escola primária. Uma coisa é certa: desde cedo era frequentemente escolhido para participar das festas escolares, ora para declamar poesia, ora para ler discurso. Foi o que aconteceu, quando comemoramos o Dia do Aviador. Nossa professora já era Da. Santinha. Uma semana antes, ela me encarregou de ensaiar o “discurso”, treinando, em casa, a leitura de uma reportagem sobre os aviadores brasileiros. Creio que foi retirada da revista O Cruzeiro. Levei para casa dobrada no bolso traseiro da calça. Esqueci de retirá-la, quando cheguei. Dois dias depois é que me lembrei e fui atrás do recorte da revista. Ninguém sabia onde estava. Comecei a chorar, tal o medo de enfrentar a severa Da.Santinha.

Depois de muito procurar, minha mãe encontrou no tanque o papel todo molhado e quase ilegível. Estava ainda dobrado no bolso da calça. Sorte que naquele dia nos visitava meu primo Alaor, irmão da Lourdes que morava conosco. Ele, como sua irmã, tinha uma letra muito bonita. Conseguiu transcrever o que pôde. Só sei que o texto ficou bem menor do que o original.

Mas deu para ser lido perante o coronel da Aeronáutica,  homenageado   como   representante   de   sua

 

 

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classe. Lembro-me bem de uma frase referente ao voo sobre a selva amazônica. Descrita como muito fechada, sem nenhum referencial (naquele tempo os nossos aviões não tinham a aparelhagem de hoje), o articulista dizia: Esta sim, que é de amargar. Justamente a frase aproveitada pelo aviador para, em seu agradecimento, enaltecer a coragem de seus pares. E o fez aludindo ao aluno que tinha lido o discurso.

Se o momento era sagrado e raro para as recordações dos “tempos que não voltam mais”, não poderia privilegiar umas e deixar outras sepultadas na tumba do esquecimento. Esquecimento, tumba, Deus meu!, por que me vieram com toda força os versos do poeta (creio que Tobias Barreto)? No meu sepulcro não terei as rosas / as doces preces que os felizes têm / pobres ervinhas brotarão viçosas / e o esquecimento brotará também?…

Não, não me era dado o direito de esquecer aquela rua com tudo o que significou para mim e para todos que partilharam do mesmo mundo infantil. Sua recordação, porém, era a de uma sepultura de tristes saudades.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                           

 

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2

 

 

 

                 Eu conto o meu presente.

Com volúpia voltei a ser menino

 

(Carlos Drummond de Andrade, Intimação).

                              

 

 

 

Seria aquela a rua

da minha infância?

 

De repenteLalau me pegou pelo braço e num misto de ansiedade e expectativa me convidou: — Vamos lá? Vamos rever nosso passado! Seus olhos brilhavam. Acedi. Fomos em sua Vemaguete, conservadíssima, apesar de mais de vinte anos de fabricação.

Chegamos à Rua Diamantina. Já não era evidentemente a mesma. Casas e casas que conhecíamos na palma da mão já tinham sido substituídas por esguios arranha-céus. O próprio calçamento da rua já não era de pé-de-moleque. O asfalto o tinha coberto. Os postes já não eram tubos de ferro (onde batíamos a pedra para contar o tempo de espera do “nego fugido”). Em seu lugar, enormes colunas de concreto.

 

 

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Nossa pacata rua, onde a criançada dominava, estava transformada numa via com intenso movimento de carros e ônibus. E de lado a lado as calçadas diminuíram de largura para dar vazão aos veículos. Não se via uma criança brincando. Mal e mal um ou outro adulto a caminhar pelo que restou de passeio.

No tempo de nossa infância, o pai de Lalau era delegado da polícia civil e morava no fim da Rua Diamantina quase esquina com Formiga, onde passava o bonde da Lagoinha, a ligar o bairro até a Praça Sete bem no coração da cidade. Lembro-me nitidamente dele, o “doutor delegado”, tão temido pelos meninos e tão respeitado pelos maiores.

Certa vez cortou, à faca, nossa bola de futebol. A única que tínhamos para jogar pelada de rua.  Só porque ela bateu na porta de seu Ford Bigode, quando ele o dirigia vagarosamente para entrar na garagem.

Sobretudo me lembro da mãe de Lalau. Dona Lúcia era uma mulher maravilhosa, cabelos pretos, longos e cheios. Gostava de prendê-los atrás ou enrolá-los em coque. Quando os soltava, eles se tornavam moldura de belo rosto moreno claro, sempre meigo e sorridente. Iluminado por um par de olhos negros brilhantes como pérolas noturnas. Sinal de que estava de bem com a vida todas as horas de todos os dias. Parecia dessas virgens angelicais que acontecem sair da serenidade de um altar para marcar a infância da gente. Em nossa imaginação era verdadeiramente linda e santa ao mesmo tempo. Ao menos para nós, meninos, se tornara a bondade encarnada em esbelto corpo, que, outrora, certamente fora anjo no céu e descera à terra para nos encantar.   Sempre   misturei   a   beleza   feminina    com    o

 

 

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misticismo dos anjos. Será que sexo e religião fundem-se com facilidade em toda mente infantil?

Mais bonita que ela só minha mãe, cujo queixo macio eu gostava de apertar e de rir da careta carinhosa que fazia. Pena que o olhar de minha mãe era mais sofrido. Por certo refletia a tristeza da viuvez em plena mocidade. Ou, parafraseando Drummond, a noite que lhe caiu na alma, a tornou triste sem querer, qual sombra que veio vindo e a abraçou com tanto amor… e riu devagarinho, lhe disse adeus

Pensando mais na mãe do que no pai, Lalau fez questão de parar em frente ao portão de sua antiga casa. Era ainda a mesma. Envelhecida, mas conservada. Pareceu-me menor do que a conhecida em minha infância. Então, simplesmente imensa. Bangalô de dois andares. Estilo belle èpoque. Para toda criança tudo é grande e, quando se cresce, se apequena.

Seu pai era o segundo homem mais rico da rua. O primeiro era o marchante Menezes, cuja mansão ficava do lado oposto, mais distante e em local mais alto, vizinha do carcomido sobrado de seu Chico Ferrão. Com viveiro à frente da casa, sobre a garagem, com muitos pássaros e passarinhos dentro. Entre eles a araponga, com seu grito mais agudo que o de apito de trem a martelar nossos ouvidos. Era escutado de longe, desde o começo até o fim da rua. Nunca mais vi araponga. Será que a espécie acabou?

O marchante Menezes vivia ora na fazenda, ora naquele enorme casarão. Seu filho Aristides, mais boiadeiro que o pai, frequentemente cruzava a Rua Diamantina guiando boiada. Parava algum tempo diante da casa do pai e depois  continuava  conduzindo  o  rebanho   em   direção   a

 

 

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algum matadouro ou de outra fazenda na direção de Engenho Nogueira. Apesar de estarmos morando na capital do Estado, assistir a boiada passar pela rua era um misto de festa para a criançada e, ao mesmo tempo, fato corriqueiro para os adultos.

O filho mais novo — o Chiquinho — era o único da família que participava de nossos folguedos de rua.

Vi que Lalau, olhos marejados, segurou, com as duas mãos, o portão de ferro e como se estivesse a abraçar a cabeça da idolatrada mãe, beijou-o comovidamente. O beijo do filho à saudade da mãe simbolizada no portão. Naquele momento e naquele gesto, se reproduzia, por certo, a cerimônia do adeus, acontecida há mais de vinte anos.

 

Diante da antiga casa

 

Em seguida, levou-me até onde morei, cerca de quadra e meia de distância. Bem defronte ao "sombrio castelo" de seu Chico Ferrão. Ali brinquei mais do que em minha própria casa. Olhei para revê-lo. Não mais existia. Em seu lugar estava plantado esguio prédio de uns dezesseis andares.

Estranhamente não me causou surpresa. Surpresa foi justamente ao voltar o olhar para meu antigo barraco e constatar que era o mesmo e estava no mesmo lugar. Respeitado como era. Corrijo: respeitado não, esquecido. Parecia que estava a me esperar. Tão humilde que não podia compará-lo com o bangalô de Lalau.

Dizer que durante todo o tempo em que fomos crianças, adolescentes, jovens e adultos, nossas casas jamais foram objeto de discriminação social. Na rua todos nos igualávamos. Ali,  junto  de  Lalau,  voltei  a  sentir  o  mesmo

 

 

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nivelamento. Não fosse delírio, diria que a casinha, onde vivi minha infância, fora tombada pelo patrimônio histórico, pois era a mesma em todos os detalhes. Situada bem abaixo do nível da rua.

Curiosamente para atingir a porta de entrada da casa de Lalau, bastava subir pequena escada, mas para entrar em nossa casa, era preciso descer verdadeira escadaria. E ambas construídas do mesmo lado da rua. Topografia típica de Belo Horizonte: na mesma rua, à esquerda os edifícios estão situados em terreno aclive, e à direita em declive ou vice-versa, e, quase sempre, a metade da rua é subida e a outra metade, descida. Para a maioria das ruas este acidente geográfico se repete várias vezes e frequentemente um de seus trechos vira verdadeiro tobogã. Nossa escada era atijolada, de uns vinte degraus, e ligava o passeio ao acanhado alpendre de entrada, situado bem abaixo.

Pediu-me para repetir seu gesto. Apenas com o fito de agradar-lhe, sem o mesmo sentimento que possuía, beijei o portão de madeira e com tristeza olhei para aqueles degraus.

Enquanto depositava o beijo forçado, a visão da orfandade, da pobreza, da quantidade de gente a viver amontoada lá dentro, transformou-se num bumerangue e atingiu-me de cheio.

Em fração de tempo, me vi subindo e descendo a escada e, ao lado dela, à esquerda, antes de chegar à cerca que nos separava da casa de Dona Silvéria, a “feiticeira”, estavam lá a pilha de tijolos e o monte de areia depositada por nosso irmão de criação, o Antônio, pedreiro e mais tarde construtor licenciado.

Alguns  duvidam  da  capacidade  de   memorizar   cenas

 

 

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ocorridas aos dois e três anos de idade. Mas sou capaz de contrariar essa pseudoteoria psicológica. Devia ter essa idade, pois, pelas minhas contas, a morte de pai me pegou com dois anos e dois meses. Diluída lembrança tenho dele me olhando da janela da sala para um largo pátio (provavelmente o amplo passeio da Avenida Contorno onde nasci) e dentro de uma roupa parecida com a de marinheiro, de casquete do tipo hussardo, lá estava eu sendo colocado por meus irmãos em cima do Piquira, cavalinho que pertencia à coleção de cavalos de meu pai.

Pouco depois ele deve ter morrido, e mãe herdou a casa da Rua Diamantina, por ele comprada, certamente pensando em seus cavalos, pois o comprido terreno íngreme ia até a Rua Itapecerica (naquele tempo a metade ainda não tinha sido desapropriada para a construção da Avenida Antônio Carlos).

Menos que casa, um barracão. Construção bem antiga. As paredes eram de adobe (só o quarto que o Antônio construiu para si era de tijolo). Pintada de branco com as portas e janelas azuis.

O pequeno alpendre na frente da casa, por onde se entrava para a sala de visita era de cimento vermelho. Na cozinha o fogão era de lenha e a fumaça era conduzida por uma manilha que se projetava por cima do telhado - a chaminé. Este fogão por muito tempo foi meu cantinho preferido. Ficava sentado na parte junto às lenhas já transformadas em tições de fogo, a aguardar o café com leite (sem nata!) e meu pãozinho com banha, pois manteiga foi um luxo que minha infância pouco viu.

No banheiro não havia chuveiro. Todos tomávamos banho numa imensa bacia que ficava  encostada  na  parede.

 

 

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Antes do banho se jogava álcool na bacia e se ateava o fogo. Era o ritual para desinfetá-la.

Para lá mudamos alguns meses após a morte de meu pai. É o que suponho. Como se fosse agora, ainda me vejo menino, com a mesma roupa de marinheiro, cabelos longos como as crianças usavam na época, descendo do bonde na Rua Formiga e caminhando pela Rua Diamantina, de mão dada  com minha mãe junto com o Antônio e os irmãos para visitar a casa para a qual iríamos, em breve, mudar.

Foi ali, junto àquele monte de areia, que já não mais existe, que pouco depois da mudança, mal completados os três anos, estava a brincar e, ao tentar subir o monte, me deu dor de barriga; ao soltar os gazes reprimidos no intestino, eles saíram vestidos e me sujei todo. Corri para a Chiquinha a fim de ser limpado.

Com esta completam-se três cenas ocorridas na vida de uma criança na faixa de dois a três anos e até hoje gravadas na memória. Além dessas, uma ou outra surge, de vez em quando, menos nítida, sem contorno definido, tal qual uma aquarela borrada pela água do esquecimento.

Ao lado de Lalau, colado ao portão, revejo a sala de visita, onde dormia, no chão, um dos irmãos mais velhos. Saindo dessa sala, o pequeno corredor, que à esquerda dava ao quarto de mamãe e das demais mulheres, ao todo cinco, com três camas emparelhadas com as cabeceiras na mesma direção da rua. Era ali que dormia, junto com a Chiquinha, no colchão estendido no chão.

Como gostava de contemplar, desde esse chão, as frestas do sol recém-raiado, projetando qual cinema as sombras das pessoas e das carroças que passavam na rua. Era meu cinema particular.

 

 

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Foi naquele quarto que passei os piores dias de minha infância, quando tive de ficar umas três semanas de cama, depois da operação de fimose. Como doía e ardia meu pinto circuncidado e inflamado, sobretudo na hora de urinar!...

Saindo do quarto das mulheres em direção à cozinha ficava à direita do corredor a sala de visita, logo à esquerda, o quartinho, onde dormiam outros dois irmãos. Tinha janela bem baixa que pulávamos com facilidade para ir brincar no quintal ou subir nas mangueiras.

Numa dessas correrias é que ouvi pela primeira vez a palavra choque para designar a dor proveniente de uma pancada. Délio meu irmão, ao saltar, resvalou o braço de apoio e bateu com força o cotovelo no peitoril da janela. A dor aguda o forçou a gritar: — Ai! Ai! Levei um bruto choque. Até então entendia como choque a dor resultante da descarga elétrica produzida por curto circuito. Daí minha reação: — Oh! mano deixa de inventar. Você não encostou em fio nenhum!… — É, seu burro, tanto faz um como o outro, nos dois casos é o nervo que é afetado.

Esta janela ficou para mim emblemática como narrei em "A sesta de um padre pedófilo", escrita em O Cavalode São Roque. Carece de repetir o episódio.

À direita do corredor, mais à frente e diante de pequena copa, outro acanhado quarto, o do Antônio, irmão de criação, acolhido por meu pai, pouco depois de casado. Protótipo do amigo fiel, que o substituiu como provedor da casa, já no dia seguinte à sua morte, devotando à minha mãe a mais pura amizade e o maior respeito que tangenciava a servidão. Fiz questão de homenageá-lo na quinta “quase memória” de O Cavalo de São Roque e que serviu para título ao livro.

 

 

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O chão da copa e o da cozinha, ambos cimentados de vermelhão, estavam reservados para dormirem dona Jove, mãe da Chiquinha, e Sá Rita, antiga escrava de meu bisavô e por ele alforriada para ser confiada à minha avó, Dona Isabel Libero Vieira, de apelido Belica.

Não sei por que motivo Sá Rita havia tempo que morava com a gente, mas quase sempre estava na casa de vovó. Devia ter ajudado a criar minha mãe. Provavelmente naqueles dias ela precisava de seus serviços.

 

Tudo e todos surgem

em tropel

 

Naquele momento, ao debruçar-me sobre o portão, mãe, meus irmãos, o Antônio, enfim todos apareceram em bloco. Aquele portão, aquela escada... Ah! A escada! Sentada no penúltimo degrau, ali está mamãe, e eu no seu colo. Com carinho está catando os piolhos que infestaram minha cabeça e eu a ouvir os estalos das unhas a massacrar um por um. De outra feita, devia ter quatro para cinco anos, no mesmo lugar, já não estou no colo de mamãe, mas deitado de barriga para baixo sobre as pernas de uma benzedeira, muito gorda que, depois de esticar e medir minhas pernas, estava me curando de “vento caído” (na verdade ventre caído). Costurava com agulha e linha sem nó na ponta um saquinho recheado enquanto rezava: Se tens o vento caído/ com a graça de Deus / te seja erguido. / Se tens o baço virado / que volte ao seu lugar / como dantes sarado. Aquela escada devia ser conservada em museu. Junto com a Rua Diamantina se identifica plenamente com minha infância.

 

 

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                                      A noite em que fui assaltado

 

Fora ali, ano e meio depois de minha saída do seminário, que sofri o primeiro assalto de minha vida. Apesar de hoje ser comum ser assaltado na rua ou dentro de casa, naquele tempo era raro.

Para sobreviver, a partir da segunda semana de minha chegada a Belo Horizonte, logo depois de me ter secularizado, trabalhava no curso pré-vestibular Champagnat, lecionando Português.

Morava com meu irmão naquela mesma casa, onde vivi dos três aos dez anos. Ele estava casado e tinha quatro filhos.

Naquela noite, ele ainda não tinha chegado em casa. Gostava de passar pelo bar para tomar sua cerveja e conversar com os amigos até alta noite.

Eram mais ou menos 23 horas. Acabara de descer do lotação na Avenida Antônio Carlos. Subi a Rua Rutilo para pegar a Diamantina.

No momento em que pus a mão no portão para abri-lo, como se estivessem saido do chão, surgiram três indivíduos, dois com revólver e um com punhal. Agarraram-me pelas costas com um golpe de gravata e exigiram todo o dinheiro que tinha no bolso. Inexplicavelmente não me apavorei. Tirei a carteira do bolso do paletó e lhes entreguei. Tinha mais ou menos o correspondente a 200 reais de hoje. Ao lhes dar a carteira ainda pedi: — ao menos os documentos vocês podem me devolver, pois não precisarão deles. O que me pareceu ser o chefe, concordou: — devolve os documentos pro moço. Logo em seguida arrebataram de minha  mão  a  pasta  com   livros   e   saíram   em   disparada

 

 

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descendo a Rua Rutilo, a mesma que minutos antes acabara de subir.

Mal fiquei só, senti toda a reação de medo até então contida. Num ímpeto como estivesse sendo empurrado pulei a escada de uns vinte degraus até a varandinha de frente de casa e gritei para minha cunhada: — Elza, Elza, abra a porta, por favor. Acabo de ser assaltado aqui no portão. Ela viu meu apavoramento. Trouxe um copo d’água e me aconselhou: — telefone para a polícia. E me deu o número 2424. Tremendo ainda disquei uma, duas, três vezes… Nada.  Estava discando o número sem o prefixo 2. Então, ela mesma digitou os números e do outro lado da linha me atenderam.

Relatei ao policial todo o assalto nos mínimos detalhes. Ele me mandou aguardar. Em breve uma rádiopatrulha chegaria à minha casa. De fato, dez minutos depois bateram à minha porta. Pediram para eu entrar no carro e acompanhá-los. Um dos detetives disse para o outro: — Se eles desceram a Rua Rutilo provavelmente foram até o cruzamento da Antônio Carlos com Formiga, onde tem um ponto de táxi. Fomos até lá. Ao chegarmos, o mesmo policial indagou ao primeiro taxista que encontrou se não tomaram táxi ali três homens e os descreveu como lhes havia feito. — De fato faz alguns minutos tomaram o carro do Seu João. Daqui a pouco ele deve estar chegando. Mal terminara de falar, o táxi de seu João apontou na Rua Formiga e deu entrada no ponto de táxi. Seu João contou ao policial que largara os três indivíduos num restaurante situado na Avenida Afonso Pena, esquina com Curitiba. Disseram que iam jantar. Antes de decidirem, discutiram muito entre si até resolverem o lugar  de  ficarem.  A  rádiopatrulha,  ainda  me

 

 

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levando, se dirigiu para o referido restaurante. No local, vimos os garçons a empilhar as cadeiras em cima das mesas para a faxina. Já tinham descido duas das quatro portas de aço. Um dos policiais indagou aos garçons se não entraram ali os três homens procurados. Negaram, dizendo que ninguém ali entrara e que por isso resolveram fechar o restaurante, dado o adiantado da hora. Ao que raciocinou o policial: — Foi um despiste. Falaram para o taxista acreditar e tomaram outro rumo.

Convidaram-me a ir com eles até a Central de Polícia que funcionava no último andar da Secretaria do Interior na Praça da Liberdade. Pediram-me que fizesse, por escrito, a ocorrência do assalto. Fiz longa peça fornecendo detalhes do biótipo de cada um, da fisionomia, tipo de roupa usada, tudo dentro da possibilidade de um relato fiel naquelas circunstâncias. Elogiaram a redação, aproveitada pelo repórter do Diário da Tarde no dia seguinte e me cumprimentaram antes de me liberar. Providenciaram um jipe para me levar em casa. Poucos minutos depois de minha chegada bateram na porta. Eram os mesmos policiais da rádiopatrulha. Contaram-me que estavam continuando a busca dos assaltantes quando, ao passarem novamente pela Rua Rutilo, foram abordados por um senhor com uma pasta encontrada por ele no jardim de sua residência. Mostraram-me a pasta. Era de fato a minha. Não a entregariam naquele momento porque deveriam deixá-la na Delegacia do Bairro para averiguações, tirar impressões digitais e tentarem a identificação dos assaltantes. Dentro de uns três dias poderia ir lá buscá-la.

O assalto tinha sido numa quarta feira. No domingo seguinte, de manhã, ao abrir o Estado de Minas deparo  com

 

 

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longa reportagem policial, ilustrada com várias fotos: a polícia tinha enfrentado, no dia anterior, sábado, à tarde, uma quadrilha de assaltantes na zona boêmia da Rua Guaicurus. Houve tiroteio de ambos os lados e, ao final, os três ladrões foram mortos.

Ao ver a fotografia dos três logo os identifiquei: eram os mesmos que me tinham assaltado. Um deles, o de rosto sardento, o mais alto e o único claro dos três, era filho de um enfermeiro de Juiz de Fora. Havia entrevista do pai aos repórteres, lamentando a sorte do filho que abandonara o bom caminho e entrara para a senda da criminalidade.

Ao término da leitura só pude respirar e agradecer aos céus por ter escapado vivo.

 

                                      Vó Belica

 

Aquele portão, num processo psíquico que não sei explicar, me fazia projetar e, ao mesmo tempo, introjetar lembranças, histórias... Força estranha me fazia rever os meus como até então jamais me acontecera.

Eis que, de repente me surge vovó Belica. Não na calçada, nem na escada, nem na varanda, mas dentro da sala. Estava de visita à minha mãe. Daí a pouco entra tio Braz, acompanhado de sua recém-declarada noiva, a Corália, descendente de família importante – a de Noraldino Lima, de São Sebastião do Paraíso. O velho político tinha sido interventor no Estado, na época getuliana. Braz residia naquela cidade havia alguns anos, onde exercia a profissão de veterinário. Lá conhecera Corália.

Estava a oficializar o noivado e a apresentar a noiva à família. Depois de  muita   conversa,   casa   cheia,   comes   e

 

 

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bebes, chegou o momento da despedida.

Mal os noivos saíram, vó Belica fez verdadeira arenga contra aquele futuro casamento. Tanto se envolveu emocionalmente que acabou tendo um ataque e caiu rígida no chão da sala. Pura histeria, digo hoje. Ou era epiléptica e nunca fiquei sabendo? Todos acudiram abanando, trazendo copo d'água e tentando acordar minha avó. Foi erguida do chão.

Mãe me chamou a um canto e me mandou ir correndo atrás de tio Braz. Sabíamos que ele iria pegar o bonde no ponto final situado na Rua Formiga, pouco depois da esquina com a Rua Diamantina. Ainda cheguei a tempo de vê-lo sentado no bonde ao lado da Corália. Pouco antes de o bonde partir, transmiti o recado. Não me lembro se ele voltou comigo. Provavelmente que não, pois devia saber como era sua mãe.

Mas o que presenciara confirmou como não era normal minha querida vó Belica. Nenhum filho seu podia casar, pois isso significaria cortar pela segunda vez o cordão umbilical que unia o filho não mais ao útero materno, mas ao egoísmo ou ao egocentrismo de uma mãe que se julgava dona de seus rebentos e deles não conseguiria nunca se separar.

Não tenho vergonha de confessar: adorava minha avó, mas hoje sou capaz de entender. Ela devia sofrer de algum distúrbio psíquico. Posso estar equivocado, mas lembro ter ouvido de minha mãe que vovó, grávida de sua filha caçula, de apelido Lulu (nunca fiquei sabendo seu verdadeiro nome), por causa de uma desavença com meu avô, para dele se vingar, tanto golpeou com a frigideira sua própria barriga que a criança nasceu prejudicada.

Lembro de tia  Lulu,  presa  numa  espécie  de  gaiola,  o

 

 

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quartinho em que vivia, feito um bicho, toda descabelada, suja, o ambiente com cheiro forte de urina, batendo lata e soltando grunhidos. Ela não conversava. Vivia apenas vida vegetativa. Sá Rita, a criada e ex-escrava, era quem cuidava da Lulu. Triste lembrança que tenho não só dela, mas de muitas outras circunstâncias a envolver o convívio familiar.

 

Marcada pelo destino

 

De lembrança triste, há ainda a de minha irmã caçula, a Cidinha.

Mal terminada a construção da Avenida Antônio Carlos, era comum, aos domingos à tarde, todos irem para lá. Os adultos ficavam sentados no gramado central da avenida e nós crianças aproveitávamos para brincar de correr e nos jogarmos na grama.

Cidinha sempre fora uma criança muito frágil. Única loura dos irmãos. Nascera dois meses e meio depois da morte de pai.

Numa dessas brincadeiras na avenida, ela foi vitimada por terrível doença. No início se julgou que era cobreiro. Mas, em pouco tempo, o mal se revelou de maneira brutal. Não era cobreiro, era fogo selvagem. Ficou acamada. Médicos foram chamados e nada de se curar. Mãe forrava a cama com folhas de bananeira para ela poder deitar-se sem ferir mais o corpo coberto de chagas.

Como só ia piorando, acredito que mãe apelou para o sobrenatural. Entregou-a nas mãos de alguma santa de sua devoção e recorreu ao padre José da Nóbrega, coadjutor na paróquia da Lagoinha (mais tarde deputado federal e autor de livros de ajuda espiritual).

 

 

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Ficou muito vivo na minha memória, numa das aulas de catecismo dadas por aquele padre, o dia em que ele abordou o tema da extrema-unção e falou para mim diante dos outros coleguinhas que era o sacramento que ele tinha acabado de aplicar em minha irmã.

Não sei se foi a tal de extrema-unção, se as rezas e promessas de minha mãe ou se medicamentos usados pelos médicos, o fato é que depois de meses de sofrimento, Cidinha recebeu alta e voltou a brincar conosco.

Acredito até que a cura a tornou gulosa. Mamãe costumava mandar-nos, os dois, comprar carne no açougue. Por causa de nossa pobreza, geralmente trazíamos carne de segunda, para fazê-la de panela ou para engrossar a sopa da tarde. No caminho de volta, Cidinha, pegava o osso e retirava de dentro o tutano para comer cru. 

Esta irmã parecia marcada pelo destino para enfrentar o pior.

Certa vez saímos, ela e eu, para visitar vovó, que morava na Rua Bonfim, perto do cemitério. Curiosamente gostava de ir lá, para, da janela, à noite, ver o fogo fátuo que desprendia das sepulturas. Talvez para satisfazer esse desejo e convencer a Cidinha do que via, a convidei a ir comigo. Um trajeto longo, mas divertido. Tínhamos que subir e descer ruas. Da Rua Diamantina descíamos a Rua Rutilo, cruzávamos a Avenida Antônio Carlos e chegávamos à Rua Itapecerica, onde terminava a Rua Rutilo. Em seguida subíamos a Rua do Serro até seu ponto mais alto. Daquele ponto começávamos a descer um longo quarteirão até chegar à Rua Bonfim. Foi justamente nessa descida final que Cidinha disparou em desembalada corrida. Comecei a gritar para ela ir  mais  devagar.  Não  chegou  a  me  escutar.   Mal

 

 

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atingiu a esquina de Serro com Bonfim, eis que veio um carro (coisa raríssima naquela época) pela Rua Bonfim e a atropelou. Ela foi atirada a uns dois metros. Sorte que foi socorrida pelo próprio motorista que a levou para o Pronto Socorro.

Assustado, tive que voltar correndo para casa e contar o que ocorrera. Só estavam a Chiquinha e sua mãe, Dona Jove. À tardinha é que mamãe, meus irmãos e Antônio ficaram sabendo. Meu irmão Célio trabalhava numa loja de roupas. Ao chegar em casa, contou-nos que seu patrão, à tarde, voltara abalado, porque tinha atropelado uma menina. Só então é que ele ligou os dois fatos, e deduziu que a atropelada era nossa irmã e o atropelador, seu patrão.

Algumas horas depois, para alegria de todos nós, Cidinha teve alta. Apenas algumas escoriações pelo corpo restaram da não consumada tragédia.

 

A morte de vovô

 

Doenças, tragédias em nossa mente rapidamente se associam à morte. A primeira vez que a senti viva (vale o paradoxo!) em minha família foi no dia em que vovô morreu.

Estava brincando na rua perto da venda do seu Juca. Foi ele que me chamou e me deu o recado para transmitir a minha mãe. Acabara de saber da morte de vovô pelo único telefone da rua, que era o de sua venda. (Parênteses: este episódio revela como todos éramos conhecidos na rua, inclusive pelos adultos e, ao mesmo tempo, a solidariedade de um comerciante para com seus fregueses. Esta, a nossa rua Diamantina: extensão da família de cada um para formar nova família). Corri para contar à mamãe.

Na realidade, era o único avô que conheci. Frequentemente aparecia lá em casa, num uniforme que para mim, criança de seis, sete anos, era de militar, mas na verdade era o de estafeta do correio. Meu querido vô João infelizmente não mais nos viria visitar.

Até então sabíamos que estava com os dias contados. Mais de mês sofria, sem poder levantar da cama. Muitos podem achar que menino não sente a dor da morte. Ao menos eu senti e muito: algo estranho dentro da gente, mistura de coisa boa com ruim.  Difícil de conceituar. Dói sem ser dor física. Será que foi saudade que senti, sem saber o nome?

A figura de vovô foi marcante em minha infância, pois suas visitas eram sempre aguardadas e eu ficava todo lisonjeado, quando ele me acarinhava, colocando-me sentado em sua perna, me dava balas e me deixava brincar com seu quepe. Para mim ele era muito magro e muito alto. Foi o que me ficou de seu perfil.

Pouco depois de seu falecimento, em circunstâncias semelhantes ouvi duas notícias que correram de boca em boca pela Rua Diamantina, enquanto lá estava brincando.

Alguém as ouviu no rádio de sua casa e as repassou para quem estivesse pelas imediações: — o papa morreu (era Pio XI) e dias depois: — começou a guerra. Esta última sempre acreditei fosse acontecida no máximo uma semana depois da morte do papa. No entanto, verifico que Pio XI morreu em 10 de fevereiro de 1939 e a guerra começou em 1º de setembro do mesmo ano.

 

A traição da memória, ao confundir uma semana com sete meses, deve ser comum para um adulto, sobretudo se ancião, quando pretende voltar ao tempo de criança...

Nosso barracão era

 como coração de mulher

 

Depois  da  morte  de  vovô João, vovó Belica com tia Geralda, tio João (rapazinho, pouco mais velho que meu irmão Célio), tio Chico, e tia Lulu (a deficiente mental que vivia batendo lata) e Sá Rita (a mucama herdada por vovó) vieram morar lá em casa.

Como aquele barraco de sete cômodos, já habitado por onze pessoas, comportou tanta gente, hoje não sei explicar. Será que era como coração de mulher: “sempre cabe mais um”, como dizem as más- línguas? Ou, então, com todo o respeito não poderia compará-lo com o tabernáculo: apesar de pequeno, foi talhado para conter a divindade? Sem dúvida incomensurável era a bondade de minha mãe.

Com mais um detalhe: se vovó não trouxe todos os móveis, ao menos suas galinhas e seus patos, juntamente com o lindo gato angorá e os passarinhos ela trouxe. A mudança foi feita em caminhão aberto. O que também era atípico até então. Comum era recorrer à carroça de burro.

Vovô tinha um pássaro preto. Quando ia visitá-lo lá na Rua Raul Pompeia no Bairro Santo Antônio, hoje São Pedro, ficava boquiaberto ao presenciar o diálogo de vovô com aquele passarinho. Doente, deitado, lá do quarto ele assoviava uma melodia, e o pássaro preto respondia.

No dia da mudança, eu acompanhei tudo. Ao sair o caminhão, tio João pegou a gaiola e antes de colocá-la junto com os móveis no caminhão, a abriu e soltou o pássaro preto. Nada adiantou. Ele voou para cima do telhado. Mal o caminhão começou a rodar, ei-lo de volta. Pousou em cima de um armário que estava na carroceria. De tanto em tanto saia voando, rodeava por uns minutos a região e tornava a pousar no caminhão. A cena se repetiu várias vezes até chegar lá em casa. 

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Se esse pássaro preto era ensinado, não menos ensinado e atinado era o gato angorá. Depois de instalado na nova moradia chegou a aprontar, a ponto de nos deixar encabulados.

Era tratado com carne e não admitia outro alimento. Certa vez esqueceram de colocar em sua tigela o alimento costumeiro. Trocaram a carne por angu. O danado do angorá saiu pelo quintal, que era bem extenso, pois começava no fundo de casa, se estendia uns vinte metros para se transformar num declive de barranco, que nos separava da Avenida Antônio Carlos em construção e na extensão de um quarteirão ia terminar na Rua Itapecerica, paralela à avenida.

Sua fuga fora para caçar. Sem ninguém esperar, lá veio ele trazendo, na boca, um sapo, daí a pouco uma cobra, quando não uma lagartixa, lagarto ou rato... o bicho que encontrasse, para despejá-los nos degraus da escada que dava para a cozinha. Como não devorava a caça, é de se deduzir que o fazia por pirraça, por lhe terem negado a comida predileta.

Nesta época presenciei a trágica morte de um gato. Não posso garantir, mas deve ter sido o angorá da vovó. Quanto me impressionou!

Foi de manhã. Estava com o Pitoia brincando no terreiro de casa. De repente vimos o gato passar correndo à nossa frente e atrás dele um vira-lata.  A  perseguição  durou

 

 

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cerca de meia hora. Cada um mais desesperado que o outro. Em desambalada correria já tinham dado várias voltas em torno da casa. O pânico levou o gato a tentar o último recurso para escapar do cão. Subiu na mangueira situada perto de nosso jogo de finca. Por pouco teria sido alcançado. Os afiados dentes do cachorro ainda rasparam o rabo do gato. Mas quando o felino atingiu o topo da árvore, estando o cachorro em pé grudado ao tronco e latindo, caiu estatelado no chão. Por certo seu coraçãozinho estourara. Ficamos tomados de espanto e dó. Jamais tínhamos presenciado cena semelhante. Aliás, até hoje foi a única em toda minha vida.

 

Ladrão gaiato

 

Com a família ampliada, além da confecção do papagaio gigante de que tio João foi um dos principais construtores, aconteceu cena cômica a tangenciar o patético, digna de ser narrada e sempre repetida.

Era uma noite de inverno. Por causa do frio, se fechavam todas as janelas. Mais ou menos às oito horas, ouvimos barulheira enorme no terreiro. Correria das galinhas e dos patos com os respectivos cacarejar e grasnar, juntamente com o metralhar de asas batendo.

Um dos adultos abriu a janela da copa e viu que enorme cachorro tinha entrado no terreiro. Obviamente teria aproveitado a abertura proporcionada pela rampa do barranco que ligava nossa casa à Avenida Antônio Carlos. Da janela se via o alvoroço no galinheiro, e um de meus irmãos percebeu que não se tratava só de um cachorro. No mínimo dois, e certamente havia ladrão  junto.  Deviam  ser  cães  de

 

 

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caça: sempre abocanhavam uma galinha ou um pato e o levavam para o fundo do quintal, onde a escuridão não permitia ver mais nada. Do pouco que se enxergava, era de se deduzir que havia, além dos cães, mais de um ladrão agindo, mas ninguém teve coragem de ir lá enfrentar os amigos do alheio.

A cena deve ter durado mais de uma hora. Somente no dia seguinte é que todos demos pelo acontecido. Quase não havia mais pato ou galinha no quintal. Pregado na pilha de tijolos que o Antônio conservava junto ao monte de areia, e ambos encostados no muro da frente, havia o seguinte bilhete: não roubamos mais porque o saco não cabeu (sic!). Para nós crianças aquilo era a desmoralização de nossos adultos. Para eles, a sem-graceza do desaponto. Para todos, além do grande prejuízo, acabou sendo motivo de autogozação.

Pato e galinha me fazem recordar que havia nos fundos de casa, antes de começar o declive do barranco, a fossa, que a gente chamava de cisterna. Por não ser bem tapada, existiam umas gretas. Dessas víamos sair ratos imensos. Muitas vezes encontrávamos vários frangos com bolha no pescoço, que parecia papo. Diziam que eram os ratos que, ao morderem, por certo, transmitiam alguma doença que provocava aqueles balões. Essa doença era chamada de goga (talvez o correto fosse gogo).

Galinha lembra ovo e ambos conduzem à sem-vergonhice de meu irmão Délio. Frequentemente pegava uma galinha e dela retirava à força o ovo ainda não botado. Era para fazer gemada ou bebê-lo cru. Dizia que comer ou tomar o ovo fresco tornava a gente forte.

 

 

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Como no Incidente em Antares

 

Ali diante daquele portão surgiram todos os meus como jamais vivos todos ali estivessem. Mamãe, meus irmãos, vovó, Chiquinha… Ah! o Antônio. O tormento de não ter conhecido meu pai, falecido quando tinha dois anos, e de ter convivido com aquele homem, fruto do cruzamento de alemão com índia, bronco, forte, violento, mas ao mesmo tempo bondoso à sua maneira, dependendo do momento e da lua, sempre solícito às necessidades da casa e aos pedidos de minha mãe, trabalhador como jamais vi outro igual, a ocupar o lugar de pai, sem ser casado com minha mãe, sem parentesco algum conosco, seja de sangue, ou de papel passado… Na minha cabeça de criança parecia haver um vazio ocupado por esse homem, ora identificado com a figura do retrato de meu pai na parede, sem braço e montado a cavalo, ora com o “padrasto” das histórias terríveis contadas por mamãe… toda essa volta ao passado, conturbada por vozes, cheia de figuras e cores, tomou conta de todo meu ser interior.

Senti que meu corpo tremia. Fiquei absorto por vários minutos. Tal qual na cena descrita por Érico Veríssimo em Incidente em Antares, meus mortos ressuscitavam e ali, redivivos, pareciam formar uma plateia diante do palco erguido na entrada de casa, ou melhor, na própria Rua Diamantina, para presenciar as cenas que minhas recordações traziam.

Toda esta volta ao passado, ao mesmo tempo conturbada e rica, me avassalou a mente já dividida entre o que vivi e o que estava vivendo.  Naquele aqui e agora sentia

um presente que já se tornara também passado diante da incontrolável velocidade do tempo.

 

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3

 

 

 

É melhor sorrir

(sorrir gravemente)

e ficar calado

e ficar fechado

entre duas paredes,

sem a mais leve cólera

ou humilhação.

 

(Carlos Drummond de Andrade, Coisa miserável)

 

 

 

 

O dia D e as palavras proféticas

 

Maisuma vez, até com mais vigor o caleidoscópio funcionou: me vi menino de 10 anos, mal terminado o primário, sem sequer ter participado da festa de formatura, nem recebido o diploma, no limiar de decisão que deveria reformular toda minha vida.

O 27 de novembro de 1941 era o dia tão esperado por minha mãe.  Cedinho,  de  calça  comprida  e  paletó,  ambos

 

 

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usados pela primeira vez na vida, sapatos novos, de mala na mão onde se espremia toda a roupa exigida pelo enxoval, cuja lista fora entregue com antecedência, lá estava eu pronto para a viagem. Após despedir de todos, um por um, iria para o seminário.

Incontestável profecia ocorreu naquela manhã. Ao despedir de meu irmão Célio, de quem já falei que dormia no chão duro da sala, acordado por mãe, banhada de alegria esfuziante, ele se levantou e, antes de me abraçar, disse para ela, com o vigor de seus 18 anos: — A senhora não devia fazer isso; se esqueceu do que aconteceu comigo, quando me jogou no seminário e me fez perder cinco anos na vida? Quem tem vocação para padre é a senhora não ele, como eu também não tinha.

Se ele tivesse lido Freud por certo diria que nossa mãe se projetava nos filhos, mesmo quando (ou sobretudo?) usasse o mecanismo de negação.

Óbvio não sabia o que era vocação. Anos mais tarde, me surpreendi um dia indagando ao meu interior fraturado por tantas decepções: — Será que existe realmente vocação? Chamado de Deus? Deus se ocupa de nós mortais em escolher uns em detrimento de outros? Não seria isso demonstração de parcialidade ou até de injustiça? Ia mais fundo: - será que existe esse negócio da escolha divina? Deus escolheu o povo judeu em desfavor dos demais povos na face da Terra? Como ele poderia continuar sendo Deus se age com discriminação? Tudo isso não terá sido invenção dos judeus e depois dos padres? As chamadas escrituras sagradas não são a história de um grande mito imposto às gerações como se fossem a Verdade revelada?

O chamado silêncio de Deus  sempre  foi  um  dos  meus

 

 

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maiores tormentos. Tantas indagações sem resposta. Por que só nos chamados livros sagrados havia a voz de Deus? E nunca com provas históricas, por exemplo: como é possível ter havido a pedra do decálogo entregue a Moisés (Êxodo: 20: 2-17), mesmo refeita (Exodo: 34:1),se ninguém a viu, nem o povo judeu, zeloso de sua tradição, a tenha conservado? Acaso a voz de Deus teria cessado, apesar daquelas últimas palavras evocadas por São Mateus na aparição de Cristo depois da Ressurreição: "Et ecce ego vobiscum sum omnibus diebus usque ad consummationem saeculi" (E eis que estou convosco todos os dias até à consumação dos séculos" (Mateus, 28: 20)[8]? Será que esse "vobiscum" não implica todos nós, todos os homens, os vivos, os já mortos e os que ainda nascerão? E se Ele está conosco, por que não responde a nossos gritos, a nossos anseios? Afinal será que nós também não estamos continuamente gritando como seu filho no alto da cruz: Heli, Heli, lamma sabactani… Deus meus, Deus meus, ut quid dereliquisti me? (Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?) (Mateus, 27: 46). Ou como o apóstolo: Abba, Pater!? (Romanos, 8: 16)A mesma angústia que levou Drummond a cantar: Meu Deus, por que me abandonaste / se sabias que eu não era Deus / se sabias que eu era fraco? (Poema de Sete Faces).

Colocava em dúvida tantos ensinamentos e tantas passagens da Bíblia. Foi quando formei a convicção de que religião é a apropriação indébita da fala de deus. De um deus que nunca falou, mas que a misteriosa força da imaginação humana, transformada em tradição, transmite, e a tal de fé leva o crente a acreditar no que se relata.

Óbvio, tudo isso aconteceu não naquele momento decisivo e, sendo eu ainda uma criança de dez anos, mas muitos anos depois, e está presente até hoje no depositário de minhas incertezas a alimentar meu ceticismo.

Mãe nada respondeu a meu irmão. A alegria que desde a véspera tomara conta de sua mente a tornara, surda e muda.

Apesar de não entender o sentido daquelas palavras, as guardei fielmente na memória.

Talvez, paradoxalmente, na cabecinha de uma criança houvesse secreto desafio: eu seria o que ele não conseguiu ser e por isso daria a maior glória à minha santa mãe.

Talvez! E nesse “talvez” caberiam tantas conjecturas, inclusive a de António Lobo Antunes em Os cus de Judas, quando se refere ao esforço da gente em recuperar um pouco da infância: esta a nenhum de nós pertence e teima em descer pelo  escorrega  num  riso  de  que  nos  chega,  de

 

 

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longe em longe, numa espécie de raiva, o eco atenuado. (p. 9)

Com raiva ou sem raiva, de contradição em contradição, o eco atenuado de um passado, surge com a força do atropelamento. O dia em que “joguei a batina às urtigas” aquelas proféticas palavras de meu irmão vieram-me fortemente à lembrança. Como ele tinha razão! Jamais tive vocação para padre. Quem tinha era a beatice de minha mãe. Pobre de espírito, mas querida mãe!

Pelos dedos do acaso, aconteceu de ter sido o mano — o profeta daquela manhã — quem muitos anos depois iria me buscar em Goiânia quando de minha saída dos Salesianos.

 

                                                                              Um irmão diferente

 

Célio era um irmão diferente. Pena que morreu muito cedo, aos 34 anos, vitimado por fulminante infarto do miocárdio. Por isso não pude aproveitar sua presença em minha vida por muito tempo.

Como aquela fatalidade me ficou gravada! Já fazia dois anos e alguns meses, que voltara com ele de Goiânia. Morava no Conjunto do IAPI. Ele, em nossa casa na Rua Diamantina, onde estava preso ao portão e mais preso ainda ao passado.

Noite alta, quase de madrugada, ainda não deitara, pois escrevia apostila de Análise Sintática para o cursinho pré-vestibular, quando o telefone tocou.

Minha cunhada desesperada dizia chorando que meu irmão estava morrendo. Desatinado, fui correndo para  lá  (a

 

 

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distância não era grande, apenas um quarteirão da Rua Formiga e já estava na Diamantina e mais um e meio na porta de casa).

Fiquei sabendo que, à noite, passara mal. Por ter bebido cerveja e comido pizza, Elza achou que era mal de estômago. Deu-lhe sal de fruta e, pouco depois, bicarbonato. Mas em vez de vomitar, ainda no banheiro, ele caiu desmaiado.

Ela, no início, não imaginou a gravidade da situação. Tentou reanimá-lo. Não o conseguiu, por isso telefonou para o Dr. Botelho, médico que residia na mesma Rua Diamantina, acredito que na casa onde morara o Boris, o menino filho de russos.

Quando o Dr. Botelho chegou, nada mais pôde fazer, senão confirmar que meu irmão acabara de ser vítima de infarto do miocárdio. Talvez, se houvesse os recursos tecnológicos de hoje, teria sobrevivido.

Irmãos éramos todos unidos. Mas ele era, provavelmente, o mais ligado a mim. Muito alegre. Gostava da noite. Tinha fama de dançarino e gostava muito de tango e bolero.

Em minha recordação, ainda o vejo com o terno que sempre gostava de usar desde rapazinho: de linho branco. Detestava o marrom.  Tinha porte atlético e gostava de fazer ginástica na barra que ele mesmo montara no quintal de casa.

Como minha convivência com ele foi muita curta, pois fiquei trancado no seminário dos 10 aos 25 anos, muito poucos episódios de minha infância a seu lado são lembrados.

Um,  porém,   ficou   vívido   em  minha  mente.  Era  um

 

 

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domingo à tarde e Célio me convidou para assistir a um faroeste no Cine América, localizado no centro da cidade. Fomos ele, seu futuro cunhado de nome Artur e eu.

Descemos do bonde na Praça Sete e, até o cinema, fizemos o trajeto de poucas quadras a pé. Entramos na Rua Carijós. Ao passarmos à frente de um prédio comercial, na porta estava um rapaz com sua namorada em situação nada decorosa. Meu irmão fez qualquer comentário com seu cunhado a respeito da cena vista.

Tínhamos caminhado uns vinte passos e eis que o tal rapaz alto, forte, cabelo ondulado e nadando em brilhantina (como me lembro!) surgiu rápido em nossa frente e se dirigiu a meu irmão com palavras e gestos a provocá-lo para a briga.

Meu irmão, conforme nos contou depois, percebeu que ele estava com uma navalha no bolso do paletó. O ostensivo amante pensou que meu irmão toparia revidar ali mesmo na calçada.

Aconteceu o inesperado. Célio fingiu estar com medo e saiu correndo para ser perseguido pelo agressor. Não deu outra. Atônito, eu assistia a tudo tremendo de medo. Eis que na desenfreada correria, meu irmão diminuiu a velocidade e diante do primeiro poste encontrado, com a mão esquerda segura ao poste, deu um giro rápido e veio com o mão direita fechada para o soco que pegou em cheio a boca do almofadinha. Só vi o sangue esguichar e ele estatelar no chão.

Na mesma hora, surgiram dois policiais e nos levaram a todos para o primeiro distrito policial, que, por coincidência, ficava bem perto do local da briga.

O delegado ouviu separadamente os dois  contendores.

 

 

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Depois os chamou diante de si. Ao rapaz, foi dada lição de moral jamais imaginada, e, a meu irmão, velado elogio, embutido nas palavras do delegado: — Vai sossegado para seu cinema com o menino aí.E você (dirigindo-se ao rapaz metido a valente)aguarde aqui até ser liberado.

 

Despedida do mundo

 

Mas diante dele, na sala de visita convertida agora em sala de saída, a criança de dez anos se despedia dos seus, embevecida pela luz do holofote de nova vida a lhe ofuscar a mente. Afinal era o coroamento de cerca de um mês em que fora seduzido pela bondade da mãe sonhadora, arrebatada pela maior aspiração: ter um filho padre.

Se estranho é o mundo, como canta o poeta, mais estranho é o coração do ser humano. Fico admirado como minha mãe, em seu fervor religioso, conseguia conciliar o desejo de atingir seus objetivos com a chamada “pedagogia da pílula dourada” a roçar as raias da corrupção.

Seu carinho encravado em tanta ignorância, embalado, porém, de sinceridade, me enchera o bolso de notas e moedas e me dera plena liberdade de tudo fazer a meu talante durante umas três semanas: desde comprar guloseimas, gibi, bugigangas… até frequentar diariamente o cinema.

Uma tarde andava pela Avenida Afonso Pena. Ao passar diante de uma loja, vi um grupo de homens parado na porta, ouvindo alguém a berrar num alto-falante. Era um leilão. Não resisti à curiosidade, e entrei na loja. Não demorou muito, um dos atendentes, atrás do balcão, me perguntou: — Está esperando alguma coisa? — Sim.  Aquela  caneta  ali.

 

 

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— Vai ser leiloada por…(um valor, para minha parca economia, exorbitante). Esperto, respondi: — Só tenho dez tostões. — Toma, é sua. Nem esperou o leiloeiro apregoar. Foi a minha maior alegria, ao usar parte do dinheiro que minha mãe pusera em meu bolso. Acabara de adquirir uma caneta tinteiro. A primeira em minha vida. Ela era toda de vidro, inclusive a pena. Nunca mais vi caneta daquele tipo. Ficou comigo até a metade da primeira série ginasial. Um dia caiu da carteira de estudo e quebrou a pena.

Por certo minha mãe queria que despedisse de meu mundo infantil e de minha turminha da Rua Diamantina, gastando um dinheiro que meus companheiros nunca tiveram. Foi o que fiz como jamais podia imaginar, e ainda sobrou dinheiro para levar e entregar aos padres salesianos. Poderia esquecer essa alforria pedagógica?!

Minha alegria naqueles dias se revelou contagiante. Havia um menino, dois anos mais velho que eu: Hélio Favarini. Morava a três casas distantes da nossa. Tocado pelo meu entusiasmo de ir para o seminário, me perguntou se não podia ir comigo. — Por que não? O problema é o enxoval. — Garanto que lá em casa eles arrumam numa semana. Foi o que aconteceu. Combinamos dia e hora de sairmos juntos. Por isso, pouco depois de me ter despedido dos meus, lá estava o Hélio me esperando junto ao portão de casa.

Subi a escada e entrei, juntamente com ele, no táxi em que me aguardava o padre J. A. A. (não declino o nome pelo motivo já registrado emA sesta de um padre pedófilo,escrito em O cavalo de São Roque), para nos levar para o Colégio Dom Bosco de Cachoeira do Campo e lá sermos entregues   aos   salesianos,   através    das    mãos    de    seu

 

 

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provincial, por eles chamado de inspetor: Padre Orlando Chaves.

Fomos de jardineira, espécie de ônibus revestido de madeira, com “porta-malas” no teto. A estrada era de terra e, por causa da poeira, todos usavam guarda-pó.

 

                      Cachoeira do Campo foi

o começo

 

Naquele colégio revi meu irmão Délio que era interno. Ele teve tempo de me mostrar triunfante o retrato de seu time de futebol, campeão no colégio e na cidade, formado por nomes que viriam a ser famosos, como Mauro Borges — o caricaturista Borjalo, Zé do Monte, Carlyle, os dois últimos consagrados pelo Atlético Mineiro, Abelardo (o futuro "Flecha Azul" do Cruzeiro E. C.) e ele no gol. Tirante Borjalo e ele que virou mais tarde vereador, aqueles outros jogadores iriam brilhar no futebol profissional de Minas Gerais e do Brasil.

Evocar o Colégio Dom Bosco de Cachoeira do Campo, sem repassar um pouco de sua história, seria falha imperdoável.

Mais do que qualquer outro educandário dos salesianos no Brasil, o Dom Bosco é o mais emblemático, pois sua história está ligada pessoalmente ao próprio fundador da Congregação Salesiana.

Acredito que foi o primeiro educandário no mundo com o nome "Dom Bosco", pois o fundador da Congregação Salesiana morreu no dia 31 de janeiro de 1888 e, em vida, não permitiria usasse seu nome para tal tipo de homenagem.

 

 

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Em 1883, Dom Luiz Felipe de Orleans, o Conde D’Eu, esposo da Princesa Isabel, genro de Dom Pedro II, encontrou-se com Dom Bosco, em Paris e, em nome do sogro, lhe fez o convite de enviar ao Brasil os salesianos. Garantiu-lhe o futuro da obra salesiana num país tão promissor, mas carente de escolas.

A vinda dos salesianos para o Brasil se deu com a criação do Colégio Santa Rosa de Niterói em 1883. Em 1885 foi criado o Liceu Coração de Jesus em São Paulo. Por pouco não teria sido o colégio de Cachoeira do Campo o pioneiro.

Curiosamente foi em 1883 que Dom Bosco teve o célebre sonho considerado profético em relação à construção de Brasília. Aguça-me a curiosidade de saber se o tal sonho se deu antes ou depois do encontro com o Conde d’Eu. Afinal, teria sido o sonho que fez Dom Bosco aceitar, sem tergiversar, o pedido do imperador do Brasil ou foi o encontro do Conde d’Eu em Paris, em nome de Dom Pedro II, que provocou aquele célebre sonho?

O prédio, onde funcionou o Colégio, foi inicialmente o Quartel dos Dragões Del Rey, construído em 1775. Nele trabalhou o Alferes Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, por isso pode ser considerado um dos berços da liberdade do Brasil, pelo importante papel da Inconfidência Mineira. Naquele mesmo prédio, foi fundado, em 9 de junho do ano de 1775, o Regimento Regular de Cavalaria de Minas. Este, mais tarde, passou a ser a bicentenária Polícia Militar de Minas Gerais. Ainda se encontra, para ser apreciada, significativa peça: um brasão do Mestre Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, esculpido em 1779. Em 1854, o Parlamento Brasileiro doou à Província de Minas as terras e prédios, como núcleo colonial da cidade de Ouro Preto.

 

 

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Em 1888, o Imperador Dom Pedro II confirmou a doação das terras e do Quartel dos Dragões Del Rey à Província de Minas Gerais. Em 1889, o regime republicano repetiu a confirmação, como "próprio estadual”. Em 1893, em 22 de maio, foi sancionada pelo Presidente Afonso Pena a Lei Estadual Nº.43, concedendo as terras, prédios e subvenção de 30.000$000 aos salesianos.

O prédio, em ruínas, foi reconstruído em pouco tempo e ampliado pelo padre salesiano Agostinho Crucifixo Zanellas. A mobília quase toda foi feita no local. Em 1895, o colégio já estava pronto para receber o fundador, o bispo salesiano Dom Luiz Lasagna, quando se soube da trágica morte do ilustre prelado, em Juiz de Fora, num encontro de trens, na estação de Mariano Procópio, aos 6 de novembro de 1895.

Somente a 24 de maio de 1896 é que se deu a inauguração oficial da escola agrícola como Escola Dom Bosco, dirigidas pelo padre Carlos Peretto. Já nas primeiras décadas do século XX, o educandário passou a chamar-se Colégio Dom Bosco.Hoje, é o Centro Dom Bosco, destinado a reuniões, convenções, retiros e hospedagem para quem quer curtir a natureza.

 

O pastor esquece sua ovelha

 

No dia seguinte parti, pela RMV, para São João Del Rey a fim ser confiado ao diretor do Colégio São João, Padre Francisco Gonçalves. Alguns anos mais tarde, morreria com fama de santo.

Apesar de minha convivência com ele ter sido apenas de  dois  meses,  posso  testemunhar  quanto   era   virtuoso,

 

 

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generoso e bom. Sua biografia foi escrita mais tarde pelo Pe. Ralphy Mendes, então clérigo, e que foi meu primeiro assistente.

Iria cursar de dezembro a fevereiro o curso de admissão, para, ao fim, prestar o exame como candidato à primeira série ginasial.

Ao chegar na estação, havia grande manifestação para receber o Padre Orlando. Sua fama já percorrera o Brasil: o "apóstolo das vocações sacerdotais". Poucos anos depois, certamente em reconhecimento a sua obra, viria a ser escolhido bispo pelo Vaticano para dirigir a diocese de Corumbá. Seu projeto de arrebanhar "mil vocações" estava se cumprindo.

Entusiasmado pela recepção retumbante, ele se esqueceu de seu protegido. Quando consegui descer à plataforma, não o vi mais. Nem o Hélio. Não entrei em pânico, porque, hoje reconheço, ainda restava em mim a malícia do moleque da Rua Diamantina.

Logo encontrei um adolescente que devia estar pegando biscate na estação e lhe pedi para me ajudar indo comigo e carregando a mala até o Colégio São João. Dar-lhe-ia uns trocados. Ainda tinha do dinheiro que mãe me colocara no bolso. Depois fora obrigado a entregar o resto aos padres, pois nenhum aluno podia ter dinheiro, nem mesmo alguma coisa que o diferenciasse dos demais, como brinquedo, doce, livro...

Esperto, o garoto sabia onde era, pois frequentava o chamado Oratório Festivo aos domingos, para jogar bola e ter aulas de catecismo dadas pelos padres salesianos em seu colégio.

Portanto,  entrei  para  os  salesianos,  não  através   das

 

 

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mãos do Padre Orlando Chaves, mas dum menino que vivia a pegar biscate na rua.

 

Como conheci o menino Telê Santana

 

Apesar de internos, nós os alunos, aos domingos, víamos de longe aquela meninada do Oratório Festivo, jogando bola no campo de futebol do colégio, que para nós era simplesmente o pátio, pois o futebol nos era proibido.

Algumas semanas depois, num domingo, presenciei uma cena inesquecível, durante o futebol jogado pelos meninos do Oratório Festivo: um guri, de seus onze anos (não teria sido aquele que me ajudou na estação? De longe me pareceu que sim!), foi para o gol na hora de um pênalti. Não é que o defendeu, colocando as duas mãos no chão e rebatendo a bola com as solas dos pés?

Muitos anos mais tarde, vim a saber que aquele menino prodígio se chamava Telê Santana, ponta direita de meu saudoso Fluminense que tinha esta inesquecível escalação: Castilho, Píndaro e Pinheiro; Jair, Édson e Bigode; Telê, Didi, Marinho ou Waldo, Orlando e Quincas (pouco depois substituído por Escurinho, transferido do Vila Nova, de Nova Lima), — o maior time que o clube já teve em toda sua história, campeão carioca em 1951, da Copa Rio em 1952, do Rio–São Paulo em 1952, em 1957 e em 1959.

 

                                 Tinha que raspar a cabeça

 

Os dois meses e meio passados em São João Del Rey me valeram para iniciação na nova vida que iria levar. Para sermos nivelados, não bastava o  uniforme  cáqui.  Todos  os

 

 

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aspirantes (nome como passamos a ser chamados) tivemos de raspar a cabeça. Era ordem do Padre Orlando Chaves. De cabeça raspada vivi onze anos, ou seja, até ser clérigo Assistente em Ponte Nova, em 1952, quando me foi dada a licença de usar um topetinho que mais parecia lixo deixado na soleira da porta.

Outra espécie de senha, a nos identificar no meio do rebanho, era o número que recebíamos. O meu foi o 156 que guardei até o Noviciado. Toda nossa roupa era marcada com o número recebido. Era comum usarmos caroço de abacate para gravar com alfinete o número no tecido. Cada um de nós tinha dois sacos de roupa. Quando um ia para a lavanderia com a roupa suja, o outro, após voltar com a roupa lavada e passada, ficava com a gente para, durante a semana, guardar a nova muda de roupa usada. A lavanderia, em todos os colégios, por onde passei, era mantida pelas freiras salesianas ou Filhas de Maria Auxiliadora, congregação fundada por Dom Bosco, junto com Madre Maria Mazzarello.

Se a sensação de nivelamento nos fazia sentir como mero número, por outro nos valia o sentimento de comunidade em que vivíamos e, de certo modo, o esprit de corp. Aos poucos, íamos nos integrando, uns com os outros, até formarmos um só corpo que acabava fazendo esquecer nossas famílias de origem, para assumir, sob outro aspecto, e, em nome de outros valores, uma nova família. Os padres poderiam até batizá-la de espiritual. Não importa. O fato é que vivíamos como amigos e nos querendo como verdadeiros irmãos. A prova está que até hoje cultivo forte amizade com os poucos que o destino me fez encontrar fora da Congregação Salesiana.

 

 

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Sistema preventivo

só para preservar a pureza

 

Os salesianos sabiam muito bem aplicar o sistema preventivo herdado de seu fundador, Dom Bosco, quando o objetivo direto era preservar a “pureza”. Não deixavam os alunos parados em momento algum. Maneira inteligente de evitar que a ociosidade, mãe de todos os vícios, se tornasse causa e ocasião de pecar. Aliás a sabedoria popular, ainda que sob outro aspecto, já o consagrara: água parada cria bicho.

Sem dúvida, por causa de tal sistema, fiquei salesiano quinze anos sem jamais cometer um pecado mortal. Veniais, muitos, pois murmurei frequentemente contra os padres, cochilei muitas vezes rezando o terço, algumas vezes conversei durante os horários de silêncio, outras fiquei distraído durante as aulas e, já clérigo na Filosofia, infringi várias vezes a regra de não consultar livros proibidos na bela biblioteca do Colégio São Joaquim de Lorena, a mesma que serviu para o reconhecimento do hoje UNISAL — Centro Universitário Salesiano.

No coleginho São João comecei a rotina que se repetiria todos os dias, em todos os educandários, por que passei.

Levantávamos às seis horas para assistir à missa e fazer a comunhão. Para nos acordar, o clérigo assistente batia palmas percorrendo os corredores entre as fileiras de camas do dormitório e berrava: Benedicamus Dominum, ao que todos respondíamos: Deo gratias e pulávamos para enfrentar a fila do lavatório e fazer a higiene matinal.

Curiosamente trocávamos o pijama pela roupa a ser usada,  aproveitando  a  porta  aberta  do  pequeno   guarda-

 

 

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roupa, e, sobre a cabeça e o corpo, jogávamos o cobertor. Uma espécie de tenda que impedia os dois vizinhos, um de cada lado, verem nosso corpo nu.

Durante a missa, além do terço, rezava-se e cantava-se, seguindo o Jovem Instruído,escrito por Dom Bosco. Era um pequeno manual dividido em duas partes: uma, de reflexões e aconselhamento religioso e a outra, de orações. Voltávamos a rezar outras orações programadas no referido livrinho de reza também diariamente na bênção do Santíssimo à tarde, antes e depois das aulas, antes e depois das quatro refeições, antes e depois dos horários diurnos e noturnos de estudo no salão, onde cada um tinha sua carteira com livros e cadernos e, à noite, antes de deitar.

Esta última reza coletiva era concluída com breve sermão de admoestação ou lição de moral e algumas recomendações de higiene — o chamado "boa-noite" — geralmente dado pelo padre diretor ou, menos frequentemente, pelo padre catequista, quando não por outro padre do capítulo ou por algum sacerdote ilustre em visita ao colégio.

Antes das duas refeições principais, a reza era seguida de leitura edificante, precedida sempre de um trecho da Bíblia. Durante os 40 minutos de almoço e de jantar, só nos era permitido conversar dez minutos.

Logo depois da missa tínhamos o café com leite servido numa tigela, acompanhado de pão francês, feito no próprio colégio, sem manteiga. O café da manhã era tomado em silêncio durante meia hora. Prática exercida não só no colégio como na filosofia e na teologia.

 

 

 

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Higiene não era o forte

dos salesianos

 

Certa vez, já clérigo assistente, fazendo o tirocínio no próprio Colégio São João, então na condição de Instituto de Filosofia para formar clérigos, ao levar a tigela de café com leite à boca, vi o espanto de meu colega, Geraldo Ianini, sentado à minha frente. Fazia gestos, pois o silêncio obrigatório não lhe permitia falar, apontando algo de estranho e repugnante na minha boca: enorme barata morta, saída de dentro da tigela, estava pendurada no meu beiço. Pequeno episódio que, somado a outros da mesma natureza, nos permitiria inferir que a higiene não era o forte dos salesianos. Ainda que inconcebível, provavelmente, o mesmo deve acontecer, quando grande aglomerado de gente vive em prédios fechados (colégios, quartéis, presídios, etc.).

 

O dia a dia

 

Após o café, metade dos alunos tinha recreio de 45 minutos e outra metade tinha obrigações a cumprir: varrer os estudos, os dormitórios, a capela, o refeitório, as salas de aula, o pátio, os corredores e limpar as instalações sanitárias.

De mês em mês, havia sorteio para essas obrigações. No primeiro sorteio em que fui incluído, fiquei todo orgulhoso, porque fui escolhido para "presidente". Qual não foi minha amarga decepção: presidente era o encarregado de lavar as privadas. Foi quando fiquei sabendo que estas tinham o duplo nome:  presidência  e  casinha,  pois  a  gente

 

 

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para ir a elas tinha que pedir ao clérigo assistente que vigiava os alunos 24 horas por dia: — “seu” Assistente, posso ir à presidência ouposso ir à casinha?

Uma observação en passant: ao escrever “o clérigo assistente vigiava os alunos vinte e quatro horas por dia”, sem perceber cometi uma metonímia. Na verdade nos vigiava a maior parte do tempo, porque estava conosco no salão de estudo, no pátio, na capela e no dormitório. Neste, inclusive, enquanto nos preparávamos para deitar, ficava circulando entre as fileiras de camas até notar que o último aluno já estivesse dormindo. Então, ia também ele dormir e o fazia numa cela branca situada bem no meio do dormitório. Portanto, só não estava diante de nós nos horários das refeições e das aulas, a não ser nas matérias de que era nosso professor. No refeitório, éramos vigiados por um dos vice-assistentes (estou colocando no plural, porque os alunos eram separados em divisões — maiores, médios e menores — e cada divisão tinha um assistente e um vice).

 

                                            Caça frágil

para um sádico caçador

 

Depois do almoço e do jantar havia os dois grandes recreios. Ambos consistiam em jogos de tal forma dirigidos que ninguém podia ficar parado. Sempre coletivos. Os mesmos em todos os colégios por onde passei como aspirante: o São João de São Del Rey, o São Joaquim de Lorena, o São Manuel de Lavrinhas.

Um desses jogos era bastante competitivo: o "Bandeira". Éramos divididos em dois grupos iguais. Um de cada lado do pátio. Dado um apito pelo clérigo Assistente,  o

 

 

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primeiro de cada grupo saia correndo para pegar a bandeira — um pano colorido — pendurada num pau no fundo do pátio. Arrancada a bandeira, voltava para passá-la ao seguinte da fila. Paralelamente os dois grupos em constante revezamento de seus integrantes corriam até o último completar a corrida. O grupo que a terminasse primeiro era o vencedor. Nesse jogo surgia o “herói”, o colega mais rápido — espécie de Aquiles — e todos o queriam no seu time. Esse tipo de corrida e o próprio nome "Bandeira" foram invenções italianas trazidas pelos salesianos ao Brasil.

Outro brinquedo era o "Caçador”. Para começar, dois ou três eram escolhidos caçadores. Com a manga da camisa arregaçada até o ombro (senha do caçador) e com bola de tênis na mão e mais duas no bolso da calça, o caçador saia correndo atrás da caça, ou seja, de todos os demais colegas.

Levando a bolada, a caça virava caçador: passava a usar a senha da camisa e de posse da bola que o atingira, junto com os demais caçadores, iria dar cabo de quem ainda estava "vivo" como caça, correndo e se esquivando das boladas.

Era comum padres e assistentes participarem do jogo. Começavam, obviamente, como caçadores. Certa vez, no Colégio São Joaquim, um padre de nome Silvio Sartre, catarinense, de visita ao colégio, entrou em nosso meio para participar do jogo. Como hei de esquecer? Fui caçado com uma bolada tão violenta no saco que por vários minutos fiquei roxinho, sem fôlego e quase desmaiei de tanta dor. Sadicamente o Pe. Silvio ainda debochou: — deixa de ser molenga, rapaz! (eu tinha somente 11 anos).

Além desses dois recreios coletivos, havia os de duração menor, logo após o café  da  manhã  ou  do  café  da

 

 

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tarde. Nesses recreios, nos era facultado brincar de pingue-pongue, jabolô ou espiribol.

Pingue-pongue, todos sabem o que é, embora naquele tempo o que se jogava ficava anos-luz de distância do que hoje se pratica nas olimpíadas.

Quanto ao jabolô, a brincadeira consistia no lançamento de um “carretel” de madeira, de um palmo de comprimento, através da cordinha esticada de um arco. Esse arco era formado, além da cordinha, por dois cabos parecidos com os de espeto de churrasco. Na ponta de cada cabo se amarravam as extremidades da cordinha.  A técnica consistia em rodar, em vaivém, o carretel até pegar o máximo de velocidade e, em seguida, esticar a cordinha para lançá-lo longe. Outro jogador à distância, com seu arco pronto, tinha de recolher o carretel que vinha rodando no ar. Capturado, ele tratava de devolvê-lo, repetindo o gesto do primeiro lançador. Os dois jogadores se revezavam: um era lançador e o outro capturador e vice-versa. Às vezes, o carretel caia na cabeça de um colega. Um acidente perigoso que custava pontos no couro cabeludo!

Já o espiribol era jogado da seguinte maneira: na ponta superior dum poste se fixava uma argola e nesta o gancho da extremidade de uma corda. Na parte inferior da corda era amarrada uma bola do tipo bola militar.

Participavam do jogo dois contendores. O jogo consistia em esmurrar a bola com tal força para ela se enrolar no poste. O adversário procurava evitar que a bola atingisse o objetivo proposto, esmurrando-a para ela se enrolar no sentido contrário. Quem conseguisse enrolar ao máximo a bola  a  ponto  de  não  dar  oportunidade  ao  adversário  de

 

 

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esmurrá-la mais, ganhava a partida. [9]

Não me lembro de outros brinquedos. Não eram muitos. Por não haver bancos no pátio, escusado dizer que não havia damas, xadrez, dominó, dados, etc.

Para que todos pudessem participar (lembremos que eram em pequeno número, uma vez que a maioria deveria estar executando tarefas de faxina), enquanto uns brincavam, outros ficavam na fila aguardando a própria vez ou torcendo para os que estavam jogando. É possível que houvesse times. Uma vez formados, disputavam campeonatos.

Importa frisar que o futebol era proibido. Até hoje ignoro o motivo. Só nos foi permitido na Filosofia, quando já estava no último ano.

Sempre a fixação na pureza

 

Além de não poder ficar parado, ninguém podia ter conversa exclusiva a dois. Era proibido ser amigo particular de outro colega e “brincar de mão”. Se alguém ousasse tocar a mão ou o braço dum colega era primeiro admoestado, na segunda vez castigado e na terceira vez… (la prima si perdonna, la seconda si bastona e la terza…) expulso do colégio porque estava cometendo pecado contra a castidade. O “brinquedo de mão” era considerado pecado mortal.

Dom Bosco defendia a castidade como a principal virtude e característica emblemática da Congregação, tal qual era a pobreza para os franciscanos, a obediência para os jesuítas. Seu lema correlato, para evitar que o pensamento se conspurcasse pelas imagens eróticas, era servire Deo in laetitia (servir a Deus na alegria). Laetitia poderia nesse contexto ser traduzida não simplesmente por alegria, mas pelos folguedos e agitação que lhe são inerentes com o poder de provocar alegria.

Em função da preservação da pureza, não era só, no pátio, que a vigilância se manifestava. Posso garantir que em todos os lugares, principalmente nos lavatórios. Basta dizer que nesses estava pintado um enorme olho e sob ele os dizeres: Deus te vê.

No dia em que li o Mil Novecentos e Oitenta e Quatro,escrito por Eric Arthur Blair sob o pseudônimo de George Orwell, em que o Big Brother seguia os passos de todo mundo através de uma câmera de televisão instalada no teto de todos os edifícios da cidade, pensei com meus botões: Os padres salesianos não teriam sido os  precursores

 

 

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do Big Brother?

A preservação da pureza valeria ao jovem como virtude ou segundo hábito, até a idade madura, quando, já se supunha, teria dominado seu próprio corpo e estaria apto para servir sempre com a alegria dos puros ao Criador, proferindo o voto de castidade.

A acreditar no que ouvi dizer anos mais tarde, o clima de fixação na pureza tinha um ingrediente a mais: a mistura de um nitrato (não sei de quê) na comida, para evitar excitações sexuais. Comentava-se que era uma prática generalizada nos conventos e demais casas religiosas.

Verdade seja dita: tal preservação se transformou em obsessão, a ponto de, no meu entender, ter sido causa de muita neurose entre adolescentes e adultos (ao menos a julgar pelo tempo que lá passei). Não só de distúrbio patológico, acredito até de revolta interior, senão da perda da fé de muitos que não continuaram no seminário salesiano.

Por considerar esta uma questão grave e relevante, importa reproduzir aqui texto escrito em Diventato un uomo — uma das cinco quase memórias de O cavalo de São Roque:

 

Para confirmar o que acabo de escrever, gostaria de ter em mãos o Jovem Instruído, escrito por Dom Bosco. (…) Dele gostaria de extrair o que Dom Bosco escreveu sobre a pureza, nome mais usado por ele e pelos salesianos como sinônimo de castidade. Infelizmente não mais possuo aquele manual. Mas por coincidência está comigo A misteriosa chama da Rainha Loanade Umberto Eco. Neste romance autobiográfico, deparo, várias vezes, com

 

 

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referência ao Jovem Instruído, traduzido como Jovem Prevenido. Eis um extrato da página 386 da tradução brasileira: "Estou num confessionário. Um capuchinho chamejante discorre longamente sobre as virtudes da pureza. Não me diz nada que já não tivesse lido nos manuais de Solara, mas talvez tenha sido depois de suas palavras que voltei ao Jovem Prevenido de Dom Bosco: Mesmo na vossa tenra idade o demônio estende laços para roubar vossas almas (…). Há de ser muitíssimo útil para preservar-vos das tentações permanecer distante das tentações, das conversações escandalosas, de espetáculos públicos, onde nada existe de bom (...) Procurai estar sempre ocupados, quando não souberdes o que fazer, adornai altares, arranjai imagens ou quadros (…) Se mesmo assim a tentação continuar, fazei o sinal da santa cruz, beijai alguma coisa sagrada dizendo: São Luís, fazei com que eu não ofenda meu Deus. Nomeio tal santo porque foi proposto pela Igreja para ser o protetor especial da juventude (…) Antes de tudo evitai a companhia das pessoas de sexo diferente. Que fique bem entendido: quero dizer que os meninos não devem estabelecer familiaridade com as meninas jamais (…) Os olhos são as janelas pelas quais o pecado abre caminho para os vossos corações... donde, não vos demoreis ruminando coisas que sejam, mesmo pouco, contrárias à modéstia. São Luís Gonzaga não queria nem que lhe vissem os pés ao deitar-se ou levantar-se. Não se permitia fixar no rosto a própria mãe (…) Esteve por dois anos com a rainha da Espanha na qualidade de pajem de honra e jamais a olhou no rosto."

 

O texto de Eco me desperta a curiosidade: o grande autor   de   O   nome   da   rosa   não   terá   sido    aluno   dos

 

 

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salesianos? Se foi, constitui prova de que a formação cristã e religiosa recebida não o livrou de professar o ateísmo como mais de uma vez já o declarou. Ali mesmo, no romance citado, poucas páginas depois, nos surpreende com esta confidência: Percebo agora que foi a sensação dolorosa de que o mundo era desprovido de objetivo, fruto preguiçoso de um mal-entendido, mas naquele momento só consegui traduzir o que sentia como: "Deus não existe” (p. 391).

E dizer que Umberto Eco é profundo conhecedor do tomismo e da Escolástica, sobretudo da Idade Média.

 

Estudo e aulas

 

De manhã, depois do recreio, tínhamos meia hora de estudo. Logo a seguir, até o almoço, quatro aulas seguidas, sem intervalo. Aula de latim e português todos os dias. À tarde, mais uma hora de estudo seguida de três aulas. Três vezes por semana, entre a última aula da tarde e o jantar, tínhamos o momento do banho individual, debaixo de um chuveiro de água fria… mas, no inverno, gelada.

Por falar em aulas, seria lacuna imperdoável não registrar que o curso ginasial, feito em Lorena e completado em Lavrinhas, era diferenciado, senão superior aos existentes nos colégios brasileiros. Atribuo-o a dois fatores, no mínimo: a quantidade e a regularidade das aulas, e, particularmente, o estudo do latim.

Quanto ao valor do latim, subestimaria a inteligência do leitor, se aqui me detivesse em longo discurso sobre sua importância, não só na gênese e estruturação de nossa língua como também na formação do pensamento racional e  até  da  mentalidade  científica.   Ao  interessado  indico  o

 

 

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belo trabalho do Prof. Dr. Miguel Barbosa do Rosário, Latim básico. Digno de nota a parte em que ele escolhe o livro Primeiras histórias, de Guimarães Rosa, para mostrar como o conhecimento do latim influenciou e está presente no trabalho do grande escritor.

No primeiro ginasial, além do domínio de quase toda a Gramática Latina do Ravizza, traduzimos as Fábulas de Fedro, no segundo, o Commentarii de Bello Gallicode César, no terceiro, as Catilinárias de Cícero e, na quarta série, a Eneida de Virgílio. No curso de Filosofia continuamos com Virgílio (Éclogas ou Bucólicas eGeórgicas), penetramos nos poemas de Ovídio e Horácio, para, ao fim, depararmos com a selva de pedra que era Tácito (expressão da decadência do latim romano).

À noite, o estudo se estendia por mais tempo, cerca de duas horas e meia, pois começava logo depois da Bênção do Santíssimo, esta por sua vez seguia ao recreio após o jantar, ou seja, lá pelas seis horas da tarde. Depois do estudo noturno, seguiam as orações e o “boa-noite”. Às vinte e duas horas, no máximo às vinte e duas e trinta minutos,  já estávamos no dormitório.

Essa rotina em nada mudou durante todos os anos em que vivi no seminário.

 

Por que não reconhecer

algo de positivo?

 

Reconheço, em nome do amor à verdade, que nem tudo era negativo. Entre tantos fatos positivos, admito com sentimento de gratidão: o sistema salesiano de educação nos formava pela autodisciplina, inclusive a intelectual.

 

 

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Apesar de os salesianos, diferentemente das demais ordens e congregações religiosas, não valorizarem a vida intelectual, faziam com que a gente aprendesse a estudar e, particularmente, forneciam aos aspirantes ao sacerdócio uma formação escolar reconhecida pelo governo.

Currículo, duração de ano letivo, aulas… tudo era fiscalizado pelo inspetor de ensino enviado pelo Ministério de Educação. De forma que, quando um aluno terminava o ginásio ou o colégio, tinha o diploma reconhecido como qualquer outro educandário leigo, sob a jurisdição do governo federal.

O mesmo direito, se tivesse de abandonar o colégio e voltar para casa: podia se transferir para qualquer outro colégio e na mesma série cursada.

Até minha ida para o seminário isso não ocorria, por exemplo, nos seminários seculares, como o Coração Eucarístico de Belo Horizonte, onde estudara meu irmão durante cinco anos (o tempo de duração do antigo curso ginasial, pois não havia quatro de ginásio e três de colégio implantados com a chamada Reforma Capanema em 1942). Ele teve de fazer o exame de Madureza para ter reconhecido o tempo de estudo no seminário.

 

Viver estereotipado

 

Ao menos uma coisa era certa: em pouco tempo, com tanta disciplina, tantos folguedos nos recreios e tanta cobrança, sobretudo a escolar, ninguém tinha saudade de casa, nem pensava em outra coisa a não ser o que era estabelecido pelos padres.

Hoje  sou  capaz   de  reconhecer   que   todos   vivíamos

 

 

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estereotipados, com o mesmo pensamento, o mesmo vocabulário, as mesmas percepções, os mesmos objetivos. Se alguém saísse dessa estereotipia, seria excluído da comunidade e, provavelmente, do paraíso. Tal era o medo incutido em todos nós. Seria precocemente condenado ao inferno.

Se algum salesiano vier a ler o que estou escrevendo certamente ficará escandalizado diante desta declaração, para mim inconteste: os padres salesianos (ao menos os do meu tempo) eram legítimos administradores da culpa. Incutiam em nós o medo do pecado e do inferno como arma pedagógica para nos manter submissos, obedientes e cumpridores dos ditames de sua vontade, já por sua vez visceralmente contaminada pela crença de que eram representantes, porta-vozes da divindade.

Para nos intimidar a nós — já conscientizados por eles de termos sido escolhidos por Deus — era repetida ad nauseama passagem do Evangelho em que Jesus condena aqueles que se apegam a sua família depois de terem recebido o chamado: Ait autem ad alterum: Sequere me; ille autem dixit: Domine, permitte mihi primum ire et sepelire patrem meum. Dixitque ei Iesus: Sine ut mortui sepeliant mortuos suos; tu autem vade et annuntia regnum Dei. (Disse a outro: Segue-me. Mas ele respondeu: Senhor, deixa que primeiro eu vá a enterrar meu pai. Mas Jesus lhe observou: Deixa aos mortos enterrar os seus mortos, porém tu vai e anuncia o reino de Deus). Et ait alter: Sequar te Domine, sed permitte mihi primum renuntiare his quae domi sunt. Ait ad illum Iesus: Nemo mittens manum suam ad aratrum et respiciens retro aptus est regno Dei. (Disse também outro: Senhor eu te seguirei,  mas  deixa-me  despedir  primeiro  dos

 

 

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que estão em minha casa. E Jesus lhe disse Ninguém que lança mão ao arado e olha para trás é digno do reino de Deus) (Lucas, 9: 59–62).

Se reproduzo em latim, é porque assim ficou gravado em minha memória. Naquela época, sentenças escritas em latim tinham sabor de verdades irretorquíveis. Óbvio, não era o latim de um Virgílio ou de um Horácio, muito menos de um Tácito. Aproximava-se mais de Fedro (o das fábulas), pois o latim de São Jerônimo é bem vulgar. Provavelmente traduziu a Bíblia, tendo como referencial o povo e não os intelectuais, ou seja, os filósofos e teólogos de seu tempo.

Confesso com toda sinceridade: aquela passagem evangélica impregnou minha mente de tal forma que, no dia em que decidi abandonar a Congregação Salesiana, no final do curso de teologia, a condenação contida naquelas palavras de Cristo voltou tão forte como se eu tivesse optado pela condenação eterna. Como sofri e por quanto tempo para dela me livrar!

Sei que muitos ex-religiosos e ex-seminaristas foram parar no divã da psicanálise durante muito tempo, por causa da introjeção daquela sentença. Segundo um amigo me confidenciou, por longos anos, ao deitar à noite, as palavras de Cristo lhe martelavam a cabeça: deixai os mortos enterrarem seus mortos… quem põe a mão no arado e olha para trás não é digno do reino dos céus!

Óbvio: não era o Cristo que o atormentava. Eram aqueles que se julgavam porta-vozes de Deus.

  

 

 

 

 

 

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4

 

 

 

Caminhas entre mortose com eles

 Conversas sobre coisas do tempo futuro e negócios do espírito.

 

(Carlos Drummond de Andrade, Elegia 1938)

 

 

 

 

O prêmio de um primário bem feito

 

Naquelanoite, ao lado do Lalau, diante do portão de casa, vi-me de repente no Colégio São Joaquim, de Lorena do Estado de São Paulo para cursar o ginasial, caso passasse no exame de admissão.

Se não o conseguisse, teria que ficar um ano inteiro cursando o Admissão na Escola Agrícola, situada perto do Colégio, educandário também dos salesianos e que fornecia grande parte do leite, carne, ovos, verduras e frutas para o colégio.

Evidentemente ir para a Escola Agrícola era espécie de castigo, pois lá, além do estudo, todos os alunos tinham de trabalhar na lavoura ou cuidar da criação de gado,  porcos  e

 

 

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galinhas.

Para Lorena fora mandado junto com cerca de 50 colegas de São João Del Rey, em janeiro de 1942, ou seja, um mês e meio depois de ter entrado no seminário.

Da turma, cerca de trinta tiveram sucesso no exame, inclusive eu, que tirei um dos primeiros lugares. Sucesso que agradeço ao Grupo Silviano Brandão. Escola realmente modelo. Minhas professoras tinham sido formadas por Da. Helena Antipoff, indicada pelo grande Claparède e trazida ao Brasil por Mário Casassanta, Secretário de Educação do Estado de Minas Gerais.

Basta dizer que quase toda a aritmética que vim a estudar no primeiro ginasial já aprendera na última série do primário, por exemplo: as quatro operações, frações ordinárias e decimais, porcentagem, juros simples e compostos, regra de três, raiz quadrada e algumas noções de geometria.

 

Como surgiu o aspirantado

em Lorena

 

O colégio São Joaquim foi transformado em seminário para nos acolher naquele ano, e, até essa data fora um dos maiores educandários "leigos" dos salesianos, com internato e externato, a ombrear com o Liceu Coração de Jesus de São Paulo, o Liceu Nossa Senhora Auxiliadora de Campinas, o Santa Rosa de Niterói, o Dom Bosco de Cachoeira do Campo, o Dom Helvécio de Ponte Nova, o Auxiliadora de Bagé, todos da antiga Inspetoria Salesiana que abrangia o Estado de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e o sul do Brasil.

 Nada    praticamente    precisou    ser    adaptado    para

 

 

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converter o internato leigo São Joaquim no aspirantado religioso São Joaquim. Inclusive, instalações como a enfermaria, o gabinete dentário, os escritórios dos padres do capítulo, a secretaria escolar e a biblioteca, notadamente esta, eram infinitamente superiores aos correspondentes do São Manuel de Lavrinhas.

O aspirantado sempre fora em Lavrinhas, onde funcionava também a Filosofia. A partir de 1942, por causa do grande número de alunos provindos da campanha das "mil vocações" do Padre Orlando Chaves, o aspirantado fora dividido em partes: uma ficara em Lorena, outra continuava em Lavrinhas e uma terceira e menor em São João Del Rey. Parece que em Criciúma, Santa Catarina, havia também outro aspirantado.

A Filosofia foi transferida de Lavrinhas para Lorena em 1944. Os clérigos da Filosofia foram instalados na ala direita do enorme prédio (tomando-se como referência sua vista da Rua Dom Bosco, em que o Colégio se situava). Apesar de pertencer à mesma construção, a Filosofia era separada do aspirantado por um salão de estudo transformado em capela interna para eles.

O ano da transferência da Filosofia me ficou marcado. A existência dos filósofos ao nosso lado, embora fisicamente separados e incomunicáveis, não deixava de provocar em todos nós a mesma sensação de uma família que está crescendo e atingindo seus objetivos. Víamos nos clérigos vizinhos nosso futuro e a constatação de que a Congregação Salesiana era poderosa. Por tudo isso nossa satisfação era plena.

Cursando a 3ª série ginasial, fui classificado em 1º lugar nas provas finais. Os resultados eram expostos  num  grande

 

 

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quadro pendurado na parede da parte interna do amplo corredor por onde passava toda a comunidade (aspirantes e clérigos da Filosofia), sobretudo aos domingos, após a missa cantada no Santuário São Benedito.

O fato repercutiu de tal maneira que certo dia recebi cumprimentos de alguns clérigos da Filosofia. Até eu estranhei aquela homenagem, porque sabia proibida a comunicação deles conosco, tanto quanto de alunos da divisão dos maiores com a dos menores e vice-versa. Sobretudo não imaginava como podiam me conhecer. Mas sempre a condição humana, por mais espiritualizada e cerceada que seja, encontra brechas para revelar sua autenticidade!

Ah! Em contraste, como era forte o preconceito, para não dizer a hipocrisia, ao estabelecer o isolamento em forma de divisão incomunicável entre menores, médios e maiores e entre aspirantes e clérigos, a ponto de ser tal medida alçada como preventiva e protetora da castidade pelos nossos padres salesianos daquela época!

 

A estrutura do aspirantado

 

Era interessante a estrutura da direção do seminário. De acordo com as normas estabelecidas por Dom Bosco, havia um capítulo formado por quatro padres: o diretor, o prefeito, o catequista e o conselheiro.

Ao padre diretor cabia, como o nome indica, a máxima responsabilidade pela administração do aspirantado. Por ser a principal figura, era tratado com toda a gama de deferência, desde a admiração à submissão, passando pelo afeto e o carinho.  Fazia-se  questão  de  nos   inculcar que  o

 

 

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diretor assumia a função de pai (espiritual?!) para todos nós.

Todos os anos, havia uma grande festa dedicada a ele. Curiosamente, era o único dia do ano, iniciado, às seis horas da manhã, com a banda do colégio tocando a alvorada. A tônica da festa, manifestada pelos discursos, canções e poemas, era justamente a “paternidade”. A palavra pai era repetida a cada segundo naquele dia, desde a saudação até a peroração dos inúmeros discursos, inclusive no sermão da missa solene que, de manhã, se celebrava. Apesar de “padre” significar pai, a “alcunha” dirigida ao diretor tinha conotação especial.

Lembro de um poema que me mandaram declamar que começava com estes versos: Permiti, pai querido neste dia / em que o festejamos co´ alegria… Será que os salesianos nos julgavam órfãos e queriam suprir a ausência da figura paterna de nossas famílias? Ou nos meandros de seu subconsciente queriam anular a figura materna - ícone da perdição humana para eles - substituindo-a por outra a dar segurança contra as tentações da carne? Ah! Freud, Freud! Ah! Édipo, Édipo!

 Além do diretor, havia o padre prefeito. Era encarregado da função administrativa propriamente dita, caracterizada por ser o responsável por toda parte material, desde a alimentação, a conservação do prédio até a do mobiliário. Cabia a ele a gerência do dinheiro que vinha da Inspetoria Geral, uma vez que da arrecadação de todos os colégios salesianos, uma parte era destinada a manter os seminários e outra, certamente a maior, era enviada para a sede internacional da Congregação em Turim, na Itália.

Na hierarquia, seguia ao prefeito, o padre catequista. Sua função era cuidar da parte religiosa, cultural e  da  saúde

 

 

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dos alunos. Procurava representar o papel mais próximo do diretor.

O último do capítulo era o padre conselheiro. A ele cabia a responsabilidade pela vida escolar e a disciplina do colégio.

Este era nosso terror, aos domingos à tarde, quando fazia a leitura de nossas notas de comportamento. Conforme a nota o castigo era inevitável, como, por exemplo, ficar isolado de todos durante uma semana sem poder se comunicar com ninguém.

Para nos vigiar e não nos deixar infringir o regulamento, havia um Assistente e um vice para cada divisão, funções exercidas, durante três anos, por clérigos saídos da Filosofia.

 

Sadismo pedagógico

 

Os clérigos assistentes nos aspirantados, eram escolhidos entre os que se sobressaíam no curso de Filosofia. Deveriam demonstrar, de maneira inequívoca, como aplicar o sistema preventivo, sobretudo porque faziam parte dos agentes formadores dos futuros salesianos.

Afirmação válida na teoria, porque na prática frequentemente isso não acontecia. Basta dizer que castigo e humilhação eram uma constante e parecia constituir prazer tanto para o padre Conselheiro como para o Assistente.

Para confirmar, eis um fato típico, a caracterizar o que acabo de dizer.

Certa vez, nem me lembro por qual falta cometida, um de nossos colegas teve de ficar na frente de todos nós com o dicionário do Aurélio numa das mãos e o de latim (o Saraiva)

 

 

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na outra, durante todo o horário de estudo. Como gemeu e chorou. Coitado!

Tenho para mim que apelar para o castigo em plena vigência do sistema preventivo, que tem em Dom Bosco seu criador e que deveria ser a bandeira dos salesianos como educadores, é algo paradoxal.

Se o sistema repressivo - diametralmente oposto ao preventivo - se caracteriza pelo emprego do castigo, a existência deste, sobretudo quando aplicado injusta e exageradamente só pode revelar atitude negativa no educador. Tal atitude tem nome: sadismo pedagógico. E este não se revela só na aplicação do castigo físico, mas, sobretudo, na atitude da humilhação do educando.

Confesso que também eu fui vítima desse tipo especial de sadismo pedagógico: a humilhação.

Aconteceu logo no primeiro mês no Colégio São Manoel de Lavrinhas, para o qual fora transferido para cursar a quarta série ginasial.

Em Lorena me iniciara na aprendizagem do piano como autodidata, pois aprendera as 40 primeiras lições do método A. Schmoll sem nenhuma orientação direta. Apenas de tanto em tanto, o padre catequista ou o clérigo encarregado das atividades musicais nos cobrava o aprendizado e nos autorizava prosseguir em novas lições.

Quando fui para Lavrinhas, estava na última lição, se não me falha a memória, o Carnaval de Veneza. Em poucos dias já a tocava dentro do figurino.

Para continuar meu aprendizado, o padre catequista, ao invés de me fornecer o segundo caderno Schmoll, me entregou outro manual que representava para mim um salto muito grande. De dificílima aprendizagem.

 

 

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Mal começara a primeira lição, ele disse que estudasse outra partitura. Muito complexa diante do pouco que sabia. Sem que eu a tivesse dominado e sem prévio treinamento, marcou a exibição da tal peça, a quatro mãos com ele, para a sessão teatral que iria ocorrer no domingo seguinte.

Quando chegou a hora, fiquei tão nervoso e tomado de medo, que acabei me atrapalhando. Desencontro total entre o que o padre tocava e a “música” que eu dedilhava. Senti que a interrupção pelas palmas dos colegas foi misto de vaia e convite para desistir de ser pianista. O deboche foi geral. Estava arrasado. Nunca mais quis saber de piano.

Até hoje não consigo me aproximar de um instrumento musical para tentar tirar uma melodia. Creio que desde este dia comecei a ter complexo em relação à música, apesar de tanto apreciá-la, seja erudita, seja popular. Houve até um de meus amigos, na década de setenta, que chegou a me apelidar, por brincadeira, de Música ao Vivo, de tanto que fazia questão de nos fins de semana convidar nossa roda a ir para bar que tivesse música ao vivo.

Apesar de ser da Schola Cantorum do colégio, jamais fui capaz de interpretar ou reproduzir uma canção até o fim e sem desafinar! Nem mesmo o canto gregoriano, cuja simplicidade melódica o emblematizou como “canto chão”.

Depois daquele triste episódio, o tal padre catequista sequer veio me procurar. Pelo que me lembro durante todo aquele ano de Lavrinhas nunca conversamos. Seu sadismo pedagógico estava plenamente realizado e minha autoestima, arrasada!           

Em Ponte Nova, quando lá trabalhei como clérigo Assistente no Colégio Dom Helvécio, vi outra demonstração de violência pedagógica.

 

 

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Numa tarde de domingo o padre Conselheiro obrigou cinco alunos a subir e descer a dupla escada da entrada do colégio, desde as 6 horas da tarde até as 10 horas da noite. Motivo: aqueles cinco jovens não voltaram no horário estabelecido para a saída à cidade, permitida no final de semana.

Doutra feita, ainda no Dom Helvécio, aquele mesmo padre Conselheiro pisoteou, com o salto do sapato, os pés de um aluno adolescente, só porque ele não estava marchando direito no ensaio para o desfile de Sete de Setembro na cidade.

Ah! como eram sádicos aqueles educadores! Estou convicto que o praticavam para mostrar autoridade, quando estariam muito mais de acordo com o sistema preventivo, se descessem ao nível do aluno, para lhe revelar compreensão.

Tinha razão Bachelard ao estigmatizar o sadismo pedagógico, segundo as palavras de Hilton Japiassu: Durante sua longa carreira de professor, Bachelard procurou a todo custo, e demonstrou isso na prática, evitar o engodo do sadismo pedagógico, caracterizado pelo autoritarismo e pelo dogmatismo. Ele próprio foi muito menos alguém que ensina do que alguém que desperta, estimula, provoca, questiona e deixa questionar. (JAPIASSU, Hilton. Para ler Bachelard, 1976, p. 76).

Sublinhe-se: o notável filósofo Bachelard, por muito tempo, foi professor do ensino secundário em França.

Tal sadismo revelava o lado contraditório do ser humano que o verniz da formação religiosa não consegue apagar.

Aqueles salesianos praticantes do sadismo pedagógico (e não eram poucos) diziam seguir o  sistema  preventivo  de

 

 

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Dom Bosco e, no entanto, praticavam, ao pé da letra, o sistema repressivo.

Racionalizavam, ao identificar sistema repressivo com pancadaria, golpes e torturas físicas, esquecidos de que o sadismo inerente aos castigos por eles aplicados, por serem de natureza moral e psicológica, era muito pior.

Chego a pensar: mais do que sadismo, essa atitude constitui atentado à dignidade humana. Este não se dá apenas nas celas de tortura, na violação dos direitos humanos. Ainda que em menor escala, se dá também nos educandários e até em âmbito familiar, quando, na falta da compreensão, se apela para o castigo e para a humilhação.

Que fique bem claro: não estou criticando o sistema preventivo, tal qual concebido por Dom Bosco. Acredito tenha sido uma das maiores descobertas de seu gênio de educador e de amor aos jovens.

Teoricamente é correto e até cientificamente é comprovada sua validade. Bastaria lembrar o maior estudioso do assunto em minha época de congregado e, acredito o seja até hoje: Padre Carlos Leôncio da Silva.

Seus trabalhos publicados não são apologia gratuita do sistema preventivo, mas resultado sério de pesquisa e reflexão. À frente reservei espaço para me deter nessa figura extraordinária.

Devo confessar que a Congregação Salesiana no Brasil mudou muito e que provavelmente os salesianos acordaram para o fato de que não basta ter apenas uns rudimentos pedagógicos para valorizar a ação, através do emprego do sistema preventivo de Dom Bosco.

Em síntese, provavelmente deixaram de subestimar a intelectualidade, como faziam em meu  tempo  (1941-1956),

 

 

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na obsessão de valorizar a ação pela ação, seja esta educativa ou catequética. Acredito que o processo hoje se inverteu.

 

Só pode ter sido milagre

 

Estávamos em plena segunda guerra. Em 1942 o Colégio passou a sentir as consequências do maior conflito bélico ocorrido desde o início do século.

Nossa alimentação tornou-se bem sacrificada. Já não havia trigo, carne, leite e café. Tomávamos chá com broa de milho, em vez de café com leite e pão. Uma tarde, tentaram impor no jantar sopa de abacate, fruta abundante na Escola Agrícola. Óbvio: ninguém aguentou.

Desde a chegada ao São Joaquim, os alunos foram separados em dois grandes grupos de acordo com a estatura e a idade: a divisão dos menores e a dos maiores.

Fui sempre da divisão dos menores, pois era o segundo mais novo de todos. Já meu colega da Rua Diamantina, o Hélio Favarini, ficou na divisão dos maiores.

Como já foi dito, cada divisão era vigiada por um clérigo assistente e um vice.

Era costume no colégio fazer mensalmente o chamado passeio geral. Nesses passeios, ia na frente da turma de alunos o vice e atrás o assistente. Foi justamente num desses passeios, já estando nas férias de julho, que aconteceu a grande tragédia de minha vida de interno, longe dos cuidados de minha família.

O passeio tinha como meta um dos morros existentes nos arredores da cidade de Lorena. Ao chegarmos no local, havia  um  terreno  baldio   onde   vicejavam,   em   meio   ao

 

 

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carrascal, vários pés de mamona. Júlio, catarinense e colega de primeira série, me convidou para catar e comer mamona seca: — parecem amêndoas, disse. Por causa da fome que me atormentava naqueles tempos de guerra, comecei a devorar os caroços das tais mamonas secas. Realmente tinham gosto de amêndoas.

Quando voltamos do passeio, mal entrei no dormitório para o banho que precedia o almoço, comecei a sentir dor de cabeça, o estômago a embrulhar e daí a pouco a vomitar e pagar o preço de uma diarreia desenfreada. Já bastante febril, meu corpo tremia de tal forma que não me mantinha em pé. Ao assentar-me na cama, desmaiei. Levaram-me para a enfermaria.

Ao voltar do desmaio, mal e mal enxergava e não atinava com o que estava acontecendo. Inconsciente quase sempre e semiconsciente em alguns momentos, notei vagamente que já estavam cuidando de mim um médico, o padre catequista e o enfermeiro do colégio.

Lembro ter ouvido o doutor cochichar com o padre catequista algo nestes termos: — O estado do menino é grave. Está fortemente intoxicado como se fosse envenenado. Está completamente desidratado e a febre alta não cede desde ontem quando deu entrada na enfermaria. Temos que levá-lo urgente para o hospital e é bom avisar a família. O outro (referia-se ao Júlio) já está fora de perigo. Este aqui, porém, talvez por ter a compleição mais fraca, está com a saúde bastante debilitada.

Só fui piorando, e os padres temiam que eu não durasse mais dois dias. Estavam tomados de grande medo, porque falharam naquilo que lhes era mais precioso: o sistema preventivo de educação criado por Dom Bosco.

 

 

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Soube mais tarde que toda a comunidade formada de maiores, menores, assistentes, padres, irmãos coadjutores foi para a igreja rezar. Verdadeiro mutirão de preces na expectativa de um milagre. Até hoje ignoro por que não fui conduzido ao hospital. Ou se fui, não fiquei sabendo.

Algum tempo depois, por carta, minha mãe contou-me que ela fora avisada por telegrama de que seu filho estava gravemente doente e que todos os cuidados estavam sendo tomados. Apenas queriam ter informações de meu histórico de vida e saúde. Não a alarmaram com diagnóstico mais sério. Confiavam nas orações da comunidade e nas providências tomadas pelo médico. Mas ela desconfiou e, como sempre fazia, apelou para o sobrenatural.

Não sei se foi tentado algum último recurso que deu certo ou se realmente as orações tiveram efeito miraculoso. Talvez o que me salvou tenha sido a fé de minha mãe, já demonstrada quando conseguiu a recuperação de minha irmã, quando esta foi atacada pelo fogo selvagem.

Depois de cinco dias, entre a vida e a morte, comecei a melhorar. Na manhã do sexto dia, acordei sem febre alta e com uso da consciência bem débil, mas podia responder, ainda com dificuldade, às perguntas que me faziam. O alívio foi geral. Os padres atribuíram a recuperação a milagre de Dom Bosco. Será? O certo é que tive de ficar na enfermaria até os últimos dias de férias.

Hoje considero um mistério minha cura. Basta esta informação que leio na Wikipédia: a semente da mamona é tóxica devido principalmente auma proteína, a ricina, que é mortal mesmo em pequenas doses. A semente é de difícil digestão por causa do processo que libera a toxina. Mais de três sementes podem matar um indivíduo.

 

 

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Havia comido  muito mais de três! Ainda bem que esta pequena “bula” médica diz “podem matar” e não diagnostica a morte certa (o que, no meu caso, credita o acerto do tratamento médico e não a crença em milagre)…

Enquanto estava acamado, havia dois colegas que sucessivamente tocavam piano debaixo da enfermaria. Essa ficava no segundo andar. Eles deviam estar adiantados no aprendizado, pois três vezes por semana, alternados, nos mesmos horários, começavam tocando o Danúbio Azul de Strauss.

Por muito tempo, ao ouvir o Danúbio Azul,minha cabeça começava a doer. Certamente era o efeito do chamado “reflexo condicionado” de Pavlov.

 

Criatório de percevejos e pernilongos

 

Se ter passado fome nunca se esquece, também não se esquecem certas privações e penúrias sofridas num internato como era o São Joaquim, naqueles anos do início da década de quarenta. Anos difíceis, sobretudo por causa da guerra.

Quem nunca estudou num internato não calcula os tipos de problemas enfrentados, não só por causa do grande número de pessoas vivendo coletivamente em ambiente fechado, como também pela dificuldade de manter limpo e higienizado este mesmo ambiente.

Cito um exemplo de tantos casos que me ficaram gravados a fogo no depositário negativo de minhas lembranças.

Os dormitórios eram vastos criatórios de percevejos. Diziam os padres que eles eram trazidos pelas andorinhas do

 

 

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quartel, situado a oito quarteirões do colégio. A tarde de quinta feira era destinada à matança dos percevejos que se alojavam nas gretas de nossas camas de ferro ou de nossos pequenos guarda-roupas situados ao lado de cada cama. Estes serviam de separação ou "marca de território" de cada um de nós, na extensão enorme daquelas fileiras de camas.

Armários e camas eram lavados com criolina e queimávamos os ninhos de percevejo a fogo de vela. Pouco adiantava. Eles se multiplicavam feito nuvem de gafanhoto na lavoura. Na capela, enquanto rezávamos, era comum, ver passeando pelo pescoço do colega da frente dois, três percevejos.

Além dos percevejos, outra praga que nos tirava o sangue e o sossego eram os pernilongos. À tarde, pouco antes da Bênção do Santíssimo, ainda durante o recreio, no centro do pátio, não raro fazíamos fogueiras de folhas de eucalipto, árvore muito comum a rodear o terreno do colégio, principalmente a margem do rio Taboão, que servia de delimitação da cidadela salesiana. A fumaça produzida serviria de afugento do exército dos dípteros, melgas ou tropeteiros ou que nome tivessem.

As fogueiras de folhas de eucaliptode quase nada adiantavam. Todos tinham um pequeno dossel na cama, feito de um arco de ferro, cujas extremidades eram presas na cabeceira e, por cima, se estendia um filó de quatro a seis metros quadrados. Apesar disso, vivíamos picados e as paredes dos dormitórios ficavam respingadas do sangue pelos insetos sugado.

Um de nossos colegas, de gaiato humor, nos brindava com esta descrição: — Já sei por que os pernilongos, apesar do dossel, nos picam. É que atacam no mínimo em  grupo  de

 

 

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três. Dois têm a função de alargar com as patinhas o buraquinho do filó, para o terceiro, quando não um quarto, um quinto entrarem dentro do dossel e fazerem a festa…

Há pouco aludi ao Rio Taboão. Quase todos os anos, este rio recebia em seu leito a famosa tromba dágua que, à noite, inundava o pátio e invadia corredores, salas de aula, o salão de estudo dos menores e o refeitório. De manhã é que notávamos o estrago das águas barrentas e fétidas do Taboão. Tinhamos que esperar tudo secar e, em mutirão, retirávamos as enormes placas de barro seco, em que se convertia a lama deixada pelo rio.

 

Treinando para a guerra

 

O quartel não nos presenteava só com os percevejos. Durante todo o ano de 1943 tivemos, uma vez por semana, aulas de defesa militar, dadas por um sargento do exército.

Ensinou-nos tudo o que um recruta deveria saber, inclusive as partes de um fuzil, como montá-lo e desmontá-lo e, apesar de meninos (tinha doze anos!), fizemos treinamento de tiro, usando para isso o rio Taboão como alvo de nossos exercícios. Sobretudo, aprendemos a fazer trincheira e não era permitido acender a luz durante o blackout anunciado pela sirene, que tocava de tanto em tanto na cidade, à guisa de treinamento e prevenção de um possível bombardeio noturno, a ser provocado pelos alemães. Dizia-nos o sargento que, por ter o Brasil declarado guerra à Alemanha, tínhamos que estar prevenidos. As ordens vinham do Alto Comando do Exército situado no Rio de Janeiro, capital da República. [10]

Ao fim do chamado "curso paramilitar" recebemos um certificado de conclusão que, segundo se dizia, serviria para dispensa do exército quando do alistamento, ao completarmos os 18 anos.

 

Médico ou monstro?

 

No final do primeiro ano, depois de um exame geral de saúde, feito pelo médico do colégio, o padre catequista me chamou a seu escritório e disse que eu precisava operar das amídalas.

Marcaram a data e me instruíram como agir. Cedinho depois da missa, em jejum, fui levado à Santa Casa para a cirurgia.

Entregaram-me às irmãs de caridade responsáveis pelo hospital. Meia hora depois, já estava na sala de operação.

O médico que ia me operar era o mesmo do colégio, onde também exercia função de inspetor de ensino, como representante do Ministério de Educação e Saúde para fiscalizar o colégio. Tal de Dr. Abdala.

Lá estava ele todo de branco tendo ao lado uma enfermeira e uma freira. Fui amarrado a uma cadeira semelhante à usada pelos dentistas.

Mandou-me abrir a boca e anestesiou o local. Aguardou o tempo necessário. De posse de vários instrumentos cirúrgicos, como seringa de injeção, bisturi, alicate, alça, gancho, tesoura, começou a cortar-me as amídalas.

Infelizmente a anestesia não pegou e a dor era insuportável. Comecei a chorar e a gritar. Mas ele continuava a cortar. O sangue ia se acumulando na garganta e na boca de tal forma que, de repente, para evitar o sufoco, incontroladamente, num regorjeio instintivo, lancei golfada de sangue no rosto do médico, atingindo-lhe a máscara protetora do nariz e da boca e o jaleco. Indignado, me lascou um tapa na cara. Precisou de a irmã enfermeira intervir e gritar que era inconcebível um médico fazer aquilo. Ainda mais contra uma criança indefesa.

Terminada a operação, fui consolado pela freira, gesto que foi coroado na enfermaria do colégio, tomando sorvete durante vários dias. Fazia parte do tratamento. Não sei como se conseguiu sorvete, pois estávamos na penúria provocada pela guerra.

 

Fogo, fogo!

A igreja está pegando fogo!

 

No caleidoscópio de minha imaginação, ali estático diante do portão de minha casa, muitos episódios pitorescos surgiam como marcas indeléveis dos três anos ginasiais passados em Lorena. Mas tempo que obnubila a memória, exiguidade de espaço e consciência  de  que  nem  sempre  o

 

 

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lembrável merece ser narrado me levam a reduzir o relato.

Não é o caso de um ocorrido em 1944. Estava na 3ª. série ginasial. Era da Schola Cantorum, regida por um clérigo. Certa noite fomos cantar na Catedral, a convite do Bispo local. Estávamos no coro da igreja aguardando o momento de nosso número na cerimônia religiosa. Era o Te Deum de louvor e agradecimento a Deus e em homenagem a um soldado lorenense recém-chegado da guerra na Itália, donde viera mutilado, motivo por que era tido como herói por seus conterrâneos.

Desprevenidos, vimos de repente um fogaréu na entrada da igreja. A tensão naqueles tempos de guerra era tanta que alguém gritou entre nós: — Fogo! Fogo! A igreja está pegando fogo! Ao que nosso clérigo regente, julgando que a igreja estaria sofrendo algum atentado de incendiário anticlerical, arrematou em pânico: — Meninos, vamos cantar pedindo a Deus que nos proteja e salve nossas vidas antes que a igreja seja queimada. E correu para o órgão e começou a tocar.

Pouco depois conseguimos compreender o que estava sucedendo. Um atleta entrava na igreja com a tocha olímpica em homenagem ao herói de guerra.

O alívio foi geral e terminou em clima de hilaridade, quando, cerca de meia hora após, começou o padre orador a pronunciar sua saudação ao soldado ferido em campo de batalha. O início de seu discurso foi patético: — Eu te saúdo em nome da Pátria estremecida, jovem guerreiro e herói nacional, que merece ser celebrado em todos os pagos deste Brasil altaneiro. Eu te saúdo em nome de todos os lorenenses, Afrânio Candido Gonçalves. E repetia com voz cada   vez   mais   empolada   e   fazendo    pausa    em    cada

 

 

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declinação: — Afrânio Candido Gonçalves (pausa)— Afrânio Gonçalves Candido (pausa) Candido Afrânio Gonçalves (pausa) —Candido Gonçalves Afrânio (pausa)— Gonçalves Afrânio Candido (pausa) —Gonçalves Candido Afrânio. Não satisfeito com uma, fez todas as seis possíveis combinações.

 

Rosto ou focinho?

               

Ocorreu no Santuário São Benedito[11], templo que fazia parte do Colégio São Joaquim e era por nós frequentado diariamente nos horários de missa, bênção do Santíssimo, orações individuais durante os recreios e em todas as cerimônias religiosas, inclusive os retiros espirituais realizados todos os anos.

Era o dia 24 de maio — data em que se celebrava a padroeira da Congregação Salesiana: Nossa Senhora Auxiliadora. O santuário estava todo enfeitado, a missa seria solene com o coro cantando o Kyrie, o Glória, o Credo, o Sanctus, o Benedictus, o Agnus Dei.

Mês e meio atrás havia chegado da Itália um padre missionário para trabalhar no Amazonas e estava de passagem pelo Colégio. Fora escalado para fazer o tradicional sermão em homenagem à Santa.

Ele ainda não dominava inteiramente nossa língua portuguesa. Por isso já no púlpito, de sobrepeliz, estola e barrete, tirou do bolso da batina o sermão escrito e começou a ler com entusiasmo.

Em determinado momento nos presenteou com esta pérola de oratória: Meus irmãos, contemplai com devoção e amor a querida Nossa Senhora Auxiliadora. Vede como ela olha com doçura para o dulcíssimo focinho de seu filho, o menino Jesus que traz no colo.

Aquilo provocou em todos misto de espanto e estranheza, logo seguido de riso generalizado.

Mais tarde confirmou-se a hipótese por todos aventada: ele procurou no dicionário a tradução de faccia — palavra italiana correspondente à cara, rosto. Estranhou o primeiro sinônimo e foi atrás de outros até que encontrasse um que no seu entender deveria ser mais condizente com o semblante de uma criança. Ao topar com focinho na cadeia de sinonímia, julgou que, por causa do aparente diminutivo, era o termo mais indicado. Explicado estava como surgiu a preciosidade linguística com que nos brindou naquele 24 de maio de 1943.

Não deixa de ser curiosa a pregação de outro sacerdote italiano feita naquele mesmo ano ao se referir à guerra que grassava na Europa. Foi este o introito de sua oratória:  —  O

 

 

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mundo períclita(com acento no primeiro “i”)numa grande hecatombe. A frase ficou célebre entre nós e a repetíamos com frequência como senha dos tempos tenebrosos da guerra.

 

Expulso da sala de aula

 

Foi também no São Joaquim de Lorena que pela primeira vez na vida fui expulso da sala de aula. A aula era de Ciências, na segunda série ginasial.

O professor, um clérigo de nome Hugo, recém-saído da Filosofia, estava ensinando a experiência da força de resistência do vácuo através dos hemisférios de Magdeburgo. Descreveu a experiência terminando com a afirmação de que dois cavalos amarrados cada um a cada hemisfério em sentidos opostos, se tentassem com todas suas forças separar os hemisférios, não conseguiriam.

Entusiasmado pela experiência, comentei em voz alta para o professor ouvir: — Mas também, professor, se os cavalos conseguissem separar, coitados!, iriam se espatifar no chão.

Para o professor eu estava ridicularizando sua apresentação. Por isso, me repreendeu e me expulsou da sala de aula. Cabisbaixo e todo sem graça, tive de obedecer. Já estava começando a dominar meu orgulho, seguindo os ensinamentos recebidos.

A segundae última expulsão ocorreu na quarta série, no Colégio São Manuel, em Lavrinhas, para onde todos os quartanistas eram mandados a fim de fazer, com o término do ginásio, a preparação para a entrada no Noviciado. O chamado postulantado.

 

 

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Por sermos postulantes imediatos à vida religiosa, éramos tratados diferenciadamente. Além das aulas tínhamos palestras à parte e, de certo modo, nossos colegas das outras séries nos tratavam com certo respeito.

Nada mais do que isso, pois o que ocorreu comigo, além da humilhação pela apresentação do piano a quatro mãos, demonstra que os postulantes não eram lá muito especiais. Ou melhor, eram, mas para serem tratados com mais rigor, pois exigiam de nós um comportamento consoante com a vida de religioso que iríamos abraçar, dali a alguns meses.

Humilhar, sem motivo razoável, um postulante deveria fazer parte daquele contexto preparatório.

Era aula de Matemática, matéria de que gostava muito. O professor, um padre catarinense de sobrenome Mozer. Quando ele acabou de demonstrar no quadro negro o teorema de Pitágoras, levantei a mão e perguntei-lhe se, em vez de partir da igualdade dos triângulos, não poderia demonstrar também partindo da própria área do quadrado, construído sobre a hipotenusa do triângulo.

A mim me pareceu ter tido intuição de demonstração diferente da do livro adotado, o de Jácomo Stávale (este nome era por nós glosado como “já como está vale”) praticamente decorada pelo professor ou reproduzida no quadro negro, lendo o manual didático, como lhe era praxe.

O padre achou que eu estava duvidando de seus conhecimentos matemáticos. Passou-me humilhante admoestação e me expulsou da sala, ordenando que o esperasse em seu escritório, para o devido castigo, uma vez que ele era também o padre Conselheiro.

 

 

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Ser intelectual:

 prerrogativa apenas dos jesuítas?

 

Refletindo sobre essas duas expulsões, devo revelar algo que julgo bastante procedente. Se aqueles dois professores fossem realmente incentivadores de talentos, teriam dado oportunidade ao aluno para testar sua inteligência.

Não tendo agido desta maneira, demonstraram que eles, como os demais salesianos em seu lugar, detestavam quem sobressaísse intelectualmente. Era preciso cortar futura pretensão pela raiz. Entenda-me o leitor: não estou me arrogando a prerrogativa de ser uma excepcional inteligência. Longe de mim. Era apenas um aluno acima da média. Como já disse e volto a repetir: os salesianos não primavam pelo cultivo da intelectualidade.

Nisto se distanciavam léguas dos jesuítas e dos dominicanos, por exemplo. Priorizavam a ação sobre a razão e até a contemplação. Pública era sua racionalização: Não somos ordem religiosa nem companhia de Jesus. Apenas Congregação. Nosso fundador não nos quer contemplativos nem intelectuais, mas obreiros de Deus. Quem quer viver na contemplação, só rezando, meditando e fazendo penitência que procure uma ordem religiosa, como a dos beneditinos. Quem pensa em ser intelectual que ingresse na Companhia de Jesus.

Estou reproduzindo o que se ouvia frequentemente intra muros. Chego a pensar que o projeto dos nossos padres salesianos (uma vez que demonstravam ser unânime este modo de pensar) era que a Congregação Salesiana fosse  um  conglomerado  de  sãojoãovianeys.  Quanto   mais

 

 

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medíocres, melhor!

O fundamento de minha afirmação é que costumavam apontar como modelo o Cura D´Ars, ou São João Vianney, de limitada inteligência, que só conseguiu ordenar-se, por causa de sua robusta fé, enriquecida pela santidade de sua vida, inteiramente dedicada à caridade aos pobres e miseráveis.

Ao fazer a comparação com os jesuítas, ocorre-me anedota que corria solta entre nós.

Encontraram-se numa praça em Roma dois provinciais, um dominicano e o outro jesuíta, acompanhados dos respectivos secretários, padres e religiosos como seus superiores. Os dois secretários, enquanto os provinciais conversavam, se retiraram e sentaram num banco da praça e começaram a rezar o próprio breviário[12].

A conversa demorava muito. Inquieto, um dos secretários falou para o outro: — Estou com vontade de fumar. Ao que o outro respondeu: — Eu também.

O secretário dominicano levantou e foi até seu superior e pediu a devida permissão. Voltou e sentou cabisbaixo. O secretário jesuíta percebeu que o colega nada conseguira. — Me diga o que você falou com seu superior? — Eu lhe pedi: o senhor me permite fumar enquanto rezo o breviário? Ele me negou e até me repreendeu.

Diante da resposta, o secretário jesuíta se levantou e foi até seu provincial. Pouco depois voltou triunfante já fumando seu charuto. Espantado, o dominicano o interrogou: — Como conseguiu? — Ora apenas pedi a meu superior: o senhor permite que eu reze o breviário enquanto eu fumo? Ele não só concordou como me elogiou.

A anedota reflete bem a diferença entre jesuítas, congregados e contemplativos (beneditinos, dominicanos, franciscanos etc.). A Companhia de Jesus, fundada por Inácio de Loyola, tem apenas os deveres de uma congregação religiosa, mas todos os direitos das ordens. Com essas prerrogativas os jesuítas haveriam de constituir o baluarte intelectual da Igreja.

Talvez seja este o motivo por que os salesianos insistiam em se afastar tanto da ordem religiosa quanto da companhia jesuítica. Por enfatizarem em demasia a ação sobre a vida intelectual e a contemplativa, acabaram incentivando a mediocridade.

Lembra-me muito bem a atitude de nosso diretor no São Manuel de Lavrinhas, Padre Hugo Neves. Frequentemente, seja nas palestras aos postulantes, seja nas aulas de inglês que nos lecionava, seja no boa-noite, após as orações ao final de cada dia, fazia questão de nos admoestar, com uma ameaça que me marcou fortemente: — Ai dos intelectuais! exclamava como se estivesse na curul do Juízo Final.

Por causa desta postura, por muito tempo vivi intensamente o conflito entre minha sede de saber, de ler muito e até de escrever contra a de viver integralmente a vida religiosa, lastrada em parte na oração e na meditação e em  parte,  a  maior,   nas   atividades   educacionais   ou    de

 

 

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catequese. Atividades vinculadas ao pensamento estereotipado e dogmático, uma vez que se alijava a razão crítica de todo aquele processo mediocrizante.

Para justificar a opção institucional apelavam para o irredutível argumento da fé. Esta haveria de salvar quem a possuísse e a cultivasse tanto quanto consagraria suas obras.

Se tivesse que propor um lema emblemático para os que defendem a mediocridade ou a cegueira da mente, por certo indicaria este que mereceria constar entre as bem-aventuranças: Bem-aventurados os cegos, porque não precisam abrir os olhos diante da realidade.  

Hoje entendo claramente que, ao apelarem para a fé – alicerce do dogma, estavam recorrendo não à autêntica fé, mas ao automatismo tão estudado pelos psicólogos. A fé que nos inculcavam era inteiramente contrária à de Unamuno que, em uma de suas reflexões escreveu: fé autêntica não é mero crer em algo de olhos fechados, mas crer acompanhado de dúvida, alimentado de dúvida, pois uma fé que não vacila não é fé, é mero automatismo psicológico.

Paradoxalmente, a Congregação tinha a missão de preparar educadores e professores para o ensino secundário e, nesta formação, se exigia que cada um de nós fosse polivalente. Por exemplo, já terminada a Filosofia, tive de lecionar Matemática, Língua e Literatura para os clérigos da Filosofia e Matemática e Inglês para os aspirantes da primeira à quarta série ginasial. Não era propriamente a minha escolha, mas tinha de obedecer, pois as necessidades do colégio estavam acima de nossa vontade.

Para confirmar a observação feita, mais um testemunho. Na adoção dos livros  didáticos,  não  se  levava

 

 

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em conta a qualidade. Não sei qual o critério adotado. Por certo escolhiam os mais baratos.

Quando lecionei matemática para os aspirantes do Colégio São João, de São Del Rey, tive de usar os livros de Cecil Thiré. Pessimamente impressos e mais pessimamente escritos, sem revisão alguma. Quase não havia um teorema demonstrado ou um exercício sem erros crassos.

A preparação das aulas exigia do professor árduo trabalho de ter que corrigir o livro e mostrar aos alunos onde estavam os erros… O desgaste era enorme, e a confiança do aluno perdida!

 

                Segredo do império salesiano

 

Obviamente aos salesianos importavam, em primeiro lugar, as receitas que tinham de colher dos colégios por eles mantidos.

Quando lecionei em Ponte Nova, Minas Gerais, no Colégio Dom Helvécio, só havia um professor contratado, se não me engano para lecionar Português para o científico. Todas as demais matérias do primeiro ginasial ao terceiro colegial (e o Dom Helvécio devia ter mais de seiscentos alunos, entre internos e externos) eram lecionadas por padres e clérigos salesianos. É de se concluir que significativa deveria ser a arrecadação daquele colégio e o quanto não ia para os cofres da Matriz em Turim?!…

Hoje, quando vejo o “império salesiano”, tendo como referencial apenas o Brasil, sou tomado de admiração e espanto. Qual o segredo de tamanha expansão? Como conseguiram o riquíssimo patrimônio que abrange enorme rede  de  escolas  de  nível  infantil,  de  colégios,  faculdades,

 

 

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centros universitários, parque editorial, de informática, de produção de TV, de audiovisuais, além de paróquias, oratórios, obras assistenciais e sociais,apenas para apontar os mais conhecidos, com prédios e mais prédios, terrenos e mais terrenos? Com uma olhadela na Internet constatamos: “Atualmente mantêm mais de cem instituições de ensino fundamental e médio no país, com aproximadamente noventa mil alunos e quatro mil educadores. Dirigem dez grandes universidades e centros universitários, oferecendo mais de cem cursos. Desenvolvem uma rede muito ampla de obras sociais e de formação profissional”.

Desde meu tempo de salesiano, sabia que eram exímios administradores, honestos e trabalhadores. Mas não consigo admitir que tal êxito seja só devido a esse feixe de qualidades e virtudes, nem às mensalidades de seus educandários, muito menos ao resultado econômico do voto de pobreza, à vida frugal em comunidade, às heranças de seus congregados transferidos de suas famílias de origem para a própria Congregação.

É de lhes render homenagem. E o faço com sinceridade. Afinal trata-se de uma obra que visa o bem, a educação da juventude. Independente de minhas idiossincrasias e até manifestações de resistência ao modo como fui por eles educado, não posso deixar de reconhecer-lhes o grande mérito.

Entretanto, no meu parco entender, algo de misterioso existe por trás de tudo isso. Chego a pensar, sem laivo de ironia, mesmo levando em conta a crítica ao tipo de fé por eles pregada, tudo isso só pode ser atribuído ao mistério da fé.

Por certo eu é que  não  soube  interpretar  esta  grande

 

 

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virtude teologal, por eles praticada, ao lado das outras duas: a esperança e a caridade. Além das cardeais: prudência, justiça, fortaleza e temperança.

Não estão cumprindo realmente a promessa de Cristo: si habueritis fidem sicut granum sinapis, dicetis monti huic: transi hinc illuc, et transibit, et nihil impossibile erit vobis. (se tiverdes fé como um grão de mostarda, direis a este monte: passa daqui para acolá e há de passar, e nada vos será impossível) (Mateus, 17:20)? 

Terá sido realmente essa misteriosa fé que os levou a transportar montes e montes de um local para outro, de um colégio para outro, de uma inspetoria para outra?… Repito: verdadeiro mistério! E como já confessei em um de meus poemas: Diante do mistério / com fogo eu não brinco./ O fogo é que me torna / joguete de sua manha.

 

                                      Paulo Quercia

 

Volto ao tempo do colégio São Manuel de Lavrinhas, onde fiquei um ano, fazendo a 4ª série ginasial ou o postulantado preparatório ao Noviciado.

Se em Lorena os meninos, após três anos, já estavam adaptados ao sistema de educação e ensino dos salesianos e, de certo modo, moldados à imagem e semelhança dos jovens santos, propostos como paradigmas de vida, como São Luiz Gonzaga e Domingos Sávio[13], era de esperar maior intensidade nas práticas religiosas em Lavrinhas, uma vez que o passo decisivo para entrar na Congregação Salesiana estava bem próximo.

Foi de fato o que aconteceu. O que não me impede de relatar alguns fatos curiosos a amenizar o clima acima apontado. A amenizar em parte, porque também revelam quanto a alienação tomava conta de todos nós.

Era costume o padre Inspetor (em outras congregações religiosas, chamado Provincial) visitar o colégio ao menos duas vezes por ano.

Na primeira vez em que se apresentou no colégio, declarou estar à disposição de todos os alunos, sobretudo dos postulantes, para uma conversa de aconselhamento religioso, inclusive para ouvir alguma queixa e até mesmo atender em confissão.

Bastaria deixar um bilhete com o Assistente que este encaminharia ao padre inspetor, na época o mesmo padre Orlando Chaves que me esquecera na estação ferroviária de São João Del Rey.

Durante o horário de estudo, o interessado era chamado, na ordem em que os bilhetes chegavam às mãos do padre inspetor. Numa noite nosso Assistente, lá do alto da cátedra de onde ficava nos vigiando durante o estudo, chamou em forma interrogativa: — Paulo Quercia? Repetiu o nome duas vezes. Até que na terceira vez um colega se levantou. Era o Paulo Carvalho. Indagado por que trocara seu nome respondeu: — Nós não estamos aprendendo italiano que é a língua da Congregação Salesiana? Então, para demonstrar ao padre inspetor que estou estudando com gosto o italiano, traduzi meu nome. Paulo é igual, Paulo mesmo. E Carvalho em italiano é Quercia.

Óbvio, a risada foi geral, e o Paulo, todo sem graça, vermelho como tomate maçã, saiu do estudo e foi lá conversar com o padre inspetor.

 

 

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Com este mesmo Paulo tinha acontecido outra do mesmo naipe, mas no ano anterior, quando estávamos em Lorena. Nosso professor de português era o padre Conselheiro. Pelo Regulamento do Colégio, que nos era distribuído, todo aluno tinha a correspondência epistolar censurada pelo padre Diretor, tanto as cartas que mandávamos como as que nos eram endereçadas.

Numa das aulas de Português, o padre Conselheiro arguiu o Paulo Carvalho: — Paulo, o padre Diretor me entregou a carta que você escreveu para sua mãe e me perguntou o que é isso que você escreveu: "Mamãe, estou com muita escabiosa da senhora".

O Paulo rápido e todo triunfal respondeu: — Professor, o senhor não nos ensinou outro dia que devemos enriquecer nosso vocabulário, lendo e sempre procurando no dicionário os significados das palavras e que devemos evitar repetir a mesma palavra? Ora, eu queria mostrar à minha mãe que estou progredindo no estudo. Por isso procurei no dicionário um sinônimo de saudade. E encontrei escabiosa. — Como assim?! (retrucou espantado o professor). Pois vamos ao dicionário. Tirou da estante o Aurélio e leu alto para todos ouvirem: Saudade: — 1 — lembrança nostálgica… 2 — pesar pela ausência de alguém que nos é querido… 3 — designação comum a diversas plantas da família das dipsacáceas, principalmente da espécie Scabiosa marítima e às suas flores: escabiosa, suspiro: "E ela deu-lhe do seio uma saudade / Murcha e no entanto bela" (Gonçalves Dias). E o Padre Conselheiro concluiu: — Ah! Seu Paulo Carvalho, você aprendeu mesmo minha lição. Confundir sentimento com flor é o mesmo que dizer que Botânica e Poesia são a mesma coisa.

 

 

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Difícil foi concluir a aula de tanto que ríamos do achado maravilhoso do Paulo. Para confundir nosso deleite de gozar os companheiros nos recreios, depois do episódio de Lavrinhas ficamos em dúvida existencial: continuar chamando o Paulo de Paulo Escabiosa ou passar a designá-lo como Paulo Quércia!

 

O batismo de René Chateaubriand

 

Em Lavrinhas muita coisa ocorreu. Como a do dia em que fui ajudar o Padre Ladislau Paz, já nomeado Inspetor da Inspetoria do Mato Grosso, após ter acabado de ser diretor do Colégio São Manuel[14].

Estava lá se preparando para assumir o novo cargo para o qual fora designado. Aproveitava o tempo para dar atendimento como "pároco" à comunidade frequentadora da capela do colégio.

Fui designado para ajudá-lo como coroinha num domingo de manhã. Após celebrar a missa, iria batizar as crianças. Eis que se aproxima da pia batismal uma jovem mãe negra. Ao indagar-lhe qual nome daria para o menino que trazia no colo, ela respondeu: — René Chateaubriand. — O quê? Que René Chateaubriand qual nadaFilho de preto tem de ser Benedito. Benedito, eu te batizo em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

 

     

 

Apanhar limão…

       

Pitoresco foi o convite de um velho sacerdote alemão que era o confessor de quase todos os alunos. No primeiro dia das férias de julho, ele apareceu no salão de estudo e nos fez um convite com seu sotaque estranho: — Quem quisser aparrendar alimão que mi acampanha.

Cerca de quarenta alunos o seguiram. Qual não foi a frustração da turma quando, ao invés de ir para o pomar apanhar limão, teve de entrar numa sala para aprender alemão. No dia seguinte só havia quatro gatos pingados interessados em aprender a nova língua.

 

A novidade do São Manuel

 

Ao contrário do Colégio São Joaquim, de Lorena, o novo aspirantado tinha piscina. Foi lá que aprendi a nadar mal e mal, imitando um colega que sabia o “nado do cachorrinho”.

Posso estar equivocado, mas não havia chuveiro e o banho era uma vez por semana. Imaginem como era nossa ablução corporal. Formávamos grupos de vinte alunos. Cada um, já de calção, se enrolava na toalha de banho e ocupava seu lugar na fila. Esta era conduzida alternadamente pelo clérigo assistente ou pelo vice. Do prédio do colégio à piscina, situada no alto de um monte, tínhamos que atravessar uma ponte de doze metros. O banho durava apenas dez minutos. Primeiro pulávamos na piscina e a nado a atravessávamos e voltávamos. Já na beirada da piscina cada um se ensaboava e pulava novamente para tirar o sabão. Quem sabia nadar (e era a maioria) aproveitava para praticar o esporte até o término do banho. Quem  não  sabia

 

 

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podia ficar em pé dentro da piscina e completava desta forma o próprio banho.

É fácil supor como ficava a água! Pelo que lembro não havia nenhum encarregado de fazer a limpeza diária e trocar a água de vez em quando. Por certo a química do H2O já estava afetada com outros elementos. O forte e pesado esverdeado da água valia como comprovante.

Em nome do respeito aos salesianos, sou levado a declarar: manter a água banhada por dias e dias não era privilégio deles. Amigo meu foi à Copa do Mundo em 1966 em Londres. Ficou hospedado num hotel três estrelas. O banheiro era comum a todos os apartamentos do andar. Uma banheira em que não se trocava a água e, por isso, crosta enorme de sebo e sabão revestia a superfície da água. Como os salesianos herdaram costume europeu, através dos italianos, não é de estranhar!

Tal como em Lorena, ficávamos ansiosos pelo dia do passeio geral. Era quando fazíamos verdadeiras excursões, percorrendo as estradas de terra e os “caminhos-de-burro” ou veredas de fundo de fazendas. Com que prazer o fazíamos, sentindo que estávamos entrando, de cheio, no seio da natureza.

Aliás, fora isso, Lavrinhas era quilometricamente superior a Lorena. Uma cidade com todo jeito de vila que mal e mal se emancipara. Muito mais vegetação, florestas, matagais, plantações e criações de gado que a urbana Lorena.

É verdade que não tinha a Escola Agrícola que funcionava como apêndice do Colégio São Joaquim, onde com frequência realizávamos nossos passeios e aproveitávamos para comer algumas frutas colhidas por  nós

 

 

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mesmos no pomar da escola. Pomar e horta do São Manuel estavam na própria área territorial do colégio.

O São Manuel foi uma fazenda doada aos salesianos ou por eles comprada. Consistia prazer para nós, crianças e adolescentes, o dia em que os padres nos mandavam trabalhar na plantação, fazer os canteiros de verduras e colher frutas.

Dois fatos surgem neste momento, no écran de minha recordação daquele tempo. Participava de um grupo de dez a doze alunos incumbidos de preparar canteiros, remover e transportar terra. Todos de enxada, enxadão ou pá na mão. Óbvio, trabalhávamos em silêncio, pois não se podia conversar. De repente ouvimos um grito. Um de nossos colegas, de nome Juscelino Vale (natural de Guanhães, MG) acabara de levar uma enxadada na cabeça. Tanto ele, a vítima, como o outro, o autor da façanha, agiram inadvertidamente. Talvez ele se abaixou para catar alguma coisa ou arrancar um feixe de capim, quando o outro estava cavando a terra e não o teria visto. Tudo foi muito rápido. O corte foi profundo e muito sangue jorrou. Mas não sei se sua cabeça era muito dura ou se o golpe não fora tão violento como era de se esperar, o certo é que o trabalho de seu Vicenzo, o enfermeiro, o curou em pouco tempo, sem deixar sequela.

O outro episódio se deu com um colega também mineiro, mas de Belo Horizonte. O Eduardo Ambrósio.[15] Estava ele trabalhando com um grupo encarregado de aplainar um barranco, a fim de aumentar o pátio do colégio. Sem nenhum planejamento, muito menos a mínima técnica para executar a operação, a turma começou a furar grande buraco por baixo do morro. Este devia ter uns quatro metros de altura. A vala cavada já havia avançado bastante. Para espanto de todos, a parte superior ruiu. Ao ver toneladas de terra se despejarem sobre sua cabeça, num átimo, sem saber como e por quê, o Eduardo, ao invés de correr, deu um salto em sentido vertical. E quando aquele monte de terra acabou de se assentar, no cume da terra acumulada, ainda encoberto pelo nevoeiro de poeira, ele surgiu.

Cientificamente não se tinha explicação: como ele conseguiu saltar na vertical sem que fosse coberto e acabasse justo por cima do colosso de terra que estava desabando sobre sua cabeça?

A consequência foi mais assustadora. Mal baixou a poeira, nosso colega não surgiu triunfante para receber nossos aplausos, mas caiu duro feito uma estaca. Foi socorrido do desmaio. Ainda bem que tudo acabou sem nenhum prejuízo.  Sem prejuízo em parte, porque ele perdeu, naquele salto, as penugens de barba (estava terminando a adolescência) e consta que nunca mais a barba lhe cresceu!

Este tipo de fenômeno aconteceu também a um missionário salesiano. Em visita ao colégio, ele mesmo nos contou o ocorrido. Relativamente jovem, tinha a cabeça toda branca e nenhum fio de barba. Nas missões do Amazonas, onde trabalhava, aconteceu estar, certo dia, em recreio com os índios, alunos da missão. Eis que lhe aparece um indiozinho com arco e flecha apontada para ele. Sem saber o motivo, se fruto de um mal-entendido de linguagem,

 

 

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muito comum onde se dá o chamado “choque cultural”, ou outro motivo inexplicável, o fato é que o índio soltou a flecha e ele, tomado de susto e num rápido reflexo de defesa, agarrou a flecha, antes que ela atingisse seu peito. Dizia ele que na mesma hora perdeu toda a barba, e seu cabelo branqueou.

 

Diventato uomo

 

Foi no São Manuel que se deu a maior mudança física e psicológica até então acontecida em minha vida: o surgimento da puberdade. Em O cavalo de São Roque o registrei, no texto intitulado: Diventato un uomo. Julgo importante reproduzir o essencial daquele texto:

Pertencia a Schola Cantorum — o coral dos meninos, que cantava na igreja e, em determinadas datas, nas festas e no teatro do seminário. Havia dois grupos no coral, os sopranos e os contraltos. Era contralto. Na hora do ensaio geral ou final, os dois grupos ficavam de pé, um na frente do outro. Quando um grupo estava aprendendo a sua parte, o outro, sentado, com a partitura na mão, ficava ouvindo a música e escutando os comentários do padre regente.

Numa dessas tardes de ensaio, estava no banco, ao meu lado, o Tarcísio, colega de turma, um ano mais velho que eu. Magrelo, olhos negros e grandes. A pele era bem morena e lisa, parecida com a de um hindu.

De repente, Tarcísio ficou alterado e envergonhado, a ponto de ter, em pouco tempo, as faces roxeadas. Começou a contorcer-se e, tentando disfarçar o que se passava, procurava conter o membro endurecido entre as pernas.

Como envolvido por sua sensação  estranha,  senti  pela

 

 

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primeira vez o pênis inchar, crescer e em questão de minutos, os mais parecidos com a eternidade até então experimentados, começou a soltar viscoso líquido, molhando cueca e calça. Com a partitura da música disfarçando a região revolucionada, pedi, assustado, licença ao regente e corri para o sanitário mais próximo. Lá fui ver o que estava acontecendo.

Os padres nunca preparavam os meninos para a entrada na puberdade e nunca se falara em ejaculação. Viviam também eles o estigma da pureza exigida, como obsessão, pelo fundador da congregação religiosa, Dom Bosco, proclamado o Santo da Pureza. Dentro da síndrome da salvação da alma, garantida a castidade, tudo o mais era secundário.

Desesperado, atirei-me com afã em desembalada corrida do banheiro para a enfermaria e contei para o velho irmão leigo, italiano, que fazia o papel de enfermeiro: — Seu Vincenzo, estou com dor esquisita no saco e meu pinto arde feito fogo. Saiu dele um líquido estranho, acho que é pus. Me ajude, por amor de Deus. O sábio do velhinho me consolou e me deu a primeira aula de sexologia, junto com um cálice de Cinzano, que sempre oferecia qual panaceia para qualquer dor ou indisposição,sobretudo a de estômago,e justificar, nessa cumplicidade, seu disfarçado pendor para a bebida de Baco, tipicamente italiana: — Bambino mio, ascolta bene lo che ti voglio dire: — oggi tu sei diventato un uomo. Hai lasciato di essere un bambino. Capisci allora? Altra volta che questo ritornare, prega, prega a Domenico Savio o a San Luigi Gonzaga e lascia tutto nelle mani dei nostri gran piccoli protetori della purezza. Com la protezzione di loro avrai forza contra il diavolo nelle tentazioni della carne. Beve, beve

 

 

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questo bichiere di vino e che il diavolo vade retro. (Meu menino, escuta bem o que quero te dizer: — hoje te tornaste um homem. Deixaste de ser criança. Entendes então? Se outra vez isso acontecer, reza, reza a Domingos Sávio ou a são Luiz Gonzaga e deixa tudo em mãos de nossos grandes pequenos protetores da pureza. Com a proteção deles terás força contra o demônio nas tentações da carne. Bebe, bebe este cálice de vinho e que o diabo suma de tua vida).

Aliviou, de fato, toda minha tensão e com ela a primeira consciente tesão. Coitada! Acontecida toda cercada de imprevidências e preconceitos! E foi assim que deixei de ser criança e me tornei homem sem entender realmente em que consistia tal transformação.

Pelas aulas de ciências naturais no ginasial e até nas de Biologia durante o Curso de Filosofia, não havia o estudo do aparelho reprodutor do animal, muito menos do ser humano. Era, por certo, matéria proibida.

Ao sair da enfermaria, o velho enfermeiro me recomendou que toda vez que se repetisse aquilo deixasse correr naturalmente. Poderia ir para o banheiro, mas não deveria tocar no membro, nem ficar olhando. Do contrário, seria pecado mortal e neste caso não poderia comungar, sem antes confessar. E saber que quem cometesse pecado mortal, sobretudo contra a castidade, seria mandado para casa. Proscrito. O mesmo que pegar o passaporte para o inferno. Jamais poderia esquecer que fora escolhido por Deus para ser um dia sacerdote e não poderia conspurcar este chamado.

 

 

 

 

 

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5

 

 

 

Não se enterram a céu aberto.

O cemitério não lhes convém.

Ficam (…) ao pé dos altares da capela-mor.

Aí estão mais perto de Deus

(…) São privilegiados diante do Senhor.

Não é qualquer família que o consegue.

As luzes, o incenso, a melopeia gregoriana

confortam lá embaixo

 uma ausência importante de corpo.

 

(Carlos Drummond de Andrade—Repouso no templo)

 

 

 

 

Estamosviajando de trem de Lavrinhas para Pinda-monhangaba. Nesta cidade é que está situado o Noviciado. A ânsia de chegar para sermos introduzidos na vida religiosa propriamente dita fez que a viagem para minha percepção fosse rápida, apesar de ter levado algumas horas.

Nos  recantos  da  memória  não  consigo  vislumbrar   o

 

 

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escaninho que guarda o itinerário percorrido, quando passamos por Cruzeiro, Lorena, Guaratinguetá, Aparecida, até apearmos em Pindamonhangaba, carinhosamente chamada de Pinda.

O trecho viria a ser para mim familiar anos mais tarde, pois iria percorrê-lo com relativa frequência.

Talvez os padres tenham conseguido um trem especial e fomos sem parar nas tradicionais estações, particularmente na de Lorena, que gostaria de rever para matar saudades.

 

A recepção no Noviciado

 

Em Pindamonhangaba fomos recebidos pelos colegas que terminavam o Noviciado. Cada noviço fora encarregado de ser espécie de anjo da guarda de uns dois ou três de nós, e sua missão era nos mostrar como funcionava o Noviciado e como deveríamos nos comportar para nos adaptarmos facilmente à nova vida.

Quem fez os três primeiros anos de ginásio em Lorena como eu não conhecia aqueles que nos recepcionavam, pois a nossa foi a primeira turma que, em 1942, começou o curso ginasial no São Joaquim de Lorena, e todos os noviços que nos recebiam fizeram os quatro anos de ginásio em Lavrinhas.

Ao chegarmos ao Noviciado, para nossa surpresa o prédio ainda não estava acabado. Faltava terminar pequena parte para acolher confortavelmente nossa turma, a maior de toda a história dos Salesianos no Brasil. Éramos cerca de 100 noviços, entre clérigos e irmãos coadjutores. Acredito que nunca houve turma tão grande, nem antes, nem depois.

 

 

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Nos dois primeiros meses, tivemos de trabalhar, dentro de nossas limitações de tempo e jeito, para o ofício demandado, no acabamento do prédio e na construção da igreja. Na hora do recreio íamos para o local onde se amontoavam os tacos para cravar-lhes os típicos pregos ou nos mandavam carregar moirões, tábuas, areia e cimento para o trabalho dos pedreiros.

 

Depois da tragédia,

a volta à Idade Média

               

Como nos abalou, dois ou três meses depois de nossa chegada, o dia em que um dos nossos colegas, irmão coadjutor, morreu ao cair do alto da torre, onde trabalhava de servente de pedreiro no acabamento da nova igreja!

Não sei se efeito da alienação, se por causa da blindagem de que nos revestiam, se pelo medo transformado em submissão à vontade divina, o fato é que não participamos do velório de nosso colega e até hoje ignoro se foi enterrado em Pindamonhangaba ou se seu corpo devolvido a seus familiares.

Fora esse triste detalhe, o Noviciado era o que se podia imaginar de recanto de paz e espiritualidade. Apesar da construção moderna, o ambiente interno era inundado pela imagem e pelo ar dos mosteiros medievais. Era o lugar e a ocasião para se viver misticamente na esperança de atingir, em curto tempo, a santidade.

 

Padre autêntico

 

Mais do que projeção dos mosteiros  medievais,  diria  a

 

 

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própria projeção daquele admirável homem que a Congregação Salesiana destinara para ser nosso Padre Mestre. Grande figura de sábio e santo: Padre Luiz Garcia de Oliveira.

Dentre todos os padres salesianos, foi um dos poucos que me marcaram e que deixaram impressão positiva e duradoura. Além de dotado de rara inteligência, dominar fortemente filosofia e teologia, latim e grego, nossa língua e literatura, ler em diversos idiomas, conhecia profundamente grandes pensadores e escritores, notadamente os católicos.

Autêntico intelectual, a rigor, era uma exceção entre os salesianos. Por isso lhe caia bem o adjetivo excepcional!

Deveria ser cópia fiel daquele que fora também seu Mestre, e que dele recebia admiração incomum: Dom Antônio de Almeida Lustosa (1886-1974), Arcebispo de Fortaleza, descendente de ilustre família de São João Del Rey (irmão do afamado Dr. Lustosa, inventor da cera de aliviar dores de dente).

Tal qual o Arcebispo de Fortaleza marcantemente pensador, Padre Garcia se revelava homem de ideias, constantemente voltado para as coisas do espírito.

Além de Mestre de Noviços, era também nosso professor de Português. Em homenagem a seu mestre, adotou como livro de leitura nas aulas os Solilóquios, um dos muitos trabalhos de Dom Lustosa.

É sabido que Dom Lustosa morreu com fama de santo, a ponto de seu processo de beatificação já ter sido anunciado. Quando da primeira visita do Papa João Paulo II ao Brasil, seu nome foi lembrado em célebre alocução, em 10 de julho de 1980 aos Bispos do Brasil, concluída com estas palavras:Como não evocar aqui em Fortaleza  a  figura

 

 

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admirável de Dom Antônio de Almeida Lustosa que repousa nesta Catedral e que deixou nesta Diocese a imagem luminosa de um sábio e de um santo. Possa a recordação destes irmãos, e de tantos e tantos outros, que nos precederam com o sinal da fé, estimular-nos mais e mais no serviço do Senhor.

Dizem que pelo dedo se conhece o gigante. Escolho dois textos, provavelmente pertencentes aos Solilóquios, para nos dar mostra do estilo tão sóbrio quanto leve e da linguagem castiça de seu autor. Ambos foram extraídos da Internet:

 

PENSAR E AGIR

 

Habilíssimo escultor fez uma estátua do Pensamento. Conseguiu fazer um homem de mármore com tal expressão que parecia realmente mergulhado em profunda meditação. Os sobrolhos franzidos, os músculos da face retesados, o olhar profundo. Dir-se-ia uma pessoa realmente reconcentrada, absorta por uma grande ideia. Mostraram a São Felipe Néri a primorosa escultura. Chamaram-lhe a atenção para aquele olhar, alheado inteiramente de tudo o que estava em derredor e todo voltado para dentro da alma… O Santo, que era ótimo psicólogo, observou tudo atentamente, e depois disse: “Entretanto, eu noto nessa estátua um grande defeito!” — Pois bem — disse o Santo — o defeito é que essa estátua pensa, pensa, mas, mas… nunca executa. Há muita gente como essa estátua do Pensamento. Vivem com belos projetos; idealizam castelos e mais castelos; mas seus planos não passam de planos. Os sonhadores, oh! os sonhadores. Muito melhor seria que sonhassem menos e agissem um pouco mais.

 

 

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SALVA TEU IRMÃO

 

Em Toulon achava-se no porto uma fragata chamada “La Provence”. Tinha-se dado um acidente a bordo dessa embarcação. Em consequência disso, um marinheiro caiu no mar, e estava em perigo iminente de soçobrar. Naquele lugar, o mar oferecia grande perigo. O pobre marujo já se tinha submergido, mas ainda havia probabilidade de voltar à tona. Diante desse perigo, dois homens se atiraram ao mar para salvá-lo: o capitão, M. Aestrachi e o capelão de bordo, Padre Tenaille. Quando o pobre náufrago subiu à tona, o capelão conseguiu agarrá-lo e assim livrá-lo da morte. Os dois heróis, que expuseram suas vidas para salvar a do pobre tripulante da fragata, foram largamente encomiados pela imprensa contemporânea. Há homens tão desumanos que tiram a vida do seu semelhante para se apropriarem dos seus bens. E há homens tão humanos que expõem a própria vida para salvar a vida do próximo. Quando a fé vem em auxílio das boas disposições humanas, a generosidade em favor do próximo cresce de ponto e as ações heroicas se multiplicam.

 

O padre mestre era, pois, a figura principal na estrutura do Noviciado. O capítulo, além do padre mestre, era formado por um padre diretor que simultaneamente exercia a função de prefeito, pois respondia pela instituição intra et extra muros (perante a Igreja e a Congregação como perante os órgãos do Estado) e a ele competia o gerenciamento de todas as finanças. Além dos dois, é de se destacar o Padre Assistente que exercia dupla função: a de conselheiro e a de catequista e era o que mais tinha contato conosco.

Além desses três sacerdotes, havia o padre  confessor  e

 

 

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o era de todos, inclusive dos outros sacerdotes. Era um padre italiano com seus oitenta anos de idade. Não era só confessor, pois nos dava aula de latim e grego. Seu passado na Congregação era uma incógnita. Apenas sabíamos que, depois de ordenado sacerdote, se secularizara e, anos mais tarde, arrependido, conseguiu reconciliar-se com a Igreja e voltou para a vida religiosa.

Como principal expoente na direção do Noviciado, cabia ao padre mestre a missão de fazer de cada um de nós um autêntico religioso, cuja fundamentação era de natureza mística, condição básica para se tornar um santo e um apóstolo de Cristo. Seria a reprodução do salesiano exemplar, pensado e projetado por Dom Bosco.

Todos os dias tínhamos duas horas de conferência como preparação para a vida religiosa. A maioria dos noviços não queria perder uma palavra de suas palestras e procurava anotar tudo. Basta dizer que consegui prencher cinco cadernos daqueles grossos com espiral no dorso.

Nos dois primeiros meses o assunto predominante era a batina, pois no dia 19 de março, dia de São José, iríamos receber o "sagrado hábito" que representava a morte do homem velho (o profano) e o revestimento do homem novo (o religioso que, ao fim do Noviciado, iria proferir os votos de castidade, pobreza e obediência).

De janeiro até metade de março, um dos irmãos coadjutores que exercia o ofício de alfaiate confeccionava duas batinas para cada um de nós. Além do significado da batina, o Padre Mestre nos brindava com magistrais aulas sobre cada um dos votos.

O núcleo, porém, das conferências era o tratamento minucioso dos quase trezentos artigos das Santas  Regras  da

 

 

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Sociedade Salesiana, livrinho escrito por Dom Bosco, cujo primeiro artigo assim começava: O fim da Congregação Salesiana

Lembrei este início das Regras da Congregação Salesiana, porque me fez reportar a um "boa-noite" do Padre Inspetor, Padre João de Rezende Costa, mais tarde eleito bispo de Ilhéus e que terminou seus dias como Arcebispo de Belo Horizonte, aos 96 anos, cumpridos mais de cinco decênios à frente dessa Arquidiocese.

Figura de aguda inteligência verbal e impressionante memória, com grande facilidade para línguas e para escrever com elegante e sóbrio estilo.

Naquela palestra noturna ou "boa-noite" que fez na primeira visita ao Noviciado, o Padre Rezende Costa usou elegantemente esta figura de retórica para frisar coincidências ("caídas do céu", como já cantava Castro Alves): Há uma curiosidade na abertura de três grandes livros. O Evangelho de São João começa: “No princípio era o Verbo…” A Divina Comédia, de Dante Alighieri, se abre com o verso: “Nel mezzo del camin di nostra vita”. E nossas Santas Regras escritas por Dom Bosco se iniciam com "O fim da Congregação Salesiana"…

 

Ambiente de reza

 e meditação

 

Além desse ritual a visar nossa formação, rezávamos muito mais que no aspirantado, pois éramos incentivados a permanecer o maior tempo na capela, inclusive durante os horários destinados ao recreio e ao estudo. Era comum encontrarmos vários colegas na capela rezando, solitários,  o

 

 

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rosário (não apenas o terço) ou fazendo a via sacra.

Durante o Noviciado aprendemos a meditar. A meditação, que passaria a ser obrigatória dali para frente para todo salesiano, era uma prática cotidiana que se fazia de manhã, de seis horas às seis e meia, antes da missa. Consistia na leitura edificante, quase sempre em italiano, durante uns dez minutos e em seguida, em profundo silêncio, cada um pensava sobre os tópicos da leitura.

Acredito que foi na meditação que cometi o maior número de pecados, evidentemente veniais: nunca consegui a rigor meditar. Minha imaginação não me permitia concentrar no texto ouvido. Frequentemente até cochilava. Hoje me pergunto: — será que era só eu? Fingir que estava meditando para valer não seria o comum da maioria?

Uma das novidades “santificadoras” de nossas vidas era o jejum obrigatório toda sexta feira: o café da manhã era reduzido a um terço, idem o almoço; não havia café da tarde, nem jantar. Essa prática inscrita nas Santas Regras da Congregação deveria ser praticada para sempre.

Obrigatória também era uma espécie de confissão mensal que a gente tinha de fazer com o Padre Mestre e, depois do Noviciado, com o Diretor de qualquer educandário, onde estivéssemos estudando ou trabalhando e que recebia o nome italiano de rendiconto.

Missa, reza do terço durante a missa, ladainhas, comunhão diária, bênção do Santíssimo, também diária, o constante balbucio das jaculatórias em qualquer lugar que estivéssemos e as demais práticas religiosas eram como no aspirantado, porém mais intensivas.

 

 

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Também se estudava

 

As aulas se reduziam às de Português, Latim, Grego, Italiano e Escrituras Sagradas em forma de "histórias da Bíblia" escritas por Dom Bosco. Em latim líamos escritos de São Jerônimo e de outros escritores clássicos da tradição cristã. De grego, cujo conhecimento iniciamos na quarta série ginasial, fazíamos exercícios existentes na Gramática escrita pelo padre Alcionílio Alves Bruzzi da Silva, um dos poucos intelectuais salesianos. Ele entrara já adulto na Congregação Salesiana e foi capelão militar durante a segunda guerra, na Itália. Parece que se tornou antropólogo com trabalhos de valor científico, publicados sobre índios da Amazônia.

Nas aulas de italiano, estudávamos mais a gramática e as aulas eram dadas, se não me falha a memória, pelo Padre Assistente. Já iniciados na língua de Dante desde o terceiro ano ginasial, fora das aulas, a leitura em italiano era uma constante. Tínhamos leitura obrigatória das Memorie biografiche di San Giovanni Bosco — vinte volumes em grande parte escritos por seu sucessor Don Rua. Óbvio que durante um ano lêramos o primeiro volume, se tanto!

 

Não só de reza vive um noviço

 

Fazíamos confissão semanal, tivesse ou não pecado venial (mortal era inconcebível!). Era uma prática que já vínhamos observando desde o aspirantado e que continuou obrigatória enquanto fosse salesiano.

Tínhamos que decorar todos os trezentos e tantos artigos  das  Santas  Regras   escritas   por   Dom   Bosco.   Da

 

 

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memorização prestávamos conta aos poucos, cerca de dez artigos por semana, ao Padre Assistente. 

Conversação entre nós tínhamos muito pouca, apenas no horário do recreio principal depois do almoço e quase nada durante essa refeição. Terminado o café da manhã, todos tinham uma obrigação a fazer e nos revezávamos, de dois em dois meses, nas tarefas: varrer pátio, dormitório, refeitório, capela, corredores, salão de estudo, que era também o das aulas e das palestras do Padre Mestre, quartos e escritórios dos padres, lavar instalações sanitárias.

Na execução de tais tarefas, éramos observados de perto e meticulosamente pelo Padre Assistente. Eram o lugar e a ocasião para exercitarmos o espírito de humildade e desprendimento. Ou a tão badalada mortificação, virtude hoje estranha, da qual nunca mais ouvi falar, nem detectar nas leituras, mesmo as irônicas de Umberto Eco, que recorrentemente em seus textos se refere à vida religiosa e às instituições da Igreja.

Frequentemente, enquanto estávamos varrendo, vinha o padre assistente sorrateiramente por trás e jogava no chão já varrido algumas tiras de papel picado ou serragem e ao alcançar o varredor repreendia-o por ter deixado sujeira sem varrer. 

Com a repreensão juntava-se sempre uma penitência: rezar um terço, determinado número de Padre-Nossos ou de Ave-Marias ou de Salve-Rainhas ou fazer a Via-Sacra. Interessante: fazíamos questão de demonstrar subserviência, confundida com virtude, em aceitar a penitência sem contestar.

Nunca soube de alguém ter reclamado, pois, para nós, não  havia  injustiça   naqueles   gestos   e   sabíamos   que   a

 

 

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obediência tinha que ser treinada conscientemente, pois estávamos nos preparando para transformá-la em objeto de voto sagrado.

Ironicamente tal gesto não estava escamoteando hipocrisia? Se fizesse parte do “sistema” de formação dos futuros religiosos, então é de se deduzir que para os salesianos “o fim justifica os meios”. Mesmo que pregassem o contrário. O que também não seria de estranhar, se levarmos em conta o mecanismo de racionalização e o de negação descobertos por Freud.

                                              

A alegria não era condenada

 

O ambiente do Noviciado, além de revestido de forte religiosidade e de exercício de santidade, de quando em vez deixava inocular-se de uma atmosfera de alegria, ou melhor, de humor sem maldade. Ademais o lema da Congregação Salesiana era: Servire Deo in laetitia (Servir a Deus na alegria).

É o que revela o episódio ocorrido justamente no cumprimento das tarefas matinais de faxina.Nosso colega C.P. (não declino o nome, pois sei que está vivo e não lhe pedi permissão para isso), fora encarregado da faxina no lavatório e instalações sanitárias. Ao fazê-lo, não conseguiu fechar uma das torneiras, pois com a bucha já gasta, por mais que tentasse, não vedava o cano e a água ficara a escorrer. Por causa da pressão da água, a torneira tremulava produzindo característico som. C.P. era muito extrovertido. Aproximou-se do Padre Assistente e lhe comunicou: — Padre Assistente, lá no lavatório tem uma torneira pererecando. — Ah! é? Então você vai pererecar  cinco  Vias-

 

 

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Sacras agora mesmo.

Doutra feita com ele aconteceu a cena mais cômica de todo o ano de Noviciado. Deu-se durante o almoço. Enquanto almoçávamos, guardávamos profundo silêncio, sobretudo porque tínhamos que prestar atenção à leitura de algum texto da Bíblia, sempre em latim e a seguir à das Memorie Biografiche de Dom Bosco, obviamente em italiano.

Naquele dia foi servido peixe. Como havia criação de carpas no lago do Noviciado, no mínimo duas vezes por semestre nos era proporcionado saborear o saudável alimento.

Eis que todos nossos olhares foram atraídos para o lugar onde se assentava o C.P. Lá estava ele com um peixinho seguro pelo rabo a balançar junto de sua orelha como se estivesse ouvindo o peixe lhe confidenciar algum segredo. Trazia o peixinho perto da boca e lhe comunicava uma possível resposta, para retorná-lo à orelha. Repetia o gesto ostensivamente várias vezes.

O Padre Assistente da mesa, onde se assentavam os padres de frente para nós, interrompeu a leitura e perguntou em voz alta: — C.P., o que você está fazendo com este peixe junto à orelha?Ora, Padre Assistente, estou ouvindo o que ele está me dizendo: — Filii mei, dum nos manducastis, patres vestri manducaverunt patres nostros (Filhos meus, enquanto vós nos comeis, vossos padres comeram nossos pais).

Todos entenderam: para a mesa dos padres eram servidos os peixes graúdos e os miúdos vinham para nós, os noviços. A risada foi geral. Até o Padre Mestre achou graça.

 

 

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O dia em que

 quase matei o Padre Mestre

 

Em cumprimento dessas tarefas de limpeza, aconteceu comigo algo que roçou a tragédia. Fora encarregado de varrer e limpar diariamente o escritório do padre Mestre. Uma vez por semana tinha de tirar para limpar livro por livro de sua imensa estante que ocupava toda a parede atrás de sua mesa de trabalho e, duas vezes por mês, retirar e lavar o lustre com formato de globo, onde se acumulavam muitos mosquitos mortos.

Feita a faxina daquele dia, meia hora depois de me acomodar no estudo, sou chamado pelo padre Assistente. Levou-me até o escritório do padre Mestre. Lá estava ele com a testa ensanguentada e com o lenço procurava estancar o sangue. Mal tinha sentado para começar a ler e eis que o lustre despencou do teto e se espatifou em cima da pequena estante frontal que compunha sua mesa. Nenhum estilhaço de vidro atingiu-lhe os olhos porque os óculos os protegeram.

Óbvio fora eu o culpado; por falta de atenção não apertara corretamente os parafusos do lustre. Fiquei lívido e mil conjecturas terríveis passaram pela minha cabeça, como a da possibilidade de o lustre ter caído diretamente em cima da cabeça do padre Mestre. E se acontecesse, não poderia tê-lo matado? O que seria de mim um noviço assassino de seu próprio padre mestre?...

As dez vias-sacras de penitência a mim impostas pelo Padre Assistente foram poucas para aquela tragédia abortada. Complemento da penitência: fui demitido (com que alívio!)   do  honroso  ofício  de  cuidar  do  escritório  do

 

 

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padre Mestre e fui mandado a lavar os vasos sanitários.

                           

                               Até que enfim a batina

 

Ao chegar o dia 19 de março, iríamos direto para o Liceu Coração de Jesus em São Paulo, onde funcionava a sede da Inspetoria Salesiana.

Nosso Padre Mestre, depois de longas palestras sobre o significado da cerimônia, ao fim nos recomendou: ao transitarmos de bonde por São Paulo, desde a Estação da Luz até o Liceu Coração de Jesus, fazê-lo de olhos fechados, para não sermos contaminados pela vista da cidade profana.

Hoje, como a reproduzir aquele momento dos olhos cerrados, os fecho novamente para recorrer à ironia de evocar Saramago: talvez se tivesse conhecimento dessa cena, nela teria se inspirado para escrever o Ensaio sobre a cegueira. Sem dúvida, seu “leitmotiv” não foi muito diferente, ao menos foi análogo. A ingenuidade de nosso padre mestre estava nos recomendando a cegueira como gesto de purificação, mas na verdade de alienação, para fugirmos da verdadeira e única realidade em que vivemos: o mundo, do qual somos parte e do qual dependemos para o bem e para o mal e, sobretudo, para a vida. Por que ter medo desta realidade, em detrimento de nossa própria tranquilidade, sempre expressão do prazer de viver, pergunto hoje?

No santuário do Liceu, iríamos realizar a cerimônia emblemática para nossas vidas: receber a batina - o hábito sagrado, símbolo de rompimento com todo nosso passado para dali em diante se iniciar a tão aguardada nova vida e que seria coroada, dez meses depois,  com  a  profissão   dos

 

 

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votos de castidade, pobreza e obediência. 

Liturgicamente a cerimônia é comovente: todos os noviços em procissão, em duas alas, entram desde a porta da igreja até o altar, em passos lentos, carregando a própria batina dobrada no braço e cantando salmo referente ao momento emblemático: a transformação do leigo em religioso.

Tudo em gregoriano digno dos beneditinos, tal qual se fazia na Idade Média. Quando o primeiro da fila atinge a balaustrada da mesa da comunhão, todos se jogam ao chão e aguardam o final do canto e, em seguida, se levantam, arrancam paletó e gravata. Com a veste talar dobrada no braço, um a um se aproxima do padre Inspetor, já paramentado e sentado na frente do altar, ladeado por outros dois sacerdotes, testemunhas do significativo ato. A seguir responde a determinada pergunta apropriada à ocasião e entrega a batina ao celebrante. Terminado o diálogo, o superior, após oferecer-lhe a sotaina para ser beijada, veste o noviço do novo hábito e com solene recomendação em latim, consagra a passagem do homem velho para o homem novo.

Pronto. Está sacramentado o rompimento com o mundo e selado o compromisso de ser o discípulo de Cristo, escolhido para dar continuidade à sua obra de evangelização e santificação.

Muitos anos mais tarde, já tendo rompido os laços que me prendiam à Congregação Salesiana, um dia me surpreendi interrogando: — Incrível como é o comportamento da Igreja Católica Apostólica Romana. Naquele tempo nos fizeram devotar à batina tanto amor, por ser o símbolo por excelência da  distinção  do  religioso  e

 

 

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do sacerdote como o eleito de Deus, como o ser desligado do mundo (para nós a etimologia era invertida: “mundo”, do latim “mundus” = “puro”, “limpo” — tanto que seu contrário é “imundo” = “sujo”; no entanto, aprendemos que mundo significava sujo, o mesmo que dominado pelo pecado) e eis que de repente, por simples deliberação de um concílio, o chamado "santo hábito", distintivo do sagrado em relação ao profano, é abolido, e clérigos, sacerdotes e bispos se viram, num passe de mágica, tão seculares quanto os não escolhidos. Para a cabeça de um desligado como eu torna-se inconcebível que a Igreja proceda com tal desenvoltura e ainda mude a liturgia, como aconteceu com a substituição do latim pela língua de cada lugar, desobrigue os sacerdotes não só da batina, mas até do breviário e, no entanto, continue enrijecida, se autoproclamando a guardiã da Verdade imutável, do dogma, sobretudo de certos dogmas, como o da infalibilidade do Papa… Certo, mudança é sempre saudável! Mas desde que não atinja a essência do objeto em mutação, pois neste caso fere o significado profundo do ethos e o resultado da mudança, pois outro não é que incoerência e quebra de valores. E, de associação em associação, chego a pontos cruciais:como acreditar que a Igreja seja realmente portadora da Verdade dentro da história e do caminhar da humanidade, se ontem pregava uma coisa e hoje prega outra? Em certos pontos avança e em outros, tão cruciais quantos os anteriores, permanece retrógrada? Será esta a mesma Igreja que condenou Galileu, Giordano Bruno, Heloísa e Abelardo e ainda condena os padres que se identificam com os pobres e pregam a autêntica evangelização, a da libertação diante das injustiças  sociais?  Como  entender  uma  igreja,  que  se   diz

 

 

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progressista, condenar o marxismo, o socialismo, o comunismo e fazer vista grossa, ou melhor, aprovar e até elogiar o fascismo, o capitalismo (sobretudo o selvagem), o neoliberalismo?  Ah! se condenasse o comunismo e o capitalismo com a mesma veemência, seria no mínimo coerente!

Não posso negar: o Papa João Paulo II parece não aceitar de todo o rompimento com a batina, pois, em uma carta endereçada ao Cardeal Vigário exprime seu pensamento, sublinhando, mais uma vez, a importância do uso do hábito, testemunho da identidade do padre e de que este pertence a Deus (…) em um mundo tão sensível à linguagem das imagens.

Voltarei a essa reflexão quando, mais tarde, vier a tocar no comportamento de nossos padres salesianos na Filosofia e na Teologia perante o fascismo italiano e o integralismo brasileiro.

 

O quanto o Padre Mestre era aberto

 

Chegou setembro de 1946 e naquele mês tive uma grata surpresa. Recebi carta de minha irmã, em que comunicava iria casar-se em Aparecida do Norte, cidade colada a Pindamonhangaba, para cumprir promessa de nosso falecido pai, por ter sido salva ao nascer com sete meses. Sondava a possibilidade de eu ir até o santuário de Aparecida e ajudar a missa de casamento.

Ao comentar comigo a carta, o Padre Mestre, com muito tato, me convenceu de que não era permitido a um noviço sair do Noviciado para tal cerimônia, mas que possibilitava um tipo especial de exceção: que eu escrevesse

 

 

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para os meus dizendo que depois do casamento, minha mãe podia vir visitar-me.

Foi o que ocorreu. Visitou-me juntamente com dois parentes do noivo, residentes no Rio de Janeiro. Já fazia quase cinco anos que não a via. Era agora um jovem de 15 anos e nove meses.

Ela ficou impressionada com minha mudança. A última vez que me viu fora na manhã de despedida para ser entregue ao Padre Orlando Chaves, e eu tinha dez anos e alguns meses. Particularmente sua maior emoção foi me ver vestido de batina.

É meio constrangedor confessar, mas naquela tarde, na sala de visita contígua à portaria do Noviciado, não me comovi com a presença de minha mãe.

Foi o que confessei minutos depois ao Padre Mestre! Por certo porque, após os quatro anos de aspirantado onde passara o final da infância e entrara na adolescência, sem ela a meu lado, nem meus irmãos mais velhos, para me orientar e, sobretudo, depois de nove meses recluso e impregnado do espírito do Noviciado, senti que o mundo (ou seja, tudo e todos, inclusive a família) todos eram o homem velho e morreram para mim. Por isso, até a presença de minha mãe já não me causava outro sentimento que não fosse reverência e respeito.

Ao menos durante aquele período tão sublimado em que me preparava para proferir os votos, sinceramente ela já não tinha o mesmo significado de antigamente.

Hoje me pergunto:Estaria sendo injusto se comparasse aquele processo de sublimação ao da lavagem cerebral? Seria esse o objetivo dos padres que nos acolhiam para continuar sua obra?

 

 

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Afinal estava sendo marcado por várias admoestações de nosso padre Mestre, notadamente uma em que repetia São Bernardo de Claraval, a impugnar os pais que impediam filhos de seguirem a vocação sacerdotal: Oh pai desumano, oh mãe cruel! Preferem ser condenados com o próprio filho a serem salvos por causa de sua ausência!

E dizer que minha mãe jamais impedira!… Antes, pelo contrário. Para ela minha ida para o seminário deveria ser cumprimento de promessa a coroar velho sonho: ser mãe de um padre. Seria sua glória suprema. Meu irmão naquela manhã de minha despedida não disse que vocação para padre quem tinha era ela e não seu filho?!…

 

            O estorvo de vestir

uma batina

 

Acostumar com a batina não deixou de demorar um pouco, até adquirirmos o hábito de rapidamente colocá-la de manhã e de tirá-la à noite.

Como tinha muitos botões, o segredo era desabotoá-la somente na parte de cima (do pescoço até o umbigo) enfiar as duas mãos por dentro e puxar a barra de forma a poder jogar toda esta parte para as costas, por cima da cabeça. De manhã o estado em que ela já estava facilitava o ato de vesti-la. Era só proceder à operação contrária.

A batina tem de cada lado dois bolsos: um falso, apenas uma abertura que possibilita atingir a calça. O outro, verdadeiro que atingia até o joelho.

Quando executávamos os trabalhos de faxina, enfiávamos as mãos nos dois bolsos falsos da batina e depois de desabotoar as cinco últimas casas,  puxávamos  os

 

 

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dois lados respectivamente pelas aberturas dos falsos bolsos para fora. Ficavam penduradas quais orelhas de coelho, deixando livres as pernas, isso nos  evitava molhar ou sujar a batina. A mesma “técnica” usávamos para jogar futebol, quando o jogo da bola nos foi permitido, no terceiro ano de filosofia.

 

      A onda de besouros

 debaixo da batina

 

O pior era ter de aguentar os besouros durante a bênção do Santíssimo ou do "boa-noite". Na época das chuvas eram nuvens e mais nuvens de escaravelhos pretos e grandes a invadir o Noviciado, sobretudo a capela.

Enquanto estávamos rezando, batiam nas lâmpadas, nas paredes da capela e caiam no chão e começavam a caminhar por debaixo dos bancos. Mal levantávamos para cumprir alguma parte da liturgia ou mesmo ajoelhados, eles se infiltravam pela parte interna da batina ou por dentro da calça e vinham subindo fazendo cócegas até chegar ao pescoço.

Éramos incentivados pelo padre Mestre a suportar as caminhadas daqueles coleópteros inofensivos por nosso corpo.

Afinal era um momento propício para demonstrarmos autodomínio e de impormos à carne a penitência tão necessária à ascese espiritual.

De certo modo, uma forma de compensar o que as ordens religiosas, em sua maioria, praticavam e as Santas Regras Salesianas aboliram: a autoflagelação com cilício e o uso de cintos crivados de pregos. Se  o lema  de  Dom  Bosco

 

 

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era servire Deo in laetitia (servir a Deus na alegria), até as privações e o sofrimento tinham que ser aceitos com ânimo de quem já consegue sorrir nas adversidades.

 

Os votos

 de castidade, pobreza e obediência

 

Passamos aquele ano de 1946, com fervor, mas também com alegria, para chegarmos ao dia 31 de janeiro do ano seguinte, dia de São João Bosco, data tão aguardada por todos nós, pois iríamos proferir os votos de castidade, pobreza e obediência.

Por pouco seria excluído da cerimônia, pois mal e mal tinha completado 16 anos, a idade mínima para jurar os votos. Nosso colega Julio Bressane, um mês mais novo que eu, teve de aguardar a data de seu aniversário para proferir os votos.

Causa surpresa a qualquer um a ousadia dos padres ao permitir e até incentivar um adolescente daquela idade a ter de jurar que seria casto, desprendido do mundo e servil aos padres (correto: servil aos padres, não a Deus, pois o voto de obediência era dirigido a nossos superiores) para a vida inteira!...

E dizer que com 15 anos e alguns meses tive de fazer um testamento (obrigatório para todos os noviços) doando tudo que recebêssemos em vida ou como herança à Congregação Salesiana. Não era de se perguntar: — que valor jurídico teria um documento desses? Sobretudo numa época em que a Igreja não estava mais ligada ao Estado, como no tempo do império? Mas tal interpelação, mesmo na latência    da    consciência    sem    um    átimo    sequer     de

 

 

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exteriorização, jamais passou por minha cabeça naquela época.

Se a cerimônia da tomada de hábito foi comovente, a da profissão dos votos, além de comovente, era para nós de suma responsabilidade.

Todo noviço foi treinado para aquele momento. Precedia a solenidade uma semana de retiro espiritual, muito mais pesado do que o que fazíamos todos os anos no aspirantado.

Os votos eram proferidos justamente como coroamento desse retiro. O retiro espiritual, com tantos sermões e tantas meditações sobre a morte, a futilidade da vida, as três instâncias depois da morte — o purgatório, o inferno e o paraíso — as virtudes teologais, os pecados capitais, tudo somado, visava ao exercício máximo da purificação da alma.

Por isso tínhamos que fazer uma confissão geral de toda nossa vida. Desde o primeiro pecado cometido na infância, provavelmente antes da primeira comunhão, ainda que já mil vezes absolvido, até o mais recente pecado venial, por certo dos mais leves. Provável que, se a memória conseguisse, o ponto de partida do relato dos pecados seria o útero materno.

Aqui me lembro do primeiro retiro espiritual feito no final da primeira série ginasial em Lorena. Tão crianças éramos que ficávamos estarrecidos com as pregações sádicas daqueles padres oradores, metidos a novos Girolamos Savonarolas a transformar o púlpito em “fogueira das vaidades”.

Pintavam o inferno com cores tais que até sentíamos o fogo     nos     queimando.     Usavam     comparações      mais

 

 

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mirabolantes para nos impingir a ideia de eternidade: imaginem um pássaro que, com a ponta de sua asa, roçasse uma montanha de aço de milhões e milhões de metros cúbicos. E esse pássaro tocasse a montanha de mil em mil anos e dela tirasse a milionésima partícula de um grão de areia. Quando este pássaro tivesse destruído toda essa montanha, depois de bilhões e bilhões de anos, a eternidade estaria apenas começando… E dizer que faziam questão de frisar que o inferno era eterno. Quem para lá fosse jamais sairia.

Ficávamos aterrorizados só de pensar que o fogo do inferno, além de ser eterno, queimava de verdade as almas que lá caíssem. Era desse naipe que fazíamos nossa preparação para a confissão geral no último dia do retiro espiritual.

Algo de estranho e curioso referente ao “fogo do inferno” me surge no escaninho da memória, neste momento. Estava já frequentando a Teologia no Instituto Pio XI, no Alto da Lapa em São Paulo. Para desagrado do professor de Escritura Sagrada, resistia fortemente em aceitar a interpretação da Bíblia literalmente. Em conversa com um de nossos colegas, foi abordada a questão do “fogo eterno”. Lembro que argumentei: — Não acredito em inferno e menos ainda em fogo eterno. Para mim trata-se de uma metáfora para significar apenas que, se Deus realmente existe, os chamados condenados estarão apenas sem poder contemplar a Deus na outra vida, mas nada de fogo real. Ele me retrucou, com a bíblia na mão: — Mas está na Escritura. E me citou várias passagens como: Mateus, 5:22: Qui autem dixerit: Fatue, reus erit gehennae ignis (Aquele que disser: Louco, será réu e condenado ao fogo da geena); Mateus,  10:

 

 

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28: Nolite timere eos qui occidunt corpus,animam autem non possunt occidere; sed potius timete eum qui potest et animam et corpus perdere in gehennam(Não temais aqueles que matam o corpo, mas não podem matar a alma; antes, temei aquele que pode jogar na gehena tanto a alma como o corpo); Lucas, 16: 22-24: Mortuus est autem et dives et sepultus est in inferno. Elavans autem óculos suos, cum esse in tormentis, vidit Abraham a longe et Lazarum in sinu eius; et ipse clamans dixit: Pater Abraham, miserere mei et mitte Lazarum , ut intingat extremum digitum in aquam, ut refrigeret linguam meam, quia crucior in hac flamma  (Morreu o rico e foi sepultado no inferno. Erguendo seus olhos, visto que estava em tormentos, viu ao longe Abrahão e Lázaro em seu seio; e clamou dizendo: Pai Abrahão, tende misericórdia de mi e mande Lázaro para que molhe o dedo na água e refrigere minha língua)… Ia citar mais outras passagens, quando o interrompi: — E venha me dizer que você acredita piamente em tudo isso ao pé da letra: fogo eterno que queima corpo e alma, água eterna… Neste momento me lembrei do sonho de Dom Bosco, em que teve contato com o inferno e viu odemônio que deixou marca de fogo na parede de seu quarto e lhe indaguei:Você acredita também naquele sonho de Dom Bosco? Será que o fogo foi real? Por que os superiores de Turim não conservaram esta parede como prova? Meu caro, para mim esta questão está longe do esforço da tradição cristã, sobretudo a católica, de tentar conciliar razão e fé. Lembro que, na sua transparência e sinceridade, aquele colega virou para mim e arrematou: — Você me deixa confuso! Pensei comigo: — Confusos estamos todos diante de tantas contradições quando colocamos os livros sagrados como suporte da fé e os interpretamos ao  pé

 

 

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da letra e não como legítimas metáforas. Isso nos leva a transformar os mitos em verdades reveladas e estas em dogmas.

Voltando ao retiro espiritual, no tempo do ginásio, confesso ter visto colegas nossos na fila do confessionário, com listas de pecados na mão, para não esquecer nenhum; e um ou outro abordar alguém da fila, pedindo a lista emprestada, pois não sabia o que confessar ao padre.  Uma fila de inocentes sem culpa, a procurar a culpa para cumprir cruel ritual!

Não é o caso de indagar: Por que este prazer sádico dos padres em atormentar a inocência, fazendo da culpa e do pecado a razão de ser da religião, quando não da própria vida? Por ventura seria esta uma das formas de seu exercício de poder? Se sim, que abominável razão de ser da confessada e proclamada religião!…

Neste ponto cabe lembrar Umberto Eco comentando o Caderno de Saramago:

 

Tem-se falado muito do ateísmo militante de Saramago. Com efeito, a sua polémica não é contra Deus: uma vez admitindo que "a sua eternidade é só a de um eterno não-ser", Saramago poderia estar sossegado. A sua aversão é contra as religiões (e é por isso que o atacam de vários lados, negar Deus é concedido a todos, enquanto polemizar com as religiões põe em causa as estruturas sociais). Saramago várias vezes tem atacado as religiões como fontes de conflito: "As religiões, todas elas, sem exceção, nunca servirão para aproximar e reconciliar os homens; pelo contrário, foram e continuam a ser causa de sofrimentos indescritíveis, de chacinas, de monstruosas violências físicas e espirituais que constituem um dos mais tenebrosos capítulos da mísera

 

 

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história humana" (La Repubblica, 20 de Setembro de 2009).

 

Há tempo já me convenci: não resta dúvida de que a Santa Madre fez do pecado a terrível arma para manter os fieis acorrentados a seu poder! Não só arma; a mais poderosa indústria espiritual de cultivar o avassalador masoquismo que faz os fieis sofrerem o inferno nesta vida, na ilusão de estarem evitando o da outra!…

Caso alguém tivesse cometido, desde o início do aspirantado, algum pecado mortal, certamente já teria sido mandado para casa. Acredito que até o confessor o aconselharia, se sua própria consciência não o fizesse.

Mas para cumprir o ritual, uma vez purificados, estávamos preparados para jurar que continuaríamos castos e celibatários, obedientes aos superiores tamquam cadaver, por fora servis e por dentro de nós ocos, destituídos de vontade própria e pobres, apesar de pertencermos a uma congregação rica! 

A memória pode não me ajudar muito, mas creio que os votos eram proferidos logo após a missa chamada solene e com a exposição do ostensório que guarda a Santíssima Hóstia Consagrada, após a transmutação do pão em corpo de Cristo.

Todos nós vestidos de batina e sobrepeliz, ajoelhados, com o livrinho das Santas Regras na mão, aguardávamos o chamado de nosso nome para nos dirigirmos ao altar.

Ali, paramentados, estavam o Padre Inspetor, que iria receber em nome de Deus os votos e, sentados a seu lado como testemunhas perante Deus e a Igreja, o Padre Mestre e outro sacerdote escolhido.

O convocado se dirigia àquela  "banca  juramentada"  e,

 

 

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ajoelhado no genuflexório adrede colocado diante dela, ouvia do Padre Inspetor a primeira pergunta: — Filho meu, que pedes? — Ao que respondia: — Quero, Reverendíssimo Padre, professar os votos de castidade, pobreza e obediência, segundo as Santas Regras da Congregação Salesiana.

O diálogo prosseguia com mais três ou quatro perguntas em que o noviço atendia com respostas previamente decoradas sobre o significado de cada voto e se tinha consciência do que estava fazendo.

Mão direita sobre o livrinho das Santas Regras sustentadas pelas mãos do Celebrante, terminava com o juramento de cumprir todos os artigos ali contidos.

Ao cabo, proferia o principal compromisso, ou melhor, o juramento: o de guardar a castidade, ser desprendido dos bens terrestres e ser obediente a todo e qualquer superior até o fim da vida, embora soubesse que aqueles votos seriam temporários, por três anos, ao fim dos quais se repetiriam por mais três e só depois de seis anos se professariam os votos perpétuos.

Terminada a cerimônia, o noviço estava transformado em autêntico religioso ou congregado.

Os que iam seguir a carreira sacerdotal, deste dia em diante passariam a se chamar clérigos (teriam, inclusive de assinar até ser padre o nome com um Cl. na frente)e os que não escolheram o sacerdócio, mas simplesmente a vida religiosa, eram denominados irmãos coadjutores (cuja assinatura era precedida por um Ir.). Após o nome, a senha: SDB (Salesiano de Dom Bosco)[16].

Quando relembro esta cerimônia, me faço percuciente pergunta: — sinceramente não estávamos ali quais títeres de um mundo medieval conservado em “freezer” para cumprir um único objetivo: ter a própria ingenuidade abusada para abraçar uma vida inteiramente alienada da verdadeira realidade?

Quantos noviços daquele dia se tornaram sacerdotes? Acredito que uns 10%. Basta este dado: éramos cerca de cem noviços (a maior turma até então surgida) e quando fomos fazer a Teologia, já éramos vinte e cinco.

Durante o Noviciado, vários foram embora, inclusive meu companheiro da Rua Diamantina, Hélio Favarini. Como ele era da divisão dos maiores, só no Noviciado tivemos possibilidade de conversar. Infelizmente, antes de tomar a decisão, nada me revelou. Só fiquei sabendo no dia seguinte, pois sua saída, como a de todos que “abandonavam o barco”, se dava na calada da noite. Esta praxe já vinha desde o aspirantado, e se prolongou até a teologia. Certamente porque os padres não queriam que os “arrependidos” contaminassem os demais. Aliás, a comparação da maçã podre que contamina o lote era repetida frequentemente nas palestras e nos sermões.

Na Teologia, se não me engano, deixamos a congregação de seis a dez. Dos que sobraram e se ordenaram, pelo que saiba, vários, aproveitando a concessão dada pelo Concílio Vaticano II, abandonaram o sacerdócio. Não é o caso de perguntar: — Será que a Congregação Salesiana já parou para rever o sistema de formação de seus futuros religiosos, sobretudo seus futuros sacerdotes?

Certamente que sim. Se não, ficaria estupefato. Já aludi à impressionante expansão da Congregação Salesiana no Brasil, a ponto de classificá-la como verdadeiro mistério. Naquele momento me detive apenas no aspecto material (quantidade de obras, prédios, terrenos, etc.).

Ou será que ainda lhes serve de mecanismo de racionalização aceitar como resposta diante de tanta deserção a frase do Evangelho: Multi enim sunt vocati, pauci vero electi (Muitos são chamados, mas verdadeiramente poucos são os escolhidos)? (Mateus, 22: 14).

Ao cogitar que, desde meu tempo, as vocações devem ter rareado, o mistério aumenta mais para minha limitada percepção.

Longe de mim levantar suspeitas, nem como hipótese a ser pesquisada. Mas tal mistério continua a me provocar: — como explicar a expansão de uma congregação religiosa, se houve a diminuição, em termos proporcionais, de seus membros?

 

 

 

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6

 

 

 

Em verdade temos medo.

Nascemos escuro.

As existências são poucas.

(…)

Nosso destino, incompleto.

(Carlos Drummond de Andrade — O medo)

 

 

 

 

La filosofia é una scienza tale…

 

Uma vez clérigos, abria-se diante de nós outra grande novidade: fazer o curso de Filosofia. Há muito já nos indagávamos: — que bicho é esse? Não tínhamos a menor ideia. Apenas que iríamos para Lorena e lá realizaríamos o curso durante três anos. Juntamente com o colegial, ainda não iniciado por causa do Noviciado.

As aulas do curso de Filosofia se dariam na parte da manhã e as do colegial, em sua maioria, na parte da tarde. Como a legislação brasileira, desde a Reforma Capanema de 1942, proporcionava a dupla forma de colegial, o científico e

 

 

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o clássico, a opção dos salesianos foi pelo clássico, em que dominavam as disciplinas humanísticas sobre as chamadas naturais e exatas. Apesar desta predominância, teríamos aulas de Física, Química, História Natural e Matemática.

Para dois terços de nossa turma fazer a Filosofia começava justamente com o retorno ao São Joaquim de Lorena. O terço restante era a primeira vez que ali entrava.

Tal qual aconteceu no Noviciado, fomos recebidos pelos mesmos ex-colegas que tinham a missão de nos introduzir no novo mundo que se abria. O companheiro que me recebera no Noviciado, agora no segundo ano de Filosofia, o clérigo Norberto, fez questão de ter longa conversa comigo. Não esqueço de seu entusiasmo em me confidenciar: — a filosofia é um tipo de conhecimento bem diferente de todos que até hoje tivemos, como o da história, das ciências, da matemática, das línguas e é tão extraordinário que muda inteiramente a cabeça da gente.

Fiquei superexcitado para a primeira aula de Filosofia. Não é que designaram um padre italiano, recém-chegado da Europa, ainda martirizado pelos horrores da segunda guerra mundial?! Seu nome: Camilo Faresin.

Viera para o Brasil como clérigo para ser missionário no Mato Grosso. Retornara à Itália para cursar a teologia. Não pôde voltar ao Brasil, logo depois de ordenado sacerdote, por causa da guerra. Por isso só conseguiu baixar em nossas plagas em 1947. Alguns anos depois de trabalhar em Lorena o mandaram como missionário para o Alto Araguaia, e para aquela diocese, foi, mais tarde, eleito Bispo.

De início, praticamente desprezou os adotados manuais didáticos, escritos em latim, de autoria dum filósofo italiano e padre salesiano, de  nome  Francesco  Varvello,  intitulados

 

 

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Institutiones Philosophiae.

Já era bom início, pois estava quebrando uma tradição rançosa que vinha desde a implantação do curso de filosofia na Congregação Salesiana. 

Mal começou a preleção, nos brindou com esta inesquecível frase: — La filosofia é uma scienza tale che con la quale o senza la quale, l´uomo rimane tale e quale (a filosofia é uma ciência tal que com a qual ou sem a qual o homem permanece tal e qual).

 Era para causar em mim decepção, no mínimo estranheza, se a confrontasse com a fala do Norberto. Aconteceu justamente o contrário. Afinal não era uma frase isolada. Recebi-a como deveria dentro dum contexto. Não estaria se referindo especificamente à filosofia escolástica que, por causa de seu formalismo e ontologismo se torna inteiramente vazia e inadequada para explicar e compreender a realidade em que vivemos?

A partir daquele posicionamento, tomei consciência de que acabara de me lançar de corpo e alma (e com que entusiasmo!) num mundo inteiramente novo e, por isso mesmo, fascinante.

 

Ele era realmente extraordinário

 

Senti (não sei explicar o porquê) que o Padre Camilo era alguém que iria influenciar profundamente minha vida. Estava diante dum homem de cabeça aberta, forte na argumentação e capaz de superar o texto escrito do livro adotado para nos abrir imenso horizonte.

As aulas subsequentes o confirmaram. Sem sombra de dúvida  posso  confessar:  foi  o   segundo   sacerdote   a   me

 

 

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marcar durante todos os anos passados na Congregação Salesiana. Como adorava suas aulas. Sabia misturar reflexão com apropriados chistes ou casos da história da filosofia que os livros não nos comunicavam. Certa vez ao falar de Descartes, teatralizou o grande momento cartesiano do cogito com que revolucionou toda a filosofia, responsável pela superação da Escolástica e o começo do mundo moderno, dizendo jocosamente para nós: Descartes percuoceva la pancia sua e diceva: cogito, ergo sum! (Descartes batia em sua pança e dizia: penso logo existo).

Não esqueço também o dia em que nos contou como morreu Giovanni Gentile, o grande filósofo italiano fundador do attualismo idealista, que inverteu o idealismo de Hegel, pois segundo ele, não se tratava de deduzir o pensamento da Natureza e esta do Logos, como fez Hegel, mas de deduzi-lo todo do próprio pensamento. Do pensamento de cada um de nós. Por isso este pensamento é ativo, não é um pensamento definido abstratamente — hipostasiado — como a Ideia de Hegel, mas é um pensamento absolutamente nosso, vivo, no qual se realiza o eu de cada um.

Além de filósofo idealista, Gentile foi ardoroso fascista, tendo até participado do governo de Benito Mussolini. Segundo nos contou o Padre Faresin, um jovem italiano, que fora discípulo de Gentile, diante da débâcle da Itália, na segunda guerra, e, frustrado com a decepção que foi o fascismo italiano, procurou transtornado o mestre com um punhal na mão: — Maestro, dicami che questo pugnale é pura idea, un mero concetto  e  che questo non é reale. (Mestre, diga-me que este punhal é pura ideia, mero conceito e que ele  não  é  real).  E  o  cravou  no  coração  do

 

 

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grande filósofo.

Si non é vero, é bene trovato, diria hoje, mesmo que o noticiário tenha atribuído a morte de Gentile a assassinato praticado pelos partegiani.

Esses fragmentos dão mostra de como o Padre Faresin sabia nos motivar para a filosofia.

Não só para a filosofia, também para a vida. Ficou-me gravado curto episódio passado com ele na Itália. Um ex-aluno salesiano, depois de muitos anos, o procurou. E lhe fez um desabafo existencial. Há algum tempo rejeitara tudo de religião e de moral que os padres lhe ensinaram. Nada mais praticava do que aprendera para continuar católico. Era praticamente um anticlerical. Nada lhe valera, portanto, ter estudado em colégio de padre. Depois de longo desabafo, confessou que apenas restava uma coisa: — ainda não tivera coragem de ser ateu, continuava a acreditar em Deus. Aoque teria exclamado com entusiasmo o padre Camilo: — Mas isto é tudo meu caro. Sinal de que nada está perdido como julga!…

Esta reação de um sacerdote e naquela época traduz quanto era sensível à compreensão humana! Por certo já tornara emblemática para si a fraseque está na peça de Terêncio, Seauton Timorúmenos (O atormentador de si mesmo): Sou humano, e nada do que é humano me é estranho.Frase encampada também por Marx a simbolizar fortemente sua atitude perante a humanidade ou diante do ser humano em todas as suas dimensões, a saber: a atitude da compreensão. 

Sem dúvida mais do que qualquer outro padre incumbido de nos formar, o Padre Camilo Faresin poderia ser apontado como o sacerdote que acima de tudo cultivava

 

 

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a capacidade da compreensão do outro, diria até da empatia.

O companheiro Norberto, porém, tinha certa razão: a filosofia que estava sendo ensinada, não a que ele pensava, mudou inteiramente minha cabeça.

Se Padre Camilo não se apegava aos manuais oficialmente adotados, do jeito como encarava a filosofia, no mínimo nos transmitia que, mesmo não desprezando o tomismo, ao menos já o adaptara a nosso tempo e não fora por ele deformado como os demais padres salesianos instalados naquele Curso de Filosofia do São Joaquim de Lorena, de 1947 a 1949.

Infelizmente o Padre Faresin não nos ministrou todo o curso de Filosofia. No terceiro ano, o professor - um velho sacerdote - que o sucedeu foi fiel ao texto adotado - o de Ética - e a escolástica, a mesma do tempo medieval, imperou. Afinal não nos repetiam aos quatro ventos que aquela filosofia era perene?

Sorte que já estava, de certo modo, vacinado pelas aulas do Padre Camilo. Por isso, nem o aristotelismo, nem o tomismo fizeram minha cabeça, ou melhor, fizeram muito pouca mossa.

Sem dúvida as aulas e o convívio com aquele Mestre, com “M” maiúsculo, abriram-me horizontes jamais imaginados. Alcei o maior voo que jamais poderia pensar.

Se houve dois momentos de epifania em minha vida, o primeiro foi este, ao descobrir a filosofia, e o segundo se deu, trinta e um anos depois, quando, já inteiramente liberto das amarras da vida na congregação salesiana, ao defender minha tese de livre-docente na Universidade Federal de Minas Gerais, descobri o que chamei  de  Suporte

 

 

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Referencial de Superação. Se houver leitor interessado basta ler o terceiro capítulo de meu livroA maravilhosa incerteza para auferir a verdade dessa confissão.

 

Voracidade pela leitura

 

Já desde o início da Filosofia comecei a devorar livros e mais livros. Dizer que estava apenas com 16 anos de idade!… Lia, mas infelizmente sem ninguém me orientar como ler e o que ler. Talvez porque os padres de um modo geral não sabiam como fazê-lo, talvez porque tinham medo da vida intelectual. Entretanto, em algum tipo de leitura, o Padre Faresin me ajudou, chegando até a me emprestar livros de sua biblioteca particular. Como me recordo de um livrinho seu em italiano intitulado La Verità.

Apesar da desordem, posso garantir que minhas leituras eram de duas grandes vertentes: livros de filosofia e livros de literatura.

A descoberta da biblioteca foi para mim a oitava maravilha do universo. Não era a biblioteca ideal. Diria que nos impressionava pelo tamanho, pela quantidade de livros. Infelizmente pecava pela falta de organização.

Por ter sido herdada do antigo Colégio São Joaquim e acrescida dos títulos vindos da biblioteca do curso de filosofia de Lavrinhas, mantinha praticamente a mesma disposição dos livros feita por um irmão coadjutor com pouca instrução, nomeado bibliotecário.

Certa vez um colega nosso foi procurar A divina comédia, traduzida, ilustrada e comentada em três volumes. Primeiro assustou-se ao deparar com o Inferno e oParaíso entre os livros de religião, ao  lado  da  Bíblia  e  da  vida  dos

 

 

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santos. Em seguida veio maior espanto: o Purgatório estava na seção de livros de medicina e de saúde. Para o velho irmão coadjutor, purgatório era o mesmo que purgante!…

De tanto fuçar, descobri que havia uma secção na biblioteca chamada "inferno", onde se alojavam os livros proibidos. Uma manhã tomado de incontrolável curiosidade bisbilhotei aquele “antro de perdição”. E fiz descoberta tão admirável quanto a da própria biblioteca. Lá estavam as obras de Eça, como O crime do Padre Amaro, A Relíquia, as obras de Rousseau, de D'Annunzio, A velhice do Padre Eterno, de Guerra Junqueira, Eurico, o Presbítero, de Alexandre Herculano e tantos outros.

         Alguns meses depois, me ficou evidenciado o critério de jogar no inferno autores e livros. Havia uma espécie de catálogo de livros proibidos, organizado por dois ou três intelectuais católicos reacionários à la De Maistre, tendo como principal responsável o Dr. Roberto de Almeida Cunha, de Belo Horizonte. A maioria era transcrição do Index librorum pohibitorum do Vaticano. Os demais eram arrolados por eles mesmos, quando exerciam a censura a seu talante com o intuito de preservar a Fé e livrar o clero de leituras comprometedoras.

Estranhamente o Index librorum pohibitorum só foi cassado no pontificado de Paulo VI. Quantos séculos de censura ao pensamento humano e, particularmente, àquilo que mais caracteriza o chamado animal racional: a liberdade de pensar e de se expressar! Diria mais: quanto tempo de manutenção do poder inquisitorial que a Igreja sempre defendeu como atribuído a ela diretamente por Deus!

No meio de tantos clássicos condenados estava um livrinho  em  francês  —  Discours  de  la  mèthode  de  Renée

 

 

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Descartes. Não resisti e o coloquei escondido no bolso da batina e em dois dias o devorei. Não deixou de ser grande revelação para minha vida. Para sanar profana curiosidade, andei sondando o motivo por que ele era "livro proibido". Talvez, tirante o Padre Faresin, os demais padres ignoravam: Descartes, juntamente com Galileu e Copérnico foram os grandes responsáveis pela maior revolução cultural: o rompimento com a Idade Média e a inauguração do chamado mundo moderno[17].

Muitos anos depois de me ter secularizado, li em algum lugar afirmação de um historiador da ciência de que o Discours de la Methode foi "o parto do Mundo Moderno". E voltando virtualmente àquele dia em que o descobri no inferno da biblioteca, confabulo hoje com meus botões: este parto deve ter sido num leito de Procusto e em cima de muito fogo inquisitorial. Sem dúvida, Copérnico, Galileu e Descartes foram os primeiros pensadores a contestar a Escolástica, sobretudo seu formalismo e seu autoritarismo que sufocava toda liberdade de pensamento.

Ao ler o Discurso do Método, fico sabendo especificamente por que fora arrolado entre os livros proibidos. Logo nas primeiras páginas deparo com a forte crítica de Descartes à Escolástica e seu rompimento com o formalismo e o autoritarismo daquela escola de pensamento que tanto retardou o aparecimento do mundo moderno:

 

Como alguém que caminha só e nas trevas, decidi andar tão lentamente e usar de tanta circunspeção em todas as cousas que, embora só avançasse muito pouco, evitaria pelo menos cair. Não quis até desde logo, rejeitar completamente nenhuma das opiniões que outrora se haviam insinuado no meu espírito, sem aí terem sido introduzidas pela razão, antes de empregar bastante tempo em projetar a obra que empreendera, na procura do verdadeiro método para atingir o conhecimento de todas as cousas de que meu espírito seria capaz (…) Estudara, quando mais moço, entre as partes da Filosofia, a Lógica (…) notei, no que diz respeito à Lógica, aos seus silogismos e à maior parte de suas instruções, que servem mais para explicar aos outros as cousas que já são sabidas, ou mesmo, como a arte de Lúlio, para falar sem grande critério daquelas que se ignoram, do que para aprendê-las. E embora ela mantenha, com efeito, muitos preceitos verdadeiros e bons, existem, todavia, com eles misturados, tantos outros que são nocivos e supérfluos, que é quase tão difícil separá-los uns dos outros como tirar uma Diana ou Minerva de um bloco de mármore que ainda não foi esboçado.  (grifos meus).

     

Basta este tópico para bom entendedor. É de se frisar que apesar de conhecer toda a Escolástica, Descartes se julgava um caminhante nas trevas. Além disso, nos revela que lhe era proibido o uso da razão para criticar. Até seu tempo dominava o dogmatismo e o autoritarismo, inclusive no método para se atingir o conhecimento, pois apenas lhe era oferecida a lógica. Daí rejeitar a Lógica Formal, do mesmo modo que o fez Galileu em seu Dialogo Soprai Due Massimi Sistemi del Mondo, onde coloca os três personagens:  Salviati,  Sagredo  e  Simplicius   em   conversa

 

 

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crítica à Escolástica, ao aristotelismo, notadamente à Lógica.

 

Idade Média em pleno século XX

 

Nossos padres salesianos em pleno século XX ainda ignoravam as novas ideias trazidas por aqueles grandes pensadores dos séculos XVI - XVII. Decorrência: imperava nas aulas o magister dixit (e magister era São Tomás de Aquino, afinal o próprio Dom Bosco o declarara nas Santas Regras: nosso Mestre será São Tomás de Aquino) e ponto final. Ai de quem ousasse levantar um dedo de dúvida e de crítica.

Basta frisar que se não lêssemos por nossa conta textos à margem do manual didático, fossem eles de história da filosofia, de enciclopédias ou dicionários especializados em filosofia, jamais saberíamos o que são os sistemas filosóficos, como o empirismo, o racionalismo, o idealismo, o positivismo, a fenomenologia, o existencialismo ou quem foram muitos filósofos de renome como Hume, Berckeley, Bacon, Descartes, Kant, Spinoza, Hegel, Schopenhauer, Nietzche, Kirkegaard, sobretudo Marx… apenas para lembrar os mais antigos, porque os chamados contemporâneos como Husserl, Dilthey, Jaspers, Bergson, Merleau Ponty, Sartre, Adorno, Althusser, Walter Benjamin, Heidegger, Marcuse, Lukács, Wittgenstein, Gramsci… nem pensar!

Ler alguma obra, mesmo através de extratos ou resenhas, de um desses filósofos era praticamente impossível. E dizer que era um Curso de Filosofia, com aulas diárias com duração de mais de uma hora cada uma e com discussão sobre o tema estudado na lição daquela manhã, em  forma   peripatética,  em  grupo  de  três,  andando  pelo

 

 

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pátio, todos os dias úteis, de 11 às 11:30 horas. Ao todo duas horas diárias.

Mas no meio dos pântanos brotam exóticas e encantadoras flores. Por isso posso confessar que alguns colegas foram legítimos representantes dessas flores. Nem todos foram contaminados pelo vírus da mediocridade e da paralisia intelectual. Por intuição ou motivo semelhante sabiam que tinham de procurar algo fora do manual adotado.

De uma forma ou de outra se encontrava algum texto na biblioteca, ainda que perdido no meio do aglomerado de milhares de títulos.

Poucos dias depois de ter lido o Discours de la Mèthode li o La vie intelectuelle de Sertillanges e posso dizer que a influência foi tamanha que até hoje sou incapaz de dimensioná-la.

Provavelmente foi a partir desta época que comecei a encontrar o veio de minha vocação para a metodologia científica. Estava ali o gérmen do Como fazer uma monografia, livro de metodologia do trabalho intelectual e científico que, no meio acadêmico, tanta aceitação e não menor sucesso editorial tem obtido. Donde concluo que o ambiente em que vivi por mais que critique foi propício e benéfico para minha vida intelectual. Ressalto, porém que esse benefício dependeu de minha reação ao próprio ambiente e não decorrência do ambiente em si.

Talvez tenha encontrado por conta própria aquilo que considero até hoje o mais importante na formação superior de qualquer profissão: a aquisição da mentalidade científica. Ainda que esta aquisição seja através do autodidatismo. Repito  para  enfatizar:  acredito   que   fiquei   marcado   por

 

 

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minha ousadia, embora tivesse consciência de que o ambiente intelectual negado pelos padres, paradoxalmente, me fora positivo. Hoje posso confessar que foi a partir daquela época que criei a convicção já externada em trabalhos publicados, notadamente no ensaio Por uma universidade da problematização, onde deixei registrado:

 

·Por mais que se batalhe por uma escola ativa do learning by doing, pelo método Dalton estendido ao ensino superior, há uma realidade até hoje inevitável: 90% de ensino na universidade se faz através de aulas e livros de texto (infelizmente, mas esta a realidade!); pertence, pois, ao aluno libertar-se desse jugo e impor sua autonomia para aprender, apesar dos manuais, das apostilas, dos textos xerocados

 

·Em fase de transformação, a universidade não precisa ter pejo do sadio autodidatismo, antes, pelo contrario, deve criar condições para que esta forma de independência intelectual e de procura individual se realize dentro de um mundo em que as informações são obtidas em muito maior proporção fora do que no sistema convencional de ensino. Cabe ao aluno ser o principal agente de sua formação e da produção de seu conhecimento científico.

 

·Destarte e sob a orientação do mestre (sublinhe-se orientação e não manipulação!) atingirá a almejada fase da transformação: de aluno para profissional autêntico, seja este de que categoria for, até mesmo na auspiciosa continuação do magistério dentro da universidade. Não seria esta a realização do sonho de todo professor diante de legítimos discípulos a continuar sua   obra  e  a  repetir  como  Verdi  para  Carlos   Gomes,

 

 

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quando escutou o Guarany: — questo comincia da dove finisco io? (RevistaCaminhos da Associação Profissional dos Docentes da UFMG, n. 21, 2003).

 

Gosto pela literatura

               

Já no primeiro ano de Filosofia, que era, ao mesmo tempo, o primeiro colegial, fiquei entusiasmado com as aulas de Teoria Literária e, a partir do segundo ano, com as de Literatura Portuguesa e Literatura Brasileira.

Lembro de ter lido quase todos os romances de Machado de Assis e de José de Alencar, alguns de José Lins do Rego, um ou outro de Joaquim Manuel Macedo, sobretudo A Moreninha (nunca me esqueci da impressão que me causou seu estilo vivo, particularmente os diálogos de frases curtas), todo Castro Alves, todo Gonçalves Dias, Álvares de Azevedo, Augusto dos Anjos, Fagundes Varela e várias obras de Herculano, Camilo Castelo Branco, Garrett e tantos e tantos outros.

Gostava muito de poesia. Era incentivado por um colega de turma, o Wanir Delfino Cesar, bem mais velho que eu e que entrara adulto para a Congregação, creio que já formado em Direito e, pelo que me dissera, fora inspetor de ensino no colégio salesiano de Cuiabá. Era poeta de obras publicadas e de muito bom gosto. Admirador incondicional de Dom Aquino Correa, salesiano, da Academia Brasileira de Letras e arcebispo de Cuiabá e que fora interventor do Mato Grosso no tempo da ditadura de Getúlio.

Por causa da influência do Wanir, consegui decorar todo o primeiro canto dos Lusíadas[18]. Ele sabia de cor todos os dez cantos. Ficava boquiaberto quando me demonstrava sua capacidade de memorização.

Não só li nossos clássicos brasileiros e portugueses, li também Les Chansons de Roland, Le génie du Christianisme de Chateaubriand, Heloise de Rousseau, algum texto de Voltaire, Lamartine, Victor Hugo e outros, incentivado por nosso formidável professor de francês, o clérigo Ebion de Lima.  Ebion foi também nosso professor de Literatura Portuguesa e Literatura Brasileira (segundo e terceiro anos respectivamente).  A ele, sem dúvida, devo o amor às letras[19].

Cheguei, inclusive a rascunhar um texto em que procurei comparar Les Chansons de Roland com Dom Quixote de Cervantes e os Lusíadas de Camões, tentando colocar na mesma esteira a Ilíada, de Homero e a Eneida, de Virgílio. Quanto a estes dois últimos traduzíamos grandes passagens nas aulas de grego e latim respectivamente. Certamente foi um exercício juvenil, de pouco valor literário.

No terceiro ano, entre tantos livros, li, em italiano, escritores que, de certo modo, me influenciaram pelo seu pessimismo como Leopardi, Ada Neri e alguns outros. Li numa assentada I promessi sposi, de Alessandro Manzoni. Impressionou-me o romance de Renzo e Lucia, a ponto de pensar em pesquisar o tema do par amante em outros clássicos da literatura universal, como Eneias e Dido, Dante e Beatriz, Romeu e Julieta, Otelo e Desdêmona, Francesca de Rimini e Paolo Malatesta, Lancelote e Guinevere,Heloisa e Abelardo, apenas para citar os que me vêm à lembrança neste momento. Em italiano li também LaDivina Commedia,de Dante Alighieri, o  Cuore, de Edmondo de Amicis, escrito em 1886. Este foi mais um exercício de italiano. Diante dos que tinha lido, me pareceu bem juvenil. O autor conta a história de um ano eletivo do primeiro grau, ou melhor transcreve o diário do filho que frequentava a terceira serie e anotava tudo aquilo que via e pensava dentro e fora da escola. O livro fez tanto sucesso durante décadas na Itália, a ponto de merecer badalada canção, cujo começo era:Il "Cuore" tra i miei libri ho ritrovato / che l'ho riletto ancor con commozione, / ma per celare il pianto, ho improvvisato / un buffo ritornello di canzone (O "Cuore" entre os meus livros reencontrei / e o li de novo com comoção, / mas para esconder o choro, improvisei / um bufo refrão de canção).

Por causa desse amor desordenado pela leitura, no segundo ano, fiz aposta com dois colegas, um de minha turma, o Wilson Salgado[20] e outro de um ano atrás, o Nelson Bini: Quem leria mais durante aquele ano?  Parece que ganhei, pois devo ter atingido a meta dos 100 livros (equivalente a um livro em três dias e meio em média).

Para conseguir tamanha maratona de leitura tinha de ludibriar nosso assistente. Conseguia tempo para me dedicar aos livros não escolares, justamente porque programara bem meus horários de estudo. Muitas vezes, quando achava uma leitura interessante, fingia rezar solitário na capela, durante o recreio da manhã e/ou o do café da tarde: em vez do livro de reza, disfarçadamente estava “devorando” um romance ou um livro de filosofia. Outras vezes, sobretudo à noite, antes de deitar, demorava na “presidência”, muito mais tempo que o necessário e sentado no vaso sanitário saboreava o texto que para lá levara, escondido no bolso da batina.

 

 

 

Católico da mão estendida

 

Por certo e infelizmente terei perdido em qualidade e proveito, apenas ganhei em quantidade. Foi justamente nesta seara que comecei a me interessar por dois escritores muito em voga naqueles anos: Jacques Maritain e Alceu Amoroso Lima ou Tristão de Athayde. De tal maneira acabei sendo influenciado pelas ideias desses autores que nosso padre Conselheiro, João Modesti, começou a ironizar minha simpatia pela "esquerda católica". Eis como me provocava: — Olha o católico da mão estendida![21]

Uma digressão: apesar de achar esse padre dotado de inteligência incomum (era nosso professor de Física e Química), notei que meu anjo da guarda não combinava muito com o dele. Além da provocação ideológica acima apontada, um dia, en passant, insinuou que estaria tendo "amizade particular" com o colega Wanir, de quem já falei.

Amizade particular era uma expressão equivalente a homossexualismo. Lembro que a indireta me revoltou de tal maneira que, incontinenti, lhe cortei o papo dizendo: — É lamentável que na cabeça de um sacerdote possa passar uma suspeita desta natureza. Pensei que o senhor tivesse um pouco mais de respeito para com as pessoas. Se o Wanir me procura com mais frequência nos recreios, é justamente para trocarmos ideias sobre literatura. O senhor talvez não saiba, mas ele entrou adulto para a congregação e já era escritor com obras publicadas. O senhor deveria conhecer melhor as pessoas, antes de fazer mau juízo a seu respeito. Pode ficar tranquilo que sei me proteger, não preciso de nenhum censor de meus atos[22].

Desse dia em diante notei que devia me controlar, sobretudo, porque aquela insinuação não era gratuita e estava relacionada com a ironia do católico da mão estendida. Se continuasse declaradamente a defender minhas ideias e demonstrar inclinação para as letras, estaria frontal e ostensivamente do lado oposto do pensamento reinante no seminário.

 

Padres reacionários e fascistas

 

Saudosistas do velho reacionarismo, cujas raízes estavam na Idade Média, influenciados ainda pelo fascismo de Mussolini, os padres salesianos preferiam no Brasil as ideias de outro fascista, o Plínio Salgado, fundador do integralismo.

Era frequente, em festas e em outros momentos comemorativos, ouvirmos o Giovinezza[23]considerado o “hino” do fascismo italiano, dirigido à juventude, por ser a fase da vida mais acessível à doutrinação.

Aliás essa idolatria pelo fascismo na Congregação Salesiana já vinha de longa data. Na quarta série, lá em Lavrinhas, nosso professor de História do Brasil comentava a obra de Gustavo Barroso, talvez o escritor mais radical do integralismo. Lia para nós trechos e mais trechos de seus livros: História secreta do Brasil, Os protocolos dos sábios de Sião, eBrasil — colônia de banqueiros.

Diante da formação bastante retrógrada, com o cordão umbilical preso à Idade Média e a mentalidade embebida nas ideias fascistas, não é de estranhar a não-existência de um padre negro entre os salesianos da Inspetoria Centro-Sul do Brasil, ao menos naquele tempo.

Havia, inclusive, um brilhante irmão coadjutor negro, de nome Walmor[24], com curso de História feito em faculdade do Rio de Janeiro. Queria ardentemente ser padre, sem jamais obter o consentimento dos superiores da Congregação. Se vivo estiver, creio que até hoje continua irmão coadjutor. Para mim preconceito racista e fascismo são irmãos gêmeos. Afinal não foi o nazismo - irmão gêmeo do fascismo - que provocou o holocausto dos judeus?

Não posso negar que admirava Plínio Salgado como escritor, sobretudo depois de ter lido sua Vida de Jesus eO estrangeiro, no segundo ano de Filosofia.

Os padres se entusiasmavam com as ideias de Plínio Salgado, por isso mais de uma vez o convidaram para fazer palestra, tanto no tempo da Filosofia como no da Teologia. Basta o seguinte fato: Plínio Salgado viria para nos proferir uma conferência contra o comunismo, à tarde, no auditório do Instituto Teológico Pio XI em São Paulo.

De manhã, o Padre Conselheiro, de nome Joaquim Salvador, me procurou e pediu para decorar e declamar pequeno poema, denominado Águia Branca, por ele escrito em seu livro Tabor.

Como me conheciam desde menino sabiam que tinha uma memória muito boa e pendor para a declamação. Já tinha declamado em várias sessões teatrais, longos poemas como o Navio Negreiro de Castro Alves, o Delenda Cartago de Olavo Bilac, o Jerusalém e A morte de Abel extraídos do Flores da Bíblia  de Amélia Rodrigues.

Devo confessar que, com o tempo, depois de ter saído da Congregação Salesiana, minha memória começou paulatinamente a eclipsar-se. Atribuo ao tabagismo (vício adquirido a partir dos 26 anos e só abandonado aos 51), à bebida e às anestesias em função de cirurgias pesadas sofridas. Mas naquela época, minha memória era realmente excelente.

Aceitei, pois, a incumbência. O poema era curto e contava com algumas horas de antecedência para memorizá-lo.

Quando chegou o momento, logo após a saudação ao célebre político feita por um de nossos colegas, lá fui eu declamar o poema.

Ainda lembro seu começo: Eleva-te no azul! / Corta-o serena e forte. / Rasga o seio à amplidão.  Chequei quase no fim do poema. Mas me deu branco total. Tentei reaver o fio repetindo novamente a parte declamada. Mas o branco foi maior ainda. Talvez houvesse explicação freudiana para o lapsus da memória, se se levar em conta meu subconsciente há muito antifascista. Nervoso, não me ocorriam os versos que antecediam o desfecho do poema. Este desfecho até hoje recordo: morre a lutar, / morre na luta, / mas, antes de morrer, / tenta ainda.Era o que me vinha à mente.

Após respirar fundo…pedi desculpa à plateia e fiz pequeno discurso em cima daqueles últimos versos. Dizer que a emenda saiu melhor que o soneto foi pouco. Eu mesmo fiquei admirado da minha ousadia, sobretudo, quando, após os costumeiros aplausos, vi o Plínio Salgado me chamar, me abraçar e dizer que minha peroração estava melhor que seu escrito…

Sabia que tudo aquilo era duplamente  falso:  por  parte

 

 

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dele, por entender ser apenas um gesto de gentileza, e, de meu lado, porque há muito, na latência de meus pensamentos, alimentados pelas leituras de Maritain e Tristão de Athayde, pensava de maneira diametralmente oposta à dele. Sobretudo, desde que lera, nos tempos de Lorena, um belo livrinho de Alceu Amoroso Lima criticando o volumoso A aliança do Sim e do Não de sua autoria.

 

Quando começaram a brotar

 em mim ideias socialistas

 

No segundo ano de Filosofia, encarregaram-me de escrever e apresentar um trabalho sobre a Quadragesimo Anno — encíclica de Pio XI escrita em comemoração à Rerum Novarum do Papa Leão XIII, editada em15 de maio de 1891. Acredito que fiz bom trabalho. Influenciado pelas ideias "socialistas", de meus autores preferidos, interpretei sob essa perspectiva o texto papal.

Na apresentação estava o Bispo de Lorena. Vaidoso, queria demonstrar, perante nossa comunidade salesiana, que entendia do assunto e me fez uma série de indagações. Creio ter respondido a todas, dentro das limitações de quem, pela primeira vez, se ocupava de assuntos sociais e delicados diante da problemática operária na crucial encruzilhada de opções entre o socialismo e o capitalismo.

Valeu a tertúlia daquela tarde duplamente: por causa  da revelação de nosso Bispo como intelectual aparentemente expert em assuntos sociológicos e pela minha estreia como futuro interessado em problemas sociais, preocupação que nunca mais deixaria de ter.

 

 

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                                                                        Havia mulher

no meio do meu caminho

 

Entusiasmado com o novo ambiente filosófico e literário, vivendo da imaginação produzida por infindáveis leituras, haveria de tudo correr bem no curso, não fosse um episódio revoltante que aconteceu no final do primeiro semestre de meu primeiro ano de Filosofia.

Foi quando nosso diretor, Padre José Stringari, me chamou a seu escritório:

Chamei-o porque chegou uma carta de sua irmã. Eis aqui a carta.

Num átimo julguei que algo de grave estava contido ali, pois as cartas eram sempre entregues durante as refeições e aquela fora detida.

Ele me entregou a correspondência. Mal acabei de ler, encarou-me e disse:

Como está vendo pela carta, vieram várias fotografias. São do casamento de sua irmã em Aparecida no ano passado. Mas como você fez voto de castidade, rompeu com o mundo, inclusive com sua família, sobretudo com a mulher, seja esta sua irmã ou até sua mãe, você não pode olhar para uma mulher nem em retrato, sob pena de cometer pecado.

Por certo naquele momento ele atingira o estertor do orgasmo espiritual do sadismo (ainda vejo sua risadinha rasputiniana!), pois olhou para mim com ironia e rasgou, uma por uma, as seis ou oito fotografias, sem que eu pudesse ver uma sequer.

Cabisbaixo, mas comovido, remoendo revolta interior, aceitei   a    admoestação    daquele     sacerdote,     de    cuja

 

 

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idoneidade passei a duvidar e que um dia viria a se confirmar, já estando no Instituto Teológico Pio XI, tendo-o, infelizmente e por causa dessas coincidências do destino, novamente como diretor.

Por falar na proibição de olhar para mulher ou mesmo falar sobre alguma delas, ainda que fosse sua própria mãe, eis a que ponto chega a obsessão.

 

Obsessão — caso patológico

 

Tínhamos um colega que, como meia dúzia igual a ele, vivia as vinte e quatro horas em arrebatamentos de santidade. Magro de tanto jejum, olhos cavados, pescoço torto, não saia da capela durante os recreios. Seu patológico misticismo era tão notado que ao vê-lo sair da capela, um dos nossos colegas comentou comigo:  está de tal modo espiritualizado que não demora muito forte ventania o levará para o céu qual o profeta Elias.

Um dia, como era praxe, foi sorteado para ser o leitor durante o almoço. A leitura em latim era de trecho do Evangelho de João, cap. 2, desde seu primeiro versículo em diante, onde se lê o primeiro milagre de Jesus.

Vou me colocar no lugar do referido clérigo lendo: — Et die tertia nuptiae factae sunt in Cana Galilaeae, et erat mater Iesu ibi. Vocatus est autem et Iesus et discipuli eius ad nuptias. Et deficiente vino, dicitmaterIesuad eum: Vinumnonhabent(E ao terceiro dia, fizeram-se umas bodas em Caná da Galileia, e estava ali a mãe de Jesus. E foi também convidado Jesus e os seus discípulos para as bodas. E faltando o vinho, a mãe de Jesus lhe disse: — Não têm vinho). Et dicitei Iesus:  Quid mihi et  tibi est,... ( E  disse-lhe

 

 

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Jesus: O que tenho eu e tu com isso…). Neste ponto nosso leitor parou ficou vermelho feito tomate e com voz trêmula após alguns segundos retomou o texto: Quidmihiet tibiest… hum,hum,e não pronunciou a palavra mulier(mulher).

O episódio nos dá a dimensão de todo o processo inibidor exercido pelos padres sobre nós, tal qual fizera comigo o padre diretor ao rasgar as fotografias do casamento de minha irmã.

Óbvio que eram gatos pingados os que chegaram ao ponto patológico atingido por aquele leitor.

Por outro lado, devo imaginar que a maneira de como certos sacerdotes agiam era fruto da deformação de que eles também foram vítimas. Sobretudo, por introjetarem a própria obsessão de Dom Bosco pela pureza, a ponto de recriminar como obra do demônio, a companhia do sexo oposto, o fixar o olhar até no rosto da própria mãe.

Que esta obsessão pela pureza e o clima da espada de Dâmocles pendurada em cima de nossas cabeças, ameaçando-nos com o inferno ou com a expulsão do seminário, por qualquer deslize nessa área eram responsáveis por certos comportamentos esquizofrênicos ou paranóicos entre nós, não tenho hoje a menor dúvida.

Cito um caso exemplar ocorrido com aquele colega Nelson Bini, de quem já falei quando da aposta de quem lia mais na Filosofia. O fato se deu quando éramos aspirantes em Lavrinhas. Quando menos esperávamos, o estado patológico se revelou: diante de qualquer mancha de sangue, o Nelson desmaiava.

O distúrbio progrediu de tal forma que ele começou a desmaiar não só diante do sangue real, mas também da palavra    sangue    e    com   tal   persistência   que   o   pobre

 

 

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adolescente chegou a decorar a palavra em todas as línguas possíveis a que pôde ter acesso. Bastava lê-la em algum lugar que ele começava a passar mal.

Com o tempo certamente superou esse distúrbio. Como? Até hoje ignoro.

Crueldade do destino: soube há pouco tempo que o Nelson Bini não chegou a ser padre e, alguns anos depois de ter saido da Congregação, foi assassinado em São Paulo, não sei se por causa de briga ou assalto. Ele tinha um irmão de nome Walter, mais velho e nosso colega de turma. Muito inteligente e totalmente identificado com a vida religiosa salesiana. Chegou a ser bispo de uma cidade do interior de São Paulo, parece que Lins, e também ele faleceu tragicamente, num desastre de carro em rodovia.

 

O inesperado já esperado

 

Próximo do fim do segundo ano de Filosofia, ficamos sabendo que  frequentemente à noite estava entrando ladrão no colégio.  O São Joaquim era um prédio enorme, em forma de “U” com ângulos retos, de dois andares. De um lado e de outro para atingir o segundo andar, onde estavam os dormitórios, a biblioteca e os quartos dos padres, havia enormes escadas, cujas laterais eram protegidas por belíssimas grades de ferro e, de meio em meio metro, seu design ostentava globos de bronze ou cobre (não saberia classificar). Certa noite, esses globos despareceram.  Por certo era fruto de esperto ladrão que conhecia o interior do colégio. Não bastasse tal fato,  o ladrão começou a agir  também, na despensa do colégio, carregando sacos de arroz, feijão,  trigo,  açúcar,  sal  e  outros  produtos.   Um  de

 

 

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nossos colegas, o clérigo Vicente Mattos,  um dos mais velhos de nossa turma, foi encarregado de dormir na despensa para surpreender o ladrão. Deram-lhe um revóver para se defender e/ou amedrontar o ladrão.  Aconteceu o inesperado já esperado. Vicente acordou com barulho típico de quem abre a porta e tenta entrar.  Ainda deitado atirou para o alto e se levantou para ver o que estava acontecendo. Ainda viu o ladrão sair correndo em  disparada pelo pátio em direção ao portão da garagem. Já na rua entrou numa caminhonete. Chegou a identificar o larápio. Era um irmão coadjutor  pertencente à Escola Agrícola ligada ao Colégio. Ele fazia, três vezes por semana, a entrega  da produção agrícola ao colégio. Seu sobrenome: Stringari, irmão ou sobrinho (não me lembro!) do nosso diretor, o catarinenese Padre José Stringari.

Dias depois, ficamos sabendo que aquele coadjutor se desligou da Congregação Salesiana, mas que tinha feito seu pé-de-meia para se protegar lá fora. Certamente praticou ao pé da letra o “louvor” de Cristo ao servo infiel: Et laudavit dominus vilicum iniquitatis, quia prudenter fecisset; quia filii hujus saeculi prudentiores filiis lucis  (E louvou aquele senhor o injusto mordomo, por haver procedido prudentemente, porque os filhos deste mundo são mais prudentes que os filhos da luz) (Lucas, 16: 8).

Não sei se no meu íntimo, quando soube do desfecho daquele episódio senti laivo da satisfação vingativa contra nosso superior ou compaixão diante de sua pobreza de espírito. Talvez um misto das duas atitudes. De qualquer maneira não deixou de ser um castigo para sua  hipocrisia, por se julgar modelo de probidade e  acima de qualquer suspeita?!

 

 

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                                             Males que vêm para bem

 

Escapei da deformação patológica que atingiu o Nelson Bini, aquele colega leitor do hum, hum, e alguns outros.Entretanto, não posso negar que a cena, vivida diante do padre diretor, ao entregar-me a carta de minha irmã, foi fortegolpe em minha sensibilidade, mas que na perspectiva de hoje, foi salutar.

Estava plantando as sementes que amadureceriam um dia em frutos a serem colhidos no momento sazonado.

Provavelmente aquelas cenas ficaram de tal modo gravadas em minha memória, que começaram a corroer, subrepticiamente, minha confiança no sistema de vida que a Congregação Salesiana estava me oferecendo.

Somente hoje, decorrido tanto tempo, posso revelar até para mim mesmo essa percepção.

Diz a sabedoria que há males que vêm para bem. Talvez seja esta a lição que recolho, ao me debruçar sobre meu passado. Valeu ter suportado tais provações. Sinto ter sido uma experiência que, apesar de negativa, serviu para me fortalecer diante da perspectiva de enfrentar os dissabores da vida de todo ser humano.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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7

 

 

 

Meus  olhos são pequenos para ver

o mundo que se esvai em sujo e sangue,

outro mundo que brota, qual nelumbo

— mas veem, pasmam, baixam deslumbrados.

 

(Carlos Drummond de Andrade, Visão 1944)

 

 

 

 

Enfrentando a fera

 

Terminadaa Filosofia, chegou finalmente o dia de enfrentar a fera: o tirocínio. Durante uma semana todos nós que completamos o terceiro ano de Filosofia, aguardávamos o destino que nos traçaria o Padre Inspetor.

Àquela altura, a Congregação Salesiana no Brasil já estava dividida em quatro inspetorias. Pertencia à denominada Dom Bosco que compreendia os estados de Minas Gerais, Rio de Janeiro, Espírito Santo e Goiás. Nosso inspetor era o Padre Alcides Wikrota Lanna.

Cada um de nós era chamado por ele ao  escritório  que

 

 

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lhe fora reservado no São Joaquim para aqueles dias de visita. Sinceramente aguardava com ansiedade a indicação para onde iria.

A determinação do padre inspetor era importante para a sobrevivência da própria Congregação. Afinal iríamos substituir aqueles clérigos que, terminado o tirocínio, iriam começar o curso de Teologia, além de ocupar o lugar de muitos professores leigos, contratados pelos diversos colégios da Congregação.

Temia que a falta de transparência, no julgamento de nossa conduta pelos padres responsáveis por nossa formação, durante o curso, viesse influenciar a decisão do padre inspetor, sem que soubéssemos sequer o critério adotado. Jamais ficávamos sabendo o que os padres conversavam a nosso respeito, nas reuniões do capítulo. Como tudo era escondido de todos nós, certamente surpresa haveria naquele momento.

Fiquei admirado quando Padre Alcides me mandou, juntamente com meu colega Geraldo Servo[25], para o Colégio São João, de São João Del Rey, onde funcionava o aspirantado e o Curso de Filosofia. Fui escolhido para lecionar para os clérigos da Filosofia. Portanto iria continuar dentro da redoma do seminário.

Continuaria a respirar o mesmo ar, beber da mesma água, comer do mesmo pão, enfim continuar rezando na mesma cartilha. Disse admirado, porque não sabia se era prêmio ou se era para preservar-me a vocação.        

Apenas desconfiava de que a escolha estaria ligada ao desempenho escolar demonstrado em toda minha carreira desde o primeiro ginasial até o fim da Filosofia. Mas, repito, leve desconfiança. Na verdade, indagava em minhas secretas cogitações: — O que não lhe teriam dito o Padre Stringari, nosso diretor — o dos retratos rasgados  e o Padre Modesti — o provocador que me alcunhava de "católico da mão estendida"? Ainda paira em meu subconsciente essa dúvida, mas que o tempo acabou diluindo. Hoje ninharia, mas, em 1949, forte suspeição de que meu futuro iria ser resolvido naquele momento.

Chegando ao Colégio São João, meu diretor era o Padre José Vieira de Vasconcelos, cujo sobrenome "Vieira", fiquei depois sabendo, o ligava em parentesco longínquo à minha família. Teria sido dele a indicação de meu nome? Provável.

Ele tinha sido meu professor de Português no aspirantado em Lorena, onde fora nosso Conselheiro. Desde quando tirara o primeiro lugar da terceira série em 1944, com a maior nota em sua matéria, tinha certa simpatia para comigo e eu para com ele.

Talvez, por sermos ambos de Belo Horizonte, tivesse eu mais por ele do que ele por mim, difícil de dizer. Em pouco tempo tive de colocar a reciprocidade afetiva em dúvida, sobretudo, quando o vi várias vezes demonstrar predileção pelos dois outros colegas que lá já estavam e eram um ano à minha frente.

Basta dizer que foram indicados, ao final do tirocínio, para irem para a Itália, onde iriam fazer a Teologia. Entretanto, nenhum aceno foi dado de que o mesmo ocorreria comigo ou com o Geraldo Servo no ano seguinte. Creio que tal discriminação foi o motivo que levou o Geraldo pedir sua transferência para o Colégio Dom Helvécio de Ponte Nova, logo após o primeiro ano de tirocínio.

Apesar do sentimento de frustração na época, hoje vejo que foi o dedo do destino que fez a balança pender para meu lado, sem o saber.

Para mim sempre foi muito difícil julgar o mérito das pessoas. Mas, por demonstrações desde o tempo de Lorena, sabia que os dois, intelectualmente, não eram nada brilhantes. O fato veio confirmar que o culto  dos  Salesianos

 

 

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pela mediocridade era real, contanto que a coroasse o espírito de submissão. Até hoje me pergunto: não seria este duplo traço o distintivo do autêntico salesiano, segundo a interpretação pelos padres do "espírito salesiano" de ser e de se comportar? Um deles tornou-se anos depois Inspetor da Inspetoria Dom Bosco, na década de 60 e o outro, pelo que soube, acabou tornando-se defroqué (depois de padre, acabou se secularizando)[26].

Mas, apesar deste aparente "ciúme", não posso me queixar. Valeram como experiência de vida os dois anos que vivi em São João Del Rey.

 

 

 

 

Realizando-me como professor

 

Fui designado como Assistente dos menores e, ao mesmo tempo, professor de Matemática para o primeiro ano e de Literatura Portuguesa e de Literatura Brasileira para o segundo e o terceiro ano de Filosofia, respectivamente, além de Português, Matemática e Inglês para a segunda e terceira séries do ginasial no Aspirantado.

Foi nessa época que o estro poético se despertou em mim. Escrevi vários poemas, hinos e canções, uns a pedido de nossos superiores e outros por livre e espontânea vontade. Alguns devem estar registrados na revistaDom Bosco publicada pela gráfica da Central da Inspetoria, instalada no Colégio Santa Rosa de Niterói ou no principal jornal da cidade de São João Del Rey.

Ao menos me lembro de algo neste sentido: um soneto sobre a cidade de São Del Rey, em que jogava com a imagem de turista e peregrino que chega a São João Del Rey (assim começava: turista e peregrino aqui cheguei o que, fatalmente, rimava com São João Del Rey…), um soneto sobre Olavo Bilac que conservei e publiquei recentemente no meu livro Na mesma tecla, um longo com mais de cem versos sobre a vida e santidade de Domingos Sávio em comemoração à sua beatificação naquele ano e que foi declamado por um clérigo da Filosofia, aluno meu, na festa comemorativa do grande acontecimento.Domingos Sávio nasceu em 1842 e morreu com 15 anos após ter sido aluno de Dom Bosco em Turim, por três anos. Foi beatificado em 1950 e canonizado por Pio XII em 1954.

Todos os anos Padre Vasconcelos promovia grande festa, para a qual convidava autoridades e ex-alunos que se destacavam na vida pública e no empresariado. Era solenidade diferente das  demais  projetadas  no  calendário.

 

 

Durava três dias. Começava de manhã com missa solene, com programações para o dia inteiro e terminava à noite nos moldes das festas tradicionais. Para um desses congraçamentos, a pedido, fiz pequeno poema sobre o Cruzeiro do Sul, que foi musicado pelo Padre Ralphy Mendes e cantado pelo coral do colégio, composto de clérigos e aspirantes.

Compus vários poemas sentimentais sobre minha mãe e minha infância em Belo Horizonte, mas eles se perderam. Aproveitando as aulas de inglês, traduzi algumas poesias do inglês para o português. Até hoje fico a imaginar minha cara de pau, construída pelo servilismo aclopado ao voto de obediência, em aceitar lecionar inglês. Logo eu que só tinha conhecimento da gramática, parco vocabulário e jamais consegui dominar a pronúncia e menos ainda a conversação!…

Uma dessas traduções, que julgo saiu razoavelmente bem feita, é o Reforma do mundo do Wishing de Ella Wheeler Wilcox também publicada em Na mesma tecla. Encontrei este poema numa revista em inglês, enviada por minha prima Ana, médica e que entrara para o convento das Medical Mission Sisters(uma congregação de origem americana, formada por freiras médicas de diversos países) e nessa época residente em Maracaibo, na Venezuela. Julgo não ser despropósito reproduzir aqui o original e repetir a tradução então feita:

 

Wishing

 

Ella Wheeler Wilcox
From: Poems of Power, 1901

 

 

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Do you wish the world were better?
Let me tell you what to do.
Set a watch upon your actions,
Keep them always straight and true.
Rid your mind of selfish motives,
Let your thoughts be clean and high.
You can make a little Eden
Of the sphere you occupy.

 

Do you wish the world were wiser?
Well, suppose you make a start,
By accumulating wisdom
In the scrapbook of your heart;
Do not waste one page on folly;
Live to learn, and learn to live
If you want to give men knowledge
You must get, ere you give.

 

Do you wish the world were happy?
Then remember day by day
Just to scatter seeds of kindness
As you pass along the way,
For the pleasures of the many
May be oftimes traced to one,
As the hand that plants an acorn
Shelters armies from the sun.

 

Reforma do mundo

 

(Tradução demasiadamente livre do WISHING de Ella Wheeler Wilcox), São João Del Rey, 05/12/50).

 

 

— 222 —

Queres que o mundo seja melhor?

– Escuta,então, o que cumpre fazer:

Põe um relógio em tuas ações!

Que possam nele sempre correr

Mas sem atraso e acelerações

Os mostradores da retidão.

 

Livra a mente de tantos motivos

Pessoais, fúteis e subjetivos.

Os pensamentos teus sejam puros

Por sobre a terra sempre a pairar.

Um pequeno Éden podes tornar

Deste topos que estás a ocupar.

 

Queres que o mundo seja mais sábio?

Bem, crê que deves ser o primeiro

A acumular a sabedoria

Com afã, com denodo e esmero

No álbum arcano que deveria

Sempre estar dentro do coração.

 

Não destruas jamais por loucura

Uma página ou rara figura.

Vive amiúde a folheá-lo

Porém folheia-o pra viver.

 

Desejas tu homens de saber?

Ah! Sê tal antes de isso querer.

Queres que o mundo seja feliz?

Então tome a missão de espalhar

Sem fim sementes de caridade.

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Esses grãos hão de desabrochar

Em floração de felicidade

Por qualquer terra que os acolher.

 

A alegria de não pouca gente

Em um só tem talvez a semente.

Daquilo que hoje é pequena drupa

A manhã carvalho há de sair.

Bendita a mão que em terra a encobrir

Multidões susterá no porvir.

 

               

Sinceramente, em termos de consolidação da formação objetivando a carreira sacerdotal e o aperfeiçoamento da vida religiosa, pouco me marcaram aqueles dois anos passados em São João Del Rey. Confesso que, naquele período, dei muito mais de mim aos Salesianos do que deles recebi.

Apesar de pouco me terem marcado aqueles dois anos no Colégio São João, nunca esqueci um episódio ocorrido na comemoração da Inconfidência Mineira em 1951. Não sei se aquele ano era especial para o Colégio o destacar (seriam 160 anos da morte de Tiradentes?). Encarregaram-me de fazer o panegírico do herói da Inconfiência Mineira.

Terminada a solenidade, fui procurado pelo Padre Irineu Leopoldino. Conhecia-o, desde desde meu tempo de aspirante em Lavrinhas. Não só o conhecia. Admirava-o. Era tido como uma das mais brilhantes inteligências entre os salesianos. Já como clérigo, além de ser o secretário do Padre Inspetor, fizera o Curso e o Doutoramento em História na PUC de São Paulo. Estava lecionando História para os três

 

 

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anos de Filosofia.

Ele me abordou e em tom indignado criticou meu discurso: — Parece que o senhor não conhece a História. Como teve coragem de elogiar um traidor como esse tal de Tiradentes? Traiu a coroa portuguesa, quando éramos ainda colônia de Portugal. Não sabia que o Padre Irineu era ferrenho monarquista, talvez fora influenciado por algum professor de renome, sobretudo na fase do doutoramento. Como, até então, o tinha como sumamente inteligente e culto, nada pude contestar. O silêncio realmente foi minha melhor resposta[27].        

Estava tão entusiasmado pelas aulas de Literatura aos clérigos que, diante da carência de textos no colégio, me senti na obrigação de escrever uma apostila grossa sobre nossos autores desde o Classicismo até o Modernismo, tendo usado como fonte as publicações da Academia Brasileira de Letras.

Mais tarde, depois que abandonei a Congregação Salesiana e voltei para Belo Horizonte, essa apostila me foi útil, ao dar aula no Curso Champagnat, preparatório para o Vestibular das Faculdades de Direito e de Filosofia.

Tal apostila significava o abandono do livro adotado (um manual escrito por um padre do Caraça). Não sei se esta minha ousadia foi motivo de escândalo para os clérigos, meus alunos e, sobretudo, para os padres do colégio.

 

Mais priosioneiro que participante

 

Ao término do segundo ano de tirocínio no Colégio São João, estava tão angustiado com aquela vida que me sentia mais prisioneiro do que participante de uma comunidade religiosa. Foi quando brotou em mim o desejo de respirar outros ares, ao menos, no meu entender, mais oxigenados. De certo modo queria viver outro clima, outros horizontes, ter outros referenciais, antes de proferir os votos perpétuos de castidade, pobreza e obediência.

No fundo já alimentava dentro de mim dúvidas e apreensões. Pedi então ao Padre Inspetor para terminar o tirocínio em educandário leigo. Fui mandado para o Colégio Dom Helvécio de Ponte Nova. 

Neste leito, onde escorre nossa realidade de vivências e expectativas, brota, ainda que en passant, uma reflexão de quem viveu intensamente aquela vida.

A experiência chamada pelos salesianos de tirocínio, em que o clérigo recém-formado em Filosofia começa a participar ativamente do processo educacional nos colégios, seja em continuidade nos seminários (como no meu caso, durante dois anos), seja nos chamados internatos e externatos, é uma arma de dois gumes para as pretensões de continuar na carreira sacerdotal. O gume da experiência de vida a consolidar a formação recebida, a cortar menos, e o gume da consequência da liberdade obtida, a partir daquele momento, quase sempre a cortar fundo na carne.

 

Desafios do mundo e

um mundo de desafios

 

Continuando no seminário, o jovem clérigo, se de um lado perde em experiência de vida, de outro fica blindado para continuar aspirando à vida sacerdotal. Blindado em parte, pois mais frequentemente é iludido. Já os destinados aos educandários "leigos", sofrem forte choque de natureza cultural, sociológica e psicológica.

Cultural, porque se sente, de repente, diante de um mundo completamente novo em perspectivas de vida e de valores.  É como se estivesse saído de uma redoma e viesse a cair em plena praça pública, num  salve-se  quem  puder.  A

 

 

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esfinge lá está para o desafio: decifra-me ou devoro-te. Tudo que aprendeste, os valores que cultivaste, as virtudes que adquiriste agora estão à prova. Pensaste que eras santo ou predestinado. Agora cais na real e tens de testar a verdade de tudo que te ensinaram e a validade de tudo que adquiriste.

No íntimo de cada um dos futuros assistentes, sem dúvida surge viva a pergunta: Servirá para alguma coisa tudo que aprendi? O fato de ter ficado anos e anos separado do mundo lá fora só pode provocar expectativa angustiante em quem está para retornar a ele e enfrentá-lo com novas armas.

O choque é também sociológico, disse acima. Depois de no mínimo oito anos enclausurado, o clérigo recém-saído da Filosofia depara com o que as ciências sociais denominam de integração grupal.

Quebrando a casca do ovo, o despreparado é lançado para um mundo inteiramente novo e tem de se integrar em diferente grupo social, quer queira ou não, quer tenha consciência ou não.

Ele logo de início enfrenta jovens pertencentes quase todos à classe social acima da sua, ou seja, da original de sua família. No meu tempo, geralmente os aspirantes eram arrebanhados de famílias do campo – colonos italianos, alemães, poloneses de Santa Catarina e Rio Grande do Sul – ou de famílias da classe média baixa, como no meu caso, em se tratando dos demais estados.

Além disso, ao fazerem os votos, todos se igualam num estamento religioso em que a profissão da pobreza liquida as diferenças de classe social, nivelando a todos por baixo.

Com o  voto  de  castidade  todos  professam  o  mesmo

 

 

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estado civil do celibato estabelecendo mais um elo de igualdade entre eles e, de certo modo, de equilíbrio comunitário.

Pelo voto de obediência, anulam-se as aspirações naturais do ser humano pelo poder. De público professam que a partir do voto proferido serão todos servis aos superiores e reconhecem que estes são escolhidos por Deus para imporem, através da sua vontade, a divina, mas identificando esta com aquela por conta própria.

Gravado está até hoje em minha memória o lema repetido constantemente em nossa formação religiosa: não vim para ser servido, mas para servir.

 Ao jurar que obedeceriam a seus superiores em tudo, os religiosos passam a ser nivelados como os habitantes de um cemitério. Daí o lema dos jesuítas, encampado pelos salesianos: obedecer tamquam cadaver (como cadáver); o religioso há de viver como cadáver, sem amor próprio. Renega seu querer e coloca em seu lugar o dos superiores, pois este é, em última instância (embora a maioria dos superiores julgasse fosse em primeira), o desígnio de Deus. Tal cadaverismo nos era inculcado noite e dia.

Aludi ainda ao choque psicológico. Fácil de entender o drama existencial que o clérigo logo de início vive. Sua estrutura mental — intelectual e afetiva — é fortemente abalada. No mínimo pelo fato de ter de superar as tentações advindas do uso da liberdade que até então não tivera.

Se antes ele fazia as coisas de maneira quase automática (assistir à missa, comungar, fazer meditação, rezar o terço diariamente, confessar uma vez por semana, fazer frequentemente vias sacras, rezar constantemente jaculatórias, estudar, dormir, levantar,  comer…  quase  tudo

 

 

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coletivamente, nos mesmos horários, tudo dentro da "sagrada disciplina" tão proclamada!), agora pouco disso irá fazer de maneira igual à de antes, e o pouco, quase sempre individualmente. À sua maneira, por dever e convicção e não seguindo o rebanho.

O contato com o mundo exterior, trazido para dentro do colégio pelos alunos internos e constantemente participado com os externos, torna-se desafio que poucos conseguem superar.

Apenas um detalhe: antes não tinha contato com o sexo oposto, agora amiudadas vezes vê mulheres nas visitas dominicais aos alunos internos. A capela do colégio é sempre frequentada por grande número delas, jovens, maduras ou idosas, nos domingos e nos dias santos. Nas festas do colégio, nos torneios esportivos, tal presença é marcante.

Acrescentaria a esses tipos de choque, um aparentemente paradoxal. O pedagógico. A Congregação Salesiana tem como traço caracterizador a conjugação da catequese com a educação, com predominância desta sobre aquela. Desde cedo é repetido no ouvido do seminarista: os salesianos são eminentemente educadores. Dom Bosco foi sempre o protótipo do educador.

Realmente éramos formados tendo como referencial a vida nos colégios e não nas paróquias, para as quais deviam se endereçar os padres seculares.

Entretanto, por incrível que pareça, durante os três anos de filosofia, não havia nenhuma preparação específica para o exercício do magistério. Provavelmente nossos superiores partiam da premissa de que o conhecimento do sistema    preventivo   (que    também    não    era    ensinado

 

 

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formalmente) supriria tal necessidade. Certamente confiavam na intuição de cada um e na capacidade de imitar os próprios professores.

O fato é que para os menos dotados intelectualmente o desafio era verdadeira “via crucis”. Por isso alguns, por sentirem a limitação para enfrentar uma sala de aula, se encarregavam, ao mínimo, do metier, dedicando a maior parte do tempo à catequese.

Por não serem ainda padres, o exercício da catequese se endereçava para os oratórios festivos, existentes em todos os colégios, destinados aos “meninos de rua”, aos domingos, de oito às dezoito horas. Obviamente passavam a semana preparando as aulas de catecismo, os entretenimentos para a garotada.

Não sei se por índole, desde menino notava em mim a tendência para dar aula. Inclusive, de certa feita, surpreendi minha irmã em casa, ao confessar-lhe: — seria muito mais fácil ensinar essa matéria, fazendo assim… assim… assim, em vez de ensinar daquele jeito dela (a professora). Tinha entre oito e nove anos.

Talvez meus professores na Filosofia tenham percebido esta característica de minha personalidade, pois, já no segundo semestre do primeiro ano, então com 16 anos, fui convocado para dar aula no curso de admissão e para um grupo de irmãos coadjutores.

Esse o motivo por que não tive dificuldade em cumprir a missão pedagógica nos colégios e de me ter saído bem ao lecionar para os clérigos filósofos e para os aspirantes do Colégio São João e no último ano do tirocínio, para os alunos internos e externos do Dom Helvécio.

Aliás, cabe confessar: ao fazer o  curso  de  Filosofia,  de

 

 

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Teologia, de Pedagogia, de Direito e não ter sido padre, nem advogado, foi porque descobri em tempo que minha vocação era mesmo ser professor. E foi no magistério que me realizei.

 

Apesar de tudo,

uma decisão correta

 

Já encaixado no Colégio Dom Helvécio de Ponte Nova, percebi que fizera opção correta.

Necessitava realmente de novo ambiente, sinônimo de vida nova. Se era para enfrentar o desafio, pouco importava se ele veio a mim ou se fui eu quem foi a seu encontro.

O ano de 1952, passado no Dom Helvécio, foi riquíssimo sob o ponto de vista de quem estava diante da grande decisão a ser tomada no dia 31 de janeiro de 1953: proferir os votos perpétuos de castidade, pobreza e obediência, ao mesmo tempo jurar o cumprimento das Santas Regras da Congregação Salesiana para sempre.

Seria hipócrita e até mentiroso se dissesse que a experiência daquele último ano de tirocínio fortaleceu minhas convicções e robusteceu minha vocação. Tentações inúmeras, como jamais sentira antes, tive que superar.

Era um colégio onde funcionava conjugado o internato e o externato. Nas salas de aula, os alunos de dentro e os de fora se misturavam.

Deram-me a responsabilidade de ser o Assistente da divisão dos médios e ao, mesmo tempo, dar aula de Inglês para a terceira série ginasial (iniciantes na língua de Shakespeare), Português para as quatro séries e Geometria, para o terceiro colegial.

 

 

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De minha nova experiência como professor, dois episódios merecem ser relatados. E os dois se referem ao exame oral que existia naquele tempo, como parte dos exames finais.

Perante o currículo do MEC, Geometria não poderia constituir matéria separada da Matemática. O professor de Matemática, Padre Adolfo, fez a divisão, só para efeito interno, o que acredito beneficiou muito os alunos. As notas mensais eram unificadas pela média das duas matérias. Os exames escritos do final do primeiro semestre e os finais (escritos e orais) deveriam também ser unificados.

Quando aconteceu o exame oral de fim de curso, além de nós dois, completou a banca examinadora meu colega de turma, o Geraldo Servo, então professor de Física.

Havia um aluno alto, moreno e que não se destacava nos estudos, mas nos esportes, por ser exímio jogador de basquete. Tinha apelido de CC — seu nome era Celso Cruz.

Ele sorteou o ponto de Geometria. Não me lembro se era a demonstração do teorema sobre o volume da pirâmide ou duma outra figura geométrica.

Foi para o quadro negro e lá ficou uns dez minutos parado e calado. A banca examinadora logo pensou que ele não conseguiria demonstrar o teorema.

De repente rabiscou o desenho da tal figura geométrica e colocou a fórmula a ser demonstrada. Partiu de uma premissa inteiramente diferente da apresentada no livro adotado. Prosseguiu com tal segurança e quando terminou escrevendo o CQD, nos deixou, os três examinadores, boquiabertos.

Não me contive e o elogiei: — CC, nesse momento, você acaba   de   apagar   sua    fama    de    aluno    relapso,    pois

 

 

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demonstrou ser uma inteligência bem acima da normal. Você foi simplesmente brilhante. Não desperdice esse seu dom.

E diante dos demais alunos, o abracei comovido.

No ano seguinte, fiquei sabendo que ele fez concurso para o ITA de São José dos Campos e tirou um dos primeiros lugares em todo o Brasil.

O segundo episódio quase não narraria neste espaço. Tal o constrangimento que me provocou.

Fui convidado por meu colega, Geraldo Servo, para fazer parte da banca examinadora de Física. Havia três anos que não tocava num livro daquela disciplina. Geraldo tinha adotado o mesmo livro em que estudáramos em Lorena, escrito por marista, da coleção FTD.

Tinha apenas três dias para rever a matéria. E só podia contar com o horário noturno para estudar. À véspera do exame, mal tinha visto um quinto do manual.

Naquela época era comum, para “matar o sono”, tomar um comprimido chamado Perventin. Nunca o tinha experimentado. Mas na falta de alternativa, tomei um ou dois comprimidos. Das oito horas da noite até às seis da manhã do dia seguinte, passei lendo o livro todo e o compreendendo com tal clarividência que a mim mesmo surpreendeu.

O exame começava às 8 horas. Após ter arguido cinco ou seis alunos, apaguei de repente e fiquei debruçado em cima da mesa. Vexame total.

 

Uma aventura nada edificante

 

Envolvi-me   muito   com   o   esporte.   Por   certo  foi  a

 

 

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encontrada válvula de escape para desviar minha atenção de problemas que estaria já enfrentando e que, mais tarde, iriam aflorar com toda a força das tempestades de verão. Jogava todos os dias futebol com os alunos. Como havia seis clérigos exercendo o tirocínio organizamos um time de vôlei batizado de Asa Negra, por causa da batina preta que todos usávamos. Fizemos várias partidas, sobretudo contra alunos da divisão dos maiores.

Nas férias de julho fomos na carroceria de caminhão até Rio Casca jogar uma partida contra outro time formado por alunos e ex-alunos do Dom Helvécio. Chegamos à tarde. Quando começou a partida caiu um temporal tão forte e tão demorado que tivemos de interromper o jogo para nos alojarmos nas casas de nossos adversários, na verdade gentilíssimos anfitriões.

Já eram mais ou menos seis horas da tarde, quando meu colega, o clérigo Lélio, me propôs uma aventura: voltar a pé para Ponte Nova. Topei na hora. Saímos os dois, tentando adivinhar o caminho mais curto.

A noite caiu e, envolvidos pela escuridão, acabamos perdendo a direção da estrada que, apesar de ser de terra, seria o trajeto mais indicado. A chuva não parava. Caminhamos através de trilhas encontradas em fundos de fazenda.

Frequentemente deparávamos com enormes cães boiadeiros do outro lado da cerca latindo e nos amedrontando. Nunca imaginei que algum dia participaria de maratona daquele tipo debaixo de forte aguaceiro. De vez em quando, víamos uma luzinha ao longe e caminhávamos em sua direção. De fundo de fazenda a fundo de fazenda,  vimos  o  sol  surgir  no  horizonte  do  dia

 

 

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seguinte e chegamos ao colégio às sete horas da manhã.

Creio que andamos mais de cinquenta quilômetros todos sob ininterrupto aguaceiro. Quando entramos no colégio, completamente molhados e exaustos só queríamos uma cama para escornar. Além da indescritível fadiga, sabia que não estava com um dos sapatos, pois ele ficara perdido num dos atoleiros enfrentados. Tivemos que procurar nosso enfermeiro, o irmão coadjutor Leonel, que acabara de sair do café da manhã, para nos dar algum preventivo que nos evitasse o resfriado e possível pneumonia.

 

O pior dos desafios:

a hipocrisia

 

Apesar desse clima esportivo entre nós clérigos assistentes, tive de enfrentar alguns dissabores. Um deles foi quando naquele mesmo período de férias do meio de ano, nós os Assistentes Lélio, Geraldo e eu inventamos de ir, à noite, ao circo armado na cidade. De fato era o máximo da ousadia.

Para espanto nosso, ou melhor, para nosso conforto, ao entrarmos no circo, vimos que estava lá sentado na primeira fileira de cadeiras o padre conselheiro do Colégio (não vou dizer o nome, porque não sei se ainda está vivo).

No dia seguinte, ele veio me dar lição de moral. Tivemos árdua discussão. Sabia que ele não tinha fundamento para me repreender. Mas, no fim das contas, era meu superior e dele sem dúvida dependeria parte de possível relatório de nosso comportamento ao padre inspetor, antes de sermos aceitos para professar os votos perpétuos.

 

 

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Fiquei abalado com aquele tipo de discussão, sobretudo porque aquele sacerdote não era nada exemplar. Já o tinha visto em determinado domingo, de manhã depois da missa das 9,00 horas, como adolescente apaixonado, rodeando uma moça, irmã de um de nossos alunos e que residia em Massangana, vilarejo perto de Ponte Nova e conhecido pela excelente cachaça que produzia. 

Do constrangimento de tê-lo enfrentado, salvou-me meu confessor, Padre Roque, sacerdote genial (muito lido, dominava vários idiomas e era o professor de Química do Colégio). Ao desabafar-me com ele, não só me compreendeu como abriu meus olhos para a minha própria condição de estar vivendo um momento experimental para minha vida.

Já na Teologia soube que o tal padre conselheiro fora para os Estados Unidos e lá estava residindo. O objetivo era aprender inglês. Parece que lá deixou a Congregação e se tornou padre secular. Alguns anos depois de minha saída dos Salesianos, soube por um colega e amigo, ex-salesiano como eu, que o referido já não era mais padre e fora visto aqui em Belo Horizonte, numa situação deplorável. Estava com violão debaixo do braço e tocava em bares para conseguir alguns trocados e com eles pagar as doses de cachaça que o alcoolismo lhe exigia. Diante de tamanha decadência, por certo não deve ter sobrevivido.

Só me resta admitir: são tortuosas as estradas por onde caminha nossa humanidade!

Como se vê, o final do tirocínio em Ponte Nova me valeu como forte experiência. Além desse triste episódio, aconteceu de ficar sabendo que, apesar de nossas Santas Regras proibirem a sesta depois do almoço e o  fumo,  nosso

 

 

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padre prefeito fazia as duas coisas.

Passei, durante as férias de fim de ano, algumas semanas no Colégio Dom Bosco de Cachoeira. Lá conheci também um padre salesiano que era pedófilo. Era o que corria à boca pequena entre nós. Sei que era descendente de conhecida família de Oliveira e São João Del Rey.

Quanto desafio para aquele clérigo que se julgava vacinado contra as tentações e os perigos do mundo, ao sentir ventos estranhos invadirem a cidadela de pureza e santidade erguida por Dom Bosco.

 

Mais dúvidas que esperança

 

Meio capenga, mas com forte vontade de tudo superar, me apresentei ao retiro espiritual que precedia à profissão dos votos perpétuos.

Procurei o Padre Vasconcelos e lhe abri a alma. Tinha mais dúvidas que esperança. Não sei se ele penetrou fundo no meu drama. Apenas senti que não ficou surpreso. Não me perguntem o motivo. Mal lhe fiz a confissão geral de todos meus atos daqueles últimos três anos e lhe confiei meu medo de prosseguir na carreira, sem ter a devida confiança, ele me levantou o moral e pausadamente me alertou: — O que me confessou não é motivo grave para desanimar. Ainda tem quatro anos pela frente. Apesar dos votos perpétuos, haverá muito tempo para repensar em seu futuro[28].

Sinceramente esperava que ele me dissesse que estava diante de alguém que não merecia continuar e que naquele mesmo dia pedisse o desligamento da Congregação. Por outro lado (como são contraditórios nossos sentimentos e todas as nossas introjeções em momento de crise e no limiar de uma tomada de decisão!), senti certo alívio e pensei: Não estarei vendo chifre em cabeça de cavalo? Não custa nada continuar. Por que temer o futuro se ainda não me perdi nas trevas do presente?

Perturbado pela dúvida e motivado por nova esperança de consertar algo de errado, me apresentei para professar os votos perpétuos.

No dia 31 de janeiro de 1953 jurei conservar a castidade, viver a pobreza e praticar a obediência e observar as Santas Regras da Congregação Salesiana até a morte.

Estava, pois, com o passaporte para entrar no Instituto Teológico Pio XI no alto da Lapa em São Paulo, onde teria pela frente quatro anos para estudar Dogmática, Escrituras Sagradas, Direito Canônico, Moral, Pastoral, História da Igreja, Liturgia, Mística e mais uma ou outra disciplina que constituíam o currículo de um curso de Teologia da época.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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8

 

 

 

No voo que desfere,

silente e melancólico,

rumo da eternidade,

ele apenas responde

(se acaso é responder

a mistérios, somar-lhes

um mistério mais alto).

 

(Carlos Drummond de Andrade, Perguntas)

 

 

 

 

Como conciliar razão e fé?

 

Cursar a Teologia constituía grande novidade. Estava penetrando num mundo banhado de religiosidade amadurecida chamado Instituto Teológico Pio XI, no Alto da Lapa em São Paulo.

Tão diferente das casas salesianas até então conhecidas. Surgia diante de mim a última fase na carreira. Estava sumamente curioso e tomado de grande expectativa.

 

 

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Em meu íntimo surgiam indagações: Será realmente diferente o pensar teológico do pensar filosófico? Se sim, em que ponto um difere do outro? Sobretudo quando o referencial é a Filosofia Escolástica — a proclamada filosofia perene, tão cultivada pelos padres salesianos? Será que o mesmo mestre da Teologia, o filósofo São Tomás de Aquino, denominado Doutor Angélico, que pontificava metafisicamente em todos os assuntos filosóficos, continuará falando do céu da mesma forma que fala das coisas terrenas? Continuará aplicando o hilemorfismo, a lógica e a ontologia aristotélicos à Teologia cristã? E meus professores continuarão tão escolásticos quanto na Filosofia, interpretando o Mestre da “Summa contra gentiles” e da “Summa Theologica” ao pé da letra, sem nenhum esforço de adaptá-lo a nosso tempo?

Curiosidade. Expectativa. Sobretudo a sensação do viajante que vislumbra o fim da caminhada. Afinal, dos 15 anos começados em fins de 1941 para atingir a meta final, ou seja, a ordenação sacerdotal, só faltavam cerca de 26,5% de todo esse tempo.

Como diz a sabedoria popular, quem suportou o muito ludibria o mínimo. Um pouco mais de esforço, de paciência e de superação, por certo atingiria o alvo.

Com disposição entrei no santuário da Teologia — a instituição máxima da Congregação Salesiana.

 

O terceiro grande sacerdote

no meu caminho

 

O primeiro ano foi cursado com entusiasmo, por um grande motivo particular. Vim a conhecer um sacerdote  que

 

 

— 242 —

acabou coroando toda a minha trajetória intelectual até aquele momento e seria o providencial farol enviado pelo destino a iluminar meu futuro: Padre Astério Tavares Campos.

Simpatia recíproca à primeira vista. Seria nosso professor de Direito Canônico e foi por mim escolhido como confessor e diretor espiritual.

O futuro diria que foi a mais acertada e a mais feliz escolha. Senti desde o primeiro contato que estava diante de mim outro Camilo Faresin, mas com um detalhe diferenciador: era brasileiro, por isso com maior identificação com nossa cultura e nosso jeito de ser. Inteligência brilhante e aberta para os grandes problemas filosóficos, religiosos e sociais.

Ele tinha acabado de chegar de Roma, onde na Gregoriana se doutorara. Foi enviado para o Instituto Pio XI pela Inspetoria do Norte-Nordeste como contribuição daquela instituição à formação dos futuros sacerdotes.

Fui convidado por ele, juntamente com outros três colegas, a participar de motivador projeto: organizar a Biblioteca do Instituto.

Em quantidade e qualidade ela era excelente. Mas simplesmente um amontoado de livros, distribuídos pelas enormes estantes sem nenhum critério racional.

Possuía preciosidades tanto no campo da Teologia, como no da Filosofia e no da Cultura em geral. Basta dizer que ali estavam a coleção completa da Patrística, obras raríssimas dos grandes pensadores católicos, no original, desde os mais antigos Padres Apostólicos, como Clemente, Inácio de Antioquia, Aristides de Atenas, Justino, Origines de Alexandria, Eusébio   de  Cesareia,  Cirilo,  Boécio,  Ambrósio,

 

 

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Anselmo, Agostinho e muitos outros. Além dos chamados Doutores da Igreja como Boaventura, Alberto Magno, Tomás de Aquino até os teólogos contemporâneos de renome como Garrigou Lagrange, Ricciotti, Cardeal Mercier, Charles Boyer (óbvio, homônimo do astro do cinema!), Hans Küng, Romano Guardini (únicos nomes que me ocorrem…).

Por intermédio do Padre Astério, descobri o sistema universal decimal de Melvin Dewey,a CDU. Invenção capaz de indexar qualquer produção intelectual, independentemente do idioma ou meio de comunicação e armazenagem utilizados. Os assuntos são divididos em 10 classes e essas em outras subclasses, tal qual o sistema numérico decimal. São utilizados numerais e sinais de pontuação para classificar toda a produção intelectual do mundo, qualquer que seja a forma em que é produzida. Com o tempo sofreu uma série de aprimoramentos que a tornaram mais complexa e efetiva.

Aplicar a CDU na organização da biblioteca não era tarefa fácil. Para nos ajudar foi convidado um rapaz especialista no assunto: Abner Lellis Correa Vicentini, bibliotecário do ITA de São José dos Campos e com doutorado em Biblioteconomia.

Muitos anos depois fiquei sabendo que Padre Astério continuou especializando-se em biblioteconomia e se tornou autoridade reconhecida pela UNESCO. Publicou vários trabalhos, inclusive um juntamente com Abner: Lições programadas de classificação decimal universal (1974).

Revendo a evolução da CDU no Brasil, constato a existência de várias fases, cujo início é 1901, quando o engenheiro Vitor da Silva Freire publicou texto para mostrar as vantagens do Sistema de Classificação de Bruxelas.  Nessa

 

 

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esteira me surpreendo com esta informação:

 

1968 — início da tradução para o português da recém-lançada edição alemã, a DK-Handausgabe, pelo Padre e Prof. Astério Tavares Campos, membro nato da Comissão Brasileira da CDU e grande incentivador e divulgador da CDU no Brasil. Sem apoio, sem deixar a docência, por ser grande defensor da CDU o Padre Astério, consegue divulgar as tabelas traduzidas, que são impressas de forma mimeografada pela Biblioteca Central na UnB — Universidade Federal de Brasília.

()

 

Apesar de leigo, Abner acabou convivendo tão intimamente conosco que parecia um de nossos colegas a cursar teologia no Pio XI. Desde quando fomos apresentados se firmou entre nós forte vínculo de amizade. Nossa equipe chefiada pelo Padre Astério e orientada pelo Abner trabalhava no mínimo 25 horas por semana (maior tempo aos sábados e domingos).

A elaboração da ficha catalográfica exigia muito detalhamento de forma, o que por sua vez demandava meticuloso trabalho de datilografia, além de muita consulta nos manuais do CDU. Tinha de conter todos os dados referentes ao assunto, ao autor, à editora, etc pois se desdobraria no mínimo em três outras fichas, cujo conjunto iria constituir outros três fichários: o de de título, o de assunto e o de autor.

O entusiasmo com o trabalho fez-me pedir à minha família uma máquina de escrever portátil e ela foi muito útil para a confecção das fichas catalográficas.

 

 

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Conseguimos, em dois anos e meio,organizar cerca de 90% da  biblioteca. Sem dúvida um feito extraordinário.

Estava tão entusiasmado com aquele tipo de trabalho que um dia indaguei ao Dr. Abner: — Por que vocês bibliotecários formados não sugerem ao governo baixar uma lei obrigando toda editora a colocar na página de rosto de cada livro publicado a ficha catalográfica? Isso ajudaria a tantos bibliotecários leigos em organização a melhorar as bibliotecas em todo o território brasileiro. Abner olhou para mim com admiração e respondeu: — Nunca tinha pensado nisso e você me deu uma grande ideia.

Acredito que foi a partir daí que nasceu esta iniciativa. Basta comparar os livros de antes de 1953 aos de depois daquele ano.[29]

 

Minha realização futura

 ali começou

 

Como extensão de nosso trabalho de organização da biblioteca, o padre Astério nos ofereceu um curso avulso de Metodologia do Trabalho Científico, estendido a todos os alunos interessados do Pio XI.

Sob sua orientação, meu colega Geraldo Servo e eu escrevemos a preciosa apostila Metodologia do Trabalho Científico. Para ilustrar a eficácia do método proposto, ambos fizemos uma monografia sobre um tema teológico seguindo passo a passo as fases indicadas na apostila. Os dois trabalhos foram expostos à guisa de painel, no corredor principal, mostrando todas as etapas de sua feitura, desde a escolha do tema, a formulação do problema, a confecção das fichas bibliográficas e de documentação (apresentadas em sequência), o plano de trabalho, as redações provisórias até a apresentação definitiva da monografia.

O texto sobre a metodologia do trabalho científico serviu de ponto de partida para publicar, dez anos depois de ter saído da Congregação, o Como fazer uma monografia. Fato curioso e digno de registro: quando o livro foi publicado pelo  Instituto  de  Psicologia  da  Universidade  Católica  de Minas Gerais, com tiragem de 3.000 exemplares, apesar de sua forma artesanal, em pouco tempo esgotou. Tal sua aceitação. Justo por ser novidade no Brasil.

Entre as centenas de pedidos, encontrei uma carta do Padre Astério Campos. Ao lê-la, apesar do teor quase comercial, senti imensa saudade. Vi que naquele pedido, como a me incentivar, nas entrelinhas, havia sinal de aprovação e de certa cumplicidade.

Nessa época, li dois importantes textos sobre o assunto: FONCK, L. Il metodo del lavoro scientifico (1909) e CHAVIGNY, P. Organización del trabajo intelectual (1936). Digno de registro, para humilhação intelectual dos padres salesianos daqueles tempos, frise-se: organização de biblioteca, metodologia científica e do trabalho intelectual já eram objeto de livros publicados desde o início do século. Estávamos em 1953 e os padres salesianos ignoravam essa riqueza. Naqueles anos, tirante o Pe. Astério, não abriria exceção nesta generalização. Não me é dado fazer concessões, porque dominava o medo da intelectualidade. Oh tempora oh mores, repetiria Virgílio, se vivo estivesse entre nós.[30]

Ia muito bem no curso e sobrava tempo para me dedicar às leituras de minha preferência pessoal. Servata servanda, ressuscitava o clima vivido durante a Filosofia.

Fato importante para minha vida aconteceu. Fui convidado pelo Padre Inspetor, Alcides Lanna, a fazer a Faculdade de Filosofia recém-fundada pelo Padre Leôncio em Lorena e dirigida pelos Salesianos.

 

Homenagem a um

cientista da educação

 

O fluxo da memória merece pausa para se prestar sincera homenagem ao fundador daquela Faculdade que poucos anos depois se tornaria Centro Universitário: Padre Carlos Leôncio da Silva (1887-1969).

Sem dúvida, personagem extraordinário, a sobrepairar sobre a grande maioria, por sua aguda inteligência e visão do mundo.  Em atendimento a chamado superior, foi para a Itália em 1939, a fim de organizar em Turim o Instituto de Pedagogia do Pontifício Ateneu Salesiano que estava sendo criado, transformando-o na primeira Faculdade Eclesiástica de Pedagogia, oficialmente reconhecida pela Igreja e a única na Itália. Na Universidade Católica de Friburgo doutorou-se em Pedagogia, estudando o Sistema Preventivo. Sustentou então que a Pedagogia é uma ciência autônoma, embora dependente da Filosofia, bem como das ciências positivo-descritivas; uma ciência da educação.

Deixou-nos excelente trabalho em que analisa com profundidade o sistema preventivo de Dom Bosco:Fundamentos de uma educação integral, coroado com outros três trabalhos, formando uma trilogia: A Educação  —

 

 

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O Educador — O Educando.Manteve muitos contatos, ficando conhecido também fora da Itália. Em 1952 retornou ao Brasil. Estava com 65 anos, quando desembarcou em Lorena, para criação do Instituto de Filosofia e Pedagogia que foi transformado na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras e, mais tarde, no atual UNISAL — o Centro Universitário Salesiano. Durante sua gestão ampliaram-se as instalações da Faculdade.

Não tive grande convivência com ele, apenas alguns contatos. Mas sabia tratar-se de homem fora do comum, de vasta cultura.

Sei que até o governo brasileiro o reconheceu como um dos maiores especialistas em educação e o designou como representante de nosso país junto à UNESCO. Dentro de minha visão daquela época posso afirmar sem receio: — não fosse ele, juntamente com alguns outros sacerdotes, provavelmente a Congregação Salesiana, no Brasil, estaria fechada em seu próprio e acanhado círculo de mediocridade.

 

Cursar Teologia e  Pedagogia

 

Desde o dia em que o Pe. Alcides me indicara para fazer a Faculdade de Filosofia, sabia que tinha de conciliar os dois cursos.  Era mais do que tarefa pesada. Um desafio.

Optei pelo curso de Pedagogia, uma vez que não existia o de minha preferência, o de Psicologia. Na época aquele curso era o mais afim, a ponto de dominar no currículo o estudo da Psicologia Evolutiva, Psicologia da Personalidade, Psicologia Educacional, com ênfase na Psicologia da Aprendizagem.   Com   o   diploma    de    Pedagogia   poderia

 

 

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lecionar também Matemática para o curso ginasial.

Uma pausa, com vistas ao melhor entendimento da afirmação acima: por lei já não era mais permitido ser professor, sem ser licenciado pela Faculdade de Filosofia e estava esgotando, naquele ano, o prazo para obter o registro de professor através do chamado "exame de suficiência". No ano anterior fizera tal exame para poder lecionar Português e Literatura. Naturalmente interessava também à Congregação Salesiana, em se tratando de habilitar seus próprios salesianos ao magistério, não ter que recorrer a professores leigos ou de fora dos educandários.

Nas férias finais de 1953, Geraldo Servo, João Mattos e eu — os escolhidos para realizar o Curso de Pedagogia — fomos para o Colégio Santa Rosa em Niterói, a fim de nos prepararmos para o Vestibular.

 

Estranha ajuda

 

Certa tarde de domingo estávamos jogando futebol com outros clérigos e irmãos coadjutores que lá estavam juntamente com alguns alunos que ficaram em segunda época, tanto do internato como do externato.

No meio do segundo tempo, veio o porteiro do colégio e disse que estava na portaria um senhor que só falava italiano e queria conversar com um padre ou clérigo salesiano. Era caso de urgência. Fui juntamente com meu colega Geraldo Servo.

Ao perguntarmos de que se tratatava, aquele senhor disse que era italiano e viajava de navio. Este tinha atracado no porto de Niterói, e sua filha estava passando muito mal, mas,  como  eram  italianos,  estavam  com  dificuldade  para

 

 

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conversar com o médico. Gostaria que houvesse um intérprete.

Fomos os dois para o porto, onde estava o navio. Ficamos sabendo que a filha daquele senhor tentara, por conta própria, um aborto durante a viagem e se dera mal, mas não sabia explicar para o médico.

O choque que levamos foi enorme. Jamais poderíamos imaginar termos de exercer a caridade cristã numa situação daquela natureza, ainda mais nós, discípulos de Dom Bosco, que éramos juramentados de castidade e proibidos até  de olhar para o rosto de uma mulher e, conscientes da proibição do aborto pela moral católica.

Geraldo e eu devemos ter pensado a mesma coisa. Não era possível salvar a vida da ex-futura criança, mas urgia a da abortante. Resignados, sem poder agir doutra forma, repassamos em português para o médico a grave situação daquela moça.

 

Até o núncio xinga o papa

 

Outro fato constrangedor ocorrido comigo, também naquela época, se deu, quando fui recomendado para ser o secretário, por uma semana,  do Núncio Apóstolico, Don Carlo Chiarlo, em Petrópolis.

Ele queria um secretário que, além de falar italiano, soubesse jogar xadrês. Mal e mal sabia mexer as pedras. Confessei meu primarismo no jogo, mas por falta de outro, me mandou sentar do outro lado do tabuleiro e jogamos a primeira partida.

Como me saí razoavelmente, passei a ser seu adversário  cotidiano,  logo  depois  do  café  da  manhã.  Por

 

 

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certo sentia necessidade de alguém para conversar com ele e, para isso, eu me prestava.

O aludido constrangimento surgiu no dia em que ao abrir a correspondência diplomática, ficou uma fera por não receber a notícia por ele tanto esperada: a escolha para ser cardeal, por Pio XII. O que o núncio xingou o papa (obviamente em italiano), naquela manhã, nem em livro anticlerical teria lido.

 

Como conheci Tenório Cavalcanti

 

 Certa tarde estava na livraria do colégio Santa Rosa, ajudando o irmão leigo encarregado de atender os interessados em livros e objetos religiosos e, ao mesmo tempo, servir de intermediário com a tipografia do colégio para a feitura de convites, santinhos, recordações de todos os tipos, desde os de casamento aos funerários.

Eis que me aparece uma senhora muito elegante, toda vestida de preto. Talvez para disfarçar o sofrimento estampado em seu rosto usava óculos escuros. Percebi que, apesar de relativamente nova, era viúva.

Vinha pedir a confecção de um “santinho fúnebre” para recordação da morte de seu marido. Por ter estranhado o pedido, ela, como precisando de desabafo, me confidenciou: — O senhor pode estar julgando insólito meu pedido, por ser uma mulher relativamente nova e estar de luto. Sou realmente viúva. E a morte de meu marido me sangra a alma até hoje. Sabe como morreu? Foi morto por motivo político e fútil. O autor do atentado foi o deputado federal Tenório Cavalcanti.

Tinha ouvido falar no homem da capa preta e que trazia

 

 

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a tiracolo uma metralhadora, por ele denominada de “lourdinha”. Aquela revelação me deixou estarrecido.

 

Volo de volo vis,vult

— não de volare

 

Foi neste período, no Santa Rosa, que conheci um padre, protótipo do resultado da obsessão pela pureza. Relativamente idoso. Tal qual nosso colega de Lorena que trocou mulier por hum hum, ele também, naquela idade, nos impressionava e, ao mesmo tempo, nos comovia. Era um caso sumamente delicado de doença psíquica, em que dominava o excesso de escrúpulo, como forma de obsessão.

Basta este episódio. Fui designado para ajudar sua missa dominical. Devia começar às nove horas e era para o público leigo. O Santuário Nossa Senhora Auxiliadora estava lotado. Na sacristia, ao se preparar para a missa, ajoelhado no genuflexório, ao lado da cômoda, enquanto era aguardado para se paramentar, rezava a oração preparatória que todo sacerdote fazia, antes de entrar para o altar. Naquele momento o ouvi rezando: — Volo celebrare missam (quero celebrar a missa). Sim volo, de  volo, vis, vult, (= quero, queres, quer)não de volo, volas, volat  de volare (voo, voas, voa de voar). E agitava a cabeça, para negar o dito e refazer a oração, e repetir o volo, vis, vult umas dez vezes.  Sua missa demorava cerca de duas horas. No momento crucial da missa, o da transubstanciação, repetia umas quinze vezes a fórmula fatal, sacundindo a cabeça em forma de negação do dito anterior: hoc est corpus meum (…). Hic est enim sanguis meus novi testamenti, qui pro multis effundetur in  remissionem  peccatorum  (Mateus,  26:

 

 

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26-28). Quem ajudasse aquela missa uma vez, jamais queria saber de voltar. Difícil encontrar quem o substituísse, a suportar tanta demora e tanto escrúpulo.

Sofreria de TOC (transtorno obsessivo-compulsivo)? Ou tipo especial de desvio de comportamento causado por um misto de fobias, perfeccionismo, distúrbio de personalidade? Não saberia classificar, mas que o caso era patológico, isso era!

 

Um curso de fim de semana

 

Voltando ao Curso de Pedagogia: os três fizemos o Vestibular e passamos folgadamente. Começamos a frequentar o curso, no ano seguinte, nos fins de semana, tendo aulas intensivas nas noites de sexta-feira, todo o dia de sábado e grande parte de domingo.

Completávamos a carga didática com aulas durante todo o mês de julho, uma quinzena em dezembro e todo o mês de janeiro e o de fevereiro.

Foi um período cansativo, pois Lorena fica a 180 quilômetros de São Paulo e fazíamos a viagem de trem. A Dutra acabara de ser construída e não proporcionava viagem de ônibus com segurança e conforto.

Havia no ar muita desconfiança quanto à garantia da rodovia depois da trágica morte de Francisco Alves perto de Pindamonhangaba, acontecida um ano antes(28 de setembro de 1952). Além disso, viajar de trem ficaria muito mais em conta.

O hábito de estudo, adquirido em Lorena, sobretudo depois da descoberta de Descartes e Sertillanges, juntamente  com  a  disciplina  intelectual  e  organização  de

 

 

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trabalho obtidos no curso de metodologia realizado com o Padre Astério me facilitaram muito a tarefa de poder frequentar, simultaneamente, dois cursos puxados: o de Teologia, prioritário, e o de Pedagogia.  

                              

 Priorizando a Teologia

 

Terminei o primeiro ano animado, tendo obtido a nota máxima em todas as disciplinas. Entre as matérias da Teologia, a mais importante era a Dogmática.

No primeiro ano, a Dogmática era uma introdução ao tema:Deus e a Religião, desdobrado em: religião natural — religião histórica — revelação judaico-cristã — os sinais divinos da revelação — a transmissão da Revelação e os sinais sobrenaturais da Igreja — a Fé como resposta do homem à Ação e à Palavra reveladora de Deus — a natureza divina e ao mesmo tempo humana de Cristo.

Quando entrássemos no estudo da Dogmática propriamente dita teríamos que pensar sob duas ordens: a revelação e o pensamento racional, cabendo a cada um de nós encontrar a não-contradição entre as duas instâncias.

Seríamos, portanto, treinados a argumentar de forma lógica, mas tendo o texto sagrado como a principal fonte. Para todo assunto pertinente à Religião deveríamos saber, sobretudo, interpretar o texto das Escrituras a ele correspondente.

Além da principal fonte, a revelação, haveria para corroborá-lo a tradição cristã dos primeiros séculos, a contribuição dos padres apóstólicos até a Idade Média e, somente em terceira instância, se recorreria ao argumento de    autoridade   sustentado   pela   doutrina    dos    grandes

 

 

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teólogos.

Como proposta deveria ser, mas na realidade não era. A terceira instância acabava sendo a única e se identificava com a Summa Theologica de São Tomás de Aquino, e éramos conduzidos a nos atermos cegamente a seus silogismos metafísicos.

Aliás, os professores tinham que obedecer ao que estava determinado no cânon 1366, § 2 do  Código de Direito Canônico: Os professores tratem os estudos da Filosofia racional e da Teologia, bem como a formação dos alunos nessas disciplinas, de acordo com o método e a doutrina e os princípios do Doutor Angélico e os observem religiosamente.

                                                 

                   O mistério da fé

 

Ah! Conciliar razão e fé constitui o maior desafio para quem se introduz nos estudos teológicos. Tenho a convicção de que a teologia sem enraizar-se na fé torna-se um belo tratado pseudofilosófico ou mesmo mitológico.

Já estávamos no segundo semestre do curso, quando um colega, em conversa durante o recreio da tarde, virou-se para mim de repente e desabafou: — Você já imaginou se ficar comprovado que Deus não existe? Quanto tempo perdido em nossas vidas até hoje?

Levei grande susto. Jamais tinha passado em minha cabeça semelhante questionamento. E dizer que ele tinha razão. Afinal, o ter fé é um mistério (apesar do Padre Leonel Franca ter escrito o Psicologia da fé). Sem que nossos superiores ou professores nos ensinassem, já intuía naquela época que a fé verdadeira não  é  ato  da  inteligência  ou  da

 

 

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vontade produzido de forma automática. Há de ser acompanhado de dúvida, senão não é legítima. Pode parecer uma boutade, mas, no meu entender, a fé de São Tomé, surgida depois de sua célebre dúvida, era muito mais autêntica do que a dos demais apóstolos. A prova racional (filosófica ou cientifca) da existência de Deus não existe. É simplesmente o resultado do processo denominado crença, fé.

 

 Como conciliar o teólogo

com o educador

 

O primeiro ano de Teologia era separado dos demais. A partir do segundo ano, por questão de economia e da carência de professores, os programas das disciplinas eram os mesmos para os alunos do segundo ao quarto ano. Passávamos a assistir às aulas no mesmo salão que comportava os cerca de setenta alunos do Pio XI.

Sob ângulo distinto do econômico, isso era bastante salutar, pois eram derrubadas diante de nós as barreiras que desde o aspirantado separavam os alunos mais antigos dos mais novos. A convivência só podia trazer benefícios.

Aproveitando a formação metodológica recebida na convivência com o Pe. Astério, comecei a organizar meu arquivo. Consegui que um colega gaúcho com pendores para marceneiro me fizesse um fichário de madeira que tenho até hoje. Confecionei em cartolina as fichas centrais adaptando as dez divisões do sistema decimal CDU aos temas de meu interesse e ia confeccionando as fichas-de-chamada laterais conforme os assuntos desde os mais gerais aos  mais  específicos.  Logo  de   início   consegui   cortar   na

 

 

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guilhotina de nossa acanhada gráfica umas quinhentas fichas para as anotações de leituras, resumos e citações, e que constituíam as fichas-de-conteúdo.

A produção de fichas, obviamente derivada das leituras e das aulas, foi intensa. Para completar o prazer intelectual, descobri que havia duas grandes editoras de fichas sobre os mais diversos assuntos: a Mes fiches francesa e a Enciclopédia Decimal publicada por um grupo de intelectuais paulistas, sob a direção do Prof. Antônio Arlindo Veiga dos Santos e do Dr. Waldemar Baroni Santos.

Geralmente tais fichas consistiam em resenhas de livros, levantamento de fontes sobre determinado assunto, sínteses de livros e artigos Com ajuda de casa, fiz a assinatura da segunda e adquiri significativo número de fichas da primeira numa livraria francesa de São Paulo. Creio que esta iniciativa editorial de publicar fichas já não existe mais. Mesmo levando em conta estarmos na era da informática, de minha parte só tenho a lamentar.

Estudo, leitura, anotações, reflexões lançados no papel, tudo fazia em função do futuro exercício do sacerdócio e da missão pedagógica nos colégios salesianos. Estou a cavaleiro para declarar que seu principal fruto foi a experiência consolidada. Em parte pude comunicá-la em Como fazer uma monografia, sobretudo no capítulo IV: A prática da documentação pessoal. Sei, por testemunho obtido e, obviamente, completado por inferência, ter sido útil a milhares de pessoas.

Estava imbuído da certeza de que o apostolado sacerdotal se resumia em cinco pilares: a defesa dos dogmas, a interpretação da Bíblia, o exercício da Pastoral e da Catequese, o culto da Liturgia e a Moral Católica.

 

 

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Preocupação esta que pensava completar com a realização de grande sonho: aproveitar o Curso de Pedagogia para encontrar base científica do Sistema Preventivo de Dom Bosco, estruturando-o teoricamente, de forma a colocá-lo no mesmo nível de notáveis teorias pedagógicas como a de Pestalozzi, Herbart, Froebel, Dalton, Dewey e alguns outros.

Afinal meu futuro era ser padre e educador.

 

A vingança do Padre Eterno

 

No segundo semestre do segundo ano de Teologia, os superiores, já cientes de que tinha boa bagagem de leituras e interesse pela literatura revelado desde o tempo da Filosofia, me encarregaram de acompanhar o escritor Silveira Bueno até Lorena, onde faria conferência na Faculdade de Filosofia.

Conhecia-o de nome, pois sabia que além de ser catedrático na USP era cronista, poeta, jornalista, lexicógrafo, filólogo, ensaísta e tradutor.

Ademais, a origem de sua formação humanística tinha sido o seminário, onde estudara filosofia, teologia, direito canônico, exegese bíblica e línguas.

Sua especialização era a linguística e a filologia. Para mim, portanto, era grande honra, principalmente porque, pela primeira vez na vida, entrava em contato com um escritor famoso.

Fomos de carro. Durante a viagem notei que nosso convidado era uma figura muito simpática e que gostava de contar episódios hilariantes acontecidos com nossos escritores.

 

 

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Para não dar a entender que era só um ouvinte e inteiramente leigo em assuntos literários, mantive o nível da conversação e houve um momento em que aludi a Dom Aquino Correa, por ser salesiano e pelo fato de ter lido todos seus livros. Sabia que era da Academia Brasileira de Letras. Inclusive, aludi ao caso de o crítico literário Agripino Grieco (o do não li e não gostei!) ter escrito certa vez que Dom Aquino representava o zero  dos 40 imortais, ao que Dom Aquino teria retrucado:  Que seria dos 40 se não fosse o zero?!

Ele aproveitou a dica e me contou episódio ocorrido com Agripino Grieco e do qual fora testemunha. Estava ele com o notável crítico literário em Portugal, numa das recepções aos escritores e intelectuais de ambos os países proporcionadas pela Embaixada Brasileira. Apresentação daqui, apresentação dali, eis que anunciam a presença da filha de Guerra Junqueira, o importante escritor português, autor de A velhice do Padre Eterno (1885). Ao vê-la tão feia, com tanta ruga a desfigurar-lhe o rosto, Agripino Grieco não se conteve e veemente disse para os convidados em seu redor: — Eis a vingança do Padre Eterno!

 

Tutti i mali sono assegnati a la guerra!…

 

Fato também à margem dos estudos teológicos merece ser contado.

No final do primeiro ano de teologia, estava em São Paulo, acredito a convite da Universidade Católica, o famoso historiador de Filosofia, Michele Federico Sciacca, tomista e professor na Universidade de  Pavia.

Veio ao Pio  XI  para  uma  palestra.  Ao  término,  nosso

 

 

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diretor, acompanhado por um cortejo de clérigos, o conduziu a conhecer nossa biblioteca. Nessa época digna de ser mostrada, uma vez que estava adiantado o trabalho de organização, iniciado por nossa equipe, chefiada pelo Padre Astério, juntamente com o Dr. Abner Vicentini.

Na saída, tirou de dentro do paletó uma cigarreira e, antes de acender seu cigarro, ofereceu ao Padre Stringari um daqueles sigaretti italiani. O padre diretor recusou, dizendo: — Noi salesiani siamo proibiti di fumare per le Sante Regoli. Ao que Sciacca retrucou: — Non tutti no? — Si, perchè no?Parlo, perchè io so che mio gran amico Don Varvello fuma, e come! O salesiano Padre Francesco Varvello era o autor do tratado de Filosofia nos tempos de Lorena.

O constrangimento do diretor foi enorme. Tentou justificar que a guerra tinha trazido muitos dissabores e infortúnios à Itália! O arremate de Sciacca foi interessante : — Ah! la guerra, la guerra! Oggi tutti i mali di nostro mondo sono assegnati a la guerra!

Como já conhecera o caso do padre Prefeito do Colégio Dom Helvécio, de Ponte Nova, não me escandalizei. Já conhecia a ambivalência de comportamento de muitos padres salesianos.

 

                Uma forte vinculação:

as ordens e os sacramentos

               

Durante os três primeiros anos, íamos recebendo, paulatinamente, as chamadas ordens menores, até chegar ao término do terceiro ano, quando receberíamos o subdiaconato e, já no primeiro semestre do quarto, o diaconato. O  final  do   curso  era  coroado  com  a  sagração

 

 

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sacerdotal. Estas três, juntamente com a sagração episcopal, constituíam as chamadas ordens maiores.

A primeira ordem menor — o ostiário — nos conferiu a tonsura. Aquela rodelinha na cabeça para nos distinguir do homem secular, como se não bastasse a batina! [31](Nada tem de hóstia, apesar de ter a forma circular, pois vem de ostium = porta. Na liturgia antiga o clérigo ostiário tinha o poder e o dever de abrir a porta do templo).

Ao falar em ordens, cumpre relacioná-las com os sacramentos. Afinal o objetivo do estudo da Teologia era atingir a formação e a sagração do ministro de Deus, justo aquele que recebe o poder de ministrar os sacramentos.

A Igreja Católica celebra sete sacramentos, que são: Batismo, Confirmação (ou Crisma), Eucaristia, Reconciliação (ou Penitência), Unção dos enfermos, Ordem (ou Sagração Sacerdotal) e Matrimônio.

Acredito que o poder espiritual da Igreja Católica se exercita, sobretudo, na administração dos sacramentos. Segundo se aprendia, desde o catecismo, o sacramento é um ato ritual que confere a quem o recebe a graça de Deus.

Óbvio que, se o recebimento da graça está condicionada ao do sacramento, e este é administrado pelo sacerdote, é de se concluir que através do sacramento se estabelece mais uma instância do poder do sacerdote (seja padre, bispo, cardeal, papa) sobre os fieis.

Segundo a doutrina que se aprendia, desde o tempo do aspirantado, mas que era sofisticada pela teologia estudada no Pio XI,  os sacramentos são sinais sensíveis e eficazes da graça, instituídos por Jesus Cristo e foram confiados à Igreja. Aprendíamos a interpretar a Escritura para confirmar este legado.

Curiosamente (ou sabiamente), pela Teologia se ficava sabendo que Cristo age e comunica a graça, independentemente da santidade pessoal do ministro, e que os frutos dos sacramentos dependem das disposições de quem os recebe.

Vê-se aqui a sabedoria do ensinamento eclesiástico (os inimigos da Igreja certamente colocariam em vez de “sabedoria”, “esperteza”). A doutrina da Igreja constitui um todo que se amarra de tal forma que seu início, meio e fim, enquanto discurso, não deixa falha em sua estruturação.

Como disse Isócrates de Oliveira, em o Dramade um padre (importante livro de que me ocuparei  no capítulo seguinte), toda a doutrina é vinculada por uma coerência tão estreita que nos leva a pensar em um sistema astronômico. Mas como ele muito bem apontou, todo este edifício repousa sobre a crença inabalável na infalibilidade da Escritura, na infalibilidade da Tradição, na infalibilidade do Papa, na infalibilidade do concílio, na infalibilidade da Igreja docente e discente, na infalibilidade dos teólogos unânimes.

Se faltar o ato de fé, todo esse edifício se esboroa.

 

O narizinho do padre Conselheiro

 

No  final  do  segundo  ano  um  fato   me   despertou   a

 

 

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atenção e me deixou em estado de alerta em relação ao curso de Teologia.

Era época dos exames finais, com prova escrita em todas as disciplinas e mais a oral em algumas. Com alguns dias de antecedência, o professor passava a lista dos pontos, para que nos preparássemos para as provas.

Surgiu a tão aguardada lista dos pontos de Escritura Sagrada, matéria complicada, talvez pela falta de organização ao estruturá-la. Para dela tirarmos proveito, precisávamos do hebraico aprendido no primeiro ano, do grego, do latim, de noções de geografia do Oriente Médio, de história sagrada e, sobretudo, de hermenêutica. Na impossibilidade de se estudar toda a Bíblia durante o curso, eram escolhidos alguns livros sagrados do Antigo e do Novo Testamento e destes eram extraídas determinadas passagens.

Cumpre frisar que ignorávamos o critério da escolha. Devia ser ditado pelas idiossincrasias do professor. Este era o nosso Conselheiro, o mesmo Padre Joaquim Salvador, de quem já falei, quando dele recebi a incumbência de declamar um poema de Plínio Salgado.

Era baixinho, com a pele do rosto bexiguenta, gengivas expostas, dentes irregulares e quase sem nariz, tão esburrachado e enterrado entre os olhos.

No estudo das Escrituras, foram-nos apontadas as duas formas de interpretar as Sagradas Escrituras — a literária e a literal. Segundo nosso professor, por determinação do Vaticano, tínhamos de aceitar a leitura literal. Desde então fiquei arredio a esse tipo de imposição. Sei que um dia lhe objetei: — Padre Salvador, não sei se é doutrina da Igreja ou se é sua  opinião  particular,  mas  não  me  entra  na  cabeça

 

 

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interprestar a Bíblia ao pé da letra. Frequentemente a escritura fala em Deus como se fosse imagem e semelhança do ser humano, ora dizendo que ele fala, sopra, que tem nariz, que tem mão… Ora se Deus é infinito como pode ter um corpo humano infinito? Ininteligível. Só aceito a Bíblia, se esta for interpretada literariamente. Vou até dar um exemplo concreto: como admitir que houve a visão e a fala de Deus a Moisés, segundo está em todo o livro doÊxodo, quando o próprio Cristo diz no Evangelho de São João, cap. 1, vers. 18: “Deus nemo vidit umquam: unigenitus Filius, qui est in sinu Patris, ipse enarravit (Deus nunca foi visto por alguém. O filho unigênito, que está no seio do Pai, este o fez conhecer).Veja: Cristo declara explicitamente que ninguém viu Deus. Ora, Moisés diz claramente que viu Deus na sarça ardente e recebeu as tábuas da lei. Sinceramente tudo isso me confunde. Repito: somente acredito na verdade das escrituras, se nós a interpretarmos literariamente como um belo discurso metafórico e não literalmente. Do contrário, teremos muita dificuldades em defender as inúmeras contradições de seus textos. Ele simplesmente me respondeu, silabando a palavra fatídica: — Pela Igreja já foi definido que devemos ler e interpretar  a Bíblia li-te-ral-men-te. Ponto final.

As aulas de escritura eram desse naipe: aceitar a palavra do professor como se fosse emanada da própria Escritura! E esta, da infalibilidade da Igreja.

Para a prova final, havia duas vias da lista dos pontos, uma exposta no quadro de avisos e a outra começou a correr de mão em mão no estudo para cada um copiar. A matéria nela contida era muito maior do que a ensinada nas aulas.

 

 

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Começou um crescente zum-zum no salão a ponto de se tornar rumor e este de repente virou rebuliço. Algo anômalo estava acontecendo com a lista que rodava.

De fato, quando ela chegou às minhas mãos, li o seguinte comentário escrito ao pé da página por um colega pertencente ao terceiro ano: entra tudo isso mais o narizinho do padre Conselheiro — com assinatura em baixo. A mesma frase foi repetida na lista que estava pregada no quadro de avisos.

Poucos dias depois aquele colega receberia o subdiaconato. Seu nome, porém, não apareceu entre os escolhidos. Ficara no gancho, como dizíamos quando um colega era barrado de receber qualquer ordem, sejam as oito menores ou as três maiores (subdiaconato, diaconato, sacerdócio).

Uma semana depois, ele se desligava da Congregação Salesiana. Conhecia-o desde Lorena e sabia ser muito inteligente, um dos primeiros de sua turma, com grande domínio da Língua Portuguesa, da Literatura e, sobretudo, muito lido. Obviamente o episódio foi a gota d´água de um longo e latente processo corrosivo, para tomar a decisão de interromper abruptamente a carreira sacerdotal, justamente no último ano.

Anos mais tarde, me encontrei com ele aqui em Belo Horizonte, onde reside, e, como remate de nossa conversa, me declarou: — Sabe por que saímos da Congregação Salesiana, você e eu?Aquela gente não suporta intelectuais. Ali só ficam os medíocres. Dei-lhe toda a razão.

A partir da desavença com o professor de Escritura, notei que se iniciava, em nosso meio, um clima desagregador: desconfiança, tristeza,  dúvidas  angustiantes.

 

 

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Em menos de seis meses vários colegas pediram dispensa dos votos. Fato atípico na história do Pio XI. Tal clima me atingiu em cheio. Mas, à guisa de mecanismo de defesa, comecei a desviar minha atenção para o Curso de Pedagogia. Até que chegou também para mim o dia fatal.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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9

 

 

 

De tudo quanto foi meu passo caprichoso

na vida, restará, pois o resto se esfuma,

uma pedraque havia em meio do caminho.

 

 (Carlos Drummond de Andrade,Legado).

 

 

 

 

Não há como não repetir

 

Oepisódio escolhido para encerrar esta narrativa de meu tempo regular de seminarista foi escrito para compor as cinco quase memórias de O cavalo de São Roque.  Julgo importante reproduzi-lo, pois como ficou registrado até em seu título — Da ilusão à decepção —, significou para mim o grande salto existencial do trampolim da ilusão para o abismo da decepção. E no patamar da decepção deparar-me com a realidade crua e nua em que vivemos.

Como alertei na introdução do texto anteriormente publicado,  para  justificar  a  importância  do   acontecido   e

 

 

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situar seu  significado  na  reviravolta  que  teve  minha  vida, merece antes a narração de pequena história[32].

Estava em sessão de defesa de tese de livre-docência. Escolhi como tema a problematização como a instância motora que leva o pesquisador a iniciar o processo da pesquisa em ciências humanas e sociais.

O móvel e motivo da escolha estavam intimamente relacionados à minha opção intelectual e existencial pelo método dialético.

Quem já defendeu tese de livre-docência sabe que o ritual é bem diferente da atual defesa de doutorado, embora haja equivalência entre as duas. Sobretudo, na época em que a livre-docência era equiparada à defesa da tese para catedrático.

Como dizia velho amigo, o falecido Professor Luiz de Carvalho Bicalho, que um ano antes passara pela mesma experiência: — a defesa da livre-docência nos obriga a fazer verdadeiro strip-tease intelectual.

Um dos examinadores, a quem muito admirava e que era titular no meu Departamento de Sociologia e Antropologia na Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFMG, ao ler a tese deve ter estranhado a veemência com que criticava a Lógica Formal, genial criação de Aristóteles, mas que, por outro lado, por ser o principal pilar da Escolástica, atrasou o aparecimento da Ciência Moderna.

Além disso, manifestava profunda estranheza diante do movimento positivista-lógico, tão em voga entre os defensores do método quantitativo, justo por terem dado uma guinada metodológica, com retorno ao dedutivismo, já ultrapassado e tão condenado pelos pensadores responsáveis pelo aparecimento do Mundo Moderno e o faziam exatamente para se oporem ao marxismo, ao materialismo histórico, notadamente ao método dialético.

Baseava-me em Descartes para declarar ser forte meu ceticismo em relação à Lógica que tem sido desenvolvida como "padrão para a ciência", desde a Idade Média, apesar da revolução copernicana.

Obras publicadas e consultadas, apesar de excelentes propósitos e extraordinárias contribuições à metodologia da pesquisa, mostram-nos que ainda não se desgarraram inteiramente da lógica formal tradicional, da qual, parece, procuram se libertar desde o início do seu programa.

Em meu ponto de vista, a lógica subjacente aos que adotam o método científico positivista para as ciências humanas e sociais torna-se uma lógica tão ontológica quanto a aristotélica.

Digno de nota é que a maioria dos problemas não tem sentido para a chamada lógica dialética.

Para a lógica formal, a pesquisa passa a ser simplesmente um discurso de demonstração: há de se partir de premissas aceitas como evidentes ou como verdades já demonstradas para extrair por esse processo uma conclusão que, a rigor,  já  está  contida  no  próprio  ponto  de  partida.

 

 

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Trata-se, pois, de um lógica tautológica.

A aplicação da lógica formal como método ou condição necessária para o método científico não nos permite a legítima indução, a autêntica inferência. Não nos permite a descoberta científica, sonho de todo pesquisador.

Aqui é que entra minha convicção firmada. Tudo isso foi devido a um propósito social, histórico, institucionalizado: o helênico, aristotélico. Afinal, foi Aristóteles que registrou a patente de transformar o conhecimento em racional (enunciativo no início, e, em seguida, demonstrativo). Poderia ele se ocupar do contexto da descoberta, se foi ele o autor do atentado? Obviamente que não, sobretudo ele — a personificação da coerência.

Por isso é que em seu discurso metodológico não há lugar para o legítimo contexto da descoberta. Só há a preocupação com o contexto da justificação, ou seja, com a demonstração. Do discurso de procura, onde se instala o contexto da descoberta, também denominado heurístico — que deveria caracterizar o pensamento ocidental — fez um discurso de achado. Discurso de demonstração de verdades já verdadeiras.

O processo do conhecimento estava invertido. Não é mera força de expressão que o movimento, que tem em Copérnico, Galileu, Descartes legítimos representantes, tem sido denominado revolução: "virar o mundo de cabeça para baixo e pernas para o ar". O que equivale a dizer restituir o mundo, o pensamento, o processo investigatório à sua devida posição. Neste último, recolocar e reavivar o contexto da descoberta. E neste, rever o significado, a eficácia, e novas formas legítimas de problematização.

Como   não   há   a   possibilidade   de   matar   a    razão

 

 

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responsável pela inversão (pois a revolução é operação — é logos — é trabalho de razão), então resta a esperança, a possibilidade de encontrar, na própria razão, outras formas racionais (ou "irracionais" em relação à razão demonstrativa) tão autênticas quanto a razão demonstrativa como a criatividade, a invenção, a descoberta, a exploração dos dados e dos fatos e, particularmente, a agudização dos conflitos de que é feita a realidade, visando à sua superação.

 

É possível ser tomista

 depois de abraçar a dialética?

 

Em síntese, minha atitude era defender a lógica e o método dialético frente ao formalismo do racionalismo e do positivismo lógico.

Talvez impressionado com minha ousadia em criticar Aristóteles e, em decorrência, o tomismo, pois foi através de São Tomás de Aquino que toda a obra de Aristóteles acabou sendo conhecida no Ocidente, o referido examinador me arguiu: — Estaria o senhor se declarando antitomista?

Obviamente respondi que não me atrevia a tanto. Afinal minha tese não era propriamente de Filosofia. Cingia-se ao contexto da Metodologia Científica e da Metodologia da Pesquisa em Ciências Humanas e Sociais. Mas que tinha de confessar-lhe ter sido seminarista, tinha formação filosófica e chegara até o terceiro ano de Teologia e foi justamente por discordar de certas colocações do velho Tomás de Aquino que me senti na obrigação moral de jogar a batina às urtigas e secularizar-me.

Contei publicamente o episódio que ora se torna objeto deste depoimento.

 

 

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No intervalo da arguição, o Padre Orlando Vilela, grande filósofo e por muito tempo em crise com a Igreja, me procurou e valendo-se da grande amizade que nos unia, me confidenciou:

Estou perplexo diante do que nos contou. Um dos maiores atentados à inteligência que já vi. Seria interessante que contasse isso em livro.

Apesar do atraso, julgo que ainda é válido atender a sugestão do pranteado Padre Vilela. Por isso o faço como ressarcimento de uma dívida de amizade.

Não fosse tal relacionamento, me bastaria a leitura de seus livros Iniciação Filosófica, O burro e sua sombra, Drama de Heloisa e Abelardo, Duelo de um anjo e de um cão para selar a amizade e dar testemunho da admiração que sempre lhe devotei. Mais livros escreveria, se seu fichário de anotações, feitas ao longo da vida, não tivesse sido roubado e sumido para nunca mais ser encontrado.

 

                                                            O mistério da Santíssima Trindade

 

Ao final do terceiro ano de Teologia, tínhamos concluído o terceiro tratado da principal disciplina do curso: a Teologia Dogmática.

O texto era em latim e ainda me lembro do nome: De relationibus divinis (Das relações divinas, ou seja, entre o Pai, o Filho e o Espirito Santo).

Sem sombra de dúvida, o tratado mais difícil da Teologia, por se tratar de um dos mais obscuros mistérios a superar a inteligibilidade e a compreensão humanas — a Santíssima  Trindade.   Toda   e   qualquer    teoria,    toda    e

 

 

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qualquer argumentação a respeito não dependeriam do assentimento racional diante do fulgor veritatis (o brilho da verdade), justo porque tal brilho não surge, ou melhor, não é atingido diante de qualquer prova dedutiva, muito menos indutiva, por ser esta impossível.

Tudo simplesmente depende da aceitação por ato de fé. Para mim está aqui a questão crucial: toda a Teologia como tal, se a quisermos eximida da Filosofia, se resume nestas três palavras: ato de fé.

O que acabo de escrever me remete à passagem de um livro que muito me marcou quando entrei em crise antes de abandonar o seminário: o Drama de um padre, de Isócrates de Oliveira. Dele, aliás, já falei em texto anterior. Eis o que ele diz sobre essa questão:

 

O estudo da Teologia Dogmática é belíssimo, empolgante. Introduz-nos em um mundo impensado de especulações altíssimas, por onde entramos em contato com os Mistérios da fé, a vida íntima de Deus, a história da humanidade decaída e regenerada pela Redenção, a essência dos anjos, os gozos infinitos do Céu e os castigos eternos do Inferno. Toda a doutrina é vinculada por uma coerência tão estreita que nos leva a pensar em um sistema astronômico. Só existe uma dificuldade inicial — o ato de fé. Todo esse edifício divino repousa sobre a crença inabalável na infalibilidade da Escritura, na infalibilidade da Tradição, na infalibilidade do Papa, na infalibilidade do Concílio, na infalibilidade da Igreja docente e discente, na infalibilidade dos teólogos unânimes. Destruído esse ato de fé, toda a síntese teológica se esvazia de seu conteúdo de verdade e de vida e passa a ser uma linda mitologia, um deslumbrante desfile de fábulas. (Drama de um padre, 2 ed., 1965, p. 78).

 

 

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Admiração por Santo Agostinho

 

Era sabido (suponho que ainda o seja) que a Igreja anuncia e ensina o mistério da Santíssima Trindade com base nas Escrituras Sagradas, mas desencoraja toda e qualquer pesquisa no sentido de querer decifrá-lo.

Faz lembrar Santo Agostinho, meu autor preferido entre os Santos Padres e Teólogos da Igreja. Depois de exaustivamente tentar entender o enigma da Santíssima Trindade, após anos de reflexão chegou à conclusão de que, devido à nossa mente extremamente limitada, nunca poderíamos compreender e assimilar plenamente a dimensão infinita de Deus somente com as nossas próprias forças e o nosso raciocínio.

Para o Águia de Hipona, "a compreensão plena e definitiva deste grande enigma só é possível quando, na vida eterna, nos encontrarmos face a face  com o Pai, o Filho e o Espirito Santo".

Nem precisaria ir tão longe, nem tão a fundo, bastaria lembrar o vate lusitano:É Deus: mas o que é Deus, ninguém o entende, / Que a tanto o engenho humano não se estende. (Camões, Lus.: 10, LXXX, 639- 640).

Ainda que enigma e mistério, no estudo da Santíssima Trindade, os teólogos teorizavam a respeito dele, tentando resolver o problema: — como um só Deus pode ser ao mesmo tempo trino, sem que as três pessoas sejam três deuses?

Obviamente hoje vejo esta problemática como algo que soa falso não só filosófica, mas até teologicamente. Digna dos metafísicos desligados da realidade do mundo. Faz-me relembrar a irreverência de Voltaireao afirmar que antes  de

 

 

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Deus criar o mundo lá estava um teólogo tomista a aconselhá-lo como fazer.

Até hoje me pergunto: — Por que querer desafiar a fé com malabarismos intelectuais? Mas, naquele tempo, não poderia sequer levantar tão pertinente indagação

Estava convicto do que estudara e fizera meus os argumentos lidos. Nosso professor era um padre pernambucano, se não me engano de nome Antônio Bartolomeu. O único padre negro que conheci entre os salesianos. Certamente porque não era da preconceituosa e "fascista" Inspetoria do Centro-Sul do Brasil, mas da Norte-Nordeste.

Apesar de os tratados distribuídos para o estudo da Dogmática serem em latim, ele nos dava aula em português e até imprimia, em mimeógrafo, apostilas para completar a doutrina estampada naqueles manuais. Atitude por nós vista como de grande valia, pois já naqueles tempos sentíamos a necessidade de pensar a Filosofia e a Teologia na língua em que transmitiríamos ao povo a doutrina e os ensinamentos cristãos.

Durante os exames orais, haveria a possibilidade de o aluno ser interrogado em latim e responder tanto em português como em latim. Tal qual ocorrera na Filosofia.

Para o exame do De Relationibus divinis a banca foi constituída por três examinadores: nosso professor Padre Bartolomeu, o diretor Padre José Stringari e o Padre Antônio Charbel, especialista em Bíblia, que acabara de chegar do Oriente, onde fora realizar pesquisas arqueológicas juntamente com outros pesquisadores internacionais nas escavações junto ao Mar Morto.

De acordo com a turma e  pela  ordem  alfabética,  cada

 

 

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um de nós se apresentava para o exame oral. Até que chegou minha vez. Fui com muita confiança, pois sabia que dominava inteiramente a matéria. Inteiramente em termos, pois o assunto, conforme a citação de Santo Agostinho, era delicadíssimo, não nos permitindo ir além da ousadia de atingir o limite onde termina a razão e começa a fé.

O primeiro problema a enfrentar era o da liberdade de arguição. Óbvio que cada examinador, num exame oral, tem suas preferências e indaga sobre aquela matéria em que se sente mais à vontade.

 

Como defender

 um só Deus em três pessoas

 

Mandaram-me sortear o ponto. Não me lembro especificamente do tema. Apenas que me proporcionava assentar como introdução a doutrina trinitária que professa a existência de um só Deus, onipotente, onisciente e onipresente, mas revelado em três pessoas distintas, com fundamentos na Bíblia.

Por exemplo, no batismo de Jesus, as três pessoas da Trindade se fazem presentes. Há a descida do Espírito Santo sobre Jesus sob a forma de uma pomba e a voz do Pai: Baptizatus autem Iesus confestim ascendit de aqua, et ecce aperti sunt ei caeli, et vidit spiritum Dei descendentem sicut comlumbam et venientem super se. Et ecce vox de caelis dicens: Hic est Filius meus dilectus, in quo mihi complacui.(E sendo Jesus batizado, saiu logo da água  e eis que se lhe abriram os céus e viu o Espírito de Deus descendo como pomba e vindo sobre ele. E eis que uma voz do céu dizia: Este é meu filho amado, em quem me comprazo (Mateus,  3:  16,

 

 

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17). O que é confirmado por Lucas quase com as mesmas palavras, apenas que em lugar de pomba usa a expressão em forma corpórea (corporali specie) para igualmente arrematar: Tu es Filius meus dilectus, in te complacui mihi (Tu és o meu Filho amado, em ti me comprazo) (Lucas, 3: 22). O já citado Evangelho de São Mateus, após narrar a volta de Jesus depois da ressurreição, praticamente termina seu texto com a solene missão dada por Cristo a seus apóstolos. Em seu penúltimo versículo do último capítulo encontramos: Euntes ergo docete omnes gentes baptizantes eos in nomine Patris et Filii et Spiritus Sancti (Ide portanto e ensinai a todas as nações batizando-as em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo) (Mateus, 28: 19).

Em seguida dissertei sobre o papel de Jesus como Deus-Filho. Já em tratado teológico anterior tínhamos estudado a fundo a questão da natureza de Cristo: ser Deus e Homem ao mesmo tempo.

Cabia naquele contexto expor a onisciência, a onipotência e a onipresença  de Jesus como o Filho de Deus (curioso: sempre estranhei que se fala o Filho de Deus e não o Filho de Deus Pai!). Recorri a passagens da Escritura em que essas propriedades lhe são atribuídas e coroei o discurso com a citação de João, 17: 21: Pater, in me, et ego in te, unum sumus (Pai, tu em mim e eu em ti somos um só).

A dificuldade no momento era conseguir a mesma argumentação a respeito do Espírito Santo. Sabia que nos primeiros séculos do cristianismo a questão foi demasiadamente debatida, provocando o aparecimento de heresia que contestava a personalidade independente do Espírito Santo, vendo-o apenas "metaforicamente" como atributo do Deus único.

 

 

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Realmente era muito difícil conciliar a doutrina católica com a tradição judaica da personalidade do Deus único e unitário do Antigo Testamento, YHWH  — JAVÉ, tradição escorada em várias passagens das Escrituras, notadamente a do Deuteronônimos 6:4: Ouve, Israel, o Senhor nosso Deus é o único Senhor, o que implica para os judeus a impossibilidade da existência da Santíssima Trindade.

A polêmica só terminou com a proclamação do dogma, portanto artigo de fé, sem permissão de discussão, pelo Concílio de Niceia em 325 defendendo o pensamento teológico cristão trinitário.

Tentando comunicar a defesa das propriedades divinas nas três Pessoas, fiz referência ao papel do Deus Criador e neste à relevância da Presença do Espírito Santo, já revelado no início do Gênesis: No princípio criou Deus os céus e a terra. E a terra era sem forma e vazia: havia trevas sobre a face do abismo e o Espírito de Deus se movia sobre a face das águas (Genesis, 11: 1-2).

Quanto ao papel do Filho, é difícil para a razão humana superar a aporia: ser eterno enquanto Deus e ser temporal enquanto Jesus, ao mesmo tempo homem e Deus.

Homem e Deus unificados numa só pessoa, a pessoa de Jesus. Nossa razão não é capaz de entender: Jesus ser uma só pessoa carnal e ao mesmo tempo ser a segunda pessoa da Trindade e, ao cabo, ser uma só pessoa.

Não se depreende no Antigo Testamento nenhuma referência explícita ao Filho de Deus, mesmo quando se fala sobre o Messias, a não ser a frase de Isaias ao designar Emanuel o filho da Virgem.

Esta passagem só se confirma como referente a Jesus porque   se   lê   em   Mateus:   Hoc   autem   factum   est,   ut

 

 

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adimpleretur quod dictum est a Domino per prophetam dicentem: Ecce virgo in utero habebit et pariet filium, et vocabunt nomen eius Emmanuel, quod est interpretatum Nobiscum Deus.(Tudo isso aconteceu para que se cumprisse o que foi dito da parte do Senhor, pelo profeta que diz: Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho e chamá-lo-ão pelo nome de Emanuel, que traduzido é Deus conosco) (Mateus, 1: 22-23).

Não há, porém, passagem do antigo Testamento que explicitamente coloca o Filho de Deus copartícipe, por exemplo, da criação, como a do Espírito de Deus ao coparticipar da criação do mundo.

Entretanto todo o Evangelho em si é viva demonstração da onipotência divina de Jesus. Bastaria lembrar os milagres por Ele operados.

Quando abordava a questão, eis que me interrompe o Padre Charbel e me indaga em latim: Potestne a Deo mundus creari ab aeterno? (Poderia o mundo ser criado por Deus eternamente?). Senti na pergunta espécie de provocação. Dominando o latim, sabia que uma pergunta com a partícula ne junto ao verbo é denotativa de dúvida e não mera interrogação. O potestne, pois, haveria de ser traduzido: poderia Deus? por acaso Deus poderia? e não simplesmente pode Deus? (nesta segunda forma, — potest e não potestne — indaga-se sobre o Poder de Deus, na primeira sobre Sua Vontade ou até Sua Intenção). Além disso a expressão latina ab aeterno é praticamente intraduzível. A preposição ab é muito rica de significado: além da clássica preposição de oupor, quase sempre usadas após o verbo na voz passiva, significa também desde, a partir de, e por aí vai. Traduzi por eternamente, mas, a  rigor,

 

 

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seria a partir da eternidade, e simultaneamente pertencente a ela.

Entretanto, por serem questões de lana caprina, não me apeguei a esses detalhes. Lembro mais ou menos as palavras de minha resposta:

Poderia responder em latim, mas certamente seria mal interpretado, pois até agora dissertei em português. Eacrescentei: — A pergunta a rigor não é de Teologia, muito menos do tratado "De relationibus divinis". Pertence à Teodiceia, tratado filosófico que trata de Deus, sua natureza, existência e propriedades à luz da razão (notei desagrado no rosto do examinador por ter começado com crítica à pergunta, mas continuei).Apesar de ter estudado filosofia há sete anos, ainda guardo na memória o principal que estudamos a respeito do assunto. A questão de a criação do mundo ser eterna ou ser realizada no tempo é bastante delicada para a Filosofia Escolástica, pois se situa em plena Metafísica. Como tal, corre-se o risco de se ocupar do assunto apenas com ideias, conceitos e hipóteses e não com a realidade propriamene dita. De certo modo uma questão que aproxima o raciocínio do clássico problema entre conceitualistas e nominalistas que tanto marcou o debate intelectual dos medievais. Para usar expressão da Escolástica o "status quaestionis" a rigor é a relação de tempo e eternidade. Uma das formas de colocar o problema é começar com a pergunta : — O tempo sempre existiu?  Ou o tempo passa a existir a partir da criação do universo?

Aludi ao velho Santo Agostinho que dizia: Perguntas incômodas como “o que existia antes da criação do mundo?” “O nada?” “Seria possível então o mundo ser criado do nada?” são inadequadamente formuladas.

 

 

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A teoria relativista do tempo

 em Santo Agostinho

 

Metafisicamente impossível do nada brotar o ser. Ao que  o gênio de Agostinho tinha encontrado saída: Pergunta: — O que havia antes? Só podemos responder: não havia antes. O tempo foi criado junto com o mundo e Deus não é antes ou depois mas só um presente eterno. Toda a eternidade está isenta da relação de tempo e com isso é mais fácil de se entender a verdadeira natureza divina: para Ele todo o tempo está presente simultaneamente.

Dessa ideia Agostinho extraí uma teoria relativista do tempo. Sua notável conclusão é que só há o presente: o presente das coisas passadas que é a memória; o presente das coisas presentes que é a vida e o presente das coisas futuras que é a espera. Passado e futuro são apenas figuras de linguagem que facilitam uma determinada referência de um determinado tempo que já foi ou virá a ser, mas que não é. A realidade está apenas no presente que é um "tempo em fluxo".

Coerente, chega à conclusão de que o tempo está na mente humana, tendo sido criado junto com o homem que espera, considera e recorda. Por isso tempo, mundo, homem foram criados juntos por Deus e não pode existir tempo antes da criação.

Após dissertar sobre a teoria do tempo em Santo Agostinho, adiantei:

Não devemos tentar entender a criação como ato, mas como processo. Fica mais acessível a nosso entendimento. A pergunta formulada "potestne mundus a Deo creari ab aeterno"  foi  restaurada  academicamente  na

 

 

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Idade Média, de forma tal que provocou duas grandescorrentes escolásticas: a de São Boaventura, o Doutor Seráfico, e a de São Tomás de Aquino, o Doutor Angélico.

Continuei a exposição tecendo considerações do tipo:

Ambos foram contemporâneos e até amigos. Mas São Boaventura, apesar de ter tido conhecimento do aristotelismo, o abjurou, pois sempre se identificou com Santo Agostinho, que por sua vez recebera toda sua formação filosófica no platonismo.

Não fosse uma boutade, poderíamos afirmar que Santo Agostinho cristianizou Platão e São Tomás de Aquino cristianizou Aristóteles.

 

São Boaventura repete

 Santo Agostinho

 

Seguindo seu mestre, São Boaventura sempre entendeu que a Filosofia está subordinada à Teologia, mas que o homem, além de ser dotado de inteligência, pela qual conhece a realidade, recebe influxo especial de Deus, ou seja, uma luz que lhe permite conhecer as verdades eternas. Defende, como se vê, a teoria da Iluminação.

Para ele o Bem precede a Verdade e a Vontade antecede a Inteligência. O ser humano é um ente composto de matéria e forma e existe nele pluralidade de formas.

Donde concluiu que, ao criar o mundo material, Deus nele colocou as formas seminais de todas as coisas, o que ele chamava de rationes seminales.

 

 

 

 

— 284 —

O malabarismo retórico

 de São Tomás de Aquino

 

Quase todo esse posicionamento era diametralmente oposto ao de São Tomás de Aquino, que incorporou toda a teoria aristotélica. Alguém chegou a comparar a Teodiceia tomista com a Ontologia de Aristóteles e notou que tudo que o Estagirita escreveu a respeito do Ser corresponde ao que Tomás de Aquino escreveu a respeito de Deus.

Ao contrário de Santo Agostinho e de São Boaventura, para ele o problema da natureza de Deus, de sua existência, da criação do mundo, a relação tempo-eternidade podem ser objeto de consideração filosófica, sem necessidade de recorrer à revelação para compreendê-las.

Diferentemente de São Boaventura, para São Tomás de Aquino a primazia é da Inteligência e não da Vontade.     

Contrariando Santo Agostinho e São Boaventura, o mais aristotélico de todos os escolásticos declara que filosoficamente é incorreto afirmar que "ex nihilo nihil est", pois isso implica aceitar que o nada é uma causa ou uma matéria, donde conclui que a noção de criação não supõe que o ser venha do nada, mas que venha após o nada.

Na realidade, vem de Deus e de seu poder infinito, não porém de sua Substância, ou seja, o mundo não foi extraido da Substância Divina.

Deus não fez o mundo do nada, como se o nada fosse uma matéria preexistente, mas o fez, absolutamente, pelo seu poder.

Não admite que a eternidade existe toda simultaneamente. No tempo há anterioridade e posterioridade,   portanto    não    se   identificam   tempo   e

 

 

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eternidade. Colocar a diferença na concepção de o tempo ter princípio e fim, e a eternidade não os ter, é esquecer que essa diferença é acidental e não essencial.

Importa frisar que segundo São Tomás, o tempo é definido como o movimento entre um antes e um depois, o que, no meu entender, se trata de uma definição inócua, que não acrescenta nada ao entendimento humano.

 Para São Tomás de Aquino, enfim, temos de admitir racionalmente, sem precisar recorrer à Revelação, que o mundo teve um princípio temporal, antes do mundo nada existia, nem ser do mundo, nem duração temporal, nem vazio, nem matéria pré-existente. O ser universal, na sua substância e todos os atributos que o afetam, compreendido aí o tempo, nasceram de um ato absoluto e intemporal de Deus.

Durante minha exposição ainda fiz comparação entre Santo Agostinho e São Tomás de Aquino e aludi à questão da prova da existência de Deus. Ousadamente afirmei:

Se Santo Agostinho vivesse no tempo de São Tomás de Aquino não aceitaria suas cinco vias como prova racional convincente da existência de Deus, com o que concordo plenamente com Santo Agostinho.[33] Desde o tempo da Filosofia aquelas cinco vias não me convenceram e hoje, depois de ter lido as “Confissões”, “A cidade de Deus” e os “Solilóquios”, fiquei mais convencido de que a existência de Deus, sua natureza e suas propriedades não podem ser provados racionalmente, pois se trata de uma questão de fé e não de raciocínio.

 

Não mais que de repente

 surge um apóstata

 

Mal concluí, Padre Charbel se levantou, com o semblante todo vermelho e elevando o tom da voz exclamou, ao mesmo tempo em que batia os dois punhos fechados na mesa:

Apóstata!O senhor é um apóstata!Um renegado!Jurou perante o Santíssimo que nosso Mestre é São Tomás de Aquino, conforme está nas Santas Regras da Congregação e acaba de renegar seu juramento.

Fiquei completamente aturdido. E comecei a chorar. Diante de mim estava também atônito o Padre Bartolomeu, pois olhava com espanto para mim e vi que o Padre Stringari tinha um semblante irônico. Parecia sentir prazer em me ver naquele estado. Interiormente me senti como se estivesse diante de um tribunal da Inquisição e acabara de ser condenado à fogueira e ao inferno.

Ainda em prantos, saí daquela sala e fui correndo ao quarto-escritório do Padre Astério, meu diretor espiritual.

Desabafei-me com ele e lhe disse não haver mais condições de eu continuar na Congregação. Era uma decisão muito difícil, mas num só momento perdi tudo que construíra em catorze anos de seminário. Como se um raio tivesse caído na minha cabeça senti, num átimo, destruídas infância, adolescência, juventude, enfim toda uma vida.

Tinha 24 anos, dos quais catorze vividos numa redoma, numa prisão, sem nunca ter sido réu… mas, diante de tanta abstenção sofrida em relação à vida e ao mundo, me julgava sem identidade etária: sem experiência para enfrentar o mundo lá fora.

Encontrava-me no limiar de um abismo diante do futuro e via no fundo desse abismo, uma lápide onde estava escrito: Anos e anos perdidos!

Padre Astério ouviu-me com tranquilidade, embora lhe tenha percebido certa perplexidade e tensão. Depois de ouvir meu desabafo, ficou algum tempo em silêncio, a escolher dentro de si a reação mais conveniente. Analisou frase por frase que lhe dissera.

Ficamos mais de uma hora conversando. Com a atmosfera mais aliviada acentuou a necessidade de não tomar decisão radical e de  imediato.  Mesmo  decepcionado

 

 

— 290 —

 

não custaria protelar para decidir com a cabeça mais fria. Afinal, houve a reação de um examinador que nem me conhecia e sua palavra não era sentença passada em juízo pelo capítulo da casa. Não esqueço suas úlltimas palavras:

Coloco-me em seu lugar e compreendo seus sentimentos e o que se passa em seus pensamentos. Se tivesse acontecido comigo, provavelmente minha reação seria a mesma. Mas vamos tomar uma decisão amadurecida e não motivada pela indignação e a revolta. Não custa nada rezar e pedir a Deus que o ilumine e a mim como seu conselheiro.

A prova de que não estava preparado para aquele baque foi que poucos dias antes tinha escrito para minha mãe dizendo que dali a um mês receberia o Subdiaconato. A cerimônia era simbolizada pela veste sagrada da alva e, em seguida, pela entrega da estola a ser colocada em diagonal cruzando o peito e as costas.

Ela viria para a cerimônia e me presentearia com caríssima alva de linho puro, toda bordada com fios de ouro, que mandara fazer. Não havia mais tempo de dissuadi-la. Uma semana depois ela apareceu com o presente.

Como sofri para convencê-la de que não participaria mais da cerimônia, estava em crise e pedira aos superiores um tempo para pensar sobre minha opção pela vida sacerdotal.

Não lhe contei o acontecido, pois sabia não iria entender e, em sua ingenuidade, seria até capaz de me repreender.

Conforme me colocara o Padre Astério, apesar de haver esperança, seria muito difícil voltar atrás.

 

 

— 291 —

                                             Agrava-se a crise

para surgir a superação

 

A crise em que vivia se agravou mais ainda quando um dia recebi emprestado de um colega um livro recente que contava a vida de um padre que acabara de abandonar o sacerdócio. Era o Drama de um padre, a que já fiz referência e do qual extraí citação neste mesmo texto. É escrito por um ex-padre goiano — Isócrates de Oliveira.

O autor escreve muito bem. Tinha sido seminarista e se ordenado padre no Seminário do Ipiranga em São Paulo e estudado também no de Mariana em Minas. Inteligentíssimo. Além do latim e grego, domina várias línguas, inclusive o alemão.

Grande parte do texto é feroz crítica a São Tomás de Aquino.

Anos mais tarde, fiquei sabendo que, logo depois que rompera com o sacerdócio e, creio, com a Igeja Católica, fizera o concurso para o Itamarati e fora classificado entre os primeiros lugares. Pouco tempo depois, soube que era embaixador na Grécia.

Esta digressão foi feita para justificar que havia fundamento sério para aceitar o que ele escrevera. Participava mentalmente de seus conflitos. Talvez a leitura do Drama de um padre foi o último empurrão para abandonar a Congregação Salesiana.

Antes de terminar o ano voltei pela última vez ao Padre Astério e lhe comuniquei que minha decisão realmente amadurecera e saía com muita esperança de refazer minha vida lá fora. A pedido de meu inspetor, Padre Alcides Lanna iria passar  um  ano  no  Liceu  Salesiano,  em  Goiânia,  onde

 

 

— 292 —

terminaria meu curso de Pedagogia na Faculdade de Filosofia lá existente.

Ele ao despedir-se de mim, me abraçou e me confidenciou:

Com toda a sinceridade, só temo que você perca a fé. Gente como você, depois de romper com o próprio passado religioso, corre forte risco de não mais acreditar em Deus. A história da Igreja está repleta desses casos.

 

Antes romper com o passado

que comprometer o futuro

 

Muitos colegas continuaram e se ordenaram. Depois se arrependeram. Sorte que surgiu a liberação concedida pelo Vaticano II.

Os franceses denominam os ex-padres de défroqués. Etimologicamente significa o sacerdote que largou o froc, isto é, a batina. Mas será que realmente deixam de ser padres? Um sacerdote é "sagrado segundo a ordem de Melquisedec”, sacerdos in aeternum (sacerdote para toda a eternidade).

No ano que passei em Goiânia, assisti, junto com nosso Diretor da Faculdade de Filosofia, Padre Machado, SJ, de quem me tornara grande amigo, ao filme Le Défroqué, cujo ator principal que interpreta o ex-padre é Pierre Fresnay.

É sabido que o défroqué, renegando ou não a fé, cometendo ou não heresia, continua sacerdote com todos os poderes que lhe foram conferidos na ordenação, ao menos é o que aprendi na Teologia.

Ao erguer as mãos sobre o pão e recitar a fórmula mágica hoc est enim corpus meus  e repetir o  gesto  sobre  o

 

 

— 293 —

cálice de vinho, dizendo hic est enim sanguis meus, neste ato se realiza o mistério da transubstanciação, a transformação do pão e do vinho em carne e sangue de Cristo.

No filme, o ex-padre, ou melhor, o sacerdote, pois nunca deixará de ser sacerdote, já optara pelos prazeres mundanos. É procurado por um seminarista que tenta trazê-lo de volta ao rebanho de Cristo. O défroqué o desafia certa noite num cabaré. Cercado de mulheres, música e bebida, o padre apóstata ergue as mãos sobre uma jarra de vinho e pronuncia as palavras fatais hic est enim sanguis meus. O seminarista se desespera, pois sabe que naquela jarra não há mais vinho, mas o sangue de Cristo. Para não deixar que a profanação se consuma, sorve a jarra até a última gota. Fica bêbado e sai aos tropeções do cabaré. Evidentemente, apesar da transubstanciação, o vinho não perdera as virtudes alcoolizantes.

Trata-se de um filme realmente forte. Mas nos deixa com a grande pergunta: crítica ou não aos dogmas católicos, o padre continua ou não sacerdos ad aeternum? Sinceramente hoje, meditando sobre essas questões, respiro fundo e sinto como resposta enorme alívio, a ponto de o traduzir um dia no seguinte poema:

 

ORAÇÃO DO ALÍVIO

 

Deus, oh! Deus

quero agradecer-te

por dois grandes motivos

de alívio me proporcionar:

-o primeiro de não ter permitido

que um dia fosse padre.

 

 

— 294 —

O segundo, por não ter passado

por minha cabeça ser militar.

 

Quando vejo alguém que foi nazista

hoje é Papa,

centenas de padres pedófilos,

pastores evangélicos pregarem

a hipocrisia

como se tivessem recebido de ti

o dom da cura

e fazerem do dízimo

a arma de enriquecimento

ou seja fazerem da corrupção virtude,

oh! Deus tenho de render-te graça

disso tudo ter-me livrado!…

 

Quando lembro que o poeta

cantou " não cora a cruz

de chamar a espada de irmã"

fico estarrecido!…

E mais perplexo fico a imaginar:

Caxias e o Conde D'Eu

no Paraguai ordenar a degola

de milhares dos inocentes "niños del Chaco",

queimar vivos velhos e crianças...

Castelo Branco, Costa e Silva, Médici,

a cassar Juscelino,

permitir tortura e matança

de idealistas,

dar força a um Fleury

para torturar sádica e cruelmente

e por fim enforcar um Herzog,

e se gloriarem do sangue de vítimas

do ódio derramado

 

 

— 295 —

 

tenho de agradecer-te, oh! Deus

por não ter sido militar…

Talvez seria um deles

qual Pilatos a lavar as mãos

a aplacar a consciência

de borracha

com versões criadas

para justificar fatos

ou crime cometidos,

jamais admitidos…

 

Se fosse padre seria excomungado,

Se militar fosse, degradado e degredado.

 

Oh! Deus tenho de agradecer-te

de tudo isso ter-me livrado!

 

Eu que duvidava de tua existência,

sinceramente agora tenho de confessar:

— se alguém duvida

de que existes,

 

oferecerei para convencimento

esta sincera confissão:

— só um Ser superior

me poderia livrar de

em duplo abismo precipitar:

o de um dia ter sido padre

e de num outro militar.

 

 

 

 

 

 

— 296 —

 

 

 

 

10

 

 

 

Se se admiram de eu estar vivo,

  esclareço: estou sobrevivo

Viver, propriamente, não vivi

(…).

A verdadeira vida

 sorria longe, indecifrável.

 

(Carlos Drummond de Andrade,Declaração em Juízo)

 

 

 

 

 Último desafio:

 ser acadêmico e aparentar ser clérigo

 

Em Goiânia vivi realmente um ambiente em que pude me encontrar. Agradeço ao Padre Alcides Lanna não me ter permitido deixar a Congregação, logo após o “affaire” em que fui tachado de “apóstata”, por ter discordado das cinco vias tomistas da prova da existência de Deus.

Devo  confessar que  foi  no  Ateneu   Dom   Bosco   que

 

 

— 297 —

conheci o verdadeiro sentido da palavra liberdade de pensar e agir, sem desrespeitar os deveres religiosos de um clérigo, pois ainda o era. Talvez, porque me surgiu um diretor aberto, completamente diferente dos anteriores, o Padre Cleto Caliman.

Sinceramente, no início tive alguma dificuldade em conciliar estas duas atitudes: viver a vida acadêmica, sentir o que era o mundo tão temido pelos padres salesianos e participar das obrigações de religioso, como a do uso da batina (pela primeira vez passei a usar no verão batina branca, pois o calor de Goiânia era insuportável), a da missa e da comunhão diárias, da meditação e da participação com os demais membros da congregação nas orações, nas leituras espirituais e nas refeições em comum. Só me dei ao luxo de não mais usar a tonsura, marca recebida na cabeça, quando me tornei, perante a Igreja, verdadeiramente clérigo, pela ordem menor chamada ostiário.

Parece que havia recomendação especial a respeito de minha ida para o Ateneu Dom Bosco, pois não recebi nenhum encargo de Assistente, nem de Vice. Apenas fui designado para dar aulas de Matemática e Português para o ginasial e o colegial, o que acontecia na parte da tarde. A maior parte do tempo me foi proporcionada para terminar meu Curso de Pedagogia.

No exercício do magistério ocorreu cena singular que revela a diferença cultural entre o ocidente e o oriente.

Um dia fui chamado à portaria. Estava sendo requisitado por um japonês, pai de um aluno da terceira série ginasial.                

Estranhei aquela presença e logo pensei que estaria diante de um  pai  revoltado  por  alguma  reprovação  a  seu

 

 

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filho.

Mas logo, e para minha surpresa, entendi sua preocupação:

Professor, vim aqui para agradecer ao senhor ter dado zero a meu filho na prova mensal de Matemática. O senhor demonstrou que não é condescendente. Ele errou, merece ser corrigido. E para externar minha gratidão quero presenteá-lo com esta caneta.

Era uma Paker 51.

Fiquei constrangido. Mas ele tanto insistiu que acabei aceitando o presente, pois desconfiei tratar-se de uma atitude inerente à cultura nipônica: deixar de fazê-lo seria grande desfeita. Sinceramente, em toda minha vida de professor, jamais presenciei uma atitude igual àquela. Devo acrescentar que aquele aluno passou a ser um dos primeiros da classe.

 

O curso de Pedagogia

 

Na parte da manhã, ia assistir às aulas do Curso de Pedagogia na única Faculdade de Filosofia existente. Geralmente o fazia de bicicleta. Como a Faculdade se situava no cimo do monte mais alto de Goiânia, ao chegar ao pé da colina descia da bicicleta e fazia o trajeto a pé e empurrando a minha “bike”. (Será que o inventor da bicicleta — Leonardo da Vinci — gostaria de ver seu “celerifer” batizado com este nome?…).

A pedido, escrevi pequena crônica sobre a chegada dos alunos à faculdade. Foi publicada no jornalzinhoO Coruja, do Centro Acadêmico. Assim começava: Sete horas da manhã. Por sobre  o  dorso da  Avenida  Universitária  sobem

 

 

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dezenas de estudantes em demanda da Faculdade de Filosofia. Moças. Rapazes. Gente de idade. Casados. Solteiros. Padres. Freiras. Livros debaixo do braço. (…). E terminava: A Faculdade de Filosofia já esgarçou seu sorriso. Abriu suas portas. Estendeu seus braços. Um amplexo matinal. E recebe no calor de seu regaço a alegria e a seriedade — a mocidade e a idade adulta — o colorido e o tom severo — o Ideal — que há minutos vinha aguardando desde que lobrigou na Praça Cívica o primeiro vagido universitário (maio de 1956).

A Faculdade de Filosofia foi fundada três ou quatro anos antes e era a célula mater da futura Universidade Católica de Goiás. Apesar de nova, já possuía o reconhecimento oficial pelo Ministério de Educação e Cultura.

Não obstante, passava por graves dificuldades para manter um corpo docente à altura de uma instituição de nível superior a fazer jus à demanda de seus alunos.

Funcionavam quase todos os cursos que compõem uma Faculdade daquele porte: Letras com Línguas Clássicas, Neolatinas (Português e Espanhol) e Inglês, Matemática, História, Geografia e Pedagogia.

Era meu último ano no curso de bacharelado em Pedagogia, e nossa turma era bem reduzida. Havia dez alunos, sendo apenas dois homens (um dentista de nome Américo e eu). As oito mulheres eram muito simpáticas e me acolheram com muito carinho e logo fizemos grande amizade[34].

Seria realmente a mulher

o mal do mundo?

 

Não obstante, para mim não deixava de ser grande novidade, conviver, lado a lado, com o sexo feminino. Para contrariar as previsões e admoestações de Dom Bosco, no Jovem Instruído, elas não eram o demônio de saia, nem a fonte de pecado, como nos pregavam os padres salesianos, de modo especial o Padre Stringari. Chego hoje a pensar que a origem desse preconceito (sim “preconceito” com todas as letras) contra o sexo feminino deva estar no mito de Eva, transformada em corruptora de Adão.

Séculos e séculos de distorção da convivência humana, provavelmente por causa de personalidades psiquicamente deformadas que se tornaram profetas, “condutores de outros homens”, quando não autores chamados sagrados. Acrescentaria até santos. Venham dizer-me não constituir caso patológico um jovem como São Luiz Gonzaga não permitir que lhe vissem os pés, nem olhar para o rosto de sua mãe, para não cometer pecado?! E lembrar que Dom Bosco julgava o gesto como exemplo a ser seguido!…

Entre nossas colegas havia uma, a Nena, que logo no primeiro dia de aula, ao saber que eu era salesiano, me revelou ser irmã de um clérigo que tinha feito a Filosofia em Lorena, de nome Fábio. Eu o conhecia, por sinal um rapaz inteligentíssimo. A inteligência devia ser herança familiar, porque ela também se revelou bem acima da média.

A pedido do Padre Cleto Caliman, preparei um projeto, cuja finalidade era obter junto ao MEC significativo auxílio financeiro para o Ateneu Dom Bosco. Logo no início de julho, aproveitando as férias, viajei para o Rio, a fim de entregar o projeto ao Conselho Federal de Educação.

Uma colega de curso, Wilma Reston (não tenho certeza do nome, só do sobrenome), ao saber que ia ao Rio, pediu-me para levar uma encomenda para sua irmã, que para lá fora a fim de estudar teatro. Estava hospedada numa pensão mantida por freiras em Santa Tereza. Seu nome: Thelma Reston.

Quando lhe entreguei a encomenda, fiquei impressionado com sua beleza. Ela tinha 17 anos. Mantivemos uma conversa muito agradável e ela me demonstrou que realmente haveria de se realizar na carreira artística, notadamente no teatro.

Pelo que vejo, cumpriu o que me expôs. Consultando a internet, me informo que ela já participou de cerca de 60 filmes, tendo começado com Asfalto Selvagem (1965) e ultimamente trabalhou emGatão de Meia IdadeHoje Tem FelicidadeUm Show de VerãoO noviço rebeldeO homem nu. Na televisão, entre novelas e outros programas, desempenhou papel em 36, como Toma Lá, Dá CáNegócio da ChinaParaíso TropicalPáginas da Vida. No teatro, por onde começou em 1959, com a peça  A ratoeira, já trabalhou em 26 peças. Apenas para lembrar as últimas:Morrer ou NãoA Maracutaia — Charles Baudelaire, Minha Terrível Paixão.

Havia duas irmãs, Dinalva e Dione, filhas de fazendeiro de Planaltina, cujas terras acabaram sendo indenizadas pela União para a construção  de  Brasília.  Por  convite  delas,  fui

 

 

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conhecer o local e só tive de dar razão a JK por escolher aquele local.

 

 A escolha de JK

 

Ele de fato foi inspirado, diria predestinado, ao escolher a região para construir a futura capital do Brasil. Suas palavras, no dia 21 de abril de 1960, data da inauguração de Brasília, além de enaltecer o planalto em que se chantava a nova sede do governo do país, foram de certo modo proféticas:

 

No programa de metas do meu Governo, a construção da nova Capital representou o estabelecimento de um núcleo, em torno do qual se vão processar inúmeras realizações outras, que ninguém negará fecundas em consequências benéficas para a unidade e a prosperidade do País.

(…)

Deste Planalto Central, Brasília estende aos quatro ventos as estradas da definitiva integração nacional: Belém, Fortaleza, Porto Alegre, dentro em breve o Acre. E por onde passam as rodovias vão nascendo os povoados, vão ressuscitando as cidades mortas, vai circulando, vigorosa, a seiva do crescimento nacional.

(...)

Brasileiros! Daqui, do centro da Pátria, levo o meu pensamento a vossos lares e vos dirijo a minha saudação. Explicai à vossos filhos o que está sendo feito agora. É sobretudo para eles que se ergue esta cidade síntese, prenúncio de uma revolução fecunda em prosperidade. Eles é que nos hão de julgar amanhã.

 

Este pronunciamento sempre me faz lembrar Napoleão do alto das pirâmides do Egito: Soldados de França!  Do  alto

 

 

— 303 —

dessas pirâmides 40 séculos vos contemplam.

 

O corpo docente da Faculdade

 

Nossos professores eram praticamente autodidatas. Apenas um tinha especialização em educação, por ser inspetor de ensino e por ter trabalhado no Ministério de Educação e Cultura por vários anos. Sua cadeira era justamente de Administração Escolar e, com ele, aprendi, entre outras coisas úteis, a montar um colégio. Deu-nos todas as dicas usando a metodologia do “passo a passo”, desde a feitura do projeto até o reconhecimento final pelo Ministério de Educação.

Por ser uma faculdade pioneira, tirando este ou aquele professor estrangeiro, nenhum daqueles mestres obviamente tinha especialização oriunda da própria Faculdade de Filosofia. Por isso não era de estranhar que o corpo docente, em sua maioria, foi arrebanhado entre padres, advogados, engenheiros, médicos, contadores, veterinários…

Mas tinha enorme respeito por eles e levei o curso a sério, estudando muito mais do que a matéria contida nos manuais adotados.

Tenho certeza de que ninguém desconfiou de que eu ali estivesse com o propósito de abandonar a congregação salesiana.

Nos demais cursos havia religiosos de ambos os sexos, inclusive padres, não só salesianos, como de outras congregações e ordens. Por isso acredito que os alunos e professores certamente imaginassem que me matriculara na Faculdade   para  completar  minha  formação  de   educador

 

 

— 304 —

com vistas a obter maior conhecimento e a qualificação legal para o exercício do magistério.

Recebi grande incentivo do diretor da Faculdade, Padre Antônio Machado. Era também nosso professor de Filosofia Educacional e gostava muito de suas aulas. Por ser jesuíta, notei ter ele mais estofo intelectual que nossos padres salesianos que lecionaram nos dois primeiros anos de Pedagogia em Lorena.

A seu convite, comecei a participar das reuniões da JUC (Juventude Universitária Católica), realizadas em sua casa, no centro da cidade. Nessas reuniões frequentadas por alunos e alunas do nosso e de outros cursos, procurávamos encontrar formas de participarmos da política e, sobretudo, o “modus operandi” de sermos agentes de transformações sociais.

 

Surge a Hora Universitária

 

Juntamente com a JUC, passei a integrar o Centro Acadêmico Ruy Barbosa — ou simplesmente C.A. — como 2º secretário. Nosso C. A. criou a Hora Universitária que ia ao ar todas às terças-feiras, das 20 às 20:30 horas, pela Rádio Brasil Central. O programa foi inaugurado no dia 22 de maio de 1956.

Da apresentação do programa fomos encarregados uma colega do Curso de Inglês, Vera Cruz Amorim, e eu. Ela era também a tesoureira do C. A.

Na noite de inauguração, que durou cerca de uma hora, ocupou, em primeiro lugar, o microfone o Padre Machado, além de diretor da Faculdade, presidente de honra do C. A; em seguida a presidente do Centro Acadêmico, nossa colega

 

 

— 305 —

Maria Júlia de Faria. Em seu discurso ressaltou a finalidade da Hora Universitária: (…) ventilar os nossos problemas, os interesses da nossa classe e o fator principal será de intensa propaganda da mudança da Capital Federal para o Planalto Central de Goiás.

Logo em seguida li meu discurso, que faço questão de transcrever em apêndice a este texto, por vários motivos, dos quais ressalto dois: primeiro, porque revela como estava integrado à vida universitária, apesar de ainda ser seminarista; segundo, porque, empolgado com minhas palavras, o deputado estadual Venerando de Freitas Borges fez questão de requerer sua transcrição nos Anais da Assembleia Legislativa de Goiás, com as seguintes palavras:

 

Subo mais uma vez a esta Tribuna para tratar do palpitante assunto que a todos nós vem empolgando, a MUDANÇA DA CAPITAL PARA O PLANALTO GOIANO. Nenhum problema se me afigura mais importante, nos dias que correm, para o Brasil, e, particularmente, para o nosso Estado do que esse, porquanto, resolvido, trará solução para os demais que angustiam a vida brasileira. Dia a dia vai crescendo a corrente do grande exército da mudança. Se, de certa forma, o trabalho vinha sendo feito nas altas esferas, já vai ele se espraiando pela planície, conquistando as camadas populares. Trago hoje a debate desta Casa um requerimento de alta significação para a campanha em que estamos empenhados. É que o CENTRO ACADÊMICO RUY BARBOSA, da FACULDADE DE FILOSOFIA DE GOIÁS, instituiu a HORA UNIVERSITÁRIA, programa que é levado ao conhecimento do público através da RÁDIO BRASIL CENTRAL todas as terças-feiras, das 20 às 20,30 horas, e que inclui como um dos motivos principais a propaganda da mudança da Capital para Goiás.   Pela  primeira  vez  foi esse

 

 

— 306 —

 magnífico programa levado ao ar, anteontem (...) ocupou ainda o microfone da Rádio Brasil Central o acadêmico Délcio Vieira Salomon, que proferiu as seguintes palavras (o discurso está em Apêndice)/ após sua releitura finalizou /: Razão tínhamos, portanto, ao formular o requerimento que ora é submetido a esta Casa, pois visa estimular aqueles que se põem a serviço da mudança da sede do governo da República para o Planalto Central. Em 24-5-1956.

 

Obviamente todos esses dados não os guardei na memória. Conservo até hoje o exemplar de nosso jornalzinho do Centro Acadêmico — O Coruja — Ano V, N. XVII de agosto de 1956.

 

Brasília foi vista em sonho

por Dom Bosco?

 

Como já apontei, vivíamos, na época, um momento singular na política brasileira. Tinha acabado de ser eleito presidente da República, o governador de Minas, Juscelino Kubitschek de Oliveira. Sua promessa da criação de Brasília, ou seja, da transposição da capital federal do Rio de Janeiro para o Planalto Central, situado no coração de Goiás, se era obsessão para ele, para nós se tornou bandeira e motivo de contagiante entusiasmo.

Para não perder meu interesse pelo italiano — língua oficial da Congregação Salesiana — ainda tinha o hábito de ler as Memorie Biografiche di San Giovanni Bosco, iniciado no Noviciado. Estava no XVI volume, quando deparo com o célebre sonho de Dom Bosco de 30 de agosto de 1883sobre sua viagem pela América do Sul, com  o  objetivo  de  instalar

 

 

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missões salesianas no Brasil. Qual não foi minha surpresa ao ler sua profecia:

 

Tra il grado 15 e il 20 grado vi era un seno assai lungo e assai largo que partiva di un punto che formava un lago. Allora una voce dice ripetutamente: — quando si verrano a scavare le miniere nascoste in mezzo a questi monti di quel seno apparirà qui la terra promessa fluente latte e miele, sarà una ricchezza inconcepibile (Memorie Biografiche, XVI, 385-394). (Entre os paralelos 15 e 29 havia uma depressão bastante larga e comprida partindo de um ponto onde se formava um lago. Então uma voz repetiu várias vezes: (…) quando vierem escavar as minas ocultas no meio destas montanhas, surgirá aqui a terra prometida, vertendo leite e mel. Será uma riqueza inconcebível.

 

Ao conferir no mapa, constatei que os dois paralelos indicavam a região onde estava sendo construída a futura capital do Brasil. Fiquei tão entusiasmado com o achado que, naquela mesma noite, relatei o sonho de Dom Bosco na Hora Universitária, dedicada inteiramente à fundação de Brasília.

Aconteceu que um ex-aluno salesiano ouviu o relato e no dia seguinte procurou o diretor do Ateneu Dom Bosco e lhe perguntou se era verdade que Dom Bosco profetizou a fundação de Brasília.

Padre Cleto Caliman a princípio estranhou a pergunta. Sem saber sua origem, nem a existência do tal sonho, para ele o fato de ser procurado por um ex-aluno salesiano, deveria ser um sinal sobrenatural.

Lembrou que eu estava  lendo  as  Memorie  Biografiche

 

 

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de Dom Bosco, por isso me procurou e indagou se eu sabia alguma coisa sobre o assunto. Confessei-lhe o achado e que tinha já comunicado por rádio na Hora Universitária da Faculdade de Filosofia. Pediu-me então que traduzisse todo o sonho.

De posse do texto traduzido, fez questão de telefonar para o Padre José Vieira de Vasconcelos, diretor do Colégio São João de São Del Rey, e seu colega de ordenação sacerdotal.

Padre Vasconcelos que já conhecia Juscelino e dele se tornara amigo e admirador, não teve dúvidas[35]. Entusiasmado, escreveu longa carta a Juscelino e comunicou o achado, como se fosse dele.

Em decorrência, Juscelino, como bom político, aproveitou o ensejo para mostrar publicamente que ele era o escolhido por Deus para cumprir a profecia de Dom Bosco.

Soube retribuir generosamente aos salesianos, pois lhes construiu o Santuário de Dom Bosco, e, creio, também um colégio, além de erguer o monumento ao santo justamente no local situado entre os paralelos 15 e 20,junto ao lago de Brasília.

Ainda que meu nome jamais tenha sido mencionado nessa história criada pelo Pe. José Vieira de Vasconcelos, certamente porque estava deixando a Congregação, até hoje me sinto o descobridor do extraordinário sonho que tanto empolgou o Presidente Juscelino.

Sinceramente, de algum tempo a esta data, me considero um cético em relação a milagres, profecias e previsões religiosas. Meu agnosticismo, entretanto, não me impediu, há alguns anos, de escrever artigo no Estado de Minas, para deixar registrado o achado e confessar que não saberia calcular a época em que ocorreria o grande “milagre” da reviravolta na economia brasileira, a partir de Brasília, a ponto de o país passar a deter imensurável riqueza e prosperidade. Como Dom Bosco fala em duas ou três gerações de maneira vaga, torna-se difícil precisar. Talvez pelo ano 2.020. Será? Ainda me reservo o direito de comungar do dito espanhol: yo non creo en brujas, pero que las hay, las hay!

Pelo que vejo, realmente desde o Plano Real, mesmo contabilizando a vaidade e erros de FHC, a megalomania e a assaz conhecida demagogia de Lula, sem esquecer o grande saldo negativo deixado pela corrupção impune nesses últimos dezesseis anos, nosso país tende a crescer vertiginosamente.

 

A formatura

 

O tempo  correu  rapidamente  na  esteira  daquele  ano

 

 

— 310 —

vivido em Goiânia. A conclusão do curso chegou mais cedo do que pensara. Impressão a comprovar minha adequação à vida acadêmica. Não seria por que estava me sentindo livre das amarras que prendiam aos salesianos?

Antes dos exames finais, sem me candidatar e por unanimidade fui escolhido orador de todas as turmas que se formavam. Eram as primeiras desde a criação da Faculdade de Filosofia.

Para paraninfo foi eleito o Professor Júlio César de Mello e Souza — o Malba Tahan. Já conhecia vários de seus livros, como O homem que calculava,História da Matemática, Mil e uma noites, Lendas do deserto. Aproveitei para ler outros, de que não me lembro os títulos. Malba Tahan foi, sem dúvida, um dos mais fecundos escritores em língua portuguesa. Levantamento recente chega a arrolar cerca de 120 títulos.

Dentro de minhas limitações, fiz análise de sua obra e tentei mostrar a notável figura de escritor e educador que era, motivo por ter sido escolhido nosso paraninfo. Ele ficou tão entusiasmado que, ao agradecer, me agraciou com esta declaração: — Vosso orador acabou de demonstrar que conhece minha obra mais do que eu mesmo. Óbvio que era uma brincadeira para me lisonjear.

 

O significado de uma despedida

 

Desde a véspera da formatura, estava em Goiânia meu irmão Célio, vindo de Belo Horizonte para me levar de volta. Assistiu à solenidade de entrega dos diplomas. Ficou orgulhoso ao me ver pronunciar o discurso.

No dia  seguinte,  despedi-me  de  todos  os  colegas  do

 

 

— 311 —

Ateneu Dom Bosco, padres, clérigos e irmãos coadjutores.

Estranhei que, ao fazê-lo, tanto o padre diretor como o padre prefeito nem um tostão de ajuda me ofereceram para enfrentar a nova vida. Nem sequer a passagem para Belo Horizonte me foi oferecida. Meu irmão  é que arcou com as despesas.

Até hoje me indago: será que usura e voto de pobreza se irmanam com a falta de percepção do outro?

Apesar disso, tenho de agradecer àqueles salesianos duas coisas: primeira, a dispensa dos votos que a Inspetoria Salesiana conseguiu do Vaticano em tempo recorde; segunda, os dois ternos, um de brim azul claro e outro marrom de uma casemira bem ordinária (logo o marrom tão odiado por meu irmão Célio!), feitos pelo mesmo alfaiate que trabalhava para os padres, clérigos e irmãos coadjutores do Ateneu. Ao menos não voltaria para casa só de calça e camisa.

Não registro o fato como expressão de mágoa. Embora não deixe de ser um desabafo. Apenas para frisar que tal manifestação demonstrou como eram destituídos de compreensão humana aqueles salesianos. Já não digo empatia, seria exigir demais! Hoje penso que representavam a todos seus pares diante de semelhante situação.

Por saberem disso é que vários ex-colegas conseguiram fazer um pé de meia antes de se secularizarem, à revelia dos superiores e sem nenhum escrúpulo. Sem dúvida é de lhes dar razão. Ingênuo fui eu.

Esta observação sobre o distanciamento dos salesianos em relação aos que voltam ao mundo é sintomática do grau atingido pelo processo de alienação que naquela época tinha tomado  conta  daqueles  sacerdotes  encarregados  de

 

 

— 312 —

formar outros sacerdotes.

Confesso que formavam triste e egoística confraria.O que me leva a indagar: —Será que algum dia nossos padres salesianos se preocuparam com os que largaram o arado e, com coragem, olharam para trás?

Sinceramente minha experiência constitui libelo a negar tal preocupação. Acredito que nunca houve. Na cabeça daqueles religiosos, o problema não era deles, mas de quem arcava com a responsabilidade da deserção.

Quem sabe colocavam tudo na ampola do absoluto, como a areia na ampulheta do tempo: para eles não havia dois pólos em estreita relação, só havia ou a salvação ou a condenação. Ou a areia desliza para um pólo ou desliza para o outro. A eles cabia apenas optar por um só pólo, o deles, ou seja, o que eles consideravam o da salvação. Nós, os desertores, é que inclinamos a ampola para a areia escorregar para o lado oposto: o da condenação.

Interessante: eles se gloriavam de seus ex-alunos, enaltecendo sua ligação com o antigo colégio onde estudaram, sobretudo louvavam suas generosas contribuições pecuniárias. Mas jamais pensaram em se preocupar com os ex-salesianos e muito menos com os ex-sacerdotes. Por quê? Diante do vil metal acaso teriam renegado a lição de Cristo: Nemo servus potest duobus dominis servire; (…) non potestis Deo servire et mamonae? (nenhum servo pode servir dois senhores (…) não podeis servir a Deus e à mamona) (Mateus, 6: 24)? Têm eles uma resposta a tais indagações? Sei, respostas não terão; racionalizações, sim e muitas.

Naquele momento de despedida, senti nitidamente que os salesianos  se  faziam  cegos,  mudos  e  surdos  diante  de

 

 

— 313 —

uma realidade que jamais poderiam negar.

Despedida?!… Por certo um gesto de cumprimento daquele jaez significava para eles apenas o rotineiro e convencional “adeus” ou o costumeiro “até breve”, a não exigir nenhum outro compromisso com quem se despede.

Não lhes passaria pela cabeça que aquele apertar de mãos ou aquele abraço expressava o rompimento com um passado de anos e anos, em que foram imoladas infância, adolescência e juventude, para deixar tudo sepultado no abismo da desfeita e do esquecimento?[36]

Até em nome das “relações de trabalho”, não era o caso de se pensar num mínimo de recompensa pela enorme contribuição monetária que, como assistentes e professores, os ditos “desertores” proporcionavam aos cofres da congregação?

Não nego que o custo contabilizado na formação de um clérigo (no mínimo quatro anos de ginásio, um de Noviciado, três de Filosofia) seja bem superior ao correspondente a seu trabalho durante o tirocínio!

Mas o preço psicológico de tudo isso? Há como colocar numa grade de débito e haver?!…

Não se trata, por isso, de comparar. Longe de mim este tipo de reivindicação que me cheira a mesquinharia. Apenas estou apontando, repito, a falta de compreensão humana e não o aferimento dos pratos da balança de uma pseudojustiça trabalhista. Caso aqueles padres viessem argumentar dessa forma, estariam comprovando insofismavelmente que não lhes causa mossa o drama alheio.

Para usar a linguagem que provavelmente usariam, ao se colocarem orgulhosamente do lado de Deus, a fim de nos abandonarem do lado oposto, o lado do profanum vulgus[37], talvez gostariam de exclamar: Vos de deorsum estis, ego de supernis sum. Vos de mundo hoc estis, ego non sum de hoc mundo (Vós sois de baixo, eu de cima. Vós sois deste mundo, mas eu não sou deste mundo) (João, 8: 23)… Ou, quem sabe, não se atribuiriam o poder de sentenciar: Multi enim sunt vocati, pauci vero electi. (Muitos, na verdade, são chamados, poucos, porém, os escolhidos (Mateus, 22: 14). Não é de se duvidar, pois tal sentença era repetida centenas de vezes, para que não puséssemos em dúvida o chamado divino, muito menos as terríveis consequências para quem o repudiasse.

Sem um tostão no bolso, cumpri o ritual da despedida e parti para Belo Horizonte para começar nova vida, a minha verdadeira vida.

 

      Deixei de acreditar na

existência de Deus?

 

Ainda bem que a “cerimônia do adeus” já a tinha vivenciado no ano anterior, quando procurei o Padre Astério, no limiar de minha secularização, e ele me abraçou e disse:Com toda a sinceridade, só temo que você perca a fé. Gente como você, depois de romper com o próprio passado religioso, corre forte risco de não mais acreditar em Deus. A história da Igreja está repleta desses casos.

Hoje, com honestidade lhe confessaria: Não sei se perdi a fé. Aliás, ja não sei o que é fé. Será que é esta de  nosso povo, que me comove, quando vejo pessoas humildes a suportar sem revolta, nem desespero as maiores agruras e as maiores injustiças? Se é essa, com eles me identifico e creio não a perdi. Quanto a acreditar em Deus, querido Padre Astério, realmente tinhas razão: já não creio em Deus, ou seja, já não creio no deus dos teólogos e que por tanto tempo me atormentou. Meu deus é bem particular, um deus não criado à imagem e semelhança do homem, que se revela e fala e escolhe determinado povo para ser seu eleito. Este para mim não existe. Seria admitir que a parcialidade seja o atributo de um ser perfeitíssimo! Meu deus, enquanto conceito  ou  ideia  (afinal  dele  só  se  pode  ter  isso  e   assim  mesmo  vagamente),  se  dilui  de  tal  forma  que  não

 

 

— 316 —

consigo separá-lo do Universo e da Natureza[38]. Chega, às vezes, a confundir-se com o próprio Acaso. Talvez seja semelhante ao deus de Spinoza.[39] Fosse eu cultivar a fé ensinada pelos padres salesianos de meu tempo, hoje estaria vivendo o maior dos desesperos, atormentado por culpas e o temor de ser condenado ao inferno. Um deus que cria um inferno eterno para mim não é deus! Donde hei de concluir: para conservar o poder espiritual sobre os fieis, foram os padres ou escritores psicopatas por eles denominados sagrados, que criaram o inferno,  usando, em falso testemunho, o nome de seu deus. Sem dúvida, criaram seu próprio deus e vivem a impingi-lo aos outros como o Deus único e verdadeiro! No entanto, me sinto liberto dos liames e posso com tranquilidade declarar: — nunca vivi a paz como a vivo hoje. A paz que os salesianos me negaram!

 

Começar nova vida

ou reinventar o viver?

 

Terminada a despedida, sabia que, ao dar os primeiros passos, já de costas para o Ateneu Dom Bosco, estaria entrando no desconhecido para começar nova vida.

 “Começar nova vida”, a partir daquele momento, significava para mim reinventar a vida. Não foi à toa que escolhi como epígrafe dessas reminiscências os versos de Cecília Meireles: a vida só é possível reinventada

Realmente, não bastava recomeçar, tinha que reinventar o viver. Reinventar o viver ou mesmo o sobreviver, era o grande desafio de superação que o destino me reservava dali em diante.

Por isso, retratam meu estado de espírito os apropriados versos de Drummond a completar a descoberta de Cecília Meireles: Se se admiram de eu estar vivo, / esclareço: estou sobrevivo / Viver, propriamente, não vivi (…). / A verdadeira vida / sorria longe, indecifrável. (Declaração em Juízo, em As impurezas do Branco).

Sim sorria, bem longe, mas em minha querida Belo Horizonte, onde nasci e passei os mais belos anos: os da minha infância. Apesar da pobreza, esta sim autêntica, porque nunca precisou ser objeto de voto para ser vivida.

No limiar da nova perspectiva de vida, não podia apagar, num gesto de mágica, quinze anos perdidos. O desafio, portanto, não era simplesmente o de adaptação a uma nova situação. Era muito mais profundo.

Se o indivíduo, quando larga o mundo para professar os votos de castidade, pobreza e obediência, rompe com todo o  passado  e  assume  revestir-se   do   “homem   novo”,   ao

 

 

— 318 —

deletar de sua vida todo o compromisso inserido nesse juramento para se reintegrar na antiga/nova realidade, refaz o caminho inverso e passa a  sentir na pele o aguilhão da perda.

Perda não do que foi construído nesses quinze anos de desligamento da verdadeira realidade do mundo em que vivemos, mas do que foi deixado, quando se abandona a vida para entrar no antro da ilusão, ou seja, do que ficou na infância e com ela se identificou, para poder evoluir em outro tipo de irreais conquistas.

Não seria o caso de contrapor? Se o homem novo foi o que conheci, mil vezes prefiro o velho homem. Este sim o real ser humano, com quem não tenho pejo de me identificar.

Repito: para esse novo “homem velho” o enfrentar o mundo que agora lhe surge de repente, realmente constitui desafio muito maior que o de adaptação à nova vida. Surge como o de reinventar o viver.

Estranhamente, os padres salesianos (será que aconteceria o mesmo nas outras ordens e congregações religiosas?) nunca atentaram para essa questão. Talvez porque sua formação os torne alienados do verdadeiro mundo em que vivem e passam a achar que seu mundo é o único a ser pensado e corretamente escolhido e seguro, em que a sua salvação e não a do ser humano está garantida.

Lamentável e triste constatação. Julgam ter atingido a finalidade da vida de modo absolutamente inconteste e, no entanto, passam a ver o contrário como opção pela própria desgraça, de tal forma que o problema jamais será deles, mas de quem teve a ousadia de escolher o pólo oposto.

Atitude  semelhante  a  do  preconceituoso:   escolhe   a

 

 

— 319 —

distância, o afastamento, para não se contaminar!

Nessa senda caminham tais salvadores de almas, cuja existência aparenta estar assegurada por uma fé distorcida, pois não é fé verdadeira, senão automatismo psíquico, expressão de outro mecanismo patológico: o da alienação[40]. Como Freud tem razão!

Hoje, diante do que acabo de dizer, só me resta lamentar e esperar que aqueles que se julgam condutores de outros homens despertem para esta realidade, que sei crua e dolorosa.

Se não despertarem, que lavem as mãos, quais novos Pilatos, ao fingir ignorar o sofrimento de quem habitualmente condenam.

De minha parte já não me impressiona seu gesto, pois julgo ter encontrado a paz, a tranquilidade (e a que preço!) que igual não consegui nos anos em que fiquei enclausurado.

Não foi outra a motivação que me levou a escrever, no pedestal de meus setenta e sete anos (2008), o poema que faço questão de reproduzir:

 

Envelhecer

 

Aos setenta e sete anos

não  sinto que envelheci

— sinto que me envelheço…

Não me sinto o produto,

mas o próprio processo.

Ainda não direi como Neruda:

— "confesso que vivi".

Voltado para dentro de mim

vejo que não me envelheço

para morrer

— me envelheço para viver!

Não me causa pejo confessar:

— ao envelhecer, estou descobrindo

o que é verdadeiramente viver.

Hoje me surpreendo:

— o que é envelhecer?

Apenas sei:

minha visão da vida

se alargou.

Aprendi a amar a mim mesmo

de modo diferente.

Honestamente amo muito mais o outro

e o que ele faz

que a mim mesmo.

Sinto que estou amando

muito mais a singularidade

de cada um

do que a totalidade do ser humano.

Sim confesso:

— sinto que meu amor é diferente

até daquele que existe no

amai-vos uns aos outros como a vós mesmos

que emblematizou a mensagem de Cristo.

Longe de mim ostentar nietzschianamente

 

 

— 321 —

que superei o cristianismo,

mas honestamente não me fazem mossa

seus preceitos e seus mandamentos

nem a esperança de um paraíso,

se o preço for a desvalorização da Vida.

Jamais me permitirei

alcançar o futuro

em troca da perda do presente

e da serenidade

que este presente me traz.

Neste aqui e agora em que vivo

sinto um amor intenso,

porque vivo a supressão do tempo.

e a ruptura dos limites de meu lugar.

Sinceramente, honestamente

por não temer a morte,

já não tenho medo de amar.

Não me preocupam as formas do amor

sua tipicidade e sua atipicidade.

Amo, simplesmente amo o e no presente

tanto quanto amo intensamente

àdistância e a própria distância,

 

certo de que na outra ponta

existe alguém que realiza

meu próprio amor,

mesmo sem saber,

mesmo se não quiser…

Sinto o amor constantemente presente.

E este presente é um momento de eternidade

— a própria eternidade

 

 

— 322 —

em fluxo de tranquilidade.

É isso que está sendo

o meu envelhecer.

 

Desabafei.

O que acabo de escrever, repito, não é fruto da mágoa, da revolta.

 

      O desabafo não impede

a gratidão

 

Ainda que pareça paradoxal, reservo este espaço para uma declaração que o tempo nunca conseguiu, nem conseguirá apagar: com toda sinceridade, apesar de tudo, sou grato aos salesianos! Reconheço o quanto fizeram para que eu tivesse princípios morais, soubesse respeitar os outros e, particularmente, tivesse disciplina intelectual. Isso jamais lhes posso negar. Reconheço e agradeço.

E sou impulsionado a afirmar: apesar de tudo que relatei, mesmo levando em conta as características do discurso de desabafo, sinto saudade daquele meu tempo. Afinal não vivi, nem sofri ali sozinho, nem dentro de uma solitária. Era uma vida em comum, com tantos colegas que se tornaram verdadeiros irmãos e amigos. Por isso a palavra mais adequada é mesmo esta: saudade!

Mas honestamente não posso deixar de perguntar: Se nunca tivesse vivido aquela vida, dos dez aos vinte e cinco anos, acaso não teria sido uma pessoa muito superior à que sou hoje?

Diante de tal indagação, só tenho uma resposta que continua sendo outra interrogação: —  Chi  lo  sa?!  (quem  o

 

 

— 323 —

sabe?!).

Como já confessei: por não sermos frutos do determinismo nem da predestinação, só posso aceitar sermos filhos do Acaso.

 

                      Lição inesquecível

 

Independente de aceitar ou não que o Acaso rege nossas vidas, para viver jamais podemos nos colocar fora da realidade concreta, que, por sua vez, não é linear, nem goza da assimetria da causalidade singular, como pensava Aristóteles e seu papel carbono, Tomás de Aquino, justo por ser dinâmica e ser um processo, no qual tudo se relaciona. É movimento em espiral. O que pensamos ser causa, numa etapa posterior já é efeito e na seguinte volta a ser causa. As circunstâncias e as variáveis de nossa vida sempre estão se interrelacionando e concomitantemente umas influenciando as outras e sendo por estas influenciadas. E neste processo, nada é, tudo está sendo. Uma realidade, por não ser estática, nem absoluta, que resiste aos nossos desejos, a nossa vontade e, por ser ela mesma contraditória, eivada de conflitos se nos apresenta sempre como desafio, cabendo a nós, para atingir a superação agudizar tais conflitos, ao invés de aceitá-los passivamente ou com a apatia dos conformados. E esta só se consegue quando cada um de nós encontra seu próprio suporte referencial (nada há de ser imposto a nós de fora, como norma de conduta ou de viver). E a quem se encontra no limiar entre superar o velho para encontrar o novo, cabe lembrar: o que é superado é abolido, suprimido. Mas o superado não deixa de existir, não recai no puro  e  simples   nada;   ao   contrário,   é   elevado   a   nível

 

 

— 324 —

superior. Justamente, porque serviu de etapa para se atingir o novo resultado. Tal qual a criança que, apesar de superada, continua no adulto, sem desaparecer, não como criança, senão na lembrança, na memória e no caráter de um adulto.

Em síntese: ao deixar de ser salesiano para recomeçar a ser cidadão comum, tinha que enfrentar sério conflito existencial e o desafio da superação. E tenho hoje certeza de que o consegui, a partir do momento em que comecei a encarar a vida dialeticamente.

Isso, não foram os salesianos que me ensinaram. Nem foi a filosofia escolástica, nem a teologia tomista, muito menos os livros tão propalados como sagrados, lidos como a revelação de um Ser incompreensivelmente distante[41], mas a dois notáveis seres humanos, também eles escritores para mim legitimamente sagrados, aos quais, por gratidão, sou levado a atribuir a mudança operada em meu modo de pensar e de viver: Sigismund Schomor Freud (26/05/1883-23/09/1939) e Karl Heinrich Marx (05/05/1818-14/03/1883). Ao primeiro, por ter me ensinado que nossa sociedade ocidental precisava de alguém que desmascarasse a hipocrisia do “animal racional”, que despreza o prazer, e ao segundo por me ter apontado que o ser humano, antes de priorizar a si mesmo, necessita rever que, na dialética do desenvolvimento histórico da humanidade, tudo devemos à sociedade já constituída e essa é que merece prioritariamente ser valorizada, pois está baseada nas relações construtivas das classes que a compõem e com isso há de se proceder constantemente à rejeição do capitalismo egoísta inserido na classe dominante.

Foi lendo quase toda a obra de Freud, sobretudo Interpretação dos sonhos, Psicopatologia da vida cotidiana, Introdução ao narcisismo, Uma teoria sexual, Metapsicologia, Mais além do princípio do prazer, Psicologia das massas e análise do Eu, que me descobri e encontrei resposta a meus conflitos interiores. Sinceramente não fosse a leitura de sua obra, só saberia de sua existência indiretamente, em segunda mão, através de citações.

No mesmo nível sou sumamente grato a Marx. Quem me fez descobri-lo verdadeiramente (antes só o conhecia de “orelha”!) foi meu saudoso e inesquecível amigo e colega de magistério tanto no Colégio Municipal de Belo Horizonte como na Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFMG: Luiz de Carvalho Bicalho (†15.09.1994).

Entre tantas convicções que com ele consegui firmar, no mínimo duas merecem aqui serem reproduzidas. A primeira, de ordem filosófica: discutir a existência de Deus é discutir um falso problema. Provoca argumentos até apaixonados. Mas, ao cabo, ninguém convence ninguém. A segunda, do mesmo naipe: não existe alma, como entidade, como ser. Até metafisicamente soa falso o argumento atribuído a Aristóteles, mas que é lidimamente escolástico: “todo efeito é da mesma natureza de sua causa. Pensamentos, conceitos, ideias não são materiais. Logo existe, uma causa no ser humano que seja imaterial e esta só pode ser a alma”. Basta lembrar que, independentemente   de    Freud,    o    próprio    avanço    da

 

 

— 326 —

psicologia tem demonstrado que para explicar pensamento, raciocínio, inteligência, ideias, sentimentos, percepções, não há necessidade de recorrer à falsa instância de uma metafísica inócua. Corrijo, inócua nem tanto, pois tal metafísica se construiu para alicerçar a teologia e esta para servir de suporte ao exercício do poder dos que invocam serem representantes de Deus na terra e com a missão de conduzir os humanos para a salvação na outra vida. Tanto a existência da alma como a de Deus é questão de fé, crença. Não de filosofia, muito menos de ciência.

Não estará aqui uma das respostas aos que se preocupam com as novas posturas filosóficas e a “onda de ateísmo” que tem caracterizado o mundo contemporâneo, a ponto de abalar as convicções dos teólogos católicos?

Registrei apenas um minimum minimorum das inúmeras reflexões feitas em conjunto com meu saudoso e fraternal amigo, Luiz de Carvalho Bicalho.

Pouco depois de sua morte, a FAFICH o homenageou, dando ao auditório o seu nome. Na ocasião o diretor — Prof. Hugo Amaral — me convidou para fazer o discurso comemorativo. O texto foi publicado na revista Caminhos (nº 10, dez. 1994) da Associação dos Professores — APUBH — UFMG. Tomado ainda pela dor da perda do grande amigo e confidente, disse, fazendo minhas as palavras de Joel Silveira em Conspiração na madrugada: (…) Dói perder-te. Dói principalmente saber que não há uma só palavra que possa te trazer de volta. Ainda há pouco eras real como o dia. E tudo o que vinha de ti — um gesto, um sorriso, uma palavra — prometia a perpetuação do tempo que fizeras nosso.

Até  hoje  sinto  fortemente  sua  ausência,  pois  ele  foi

 

 

— 327 —

mais do que amigo, foi irmão e verdadeiro guru. Ainda, naqueles dias, escrevi, em sua homenagem, o poema publicado em Na mesma tecla e que tomo a liberdade de reproduzir, em nome da saudade e da gratidão:

 

Vida sem presente

 

(Lembrando Bicalho, amigo e irmão de crença

no  mesmo ideal   socialista)

 

Quando ele morreu

o presente sumiu.

Ficou só o passado a recordar

bons tempos com ele vividos.

Com ele projetamos o futuro.

Mas como o presente

o novo tempo se ocultou

atrás de egoístas nuvens

que o guardam para si.

 

Ainda espero

e ele qual sol

volte a brilhar nossos dias.

 

Se não passarem

que se avolumem

em plúmbeo negror

e se convertam

em água de grossa chuva

para que caiam

sobre nossas cabeças

as bênçãos

de sua eterna lembrança.

     

 

— 328 —

O filme rebobinado

 

         Estava meditando sobre tudo que aconteceu e tentando rever aquele ano de libertação em Goiânia, quando percebi que ainda estava diante do portão de minha casa na Rua Diamantina do Bairro da Lagoinha em Belo Horizonte.

Incrível, apenas fisicamente ali estava, pois mentalmente vivia o e no passado. Em frações mínimas de tempo vivi anos e anos como se um filme estivesse passando na tela de minha memória.

Aquela rua, aquela casa, aquele portão, aquela escada, meus companheiros de rua e nossas brincadeiras, o dia D de minha ida para o seminário, a profecia de meu irmão, a chegada ao colégio São João de São João Del Rey, a missa e a comunhão diárias, a confissão semanal, a leitura do Jovem Instruído: para rezar e para aprender a ser casto, o olho de Deus no lavatório, o libelo contra quem abandona o arado para olhar para trás, o “deixai os mortos enterrarem seus mortos”, os retiros espirituais e o fogo do inferno a crepitar nossa inocência, o paradoxo pedagógico: padres educadores que professavam o sistema preventivo de Dom Bosco e praticavam o sadismo pedagógico,  a opção dos salesianos pela ação em lugar da contemplação e da vida intelectual (o ai dos intelectuais! do diretor de Lavrinhas), o Noviciado em  Pindamonhagaba, o ambiente de meditação e oração, os três grandes sacerdotes que me marcaram: Padre Luiz Garcia de Oliveira — Padre Camilo Faresin e, sobre todos, Padre Astério Campos: sacerdote autêntico que era “avis rara” no meio da mediocridade salesiana, a transformação do homem velho em homem novo, a revelação  da  Filosofia,

 

 

— 329 —

a voracidade pela leitura, o encontro do Discours de la mèthode de Descartes e a mudança em minha vida, o encontro com a literatura e o fascínio de ler os clássicos e os grandes autores brasileiros e portugueses, o “católico da mão estendida”, o fascismo imperante entre os salesianos,  minha entrada para a Teologia, meu esforço em conciliar Fé e Razão, o dia em que fui declarado “apóstata” por renegar São Tomás de Aquino como o dono da verdade, minha saída dos salesianos, o “antes romper com o passado que comprometer meu futuro”, o ano de libertação em Goiânia, até que enfim o reencontro em Belo Horizonte, aos 26 anos, com o menino que dali partira com 10…

Revivendo tantos e tantos momentos de vida, ainda meio atordoado por vivenciar tudo aquilo em tão pouco tempo, tomado emocionalmente pelo conflito entre a necessidade de desabafar e o sentimento da saudade, eis que senti bater em meu ombro a mão de Lalau. Foi como se me tivesse despertado de enorme pesadelo.

Vamos rever, uma por uma, as casas, para saber qual é ainda do nosso tempo e se está até hoje como era.

         Sem atentar para o teor do convite, simplesmente lhe respondi:

Para quê? Esta rua não tem memória. E já não nos pertence. Memória, nós é que dela temos. A nossa Rua Diamantina já não existe, só existe a que está dentro de nós com tudo que nos acarretou de experiência, de alegria e de tristes lembranças. Em cada casa se poderia colar em lugar da placa do número, outra com os dizeres: "Por esta rua a Vida passou e ela não viu".

   

 

 

 

— 330 —

 

 

 

 

Apêndice

 

Conforme prometido, neste apêndice está transcrito o discurso que proferi na instalação da Hora Universitária do Centro Acadêmico Ruy Barbosa da Faculdade de Filosofia de Goiás em 1956 e que foi transcrito nos Anais da Assembleia Legislativa de Goiás.

 

Prezados radiouvintes.

Em boa hora surgiu do meio do Centro Acadêmico Ruy Barbosa da Faculdade de Filosofia de Goiás, a iniciativa deste programa rádiofônico, que haverá de levar por sobre os telhados o pensamento, as conquistas e os valores universitários.

A oportunidade dessa criação se impõe por muitos títulos quase todos há pouco declinados.

Um, entretanto, existe que pelo seu cunho de atualidade, pela sua feição de patriotismo e pela significação histórica de que pode se revestir - por si só está a recomendar o entusiasmo desta plêiade de jovens que abandonando por momentos outras preocupações, deixam a colina esbelta da futura Cidade Universitária, numa revoada de idealismo, para vir se postar ao microfone e estabelecer um contato científico, artístico, cultural com Goiânia e com o Brasil.

Este título, prezados radiouvintes, é aquele mesmo, que há tempo vem sendo a preocupação de muitos de nossos homens de governo e administração — o tema da discussão de boa parte de nossos intelectuais e particularmente vem se tornando a palavra mágica a despertar os maiores entusiasmos no povo brasileiro. É a transferência da Capital do Brasil para o Planalto Central.

No momento de evolução  histórica  por  que  passamos  esta

 

 

— 331 —

ideia assume para todos nós importância capital.

E seria inconcebível que a Faculdade de Filosofia de Goiás justamente aquela que pela sua posição privilegiada que ocupa no coração do território nacional está fadada a desempenhar um dos mais relevantes papéis de orientação entre os nossos futuros dirigentes, seria inconcebível, repito, que esta Faculdade ficasse alheia a este acontecimento.

É por isso que o Centro Acadêmico Ruy Barbosa, interpretando o sentimento e a aspiração coletiva dos universitários de Goiânia, notadamente dos acadêmicos da Faculdade de Filosofia, toma a si o encargo, e se orgulha patrioticamente de empenhar seus melhores esforços para a consecução de tão glorioso intento.

A parcela mínima de nossa contribuição a este contagiante movimento nacional constitui para nós um motivo de justa ufania e, como tal, de bem digna paga.

Aos céticos, aos indiferentes, àqueles que já se quedaram de mão mendiga à margem da vida, poderá parecer ingênuo, perdido, e até ridículo este nosso modo de proceder.

Não assim a nós que sentimos a alma aberta para os grandes ideais; não assim a nós que sonhamos com um Brasil de cabeça erguida na parada das Nações; não assim a nós que cremos em nossa independência política e econômica e tudo faremos para que nossa pátria cristã desempenhe a missão que a Providência Divina lhe reserva.

E permiti, senhores que vos diga, que vos revele, nesta primeira noite de nosso encontro — a hora mais oportuna para o fazer — permiti que vos confesse qual o motivo capaz de explicar tamanha convicção em almas tão jovens. É que conhecemos o valor, o poder de uma ideia.

Não há força muscular, nem baionetas, nem bombas de hidrogênio ou de cobalto capazes de dirigir o mundo e o dominar como o poder do espírito, o poder da ideia.

Como magistralmente escreveu Ricardo Graef:

“São as ideias que envolvem  e  transformam  tudo.  Basta  às

 

 

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vezes um pensamento, uma ideia para abrir caminho a descobertas magníficas, a invenções geniais ou a conquistas ousadas. Num pensamento profundo e numa grande ideia há um poder tal que, com o correr do tempo, nada lhe resiste. Certas concepções ousadas têm traçado à humanidade a sua trilha através dos séculos, decidido da guerra ou da paz, de reformas sociais e de sistemas de religião. O espírito humano tem sabido dominar as forças e as leis da natureza, não raro ocultas e sem freios, e avassalar as forças físicas tanto quanto os seres vivos. O próprio homem capitula ante o poder formador das sãs ideias (...). Essas ideias arrancam-no a si mesmo, transportam-no às culminâncias ou precipitam-no no abismo, divinizam-no ou assemelham-no ao demônio. Todo aquele que é completamente dominado por uma grande ideia torna-se um dominador: a sua palavra é fulgurante, e as massas não resistem ao seu poder” (GRAEF, Ricardo, Ita Pater, p. 18-19).

Eis o que nos impele o entusiasmo.

Batemo-nos por um ideal!

E este ideal queremos difundí-lo entre os nossos patrícios, fazê-lo penetrar através do ar, do som, da letra, da cor, da imagem, do gesto, da palavra, em todos os recantos onde houver um coração brasileiro e aí, dentro deste receptáculo sagrado, fazer este ideal calar, deitar raiz, crescer e frutificar em sementes de novas conquistas.

Mas não julgueis adolescente, passageiro como crise, este nosso idealismo.

Não.

É um idealismo sadio e realista, porque lastrado em conhecimento de causas e impelido por uma necessidade objetiva.

Lutaremos pela transferência da Capital Federal para o Planalto, para o coração do Brasil — o coração, o lugar onde verdadeiramente deve ficar localizada a alma da Nação. Lutaremos por esta transferência em virtude de todas as razões, frisadamente daquelas  que  pautaram  a  série  de  considerações  da  Resolução

 

 

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tomada pela Comissão Interestadual dos seis Governadores dos Estados da Bacia Paraná-Uruguai, reunidos em Goiânia em 29 de maio do ano passado, as quais são as mesmas que motivaram o Artigo 4, das Disposições Transitórias da Constituição Federal, a saber:

“A impossibilidade, de a esta altura da conjuntura político-socio-econômica da Nação Brasileira, ter a sua Capital no litoral afastada do resto do País como que lhe voltando as costas pela serra do mar”;

“A necessidade que tem o Brasil de encontrar-se a si mesmo, estabelecendo o eixo da própria administração no coração de seu território, de forma a permitir que as vistas do Governo alcancem os mais afastados pontos da Pátria Brasileira”;

“O fato de ser a mudança da Capital da República para o centro do País assunto tão velho como o sentimento do mais alto patriotismo que levou os Inconfidentes a se baterem pela Independência do País”;

“O fato de em todas as Constituições da República de 1891 a 1946, consubstanciarem nos seus dispositivos a necessidade da transferência da sede administrativa do Brasil no Rio de Janeiro”;

“A consideração de que várias comissões designadas pelo Governo Federal e integradas por pessoas de nomeada reputação, como a primeira chefiada por Cruls, escolheram o Planalto Central Brasileiro como o local mais apropriado para o sítio da futura sede do Governo, o que foi confirmado pela Comissão presidida pelo Marechal José Pessoa, bem como o fato de ter sido declarada de utilidade publica pelo Governo Estadual de Goiás toda a área destinada à futura sede do governo da União”;

“A constatação de que a localização da sede do Governo da União na referida área atuará como núcleo de germinação e será um acontecimento pioneiro que fará acordar o espírito empreendedor dos Bandeirantes de outrora”;

“Enfim, o conhecimento de que tal medida é de indisfarçável poder para solucionar o problema do considerável contingente demográfico  a  se   deslocar   para   o   interior   e   com   isso   vem

 

 

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desafogar o congestionamento do litoral, podendo o fato ser considerado o reencontro da marcha dos bandeirantes, estendendo as nossas fronteiras econômicas aos limites geográficos do território nacional, com a irradiação do progresso do centro para a periferia”.

Eis prezados radiouvintes, a razão de nossa tão nobre cruzada.

Para o Centro Acadêmico Ruy Barbosa, a Faculdade Filosofia não poupará energias, certos da elevação de sua fé, da fé de seu patriotismo, do patriotismo de seu ideal.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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[1] Embora poucos dicionários registrem, no meu tempo de menino, chamava-se “trinca” o bando de meninos que geralmente se formavam em competição com outro bando ou a turma de outra rua. Frequentemente as trincas se enfrentavam em luta coletiva por motivos fúteis, como, por exemplo, porque aparecia um intruso de outra freguesia com intenção de namorar alguma menina pertencente a outro bairro ou rua distante.

 

 

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[2] Conforme registrado em O cavalo de São Roque, papai tinha um só braço. Perdera o outro, quando criança, por causa de gangrena oriunda de queda de cavalo, acidente só descoberto três dias depois. Não obstante tornou-se exímio marceneiro, além de alfaiate e seleiro. Falecido, quando eu tinha dois anos, recebi como herança e prova de suas habilidades em casa: móveis, como mesas, armários e uma estante sem prego algum feita como presente ao poeta Da Costa e Silva, seu cunhado, além de peças de couro, como uma tala que era nosso terror e aquela manivela a que me referi.

 

 

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[3] Faço uma observação, que, de antemão, peço não a interpretem como expressão de regionalismo, muito menos como idiossincrasia

 

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em relação aos paulistas. Somente em São Paulo e no dia 9 de julho há a comemoraçãoda chamada “Revolução Constitucionalista”. Nos onze anos em que estudei em São Paulo,senti de perto como os paulistas faziam questão desta data. Sempre interpretei o fato como ressentimento regionalista e não como patriotismo. Pela história é sabido que o levante pelos paulistas denominado “revolução” se deu numa tentativa de represália à Revolução de 30. Esta, por sua vez, surgiu do rompimento do Convênio de Taubaté, proposto pelo vice-presidente da República, Afonso Pena, em 1906, com a participação dos governadores de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. Nesse convênio, além do objetivo principal – a solução da crise da produção cafeeira – os governadores de São Paulo e Minas celebraram o acordo de alternância no poder, dando origem à política do “café com leite”. O rompimento do acordo se deu com o lançamento da candidatura de Júlio Prestes, em lugar do governador mineiro, Antônio Carlos de Andrade. Diante da vitória, por fraude, de Júlio Prestes, formou-se a Aliança Liberal chefiada por Minas, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro e Paraíba para impedir a posse de Júlio Prestes. São Paulo inconformado fez eclodir a revolução.  Como os demais Estados aderiram à Aliança Liberal, São Paulo, sozinho, acabou derrotado e Getúlio Vargas foi empossado como presidente e veio a se tornar ditador. São Paulo continuou inconformado com a derrota e novamente se levantou contra o Brasil, alegando que os paulistas é que estavam defendendo a Constituição. Daí a Revolução de 32 ser chamada pelos paulistas de Constitucionalista. A mágoa dos paulistas é bem retratada nas palavras de um de seus líderes, Candido Mota:A guerra anunciada pela chamada Aliança Liberal não é contra o Sr. Júlio Prestes. É contra nosso Estado de São Paulo, e isso não é de hoje. A imperecível inveja contra o nosso deslumbrante progresso que deveria ser motivo de orgulho para todo o Brasil. Em vez de nos agradecerem e apertarem em fraternos amplexos, nos cobrem de injúrias e nos ameaçam com ponta de lanças e patas de cavalo! Palavras que retratam fielmente o orgulho paulista de querer dominar o Brasil. Não é por menos que fizeram questão de colocar em sua bandeira: non ducor, sed duco (não sou conduzido, mas conduzo). Explica-se assim por que até hoje fazem de tudo para eleger um paulista, presidente da República.

 

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[4]  Dr. Emanuel Borrocin era muito competente. Parece que era descendente de pais judeus. Nunca o esqueci, porque realmente me curou de um mal que até hoje assola o país como verdadeira epidemia: a esquistossomose. Infelizmente o Dr. Borrocin teve um fim trágico. Há alguns anos fiquei sabendo que se tornara cardiologista e, se não me engano, passou para o ramo da psiquiatria. Tinha um filho que acabou dependente de drogas. Conforme o noticiário que li, este filho conseguia as drogas, às escondidas, no consultório do pai. Um dia, tentando livrá-lo da dependência, o pai o trancou em casa. Enquanto atendia ao telefone, o filho se armou de uma faca e matou o próprio pai pelas costas.

 

 

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[5]“Macadame” assim era chamada no meu tempo a máquina de amassar o asfalto formado de piche misturado com areia e brita e ao mesmo tempo o alisava. Provavelmente uma metonímia, primeiro porque a palavra deriva do engenheiro que inventou o sistema de pavimentação, Mac Adam; segundo porque passou a designar não só o sistema como também a máquina de pavimentação.

 

 

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[6]A Rua Rutilo hoje se chama Rua Comendador Hohme Salomão. Provavelmente seja nome dado em homenagem a um padre maronita, cuja igreja e casa paroquial foram construídas pelo Antônio, meu irmão de criação.  Pelo que consta dos mapas mais recentes, ela está fadada a desaparecer entre a Rua Diamantina e a Av. Antônio Carlos para o alargamento desta. Como se trata de reminiscência de minha infância, continuarei denominando aquela rua de Rua Rutilo

 

 

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[7] Acredito tenha sido realmente de nailon (aportuguesamento de nylon), pois, segundo descubro na internet, “atualmente, a fibra

 

 

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orgânica nylon possui uma vasta utilização, mas no início do século XX (1927) ela surgiu “meio tímida” para substituir a seda”. O episódio do “corte da capa” se deu em 1939.

 

 

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[8] Desde meu tempo de seminário sempre estranhei esta tradução portuguesa “até o fim dos séculos”. A tradução grega e a latina colocam até a consumação do século, no singular (em latim saeculi - no grego: αιωνος = era). Sem pretensão de ser exegeta, a divergência me leva a agnosticamente pensar que a promessa de Cristo se esgotaria no final do primeiro século de nossa era (em 999). É possível que o mito e crença de que “mil passarão mas dois mil não chegarão” se prenda a essa tradução. Será que um filósofo ateu não veria aqui uma das tantas manifestações, ainda que esta seja mínima, de serem os chamados autores sagrados senão autores de mitos e fábulas? Michel Onfrey escreveu: “a confecção desses livros ditos santos está ligada às leis mais elementares da história. Deveríamos abordar todo o corpus com olhar filológico, histórico, filosófico, simbólico, alegórico, e qualquer outro qualificativo que dispense de acreditar que esses textos sejam inspirados e produzidos segundo o ditado de Deus. Nenhum desses livros é revelado. Por quem aliás? Essas páginas não descendem do céu mais do que as fábulas persas ou as sagas islandesas”.(Tratado de ateologia, Martins Fontes, 2007, p. 63)

 

 

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[9] Devo a meu cunhado, Júlio César de Paula Lima, ex-aluno dos salesianos em Cachoeira do Campo, a seguinte informação extraída da internet:  “O  jogo  de  espiribol  ou s piribol nasceu na

década de 20, na localidade granadina de Lanjarón (Espanha). D. Baltasar Fábregas, militar de profissão e jardineiro de vocação é considerado o pai do spiribol. Durante todos estes anos, a prática do spiribol não saiu da esfera familiar e popular. Quase 80 anos depois, a criatividade e o alto grau de motivação e diversão que caracterizam o jogo fizeram com que um de seus netos decidisse compartilhá-lo com toda a comunidade esportiva. Ao que tudo indica, na sua migração para o Brasil, o esporte sofreu transformações de estrutura, mas as regras mantiveram-se basicamente as mesmas: a bola aumentou até o tamanho aproximado de uma de vôlei, o mastro de jogo ganhou altura e as raquetes foram dispensadas em favor das mãos. Em nosso país ele recebe em algumas regiões o apelido de PIPOCÃO”. Ver:

 

 

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[10] Acabo de me referir à prevenção contra possível ataque alemão

 

 

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ao Brasil. Sem propósito, associo o fato a outro contado por minha mãe. Ela era agente dos Correios, responsável pela agência na Rua Paracatu, no bairro Barro Preto. Reiteradamente surgia um senhor descendente de alemão e enviava carta para Alemanha. Mostrava para minha mãe que estava mandando, em pétalas de rosa, declaração de amor para sua noiva. A agência era também frequentada por um vizinho, tenente do exército, grande amigo de nossa família, o Sr. Tardil. Ao ouvir de minha mãe o elogio ao apaixonado alemão, estranhou e lhe solicitou que barrasse a próxima correspondência. De posse da tal pétala de rosa, a enviou para o Serviço Secreto do Exército. Descobriram que se tratava de um espião alemão, a trabalhar para os nazistas em plena cidade de Belo Horizonte.

 

 

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[11] Este santuário São Benedito foi construídograças ao Conde Moreira Lima e seu irmão, o Barão de Castro Lima, que pertenciam a Irmandade de São Benedito. Eles adquiriram um terreno, na então Rua da Princesa Imperial (hoje Rua Dom Bosco) para construir o templo. Em 3 de março de 1890, os padres salesianos chegaram e, desde então, se responsabilizaram pelo Santuário. Além do santuário, a família Moreira Lima deve ter doado o terreno para a construção do colégio. Parece que, ao morrer, deixou como herança para os salesianos o palacete em que morava, pois na década de 1950, ao ser fundada a Faculdade de Filosofia, esta passou a funcionar em grande parte naquela residência. Corria entre nós curiosa história sobre este conde. Pronto o santuário, ele mandou instalar o órgão por ele encomendado na Itália. Os técnicos o avisaram que o som não seria tão perfeito, porque o santuário não tinha acústica. - Como não? Não mandaram junto com o órgão? Então eu mando buscar na Itália!...

 

 

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[12] Breviário:nome dado ao livro de reza e meditação obrigatórias para os sacerdotes católicos. Segundo a Wikipedia, o nome “Breviário” provém do século XI, quando apareceu um livro que continha todos os textos necessários para o Ofício divino, que condensava num só volume o que até então se encontrava repartido por vários livros. Por ser mais curto ou “breve” e prático, passou ser conhecido por esse nome, que se manteve até à última reforma litúrgica para designar cada um dos volumes (Breviarium Romanum).

 

 

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[13] Domingos Savio nasceu em 1842 e morreu com 15 anos após ter sido aluno de Dom Bosco em Turim por três anos. Foi canonizado por Pio XII em 1954.

 

 

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[14] Depois de ter sido inspetor no Mato Grosso, o Padre Ladislau Paz acabou sagrado bispo de Corumbá.

 

 

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[15] Por mera coincidência, hoje (05/12/2009) pouco depois de rever este trecho, ao consultar a internet sobre jogos em colégios salesianos, deparo com esta informação que nada tem a ver com jogos: o Eduardo Ambrósio (1930 -), com 79 anos, é vigário de uma paróquia em Campo Grande.

 

 

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[16] Importa registrar que Dom Bosco, ao fundar a Congregação Salesiana, assim a denominou em homenagem a São Francisco de Sales, santo escolhido por ele por  representar  emblematicamente

 

 

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a mansidão e compreensão que deveriam caracterizar seus religiosos educadores, ao aplicar o sistema preventivo. Assim leio na internet: “Recebem o nome de "Salesianos" as pessoas que pertencem à Família Salesiana de São João Bosco. A Família Salesiana foi fundada por São João Bosco para a educação e promoção da juventude mais pobre e a classe popular. A 3 de Abril de 1874 a Igreja aprovou a Congregação Salesiana formada por Sacerdotes e Irmãos que se propõem serem "sinais e portadores do amor de Deus aos jovens, especialmente aos mais pobres". O fundador deu a esta Congregação Religiosa o nome de "Sociedade de S. Francisco de Sales", porque a espiritualidade deste santo devia inspirar um estilo educativo que denominou "Sistema Preventivo". Para distinguir esta Congregação de outros institutos inspirados também em S. Francisco de Sales, os membros deste Instituto recebem a sigla de S.D.B. (Salesianos de Dom Bosco)

 

 

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[17] Lembro passagem lida na vida de Descartes: ao saber o que aconteceu com Galileu (o fato de ter de abjurar de sua teoria heliocêntrica, para não ser condenado à fogueira pela Inquisição), pediu a seu editor que só publicasse seu trabalho sobre física, depois de sua morte.

 

 

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[18]  Por falar em Os Lusíadas, importa lembrar  que  havia  só  uma

 

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edição na biblioteca. Quando comecei a lê-la, notei que o livro não  tinha todos os dez cantos. Faltavam dois: o sexto e o nono. Com um pouco de malícia, acabei descobrindo o motivo: no Canto VI, Camões narra a hospitalidade do rei de Melinde e se detém em enaltecer a mitologia grega que aborda o prazer, como as aventuras de Baco e, em determinado momento, os navegantes por estarem cansados da viagem aproveitam momentos de ociosidade para relatar episódios vividos, sobretudo a narração de Veloso sobre o heroi Magriço que vence os doze de Inglaterra e é recompensado com as donzelas que lhe são dadas como prêmio. Já no Canto IX o autor se detém em cantar os prazeres obtidos na alucinação quando os marinheiros saem à praia e se entregam em devaneio às ninfas que aparecem na Ilha dos Amores. Não sei se por preconceito ou ignorância crassa, o censor deve ter associado o Canto VI com o sexto mandamento da lei de Deus (não pecar contra a castidade) e o Canto IX com o nono mandamento (não cobiçar a mulher do próximo). Curiosamente entre os dez mandamentos são os dois destinados à preservação da pureza, como diriam os salesianos. Teria Camões associado os dez cantos de sua obra aos dez mandamentos da lei de Deus? Só alguém com a mente obcecada pela ideia de pureza e de pecado poderia fazer tal associação.

[19] Com o Ebion mantenho hoje assídua correspondência, através da internet. Desde que saiu da Congregação Salesiana, mora nos Estados Unidos, onde se casou e fez brilhante carreira acadêmica. Seu   talento,   cultura   e   conhecimento   de    literatura    foram

 

 

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reconhecidos pelos americanos, a ponto de ter sido “Full Professor” na Universidade de Columbia e na de Missouri, onde, há alguns anos, se aposentou. Basta consultar a internet para averiguar seu valor. Devo ao Wilson Salgado (ver nota 20) a descoberta do Ebion na Terra do Tio Sam.

 

 

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[20] Há alguns anos o Wilson Salgado me descobriu, lendo carta ou artigo meu publicado pela Folha de São Paulo. Desde então, por causa daquela forte amizade iniciada em Lorena, passamos a nos corresponder. Ele hoje mora em Ribeirão Preto, SP, e pertence à Academia de Letras daquela cidade. A ele devo a bela Apresentação feita para meu livro de poesia Na mesma tecla.

 

 

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[21] “Católico da mão estendida” foi uma expressão muito usada, na época, para designar aqueles que tentavam a aproximação dos ideais socialistas à militância política católica. Parece que sua origem é francesa: “politique de la main tendue”.Curiosamente várias encíclicas papais condenaram essa atitude. No entanto, naquela época, não vi nenhuma condenação ao fascismo, ao nazismo, muito menos ao capitalismo.

 

 

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[22]    Descubro pela internet que Wanir, apesar de não ter sido meucolega no Instituto Pio XI, ordenou-se padre. Não sei se continuou salesiano. Faleceu em Cuiabá, onde existe até um colégio com seu nome.

 

[23] Merece ser reproduzido o Giovinezza, sobretudo para quem nunca o ouviu cantado: “Salve, o Popolo d’ Eroi / Salve o Patria immortale! / Son rinati i figli tuoi / Con la fè nell’ ideali. / Il valor dei tuoi guerrieri / La virtù dei pionieri, / La vision del Alighieri / Oggi brilla in tutti i cuori./ Giovinezza, Giovinezza / Primavera di bellezza / Della vita nell’ asprezza / Il tuo canto squilla e va! / Dell’Italia nei confini! / Son rifatti gli italiani / Li ha rifatti Mussolini / Per la guerra di domani / Per la gioia del lavoro / Per la pace e per l’alloro,/  Per  La  gogna  di  coloro /  Che  la  Patria  rinnegar /

 

Giovinezza! Giovinezza / Primavera di bellezza / Della vita nell’ asprezza / Il tuo canto squilla e va! / I poeti e gli artigiani, / I signori e i contadini / Con orgoglio d’Italiani / Giuran fede a Mussolini / Non v’é povero quartiere / Che non mandi le sue schiere / Che non spieghi le bandiere /Del Fascismo redentor. / Giovinezza, Giovinezza / Primavera di bellezza, / Della vita nell’asprezza / Il tuo canto squilla e va!".

 

[24] Duas curiosas informações a respeito desse irmão coadjutor por mim sempre admirado. A primeira: ele fora designado para dar aula de História para o curso colegial no Santa Rosa de Niterói. Mal terminou a primeira aula, os alunos impressionados com seu brilhantismo lhe colocaram elogioso apelido tipicamente carioca: “Noite Ilustrada”. A segunda: estávamos passando férias no Colégio Dom Bosco de Cachoeira do Campo. Junto com os clérigos de São João Del Rey estavam também os aspirantes. Apareceu o Irmão Walmor. Num domingo nos brindou com uma sessão de hipnotismo. O último número  ocorreu  fora  do  teatro.  Depois  de

 

 

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hipnotizar um aluno mandou que ele se deitasse no pátio do colégio. Ficou esticado. Duro feito uma pedra. Em seguida fez um caminhão passar por cima do hipnotizado. Despertado e em perfeito estado, o jovem se levantou e nos confidenciou que não ficou sabendo de nada que aconteceu.

 

 

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[25] Como é a primeira vez que registro o nome do colega Geraldo Servo, sinto obrigação moral e afetiva de render-lhe homenagem. Era pessoa sumamente inteligente. No tirocínio, em São João del Rey, ficamos mais unidos ainda. Creio ter havido certa incompatibilidade dele com o Diretor do colégio São João. Tanto assim que, ao final do primeiro ano, pediu sua transferência para outro educandário. Foi mandado para Ponte Nova, onde havia necessidade de um professor de Física. Talvez influenciado por sua decisão, acabei indo para lá também no ano seguinte. Assim terminamos juntos o tirocínio e juntos fomos para o Instituto Teológico Pio XI, a fim de cursar Teologia. Nossa amizade influenciou a comum escolha pelo Curso de Pedagogia. Soube que, quando abandonei a Congregação, ele ficou muito sentido. Pela mão do destino nos separamos fisicamente, sem deixar de continuarmos nossa forte amizade. Mal se ordenou sacerdote, foi mandado para fazer o Curso de Psicologia em Turim, na Itália. Especializou-se    em    Psicologia    Experimental,    o    que     lhe

 

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proporcionou trazer o laboratório instalado no antigo Colégio São João, mais tarde transformado em Faculdade de Filosofia, tal qual acontecera com o Colégio São Joaquim de Lorena. Vim rever o Padre Servo em Belo Horizonte, quando eu trabalhava no Departamento de Orientação e Treinamento – DOT, no Banco da Lavoura. Procurou-me para administrar a um grupo de religiosos a técnica de dinâmica de grupo – DRH (Desenvolvimento em Relações Humanas) – por nós praticada no DOT. Era grande novidade para a época, pois foi através dessa experiência, criada por Píer Weil, Ruy Flores e Célio Garcia que, pela primeira vez, se falou em dinâmica de grupo no Brasil. Mais tarde fiquei sabendo, através de um de seus irmãos, o advogado Pedro Servo, que Geraldo tinha abandonado o sacerdócio e estava exercendo a Psicologia em Brasília. Já estava casado e bem sucedido, quando violento infarto, enquanto dormia, o vitimou e nos separou para sempre.

 

 

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[26] Fato sintomático merece ser mencionado. No início da década de 60, meu irmão Délio se candidatara a vereador e me pediu procurar os salesianos para lhes pedir voto, por dois motivos: ele era ex-aluno, por ter estudado no Colégio Dom Bosco de Cachoeira do Campo e eu fora salesiano. Lá fui eu. Todo entusiasmado e imbuído da maior boa fé. Ao entrar no Liceu Salesiano, situado na Avenida Amazonas, onde se situava a sede da Inspetoria Dom Bosco, por coincidência me encontro no hall da portaria com o padre inspetor, o tal de que falei.  Senti que, ao me ver, demonstrou estar sendo incomodado por quem não deveria estar ali, uma vez que eu era um “defroqué”. Confirmou o que está escrito neste livro no último capítulo: “Lamentável e triste constatação. Julgam ter atingido a finalidade da vida de modo absolutamente inconteste e, no entanto, passam a ver o contrário como opção pela própria desgraça, de tal forma que o problema jamais será deles, mas de quem teve a ousadia de escolher o pólo oposto. Atitude semelhante a do preconceituoso: escolhe a distância, o afastamento, para não se contaminar!” Sinceramente, senti no modo como me recebeu, em sua fisionomia e na frieza do contato que, por ser estranho ao ninho, merecia repúdio. Ele posava de superior, achando que sua pose me humilhava.

 

 

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[27] Anos mais tarde, em 1953, pequeno episódio me deu a dimensão do Padre Leopoldino. Geraldo Servo, outro colega  e  eu, já alunos da Teologia, fomos escolhidos pelo Padre Inspetor para realizar o Curso de Pedagogia na recém criada Faculdade de Filosofia de Lorena, dirigida pelo Padre Carlos Leôncio da Silva. Obviamente tínhamos que fazer o exame vestibular para entrar na Faculdade. Lembro que entre as matérias do vestibular havia História, Estatística, Português e uma língua estrangeira. Chefiava a Banca de História, o Doutor Padre Leopoldino. Durante o exame oral, os candidatos ficavam reunidos na mesma sala. Não havia problema ouvir as perguntas e respostas de cada candidato, pois os pontos eram sorteados, por isso os temas não se repetiam. Éramos chamados por ordem alfabética. Além de nós três, havia outros candidatos, leigos, provavelmente a maioria era da cidade de Lorena. Fui o primeiro dos três colegas a ser chamado. Mas entre meu nome e o do Geraldo, havia uns três ou quatro candidatos leigos. A um deles o Padre Irineu fez a pergunta: - Como se divide a História? Óbvio que para nós, uma das divisões oficiais da História era História Antiga, Medieval, Moderna e Contemporânea, todas circunscritas pelas datas de início e fim correspondentes. Eis que o arguído responde: - A História se divide em tempos antes e depois de Cristo. Tal foi o entusiasmo do Padre Irineu, que se levantou e parabenizou o aluno e declarou alto e bom som: - Eis que vejo pela primeira vez uma divisão da História consoante com nossa civilização cristã. Lembrei-me então da reprimenda que o Padre Irineu me fizera em São João del Rey, por ter exaltado Tiradentes  como  Heroi  Nacional.  E  deduzi  com

 

 

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meus botões: - o Padre Leopoldino é monarquista convicto, provavelmente porque no tempo em que a Igreja estava ligada ao Estado, a monarquia cristã era para ele, padre e intelectual, o modelo ideal de regime político. De certo modo fazia jus à sua formação salesiana, que em pleno século XX não desatara o cordão umbilical da Idade Média.

 

 

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[28] Acredito que foi nessa conversa que o Padre Vasconcelos me esclareceu serem os votos perpétuos de uma congregação religiosa menos rigorosos que os de uma ordem. Seria mais fácil obter do Vaticano a dispensa para um congregado do que para um religioso de ordem (por exemplo, um beneditino, um trapista, etc.).

 

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[29] Ao falar do Dr. Abner Lellis Vicentini há necessidade de transmitir preciosa informação. Ficou tão meu amigo, que foi visitar-me em Goiânia, quando, após ter interrompido a carreira sacerdotal, lá estive, durante um ano, para atender pedido do Pe. Alcides Lanna, nosso inspetor. Tivemos longas conversas. Inclusive, por minha sugestão fez interessante conferência na Faculdade sobre a origem e a importância da biblioteca. Ciente de que estava decidido a sair da Congregação, me propôs, logo que consumasse o propósito, trabalhar no ITA de São José dos Campos, onde era o bibliotecário.  Uma vez terminado o curso de Pedagogia (à época ainda não existia o de Psicologia), poderia perfeitamente exercer a função de orientador psicopedagógico, o que seria muito útil aos alunos daquele instituto. Aceitei o convite. Mal chegara de volta a Belo Horizonte, lhe escrevi e marcamos um encontro naquele extraordinário Centro Universitário. Infelizmente, depois de ser apresentado aos dirigentes do ITA, visitar as instalações e tomar conhecimento do que pretendiam, cheguei à conclusão de que não estaria preparado para aquela empreitada. A preocupação dos responsáveis pela instituição era o elevado grau de angústia e depressão que tomava conta dos alunos, por causa do isolamento em que viviam e, particularmente, em decorrência da exigência da produção intelectual de alta qualidade. Como já conhecera o filho de Helena Antipoff, o psicólogo Daniel Antipoff,  o

 

 

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indiquei, sem que ele o soubesse. É possível que ele tenha tido outra indicação. Ignoro. Acabou aceitando o convite e lá trabalhou por vários anos. Infelizmente teve de voltar a Belo Horizonte, depois que perdeu um filho, afogado na piscina do Clube Recreativo do ITA. Outra perda dolorosa foi a do próprio Abner. Fiquei sabendo que ele faleceu de infarto do miocárdio, no aeroporto de Congonhas, quando aguardava o avião para uma viagem ao exterior, se não estou enganado em missão da UNESCO.

 

 

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[30] Talvez esteja sendo injusto com os padres salesianos daquela época, ao afirmar que, tirante o Pe. Astério, a maioria, senão todos ignoravam a Metodologia Científica e a do Trabalho Intelectual. Ao frequentar o Curso de Pedagogia e mais tarde o de Direito, constatei que nenhum curso de graduação possuía, em seu currículo, a disciplina. Parece que somente os cursos de ciências sociais, a partir da década de 60 introduziram a matéria, sob o nome de Métodos e Técnicas de Pesquisa. A prova está que fui pioneiro no Brasil, quando, em 1967, publiquei o Como fazer uma monografia. Aproveitei a oportunidade para colocar, na primeira parte, os fundamentos da metodologia científica.

 

 

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[31] Desde o século 16, a Igreja Romana mantinha 4 Ordens Menores: ostiário, leitor, exorcista e acólito; e quatro Ordens Maiores: subdiaconato, diaconato, presbiterato e episcopado. Fiquei sabendo que, a partir do Concílio Vaticano II, houve modificação: em lugar das quatro ordens menores, instituiu-se o ministério de leitor e acólito. O subdiaconato deixou de ser ordem maior e o Sacramento da Ordem passou a abranger, como no Oriente, o diaconato, o presbiterato e o episcopado.

 

 

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[32] Sinceramente pensei em eliminar este capítulo, por já ter sido publicado ou, então, em reduzi-lo ao máximo. Mas prevaleceu a razão apontada: muitos leitores não leram a narrativa anterior e ficariam sem entender o principal motivo de minha secularização. E para os que já tiveram conhecimento do texto, a narração de meus três anos de teologia ficaria mutilada prejudicando o desfecho. Aproveito a oportunidade para outro esclarecimento: em nada modifiquei o texto publicado em O Cavalode São Roque. Apenas acrescentei a nota de número 33 porque julguei importante esclarecer por que até hoje não aceito as cinco vias de São Tomás de Aquino para provar a existência de Deus.

 

 

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[33] É bem provável que a maioria dos leitores de meu texto jamais tenha ouvido falar das cinco vias de São Tomás de Aquino. Julgo importante deter-me sobre este assunto, ainda que tenha de quebrar a praxe que recomenda sejam as notas de rodapé curtas. Desculpe-me o leitor se me estendo. As cinco vias ocupam inúmeras páginas da Summa Theologica. Tomo a liberdade apenas de enunciá-las procedendo, sem dúvida, de modo caricatural. São as seguintes as cinco vias apresentadas por São Tomás como irretorquíveis para provar, à luz da razão, a existência de Deus: 1ª) A via do movimento: nada pode mover-se a si mesmo ou seja todo movimento depende de um motor. Assim neste universo de movidos e motores, atingiríamos o infinito até ter que  admitir  um

 

 

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 motor imovido. E este motor só pode ser  Deus.  2ª)   A  da  causa eficiente. Tudo que é e existe tem sua causa. Não há efeito sem causa. Assim a cadeia de causa — efeito haveria de terminar emuma Causaincausada e esta só pode ser Deus. 3ª) A do contingente e do necessário. Em todas as coisas há uma essência. A essência passa a ser necessária para que o não necessário ou contingente exista. Assim se tudo fosse contingente, seria um contrassenso admitir o inifinito dos contingentes, portanto haverá necessidade de admitir uma Essência que se torna a razão de todo existir. Então há de se admitir a existência de um Ser que confere a existência aos demais seres. 4ª.) A via dos graus de perfeição. Existem coisas mais ou menos verdadeiras, boas e belas, umas mais do que outras. Assim notamos uma cadeia que se aproxima do máximo da perfeição do ser.  Deverá haver um Ser que possui todas as qualidades de perfeição em grau máximo, de tal forma que só este Ser, por ser transcendente à ordem dos seres naturais, torna-se a Perfeição Absoluta. E este Ser só pode ser Deus. 5ª) A via do governo das coisas: Se todo agente age em vista de um fim, este fim numa cadeia de finalidades só pode ser o de alcançar o ótimo.  Disto resulta a ordem e a harmonia admirável do universo. Assim deve existir um Ser inteligente que ordena todos os corpos natutrais para seu fim, uma vez que nenhum corpo natural o poderia ordenar. Este Ser que governa e ordena todas os seres naturais do Universo só pode ser Deus. Para quem tem informações da teoria hilemorfista e a da causalidade de Aristóteles, logo percebe que o velho Tomás de Aquino o “plagiou”, aplicando à existência de Deus a metafísica aristotélica. Está nitidamente exposta a teoria aristotélica da causalidade (causa eficente, material, formal, final, instrumental ...) e sua teoria sobre o Ser, o ato e a potência, o contingente e o necessário. Também é fácil perceber que os argumentos de São Tomás de Aquino são tautológicos e se resumem no único  de que se tudo que existe supõe uma causa, seria inaceitável uma corrente ad infinitum de uma causa demandar outra, sem esbarrar, ao fim, numa Causa incausada. Como se vê para os medievais era impossível separar metafísica de filosofia e esta da teologia. E tudo lastrado na Lógica Formal (a genial criação de Aristóteles) a reger a argumentação. Mas todo este tipo de argumentação para o homem moderno e contemporâneo soa falso. Afinal, como bem caracterizou J. Delhomme, fazendo eco a Sartre,  trata-se de “uma ideia, um conceito do Ser e não do Ser propriamente dito”. Vale a pena reproduzir seu pensamento já exposto em meu livro A maravilhosa incerteza: “Quando um pensamento atento  interroga  o  ser  e  se

 

 

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inclina sobre ele, não pode pre-julgar o que lhe seria dado em seguida: o ser concebido a priori como independente, invulnerável, absoluto ou transcendente, o ser que não se pode encontrar na experiência ou na razão, além de sua própria definição, sob o risco de que não seja mais o ser, mas um não sei o quê, não é o ser e não pode ser o ser, é ou um argumento de autoridade dos teólogos ou uma entidade lógica, mas apenas lógica. Ora, não há para o pensamento necessidade alguma, de fato ou de direito, para pressupô-lo ou para concebê-lo assim” (La pensé interrogative, 1954, p. 98). Numa colocação terra a terra é facil entender esta problemática: Alguém, em sã consciência, que não acreditasse na existência de Deus, se convenceria de sua existência apenas atento aos argumentos das cinco vias? Por certo que não. Estes argumentos são convincentes para quem, a priori, já aceita a existência de Deus, ou melhor acredita em sua existência. Se acredita, é porque tem fé. Portanto, tais argumentos não provam a existência de Deus à luz da razão como pretendeu o Aquinate, apenas justificam logicamente seu ato de fé.Permitam-me encerrar esta questão da existência de Deus comentando a célebre frase de Joseph de Maistre (1753 - 1821): “Ninguém afirma: ‘Deus não existe’ sem antes ter desejado que Ele não exista". Para mim denota má-fé e preconceito quem interpreta essa frase, colocando-a fora do contexto em que ela foi dita, ou seja, contra os que “temem” a existência de Deus ou a negam, para poder justificar uma vida libertina, marcada pelo pecado ou o mal praticado ou a praticar. Interpreto-a simplesmente como uma frase de efeito e digna da época em que seu autor viveu: o período da Revolução Francesa. Consta que ele foi um dos mais ardorosos contrarrevolucionários e defendeu a restauração da monarquia hereditária, pois a via como instituição de inspiração divina. Hoje, quem lê os trabalhos de Michel Onfray (como o Tratado de ateologia), Luc Ferry (como Vencer os medos ou Aprender a viver), André Comte-Sponville (como O espirito do ateismo ou o Tratado do desespero e da beatitude), para apenas apontar alguns dos filósofos contemporâneos e algumas de suas obras, há de perceber que eles, sem partir de nenhum preconceito, se ocupam com serenidade do assunto da inexistência de Deus (ou seja, da ideia de Deus pregada pelos monoteístas judeus, cristãos, muçulmanos como se fosse, mas não é, o Ente real ...). Como Spinoza um dia mostrou, não é possível aceitar o mesmo Deus, cuja existência é defendida contraditoriamente pelos monoteístas de todos os tempos e lugares e muito menos pela Teologia cristã. A  serenidade  daqueles  autores  em  analisar   profundamente   o

 

 

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problema da existência /inexistência de Deus demonstra que não os move o desejo, muito menos a paixão, de que Deus não exista para atingir fins escusos. A contradição é muito mais significativa entre os que, além de acreditarem na existência de Deus, se transformam em fanáticos pregadores de sua existência, e passam a se comportarem em oposição diametral à sua crença, a ponto de cometerem barbaridades em nome de seu Deus. Encerrando e sintetizando: o problema da existência de Deus para a filosofia contemporânea é um falso problema, justo porque, a priori, não tem solução. A existência de Deus só pode ser concebida como “ato de fé”. Enfim: o problema não é a existência/não existência de Deus; é o da religião, que se apropria indevidamente de um deus e de sua fala, para exercer o poder sobre os incautos e os que não têm consciência do que está ocorrendo.

 

 

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[34] Quero aqui render homenagem a uma colega daquele tempo. Desde cedo se revelou pessoa inteligente, com veia poética. Seu nome nunca esqueci: Maria do Rosário Casimiro. Não sei como e porquê, descubro que ela foi  reitora  da  Universidade  Federal  de

 

 

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Goiás, tendo cumprido o mandato entre 1982 e 1985. Curiosamente descubro também que o primeiro reitor - fundador da UFG foi o professor Dr. Colemar Natal e Silva, advogado, nosso professor de Psicologia. A UFG foi fundada em 1960 e seu mandato foi de 1961 a 1964

 

 

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[35] A amizade do Pe. Vasconcelos com Juscelino constitui para mim um exemplo típico de que o poder e a aproximação do poder mudam a cabeça das pessoas. Quando passei os dois anos como Assistente no Colégio São João, de São João Del Rey, onde era diretor o Pe. Vasconcelos, por saber que era filho de uma família visceralmente udenista (de Ponte Nova e Belo Horizonte), pude notar que comungava das ideias da família. Juscelino era do PSD. Várias vezes ouvi de nosso diretor críticas (aqueles velhos chavões lacerdistas) contra o governador de Minas. Bastou que Juscelino viesse um dia à cidade, que nosso diretor o convidou a conhecer o colégio (óbvio que tinha segundas intenções, notadamente a de conseguir algum tipo de ajuda material para o colégio e/ou para as obras salesianas). O Colégio recebeu engalanado nosso governador. Pe. Vasconcelos fez belo discurso laudatório e Juscelino, de acordo com seu feitio, respondeu de improviso com palavras e frases de efeito que a todos cativaram. Daquele dia em diante começou o relacionamento que uniu os dois.

 

 

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[36] Devo esclarecer que estou me referindo a meu caso e generalizando. Comigo até que houve realmente “despedida”. Não posso esquecer o abraço de dois irmãos coadjutores (o Ir. Manuel e o Ir. Nicolau), com os quais passei momentos de convivência e amizade muito agradáveis. Mas o que dizer de outros companheiros de deserção, como aconteceu no tempo do aspirantado, do Noviciado, da Filosofia e até da Teologia, que saiam, geralmente na calada da noite, sem ninguém saber? Só no dia seguinte é que dávamos por sua falta. Obviamente, nossos superiores agiam assim para evitar possível contaminação. Diante de tais pretensos “pastores de almas”, só tenho a exclamar: - Como era absurda a defesa dos cordeiros diante de possível ameaça dos lobos, assim convertidos por vil vigilância dos que deveriam defender o redil! Absurda, porque a fragilidade de seu gesto estava a encobrir total distorção de sua visão da realidade e da vida!

 

 

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[37] Aludo ao célebre verso de Horácio “odi profanum vulgus et arceo” (odeio o vulgo profano e o desprezo) que se encontra em:Carmina 3.1.1.Minha percepção realmente foi justamente esta: a partir do momento em que um salesiano optasse pela secularização, estava condenado por seus superiores a pertencer aos desprezados, e eles se manteriam como os privilegiados escolhidos por Deus. Tal qual na divisão de classe proposta pelo poeta latino: os nobres lá em cima e o profano vulgo lá em baixo. Aqueles a ter asco destes.

 

 

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[38] Einstein confessa que o universo é infinito. O grande gênio dá-me razão de identificar o deus de minha crença particular com o universo.

 

[39] Disse que minha ideia de Deus se aproxima da ideia de Spinoza. Talvez mais próxima da ideia de Krause, que, em oposição ao panteísmo de Spinoza, fundou e defendeu o panenteísmo. Segundo ele Deus é conhecido intuitivamente pela consciência, não é uma personalidade mas uma essência que contém o próprio universo, ou seja, ele considera o mundo como mundo-em-Deus. O homem e o universo formam um todo orgânico feito à imagem de Deus e a vida do todo se desenvolveria segundo uma lei perfeita. Para Krause, haveria na humanidade a unidade do Espírito e da Natureza. A humanidade compõe-se de seres que se influenciam reciprocamente e estão vinculados a Deus. Os períodos históricos seriam etapas sucessivas da ascensão a Deus, que culminaria com uma humanidade racional. Como se vê uma concepção bem diferente da  teoria defendida pelos teólogos tomistas.

 

 

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[40] Basta registrar que durante estes cinquenta e três anos de minha secularização, nunca recebi uma carta, um bilhete, sequer um telefonema de algum salesiano, seja do meu tempo ou não, para saber como estava e o que fazia. Talvez porque temiam alguma contaminação. Metaforicamente: somos os hansenianos que precisam ser isolados.

 

 

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[41] Que não se escandalize o leitor. Não desprezo os livros ditos sagrados. De alguns anos a esta data passei a lê-los até com frequência. Mas de maneira inteiramente oposta à ensinada nas aulas do padre Joaquim Salvador. Leio como a mais bela mitologia que o gênio humano produziu. Superior às “fábulas persas ou às sagas islandesas” como o ateólogo Michel Onfrey os classificou

 

 

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