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Ensaios-->Diário da Guerrilha do Araguaia, por Maurício Grabois -- 10/04/2013 - 15:25 (Félix Maier) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos

Diário do 'Velho Mário', Comandante Militar da Guerrilha do Araguaia - Alguns trechos (1a. Parte)


Carlos I. S. Azambuja em 22 de fevereiro de 2006

 

© 2006 MidiaSemMascara.org

 

Uma pequena Introdução

Por causa do famoso discurso secreto de Kruschev no XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética, em fevereiro de 1956, condenando Stalin, o dogmatismo do partido, o culto a personalidades e pregando a coexistência pacífica na política internacional, iniciou-se uma longa discussão no Partido Comunista Brasileiro. Essa discussão foi abruptamente dada por encerrada por Prestes, em novembro de 1956, através de um documento intitulado "Carta Aberta de Luiz Carlos Prestes aos Comunistas". Essa carta, dentro do partido, ficou conhecida como "Carta Rolha".

O posicionamento do Secretário-Geral do PCUS logo se mostrou vitorioso, pois em junho de 1957 Kruschev afastou Kaganovich e Malenkov, componentes da troika que, com ele, dividia o poder desde a morte de Stalin. Prestes não esperou mais e concluiu que o PCB deveria também expurgar os stalinistas, o que aconteceu na reunião do Comitê Central realizada em agosto de 1957, quando os assim chamados stalinistas foram afastados da Comissão Executiva do partido.

A seguir, na reunião do Comitê Central, realizada em março de 1958, foi aprovado um documento que ficou conhecido como "Declaração de Março". Esse documento representou um ponto de inflexão na linha política definida pelo partido no IV Congresso, realizado em novembro de 1954, pois passou a endossar as teses de Kruschev sobre a coexistência pacífica.

Em decorrência da "Declaração de Março" foram constituídos dois grupos dentro do partido: de um lado Prestes comandando (esse é o verbo correto) o Comitê Central e o partido com mão de ferro, de acordo com a nova linha definida pelo Secretário-Geral do PC Soviético; e de outro, diversos dirigentes - João Amazonas, Pedro Pomar, Diógenes de Arruda Câmara, Mauricio Grabois e outros - stalinistas ferrenhos, defendendo as resoluções aprovadas no IV Congresso - que estatutariamente, é bem verdade, só poderiam ter sido alteradas por um outro Congresso e não por uma "Declaração" - e, nas divergências sino-soviéticas, posicionando-se em favor da China.

Em setembro de 1960, o PCB realizou seu V Congresso, cuja Resolução Política teve por base as concepções aprovadas em 1956 no XX Congresso do PCUS. Segundo essa Resolução, no Brasil não existiam mais condições para "transformações socialistas imediatas"; o caráter da revolução brasileira foi definido como "nacional e democrático" - e não socialista; as tendências dogmáticas e sectárias teriam que ser combatidas através do incremento da luta ideológica; e a violência armada deveria ser deslocada para um segundo plano, deixando de ser considerada "um princípio".

O Congresso aprovou também um novo Estatuto e decidiu que deveriam ser adotadas providências jurídicas para legalizar o partido junto à Justiça Eleitoral. Foi eleito também um novo Comitê Central, do qual os principais stalinistas, alguns acima referidos, ficaram de fora. Em vista disso, os stalinistas, sem espaço dentro do partido e após vencidas as incertezas ideológicas individuais, constituíram-se num grupo organizado.

Em março de 1961, uma reunião do Comitê Central (CC) levou à prática as Resoluções do V Congresso que autorizavam o CC a proceder modificações em seus Estatutos, a fim de tornar viável o pedido de legalização do partido. O nome do partido foi então alterado de Partido Comunista do Brasil para Partido Comunista Brasileiro, as expressões "marxismo-leninismo" e "internacionalismo proletário" foram expurgadas do novo Estatuto e foi aprovado um outro programa partidário.

Essas modificações foram publicadas no jornal porta-voz do partido, "Novos Rumos", em 11 de agosto de 1961 - ou seja, ainda durante o governo Jânio Quadros -, fazendo com que as divergências se acirrassem, levando à cisão definitiva e à constituição, em fevereiro de 1962, pelos chamados stalinistas, do Partido Comunista do Brasil.

Antes disso, porém, em outubro de 1961, os assim chamados stalinistas foram expulsos do PCB. No ano seguinte, no período de 11 a 18 de fevereiro em São Paulo, reunidos numa Conferência Nacional Extraordinária fundaram o Partido Comunista do Brasil, com a sigla PC do B, e elegeram um Comitê Central do qual faziam parte João Amazonas, Mauricio Grabois, Lincoln Cordeiro Oeste, Calil Chade, Pedro Pomar, Carlos Nicolau Danieli, Ângelo Arroio, José Duarte, Elza Monerat e Walter Martins.

O Manifesto-Programa aprovado nessa Conferência afirmava que as classes dominantes não cederão suas posições "voluntariamente", o que "torna inviável o caminho pacífico da revolução", e defendia um "governo popular revolucionário que instaure um novo regime anti-imperialista, anti-latifundiário e anti-monopolista".

Esse documento era muito semelhante à Resolução Política aprovada no IV Congresso do PCB, realizado em 1954, e continha os mesmos objetivos definidos em 1935 pela Aliança Nacional Libertadora. Descartava, e descartava como burguesa, a palavra-de-ordem de "luta pelas reformas de base", imaginada pelo PCB e encampada pelo governo Jango.

O Manifesto fazia elogios à China Popular mas somente no ano seguinte, em julho de 1963, no documento intitulado "Proposta a Kruschev", o novo PC do Brasil realmente definiu sua posição internacional, repudiando o PCUS e apoiando o Partido Comunista Chinês e o Partido do Trabalho da Albânia.

O Manifesto definiu Stalin como "o quarto clássico" do marxismo, ao lado de Marx, Engels e Lênin.

Pouco tempo depois, o PC do B assumiria o "Pensamento de Mao-Tsetung", de cerco das cidades pelo campo, optando pelo alinhamento ideológico com o Partido Comunista Chinês pois, de conformidade com os dogmas stalinistas, o Partido Comunista da União Soviética não admitia a existência, em um mesmo país, de mais de um partido dirigente da classe operária.

Esses antecedentes, bem como a necessidade de justificar a cisão com o PCB, levaram o PC do B à aventura do Araguaia.

Em julho de 1963, Mauricio Grabois, um dos fundadores e membro do Comitê Central do Partido Comunista do Brasil, assinou um artigo definindo o PC Chinês como "destacamento de vanguarda e força dirigente da revolução mundial" e qualificou Mao-Tsetung como "o maior teórico do Movimento Comunista Internacional".

A partir de então, o maoísmo penetrava no Brasil para não mais sair.

A direção do PC do B, em junho de 1964, após mandar o primeiro destacamento do partido receber treinamento militar na China, em uma reunião do Comitê Central estabeleceu a tática revolucionária a ser empreendida. Essa tática centrava-se no deslocamento do trabalho de massa para as áreas rurais, como forma de preparar o início da Guerra Popular Prolongada.

Em agosto de 1964, um documento da Comissão Executiva do PC do B tachou a Revolução de 1964 de "quartelada conduzida por um grupelho de generais fascistas, retrógrados e aproveitadores", e concluiu que "os problemas do país não serão resolvidos pela via pacífica".

Em março de 1966, o Comitê Central aprovou um outro documento, intitulado "O Marxismo-Leninismo Triunfará na América Latina", posicionando-se contrariamente a Fidel Castro e à União Soviética,  e defendendo a China de Mao-Tsetung. Tecia críticas à constituição, na "Conferência Tricontinental", em Havana, do  "Comitê Coordenador das Lutas de Libertação Nacional na América Latina", sob o argumento de que o marxismo-leninismo "é universal e não existe um marxismo-leninismo latino-americano". E concluia afirmando que Mao-Tsetung é "o maior marxista-leninista de nossos dias". Ou seja, aquilo que Kruschev condenara quando do XX Congresso do PCUS, o PC do B praticava às escâncaras: o culto da personalidade.

Em junho de 1966, o Comitê Central do PC do B emitiu mais um documento, que recebeu o pomposo título de "União dos Brasileiros para Livrar o País da Crise, da Ditadura e da Ameaça Neocolonialista", sendo que o principal aspecto nele constante foi o chamamento à "guerra popular revolucionária no campo". Já, então, os primeiros militantes, retornados da China, eram deslocados para o Araguaia.

"Velho Mário" é o nome pelo qual era conhecido o comandante militar da Guerrilha do Araguaia. Trata-se de Maurício Grabois, membro do Comitê Central do Partido Comunista Brasileiro até 1962, ocasião em que foi um dos fundadores do Partido Comunista do Brasil, passando a integrar seu Comitê Central e Birô Político.

Na sua condição de comandante militar, chefe da "Comissão Militar", mantinha um diário onde eram registrados todos os fatos relativos ao desenvolvimento da guerrilha. Esse diário começou a ser escrito em 30 de abril de 1972 - a partir do início das hostilidades - e foi abruptamente interrompido em 25 de dezembro de 1973, quando Grabois teria sido morto.

Sem tecer quaisquer considerações, algumas anotações significativas nele constantes merecem ser transcritas, com algumas correções ortográficas.

Carlos Ilich Santos Azambuja

 O Diário

"30/4 - Começou a GP a 12/4. O inimigo, possivelmente informado por alguma denúncia, atacou de surpresa o Peazão entre as 15 e as 16 horas daquele dia. Avisado com poucas horas (2) de antecedência, pela massa, o DA retirou-se organizadamente para a mata. O G3 daquele D, que estava sediado no Peazão, dada a superioridade do adversário, não ofereceu combate, mas salvou seus efetivos, seu armamento e diversos materiais. No entanto, muitas coisas foram deixadas no local, principalmente roupa e oficina.

No dia 22, chega o LAND de sua missão. Atrasara-se porque houve desencontro sobre o ponto onde deveria ser recolhido. Fez boa viagem pela mata e pelos caminhos. No local, na Transamazônica, onde tinha de apanhar o CID, estava sediado um posto do Exército. Os ônibus e demais veículos estavam sendo vistoriados. CID e os que deviam vir com ele não apareceram. Dada à vigilância do inimigo, LAND não repetiu o ponto a 1G como estava combinado. Que será feito do CID? Fará imensa falta. Talvez, daqui a algum tempo, consiga entrar na zona. Se não nos puder ajudar aqui, ajudará o P lá fora e coordenará todo apoio político à GP.

O LAND defrontou-se com um bate-pau montado no PT (um dos burros do DA). Passou por elementos da massa. O bate-pau, além de dizer que éramos terroristas, acrescentou que tínhamos fabricado muitas armas, que estávamos armados até os dentes e que o inimigo estava nas "bocainas" para nos pegar quando saíssemos da mata.

1/5 - O inimigo procura nos apresentar como marginais. Em nota fornecida pelas autoridades militares, divulgada pela rádio, diz-se confusamente que, ao sul da cidade de Marabá, foram localizados malfeitores procurados pela Polícia Federal, quando forças militares realizavam investigações sobre contrabando. Em seguida, diz que prosseguem os "exercícios", com a participação do Exército, Marinha, Aeronáutica e Polícia Militar. A reação procura evitar a repercussão da nossa luta falando em contrabando e em bandidos foragidos. Devemos repelir todas as calúnias e dizer claramente porque lutamos. Precisamos dar argumentos políticos de acordo com o nível de compreensão da população. É necessário difundir ao máximo o Manifesto do Movimento de Libertação do Povo (MLP), no qual está incluído o programa de reivindicações locais por nós defendido. Somos defensores do povo, lutamos contra a opressão e a exploração. O Pará, bem como todo o Brasil, deve ser uma terra livre, sem grileiros e tubarões, onde os pobres possam cuidar suas terras sem nenhuma perseguição e com a ajuda de um governo verdadeiramente do povo. Somos inimigos irreconciliáveis da ditadura. Nossa política é ampla. É preciso se orientar pelo programa do MLP e falar linguagem acessível à massa. Na propaganda revolucionária armada é indispensável ter iniciativa e espírito criador. As massas, se falarmos em linguagem a elas compreensível, virão para o nosso lado. A ditadura, com sua política infame, só pode ser odiada pelo povo. O importante é esclarecê-lo.

3/5 - Reúne-se a CM e troca idéias sobre os seguintes assuntos: a) localização e funcionamento do Comando; b) ligação com o P; c) a tática a seguir pelas forças guerrilheiras; e d) a propaganda revolucionária a ser desenvolvida na região. Algumas medidas práticas são tomadas.

7/5 - Precisamos dar repercussão à nossa luta. Isso é vital para nós. A extensão do nosso movimento, o número de cc que envolve, a bandeira que levantamos, o tamanho da região conflagrada, bem como a selva, junto à Transamazônica, necessariamente chamarão atenção sobre nós. É indispensável romper a barreira da censura ditatorial. A propaganda de nossa zona guerrilheira atrairá milhares de jovens para a luta e aumentará o prestígio do P, que tem, agora, grandes possibilidades de crescer. Temos urgentemente que nos ligar com o P. É o que faremos na primeira oportunidade.

15/5 - FLA informa que fizera junto com outro c, uma pesquisa entre a massa. Esta o recebeu muito bem. Aceitou com satisfação as idéias expostas no programa do MLP. O elemento de massa comunica-lhe que desceram de um helicóptero em Santa Cruz 25 soldados. Estes eram todos "caraus" e nunca tinham visto mata. Vieram a pé e não tiveram disposição de atravessar o "Gamegia", que naquele dia estava cheio. Só na manhã seguinte se atreveram a fazê-lo. Limitavam-se a queimar as casas do PA e voltaram fagueiros. Estavam acompanhados do delegado do vilarejo. A massa também dá uma notícia bem triste para nós: fora visto amarrado num jipe um jovem de chapéu de couro quebrado, que estava armado de 38 e duas caixas de balas, faca e facão. Só pode ser o GER, do DB, que a 17 do mês passado saíra para avisar o DC sobre o ataque do Exército ao DA.

16/5 - O OS informa que ao se dirigir à casa de um elemento de massa, foi parar inadvertidamente no caminho e deparou-se com um grupo de cinco elementos armados, tendo uma metralhadora. Pareciam ser da Polícia Federal. Tinham subido o Gameleira de motor e se apresentavam como geólogos para enganar os camponeses. O OS e o COMPRIDO, que o acompanhava, travaram tiroteio com eles. O da metralhadora foi morto e um policial ferido. O tropeiro que estava com eles e mais um inimigo saíram em desabalada carreira. Outro ficou de tocaia num "muguiço" com a metralhadora e o revólver do morto. Foi o primeiro choque do DB com o inimigo.

Nos últimos dias nota-se febril atividade da aviação. Aviões a jato cortam os ares duas, três e até quatro vezes por dia. Também voam aparelhos a pistão. Os helicópteros movimentam-se sem cessar. O que prepara o inimigo? Julgamos que está transportando tropas para esta área. Será que pretendem entrar na mata? Pior para eles. O G do DB que, está por aqui, vai sair da área e nós iremos logo levantar acampamento.

O JU, desde que chegou está na rede. A malária não o larga. Está quase sempre com 39º de febre. Assim permanece há cinco dias. Emagreceu muito e está debilitado. Seu ânimo, no entanto, é elevado.

17/5 - Os helicópteros continuam a voar e o JU ainda está nas garras da malária.

20/5 - Finalmente, o JU ficou sem febre e somente ontem é que pudemos transferir o acampamento. Ontem à noite, a Rádio Tirana deu uma breve notícia da nossa luta. Rompeu-se a cortina de silêncio que se estendia sobre nossos combatentes. Temos a impressão de que a notícia não foi enviada pelo P, mas que se filtrou através de uma agência telegráfica estrangeira. A notícia tem importância, pois muitos brasileiros ficam sabendo que no Brasil existe um movimento guerrilheiro de certa envergadura e que se subsiste há quase 40 dias. É necessário destacar o fato de que a guerrilha desperta grande simpatia entre as massas e há grande mobilização de tropas na Transamazônica e no Araguaia. Isto a Rádio Tirana assinalou.

É urgente o contato com o exterior. Estamos somente aguardando a volta do PE, para decidirmos o que fazer a respeito.

21/5 - A Rádio Tirana ontem voltou a abordar a nossa luta. Difundiu uma nota sobre a ação das Forças Armadas no norte do país. Deu destaque merecido ao assunto e o tratou de maneira política. Nota-se, agora, que os dados foram fornecidos por quem conhece os problemas daqui. Isto nos faz crer que o CID conseguiu se safar, colheu informações e pôde transmiti-las aos amigos da Albânia. Para nós, o CID em liberdade é um alívio. Aqui, temos que intensificar a propaganda revolucionária, recrutar novos cc para as Forças Guerrilheiras e amigos para nossa causa. E isso não é difícil de realizar. As condições parecem favoráveis.

22/5 - A Rádio Tirana voltou a repetir a notícia da nossa luta. Precisamos enviar-lhe informações para alimentar o noticiário sobre a guerra de guerrilhas no Araguaia. Logo que tivermos portador assim o faremos.

24/5 - A mata nos abriga e o povo nos ajuda. Com as informações do PIAUÍ elevou-se a moral do D. A massa também revelou que o Exército se retirara da área e se concentrara nas corrutelas. Deixou de policiar a Transamazônica, estabelecendo somente um posto de controle próximo de S. Domingos e outros à frente da estrada de S. Felix. Em seu lugar ficaram alguns grupos da Polícia Militar. O Exército também bateu em nossa "beira" e lá prendeu um elemento da massa, que tomava conta da quitanda, levando-o para Brasília.

Hoje, a Rádio Tirana tratou novamente da nossa luta. Deu-lhe importância, mas não forneceu novos dados. Temos que enviar ao P informações, a fim de dar maior repercussão à luta na região do Araguaia.

É urgente fazer um balanço da situação. Analisar nossa atividade política e militar, o comportamento da massa e a tática do inimigo. Precisamos delinear com clareza as perspectivas da luta e elaborar um plano de trabalho. Na próxima reunião da CM nos orientaremos nesse sentido.

26/5 - Ontem reunimos a CM para dar um balanço da situação e traçar algumas tarefas concretas. Nessa reunião examinou-se a tática até agora empregada pelo inimigo, a atitude da massa diante da nossa luta, a política que devemos aplicar na região e a tática que devemos pôr em prática. Constatamos que o Exército embora tivesse ocupado algumas cidades e estabelecido postos na Transamazônica, não enviou grandes contingentes contra os nossos PPAA. Suas tropas de ataque variaram entre 20 e 25 homens (a informação de que contra o Peazão foram mandados 70 soldados não era correta). Acresce que vinham cansados (foram obrigados a caminhar longas distâncias a pé) e mesmo temerosos. Tivéssemos nós um melhor serviço de informações e experiência militar, poderíamos assestar no inimigo rudes golpes nas áreas de todos os DD. Os soldados queimaram todos os nossos PPAA e, após pequena permanência naqueles locais, retiraram-se. Pelo visto, a tática das Forças Armadas tem em vista dar a menor repercussão política à nossa luta. Dizem que somos criminosos e estabeleceram férrea censura sobre tudo o que se refere à Guerrilha do Araguaia. Também retiraram o aparato militar para evitar comentários do povo e impedir ao máximo que diferentes regiões do país se apercebam do que se passa aqui. No entanto, a retirada do inimigo parece ser momentânea. Este deve estar se preparando melhor (parece que não tinham idéia do vulto da luta).

Sobre a atitude da massa, podemos afirmar que é de profunda simpatia em relação à nossa luta e de condenação às forças de repressão. O comportamento das massas superou as nossas expectativas.

Quanto à política a aplicar na região, ela deve ser a mais ampla possível. Nossa orientação está expressa no Manifesto do Movimento de Libertação do Povo. Não devemos aparecer unicamente como vítimas da ditadura, mas como defensores do povo explorado e oprimido, como inimigos irreconciliáveis dos poderosos e da ditadura. Concitar as massas à união e à luta. Atacar somente as propriedades dos que ativamente nos combaterem. Dizer que somos contra este governo que defende os "grileiros", esfomeia o povo e deixa as populações abandonadas, sem escolas e assistência médica, sem qualquer ajuda.

No que diz respeito à tática militar e política a seguir, devemos ser bem flexíveis. A vida confirmou a justeza de nossas concepções de luta armada e comprovou que fomos capazes de estabelecer uma justa relação entre o valor topografia do terreno e a importância das massas. As selvas nos abrigam das investidas do inimigo e as massas camponesas nos ajudaram a sobreviver e a crescer. Tivéssemos começado a luta em região sem matas, com terreno desfavorável, já teríamos sido liquidados, mesmo contando com a simpatia das massas. Agora, para nós, fica patente a diferença radical entre a nossa teoria de GP e a concepção "foquista". O fato de o inimigo ter tomado a iniciativa, quando ainda não tínhamos ultimado nossos preparativos, determinou que sofrêssemos um golpe com a prisão de alguns cc quando em missão em cidades ou estradas. Mas resguardamos o grosso de nossas forças, o que constitui um êxito.

 

 Carlos I. S. Azambuja é historiador.

 

 

 

 

 

 

 

   
     
       
     

 

"Velho Mário": violência em nome da "causa".

Diário do ‘Velho Mário’, Comandante Militar da Guerrilha do Araguaia – Alguns trechos (2a. Parte)

23/02 - Exclusivo: Em mais uma parte do diário do "Velho Mário", o relato das ações dos guerrilheiros comunistas no Araguaia, inclusive o assassinato de prisioneiros.

       

 

 

 

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A nossa inexperiência militar impediu que, no início, golpeássemos o inimigo, tanto no DA como no DB. Mas os fatos indicam que o desenvolvimento da luta nos é favorável e será, no futuro, cada vez mais favorável. É certo que a cortina de silêncio que a ditadura baixou sobre nossa luta nos é desfavorável. Temos que romper essa cortina, pois se as massas tomam conhecimento da guerrilha, sua repercussão será imensa em todo o país.

Nossa tática deve consistir em: 1) realizar intensa propaganda revolucionária armada; 2) garantir o auto-abastecimento; 3) levar a cabo ações armadas contra o inimigo, de maior ou menor envergadura. Este tipo de ação ou ocupação de pequena cidade ou lugarejo será sempre um meio de propaganda e uma forma de crescer (conseguir armas, equipamentos, recrutar elementos da massa, etc.). Precisamos aproveitar o recuo temporário do inimigo para enviar nossos propagandistas armados a todos os recantos da região, a todas as casas de camponeses.

Ontem, a Rádio Tirana deu excelente notícia sobre a nossa luta. Nota-se que ela foi redigida por quem está por dentro da situação e conhece a nossa preparação. Deve ser o CID, que impedido de aqui chegar, está nos ajudando de fora.

29/6 - A Rádio Tirana voltou a abordar a nossa luta. Divulgou ótima reportagem enviada do Brasil, dando um quadro correto da situação, com informações precisas e encarando - o que é muito importante - o aspecto político das guerrilhas do Araguaia, de maneira acertada. Situou a resistência armada no Sul do Pará dentro da luta geral do povo brasileiro contra a ditadura.

30/6 - Não apareceu o JOAQ, o que me deixa seriamente preocupado. Que poderia ter acontecido?

4/7 - A Rádio Tirana, dia 2, irradiou artigo do CID, tendo como centro os acontecimentos ocorridos no Sul do Pará. Matéria curta e muito boa. É um chamamento à luta.

12/9 - Balanço político de cinco meses de luta armada na região do Araguaia: sobre as forças guerrilheiras - DA não teve perdas; o DB teve duas perdas, um aprisionado e outro morto; DC teve seis baixas, entre prisioneiros e mortos (um terço dos seus efetivos), o que constituirá um golpe para o D. Uma das principais falhas da CM é não ter contatos com o P, contato que tem primordial importância para o desenvolvimento da luta armada na região do Araguaia. 

Sobre as Forças Armadas da ditadura: o inimigo tem extensa frente a atender, que vai de Marabá até Xambioá. Por isso tem que mobilizar numerosos efetivos, que apesar de seu vulto não atendem à necessidade de golpear seriamente as FFGG. O moral das tropas do inimigo é baixo. Os camponeses informam que os soldados revelam medo. Até hoje os milicos não se encorajaram a penetrar na mata. As patrulhas do Exército andam somente pelas estradas, caminhos e, excepcionalmente, em picadas. As forças repressivas têm espírito defensivo, revelam displicência, afoiteza e completa falta de vigilância. Isso favorece a realização de ações ofensivas de nossa parte (emboscadas, assaltos e fustigamentos).

2/10 - Completo 60 anos. Não é uma idade própria para um guerrilheiro. Mas me esforço para cumprir meu dever de revolucionário. Dois terços de minha vida, precisamente 40 anos, dediquei ao P. Fiz as mais diversas experiências. Ingressei nas fileiras partidárias como soldado e desenvolvi, em 1932 e 1933, intensa atividade nos quartéis. Em seguida, durante alguns anos, fui dirigente da UJC. Posteriormente, integrei o Secretariado Regional do Rio de Janeiro. Ocupei durante longo período o cargo de Secretário Nacional de Agitação e Propaganda do partido.

Como deputado federal na legenda do Partido Comunista do Brasil, tornei-me líder da bancada comunista na Câmara dos Deputados. Orientei, durante longo tempo, na função de diretor, o órgão central do CC, “A Classe Operária”, principalmente depois da reorganização do partido, em 1962, e do rompimento com o revisionismo.

Agora estou nas matas do Araguaia, ao lado de bravos e jovens lutadores, enfrentando forças militares da ditadura. De todas as tarefas que tive a meu cargo, esta missão é a que mais gosto, apesar de ter a saúde abalada pelo peso dos anos e por longa e febril atividade revolucionária. Orgulho-me do meu partido e por ele estou disposto a dar minha vida. Somente o PC do Brasil pode conduzir nosso povo à vitória na luta pela liberdade, a emancipação nacional e o socialismo. Em contato com os corajosos combatentes que aqui se encontram, rapazes e moças, refaço minhas energias, inspiro-me em seu desprendimento e cada vez mais confio no radioso futuro de nosso glorioso destacamento de vanguarda do proletariado.

20/12 - Situação dos Destacamentos: O DA obteve importantes êxitos. Permanece incólume. Seu poder de fogo melhorou um pouco. Seu comando tem espírito de iniciativa e realizou bom trabalho de massas; O DB também teve êxitos, mas teve baixas relativamente grandes: 7 cc (6 fora de sua área). Levou a cabo razoável trabalho de massas; O DC dispersou-se. Muitos de seus cc morreram, outros foram presos e o restante parece que se deslocou para outra região.

As FFAA da ditadura realizaram duas grandes campanhas contra as FFGG. Uma em abril e outra em setembro-outubro. Ambas fracassaram porque seus planos foram elaborados sobre os mapas, fora da realidade da selva. Grandes massas de soldados não podem penetrar na selva por inúmeras razões. Elas acabam se concentrando na Transamazônica, nas cidades e vilarejos da periferia. O excesso de homens traz ao inimigo enormes dificuldades, como falta de transporte, precária logística e emprego de tropas sem experiência de luta anti-guerrilha. Além do mais, os guerrilheiros só aparecem quando querem e julgam conveniente. O Exército combate a um inimigo invisível.

24/12 - Sem ser esperado, JOAQ, acompanhado do ZECA, apareceu no acampamento ao escurecer do dia 22. Trazia notícias tristes. Informou que o ZECA foi a um depósito do DB buscar umas peças de roupa em companhia de dois cc, desse D, que vieram apanhá-lo. Ali encontraram a VAL, membro do grupo do JU. Com ela também se achava o RAUL, embora no momento não estivesse no local, pois saíra para caçar. Esta c do DB deu notícias do que acontecera com JU e seu grupo. Dois dias depois de partirem começou a ofensiva do inimigo, desfechada em setembro. Logo que chegaram ao Franco, foram surpreendidos pelos soldados quando tentaram entrar em contato com a família que os ajudara na viagem anterior. Neste choque, FLÁVIO matou um soldado. Durante todo o percurso foram tomando conhecimento da presença de tropas do Exército. Qualquer tentativa de se aproximar de casas de elementos de massas esbarrava com a vigilância dos milicos, que estavam emboscados nas estradas, piques e capoeiras. No dia 30 de setembro, data marcada para o encontro com os cc do DC, JU decidiu procurar um camponês para se informar melhor. Ele e seu grupo não puderam entrar na casa que estava tomada pelos soldados. Resolveram se retirar. Quando iam apanhar as mochilas, que haviam deixado num local um pouco afastado da moradia do lavrador, irrompeu violento tiroteio, verificando-se sucessivas rajadas de FAL ou metralhadora. JU, que conversava com a VAL, caiu a seus pés e depois de pronunciar umas poucas palavras, morreu. VAL olhou em torno de si e notou que FLÁVIO estava estendido sem vida no chão. Neste momento, viu RAUL, que fora baleado levemente no braço, querendo se afastar, tomando o caminho de um pique próximo. Correu para impedir que o fizesse, pois o pique estava tomado de soldados. Ao chegar junto do RAUL observou que GIL, de cócoras, procurava reanimar o JU. Depois de conversar com o RAUL, procurou GIL e não o viu mais. Talvez tivesse sido atingido pela metralha. É quase certo. Diante disso, os dois sobreviventes se retiraram.

Com a morte de JU as FFGG recebem pesado golpe. Perderam seu médico, um membro da CM com grande capacidade política e militar. JOÃO CARLOS HAAS SOBRINHO, este o verdadeiro nome do desaparecido, era um quadro de grandes qualidades.

FLÁVIO, antigo estudante de arquitetura, era um dos mais qualificados combatentes do DB. Viera do Estado da Guanabara. Nesse Estado ajudou a formar o partido entre os estudantes. Também desenvolveu atividades revolucionárias em Minas Gerais. O DB perdeu um grande lutador.

GIL viera de São Paulo e há muitos anos estava na tarefa de preparação da luta armada. Sua morte deixa um grande vazio no DB.

Depois de todas essas baixas, o DC teve outra perda. LENA desertou. Entregou-se ao inimigo. Era uma combatente ideologicamente fraca e pouco entendia da luta em que estava empenhada. Viera ao campo acompanhada do marido, mas há 4 meses estava rompida com ele.

No mês de setembro, por ocasião da grande campanha das Forças Armadas contra o movimento guerrilheiro, o DC teve mais 4 baixas fatais. Todas elas por infração das leis da guerrilha e por inexperiência militar de seu VC: CAZUZA, VITOR, ZÉ FRANCISCO e ANTONIO. DINA conseguiu escapar.

Assim, o DC ficou desfalcado de 11 combatentes, sendo 7 mortos e 4 presos. Restavam apenas 9.

O rádio nos deu notícias inquietantes da cidade. A Bandeirantes informou que a polícia da GB atacou uma casa em Jacarepaguá, tendo morto LINCOLN e outro camarada. Por sua vez, a Rádio Tirana fala em despacho da Associated Press em que se divulga nota do governo informando que a polícia de São Paulo matara CARLOS DANIELLI e prendera um casal com duas crianças. Tais notícias nos preocupam muito. Se verdadeiras, e parecem ser, a direção do P foi seriamente golpeada, o que não deixará de ter reflexos na ajuda política e material à luta guerrilheira do Araguaia.

26/1/73 - Estive meditando sobre as perdas do DC. Elas são bastante sérias. Morreram ótimos companheiros e combatentes de valor. Além do JORGE, MARIA e possivelmente CARLITO, caíram lutadores firmes como VITOR, ANTONIO, CAZUZA e JOSÉ FRANCISCO.

JORGE, cujo verdadeiro nome era BERGSON GURJÃO DE FARIAS, era ex-estudante do último ano de Química da Universidade do Ceará.

MARIA, era uma jovem professora do interior de São Paulo.

CARLITO veio do Estado da Guanabara, aí formara-se em Ciências Sociais. Seu verdadeiro nome: KLEBER.

Outro morto do DC foi seu vice-comandante, o companheiro VITOR. Antigo militante do partido, pertenceu ao Secretariado do CR da Guanabara. Seu nome era VITÓRIO. Nascera em Minas, no Triângulo Mineiro (Uberlândia).

ANTONIO, cujo verdadeiro nome não sei, viera da Bahia. Geólogo capaz, conhecia bem topografia.

JOSÉ FRANCISCO, antigo marinheiro, ingressou no P em 1931. CHAVES, era seu sobrenome.

CAZUZA, um dos mais antigos na tarefa de preparação da luta armada. Atuou, nesse sentido, em Goiás, Maranhão e Pará. Ex-estudante, conhecia bastante Medicina, ocupando o posto de chefe do serviço de saúde do seu D. Natural de São Paulo.

12/2 - Nossa resistência armada contra a ditadura faz 300 dias.

11/3 - O grupo que saiu para liquidar o bate-pau não o executou. Depois de tomar a sua casa de assalto, prendeu-o e interrogou-o. Ele deu uma série de explicações e, de joelhos, pediu perdão. Disse que foi iludido e não mais serviria aos soldados. Comprometeu-se a pagar o porco e o rifle de PEDRO CARRETEL. O bate-pau a ser justiçado não causara danos de importância às FFGG. Não é dos mais raivosos. Por isso, a solução política, dada ao caso, talvez tenha sido a melhor. Acresce que a casa do canalha, na ocasião, estava cheia de camponeses.

26/3 - Uma boa notícia sobre as atividades do DB. Esta unidade das FFGG tinha realizado operação militar contra a casa em que estavam morando alguns pistoleiros do capitão OLINTHO, que realizou extensa grilagem na região. O chefe dos jagunços era um bandido famoso, PEDRO MINEIRO, homem de confiança daquele capitão que representa a “Capingo”.

A ação se verificou às 6 horas da manhã do dia 12. Ela foi precedida de uma exploração no dia 10 e por outra no dia 11. O Comando do D, que estava acampado a um quilômetro e meio da casa, com as informações trazidas ficou senhor da situação. O D saiu do acampamento às 3:30 horas e, próximo ao local do assalto, dividiu-se em dois grupos. Um destes, chefiado por OSV entrou pelos fundos e outro, dirigido pelo COMPRIDO, arrombou uma janela e a porta da frente. Na casa só se encontravam dois pistoleiros: o PEDRO MINEIRO e um piauiense jovem. Tomados de surpresa não ofereceram qualquer resistência. Presos e amarrados foram alvo de cerrado interrogatório. O piauiense era um elemento novo no bando do capitão OLINTHO, mas o PEDRO MINEIRO era o chefe dos pistoleiros e tinha sobre as costas a responsabilidade de vários crimes de morte, perpetrados contra peões e camponeses. Submetido a julgamento pelo Tribunal Revolucionário do Destacamento, foi condenado à morte e imediatamente fuzilado. No local os combatentes do DB arrecadaram oito armas em excelentes condições, suprimentos, remédios e alimentos.

Leia também Diário do ‘Velho Mário’, Comandante Militar da Guerrilha do Araguaia – Alguns trechos (1a. Parte)

 

 

Diário do ‘Velho Mário’, Comandante Militar da Guerrilha do Araguaia – Alguns trechos (Final)
por Carlos I.S. Azambujaem 27 de fevereiro de 2006

Resumo: Os relatos finais do diário do "Velho Mário", descrevendo as atividades comunistas no Araguaia.

© 2006 MidiaSemMascara.org


 

12/4 - Faz hoje um ano a luta guerrilheira na região do Araguaia. Trata-se de importante êxito. Conseguimos realizar o que nenhuma outra força política de esquerda foi capaz de levar a cabo: erguer-se de armas na mão contra a ditadura e manter-se durante 12 meses. Hoje estamos em condições melhores do que há um ano e nossas perspectivas são boas.

13/4 - A Rádio Tirana comemorou o 1º aniversário da resistência armada na região do Araguaia. Comentou as atividades das FFGG do Araguaia e enviou a saudação do povo albanês. Isso nos estimulou bastante. Ficamos emocionados com essa solidariedade e profundamente gratos aos amigos albaneses.

12/5 - O D organizou uma ação punitiva contra o PAULISTA, pequeno fazendeiro localizado na estrada S. Geraldo-Marabá. Este indivíduo, que era nosso conhecido antes do início da guerrilha, se prestou aos mais vergonhosos papéis. Ajudou a prender o GERALDO; ficou com dois burros nossos, vendendo-os e embolsando o dinheiro, serviu de guia às tropas do Exército e andou pelas casas dos camponeses, realizando propaganda contra os guerrilheiros. O objetivo da ação era obter uma indenização pelos prejuízos que ele nos causara. A operação foi levada a cabo no dia 1º de maio à noite, depois de se ter feito minuciosa pesquisa no local. Dois grupos do D, ao todo 12 cc, tomaram a casa de assalto, onde se encontravam o PAULISTA, sua mulher, o POMBO e a empregada. Num galpão dormiam 12 peões. Todos, e mais 3 pessoas que estavam numa barraca próxima, foram reunidos na casa principal. NEMER, este o nome do canalha, estava bastante atemorizado. E não era para menos. Feita minuciosa revista geral, arrecadou-se um revólver Smith and Wesson, uma espingarda 20, quatrocentos e poucos cruzeiros, roupas, remédios (muitos dos quais eram nossos), alimentos e alguma munição. O valor das mercadorias e do dinheiro correspondia ao prejuízo que o sem vergonha nos dera. Em seguida, DINA falou aos peões, explicando os motivos da nossa luta e expondo nosso programa. Expressou-se com ódio e entusiasmo. Depois acusou-se o PAULISTA. Disto se ocuparam PE e DINA. O fazendeiro se defendeu, negando parte da acusação e lançou toda culpa no Exército, que chamou de “exército de cachorros”. O C do D foi magnânimo em relação ao acusado. Advertiu-o para que não incidisse em outros crimes. As contas estavam ajustadas. Foi correta a decisão de não executar o NEMER, se olharmos do ponto de vista político. É muito relacionado em S. Geraldo e Xambioá e seu fuzilamento poderia repercutir mal entra a massa.

4/6 - A Rádio Tirana irradiou pequeno resumo da saudação do CC do PC do Brasil aos guerrilheiros do Araguaia por motivo do 1º aniversário da luta armada no sul do Pará. Ouvi a transmissão bastante emocionado e com intensa alegria. Nossos camaradas da cidade lembram-se de nós. O Partido continua em plena atividade. Dá sua justa e esclarecida orientação a todo o povo brasileiro. Revejo a figura de CID e demais companheiros de direção. Recordo com saudade os camaradas tombados. Na mensagem lembro a presença de nossos mártires. Nela vivem DANIELLI, LINCOLN e GUILHARDINI. Nada pode apagar o fogo da revolução. Espero ansiosamente a irradiação completa da saudação de nosso valoroso Partido, vanguarda política da classe operária.

14/7 - Outro grupo do D liquidou o Osmar. Na ação só intervieram dois combatentes. Esse indivíduo, velho conhecido de OSV e seu grande admirador, era excelente mariscador e exímio conhecedor da mata. No ano passado, por volta do mês de julho, o DB esteve com ele, sendo recebido com entusiasmo e apoio material. O jovem mateiro prontificou-se a ajudar o mais que pudesse e chegou a dizer que ingressaria nas FFGG. Quando nossos combatentes, depois da campanha do Exército de setembro-outubro de 1972, voltaram à área da Palestina, OSMAR mudara de atitude. Em sua casa acamparam 180 pára-quedistas da Guanabara. Tornara-se amigo do capitão e serviu de guia para os soldados, recebendo 25 cruzeiros por dia, e comida. Vestiu o uniforme de camuflagem (chitão, como o chama a massa), mas não recebeu armas. Andou pela mata durante 12 dias. No entanto, disse ao OSV que fora obrigado a isso e que continuava amigo. Não levara a tropa do Exército a nenhum lugar em que os guerrilheiros pudessem estar. Prestou uma série de informações; indicou um camponês que podia vender farinha e ajudou a carregá-la, uma vez adquirida. Era evidente que estava fazendo jogo duplo, mostrando ser pessoa sem caráter. Mas o C do DB deixou-o em paz depois de explicar-lhe o erro que cometera. Esperava que se corrigisse. Agora, voltando novamente à mesma área, o D soube por informação da massa que ele estivera em Marabá e fora engajado no Exército por 4 anos, talvez como guia. Estava com dinheiro e fazia derrotismo contra a guerrilha. A um camponês, que fornecia aos guerrilheiros, concitou a abandonar a tarefa e ofereceu-lhe dinheiro para abrir um pequeno comércio. O homem representava, assim, um perigo. Conhecia a selva como a palma da mão. O jeito mesmo era acabar com ele.

17/7 - Ontem aviões do inimigo roncaram o dia todo em vasta área, principalmente no Sul. Qual a sua missão? Aguardo notícias. Quando veio do DA, NELSON informou que em Marabá estavam acantonados muitos soldados do Exército. Não sabia precisar o número, mas era um grande contingente. Havia também helicópteros. Estará havendo concentração de tropas inimigas?

22/7 - Surpreendente é o apoio do povo da região à guerrilha. Volto a repetir: ultrapassou as nossas melhores expectativas. Todos nós, antes do início da luta armada, esperávamos que, começada essa luta, as massas ficariam do nosso lado. E não poderia ser de outra maneira. Defendemos uma causa justa, que fala diretamente ao coração dos oprimidos. Mas a tomada de posição dos camponeses, em favor dos guerrilheiros, foi bastante rápida. Por que tivemos tanto êxito em nosso trabalho com as massas camponesas? Primeiro, porque nossa linha política, bastante ampla, de concentrar o fogo na ditadura, é justa. Segundo, porque nossa linha de massas, de não causar nenhum dano aos camponeses e ajudá-los sempre, é correta. Terceiro, porque a nossa linha militar é acertada e conseguimos resistir à poderosa investida do inimigo. Quarto, porque estamos, há bastante tempo, sozinhos em vastas áreas, pois o inimigo quase não aparece e nos transformamos em autoridade.

14/8 - Balanço da Luta Guerrilheira no Araguaia desde Outubro do ano passado: não tivemos perdas humanas (a não ser o GLÊNIO, que se perdeu na mata e depois procurou desertar, sendo preso), nem perdas materiais; recrutamos 5 combatentes entre a população local e temos perspectiva de recrutar muitos outros; reorganizamos nossas forças, em particular o DC. Todos os DD estão sob controle da CM; melhoramos a capacidade militar dos combatentes. Avançamos no reconhecimento do terreno e no domínio da mata; realizamos algumas ações que, embora pequenas, tiveram repercussão entre o povo (contra o barracão do capitão OLINTHO, contra a fazenda do PAULISTA, ocupação de Bom Jesus, etc.); ampliamos nossa área de ação (dos DD); resolvemos, em certa medida, nossos problemas de abastecimento. Temos reserva de alimentos para 6 meses. Solucionou-se a falta de calçados. Mas ainda são grandes nossas deficiências no que se refere ao equipamento; melhoramos nosso armamento, conseguindo 9 rifles 44, 9 espingardas 20, um rifle 36 e 4 revólveres (apoiados na massa e por ação militar). Consertamos quase todas as armas. Não há nenhum combatente desarmado. Mas, comparado com o do inimigo, o nosso armamento é deficientíssimo. Carecemos de balas 44 e de munição. Precisamos de minas, granadas e de algumas armas modernas. Nosso poder de fogo ainda é pequeno.

Desenvolvemos um trabalho de propaganda relativamente bom. Imprimimos material que foi distribuído em S. Domingos, Palestina e S. Geraldo. Destaca-se o romance da Libertação do Povo. Aumentou o número de nossos agitadores e melhorou sua qualidade. No entanto, é pequeno o trabalho de educação política e ideológica com os combatentes.

Enfrentamos com êxito as doenças, apesar da falta que o JUCA nos faz. É bom o estado físico dos combatentes.

Enfim, é bastante alto o moral das FFGG. Melhorou grandemente o aspecto disciplinar. Poucos são os casos de indisciplina (MANÉ, ARI, etc.).

Nossos maiores êxitos estão no trabalho de massas. Desse trabalho depende a maior parte das vitórias da guerrilha. Hoje já é difícil fazer uma estatística do trabalho de massas, tal o seu crescimento entre os camponeses.

Conseguimos dezenas de amigos firmes. Organizamos mais de 100 núcleos da ULDP. Conseguimos ligações em corrutelas. Alimentar os guerrilheiros é para as massas quase uma lei (exemplos de ZC, DINA e MUNDICO). Realizamos trabalho físico juntamente com as massas (broque, colheita de arroz, etc.).

A opinião pública da região está ao lado das FFGG. Apóiam a guerrilha os terecozeiros, os padres e “crentes”; elementos de massa que se apoderaram de nossas coisas devolveram-nas. Bate-paus pedem clemência. Eleva-se o nível de consciência política da população local. Alguns elementos da massa ouvem diariamente a Rádio Tirana. Grande é o número de camponeses que são propagandistas da guerrilha. Em vastas áreas somos reconhecidos como autoridades.

Numa das aulas do “Curso de Preparação Militar” dizíamos que, iniciada a guerrilha, esta passaria por um ponto crítico, a partir do qual não seríamos mais derrotados. Não temos dados suficientes para afirmar que ultrapassamos tal ponto. Mas podemos, desde já, asseverar que atingimos uma situação em que só seremos desbaratados se cometermos erros graves. Por que?

1) porque temos atualmente maior domínio da arte militar, isto é, da guerra de guerrilhas;

2) porque possuímos maior conhecimento da selva;

3) porque aumentou consideravelmente a nossa ligação com as massas da região. Estas, em sua grande maioria, estão conosco;

4) porque garantimos, embora de maneira ainda insuficiente, nosso abastecimento, através das massas e da mata;

5) porque existe uma situação nacional favorável ao desenvolvimento da luta armada.

Nossa perspectiva é de uma guerra prolongada. É preciso ter isso sempre em conta. Daí a importância da orientação da economia de forças. Neste momento tudo devemos fazer para não perder ninguém. Só atacar com certeza de êxito. Não arriscar tudo. Quando necessário recuar, sem temer que possam pensar que fugimos da luta. Devemos ter a maior prudência nas ações punitivas. Não desperdiçar forças e nem jogar com a vida dos combatentes, considerando-se que as atuais FFGG são o núcleo fundamental de uma força armada revolucionária a se criar no futuro.

Se temos a perspectiva de criar uma área liberada, devemos, desde já, ter em vista os embriões do poder local. Devemos desenvolver a propaganda revolucionária, forjar a frente única e isolar a ditadura (no nosso caso as FFAA do governo). Tudo fazer para restabelecer a ligação com o exterior. Devemos sempre nos ater à nossa linha militar, obedecendo escrupulosamente às leis da guerrilha. Armar-se com as armas capturadas do inimigo (as armas geram outras armas) e adquiridas entre a massa e através da massa.

16/8 - Vivo a placidez do acampamento, ontem perturbada por tiro de espingarda 20. O disparo talvez tenha sido feito por um peão do capitão OLINTHO. Pequeno é o movimento de aviões. Um joelho vem me incomodando. Julgo ser uma distensão muscular provocada pela última caminhada.

20/8 - O INCRA está fazendo demagogia na área do DC. A situação nesta área é diferente da que existe na área dos DA e B. São Geraldo é considerado pelo INCRA como zona fundiária e a Transamazônica zona de colonização. Nesta última quer enquadrar os camponeses nas colônias e na primeira pretende dar alguns títulos de posse da terra (não se trata de títulos de propriedade). Dez posseiros já receberam tais títulos e outros dez foram chamados a Marabá para recebê-los. É preciso desmascarar a demagogia do INCRA.

Um grupo chefiado por MUNDICO realizou interessante trabalho de massas. Esteve numa reza onde havia 120 pessoas. Aquele combatente então fez um comício, falando para aquela pequena multidão. Depois, em outros locais, falou para ajuntamentos de 20 e 30 pessoas.

MUNDICO informa que em sua incursão, encontrou dois jovens esquisitos, que fixaram residência na área. São pessoas da cidade. Parecem milicos e deram informações contraditórias. É preciso estar atento. O inimigo talvez pretenda instalar toda uma infra-estrutura de informações na região. Na área do DA foi visto um tipo estranho num Volks, querendo botar roça; outro, igualmente suspeito, pretende fazer um local, e um jovem de S. Domingos anda investigando os moradores sobre suas ligações com a guerrilha. Na área do DB também apareceram dois “mineiros” querendo formar locais de plantio. Tudo isso nos obriga a reforçar a vigilância e tomar as necessárias providências para resguardar as FFGG de qualquer golpe.

26/8 - Um amigo de Marabá não acredita que o Exército entre este ano na mata. Nos alerta contra os agentes do INCRA, FUNAI, SUDAM e da CEM.

8/9 - Segundo OSV, o Exército soltou 25 agentes na mata, para nos espionar. Os que forem por nós localizados, serão tratados devidamente.

7/10 - ZECA e FOGOIÓ vieram avisar que o inimigo ia entrar na mata no dia seguinte. Era necessário mudar imediatamente de acampamento. Os mensageiros do PE informaram que a massa dava notícia que um grupo do DA realizara uma operação contra o posto militar da Transamazônica, situado no entroncamento que leva a São Domingos. Os guerrilheiros tinham se apoderado de 7 fuzis e 5 revólveres.

8/10 - PE veio ao nosso encontro. Informa que o inimigo já entrou. Um pequeno grupo bivacou perto do Paulista. Outro foi para a Pimenteira, castanhal do Almir Moraes. Mais um outro foi para Pau Preto. Hoje devem chegar mais tropas. A aviação está em atividade. Um “paquera” sobrevoava a área. Levantamos acampamento cedo e paramos depois de 3 horas de marcha. PE está preparando algumas ações militares contra o inimigo.

10/10 - Estamos em outro acampamento. Este não nos agrada. Está cercado por estradas e caminhos de castanhal. Logo mudaremos.

16/10 - Os soldados estão disseminados por algumas bases. Por enquanto andam pelas estradas. Mas estão batendo o rio Gameleira. Muitos camponeses foram presos. Houve também prisões em S. Geraldo. Todos os moradores estão sendo chamados pela Polícia Militar e interrogados.

30/10 - Más notícias do DA (para mim particularmente terríveis) deixaram-me em estado de não poder escrever coisa alguma. Hoje, refeito do ataque de impaludismo e, em parte, refeito do choque emocional, disponho-me a relatar o sucedido com um grupo de combatentes daquele Destacamento. No dia 26, chegaram JOCA e ARI, depois de caminharem 12 dias, gastos na ida e na volta até o ponto com os mensageiros do DA. JO relatou que vieram ao lugar do encontro PIAUHI e ANTONIO. O vice-comandante daquela unidade guerrilheira contou o seguinte: no dia 13, um grupo chefiado por ZC, composto por NUNES, JOÃO, ZEBÃO e ALFREDO, dirigiu-se para um depósito para apanhar farinha. No dia anterior, ALFREDO e outros combatentes insistiram junto ao Comandante para se matar 3 porcos do D, que estavam numa capoeira abandonada. ZC repeliu com energia a proposta dizendo que ela afetava a segurança. Por isso só iriam buscar farinha. No entanto, no meio do caminho, sob pressão de alguns combatentes, deixou-se convencer de apanhar os porcos. E o grupo enveredou capoeira a dentro. Então, foram cometidas uma série de facilidades. Os porcos foram mortos a tiros, acendeu-se fogo, não se deu importância ao helicóptero que sobrevoou o local e permaneceu-se demasiado tempo na capoeira. Ainda estavam os guerrilheiros dedicados à tarefa de tratar os porcos quando foram surpreendidos pelo inimigo. JOÃO procurou fugir e ouviu descargas de metralhadora. Mas obteve êxito. Foi ele quem relatou o ocorrido. Em sua opinião, os outros 4 combatentes, que não apareceram no acampamento, foram mortos. Assim, o D foi duramente golpeado. Perdeu seu comandante, homem capaz e um dos mais puros revolucionários. Estava ligado ao P desde os 16 anos. Ainda podia dar muito à revolução. Era excelente comandante. O primeiro erro que, no entanto cometeu, foi-lhe fatal. Tinha 27 anos. Seu verdadeiro nome era ANDRÉ GRABOIS. NUNES era a terceira pessoa do Destacamento. Tinha raras qualidades de combatente e destacava-se por seu espírito combativo. Seu nome era DIVINO FERREIRA DE SOUZA. Tinha 31 anos. ZEBÃO, jovem espirituoso, incorporou-se à guerrilha aos 19 anos. Agora tinha 23. Era um guerrilheiro exemplar. ALFREDO, que não conheci, era elemento recrutado entre a população local. Eficiente, calmo e corajoso, constituía a melhor aquisição das FFGG entre os camponeses.

16/11 - No dia 14 chegaram ao acampamento JOAQ, JO e ARI. O primeiro resolveu vir a fim de prestar informações diretas à CM. As notícias sobre o DA não são boas. A companheira SÔNIA, bula do Destacamento, quando atendia a um ponto com 2 combatentes, foi surpreendida pelo inimigo e metralhada. Isso aconteceu porque ela desobedeceu normas de marcha e as diretrizes que recebeu. Tinha ordens para seguir determinada rota, mas resolve ir por uma “batida”, verdadeiro caminho. Os milicos estavam na área e buscavam rastros dos guerrilheiros. A companheira resolveu tomar banho e deixou suas botinas no trigueiro, a uma distância não muito longe do ponto. Como os dois companheiros não chegaram na hora combinada, ela regressou despreocupada, acompanhada de um jovem que há pouco ingressara na guerrilha. Não encontrou as botinas. O jovem alertou-a sobre o inimigo. Mas ela insistiu em procurá-las. Então se ouviu a intimação dos soldados: “Se correr, morre”. Seu acompanhante fugiu em desabalada carreira. Ouviram-se rajadas de metralhadora e de FAL. Sônia tombou gritando. A morte de SÔNIA é um exemplo da falta de espírito militar que domina ainda muitos de nossos combatentes. SÔNIA viera do Estado da Guanabara. Era de família pobre. Foi educada em um asilo, a União das Operárias de Jesus. Trabalhou numa das fábricas da Coca-Cola e custeou seus estudos com seus próprios recursos. Ingressou na Faculdade de Medicina e cursava o 4º ano quando veio para o Araguaia.

21/11 - As FFGG foram duramente atingidas com os insucessos do DA. Este, que estava com efetivo completo, ficou com apenas 15 combatentes. Alguns desses combatentes são bastante atrasados do ponto de vista militar. O D perdeu 4 fuzis, um rifle 44, uma espingarda 20 e 6 revólveres. Enfrentamos atualmente a situação mais difícil desde que começou a luta guerrilheira.

23/11 - ARI era excelente guerrilheiro (parece que a morte escolhe sempre os melhores combatentes). Ativista estudantil na Guanabara, cursava a Escola de Física daquele estado. Tinha bastante futuro e daria um bom chefe de Destacamento. Nasceu em Cachoeira do Itapemirim, no Espírito Santo. Seu nome: ARILDO VALADÃO, tinha 25 anos.

10/12 - No dia 8, FOGOIÓ e LIA foram ao ponto de chegada do pessoal do B e C. Apareceu SIMÃO, que chefiava o segundo grupo que deveria chegar a 10. Ele trouxe notícias más. Sua viagem fora normal até o dia 3. Neste dia, seu grupo acampara em um local muito utilizado por nós. Chegara às 2 e meia da tarde e às 5 foi surpreendido pelo inimigo. CHICO, que saíra, juntamente com TOINHO, para procurar jabotís sob uma Gameleira, foi alvejado, perto do acampamento, por dois tiros. Seguiram-se, então, novos tiros, de 15 a 20. No acampamento encontravam-se Simão, Daniel, Lauro e Áurea. Estavam inteiramente à vontade, consertando armas e costurando roupas. Todos eles saíram em desabalada carreira do local, deixando as mochilas, armas, munição e bornais. JAIME, que no momento saíra para apanhar cocos, e FERREIRA, que estava de guarda, se extraviaram do conjunto do grupo. TOINHO, voltando ao acampamento, não encontrou ninguém. Apanhou seu mocó e correu na direção da guarda. Não encontrou FERREIRA, mas viu o mato mexer. Para lá se dirigiu e tomou contato com SIMÃO. CHICO, segundo informou TOINHO, deve ter morrido. Então, os 5 combatentes saíram em marcha batida em direção do ponto de encontro conosco. Não tinham nada, nem fósforos e nem isqueiros. Chegaram ao local dia 6 e tiveram que esperar até o dia 8. Passaram 5 dias dramáticos; dias de fome. Quando chegaram estavam esquálidos, esfarrapados e com os corpos inteiramente picados por tatuquiras. Dormiram ao relento ou em pequenas barracas improvisadas. A situação do JAIME e do FERREIRA não é boa. O ponto de reencontro não está claro para eles. O segundo não tem fogo e se orienta mal na mata. Se os dois se encontraram na confusão do ataque (estavam na mesma direção) sua situação será bem melhor. O ocorrido com esse grupo é um novo golpe nas FFGG. Estas foram desfalcadas de mais um combatente, o CHICO. Dois guerrilheiros estão extraviados. Perdemos um revólver 38 (do DANIEL), um rifle 22 (do TOINHO), uma espingarda 20 (da ÁUREA) e um rifle 44 (do CHICO). Perdemos também 50 balas de fuzil, 70 balas de 38 e 50 balas de 44; 2 quilos de pólvora, chumbo, uma bússola, 8 mochilas, 4 embornais, 8 redes, 8 cobertores, camisas de uso e 8 camisas novas, calças de uso e duas calças novas, duas quartas de farinha, 4 quilos de sal, 4 panelas, 20 colheres, 5 pratos, 8 lanternas, remédios e vários objetos. O que aconteceu indica claramente que a situação das FFGG vai se tornando difícil.

21/12 - No dia 10, de manhã, inesperadamente, o TOINHO fugiu. Isto constituiu um transtorno para os DD A e B. Esse desertor se encontrava numa área por ele conhecida e onde fora recrutado. Sabe onde se encontram alguns depósitos de milho, com os quais contávamos. Não foi se entregar ao inimigo (deixou sua arma e o mocó), mas acabará preso e, sem dúvida, falará. É um garoto de cerca de 15 anos, sem pai e nem mãe, bastante ativo e que estava integrado na guerrilha. As dificuldades da luta, a alimentação escassa, a morte do CHICO e o mau tratamento que alguns combatentes lhe dispensavam, devem ter contribuído para a sua fuga. Não tinha ainda consciência sobre os elevados princípios da nossa causa.

No dia 18, JOSIAS, sob o pretexto de fazer suas necessidades fisiológicas, iludiu nossa vigilância e desertou. Na certa foi se entregar às forças da repressão. Trata-se de um elemento inseguro, vacilante, individualista e de nenhuma valia para a guerrilha. Apesar de quintanista de Medicina, nem como bula servia. Pode dar algum serviço de depósitos da área do DC. sua deserção não foi surpresa para ninguém. Alivia a guerrilha de um peso morto.

22/12 - Ontem OSV e AMAURI regressaram sem o JOAQ e os outros companheiros que deviam apanhar. Não encontraram o local combinado. Hoje, partiram o NELSON e a LIA para trazer os combatentes que OSV não conseguiu localizar. PE, que comanda os DD B e C, informa que só tem ração de alimentos para um dia. Acabou-se o milho e restam 7 litros de farinha. O que vem salvando a situação é a castanha e o jaboti. Na última etapa da viagem catamos duas latas de amêndoa e durante o deslocamento da área do DC para a área do DA, onde nos encontramos, nos custou 24 dias, e apanhamos cerca de 150 jabotís. Também, hoje, partiram para se encontrar com o JOÃO, MARIA e mais os três combatentes extraviados no choque com o inimigo, os companheiros AMAURI e VALQUÍRIA. No acampamento só se encontram 12 combatentes. Cinco estão atacados de malária, OSV, DINA, ÁUREA, LUIZ e PERI. Não melhorei nada dos olhos.

A diminuição da visão incomoda bastante. Espero a vinda do JOAQ para discutirmos melhor a situação. Devemos reexaminar nossa tática militar, reorganizar nossas forças e definir as nossas perspectivas. O moral dos combatentes é alto, apesar de todas as nossas vicissitudes. Mas, num ou outro elemento surgem sintomas de derrotismo. Ontem à noite fiz rápida palestra, exaltando o comportamento dos combatentes e combatendo todo derrotismo. Mostrei que é possível enfrentar com êxito a nova investida do Exército. Nossas perdas resultam, fundamentalmente, do desrespeito às leis da guerrilha, de nossa linha militar.

23/12 - JO não apareceu no ponto. Que teria acontecido? NELSON foi hoje repetir o ponto. Talvez tenha havido confusão de data. Caso JO não apareça novamente teremos dificuldade para nos ligar ao DA.

Acabou-se a nossa “bóia”. PE está providenciando recolhimento de coco (para se comer a massa) e de castanhas. Até agora, parou a atividade aérea do inimigo.

25/12 - NELSON encontrou o JO. Este regressou com a CHICA, MANOEL, FOGOIÓ e RAUL. Os três extraviados, dirigidos pelo Zezinho, foram ao ponto com o JOAQ. Lá reataram o contato. Eles relataram que o inimigo viera no nosso “batido”. No acampamento que acabara de ser camuflado estava só o RAUL, pois o ZEZINHO fora à grota apanhar o FOGOIÓ, que estava de guarda. Três milicos vinham na vanguarda procurando nossos rastros. A patrulha devia ter uns 15 homens. Fizeram grande alarde e marchavam no batido que levava ao morro onde estava o grosso dos nossos combatentes. Quando os soldados viram o RAUL, que corria em direção de seus dois companheiros, dispararam um tiro. Então aquele combatente abrigou-se. Passados dois minutos, correu de novo. Contra ele e os outros fizeram 6 ou 7 disparos. Mas todos saíram incólumes. Ainda bem.

JOAQ e ZEZINHO não vieram porque foram buscar duas latas de farinha para nos entregar. Quanto ao ARI, o nosso armeiro, desapareceu quando ia apanhar farinha numa barraca. Não sabemos se teve um ataque epiléptico ou se desertou. As duas possibilidades são viáveis. Ultimamente, com a presença do inimigo e com o aumento das dificuldades, mostrava certo descontentamento. É muito personalista e também muito assustado. A morte de ZEBÃO, que era seu primo e a falta de “bóia” podem ter contribuído para que fugisse. Se ele não aparecer, trará para nós dificuldades. Ficamos sem um dos armeiros. Ele conhece todos os depósitos da CM e a oficina onde há 14 armas para consertar. Agravou-se a moléstia de meus olhos. Estou enxergando com dificuldade. Há possibilidade de sobrevir um colapso em minha visão. Não posso facilitar. Penso em sair da região, pois, se não o fizer, posso criar, com minha doença, uma situação difícil para os companheiros. Discutirei o assunto na próxima reunião da CM que se realizará logo que o JOAQ chegue. Para mim, é bastante doloroso deixar as FFGG”.

 

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Guerrilha do Araguaia: uma resposta a Dona Taís

Guerrilha do Araguaia

A Guerrilha do Araguaia II

A Guerrilha do Araguaia III

GUERRILHA DO ARAGUAIA - depoimentos de militares

genoíno, o herói de barro

Depoimento de um militar que participou da Guerrilha do Araguaia

 

desfazendo mitos da luta armada - Grupo Inconfidência

Passaralho no jornal Correio Braziliense

 

Escracho

O Palácio do Planalto amanheceu com uma faixa no topo do prédio:

"AQUI VIVE UMA TERRORISTA"

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