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Artigos-->Um conto de Hemingway: breve análise ... -- 29/09/2002 - 22:10 (Dante Gatto) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
NO CAIS DE ESMIRNA [1]

Era estranho, disse ele, como gritavam todas as noites à meia-noite. Não sei porque gritavam àquela hora. Estávamos no porto, e elas se amontoavam no cais e à meia-noite começavam a gritar. Costumávamos ligar os refletores em cima delas para silenciá-las. Dava sempre resultado. Passávamos os refletores por elas duas ou três vezes, e elas paravam. Uma vez, eu era o oficial-de-dia no cais, e um oficial turco aproximou-se de mim danado da vida porque um de nossos marinheiros o havia insultado. Por isso, eu lhe disse que o camarada ficaria preso no navio e seria severamente punido. Pedi-lhe que o apontasse. E ele apontou para um ajudante de artilheiro, sujeito inteiramente inofensivo. Disse que o havia insultado muitas vezes e com ferocidade; falava comigo através de um intérprete. Não consegui imaginar como o ajudante de artilheiro aprendera suficiente turco para insultá-lo. Chamei-o e disse:
_ Isso é só porque você pode ter falado com qualquer oficial turco.
_ Não falei com oficial nenhum.
_ Não duvido  disse eu  mas é melhor que você vá para o navio e não volte à terra até o fim do dia.
Depois, falei ao turco que o homem estava preso a bordo e seria severamente punido. Sim, com o maior rigor. Ele ficou absolutamente encantado com a coisa. Éramos grandes amigos.
As piores, disse ele, eram as mulheres com filhinhos mortos. Ninguém conseguia que as mulheres largassem os filhinhos mortos. Algumas agarravam-se a criancinhas mortas há seis dias. Não as largavam. Nada havia a fazer. Por fim, era-se obrigado a arrancá-las à força. E havia também uma velha, um caso deverás extraordinário. Contei o caso a um médico, e ele disse que eu mentia. Tratávamos de tirá-las do caís, tínhamos de remover as mortas, e essa tal velha estava deitada numa espécie de maca. Elas disseram: “Quer dar uma olhada nela, seu moço?” Portanto, tive de olhar para ela, e justo nesse momento ela morreu e ficou logo toda dura. As pernas dobraram-se nos joelhos, e ela dobrou-se na cintura e ficou inteiramente rígida. Exatamente como se estivesse morta há muitas horas. Estava mortinha e absolutamente rígida. Falei a um médico a respeito do caso, e ele me disse que era impossível.
Estavam todas lá no cais, e não era como se tivesse havido um terremoto ou qualquer coisa do gênero, porque nunca se sabia o que os turcos iam fazer. Elas nunca sabiam o que o velho turco ia fazer. Lembra-se de quando nos proibiam de entrar para recolher mais gente? Nem sei o que eu esperava, quando entramos naquela manhã. Ele tinha baterias à beça e podia ter acabado com a gente ali mesmo na água. Nós íamos entrar, encostar no cais, soltar as âncoras da proa e da popa e depois bombardear a parte turca da cidade. Eles podiam ter acabado com a gente, mas nós também teríamos mandado a cidade pro beleléu. Pois eles só fizeram disparar uns tiros de pólvora seca enquanto nós íamos entrando. Kemal [2] desceu e demitiu o comandante turco. Por abuso de autoridade ou qualquer coisa parecida. Ele se excedeu. Teria sido uma mixórdia dos diabos.
Você se lembra do porto. Havia uma porção de coisas lindas a flutuar nele. Foi a única época da vida em que eu tive pesadelos. A gente nem ligava pras mulheres que pariam ali mesmo; ligava, mas era pras que se agarravam aos filhos mortos. Pariam ali mesmo. É incrível que tão poucas morressem. A gente se limitava a cobri-las com qualquer coisa e deixá-las pra lá. Escolhiam sempre o canto mais escuro do porão para parir. Nenhuma delas ligava mais pra nada depois que saía do cais.
Os gregos também eram boas praças. Quando realizaram a evacuação, tiveram de livrar-se de todos os animais de carga que não podiam levar em sua companhia, e por isso quebraram as pernas dianteiras dos bichos e jogaram todos na água rasa. Todos aqueles burros com as pernas dianteiras quebradas empurrados para a água rasa. Foi mesmo um negócio muito agradável. Palavra que foi um negócio agradabilíssimo.


Terminada a guerra, Ernest Hemingway transformou-se em corresponde estrangeiro, escrevendo sobre as turbulências que então ocorriam nos Balcãs e no Oriente Médio, envolvendo a Bulgária, Sérvia, Montenegro e Grécia, além dos turcos. Em termos de ficção, este período é representado por este pequeno e terrível conto. A presença americana no local dava-se não pelos conflitos bélicos, propriamente ditos, mas por outras razões deles resultantes: comerciais e assistenciais.[3]
Enredo psicológico, corresponde às lembranças tétricas de um personagem inominado, Narrador-protagonista (se se quiser utilizar a tipologia de Friedman) [4], que começa a narrar estimulado por um “ele”, que nos parece simplesmente uma estratégia desencadeadora ou motivo desequilibrador: “Era estranho, disse ele, como gritavam todas as noites à meia-noite.” Não discernimos uma situação inicial. Trata-se pois de um começo in-abrupto.
Apesar do enredo psicológico, temos o conflito, inerente ao gênero, e, a partir dele, podemos fazer a nossa análise, conforme a classificação de Henry James: apresentação, complicação, (ou desenvolvimento), clímax, e desenlace (desfecho). Mas qual é o conflito? Responderemos oportunamente está questão apesar da desnecessidade.
A apresentação se faz na estranheza proporcionada pelo interlocutor do nosso narrador: o porto, o cais, mulheres (inferimos que se tratam de mulheres) que gritam inexplicavelmente à meia-noite e só são silenciadas pelas luzes dos refletores.
Em função do enredo psicológico, há vários cenas que configuram complicação (ou desenvolvimento). Sabemos que há um cuidadoso trabalho de seleção do autor, que, no entanto, se apresentam como flashes do passado que vem à tona de uma maneira quase aleatória. Podemos enumerar os momentos de desenvolvimento do enredo:

Primeiro parágrafo: as mulheres que gritam, que já mencionamos;
a desavença com o oficial turco;
Terceiro parágrafo: as mulheres com filhinhos mortos;
a velha;
quarto parágrafo: novamente, a desavença com os turcos;
quinto parágrafo: as “coisas lindas” que havia no porto (ironia);
sexto parágrafo: os gregos (ironia).

O conjunto compõe um quadro horripilante. Para cada momento, um clímax, não é verdade? Poder-se-ia, no entanto, discernir um maior, que marca o tom do conto, digamos assim, o paroxismo, a catarse. Veja, no quinto parágrafo, quando o narrador fala de “uma porção de coisas lindas a flutuar nele (porto)”, em seguida apresenta a situação antitética na frase: “Foi a única época da vida em que eu tive pesadelos”. Segue-se uma sucessão de horrores, numa dolorosa ironia que, por paradoxal, perturba o leitor, configurando o clímax.
A ironia não acaba aí e, consequentemente, nem o clímax. Apresenta, nosso narrador, os gregos como “boas praças” para, em seguida bombardear-nos com suas atrocidades. E finaliza enfático: “Palavra que foi um negócio agradabilíssimo”. Quase que podemos caracterizar esta colocação como um desequilíbrio emocional de um neurótico de guerra. Poderíamos dizer que o desfecho está no próprio clímax maior, figurando o parágrafo anterior como um anti-clímax.
Deixamos em suspenso a questão do conflito. Por se tratar de um enredo psicológico, o conflito se configura na própria inquietação do Narrador-protagonista que não consegue adormecer suas lembranças, o que é plenamente justificável, diga-se de passagem.

Personagem complexa ou, se preferirem, redonda (utilizando a caracterização de E. M. Forster) o nosso protagonista. Assim concluímos pela multiplicidade que se afigura sua personalidade: a ironia coruscante, que já nos referimos, contrapõem-se, por uma lado à tentativa de indiferença ao horror; por outro, a uma preocupação com os bons relacionamentos profissionais, como demonstra na saída diplomática com o oficial turco. É claro, que uma personalidade é um todo. O personagem convive com suas contradições, fazendo do completo da sua personalidade um quadro da maior complexidade. A maneira como escamoteia o olhar direto para o que o atormenta é outra de suas características. Falamos do “ele” : “Era estranho, disse ele”, “As piores, disse ele”. Quase no final do conto a personagem fala de um “você”. O que podemos concluir? Veja se vocês concordam comigo: nosso personagem, por um lado, guardando consigo lembranças perturbadoras das quais não consegue se libertar, e, por outro, não as assume como preocupações diretas suas, cria um “ele” que desperta as trágicas reminiscências. Só no final do conto, rompida a barreira inicial de encarar sua dor, o personagem se dirige diretamente ao interlocutor “você”. Ora, isto é próprio de uma idiossincrasia do americano típico, mas aprofundaremos esta questão oportunamente.
Protagonista, sem dúvida. Resta a questão: herói ou anti-herói? Que maçada, não é? Não falemos aqui em fraqueza de caráter, ou características atávicas, ou inferioridade congênita ou coisas que as valham. Pensemos no fenômeno humano. No homem esmagado pelas adversidades, alienado pelas circunstâncias (reificado, como preferia Lukács), que busca trabalhar sua consciência e alcançar uma totalidade possível num mundo que já não abarca. Volto a perguntar: herói ou anti-herói? Herói problemático (mais uma vez lembrando Lukács), podemos configurá-lo como anti-herói. Mesmo porque, na nossa contemporaneidade não há mais lugar para heróis.
Os antagonistas estão por toda parte, nem vale a pena enumerá-los. O ambiente, principalmente, apresenta-se como o maior antagonista, mas discutiremos isto oportunamente.

O enredo psicológico no mais das vezes implica tempo psicológico. Temos, neste conto, a ordem natural dos acontecimentos alterada, por um lado, pela idiossincrasia emocional do personagem; por outro, pelo condensação do tempo que o gênero conto promove. Daí a fragmentação, o estilhaçamento dos acontecimentos, gerando a rapidez dos relatos e a banalização desses conflitos próprias aos momentos de guerra.
O tempo da enunciação? Como sabê-lo. Trata-se, sem dúvida, de um momento posterior aos acontecimentos já que o conto são lembranças: “Você se lembra”. O tempo do enunciado? Imediatamente depois da Primeira Guerra. Portanto, um flashback e, neste caso, o tempo do enunciado não “alcança” o tempo da enunciação.

Os fatos que correspondem ao conto referem-se às turbulências que então ocorriam nos Balcãs e no Oriente Médio. Como sabemos, a função do ambiente, como do tempo, é das mais esclarecedoras (verossimilhança). Mesmo sem nenhuma informação adicional sabemos que estamos diante de soldados, pessoas habituadas aos horrores da guerra.
Das funções do ambiente [5], podemos concluir que este se apresenta em conflito com os personagens. Ora, pelo simples fato de se tratar de uma guerra. Foi o ambiente responsável por tudo e que desencadeou o flashback, com as lembranças terríveis. É claro que são as personagens que fazem os ambientes, portanto, estas são as antagonistas no sentido último da questão. Mas neste pequeno organismo fechado (o conto) o que o transcende não nos interessa.

Narrador-protagonista, em primeira pessoa. Predomínio da Cena. Discurso indireto na maioria das vezes. Este último parece-nos uma opção das mais significativas. Veja que discurso direto só mereceu o ajudante de artilharia (americano também), sendo o único personagem, que por alguns momentos, divide a cena com o protagonista:

"Chamei-o e disse:
_ Isso é só porque você pode ter falado com qualquer oficial turco.
_ Não falei com oficial nenhum.
_ Não duvido - disse eu - mas é melhor que você vá para o navio e não volte à terra até o fim do dia".

E vejam o tom de credibilidade que ele recebe. O oficial turco, por sua vez, não merece voz. Quanto as mulheres do cais, também o tratamento é diferenciado:

“Elas disseram: ‘Quer dar uma olhada nela, seu moço?’ Portanto, tive de olhar para ela”.

Além do protagonista não se dignar a trocar palavras, elas não mereceram os expressivos travessões. É como se, figurativamente, as aspas as prendessem, isto é, prendessem suas lamentações e dores.


Deixamos uma questão em suspenso no decorrer desta pequena análise, a saber, “a idiossincrasia do americano típico”. É sabido do caráter patriótico e nacionalista deste povo em detrimento de uma certa impermeabilidade aos dissabores dos outros. Este conto, se, por um lado, demonstra isto, inclusive pela opção discursiva, como verificamos; por outro, mostra um ex-soldado atormentado, um homem que sofre e tal sofrimento fica configurado naquela ironia despropositada. Hemingway pretendeu, podemos concluir, um olhar crítico, alfinetando a alma de seus compatriotas, arrancando-lhes as máscaras e expondo-lhes as contradições. Não podia ter sido mais feliz, inclusive, pela conveniente escolha do foco narrativo.

Fevereiro de 1999.

BIBLIOGRAFIA E NOTAS

[1] HEMINGWAY, Ernest. Contos. 3.ª ed. Trad. A . Veiga Fialho. Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 1976. p.7-9.
[2] Mustafá Kemal, importante figura pública da Turquia.
[3] ARRUDA, José Jobson de A. História moderna e contemporânea. São Paulo: Ática, 1983. p. 271.
[4] LEITE, Lígia Chiappini Moraes. O foco narrativo. 3.ed. São Paulo: Ática, 1987. Série Princípio, 4.
[5] GANCHO Cândida Vilares. Como analisar narrativas. São Paulo: Ática, 1991. Série Princípios, 207.

Dante Gatto
Professor da UNEMAT (Universidade do Estado de Mato Grosso)
gattod@terra.com.br
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