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Artigos-->Genoma humano: somos pouco mais que moscas? -- 21/02/2001 - 18:56 (Félix Maier) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
"A condição humana é mais do que o número de genes"





Sob este título, Matt Ridley publicou um interessante artigo no Daily Telegraph, no dia 13 de fevereiro de 2001, ainda sob os ecos da reação do público frente à apresentação de alguns resultados do Projeto Genoma Humano. Abaixo, segue a tradução que fiz do artigo de Ridley.





"Em todo o mundo, terapeutas relataram ontem (12 Fev 2001) uma onda de pânico e depressão enquanto se espalhou que a espécie humana tem somente 30.000 genes. As pessoas lamentaram abertamente nas ruas, humilhadas pela idéia de que nós temos somente duas vezes mais genes que as moscas e os vermes, e um pouco mais do que o agrião.



Desde que Copérnico reduziu nosso planeta a um simples satélite do Sol, ou que Darwin rebaixou nossa espécie à família do macaco, não havia um lembrete tão simples de que não há nada de especial no ser humano. Apenas um pouco mais complexo que o agrião!



Se a quantidade de nossos genes é humilhante, a qualidade não parece ter muito mais importância. Os cientistas relataram ontem que aproximadamente 60 por cento de nossos genes são cópias diretas daqueles usados por moscas, vermes, fermento e bactérias: objetos inventados por nossos antepassados comuns e usados desde então. Quando soubermos como são os genes de um rato, o número de genes exclusivamente humanos diminuirá ainda mais.



Por exemplo, os genes "peões" que são utilizados para formar a estrutura básica do embrião humano são reconhecidamente os mesmos utilizados pelas moscas para a mesma finalidade. Eles são, de fato, tão similares que os genes humanos “peões” podem substituir genes “peões” da mosca para ela crescer normalmente.



De maneira semelhante, e mais surpreendente ainda, os 17 genes que nós “ligamos” todas as vezes para recordar algo são os mesmos que as moscas utilizam para a mesma finalidade. Parece que nós herdamos ambos os jogos de nosso último antepassado comum, uma criatura insignificante conhecida como "verme arredondado", que viveu provavelmente há mais de 600 milhões de anos.



A natureza – isto é evidente – é um economista cuidadoso. Uma vez ela tenha inventado um truque novo, raramente o rejeita. Na mais notável semelhança de tudo, apenas um código genético básico - o dicionário que traduz o DNA em proteína - é bom o bastante para todos os seres vivos, um fato que revela que todos os seres vivos no planeta compartilham de um único antepassado comum.



Pior ainda. Anunciou-se ontem que, dos genes que nós vertebrados não compartilhamos com as moscas e o fermento, um grupo – de 223 genes – foi emprestado diretamente das bactérias. Parece que nossos antepassados vertebrados fizeram algum tipo de sexo com bactérias e incorporaram alguns de seus genes em nosso próprio genoma.



Esta chamada transferência horizontal de genes entre espécies era provavelmente comum entre micróbios nos primeiros dias da vida na Terra, mas ninguém esperava encontrá-la nos animais. Isto incidentalmente coloca um obstáculo aos que se opõem à modificação genética, que agiram para impedir que se rompesse a “barreira das espécies". Se a natureza não respeita a barreira das espécies, por que deveria a Monsanto respeitar? Pronto para mais humilhação? Os 98 por cento do genoma que não consistem propriamente de genes são largamente emprestados por vírus e tipos ainda mais simples de parasita “digital”, chamada de “transposons”.



A sinfonia humana, em outras palavras, consiste quase que inteiramente de velhos sons roubados de outros trabalhos. Originais nós somos, mas não somos feitos de peças originais. De qualquer forma, a originalidade é um produto com excesso de oferta no mundo natural: cada espécie é original.



Um momento de reflexão, entretanto, diminui a humilhação. Se a mídia puder encontrar um único ser humano cuja percepção da condição humana foi realmente afetada pela notícia anunciada acima em detalhes, então eu comerei meu chapéu. Trinta mil é ainda um número grande: há mais genes humanos do que espécies de mamíferos, de pássaros, de répteis e de anfíbios juntos. Mas nossa auto-estima não se baseia na expectativa de que teríamos 100.000 genes, mas em 10.000 anos de aprendizagem e de realizações - nas realizações de Sócrates, de Leonardo da Vinci, de Shakespeare, de Einstein.



Nesses últimos dias, alguns comentaristas fizeram tentativas heróicas para descobrir a mensagem oposta - que a pouca quantidade de genes humanos salva a excepcionalidade humana. Tão poucos genes não podem determinar nosso comportamento. Por isso – continua o argumento –, o ambiente deve determinar o comportamento e - oba! – existe o livre arbítrio.



Isto é um argumento “non sequitur”. Se os animais com poucos genes tiverem um livre arbítrio maior do que os animais com mais genes, as moscas e as bactérias são mais livres do que nós. Adicionalmente, o determinismo ambiental não é menos determinista do que o determinismo genético.



O livre arbítrio não se encontra em seres à mercê do meio ambiente, mas no fato de que nossos ambientes e muitos de nossos genes estão também à mercê de nosso comportamento. Os genes da aprendizagem e do comportamento que compartilhamos com as moscas, por exemplo, são ativados por outras ações no cérebro vivo. São marionetes, não cordas de manipulação.



A procura por aquilo que faz um ser humano ser um ser humano continuará, mas parece agora improvável que a seqüência crua do genoma irá revelar algo. Para termos certeza, o genoma do chimpanzé (que sabemos ser aproximadamente 98,5 por cento igual ao nosso) revelará provavelmente algumas diferenças-chave que lançariam um pouco de luz em como nós nos tornamos diferentes de nossos parentes mais próximos. Mas isto poderá dizer-nos muito pouco sobre aspectos interessantes - linguagem, por exemplo, ou autoconsciência.

Quando o genoma de um cão for lido - e na última semana uma empresa anunciou que estava interessada em fazer a leitura do genoma do cão em seguida – a genética que está por de trás das diferenças comportamentais entre raças diferentes de cães será fácil de identificar. Produzir provas de que os genes esclarecem a agressividade de um rottweiler, a docilidade de um spaniel ou o instinto de agrupamento de um collie. Identificando esses genes, nós podemos ir à busca de seus equivalentes humanos, e poderiam fornecer uma maneira para compreender o cérebro humano.



Mas os resultados apresentados ontem sugerem que ambos os projetos podem se tornar decepcionantes. Os dados digitais do genoma em si podem não ser suficientemente reveladores. A chave para compreender nossa receita terá que esperar pelo resultado de uma maratona científica adicional, chamada de proteoma. Para, em um aspecto, saber que somos muito mais sofisticados do que moscas. Nós fazemos muito mais "acasalamentos alternativos" do que moscas: isto significa fazer um exame de seções diferentes de genes diferentes e recombinando-os de diversas maneiras.



Assim, com nossos 30.000 genes, nós manufaturamos provavelmente umas 300.000 proteínas diferentes. Até que “o acasalamento alternativo” seja compreendido, a originalidade do ser humano permanecerá provavelmente tão misteriosa quanto sempre foi."



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