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Contos-->Série Contos de Fadas - A verdadeira história do principe-sa -- 25/05/2004 - 15:48 (MARIA PETRONILHO) Siga o Autor Destaque este autor Destaque este Texto Envie Outros Textos
Série Contos de Fadas - A verdadeira história do principe-sapo do séc XXI






Kátia Alexandra Sofia da Silva retirou sem sombra de pejo aparte de cima do
seu biquini e esparramou-se na relva, de modo a ser atingida pelos
respingos, já que era tarde tardezinha e o Manel Jaquim jardineiro, regava
o toro

de uma ameixoeira, que o empresário da construção civil, Silva pai, não era
de desperdiçar terreno nem despesas com coisas que não dessem fruta ou, ao
menos, umas hortaliças.

O Caldo verde da D. Birgolina tinha fama, feito com as tenras couves que
adornavam as alamedas.

Boné para a nuca, testa meio calva meio grisalha reflectindo o fulgor do sol que declinava,
o Manel Jaquim, declinado dos ossos e de outras miudezas de que a gente não
fala, nem olhou para a moça, que se virava e revirava na toalha turca dum
lado e do outro aveludada.

Olhava enfastiada os restos da revista Caras que folheara,molhando a ponta
do dedo mindinho na ponta da língua, ficando as páginas coladas com uma
mistura de saliva e cola... nada a fazer senão mirá-las,remirá-las, e
arrancá-las, lançando-as por cima do ombro, que a brisa se encarregava de
levá-las a passeio para onde não a incomodassem..

Por isso, aproveitavam a frescura das águas do tanque a que chamavam
Piscina, quando se reuniam lá em casa as Tias,

modelos, príncipes artistas... vogavam deliciados, que estavam habituados a
frescuras.

Ela, Kátia Alexandra Sofia, à água... só vê-la!

Ou senti-la morninha, debaixo do chuveiro de uma das três casas de banho da moradia
recoberta de azulejos.

Os banhos de sol junto da Piscina eram pretexto para se apresentar bronzeada
nas festas, dizendo que acabara de chegar de férias nas Caraíbas.

Rebolava-se a inconsciente adolescente, impaciente vá-se lá saber porquê, os
olhos postos no ondear das páginas...

Eis senão quando algo no meio do tanque, de fundo pintado de azul turquesa,
começa a emergir, a emergir, a emergir... e os olhos castanhos,delineados,
de Kátia a aumentar, a aumentar, a aumentar...

Sacudiu a loiríssima cabeleira escadeada por três vezes ebenzeu-se

- Ai! Então não querem lá ver que o sol me fez mal?!

Da água, uma cabeça, depois uns ombros musculosos, um tronco de atleta,
abdominais firmes, foram surgindo... a Katia ia-se soerguendo... seguindo o
lento caminhar do jovem que passo a passo se encaminhava para o bordo, o
agarrava com as mãos poderosas e se içava para fora de água.

Pisou a relva.

Kátia olhava hipnotizada.

O Manel Jaquim, depois interrogado, jura ter visto um sapo,apenas um sapo.

- Juro pela minha mãezinha que Deus lá tem, ó Patroa!

E cuspia nas palmas nas mãos, que limpova aos fundilhos das calças de
bombazina.

... Mas a Kátia viu um jovem aproximar-se, inclinar-se suavemente sobre ela,
olhando-a bem no fundo nos olhos, a boca em botão de rosa,pedindo um beijo.

Em pasmo, retroflectida, a cabeça em pé-de-vento, Kátia Alexandra Sofia da
Silva, esticou-se toda, seios à vela, que importava... nem se lembrava quem
era nem onde estava!...A proximidade foi um filme em câmara lenta... um
momento mágico, um parar do tempo

- Ai que nojo!

Num repente, agarrou a toalha meio-de-veludo e esfregou, obaton dos lábios,
repugnada.

- roaaac - roaaac - roaaac ...



Tanto um quanto outro desataram aos saltos, desatinados.

A moçoila desatou aos berros.

O Manel Jaquim deitou a mangueira ao chão e desatou a fugir caminho abaixo,
metendo a mão no bolso traseiro das calças, atropelando as couves, sem
atinar com o telemóvel muito menos com o número do serviço nacional de
emergências.

De dentro, a D. Birgolina acudiu de facalhão em punho, que estava a cortar o
chouriço.

Passada hora e meia vieram os polícias, os bombeiros a protecção civil.

Postados em fila no sofá da sala, foram interrogados por repórteres
cépticos, os únicos que colocaram algumas dúvidas na veracidade dos
factos narrados.

A história foi notícia de abertura no Notiário da Noite do canal oficial da
TV.

Uma fotografia da bela desnuda saiu nas páginas centrais da revista Caras.

O Silva, todo engravatado, compareceu nos estúdios ao lado da filhinha, nas
entrevistas.

Foi abordado por uns senhores graúdos do mundo do futebol,discretos e
circunspectos porque sim mais que também, pois lhes sobraram uns materiais
da construção dos estádios e que poderiam fazer... o que fizeram.

Venderam a moradia e compraram um palacete na Linha do Estoril,com piscina
verdadeira, com filtros e tudo, onde se dão as melhores festas da Socialite,
com champanhe e pastelinhos de bacalhau.

Nadam em euros e dão grandes sardinhadas aos domingos.



... E agora, já acreditas em contos de fadas?



Lisboa, 25/4/2004

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